Dizem que não há sol
2 O Corte que Divide o Rio
Qinghe · dezesseis anos
Não me sentei diante de Lin Jun por bondade. Quero deixar isso claro, porque depois inventaram muita coisa sobre nós.
Sentei naquela hora porque estava com muita fome. Meu pensamento se revezava entre a fome constante e a dor em meu ombro. Aquele era o único banco vago no refeitório do Céu de Jade.
Era o segundo mês depois da grande seleção de novos discípulos. Eu tinha acabado de completar dezesseis anos, era meu segundo ano no Pico da Espada e tinha passado a manhã repetindo o Corte que Divide o Rio. Meu mestre examinou meu ombro e disse, com um olhar profundo:
— Um mês sem espada.
Um mês sem treinar com a espada seria um mês de atraso. Eu não tinha vindo ao Céu de Jade para ficar para trás. Quando eu tinha lá pelos oito anos, uma tempestade pegou a balsa do meu pai no meio do rio, com mais de quarenta pessoas em cima. Uma mulher de túnica cinzenta se levantou, desembainhou a espada e cortou a correnteza ao meio. Era a herdeira da lâmina do Pico da Espada. Naquele dia, eu soube que o mundo se dividia em dois: os barqueiros e os guerreiros. Foi então que decidi que um dia ia aprender aquele golpe e carregar aquele mesmo título.
Eu acenei com a cabeça, concordando, dei a volta pelo campo de treinamento e fui treinar escondida no depósito de armas. E agora meu ombro latejava, eu estava com uma tigela de macarrão cortado à faca do tamanho de uma bacia nas mãos e procurava algum lugar vazio para esfriar a cabeça.
O refeitório dos discípulos externos tinha cerca de cinquenta mesas compridas e, nos horários de pico, nenhum banco ficava vazio. Tirando a última mesa. Ela tinha os bancos tortos e um dos pés bambo. Um menino estava sentado, isolado de todos os lados, como se repelisse as pessoas ao seu redor.
Todos sabiam quem era. Em apenas dois meses, já o conheciam em todos os picos.
Havia boatos de que a Pedra de Aferição se apagou com seu toque, que no Salão da Profunda Meditação as pedras espirituais tinham que ser repostas antes do almoço, que os salgueiros de mil anos murchavam quando ele se aproximava, que os professores não queriam lhe dar aula, que seus colegas de quarto desistiram da academia na mesma manhã em que chegaram. E que o tio marcial Tie Zheng queria prendê-lo.
Alguns poucos discordavam. Relatavam que o zelador teve suas cicatrizes curadas e não sentia mais a dor das antigas batalhas e agora varria animado os cantos dos salões . Era o único que o cumprimentava todos os dias, saltitando pelas folhas que juntava.
Eu só o tinha visto uma vez. Logo que chegou, esbarrou numa porta do Pavilhão dos Registros e pediu desculpas à porta.
Olhei para cada uma das mesas e caminhei procurando o menor sinal de que alguém se levantaria. E, quando dei por mim, já estava no fim do corredor. Convenci-me de que era uma prova de coragem, pedi licença e sentei bem ao seu lado. De qualquer forma, os olhares alheios que me imploravam para não sentar ali me desafiaram a fazer justamente o contrário.
Senti que todos baixaram a voz.
Ele ergueu os olhos. Eram escuros e calmos, e a primeira coisa que fizeram foi medir a nossa distância.
Era um pouco mais novo do que eu. Num dos pulsos, carregava um lenço cinzento amarrado com um nó que parecia muito surrado pelo tempo.
— Você é o murcha-plantas — eu disse, enquanto atacava o macarrão.
— Sou. — Ele puxou a própria tigela para longe. — É melhor não se sentar tão perto — disse, com certo sorriso pouco expressivo.
— Eu sei o que as pessoas dizem — respondi com a boca cheia.
E, pela metade do meu prato, eu já sentia na pele. Sentia o Qi descer do meu dantian sem pressa, como os passageiros descendo lentamente da balsa de meu pai após chegarem a seu destino. Em dez minutos de refeição apressada, perdi o equivalente a meio dia de treinamento de respiração concentrada. A fraqueza, ao mesmo tempo trêmula e inquietante, esvaziava estranhamente minha mente.
Era por isso que mil discípulos comiam apertados.
Eu decidi me levantar. Até terminar a refeição, eu teria perdido sei lá quanto tempo de prática, então era melhor me apressar. Apoiei a mão na mesa para me erguer, esquecendo o ombro machucado. Fechei os olhos por reflexo, esperando a dor. Mas nada veio.
Nada. Nem fisgada. Girei o ombro devagar, depois o sacudi com força. O que ia me custar um mês de treino, resolvido como uma bênção.
Olhei para o menino. Ele olhava para o meu ombro com os talheres apoiados na boca, talvez esperando uma reação minha.
— Seu ombro está bem? — perguntou. — Quer dizer, pode ter sido que eu... Não de propósito... — E calou-se, como quem já tentou explicar aquilo a muita gente que não ficou para ouvir até o fim.
Coloquei minha tigela na mesa e sentei para continuar comendo.
— Sou Chen Qinghe. Do Pico da Espada, segundo ano. Desde que sentei aqui, já perdi mais de meio dia de cultivo.
Ele se encolheu como se eu tivesse falado alto demais.
— Eu recupero em uma noite — continuei. — Em troca, o meu mestre jurou que este ombro estava acabado, mas não dói mais. Para mim, foi uma boa troca. — Eu fechava e abria a mão violentamente, ainda esperando que a dor voltasse.
— Mesmo assim, eu não acho justo — respondeu, olhando para a própria tigela.
Não sei que bicho me mordeu naquela hora, mas, por impulso, meti a mão na tigela dele e peguei os pãezinhos que estavam abandonados no canto do prato. Enfiei um inteiro na boca, e o segundo caiu no banco, soltando migalhas para baixo da mesa.
Ele fez menção de se levantar, como se fosse pegar algo, e então sentou-se de novo, olhando atentamente para mim.
— É tão importante assim esse seu treino intenso? — perguntou, franzindo um pouco as sobrancelhas.
Era a coisa mais importante do mundo! Mas eu não queria explicar o porquê.
— Pode-se dizer que sim — respondi de boca cheia, com os farelos polvilhando os bancos vazios à nossa frente.
— Você já ouviu falar do Corte que Divide o Rio? — Eu me levantei e assumi a pose que havia repetido tantas vezes na memória e nos treinos, agarrei o ar como se fosse uma espada e posicionei meus pés para o incrível corte. Zuum, fez o ar ao encontrar meus punhos vazios.
Seus olhos calmos não mudaram de expressão e continuavam me fitando. Olhei à volta e percebi que agora estávamos praticamente só nós dois naquele refeitório.
Acho que quanto mais envergonhada fico, mais vergonha estou disposta a passar. Estiquei o braço como se fosse encostar em seu lenço.
— Ele é muito bonito visto de perto. Eu acho que você deveria cuidar um pouco melhor dele.
Foi a primeira vez que vi aquele olhar nele. Um frio subiu pela minha espinha, e eu senti uma intenção sinistra vindo de seu dantian. Eu recuei na hora, tropecei um pouco nas palavras e voltei para terminar o prato.
— Desculpa — ele disse, depois de um tempo. — É muito importante para mim. Talvez seja o meu Corte que Divide o Rio.
— Ah, eu não perguntei. Qual dos picos escolheu você? Eu acho que você devia ir para o Pico das Curas Celestiais.
— Nenhum. Nenhum ainda — repetiu, seco.
Eu ainda não tinha reparado, mas ele não vestia o uniforme de nenhum pico. Era o uniforme dos funcionários do Céu de Jade, e não o de algum discípulo.
— Eu posso falar com o meu mestre, se você tiver interesse na arte da espada.
— Você acha que teria como? Eu acho que ninguém vai querer me aceitar.
— Claro! A gente vive se machucando por lá. Eu acho muito útil.
E era verdade. Também fazia sentido os picos celestiais não o aceitarem. O poder dele ameaçava anos de estudo deles.
Levantei-me de vez com as nossas tigelas e fui colocá-las no balcão de devolução. Saí apressada do refeitório, um pouco animada, um pouco ansiosa. Havia perdido um dia de meu cultivo e ganhado um problema cujo tamanho eu ainda não conhecia.
***
Mais tarde, como prometido, fui falar com meu mestre.
— Veja, mestre, estou boa agora — disse, carregando a espada.
Ele caminhou até mim e examinou meu ombro.
— Foi o Quinto Pico? — perguntou, falando do Pico das Curas Celestiais.
— E eles atendem alguém fora do círculo interno? Aqueles pilantras... — respondi balançando a espada.
— Foi o rapaz? — perguntou, mais sério, agora olhando em direção ao meu dantian.
— Ele é bom, mestre.
— E alguém viu vocês juntos?
— Não que eu quisesse. O senhor sabe que eu sou discreta como um lince na neve.
— E sutil como o rugido de um tigre — ele disse, sorrindo. — Ele pode ter te curado dessa vez, mas a gente não sabe da próxima.
— Mestre, ele não é assim.
— Em um mês, ele já não vai estar aqui de qualquer forma. O conselho está preparando uma expulsão informal — disse, virando-se para ajudar outro discípulo.
— E se o senhor ajudasse ele? Pense no quanto vamos poder treinar sem parar!
— Não posso prometer nada. O Ancião Tie já decidiu que ele não é bem-vindo. Ele tem um mês para achar um mestre. E não posso prometer que serei eu.
Um mês.
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