Foram dias de tortura mental. Depois daquele momento em que havia desmaiado e tido aquele sonho, não foi difícil não ter novamente aquela sensação estranha, de medo e terror. Claro, nunca deixei isso aparecer para minha família, mas uma coisa me preocupava, pois em todos os sonhos, cada um que se passava a imagem de Kem era mais evidente.

Mas mantive isso nas sombras durante mais dois anos. E foi justamente no dia do aniversário dos meus filhos que tomei uma decisão importante.

Kem e Aldora completariam onze anos e seria um dia marcante, pois eles ganhariam a liberdade para treinar onde quisessem. Como eu não sabia quando ou onde Aldora havia nascido, decidi deixar ele no mesmo dia de Kem, assim poderiam ser criados com igual liberdade. E assim Mizumi e eu preparávamos a primeira grande festa de aniversário da família Nelliw. Era a primeira mesmo, pois eu não sei se Uriu sequer lembrava-se de quantos anos tinha, e também não me deu nenhum dia marcante para comemorar.

Naquela tarde, convidei muitos dos meus amigos de jornada. Em nossa casa apareceram o casal Lucille, o cavaleiro Vincent e Triana, junto com sua filha de apenas sete anos, Ilana. Também foram para lá alguns amigos de Mizumi como a arquimaga Mary Anne e seu marido Cedric, um excelente atirador de elite. Eles também haviam trazido sua filha de oito anos. Muitos outros compareceram para comemorar os onze anos dos meus meninos, e eu me senti o pai mais feliz do mundo.

Não havia sombras, olhos, pesadelos ou qualquer outra visão do mal, apenas os meus filhos correndo de um lado para o outro que eram perseguidos pelos outros amigos, enquanto eu conversava com alguns dos meus mais valorosos companheiros de vida.

Foi uma tarde agradável. As crianças brincaram, eu fiquei relembrando os tempos de espadachim com Vincent, e ouvindo belas histórias de Cedric, do bardo Budlee, do monge Chase, e de um sábio chamado Marlin. Enquanto na varanda as mulheres conversavam e riam alto, e nós homens cogitávamos qual era assunto delas, elas vertiam lágrimas de tantos risos.

Depois de um tempo, Kem e Aldora receberam seus presentes. Kem recebeu a Tsurugi, uma espada fina e bem decorada. Ganhou também algumas vestimentas, um broquel, alguns zenny e um chapéu esquisito, feito de palha. Aldora ganhou um machado de combate, um broquel, ganhou um carrinho novo e uma boina verde. Porém, notei que o velho Marlin não dera nada para Kem, apenas uma quantia em zenny para o mercador.

O velho Marlin sempre fora um idoso cheio de vida, incansável em buscar um conhecimento pleno, e tinha uma alma jovial e um preparo físico e mental dignos de um atleta, mesmo sendo velho e enrugado. Conheci-o em uma ocasião em que visitei Juno, e desde então tem sido meu conselheiro astuto, ainda que seus métodos sejam duvidosos.

Ele se aproximou de Kem e o levou até um pouco mais afastado do grupo que rodeava Aldora. Eu o acompanhei, e notei que meu filho realmente esperava ganhar algo dele.

- Gostaria de ter ganhado algo mais consistente, não é jovem Kem? – Ele falava, com um olhar sereno para o garoto.

- Bem, eu gosto de presentes. Mas por que o senhor não me deu algo? – Ele perguntou ingenuamente. Fiquei um pouco frustrado pela falta de tato, mas o velho Marlin deu uma boa gargalhada e se agachou.

- É um mundo injusto não? Pode parecer que não, mas nos surpreendemos com as verdades que encontramos em cada esquina, floresta ou ruína abandonada. As pessoas no final são apenas fantasmas do tempo, assombrando uma era ou um determinado comento e no final... Tudo se vai. – Ele dizia com um olhar estranho, como se enxergasse fundo na alma de Kem e estivesse tendo uma de suas revelações dos deuses.

- Nossa. Eu não compreendo bem isso, mas eu sempre me perguntei o que poderia ser tão importante para que eu tivesse um propósito.

- Existe algo que o tempo não consome. Que fica gravado nas eras como uma cicatriz dolorida e que pulsa, cada vez mais que alguém repete a historia. – O velho olhou sério para o espadachim, cutucou o peito dele com seu dedo comprido e ossudo, e com a boca torta resmungou. — Esse é o ato. O ato de realizar um único feito e ficar esculpido nas paredes do tempo, imortal em sua gloria.

Kem ficou assustado. Talvez por que aquele toque tenha sido um chamado da alma por um deus, ou foi um susto momentâneo gerado pela conversa abrupta do velho. Independente do motivo foi algo realmente sério, meu filho sabia que algo estava para ser ensinado através de um mestre e ele seria o aluno.

-Este é o único caminho para ser imortal, verdadeiramente. Um feito, um ato tão glorioso e tão colossal, que somente heróis são capazes de fazer. – Marlin completou.

- Marlin, você está se precipitando. – Tentei retirar aquela tensão do ar. – Não precisa profetizar nada com ele.

- Não estou pedindo para mudar seu ponto de vista. Não! – Ele falou como se um deus estivesse se comunicando comigo e com meu filho. Por alguma razão, a memória dos pesadelos e das sombras sumia de minha mente. — De forma alguma. Apenas abra os olhos e veja a sua volta cada pessoa, casa, família, por mais importantes que sejam jamais serão lembradas depois de algumas gerações, pois irão morrer na lembrança de todos.

- Mas então... O que eu devo fazer? – Kem não desprendeu o olhar do velho. Eu senti uma determinação tão intensa que tive medo. Eu tinha sonhos horrendos, e me era difícil pensar que destino estaria reservado para ele. Porém, Marlin finalmente se ergueu e como era mais alto e magro do que eu estava imponente em nossa presença.

- Faça uma viajem, descubra-se, descubra o mundo, sua historia e veja que em cada pagina ficam registrados os heróis que mudaram o destino das pessoas, mas que acima de tudo mudaram os seus próprios destino e assim se tornaram lendas, mitos e fundiram seus nomes com aço e fogo para que ficassem imortalizados através de seus atos.

Um arrepio subiu pela minha coluna. Senti aquele frio passar por entre meu cérebro, e eu entendi o que deveria fazer. Lembrei-me de meu pai, e também de outra pessoa que poderia ajudar Kem e torná-lo um guerreiro formidável, cujo conhecimento seria mais que suficiente para que meu filho não temesse nem mesmo os deuses. Por fim, Marlin concluiu, e com suas palavras finais, eu senti orgulho do nome que eu carregava.

- Levante-se Kem! Mude seu destino, vire sua pagina, escolha sua pena, sua tinta e escreva sua historia. Levante-se, cruze o mundo, lute heroicamente e faça você a sua honra, a sua justiça, a sua dignidade. Marque a aço e fogo o seu nome e o nome de todos os Nelliw, através dos tempos, através das eras e faça conhecer a sua gloria. Torne-se um Nelliw, Torne-se Imortal!

Marlin se virou e fez menção de sair, mas eu o parei subitamente.

- O que foi tudo aquilo? – Indaguei com certo receio.

- Aquilo o que? – Ele me devolveu com um olhar atônito e maroto, como se fingisse demais. Deu um leve sorriso. – Acho que está ficando cansado. Talvez seus filhos o tenham deixado maluco. Deixe Kem nas mãos de um eremita. – Falou em tom sarcástico, enquanto virava-se e saia, me dando as costas para olhar. – Talvez assim você fique mais tranquilo.

Realmente tudo aquilo tinha um propósito e agora eu sabia o que fazer. Fui em direção ao espadachim e vi que ele estava de cabeça erguida, olhando para o alto, mais alto que a torre de Geffen, com um olhar decidido. Agachei-me e pus a mão em seu ombro.

- Filho, o que está pensando?

- Pai. – Ele falou com vigor. – Eu quero ser útil ao mundo. Quero mostrar do que sou capaz. Quero viver uma vida... Digna de um Nelliw! – Disse as ultimas palavras com um largo sorriso e um olhar sério. Eu o puxei para o lado e o encarei olho a olho.

- Então, lhe darei a missão da sua vida. Você vai para Umbala. Lá, você irá treinar com o homem que seu avô conheceu, e que certamente confia. – Peguei em meu bolso o inseparável diário que Uriu sempre tinha com ele, e no qual estou escrevendo agora. Mostrei para ele. – Este é o Diário dos Nelliw! Aqui estão registradas aventuras e ocasiões que ninguém poderia ficar sabendo sem ler antes ele, pois é passado de pai para filho e somente através deles, esse conhecimento é mostrado ao mundo.

Ele olhou sério para o diário. Cogitou erguer a mão para pegar, mas se negou. Continuei.

- Esse homem com que você irá treinar está registrado aqui. Seu nome é Shen... Lee! – Evitei dizer o verdadeiro sobrenome. – E tenho certeza que ao dizer quem você é, ele irá o ajudar.

- Por que você está fazendo isso pai?

Pensei em dizer que era pra ele ficar em segurança, mas com as palavras de Marlin passei a acreditar que aqueles eram meus medos e que Kem devia seguir o caminho dele. Certamente, aquele treinamento seria o mais severo de todos, mas eu tinha em mente uma visão e ela iria se cumprir futuramente.

- Por que você é um Nelliw e com a ajuda de Shen... Você será não só mais forte que eu, mas também mais forte que qualquer um que possa se meter no seu caminho. Quando você voltar do treino, eu lhe darei o diário.

- Promete? – Ele perguntou entusiasmado.

- Prometo! — E com um toque de nossos punhos fechados, selamos o nosso pacto.