Disenchanted
5 V - A corrida de bigas
Notas iniciais
V
A corrida de bigas
"O amor é como a guerra; fácil de começar, e muito difícil de terminar."
Durante o jantar, estava distraída. Nem sequer havia tocado meu prato. Ainda pensava na missão que Quíron e o Sr. D nos deram, na conversa com meu pai. Quer dizer... Era incrível, e extremamente perigoso e definia o que estávamos passando: O início de uma guerra.
Mas confesso que não era só isso que estava me deixando fora de foco. Tinha o beijo que havia trocado com Annabeth aquela tarde também.Vi-a se aproximando do altar onde fazíamos oferendas aos deuses e, sei lá por que razão, decidi fazer o mesmo. Me levantei de forma abrupta e, em questão de segundos, estava ao lado dela.
Joguei parte da comida ao fogo e disse “aos deuses”. Vi que Annabeth ainda continuava lá, parada e de cabeça baixa. Parecia que estava mais fazendo uma oração do que uma simples oferenda. Decidi que era estúpido ficar lá a olhando e sai. Se ela notara minha presença, não deu sinal.
Voltei para meu lugar, mais emburrada do que de costume. Vi uma irmã minha colocar uma colher cheia na boca e mastigar com a boca aberta e meus irmãos rindo daquilo. Tentei entrar na brincadeira. Somos filhos de Ares e somos um tanto quanto rudes e adoramos ver a cara de “nojinho” da galera de outros chalés. Bando de frescos. Um deles colocou novamente a coroa de louros, que ganhei por meu sucesso na missão, em minha cabeça. Como que para mostrar ao pessoal dos outros chalés quem salvou o Acampamento.
Por falar nos outros chalés, um dos meus irmãos acenou para a mesa do chalé de Atena, cujos sabichões pareciam ser os mais ofendidos com a brincadeira. Sem querer, desviei meu olhar para a mesa e eles bateram em olhos cinzentos. Senti minhas bochechas ficarem vermelhas e desviei o olhar. Praguejei algo mentalmente. Eu definitivamente não fico nervosa diante, como meu pai dissera aquela tarde, meus casos. Não que eu tivesse muitos, mas toda vez que me interessava por alguém era a pessoa que ficava nervosa. Nunca eu. Peraí, desde quando estava interessada em Annabeth?
Tentei comer, me desviar daquele assunto que já estava me dando dor de cabeça. Não sou como as crias de Atena, que adoram perguntas sem sentido ou como as de Afrodite, que se apaixonam toda hora. Quando finalmente consegui engolir metade do prato, Quíron resolveu anunciar que a corrida de bigas iria ocorrer normalmente. Alguns chalés comemoraram — tipo o meu -, outros ficaram um tanto quanto atônitos com a notícia, mas no final a maioria ficou feliz. Eu acho que uma competição nos animaria, visto todo o estresse que tínhamos passado essas últimas semanas com nossas barreiras fracas. E ainda tínhamos que lidar com a ameaça titã que se espreitava no futuro.
Ainda conversei um tempo com meus irmãos antes de voltar ao chalé de Ares. Fiquei até um pouco feliz por caminhar na noite, sentir o ar dela. Arrisquei-me a olhar para cima e dar uma rápida olhada em Hércules. Era minha constelação favorita, apesar do azarado herói ser filho de Zeus.
Quando cheguei ao meu beliche, não fiz outra coisa senão me jogar no colchão. Péssima ideia. Senti alguma coisa me cutucando. Levantei-me e vi que havia um embrulho vermelho na minha cama, junto com uma carta com um selo em forma de javali. Não precisava ser nenhum gênio para deduzir que o presente viera de meu pai.
Abri o embrulho e tirei dele uma bela espada forjada em bronze celestial. No meio dela estava escrito, em grego antigo, Pela glória de Ares. Do outro lado também haviam sido talhadas as palavras: "Só os mortos conhecem o fim da guerra."
Confesso que não entendi a segunda. E sabia que certamente não era algo que meu pai escreveria em algum lugar. Quer dizer, o cara adora uma boa briga. Parecia muito filosófico para ele ter feito ou escolhido.No punho estava desenhada uma guerreira com uma lança, que eu presumi como sendo eu. A espada mais parecia uma obra de arte. Golpeei o ar umas vezes antes de me voltar para o envelope.
Quebrei o selo e peguei a carta dentro dele. Ares havia me escrito o seguinte:
Clarisse,
Consegui convencer Hefesto a lhe fazer esse presente de última hora. O feioso reclamou um pouco enquanto fazia suas coisas de ferreiro. Bom, esse é um presente por sua missão. Espero que espete muitos traseiros monstruosos com ela.
Quanto às frases, uma é claro que foi ideia minha. A outra foi de Afrodite. Ela disse algo sobre a filha de Atena saber do que se trata. Achei interessante. Gostaria que soubesse que Atena está um pouco furiosa com você.
Abraços,
Estremeci. Não que eu estivesse com medo, mas acho que não é lá muito sábio deixar a deusa da sabedoria e da estratégia com raiva. Quer dizer, Medusa, Aracne e até mesmo a bela cidade de Tróia são exemplos do que acontece quando Atena toma algo como ofensa. E olha que ela é uma divindade vista como “boazinha”.
Bom, de qualquer forma, não era como se tivesse atacado a filha dela. Foi Annabeth quem me beijou. Até porque Atena não poderia fazer algo contra mim abertamente. Se nem mesmo Zeus poderia triturar Percy por qualquer motivo – exceto se ele ousasse voar – então, talvez, Atena não fosse querer uma briga certa com Ares. Os deuses não podem guerrear entre si e olha que acho que mexer com o filho do outro é um bom motivo. Talvez seja por isso que não haja caso de semideuses estraçalhados por ciúme, apesar das perseguições de Hera aos filhos de Zeus serem bem conhecidas.
No dia da corrida, meu chalé acordou mais barulhento que o costume. Highway to hell tocava no máximo enquanto meu irmão, Teneu, que me acompanharia na biga, terminava de aprontar tudo. Meu braço estava praticamente recuperado graças à Ambrósia e o tratamento de uma campista de Apolo.
Algumas horas depois, estávamos no início da pista. Os irmãos Stoll na biga de Hermes, um novato e seu irmão na de Apolo, Charles Beckendorf e outro garoto na de Hefesto e Jackson e Annabeth em outra que não carregava nem o símbolo de Atena ou o de Poseidon.
Trinquei os dentes e senti uma raiva fria tomar conta de mim. Seria ciúmes? Quer dizer, eu via Annabeth e Jackson juntos milhares de vezes no Acampamento. Eles sempre estavam aprontando algo juntos. Eu não deveria me importar, ou deveria?
Tornei a olhar para a biga deles e fechei o cenho. Acho que minha expressão não era das melhores porque até meu irmão, acostumado com gente de cara fechada no nosso chalé, recuou um pouco.
– Clarisse, você quer defender ou dirigir? – Ele me perguntou cuidadosamente.
– Tanto faz. – Grunhi e ele me deu minha lança.
– Acho melhor você defender. – Ele pegou as rédeas. Ótimo. Iria espetar Jackson. Espetar e fritar. Será que ele tinha gosto de algum bicho do mar?
Quíron deu a partida com seu arco e avançamos a toda. Estava uma confusão de poeira e gritos vindo das arquibancadas. Nossos cavalos relinchavam, como se reclamando da velocidade que Teneu impunha a eles.
Nem bem começamos a corrida e lá vinha encrenca. Beckendorf tinha preparado muitas coisas em sua biga para nós. Engenhocas. Tentei o máximo que pude mantê-lo longe até que um dos gêmeos Stoll teve a brilhante ideia de vir pelo outro lado e me flanquear. Agora nossa biga estava presa entre as duas e a biga de Jackson na dianteira.
Não ia deixá-los ganhar. Aparei um golpe da espada de Beckendorf com o escudo e joguei meu peso pra frente, praticamente dando um pulo e ficando a milímetros dele e estoquei com a lança, conseguindo apenas desequilibrá-lo e afastá-lo momentaneamente.
O que foi bom, pois no mesmo instante a biga de Hermes se aproximou e um dos Stoll – não sei qual e nem me preocupava com isso – veio atacando meu auriga.
– Covarde! – Gritei com ele. E estoquei com a lança. Sorri quando vi que ela o acertou. Não pensei duas vezes e ela ofereceu uma descarga elétrica nele. Isso iria retardá-los por um tempo.
Vi a biga de Jackson à frente, bem tempo de pegar a cena de Annabeth acertando um dardo na biga de Apolo. A pontaria praticamente perfeita. Ela estava linda e exalava autoconfiança.
Gritei com Teneu para ir mais rápido. Estávamos bem atrás dele. Annabeth estava defendendo e, assim que viu nos aproximando, se pôs em guarda. Para nossa sorte, ela já não tinha mais nenhum dado para arremessar.
Bom, fiz o que faço melhor. Ou tentei. Golpeei. Acho que ela meio que esperava porque aparou o golpe com facilidade e ainda teve tempo de zombar:
– Perdeu a força, Clarisse?- Do que diabos ela estava falando? Minha raiva aumentou. Estoquei com mais força, dessa vez atingindo-a com mais potência, mas ela aparou de novo o golpe com a espada.
– Do que está falando? – Gritei com ela. Estávamos praticamente coladas às bordas de nossas respectivas carruagens, e perigosamente perto do chão que passava embaixo a alta velocidade.
– Vamos, você ataca mais forte e mais rápido que isso. – Ela me instigou, jogando o peso da espada para frente, me empurrando para trás.
Já ia devolver a gentileza, quando a biga de Hermes se aproximou. Trinquei os dentes. De novo eles! Aqueles gêmeos iriam ganhar um belo chute nos traseiros! Se não fosse durante a corrida seria depois, mas teria volta! Vi a carruagem de Hefesto passar a toda, enquanto os Stoll procuravam briga com a minha.
Já estávamos na última volta. Meu auriga estava cansado e eu também, pois além de me defender, tinha de defendê-lo. Vi um fogo verde tomar conta da pista à frente e a carruagem de Beckendorf em pedaços. Ele e o irmão praguejavam enquanto eu e Connor Stoll passamos digladiando a milímetros deles.
Mas já era tarde demais. O fogo verde era fogo grego, e só pude supor que os garotos de Hefesto tinham arrumado aquele treco, mas não funcionara contra Percy e Annabeth. Eu estava irremediavelmente atrás deles e Connor continuava a brigar comigo.
Enfureci-me. Enfureci-me mesmo, ainda mais com as palavras de Annabeth sobre eu estar atacando fracamente. Juntei toda força que restava e ataquei Connor Stoll com tudo. Não me importava mais, pois sabia que a corrida estava perdida. Derrubei Connor de sua biga e continuei adiante. O irmão dele não me incomodaria, pois estava ocupado demais ajudando Connor.
Não sei dizer se a pior parte foi ver Annabeth e Percy serem aclamados, ou Annabeth dando um beijo no rosto de Percy e todos gritarem mais alto depois disso, ou o chalé de Atena carregando-os para o pódio, ou Quíron entregando aos dois coroas de louro.
Peguei minha lança e saí amuada, torcendo para não chamar a atenção de ninguém. Não ia dar parabéns pra ninguém. Dei um esbarrão nos irmãos Stoll e lhes prometi que a ideia de me enfrentar na corrida de bigas teria conseqüências sérias para eles. Travis, o mais velho, pareceu não se importar e deu até um sorrisinho debochado, mas Connor, que havia me enfrentado e agora tinha arranhões e hematomas por ter rolado na pista onde eu o lancei, me olhou assustado.
Quando cheguei ao chalé de Ares, havia um rock romântico tocando. Encontrei uma irmã minha agarrada a uma das filhas de Afrodite. Quando elas me viram, ficaram embaraçadas e saíram às pressas. Me joguei no sofá, e soltei um suspiro irritado. Não troquei a música e desejei, por um instante, que Annabeth estivesse lá comigo.
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