Disenchanted
6 VI - Planos
Notas iniciais
VI
Planos
“Ela fazia muitos planos
Eu só queria estar ali
Sempre ao lado dela
Eu não tinha aonde ir”
(Ainda é cedo, Legião Urbana)
Já havia se passado uma semana desde a corrida de bigas. Annabeth não me dirigira à palavra desde então. Nem mesmo para falar sobre nossa missão juntas. A essa altura deveríamos estar pesquisando alguma coisa. Quer dizer, ela deveria estar pesquisando. É só isso que os filhos de Atena sabem fazer!
Joguei um dardo num alvo que ficava em uma das paredes da sala do chalé de Ares. O projétil passou a milímetros da orelha de uma irmã minha antes de acertar o centro do alvo. Atirando um jarro de flores ao chão, vazio por sinal, que estava ‘decorando’ o local também o quebrei. Meus irmãos olharam, mas não se impressionaram. Nós, filhos de Ares, não somos um modelo de autocontrole.
Chutei a porta onde ficava meu beliche. Peguei a espada que meu pai tinha me dado pouco tempo atrás. Li e reli as escritas: "Só os mortos conhecem o fim da guerra." Pelo que sabia, foi Afrodite que aconselhou meu pai a talhar aquelas palavras. E parecia que ela (ou ele, ou ambos) queria que eu perguntasse diretamente a Annabeth sobre isso.
Vi um de meus irmãos parado na porta. Olhei-o com raiva.
– O que foi? – Perguntei, mas não consegui afugentá-lo. Filhos de Ares não se afugentam com olhares, eles até gostam de receber olhares fulminantes só para devolvê-los.
– Hoje é dia de inspeção, Clarisse. – Ele me respondeu. Praguejei e saí da cama. Inspeção não é algo legal, ainda mais para o meu chalé. Somos desorganizados por natureza. – Silena está no chalé de Poseidon. Não vai demorar a chegar aqui.
Botei todo mundo para trabalhar. Jogamos papéis rasgados, pedaços de armas, qualquer coisa que parecesse lixo no lixo. Um ou outro campista passava a vassoura pelo chalé. Todo mundo tentava organizar sua bagunça do melhor jeito possível. Alguém colocou uma música mais suave para tocar. Não que nos importássemos. Mas sempre ganhar um ou dois na inspeção já estava cansando.
Em cinco minutos, o chalé de Ares pareceu exatamente do mesmo jeito que era: Desorganizado. Precisaríamos de um bom tempo para deixá-lo no mínimo apresentável. Torci para Silena estar de bom humor, o que geralmente acontecia. Pelo menos era ela quem fazia a inspeção aquela vez e não um dos chatinhos de Apolo, ou perfeccionistas de Deméter ou sabichões de Atena.
Ela entrou e, se é que isso era possível, parecia mais linda. Ela estava vestida com a camiseta laranja escrita Acampamento Meio Sangue, um short jeans e um tênis branco. Seus cabelos castanhos estavam soltos e um pouco bagunçados pelo vento. Notei que não era só eu que estava babando nela. Decidi me recompor.
– Silena. – Limpei a garganta antes de dizer o nome dela e a cumprimentei com o olhar.
– Clarisse. – Ela sorriu e eu fiquei mais encantada. – Podemos começar? – Ela perguntou e ganhou passagem entre meus irmãos. Tive vontade de socar um por um.
– Claro. – Eu empurrei alguém e fiquei ao lado dela. Como líder do chalé, era minha responsabilidade acompanhar quem fizesse a inspeção.
Estava lado a lado com ela. Ela olhou cada canto minuciosamente, mas eu sabia que Silena ia me dar uma pausa. Quer dizer, ela quase sempre fazia isso, exceto quando brigava com o novo namorado. E, acredite, essa garota tem o poder para ter quantos namorados quiser.
Quando chegamos ao meu beliche ela se sentou em minha cama e começou a fazer suas anotações. Fiquei meio sem jeito de ficar lá em pé, parada, só a observando. Notei que todos meus irmãos tinham saído do chalé. Certamente não queriam saber da bronca que iríamos levar por conta da bagunça que tomava conta do local.
Silena parecia prestes a dar seu veredicto quando notou a espada em minha cama. Ela pegou-a, pedindo minha permissão com o olhar, e analisou as inscrições.
– Presente de seu pai? – Ela me perguntou. Apenas balancei a cabeça. – A segunda inscrição não parece muito digna do senhor das guerras.
– Também acho. – Resmunguei e me sentei ao lado dela. Ela pareceu sentir minha confusão. Tanto em relação à frase quanto em relação à Annabeth. Bom, ela era filha de Afrodite. Entendia desse troço. Silena colocou uma mão em meu ombro, como se me encorajasse a falar.
– Meu pai me escreveu uma carta quando me enviou a espada. – As palavras simplesmente saíram de minha boca. – Algo sobre perguntar à...
– À Annabeth? – Olhei-a um pouco incrédula e receosa. Tinha que ficar me lembrando que ela era filha de Afrodite. Assenti novamente. Seria inútil tentar esconder algo desse tipo dela.
– Por que... – Ela voltou a falar, tentando encontrar as palavras certas. – Por que você não tenta perguntá-la mais sutilmente? Às vezes, até mesmo numa guerra, abordagens mais suaves funcionam melhor que um ataque direto.
– Com que desculpa, Silena? Não posso chegar simplesmente e dizer: “Oi, Annabeth. Meu pai brigão talhou essa frase filosófica na minha espada e me mandou te perguntar o que significa.” – Ela riu da minha tentativa de imitação de mim mesma. Se é que isso faz algum sentido.
– Não, mas que tal na próxima Captura da Bandeira você possa fazê-la ver o que está escrito. Certamente, como filha de Atena, ela vai ficar um pouco impressionada... E pensativa. – Silena disse antes de se levantar. – Bom, nota três para seu chalé. É o melhor que posso oferecer.
– Não tenho como discordar. – Eu disse e levantei os braços como um sinal de rendição. Ela se aproximou de mim. Digo, se aproximou mesmo. Já ia perguntar o que estava errado quando ela segurou meu rosto e me deu um beijo casto nos lábios. Os lábios dela eram doces e eu pude sentir meus olhos se fecharem como se para me concentrar no cheiro suave que vinha dela.
– Boa sorte. – Ela disse e foi embora, me deixando confusa e, claro, vermelha. Nunca se sabe o que uma filha de Afrodite estava pensando.
Peguei a espada que meu pai tinha presenteado e saí do chalé pisando duro. Não sabia onde meus passos estavam me levando. Acho que tinha algo naquele beijo de Silena, um encanto, talvez. Quer dizer, ela sabia o que eu estava sentindo e era filha da deusa do amor.
Já estava na metade do caminho para os estábulos quando quase me esbarrei com Annabeth. Pela primeira vez em dias realmente estávamos frente a frente. Pude vê-la corar e desviei meus olhos dos dela. Ela tinha uma cara de espanto.
– Annabeth. – Cumprimentei-a nervosamente, quebrando o silêncio entre nós. Alguns campistas olhavam preocupados, certamente achando que iríamos brigar novamente. Idiotas.
– Estava indo te procurar. – Ela disse lançando olhares fulminantes para os curiosos que passavam. Naquela hora pensei que ela era uma filha de Ares. – Temos que conversar sobre a missão.
– Aqui estou. – Dei de ombros. Foi uma coisa estúpida de se dizer, mas bem, não fico procurando palavras.
– Não aqui. – Ela disse e com o olhar me mandou segui-la. Fechei a cara e fui com ela a contragosto. Odiava mistérios. Acho que dei um ou outro esbarrão nos campistas que pareciam decepcionados ao perceberem que não teria briga nenhuma. Pelo menos que eles pudessem ver.
Já tínhamos passado das plantações de morango quando Annabeth decidiu parar. Achei ótimo, pois já estava cansada daquele silêncio. Ela se sentou perto de umas folhas rabiscadas no chão e olhou todos os cantos para se certificar que estávamos sozinhas.
– Venho pesquisando sobre o labirinto há um bom tempo. Desculpe-me se não entrei em contato com você. É só que... – Ela parecia embaraçada. Me sentei ao lado dela, esperando que ela continuasse. – Bem, enfim. O problema do labirinto é que quanto mais pessoas entram, menor a chance de saírem. Por isso, precisamos que alguém se predisponha a ir lá.
– Qual... – Eu a interrompi. Não estava gostando daquela história de servir de exploradora. – Qual a extensão do Labirinto?
– Não sabemos. Tenho conversado com Quíron, mas parece que o Labirinto tem se expandido e mudado como todas as outras coisas na Civilização Ocidental.
– Como o Mar de Monstros estar no Triângulo das Bermudas? – Perguntei, tentando entender o que ela estava me dizendo.
– Exato! – Os olhos cinzentos dela brilharam. – É magnífico, não acha? – Eu não achava aquilo magnífico, mas dei de ombros. – Enfim, tem entradas,e saídas, por todo o país. O que pode significar... – Ela me olhou inquisidora, como se fosse uma professora perguntando algo para seu aluno preferido.
– Que pode ter uma entrada para o Acampamento? – Respondi, mais perguntando do que afirmado.
– Sim! Estaríamos em grande perigo caso as tropas de Cronos conseguissem encontrar essa entrada. Pior, caso conseguissem se orientar no labirinto.
– Se orientar? Tipo, o fio de Ariadne?
– Sim. – Annabeth assentiu, pegando seus desenhos e começando a me mostrar.
Ficamos lá um bom tempo. Ela me mostrando suas estratégias e especulações acerca da construção de Dédalo. Eu apenas ficava lá, tentando entender algo naquele monte de informações que ela jogava em cima de mim. Mas o melhor de tudo é que ela parecia confortável e entusiasmada. E o pior de tudo, ela parecia ter se esquecido do nosso beijo.
Já tínhamos praticamente terminado de discutir acerca do que ela vinha pesquisando nesses últimos dias. Estávamos voltando para o jantar quando algo me ocorreu. E as palavras saíram sem mais nem menos:
– Por que demorou tanto tempo para me procurar? Quer dizer, você já sabia isso tudo bem antes de hoje. – Vi que ela ficou séria. Mais séria do que de costume, mas não me arrependi.
– Por que... Não quero te enviar sozinha para o labirinto. – Ela meio que abaixou a cabeça, tentando esconder o rosto com os cabelos.
– Mas você mesma disse que grandes grupos têm menos chances e tudo. – Paramos. Annabeth foi para a frente de um lago e cruzou os braços, encarando a água.
– Verdade, mas... – Ela parecia estar escondendo algo de mim. Eu podia sentir a voz dela fraca. – Mas,mesmo assim, não me agrada a ideia de você descer lá sozinha.
– Acha que tenho medo? – Praticamente gritei com ela, e me arrependi no instante depois. Ela continuava de costas para mim, mas pude ver seu corpo estremecendo.
– Eu sei que você não tem medo! – Ela se virou, me encarando em um ataque de fúria. Vi que seus olhos estavam vermelhos. Então, quando ela se virou para o lago foi para que não a visse chorar? – Mas eu tenho medo de você não voltar!
Pronto! Ela despejou aquilo sem mais nem menos. Fiquei sem palavras. Diante meu silêncio, percebi os olhos de Annabeth passarem de raivosos para decepcionados. Senti-a passar correndo por mim.
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