Diário de Catarse
11 O Natal dos Sonhos
Notas iniciais
quieta e o bairro morto à meia-noite. Estava sempre muito calor e os pernilongos faziam serenata. Não havia árvore de natal em casa, com enfeites de bola ou pisca-pisca. Ninguém se reunia para cear ou trocar presentes, ninguém se importava.
Na tevê estava passando Mary Poppins. Em algum outro canal havia filmes parecidos ou propagandas tão encantadoras que meus olhos, fatigados pela mesmice, sequer piscavam. Celebrações se iniciavam em várias regiões do mundo.
Eu olhava as estrelas por horas e horas. Esperava algum sinal, qualquer coisa, podia ser um deus, um E.T., um Papai Noel ou um fantasma. Eu queria alguma coisa. Algo que parecesse vivo, que me levasse dali, que me despertasse e me tirasse do deserto dos dias.
Uma rotina melancólica se alongava em todo o dezembro em minha pequenina cidade. A única janela iluminada para um mundo diferente era a da televisão. Assistia Milagre na rua 34, Enquanto você dormia, Uma noite mágica e Um conto de Natal do Mickey. Adorava passar o dia em frente à televisão, desenhando árvores cobertas de enfeites, o Papai Noel sorrindo com um saco de presentes, escrevendo minhas memórias em um velho fichário, enchendo-o de recortes, desenhos e figurinhas de chiclete.
No entanto, nada do que via faria parte da minha rotina. Seria o mesmo arroz e feijão no jantar e os mesmos rostos cansados de uma semana tensa de trabalho. E muitas brigas entre meus pais que escolhiam sempre as datas comemorativas para criar seus tribunais particulares e me deixar com o martelo de juiz.
Lembro-me da noite em que o larguei, abri a porta da frente e fui andando pela escuridão da madrugada. Tinha sede de silêncio, como sempre tive.
A missa em nosso bairro seria tudo a nos lembrar de que era Natal e eu amava ser criança e ter fé. Tomava um banho, vestia minha melhor roupa e caminhava pelas ruas quentes e vazias até a capela e lá cantava as canções, admirava o presépio, sentia o cheiro de velas e trocava a imagem de um Deus torturado pela de um Deus recém-nascido, com suas mãozinhas humanas e seus olhos alegres.
À meia-noite do dia 24 de dezembro eu gostava de me sentar à janela e ficar bem quietinha, sentindo o vento das madrugadas de verão. Meus pais dormindo e os vizinhos muito quietos. Ninguém presente no bairro para me ouvir dizer: “Eu quero um milagre, qualquer um”. Queria qualquer contato com alguma forma de magia, qualquer mistério ou sinal que me provasse que a vida não era só o que eu vivia, que existia cor para além do mundo cinzento que pairava diante de mim.
Eu esperava sentir alguma coisa, viver alguma coisa. Então, imaginava uma luz no céu e era a Estrela de Belém, um sinal de que Jesus nascia. Aparecia muito grande e dourada, tremeluzindo diante dos meus olhos. Aquilo fazia meus braços se arrepiarem e meu coração acelerar.
Voltava para a cama alongando os desejos, me obrigando a crer que estava certa, sonhando com os filmes que assistira e apertando os olhos enquanto pensava nas coisas que Papai Noel poderia distribuir por aí, caso existisse. E, se existisse, me doía pensar, mas talvez eu pudesse encontrar algo emocionante pela manhã do dia 25.
O Natal sempre me fez sentir um aconchego no peito, fruto da fantasia de que o mundo todo era feito de bondade nessa época. Não havia medo do escuro no Natal, nem medo de sair na varanda de madrugada ou de andar pela casa enquanto todos dormiam. A maldade e o perigo davam um tempo. Os monstros hibernavam e os fantasmas cantavam louvores. Tudo parava. Era quando o amor e a magia tomavam completo controle do mundo.
É intrigante recordar tais devaneios, quando o meu pós-natal sempre foi formado dos mesmos dias vazios e da mesma carga tristonha, trazendo-me sempre os mesmos ombros baixos, os dedos fracos no janeiro e a mesma pouca vontade de continuar no ano que começava. Uma triste constatação, na verdade, de que nada havia realmente acontecido.
Essa constatação se reafirmava toda manhã de Natal em que eu despertava e tudo estava igual, em que eu crescia e precisava deixar para trás todos os sonhos e todas as crenças. O mundo nunca seria como nos meus filmes preferidos.
Eu faria 15 anos e iria para a lavoura de café ganhar 15 reais por dia. Subiria as montanhas em caminhões que sacolejavam, repletos de criaturas que se pareciam humanas. Voltaria com veneno nos pulmões e várias picadas de insetos pelo corpo. A pele das unhas arrancada, toda a mão coberta de espinhos e me sentiria abençoada.
Eu compraria um caderno, duas canetas e entraria no magistério. A vida não seria muito mais emocionante que isso.
Mas todo ano seguinte algo parecia me dizer “Ei, acredite”, era como se um portal se abrisse e eu pudesse crer outra vez, como uma amnésia, como se nunca tivesse vivido aquilo antes.
Dezembro continua sendo minha época favorita do ano, são os dias em que tudo dentro de mim se acalma, enternece e me faz ser criança de novo. E eu não sei o que é isso, mas, seja o que for, eu tenho medo de que algum dia se vá.
Todas as noites do dia 24 de dezembro ainda me deito com sonhos de dias diferentes ao findar do ano velho e depois dele. Uma fresta brilhante se abre em minha imaginação e me vejo reunindo uma grande família em uma linda casa enfeitada de luzes, uma mesa farta, com uma ceia apetitosa, rodeada de pessoas risonhas. Na sala, um grande pinheiro sob o qual dezenas de presentes são colocados e, nesse sonho, eu fico ali, rodeada por todos que mais amo, rindo e contando histórias até dormir no tapete da sala depois de assistir a outro filme antigo de Natal. Não há brigas, não há choros, não há medos, não há fome ou solidão, apenas um doce adormecer.
E o céu, nessa noite feita de névoa, não ouviria nenhum pedido meu.
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