Do Outro Lado
3 O Bar
Sentei-me na mesa e logo me ofereceram uma garrafa de cerveja, a melhor que já tomei na minha vida, pena que tive que estar morto para experimentar.
— Esquisito! – a garota ruiva que me convidou para sentar foi quem puxou assunto – qual o seu nome?
— Mark – Fiquei meio desconfortável pelo apelido, mas não reclamei.
— Bom, Mark, eu sou Diana – ela ia prendendo o cabelo no improviso enquanto falava, mas não parecia levar muito jeito para isso – Essa aqui é a Verônica – Ela apontou para uma garota gordinha, de pele bem clara e cabelo liso bem escuro, tal como os seus olhos.
— Oi... – quando ela me cumprimentou percebi o quão sua voz estava triste e arrastada, fiquei com uma puta curiosidade de saber o porquê da tristeza, mas Diana continuou a me apresentar o pessoal.
— Este aqui é o Lucas – julguei ser um cara legal, ele era negro, aparentava ser bem alto e tinha o cabelo cortado num estilo militar. Ele não falou nada, só ergueu a garrafa de cerveja no alto num cumprimento mudo –, e essa é...
— Lola, muito prazer. – Lola decidiu se apresentar sozinha, ela tinha um jeito muito orgulhoso e um visual Punk, cabelo tingido de azul-escuro e raspado no lado direito da cabeça. Tinha uma cicatriz no rosto que cortava do canto do olho direito até o começo da boca – Como foi que você morreu?
Acho que a cerveja estava colocando minha cabeça no lugar de novo, estava começando a me sentir melhor e as memórias foram voltando aos poucos.
— Caramba! – minha cabeça doeu repentinamente, levei a mão até o lado dela esperando que se fosse espantar a dor – Não foi um sonho, eu realmente morri?
— Sim, morreu, do que você lembra? – Lola insistiu na pergunta.
— Não me lembro de quase nada. – respondi sem ter muita certeza – Pensando bem, está tudo muito vago na minha cabeça.
— É bem raro alguém não conseguir se lembrar de algo por aqui – Lola parecia não ter acreditado no que tinha acabado de contar – muitos aqui só fazem choramingar o tempo todo por coisas que fizeram ou deixaram de fazer em vida. Não se lembra de nada mesmo?
— Poucas coisas – Estava me esforçando para lembrar – Eu tinha uma relação bem conturbada com meus pais, mas era muito apegado com minha irmã mais nova, até que eu estraguei tudo quando me misturei com um pessoal de uma gangue, ou tribo, como a gente chamava. Acho que tinha meus vinte anos na época...
— Qual era o nome de vocês? – Foi Lucas, o caladão, quem me fez essa pergunta.
— Trash – respondi.
— Interessante, eu fazia parte de uma tribo também, The Box, lembra-se dela?
— Lembro – Quando ouvi Lucas falar que era de uma tribo eu fiquei torcendo para que fosse de qualquer uma menos da The Box, poderia ser da D’anttony, Mímicos, Cruz, preferia até que fosse da NPH, que eram bizarros para cacete – Então nós éramos rivais em vida.
— Não se preocupe, tudo que aconteceu no outro lado fica no outro lado. – Quando ele falou isso eu me senti aliviado, pois a ultima coisa que queria naquele momento era alguém para brigar – E sem falar que eu nem me lembro de ter te visto alguma vez, o que você fazia?
— Gente! – Diana interrompeu – Não da para explicar um pouco melhor?
— Não tem muito para esclarecer – comecei a explicar –Nova Cruz é uma cidade grande e até que bem desenvolvida, mas tem essas gangues que criminalizam a cidade. Vandalizam, roubam, traficam e brigam entre si por controle, eu fazia parte de uma delas e o Lucas fazia parte de uma rival à minha.
— Uau! –Diana ficou bem impressionada com o que eu falei. Na verdade, Lucas foi o único na mesa que não ficou com cara de assustado.
— Mas eu nunca matei ou roubei ninguém – Expliquei – eu era grafiteiro, pichava usando stencil.
— E você, Lucas, já matou alguém? – Lola perguntou. Estranhei a pergunta, achei que eles já se conheciam a algum tempo.
— Sim – respondeu friamente – não me orgulho disso mas já matei algumas pessoas.
— Podemos, por favor mudar de assunto? –Diana não estava achando a conversa muito agradável – Continue falando oque você se lembra.
— Não tenho muitas outras coisas na cabeça. Lembro que viajava para Nova Cruz por semanas, para espalhar o nosso nome pelas paredes, e depois voltava para casa.
— Não lembra como morreu? – Lola me perguntou.
— Sei que fiz alguma merda, tive até que fugir de casa por algo que fiz, mas não sei exatamente o que. É muito estranho não se lembrar disso? Vocês sabem como morreram?
— Eu não me lembro também – Diana respondeu – Nem me lembro da minha família.
Fiquei muito triste ao ouvir aquilo, nunca fui um bom filho nem nunca me esforcei para isso, mas ainda era bom saber que tinha alguém em casa que se preocupava comigo.
— Eu tive uma morte bem normal – Lola fez uma pausa para tomar um gole de cerveja –tinha saído com uns amigos para beber, logo depois da faculdade. E quando estava indo para casa fui atropelada.
— Você morreu na hora ou ainda a levaram para o hospital? – Diana perguntou curiosa.
— Não, morri com o impacto. Só me lembro de ouvir o som do motor do carro se aproximando, virar a cabeça, ver seus faróis se apagando.
— E você, Lucas, se lembra da sua? – perguntei.
Lucas hesitou por um instante. Então ele afirmou com a cabeça. Um estranho silêncio surgiu na mesa enquanto todos olhavam para ele com expectativa. Eu estava pronto para algo ruim.
— Eu estava no aniversário de um parceiro da The Box, toda a tribo estava lá, até meu irmão mais novo. – ele começou.
— Seu irmão também era da The Box? – indaguei.
— Ele tinha acabado de entrar, o nosso grafiteiro mais jovem – ele me respondeu, apontando a coincidência – Nós curtimos para cacete naquela noite. Bebemos, saímos para vandalizar, chamamos umas stripers e eu cheirei cocaína pela primeira e ultima vez.
— Isso você nunca nos contou – Lola interrompeu demonstrando surpresa.
— Termine a história – Diana revirou os olhos, pedindo silêncio a Lola, talvez estivesse mais curiosa do que os outros.
— No meio da madrugada – Lucas continuou – eu ouvi alguém andando no telhado, podia ser um gato ou um ladrão. Eu não estava pensando. Peguei minha arma e fui dar uma olhada. Eu estava tão tonto, quase não conseguia ficar em pé. Quando abri a porta para o terraço do prédio eu vi um cara encapuzado correndo na minha direção. Eu não pensei duas vezes, cara, eu empunhei a arma. Dois tiros.
O silêncio se prolongou estranhamente desconfortável e ansioso enquanto Lucas precisava de uma pausa.
— Está tudo bem, cara, a vida tem dessas merdas... – Lola sorriu com ironia antes de esticar seus pés sobre a mesa.
— Continue, Lucas. – Diana precisou incentivá-lo novamente. – Por favor...
— Eu não me lembro de grandes detalhes.Talvez eu tenha desmaiado ou algo do tipo. Quando acordei, não sabia o que tinha feito. Eu vi... vi bem diante de mim, o homem... o menino em quem eu atirei. Estava de bruços, logo ali, no chão. – Seus dedos estavam estranhamente trêmulos como se a visão inda perturbasse sua mente – Estava de bruços, eu precisei virá-lo para descobri a merda que fiz, cara... era o meu irmão – Ele fez uma pequena pausa para beber mais um pouco, percebi que foi somente uma tentativa de não chorar.
— E então você... – Tentei presumir.
— Peguei a minha arma do chão e coloquei contra a minha cabeça.
— Bang... — Lola resumiu.
— É...
Houve um silencio na mesa, não havia mais comentários a serem feitos. Um peso estava sobre os nossos ombros. Me senti ligeiramente arrependido de tê-lo perguntado isso, talvez certas coisas não devessem ser desenterradas daquela forma. Abaixei minha cabeça, mudo.
— Bem... – Lucas quebrou o silêncio da mesa ao mesmo tempo em que se levantava da cadeira – Enquanto vocês curtem esse momento de tristeza, eu vou pegar mais cerveja. Mais alguém quer?
Todos na mesa levantaram os braços concordando, todos menos uma pessoa, Verônica. Aquela garota ficou em silencio durante toda a conversa, até tinha me esquecido dela, decidi puxar assunto.
— Verônica! – Chamei sua atenção – Esse é o seu nome, não é?
— Pode me chamar de “Vê” – Ela abriu um sorriso fofo quando respondeu – Não gosto muito do meu nome.
— Como quiser.
Lucas voltou com quatro garrafas de cerveja e distribuiu para o pessoal.
— Vê, você não bebe? – Perguntei.
— Não, estou tentando perder alguns quilinhos.
— Ela nunca foi muito comunicativa. – Diana explicou para mim.
— Percebi. Você também era tímida no outro lado?
— Sim. Nunca tive muitos amigos.
— E você se lembra de como morreu? – estava com um pouco de medo de estragar o clima da mesa mais uma vez, mas perguntei mesmo assim.
— Sim, mas não tem muito para contar – Ela se debruçou na mesa, apoiando o queixo em cima dos braços – Eu estava numa dessas dietas malucas de não comer nada além de algodão molhado. Achei que estava indo bem, até que alguns meses depois eu fiquei bem doente e me recusei a ir ao médico. O resto vocês podem imaginar.
— Uau! – Lola falou com deboche – Até a gorda tímida contou a história dela, vocês dois vão continuar mentindo para não contar a de vocês?
Vê ficou com um rosto bem triste com a ofensa de Lola, mas não disse nada, somente se encostou ao banco.
— Mentindo? – Diana perguntou irritada.
— Sim, mentindo – Lola respondeu com um pouco de deboche na voz. Logo percebi que uma discussão iria começar.
— Por que eu iria mentir sobre isso?
— Me diz você. Todo mundo nessa merda de lugar se lembra perfeitamente da vida, Lucas mordeu uma bala, Vê também se matou, eu morri num acidente de carro... Por quê só vocês ,os dois especiais, não se lembrariam? Mentirosos, para mim.
— Estou falando a verdade, e todo mundo sabe muito bem quem é a mentirosa nessa mesa – Diana tinha a voz bem pesada ao dizer isso.
— Você deve ter feito algo muito horrível ou muito burro para negar com tanta vontade – Lola continuava batendo na mesma tecla.
Diana desistiu de argumentar, ficou calada enquanto terminava sua cerveja. Todos na mesa pareciam já estar acostumados com essa discussão entre as duas, nem tentaram apaziguar os ânimos.
— Então... – Lola se virou para Vê como se já tivesse completado a missão de irritar Diana – Como uma gorda se mata de fome?
Nem houve tempo para ouvir o que Vê tinha a dizer, pois a garrafa de Diana foi certeira no rosto de Lola, que foi ao chão no mesmo instante.
Diana se levantou da mesa e se afastou com raiva em quanto Lucas foi socorrer a Punk caída no chão. Outras pessoas no bar se levantaram para ver o que tinha acontecido.
Lucas teve que retirar os cabelos azuis da frente do rosto da garota para revelar um grande calo, um pouco à cima de seu olho direito. Tinha uma roda de quinze pessoas em volta da nossa mesa, muitas perguntando o que havia acontecido, todos curiosos. Sempre odiei ficar rodeado de pessoas, por isso não demorei muito para sair de lá.
Fui até o balcão para pegar mais uma cerveja e vi os cabelos ruivos de Diana, estava sentada em um dos bancos de madeira enquanto bebia um copo de uísque.
— Onde posso pegar um copo? – Perguntei para puxar assunto.
— Em baixo do balcão.
Dei a volta e tive que levantar uma pequena cancela de madeira para passar para o outro lado.
Peguei um dos copos em meio ás dezenas em baixo do balcão, juntamente, peguei um pano para retirar um pouco da poeira que repousava no cristal.
— Belo arremesso. – brinquei – Não sabia que era canhota.
Consegui retirar um sorriso do rosto dela, o batom verde me ajudou a identificar.
— Você deve pensar que sou uma louca.
— Claro que não – respondi enquanto retirava de perto dela a garrafa de uísque que bebia, já estava pela metade.
— Muito engraçado – disse com ironia ao mesmo tempo em que estendia seu copo pedindo outra dose.
— Ela estava me irritando também. Eu teria feito o mesmo, se você não tivesse pensado mais rápido.
— Você? Com esse rosto de criança rebelde? – senti o peso da ironia em cada palavra da sua frase – Nem deve matar uma mosca sem sentir remorso.
Não respondi nada, somente olhei para ela apontando a hipocrisia. Ela era um pouco mais alta que uma criança e tinha o rosto tão liso quanto o de uma.
Mas não estava errada, sempre tive o coração mole, tenho dificuldade em machucar outras pessoas, ainda mais sendo uma garota.
— Lola sempre ofende a Verônica daquele jeito?
— Sim – Diana bebeu o uísque como se fosse água, num único gole. Fiquei realmente impressionado. – E o pior de tudo é que Vê continua falando com ela, como se fosse normal agir desse jeito.
Virei o copo de uísque também, mas me arrependi na mesma hora. Era bem mais forte do que eu estava acostumado. Me fez tossir.
— Vai com calma, Bebê – ela falou tentando segurar uma gargalhada.
Dei a volta no balcão e me sentei em um banco ao lado de Diana.
A pequena multidão já tinha se desfeito e todos voltaram para suas devidas mesas, Lucas estava segurando um copo com gelo contra a testa de Lola, eles estavam conversando de maneira bem calma.
Percebi que Vê não estava mais na mesa, passei o olho pelo bar procurando por ela, não encontrei, mas uma pessoa me chamou a atenção, tinha uma senhora, aparentava ter uns sessenta anos, em pé encarando a porta de entrada, parecia um pouco preocupada esperando alguém.
— Parece que Lola vai ficar bem – falei em quanto servia mais duas doses de uísque –, não tem por que se sentir mal.
— Pois é. A gente não poderia falar de outro assunto?
— Claro.
Mais uma vez o silêncio se mostrou presente por alguns segundos. Eu tinha tantas coisas para perguntar, mas naquele momento nada vinha em minha mente.
— Você não consegue se lembrar de absolutamente nada de sua vida? – perguntei, mesmo com um pouco de receio.
— Lembro de algumas coisas isoladas, mas nada muito concreto. Lembro de uma casa bem antiga de madeira, acredito que era a casa que eu morava.
— Tem lembrança de sua família?
— Não tenho certeza. Lembro de ver quatro pessoas brigando em volta de uma mesa cheia de comida, acho que era natal.
— Você nunca tentou procurar essa casa?
— Sim, claro. Quando estou lá fora fico andando pelas cidades a procura de algum lugar que me traga lembranças, mas eu nunca encontro.
De repente eu me lembrei de toda a minha situação. Toda a conversa no bar tinha me feito esquecer que estava morto. Pensei que em algum momento iria me acostumar com a situação
— E ha quanto tempo você está aqui?
— Seis anos.
— Seis anos? – Falei espantado – As pessoas nunca vão para outro lugar?
— Tipo céu ou inferno? – ela me perguntou enquanto levantava o copo, pedindo outra dose.
— Sim, algo do tipo – Terminei o meu copo e servi outras duas doses.
— Não, até por que ainda não estamos mortos, de certa forma.
— Como assim?
Ela tomou um longo fôlego, como se eu tivesse perguntado algo muito óbvio.
— Depois de “morrer”, seus órgãos devem ter sido doados para alguém, todo mundo aqui doou.
Fiquei pensativo por alguns segundos, estava tentando me lembrar de ter conversado sobre isso com alguém do outro lado.
— Eu bem que falava bastante sobre doar órgãos com meus amigos. Talvez eles tenham convencido meus pais. – Me lembrei de conversar algumas vezes com meus pais, mas eles nunca levaram muito a sério – Você sabe para quem você doou?
— Não, mas têm outras pessoas aqui que sabem. Lola é bem apaixonada pela pessoa a quem doou.
— Apaixonada? Ela pode ser vista por ele?
Diana balançou a cabeça respondendo que não em quanto bebia.
— Às vezes eu sinto um pouco de pena dela, mesmo ela sendo irritante e louca. Mas ela realmente sofre por causa dela.
— Lola é lésbica? – Voltei-me para a mesa outra vez, Lucas ainda estava segurando o copo contra a testa de Lola.
Diana percebeu para onde eu estava olhando.
— Ela diz que sim, mas tenho certeza de que algo já aconteceu entre aqueles dois.
De repente a porta do bar se abriu. Do outro lado só existia um clarão, como um flash de câmera. Então entra pela porta um homem que reconheci imediatamente, era o cara que me assustou e me fez cair do telhado daquela padaria.
Ele entrou e deu de cara com a senhora de idade que aguardava em frente à porta. Ela o abraçou como se estivesse muito preocupada com ele por muito tempo e eles andaram até uma mesa vazia e se sentaram juntos.
— Quem é aquele cara? – perguntei para Diana.
— Há, aquele é o Sr. Inácio. – Diana percebeu que eu tinha ficado bem surpreso com sua aparecia – Não fique encarando, ele não é um monstro.
— Desculpe. – Me voltei a olhar para Diana – Por que o rosto dele é assim?
— Não sei também. Quando eu cheguei aqui ele era bem normal, eu conversava bastante com ele, até que um dia ele apareceu aqui no Bar desse jeito. A partir desse dia ele se distanciou de todo mundo, menos da esposa, além de não conseguir mais falar.
— Há quanto tempo ele está aqui?
— Quando eu cheguei, ele já tinha nove anos aqui.
— Eu o vi no outro lado e fiquei muito assustado, até caí de cima de um telhado quando ele tentou se aproximar de mim.
— Você deveria ir falar com ele.
— Agora?
— Não, agora não, ele parece meio ocupado agora.
Olhei para ele outra vez, estava conversando com a esposa usando libras, eu sabia um pouco, mas não o suficiente para entender o que dizia.
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