Dizem que não há sol
1 Prólogo · A Ponte do Arco-Íris Quebrado
Chunmei · Reino das Nove Auroras
Ninguém pergunta a uma criada o que ela viu. Por isso vou contar sem que me perguntem.
Servi à Senhora Xu Ruyin desde que nós duas éramos meninas. Eu, a filha da lavadeira, a quem deram o nome de uma flor que abre no frio, servia havia mais de um século à herdeira de uma importante linhagem ancestral. Penteei o cabelo dela no dia do seu casamento com o Patriarca Luo Chengyuan, no Pico da Aurora, onde os rios correm de Qi e as montanhas flutuam presas a correntes de jade. Vi o nascimento de sua primeira filha e ajudei a criá-la. E, havendo quase três mil anos que o Clã Luo governava aquele pico, achava que nada ali pudesse ruir.
Na tarde em que o menino nasceu, os sinos do pico não tocaram.
Minha senhora era uma cultivadora do Reino da Alma Nascente. Com um sopro, congelava um lago, com uma palavra, fazia florir um pomar fora de estação. Naquela tarde, na Câmara do Lótus Branco, eu a vi minguar a cada contração, como lamparina a que falta o óleo. As parteiras enxergavam mais do que eu: viam os fios dourados do cultivo dela descerem pelos meridianos rumo ao ventre e sumirem ali, como um rio que chega ao mar.
— Senhora, a criança está devorando o seu cultivo! — gritava a parteira mais velha. — Ainda há tempo de selar o ventre.
Minha senhora sorriu. Eu conhecia aquele sorriso. Era o de quem se planejou muitos meses antes.
— Ele não está me devorando — continuou, murmurando. — É apenas o preço que devo pagar.
Eu queria não entender. Para muitos, eu era apenas uma criada. Sabia de lençóis, de chá, de que lado ela dormia. Mas, entre as frestas e servindo nas grandes festas da família, meus ouvidos também sabiam do Tesouro que as mulheres da linhagem dela carregavam no sangue, em silêncio, havia eras. Até aquele momento, eu não sabia a natureza exata daquele Tesouro, nem desde quando ela o sentia desprender-se de si e transferir-se para o filho. Tampouco sabia que dar à luz aquele menino era o mesmo que dar-lhe tudo.
Mas agora eu via em seu olhar. Ela me chamava.
Com dedos que já esfriavam, tirou de seu punho cerrado um lenço de seda cinzenta. Eu mesma a tinha visto bordá-lo, noite após noite, durante meses. Pensei que fosse parte do enxoval. Eu me oferecera para ajudá-la inúmeras vezes, e ela sempre recusara. Esse lindo lenço tinha um único caractere no centro e, em volta, mil linhas tão finas que pareciam poeira estelar.
— Amarre nele — disse, apertando o pano na minha mão. — Aconteça o que acontecer. E quando chegar a hora, Chunmei... você saberá o que fazer.
— Senhora, eu não...
— Você saberá.
O menino nasceu sem chorar. Abriu os olhos, escuros e calmos, atentos de um jeito que não era de recém-nascido, e no mesmo instante a última centelha no dantian da minha senhora vacilou. Ela ainda teve fôlego para encostar os lábios na testa dele e dizer o nome que tinha bordado:
— Jun.
Depois a centelha se apagou, e eu fiquei com o menino no colo e o lenço na mão.
O Patriarca atravessou as portas pouco tempo depois. O parto havia sido adiantado um mês e, aproveitando-se disso, a Senhora fez silêncio sobre ele. Mas, em meio aos gritos e ao desespero, o homem de grande estatura e longas sobrancelhas correu ao encontro de sua esposa morta. Encontrou quatro parteiras de joelhos com o cultivo reduzido à metade e, no meio de tudo, no meu colo, um recém-nascido de olhos abertos, completamente em silêncio.
O desespero dele rachou todas as nove colunas do salão.
Eu o vi segurar a mão dela por um longo momento. Quando finalmente levantou os olhos, foi o menino a quem encarou.
— O meu sangue gerou um demônio que matou a própria mãe. Levem essa coisa ao Abismo da Extinção de Almas. Antes do anoitecer, não quero que reste dele nem o nome.
Ninguém lembrou ao Patriarca que a coisa era seu filho. Uma vida inteira de serviço me ensinou isto: servir a um senhor é fazer companhia a um tigre.
Como a minha senhora havia previsto, mandaram-me levar a criança, porque nenhuma outra pessoa queria tocar nela. Amarrei o lenço no pulso dele, que era da grossura do meu dedo, e saí pelos corredores com o embrulho junto ao peito e dois guardas do Núcleo Dourado às costas.
A cada passo eu sentia o meu Qi afinar. O pouco que eu tinha escoava para ele como a água nas ruas depois de uma grande chuva. As minhas pernas foram ficando fracas, mas não afrouxei os braços em momento algum! Ele me olhava atento. Não chorou uma única vez.
O caminho do Abismo passa pela Ponte do Arco-Íris Quebrado. De lá se vê, muito lá embaixo, o mar de nuvens que separa os deuses dos homens. Os guardas me seguiam à distância, receosos de se aproximar do menino.
Parei bem no meio da ponte, muito antes de chegar ao lugar onde o Patriarca mandara que eu lançasse o menino.
Se fosse do Abismo, ele cairia em lugar nenhum, senão no vazio. Mas daqui ainda havia as nuvens... Olhei as nuvens. Olhei o lenço, as mil linhas que ela tinha bordado noite após noite enquanto eu lhe servia chá, e segurando trêmula a criança, com os braços esticados para fora da ponte, imaginava para que servia um bordado daqueles.
Você saberá.
Tive tanto medo que os meus dentes batiam. Ele, com os olhos arregalados, balbuciava algo e balançava os pequenos braços.
— Perdoe esta serva, Senhora — sussurrei.
E, antes que os guardas me alcançassem os braços, lancei o menino por cima do parapeito.
O bebê caía rapidamente. Quando havia pouco a ser visto, eu vi as linhas se acenderem uma a uma e se abrirem numa formação. Talvez tenha sido o que vi, ou talvez tenha sido o que queria ter visto. De qualquer forma, eu queria crer que naquele dia caiu do Reino das Nove Auroras um cometa de luz cinza e dourada, rasgando o mar de nuvens com um estrondo ouvido em todos os três reinos.
Eu queria crer nos meus olhos e nos meus ouvidos. Olhei para os guardas na ponte, e eles também pareciam ter visto algo.
Tempos depois, eu soube que, nos picos vizinhos, anciões interromperam a meditação, astrólogos derrubaram os pincéis e milhares de olhos viram aquela estrela cair.
Os guardas me pegaram. Não resisti. Eu ainda não parava de pensar na minha senhora, no bebê e na estrela em que ele se tornara.
Enquanto me arrastavam, vi o Patriarca no terraço do pico, olhando o resto do rastro no céu até ele sumir. Apertava ambas as mãos contra o peito. Gosto de pensar que ele estava aliviado com a escapatória de seu filho, mas eu não saberia dizer.
Não sei onde o menino pousou. Sei que pousou. Ela bordou aquele lenço durante sete meses. Minha senhora entendia de formações como ninguém.
***
Glossário:
Qi: energia que os cultivadores possuem e utilizam.
Cultivo: desenvolvimento do poder espiritual de uma pessoa.
Reino de cultivo: estágio de desenvolvimento espiritual.
Núcleo Dourado: reino de cultivo dos dois guardas que acompanhavam Chunmei.
Alma Nascente: reino de cultivo alcançado por Xu Ruyin.
Dantian: centro espiritual associado ao cultivo. Quanto mais poderoso, maior seu reino de cultivo.
Meridianos: canais internos por onde circula a energia do cultivo.
Formação: arranjo mágico capaz de produzir efeitos por meio de linhas e padrões.
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