Diário de Catarse
10 Perdi os óculos
Notas iniciais
Ouvi algumas histórias de pessoas que, quando crianças, não sabiam que precisavam usar óculos. Tudo que elas enxergavam era embaçado e diferente do real. Então, quando colocaram óculos pela primeira vez, ficaram deslumbradas gritando “Meu Deus! Então existe outra forma de ver o mundo?”
É estranho. Quando estava com uns dez anos eu achava que todo mundo fingia ser feliz. Meus pais, meus professores, meus amigos, todo o mundo só poderia estar fingindo, então eu deveria fingir também. Eu não sabia que existia uma forma diferente de sentir a vida. Não cogitava a possibilidade de alguém não se sentir mal 24hs por dia como eu me sentia. Acreditava que todos eram assim, vivendo uma angústia constante com apenas breves intervalos de alegria. Achava que só existia esse jeito de ser.
Ganhei uma fitinha de Nossa Senhora Aparecida nessa época. A pessoa que me deu, me instruiu a fazer três pedidos e amarrar a fitinha no braço, pois quando ela arrebentasse, eles se realizariam. Mas eu só fiz um pedido e me recordo muito bem dele. Eu pedi três dias inteiros de felicidade.
Eu não queria a felicidade de ser paparicada ou de ganhar presentes caros. Seria até legal, mas o que eu precisava mesmo era daquele tipo de felicidade que eu sentia em poucos minutos enquanto estava rindo de uma piada, por exemplo, ou quando assistia ao último capítulo de uma novela quando o casal finalmente ficava junto. Sensações assim sumiam muito rápido de mim, sendo substituídas pela angústia que durava até a próxima alegria.
Não é como ter épocas boas e ruins na vida, como todo mundo tem, é o que acontece dentro da gente. Você sabe a diferença entre estar com dor de barriga e estar sem dor de barriga, não é? É o mesmo de sentir mal-estar emocional e não sentir. Se você nunca sentiu, você não sabe o que é, mas se você só sentiu isso o tempo todo, a vida inteira, você quer um intervalo, mais do que qualquer outra coisa na vida.
Eu queria me sentir bem por três dias. Queria saber como era.
Não sei se foi um milagre ou não, mas quando cresci, em vez de três dias eu ganhei três anos de felicidade. Dos 18 aos 21 anos de idade foi uma época muito diferente para mim. Me lembro de ficar chocada em acordar certo dia e não sentir desespero e dor de estômago. Eu me recordo desse dia como um dos mais surpreendentes da minha vida. Existia outra forma de sentir o estar no mundo e isso foi uma incrível descoberta.
Eu acordava pela manhã e não havia mil pensamentos e mil sensações angustiantes descendo sobre mim como um banho frio. Eu saía de casa e não queria voltar correndo. Eu conseguia respirar um ar leve, dormir e me alimentar em medidas saudáveis. Eu tinha meus óculos para ver a vida e ela era linda! O simples fato de estar em público sem medos, colocar a mão no peito e sentir meu coração bater normalmente me dava vontade de chorar de alegria.
Com o tempo essa sensação foi diminuindo até desaparecer totalmente e a angústia tomou de novo esse lugar. Foi como se uma massa negra descesse sobre mim e me envolvesse outra vez na escuridão. O mal-estar subiu níveis extraordinários nos últimos anos, o que tem me feito ter medo de mim, das coisas que eu posso ser capaz de fazer.
Tenho certeza agora de que um suicida não está lúcido quando tira a própria vida. Não raras vezes, tenho sentido falhas no comando dos meus atos, como se minha capacidade de me autogerir estivesse sendo desligada. Estou entrando em modo de autodestruição. Meu cérebro envia comandos ao meu corpo, implorando para que se desligue e adoeço porque o desgraçado está tentando obedecer. É como ter um encanamento arrebentado no cérebro, um esgoto que não cessa de vazar e contamina tudo.
Agora não há fitinha que resolva. Eu perdi toda a fé e estou me entregando cada vez mais para esse escuro que me chama. Estou cansada de tentar e cansada de esperar. Também tenho medo de ficar bem outra vez, pois não sei se teria forças para aguentar os anos de angústia sem sentido que viessem após alguns anos de paz. Não quero viver esse ciclo outra vez. Parece uma brincadeira de mal gosto.
Perdi os óculos. Perdi... Mas não sei se quero encontra-los.
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