Do Outro Lado

2 Rostos Amigáveis


Que sensação esquisita, sair de casa pela segunda vez foi ainda mais triste que à um ano, e eu não tinha mais minha tribo para me ajudar, estava sozinho, não me lembrava muito bem das ruas e não podia pedir informações, mas o mais estranho era que eu tinha certeza de que estava morto.

Assim que passei pela porta, vi o carteiro indo em direção à casa dos meus pais, ignorei e segui meu rumo. As ruas estavam muito vazias, de vez em quando via uma pessoa caminhando, mas obviamente ninguém me via. Lembrei-me do caminho para o centro, decidi e andar até lá, sabia que ia me sentir melhor.

Eu conhecia muitos atalhos para chegar ao centro, por cima dos telhados, entre os becos e até pelo esgoto, mas preferi caminhar, ser invisível estava sendo legal. Muitas pessoas têm hábitos estranhos quando acham que ninguém está olhando. Vi garotas cantando sozinhas, e um senhor muito esquisito que não parava de contar os dedos da mão, até vi um casal de mendigos masturbando um ao outro enquanto procuravam um beco ou uma moita para terminar a brincadeira, isso foi muito difícil de retirar da cabeça, especialmente porque eles eram um casal muito feio.

No meio da minha espionagem reparei numa coisa, um gato todo branco estava olhando diretamente para mim, ele tava sentado em uma lata de lixo me encarando como se tivesse algo para me falar, fiquei realmente assustado, sempre tive um estranho medo de gatos, mas ainda assim eu decidi me aproximar. Cheguei a um metro do animal, ele continuava me encarando, dei mais alguns passos e ele mal se movia, tentei bater o pé para afugentá-lo e nada, então dei a volta na visão dele e percebi que seus olhos não me seguiam mais, eles nunca seguiram, ele estava somente olhando para o beco no outro lado da rua, acho que viu um rato ou algo do tipo, pois ele pulou e correu na direção do beco perseguindo qualquer coisa. Essa situação conseguiu me deixar mal, mesmo não gostando de gatos eu gostaria de poder acariciá-lo.

Já estava a somente duas quadras do centro quando vi algo que realmente me assustou, no outro lado da rua eu o vi, um homem um pouco mais baixo que eu – tenho um metro e setenta – usava umas roupas meio antigas para a época, uma calça bege com um cinto de couro e fivela prateada na altura do umbigo, isso tudo por cima de uma camisa branca de mangas compridas e botões prateados, tinha uma pequena flor amarela presa na altura de seu peito, até usava chapéu e um daqueles sapatos brilhosos que usavam antigamente. Mas o mais estranho de tudo era seu rosto, todo vermelho, parecia carne de geladeira, dava pra ver algumas veias e músculos, lembrei-me de uma aula de biologia que meu professor levou a cabeça de um boneco que simulava uma cabeça humana sem a pele Fiquei assustado pra caralho, ainda bem que estava na outra calçada, me lembrei na hora de assassinos de filmes de terror.

Continuei andando sem parar de encará-lo na outra calçada, ele andava na direção oposta à minha, então não demorou muito para eu ter de andar de costas para continuar olhando para ele, acho que ele percebeu, pois virou a cabeça para traz e olhou diretamente para mim e parou no mesmo instante, me perguntei se ele me via, até que uma mulher saiu pela porta de casa com um cachorro na coleira, passou direto por ele sem encarar nem nada, caralho, ele também não era visto, então fiz o que qualquer outra pessoa de mente normal faria, comecei a correr como uma criança indefesa.

Corri por duas quadras inteiras até chegar ao centro, estava muito cansado, foi um alívio poder parar um pouco, chequei se não estava sendo seguido, não estava. Me esqueci do ocorrido por um momento ao reaver o centro, fiquei hipnotizado pelas luzes que não via a certo tempo.

Quando eu disse “centro” vocês provavelmente pensaram em um local gigantesco, digno de uma New York, mas não, a cidade onde meus pais moravam era bem pequena e não era nem tão conhecida. Esse tal “centro” era na verdade um conjunto de três rotatórias interligadas em linha reta com várias lojas nas calçadas.

No meio de cada rotatória tinha uma estátua de bronze. Na primeira delas tinha a estátua de um casal sentado um apoiado nas costas do outro, na rotatória central, onde eu estava, tinha a figura de um cachorro ao lado de um santo que segurava uma cruz apontando-a para frente, e não conseguia me lembrar da estátua da terceira rotatória, mas eu nunca soube o significado de nem uma delas, mesmo tendo uma plaquinha no chão em frente a cada uma que explicando sua devida história, mas eu nunca tive o interesse de descobrir.

Decidi subir no telhado de uma padaria perto dali, mesmo ela tendo dois andares não demorou muito para subir, de lá de cima dava para ver um pouco da terceira estátua, tinha um cara com uma águia no braço.

Todas as rotatórias eram enfeitadas com flores, mas não era essa a visão que eu procurava, voltei minha atenção para as luzes refletidas pelos vidros das lojinhas. Fiquei olhado cada detalhezinho, desde as lojinhas de café que já estavam abertas até os prédios comerciais no horizonte.

As cidades vizinhas eram bem distantes, na verdade, tinham alguns quilômetros de campos verdes até que fosse possível ver os prédios mais próximos.

Fiquei olhando ali por quase uma hora, em todo o momento eu pensava na Isabela, minha littlesister, lembrava de um dia que a levei até aquele telhado, demorou um pouco para conseguir subir ela com segurança, mas valeu à pena. Fiquei descrevendo como era a vista, a cada fim de frase ela me fazia alguma pergunta bem difícil de responder, tais como: “O que é cor?”, “Como é a luz?” ou “Não é difícil ouvir e enxergar ao mesmo tempo?”, eu sempre me enrolava ao tentar explicar, acho que ela meio que fingiu que entendeu minhas explicações e ficou curtindo enquanto eu falava o quão bonito era aquela vista.

Depois de um momento de reflexão decidi ir para outro lugar. Me virei e tomei um susto, era aquele homem bizarro, estava a alguns passos de mim, ele me encarava com aquele rosto aterrorizante, dei um passo para traz sem me lembrar que estava na beirada do telhado, senti meu corpo levitando e o vi estendendo o a mão para tentar me segurar, mas era tarde, ouvi o som do estalo de meus ossos ao bater no chão e tudo ficou escuro.

Abri os olhos como se tivesse somente desmaiado, estava deitado em um assoalho de madeira, me sentei e olhei em volta, era um bar, tinha um balcão com bebidas e banquinhos em volta, umas dez ou mais mesas e cadeiras bem bonitas, quase todas estavam ocupadas por pessoas bebendo e conversando.

Fiquei de pé e algumas pessoas na mesa mais próxima pararam de conversar e ficaram me encarando um pouco. Uma moça na mesa levantou seu copo de alguma bebida, parecia uísque, como gesto de saudação, mas eu não respondi, ela se levantou e andou até mim.

Bem vindo! – ela falou com uma puta normalidade, parecia que era algo rotineiro – As pessoas daqui às vezes esquecem que estamos no mesmo barco, mas senta aí, se apresenta pro pessoal.

Ela era bem bonita, e diferente, bem baixinha e com sardas no rosto, olhos escuros e um cabelo ruivo na altura das costas. Ela tinha um visual muito irlandês, usava um vestido verde com bolinhas brancas e um batom, também verde. Percebi que fiquei um longo tempo reparando nela, ela ficou meio sem graça.

— Desculpa, não queria encarar. – falei quase sem sair som, então limpei a garganta – Acho que perdi o costume de falar.

Ela sorriu e me indicou à mesa que estava sentada com mais três pessoas, fui andando até lá, mas sem olhar muito para meu caminho, ainda estava olhando para as pessoas conversando, todos tinham rostos amigáveis para mim.