Dirty Little Secret
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Notas iniciais
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A criação do Clube de Voluntários não tornava as aulas normais menos chatas e cansativas. Ymir só não estava dormindo profundamente na aula de História com o professor Pixis porque sua voz a impedia de relaxar, mas ela ainda não prestava atenção no que ele estava falando — parecia ser alguma coisa envolvendo a Guerra Fria e a União Soviética, mas ela não tinha certeza. Por isso, numa tentativa de fazer com que o tempo andasse mais rápido, a morena se concentrava em olhar para os seus queridos colegas de classe, se bem que isso também não era lá muito interessante.
Historia, por exemplo, se sentava muito na frente para o seu gosto. Precisava sempre ser logo na frente? Desse jeito ficava difícil admirar a garota com tanta gente ao seu redor para bloquear a visão. Nada na frente era interessante, na verdade, já que todos que estavam ali sentados estavam prestando atenção na aula e anotavam os conteúdos em seus cadernos. Não era muito divertido de se assistir. A única coisa que era digna de nota era a ausência de Annie Leonhardt.
No entanto, logo a ausência se tornou presença, porque a estudante loira abriu a porta da sala, dando um educado “bom dia” e entrando lentamente, seguindo para a sua carteira enquanto mancava um pouco. Pixis não perguntou o motivo do atraso, já estando tão acostumado com isso quanto os outros professores, e apenas deixou ela se sentar para poder continuar com a explicação.
Ymir tinha certeza que a causa do andar de Annie não devia ser apenas uma queda a caminho da escola.
Fora ela e todos os outros alunos na primeira fileira, o resto da turma não parecia estar muito interessada na aula. Eren estava jogando alguma coisa debaixo da carteira, se controlando para não começar a xingar o jogo de todos os nomes conhecidos pela humanidade, enquanto Mikasa honestamente não ligava. Na verdade, Mikasa era a única pessoa que se sentava no meio e que ligava para todas as aulas. Todas. Sem uma única exceção. Aquela garota não devia ser humana.
Jean parecia estar muito ocupado usando a internet do celular, enquanto também trocava mensagens com Marco por meio de uma folha que passava entre as carteiras. Sasha estava resistindo a tentação de lanchar antes da hora, e Connie deixava claro que sua mente não estava ali presente. Para ser honesta, Ymir sentiu um aperto no peito ao olhar para eles. Agora que ela sabia os motivos por trás das ações de cada um, ela podia dizer que simpatizava mais com ambos, e também com os outros membros do Clube.
Ela voltou a analisar a primeira fila. Armin tentava, sem sucesso, realizar contato visual discreto com Annie. Devia estar preocupado com a namorada, com certeza. Reiner e Bertholdt se mantinham impassíveis, mesmo sendo amigos da loira. Já deviam saber que tentar conversar na aula não daria resultados, e provavelmente tentariam conversar sobre o assunto no intervalo da próxima aula — até porque precisavam manter suas poses de garoto certinho e de jovem equilibrado nesse momento. Por outro lado, Historia permanecia ali, perfeita, com a postura totalmente certa e a aparência impecável. Tão doce, inteligente, bem comportada…
Mas precisava sentar sempre na frente?
Tentando evitar pensar em coisas ainda mais erradas sobre a loira — especialmente se envolvesse elas duas sozinhas naquela sala -, Ymir resolveu olhar para seus outros colegas. Blake parecia ser a Mikasa numa versão masculina. Talvez os dois fossem robôs da mesma linha de produção ou algo assim. Só desse jeito para serem criaturas tão insuportavelmente perfeitas. Já Liesel estava lendo de novo, continuando o mesmo livro dos outros dias. Já estava quase terminando, e provavelmente quando acabasse, acabaria guardando esse pra poder começar outro que já devia estar esperando por ela em sua mochila. Pelo menos aquele era um bom vício.
Joanna recebia cutucadas de Hitch, que estava sentada logo atrás dela e ria baixinho. Ymir percebeu que a menina loira estava usando uma caneta que dava choque para fazer isso, e que Joanna ignorava com todas as forças. A morena percebeu que a boca de Hitch se movia, e mesmo que não desse para ela escutar o que a bullie estava sussurrando, ela já devia imaginar que não eram coisas bonitas ou amigáveis.
Enquanto isso, Elizabeth ainda trocava mensagens pelo celular debaixo da mesa. Seria com um namorado que ela podia ter fora da escola? Ymir não sabia muito sobre a vida da beldade loira, então as possibilidades podiam ser muitas. E agora que ela sabia mais sobre os segredos de alguns de seus colegas de sala, ela ficava se perguntando quanto aos outros. Será que eles também conseguiam ser tão interessantes quanto os que ela escutara no dia anterior? As possibilidades eram tantas…
Ymir soube de relacionamentos secretos, de até onde uma pessoa podia ir por alguém que ama, de medos, traumas, necessidades, desejos, manias. Ela sabia que por trás daqueles rostinhos bonitos existiam criminosos, traumatizados, sonhadores, pervertidos, e principalmente, humanos. E era isso que mais interessava a morena.
Ela estava curiosa. Queria saber mais. A história por trás dos machucados da Annie, os motivos para o bullying de Joanna, o que estava no celular de Elizabeth, se Liesel usa a leitura para fugir de algum fantasma que ronda a sua mente, se Eren já tinha feito algo realmente grave e o que Mikasa e Blake escondiam por trás de tamanha perfeição. Ela queria saber tudo, conhecer mais e mais. Era fascinante.
E a única pessoa que sabia de seu próprio segredo era Historia. Doce Historia, tão bela e delicada, mas ao mesmo tempo tão forte e que carrega um fardo tão pesado. Ymir estava disposta a ajudá-la a carregá-lo, e até mesmo fazer mais do que isso. Era só ela ter uma chance. Uma única oportunidade, um momento de esperança para que ela pudesse se oferecer para tal.
Devia ter feito isso no dia anterior. Não conseguiu. Agora, precisava aguardar a próxima vez junto com o passar das aulas que ainda restavam naquela manhã.
Marco estava aliviado quando o sinal de fim das aulas tocou. Aquele dia parecia ter se arrastado, com até as aulas que ele normalmente achava interessantes soando monótonas. O rapaz teve dificuldade de prestar atenção aos professores, e passou a maior parte dos seis horários checando o celular e conversando com Jean por bilhetes. Talvez isso tudo fosse por estar tão nervoso quanto ao que aconteceria mais tarde. Afinal, seria sua primeira sessão de ajuda.
No dia anterior, uma vez que todos os segredos haviam sido compilados no livro de registros, Ymir definira o cronograma do clube a partir de então. Foi instituído que todos se reuniriam na casa — ou quartel general, como a morena se referira — na sextas à noite, afim de discutir os acontecimentos da semana, a adesão de novos membros e qualquer problema externo ou interno que pudesse acontecer. O jovem de sardas não podia deixar de imaginar que, por mais pragmática essa decisão parecesse, as tais reuniões também serviriam para deixar a líder a par de tudo que eles estivessem fazendo. Não conseguia também deixar de imaginar o que a morena estaria ganhando com tudo isso, ou se estaria se divertindo às custas deles todos. Aquele tipo de pensamento o fazia se sentir culpado por estar julgando a colega, ainda que não se pudesse dizer que era uma suspeita totalmente infundada.
De qualquer forma, fora também estipulado os primeiros grupos de ajuda daquela semana. Era impraticável que todos se reunissem após as aulas, por questões de horários e disponibilidade. Sendo assim, a moça de sardas combinara duplas de pessoas que ela julgava serem capaz de ajudar-se mutualmente. Nenhum dos dois teria ideia do segredo que o outro confessara, mas ao menos saberia seu objetivo ao entrar no clube, e teria a noite toda para pensar em como ajudar o colega. Marco tirara Sasha como sua dupla, o que fora um pouco problemático para o garoto. Por mais que se desse bem com todos de sua sala, não significava que ele os conhecia profundamente. O máximo que sabia sobre a garota do interior era sua origem, sua mania de comer nas aulas e, claro, o episódio da Potato Girl. Para completar, a tarefa que teria que desempenhar para ajudá-la era um pouco complicada.
“Sasha tem lembranças muito ruins que atrapalham sua vida.” Ymir dissera a ele em privado. “Quando desocupada, a mente dela vaga para pensamentos ruins. Precisa ajudá-la a se focar no presente de alguma forma.”
“E como eu faria isso? Que tipo de lembranças são essas?” Perguntara à garota a sua frente, confuso.
“Não posso te dar detalhes.” A líder do clube dera de ombros. “Você é um cara simpático e fofinho, vai achar uma forma. Nem que seja batendo nela com seu chicote.”
O comentário fizera Marco corar um pouco. Talvez devesse começar a se acostumar àquelas referências sutis, ou nem tanto. “Não vou fazer isso com uma amiga. Além do mais, BDSM não é algum tipo de tratamento psicológico. Andou lendo algumas coisas erradas, Ymir.”
“Talvez você devesse me falar mais sobre, algum dia. Eu ficaria interessada.” Respondera a moça com um sorrisinho irônico. “Mas, falando sério agora. Acho que você é um dos poucos aqui que conseguiria ajudá-la. Ela está desolada, Marco, corroída pela culpa, e se tem alguém que é sensível o suficiente para compreendê-la e apoiá-la sem pressionar, esse alguém é você.”
Tinha que admitir que aquelas palavras o surpreenderam. Não imaginara que a garota de rabo de cavalo lhe conhecesse tão bem, nem que tivesse tanta confiança em suas habilidades. E, depois daquilo, o que podia dizer? Por mais que gostasse de fazer as pessoas sentirem dor, de forma controlada e consensual, em suas horas vagas, Marco não era de nenhuma forma alguém que deixaria os amigos na mão, especialmente se o problema parecia tão desesperador quanto o de Sasha.
Era por isso que agora estava cantando baixinho para si mesmo, recostado na parede do corredor, esperando a garota terminar de copiar a matéria atrasada para que pudessem ir juntos para casa. Tinha se despedido de Jean, que tinha sido indicado para acompanhar Bertholdt, e visto a maior parte de seus colegas ir embora. Alguns deles o tinham cumprimentado, alguns estranharam o fato de ele estar sozinho, mas tinha conseguido despistar a todos com seu sorriso inofensivo.
Agora se perguntava se algo tinha acontecido dentro da sala sem que tivesse percebido. Checou o relógio, e percebeu que já tinha passado mais de meia-hora desde o final da aula. Estava a ponto de ir procurar pela moça do interior quando a porta da sala subitamente se abriu e uma cabeça de cabelos castanhos conhecidos olhou de um lado para o outro do corredor até localizá-lo.
“Ei, Marco! Desculpe a demora!” Sasha deu um sorriso arrependido quando saiu para o corredor, ajeitando a mochila nas costas. Parecia incomodada com o peso.
O rapaz deu seu próprio sorriso tranquilizador, já que não estava realmente aborrecido. “Tudo bem, Sasha. Eu não me importei realmente.”
A garota encostou a posta da sala e balançou a cabeça em resposta à declaração dele. “Ainda assim, não foi muito educado da minha parte lhe deixar esperando. É só que eu realmente preciso dessa matéria de química. Não consigo compreender metade do que a Rico fala, aquela mulher me assusta…”
Marco era forçado a concordar. Rico, a professora de química, era uma mulher severa que seguia a mesma escola de expressão facial que Levi e Mikasa Ackerman. O jovem esperou pacientemente que Sasha começasse a andar pelo corredor para segui-la. “Ela é meio rígida mesmo, mas eu posso tentar te ajudar, se quiser. Não diria que química é o meu forte, mas eu sei o suficiente para tirar notas passáveis.”
A moça negou veementemente com a cabeça, fazendo seu rabo de cavalo balançar de um lado para o outro. “Não, não, não, nem pensar! Hoje é a minha vez de te ajudar. Amanhã, quem sabe, podemos estudar química juntos. Ou física, que eu também me saio mal. Mas hoje a tarde, Marco Bodt, eu que vou te ajudar.”
Por mais inocente que a frase de Sasha tivesse sido, Marco não pôde evitar de ver uma míriade de sentidos naquela frase. Nossa, realmente, parecia que sua dita inocência tinha ido embora para a França junto com Emily. “Hmm, obrigado, Sasha. Estou feliz de ter a sua ajuda.”
“De nada! É pra isso que estamos aqui, né? Aliás, tem certeza de que não tem problema se formos para sua casa? Seus pais deixam que você leve uma amiga pra lá e coisa e tal?”
“Não tem problema nenhum. Meus pais estão trabalhando, mas eu já avisei a eles que você voltaria comigo da escola e eles deixaram sem problemas. Acho que a vizinha vai ficar de olho na gente, só acho. Não se surpreenda se ela vier pedir sal no meio da tarde.”
A risada de Sasha era alegre e cheia de vida, e Marco não pôde evitar de sorrir ao ver que ela parecia estar bem. Ele se perguntava qual seria a tal lembrança que assombrava a vida da moça. Pelo que Ymir dissera sobre não poder falar nada, devia ser relacionado a seu segredo. Se assim fosse, realmente, talvez fosse melhor para si mesmo não ficar sabendo.
Os dois seguiram pelo corredor para fora do prédio central da escola, onde ficava a sala 104, e seguiram em direção ao portão dos fundos, passando pela quadra principal e pelas piscinas. O pátio logo em frente ao prédio ainda estava cheio de alunos conversando, jogando e matando tempo até que seus pais chegassem ou que suas atividades extracurriculares começassem. Desviando de um grupo de crianças jogando vôlei, os dois seguiram sem saber pelo caminho que a própria Ymir tomara no dia fatídico em que decidira iniciar o Clube.
“Falando nisso, Sasha, o que você está planejando pra gente fazer?” O rapaz perguntou, sem disfarçar sua curiosidade. Sem dúvida, assim como ele tinha recebido informações sobre o objetivo da garota em questão, sua sarcástica líder deveria ter falado com Sasha sobre o desejo dele mesmo de encontrar um talento só seu.
A pergunta fez a moça dar um sorriso brincalhão, sem dúvida já tendo imaginado que ela apareceria uma hora ou outra. “É segredo! Você vai saber quando chegarmos na sua casa.”
“Ah, eu não posso saber o que vai acontecer na minha própria casa?”
“Não, não pode.”
Como resposta, o menino de sardas fez sua melhor expressão pensativa antes de adivinhar: “Tem algo a ver com essa sua mochila super pesada?”
Como esperava, Sasha riu mais um pouco antes de responder, fazendo uma falsa cara séria, porém mentindo com uma clareza tão grande que o garoto duvidava que uma das crianças de mais cedo fosse acreditar nela. “Minha mochila não está pesada! Deixe de ser enxerido, Marco. Espere e verá.”
“Eu só estou curioso com o que você planejou.”
“A curiosidade matou o gato, diziam na minha velha terra.” Ela fez uma pausa para cutucar sua bochecha, numa provocação. “Pode matar o anjinho também.”
“Isso seria bastante lamentável.”
“Ah, sim. O Jean e todas as garotas que querem lhe adotar e lhe encher de carinhos iriam chorar por você.”
“Você pensa em me adotar, Sasha?” Perguntou de brincadeira, porém com um pingo de malícia. Dois podiam jogar aquele jogo, pensou de forma divertida.
“Eu? Não.” Ela riu novamente, aparentemente sem perceber suas implicações. “Não tenho espaço pra um bichinho no meu apartamento.”
“Eu juro que não dou muito trabalho.”
“Vou pensar no seu caso. Dependendo de como o senhor se comportar essa tarde, vejo se te adoto.”
“Ora, Sasha, sua casa agora é por aí?” Hannes perguntou de forma bem-humorada quando a dupla de estudantes passou por ele, em direção ao ponto de ônibus onde pegariam o coletivo para a casa do garoto.
“Não senhor.” A garota interiorana sempre fazia questão de ser formal com todos os funcionários da escola, mesmo os mais amigáveis como o vigia loiro. “Só vou estudar na casa do Marco hoje.”
“Ahh, Marco está com você? Explica porque Jean estava longe dele quando passou por aqui mais cedo. Mas não explica porque ele estava andando com Bertholdt Hoover. Vocês não brigaram, brigaram?” O homem no portão franziu a testa numa expressão clara de preocupação. Hannes conhecia boa parte dos alunos do Free desde que eram criancinhas; sabia quem era amigo de quem, quem se metia em confusão ou não, conversava com eles, dava conselhos, os via crescer e , de certa forma, se apegara a todos eles como se fossem de sua família. Ver duas de suas crianças — eles sempre seriam crianças — brigando não era algo que gostasse de ver, apesar de saber que acontecia.
“Não, com certeza não.” Marco foi rápido em tranquilizá-lo. “Só entramos para um grupo de estudos novo.”
“Certo. Eu fico preocupado com essas coisas, sabe? Primeiro foi a Ymir indo embora na segunda sem a Historia, e de novo agora, então Bertholdt vai embora sem Reiner e você está com Sasha, e não Jean… Não que eu queira me meter na vida de vocês, rapazinho, longe disso. Eu só acho que amizades longas como essas são muito raras, a gente precisa valorizar os amigos que tem.”
O Anjinho de Sardas deu seu melhor sorriso gentil para acalmar o outro. “Não esquenta, Hannes. Tá tudo bem entre a gente.”
“Me alegro em saber disso, Marco.” O funcionário deu um suspiro, e então pôs a mão atrás da cabeça. “Vou me preocupar mesmo quando o Eren passar por aqui sem Armin ou Mikasa, aí sim pode considerar que um dos selos do Apocalipse foi quebrado! Enfim, eu não quero atrasar mais vocês dois e fazê-los perder o ônibus. Bons estudos, aos dois.”
“Obrigado.” Responderam Marco e Sasha em coro, e se afastaram do portão ainda rindo.
O restante do caminho foi rápido e agradável. Por sorte, nenhum dos dois parecia ficar muito tempo sem assunto, e a conversa vinha fácil entre eles, especialmente depois do estudante resolver dividir o IPod. Passaram a maior parte da caminhada conversando sobre as músicas que o rapaz de sardas gostava de ouvir, e logo a discussão evoluiu para bandas que gostariam de assistir se apresentando ao vivo. Marco preferia pop e rock alternativo; já Sasha amava metal e uma batida mais pesada. Ambos, no entanto, dividiam uma paixão por Linked Horizon, ainda que divergissem sobre qual seria a melhor música.
“Prefiro Jiyuu no Tsubasa, aquele refrão…” Comentou Sasha, agradecendo em voz baixa quando o colega segurou a porta do ônibus para que descesse. Ninguém nunca poderia acusar Marco Bodt de não ser um cavalheiro.
“É uma ótima música, mas eu mesmo prefiro Guren no Yumiya. Sei lá, não consigo me relacionar com Jiyuu no Tsubasa, me parece uma música muito… Incompleta.” Afirmou o rapaz de sardas, sacando a chave da casa de um dos bolsos da mochila.
Por fora, a casa onde Marco morava com os pais era pequena e confortável. A típica cerca de madeira pintada de branco, um pequeno jardim com flores, a pintura em cores claras do exterior, nada muito diferente das outras residências ao redor. Até o tapete era um típico “Bem-Vindo”, do mesmo tipo do que existia na sede do Clube de Voluntários, ainda que muito mais novo e bem cuidado. Por dentro, no entanto, a ilusão de normalidade era destruída: praticamente cada cômodo parecia estar decorado com algum objeto exótico, desde espelhos com molduras douradas, pinturas modernas, antigas bonecas de porcelana, almofadas de seda e até mesmo uma antiga espada samurai, na qual Sasha quase furou o dedo quando inspecionou, fascinada.
“Caramba, Marco! Quanta coisa linda!”
“Hehe, obrigado.” Aquiesceu o rapaz, embaraçado. “Meus pais gostam muito de colecionar, como dá pra ver.”
“Vocês compraram tudo isso em viagens?” Havia objetos de todos os lugares do mundo ali. Sasha não via como Marco podia reclamar de ter uma vida monótona se tivesse visto todos aqueles lugares ao vivo.
“Alguns, sim. A maioria foi pela internet, ou mesmo em antiquários. Minha mãe vai pelo menos uma vez por mês no dos Matou procurar alguma coisa nova pra nossa casa. Minha avó costuma dizer que algum dia vamos todos dormir no telhado e deixar a casa para as tralhas…” Subitamente, o garoto de sardas percebeu que sua colega ainda carregava a mochila desconfortavelmente pesada nas costas. “Bem, você pode deixar sua mochila aqui no sofá, ou lá no meu quarto, se quiser.”
“Na verdade… Posso ir pra cozinha?”
“...Mas já? Quer dizer, e o que você planejou?”
“Já já, Marco. Primeiro a cozinha! Questão de ordem!”
Suspirando e balançando a cabeça de forma divertida, o garoto deixou sua mochila sobre o sofá, ao lado das almofadas indianas, e guiou sua colega até a cozinha. Diferente da sala e dos corredores extremamente decorados, o novo cômodo era muito mais funcional, ainda que um pouco apertado. De qualquer forma, a moça logo se fez em casa, pondo a mochila em cima da mesa de jantar sem nenhuma cerimônia, e tirando um livro enorme e pesado de dentro dela.
“Você vem carregando isso aí na bolsa desde de manhã?” Perguntou o rapaz, absurdamente surpreso com o tamanho da obra e o barulho que fez ao se chocar com a superfície da mesa.
“Sim!” A garota de rabo de cavalo confirmou. “É o livro de receitas da minha avó.”
“...Por que você trouxe o livro de receitas da sua avó?”
“Não é óbvio, Marco?” Respondeu a jovem com uma piscadela. “Vou te ensinar a cozinhar!”
Pensando em retrospecto, realmente, deveria ser muito óbvio; afinal, não apenas Sasha adorava comida como também morava sozinha, o que significava que devia saber fazer um certo número de atividades básicas para se manter numa casa — incluindo cozinhar. Já o próprio Marco não era muito bom nesse tipo de coisa, sabendo apenas fazer um ovo ou arroz para não morrer de fome. No momento em que a garota revelou o que planejara, ele não pôde deixar de admitir que era uma ótima ideia. Cozinha era um talento útil, além de uma arte. Caso não fosse algo em que o garoto fosse excepcional, ao menos seria algo para impressionar pretendentes no futuro.
“Foi por isso que você disse para virmos pra cá sem almoço?” Perguntou, lembrando do que Sasha dissera no dia anterior.
“Sim, estou fazendo esse sacrifício por você, anjinho. Veja como estou focada.” A moça fez uma expressão de determinação que sem dúvida era inspirada em Eren, fazendo o rapaz rir.
“Ah, sem dúvidas. Não vou me esquecer de seu sacrifício heróico amanhã.”
“É bom que não. Agora, me diga, que estilo de comida você prefere? Campestre, japonesa, chinesa, italiana…?” Só os nomes e possibilidades já pareciam fazer a garota de rabo de cavalo quase babar.
“Gosto de massas.” Respondeu Marco, um pouco pensativo. Além disso, massa era um prato que poderia fazer facilmente se estivesse sozinho.
“Ótimo, vamos fazer um bom macarrão hoje então. É simples, rápido e uma delícia.” A garota parou numa página específica do caderno, uma receita de macarrão à puttanesca. “Aqui, essa é ótima, eu comi uma panela inteira sozinha.” Era incrível como ela conseguia mencionar esse tipo de coisa como um comentário de passagem. “O primeiro passo é pegarmos os ingredientes e separarmos tudo logo. Assim, não tem que ficar correndo pela cozinha atrás das coisas. E se precisar usar medidas, tem que usar a mesma colher, mesma xícara, ou então a quantidade fica toda errada e você pode acabar com um pudim de pedra como aconteceu comigo um dia.”
Havia tantas coisas de interesse naquela frase que ele mal sabia por onde começar. “Pudim de pedra? Como você conseguiu isso, Sasha?”
“Acho que eu pus creme demais? Não sei, só sei que fui tentar mexer o negócio e a colher não se movia nem com força bruta. Limpar a panela foi um sufoco que durou horas.”
“Devo reconsiderar a ideia de aprender a cozinhar com você?”
“Claro que não. Eu tinha dez anos quando isso aconteceu, melhorei muito desde então. E não queimo um fogão há quatro anos.” Acrescentou, orgulhosa.
“De qualquer forma, eu tenho um alarme de incêndio em casa.”
“É uma boa ideia. Enfim, vamos começar?”
“Como quiser, professora.” E sorriu.
Aproximadamente quarenta minutos mais tarde, Marco examinava a bagunça que se tornara sua cozinha. A pia estava cheia de panelas, pratos e talheres sujos até a borda, o fogão estava cheio de respingos de molho, havia água derramada no chão de quando a mangueira da máquina de lavar soltara, e nem começara a falar do estado do balcão. Sasha parecia ter pêgo uma briga com a mangueira, ou sido derrubada em uma piscina, graças ao vazamento que tiveram que consertar. Ele mesmo também não devia estar muito melhor. Iria ter que lavar o uniforme o mais rápido possível para tirar as manchas de molho de tomate da camiseta. No momento, no entanto, ele não dava muita atenção para essas coisas.
“Minha nossa, não acredito que cozinhei isso.” Admitiu para a colega, enquanto provava mais uma garfada do macarrão que fizeram. “Pode ser a fome, mas é o melhor macarrão que já comi.” E realmente achava isso, não era um elogio de boca pra fora. Apesar de ter hesitado um pouco no começo, por inexperiência, Sasha era uma professora paciente e metódica, e logo o garoto notou que começara a pegar jeito, o que o deixou feliz. Marco não sabia que era capaz de fazer essas coisas. Era bom se sentir fazendo algo útil.
“É a fome e a receita da minha avó, as duas juntas são imbatíveis.” Declarou a moça com orgulho, tendo terminado já seu primeiro prato e se servindo de outra porção. Fazia tempo que não tinha se divertido tanto, realmente. Não apenas Marco era um bom aluno e tinha feito tudo direitinho, ele sempre tinha comentários divertidos para deixar a conversa leve. Por que mesmo que eles não se falavam tanto antes? Estava claro que o garoto de sardas era uma pessoa tão gentil, tão legal quanto...
“Ei, deixe um pouco mais pra mim.” A voz dele a tirou de seus pensamentos antes que tudo fosse por água abaixo. Sasha agradeceu mentalmente. “Vou querer repetir também.”
“E não vai querer sobremesa?” Perguntou ao colega da forma mais inocente que conseguiu.
A reação do rapaz de sardas foi olhar para a conflagração nuclear a seu redor, parecendo estar em dúvida. “...A cozinha vai sobreviver a uma nova tentativa?”
“Só vamos saber se tentarmos.” Respondeu a morena, levantando os olhos do prato. Os dois se encararam por um instante, e então ele baixou os olhos novamente, rindo.
“Que mal faz em tentar?”
Bertholdt devia confessar que sair da escola sem o melhor amigo era estranho. Os dois moravam perto e eram amigos desde crianças, então a falta de Reiner era algo que, em parte, incomodava o moreno. No lugar do loiro, quem caminhava ao seu lado era Jean, e ambos seguiam Ymir até a casa que ela dizia ser o quartel general.
Era óbvio que ele tinha sido escolhido como dupla do Jean para ajudá-lo em seus estudos. Para ser honesto, o moreno não estava muito acostumado a estudar com outras pessoas que não fossem Reiner ou Annie, mas esperava que com o outro garoto não fosse ser muito diferente. Se bem que, após ela tê-lo chamado para conversar em privado, ele soube que sua função ali não seria apenas de ser professor nas horas vagas.
“Jean tem problemas de comportamento. Ele é esquentado e tem o pavio curto. Compra muita briga e por isso leva muitas advertências e suspensões. Se continuar desse jeito, vai ser expulso independente das notas.” Ymir disse.
“E você acha que eu posso ajudá-lo com isso? Ele apenas responde a provocações de um jeito que totalmente o contrário do meu… Não acho que ele vá querer ficar que nem eu.” Ele respondeu, ligeiramente preocupado. Sabia que Jean era mesmo um menino sem muita paciência, mas seria mesmo inteligente deixar essa obrigação com ele?
“Ele não vai ficar como você. E você vai aprender com ele também. Jean vai te mostrar que você não precisa engolir tudo de cabeça abaixada e que você pode e deve se defender quando precisa. Já você vai ensiná-lo os momentos para fazer isso e também como ele pode demonstrar o que sente sem entrar em confusões maiores.” A moça explicou, e o moreno se viu forçado a concordar. Havia mesmo uma certa lógica por trás daquela explicação.
“Entendo… Então vai ser mesmo uma troca mútua.” Bertholdt comentou, ainda um tanto pensativo, coisa que a garota percebeu.
“Exato. E não fique preocupado. Você não precisa fazer milagre com ele do dia pra noite, até porque ele também não vai fazer com você. Vamos nos ajudar e melhorar gradualmente. Apenas faça o que achar que tem que fazer. Você é um garoto inteligente e sensível, Bertholdt. Sei que vai conseguir.” A moça de sardas sorriu, numa tentativa de deixar o outro menos nervoso. Ele realmente estava precisando de ajuda…
Não havia mais nada que ele pudesse fazer que não fosse agradecer ao gesto de apoio moral.
Desta vez, ele também não sentiu tanto medo quanto no dia anterior na hora de entrar na casa. Ymir sabia o que estava fazendo. Se ela fosse pega, invariavelmente ele e o outro rapaz também seriam pegos. Não havia como ninguém se safar caso isso acontecesse.
Tudo estava do mesmo jeito que fora deixado no dia anterior. Aquela rua era bem tranquila, a casa tinha um bom espaço, então era um lugar bom para se estudar. Ele só não sabia direito o que Ymir ficaria fazendo por ali.
"Vocês dois cuidem da casa. Eu vou sair. Tenho assuntos a resolver... Não se preocupem. Volto antes de anoitecer." A morena anunciou, para a surpresa de ambos. Então ela os deixaria ali, sozinhos, numa residência que nem era deles e que eles estavam ocupando ilegalmente?
"Tem certeza que isso é seguro?" Jean questionou, levemente nervoso. Normalmente não ligaria pra esse tipo de coisa, mas ainda assim não queria se meter em problemas por causa do Clube de Voluntários. Os da escola já eram mais do que suficientes.
"Claro que sim, se não fosse eu diria pra vocês se reunirem em outro lugar. Vocês só precisam ficar quietos e não deixar tudo uma bagunça depois. Acho que conseguem isso." Ela respondeu, já se preparando para sair. A garota encarou a dupla de jovens, e analisou-os rapidamente. Os dois pareciam estar nervosos, mas felizmente não ao ponto de estarem prestes a entrar em um colapso nervoso.
Bem, de uma certa forma até que aquilo ajudaria os dois. Jean não poderia sair gritando porque isso atrairia a atenção dos vizinhos, e Bertholdt ia ter que aguentar ficar ali durante toda a tarde. Além disso, eles inevitavelmente teriam que conversar, se conhecerem melhor e enfim poder se ajudarem com seus respectivos problemas.
Por isso, ela sorriu para os dois rapazes antes de sair da casa sorrateiramente e como se nada tivesse acontecido.
"É, parece que agora somos só nós dois. Uma casa inteira pra dois adolescentes por horas. Me pergunto o que pode acontecer..." Jean comentou, com um certo ar de malícia que Bertholdt percebera, deixando-o ligeiramente envergonhado.
"Você usaria aqui para... Esse tipo de coisa?" O moreno questionou, com as bochechas levemente ruborizadas. Mesmo um garoto tímido como ele sabia sobre certas coisas da vida, e por isso não pode deixar de imaginar como seria estar a sós com alguém que gostasse numa casa vazia. Para o jovem, soava como algo bastante interessante, mas ele não achava que teria coragem de fazer isso logo no quartel general. Talvez quando fosse mais velho e tivesse sua própria casa adquirida com seu dinheiro. Aí sim ele poderia desfrutar de tudo à vontade — da privacidade, dos cômodos e da companhia.
"Tem dois quartos lá em cima. Dá pra dois casais. Se bem que depois teria que arrumar os lençóis e tudo... Seria problemático de limpar e ajeitar, ainda mais quando se está cansado. Eu pelo menos não acho que teria paciência pra fazer faxina logo depois disso. Até porque acho que a Ymir mataria quem decidisse usar aqui como motel. Melhor não arriscar." O mais baixo disse, sentando-se no sofá de forma despojada logo depois de deixar sua mochila no chão.
"É verdade... E eu acho que ela castraria antes de matar. Não quero perder minha honra, obrigado." Bertholdt brincou, achando-se um tanto sem graça, mas aquilo fez o outro jovem dar uma boa gargalhada. Jean achava que aquela tarde com o moreno seria estranha, mas o garoto tinha um senso de humor e era humano, no final das contas. Até que conhecê-lo melhor não parecia ser uma má ideia agora.
"Melhor morrer com honra do que sem ela! Não esperava que você fosse de fazer esses tipos de brincadeiras, Bertholdt. E o que você está fazendo aí na mesa da cozinha?" O outro falou, levantando-se ao ver que o mais alto estava mexendo nos conteúdos da sua própria mochila na cozinha, que era toda branca e de tamanho médio, com uma mesa onde poderia jantar uma família pequena.
"Eu sou humano, Jean. Tímido, mas humano. Estranho seria se fosse o Blake ou a Mikasa no meu lugar. E eu estou preparando as coisas pra gente estudar. E comida. Não dá pra estudar de barriga vazia." Ele afirmou, enquanto tirava seu caderno e alguns pacotes de biscoito e lanches da mochila. O garoto viera preparado, já sabendo que não teria comida na casa e que ambos ficariam um tempo estudando. E Jean devia admitir que o rapaz estava certo no que falara anteriormente, em todos os sentidos.
“Se fosse Blake ou Mikasa, eu acho que teria apanhado depois de falar algo assim… E eu vi que você corou. Estava pensando besteira, né? Por acaso tem alguém que você goste?” O garoto perguntou, sentando-se na mesa junto com Bertholdt, que sentiu o rosto ficar vermelho novamente com aqueles questionamentos.
“No momento eu não estou gostando de ninguém… Mas não posso negar que pensei em algumas… Coisas e… Ah, isso é embaraçoso…” O moreno disse, tentando não cobrir o rosto com as mãos pela vergonha. Não estava muito acostumado a conversar sobre esse tipo de assunto, ainda mais com pessoas que ele não conhecia direito.
“Relaxe. Todo mundo pensa nesse tipo de coisa de vez em quando. É normal. E você não precisa ficar falando pra todo mundo o que imagina, né? Só fala se quiser, e com quem quiser. Ninguém lê mentes, então não tem com o que se preocupar.” Jean falou, tranquilizando o mais alto, que até mesmo sorriu em resposta.
“Obrigado, Jean. É só que eu não sou muito acostumado a falar dessas intimidades… Mas você está certo. Ainda bem que ninguém sabe ler mentes. Acho que seria muito estranho você saber dos gostos dos seus amigos, professores, pais, até estranhos da rua. Sem falar dos segredos e tudo o mais.” Bertholdt comentou, rindo um pouco de suas suposições enquanto abria o primeiro pacote de biscoito, oferecendo primeiro ao outro jovem, que aceitou pegar um, para então começar a comer.
Jean era forçado a concordar que aquela ideia era muito perturbadora quando vista por esse ângulo que o mais alto apontara. Definitivamente, ainda bem que ninguém sabia ler mentes.
“Isso seria assustador. Ainda bem que não existe! Mas então, Bert, o que é que você planeja para mim hoje?” Bertholdt terminou de mastigar e engolir o que estava na boca antes de abrir o próprio caderno, procurando as páginas com o que tinha anotado naquele dia.
“Como é só o começo, acho que revisar o que vimos hoje está de bom tamanho. É melhor você pegar suas coisas enquanto eu me organizo aqui, Jean.” O jovem falou, e assim que terminou o outro percebeu que tinha deixado suas coisas na sala, e levantou-se para buscá-las. Assim que ele retornou, viu que o moreno só estava esperando por ele, com o caderno aberto no que devia ser a matéria de inglês.
“Como você é organizado! Meu caderno é uma bagunça… E sua letra é bonita também. A minha é um desastre. Espero que você consiga ler.” Jean comentou, também pegando o próprio caderno e logo encontrando a matéria que queria.
Ao contrário das anotações de Bertholdt, que eram muito bem catalogadas em tópicos, Jean escrevia de qualquer jeito, deixando tudo desorganizado em frases soltas seguidas de parágrafos gigantes, observações feitas nos cantos das páginas e também alguns rabiscos, contrastando com a organização impecável do garoto alto.
O moreno deu uma olhada rápida no caderno do colega, e deu um sorrisinho.
“Não se preocupe. A letra do Reiner é pior que a sua. Seu problema só é a desorganização… Isso aí é pra ser a Mikasa?” Ele apontou para um rascunho no canto da página, que parecia ser de uma garota com cabelos pretos. Não era muito bem desenhado, até mesmo porque parecia ter sido feito às pressas e de caneta preta, mas era reconhecível.
“É sim. Se quiser qualquer dia eu te desenho, mas vai ter que ser num espaço maior.” Jean falou, simpático. Logo depois os dois jovens começaram a revisar todas as matérias daquele dia enquanto faziam também pequenos lanches.
Foi mais agradável do que ambos imaginavam. Bertholdt sabia explicar bem os assuntos, sem se enrolar muito e também de forma clara e fácil de entender. Para alguém que não conseguia falar em público direito, ele era um excelente professor particular. Era até mesmo surpreendente. Já para o moreno, até que seu aluno não era assim tão problemático. Tinha suas dúvidas, mas no geral até que conseguia entender tudo rapidamente, sem precisar de explicações muito longas ou repetitivas. Ele achava que o outro era capaz de tirar notas boas, era só deixar de ter preguiça de estudar e se focar um pouquinho mais nas aulas. Sua situação podia estar ruim, mas não era impossível de ser melhorada. Pelo menos nesse quesito ele tinha como salvar o ano.
“Nossa, você fala muito bem! Tô impressionado. E nem foi tão porre quanto eu achava que ia ser.” Jean viu que seu comentário fizera o moreno ruborizar mais uma vez. Ele não devia estar muito acostumado a receber elogios.
“O-obrigado! Eu achava que não ia me dar bem, mas que bom que gostou. Acho que está bom por hoje, não é? Ou você tem alguma dúvida ainda?” O companheiro negou com a cabeça, relaxando mais na cadeira e pegando um dos pacotes de salgadinhos para si.
“Não mesmo, senhor professor. Agora é só esperar a Ymir voltar… Enquanto isso, já viu aquele filme novo que tá passando no cinema?”
A biblioteca estava bastante tranquila naquele horário. Com a exceção de alguns alunos do terceiro ano que revisavam a matéria do dia, Historia estava sozinha, e era assim que ela gostava. Não que não gostasse da companhia de seus amigos — apenas queria manter um horário para si mesma, e o trabalho de meio período na biblioteca da escola lhe propiciava o momento perfeito. Quase ninguém frequentava o local durante seu turno, que era praticamente uma janela livre em que podia ficar desocupada e longe de casa. Especialmente longe de casa.
Naquele dia, no entanto, o objetivo da tarde seria ajudar Connie com seus estudos, como havia sido combinado no dia anterior. Sendo assim, ela lia o volume mais recente de Tess Gerritsen enquanto esperava seu colega chegar para o começo da aula. Não estava se sentindo incomodada por ter que estudar, já que costumava fazer isso sozinha e tirava boas notas. O problema era saber o motivo do rapaz estar tão atrasado. O horário de almoço já tinha terminado há uma hora atrás, e ainda nada dele. Depois de checar o relógio uma última vez, estava pegando o celular na mochila quando a porta se abriu repentinamente e seu colega chegou arfando, fazendo com que os alunos mais velhos levantassem rapidamente os olhos dos livros devido ao barulho.
“Oi, Christa. Desculpe a demora, eu fiquei até tarde copiando matéria de química, e aí tive que atender uma ligação muito importante… Problemas no meu trabalho.” Anunciou o garoto, logo depois de recuperar o fôlego perdido. Historia deu um sorriso compreensivo, fechou seu livro com um estalido e indicou a cadeira em frente à ela para que Connie se sentasse.
“Tudo bem, Connie. Eu só fiquei preocupada achando que algo tivesse acontecido. Quer uma água ou algo do tipo? Você parece muito cansado.” Realmente, o rosto do jovem estava vermelho ainda pela corrida, e ele se largou no local indicado com um baque pesado. O que mais chamou a atenção da loira, no entanto, foram as rugas de preocupação em sua testa. Seja lá o que tivesse acontecido no trabalho, parecia ter sido sério.
“Não precisa não, eu vou ficar bem. Só preciso respirar um pouquinho.” Afirmou Connie, percebendo a desconfiança nos olhos azuis de Christa. Não podia deixar que ela soubesse. Sabia que a garota provavelmente não o julgaria se resolvesse falar alguma coisa — uma pessoa tão gentil como a filha do prefeito Reiss não se importaria em ajudar um amigo com problemas, ou ao menos em ouvi-lo desabafar. No entanto, falar da ligação iria implicá-lo. Historia não era tola, e certamente notaria que havia algo maior por trás das cargas desaparecidas que seu amigo mecânico avisara. Algo como a batida policial que saíra no jornal da hora do almoço.
Apenas pensar nisso já fazia um nó de preocupação surgir em sua garganta. Se houvesse qualquer tipo de pista naquelas peças encontradas no distribuidor, qualquer tipo, que ligasse de volta para ele, a vida de Connie Springer estava acabada.
“O que era no seu trabalho?” A voz da moça o tirou de seus pensamentos e teorias desesperados. “Teve problemas com seu chefe?”
“Ahn…” O rapaz engoliu em seco, pensando em uma justificativa aceitável. Em algum lugar, lembrou de ter lido — ou talvez assistido- que as melhores mentiras vinham com um fundo de verdade. Optou por esse caminho. “Um dos meus colegas fez uma besteira. Nada muito sério.”
A garota, por seu lado, não estava totalmente convencida. Se ausentar tanto tempo apenas por uma besteira de um colega? Algo não ornava nesse relato. “Então por que se preocupar tanto com isso? Não foi nada com você, né?”
“É que eu estou em estágio, sabe? Não sou formalizado ainda. Tenho medo que a besteira desse meu colega me prejudique.” A mentira veio tão facilmente para Connie que ele até se surpreendeu. E ela fazia sentido com sua primeira justificativa. Estava ficando melhor nisso.
“Ah, entendo. Mas, bem, caso algo aconteça, é só ser honesto com seu chefe, não? Meu avô costumava dizer que a honestidade é o melhor argumento. Não há nada melhor que dizer a verdade.” E veja como isso terminou bem para ele, não conseguiu evitar de pensar. Falar a verdade, algo tão sério para vovô, e exatamente por sua incapacidade de mentir ele terminou como um montinho de cinzas.
“É, tem razão.” Concordou o garoto careca, mais como uma forma de acabar logo a discussão desconfortável e mudar de assunto. “Acho que estou me preocupando por nada mesmo… Vou fazer isso. Seu avô tinha uma filosofia legal.”
“Sim, eu concordo.” Historia pegou a deixa da mudança de assunto e decidiu não insistir. Estava aqui para resolver o problema escolar de Connie, não quaiquer outros que ele ainda não se sentisse confortável em discutir. “Falando em filosofia, vai querer estudar isso hoje?”
“Na verdade, eu gostaria de revisar mais geografia e… Se me permite… História.” O garoto não conseguiu conter uma gargalhada. “Estudando História com a Historia. Minha nossa, eu vou pro inferno com esses trocadilhos ridículos.”
“Nunca ouvi esse antes.” A loira mentiu calmamente, sem sequer mudar de expressão. “Devia sugeri-lo ao Pixis, os dele estão começando a cansar.”
Connie sorriu, aquiescendo. O professor de história, a matéria, era conhecido tanto por seu jeito pomposo de falar como pelas brincadeiras que gostava de fazer com seus alunos e colegas de profissão. Logicamente que não deixaria o nome da moça passar em branco, e tinha um trocadilho novo a fazer a cada nova aula. “Hehehe, fazer o quê, se eu tenho um dom para a comédia?”
“Talvez devesse trabalhar com stand-up. Você se daria bem.” Sugeriu a moça, sendo sincera. Conseguia mesmo imaginar o rapaz careca em um palco, usando aquela língua afiada para fazer as pessoas rirem.
Connie fez sua melhor expressão pensativa. “Vou pensar nessa possível carreira. Primeiro preciso terminar a escola, e pra isso preciso não reprovar. Então, realmente, é melhor aproveitarmos o tempo perdido começando logo a revisar.”
Historia já tinha ordenado os livros sobre a mesa antes que seu colega chegasse, e agora esperava que o rapaz tirasse o caderno e lápis da bolsa, o que ele logo fez. Não havia muito no caderno de Connie, que quase não anotava nas aulas, em parte por não conseguir se manter acordado. Em contraste, o caderno que a loira checou era um primor, com o conteúdo organizado em tópicos, diferentes cores de caneta para cada tipo de assunto e informações adicionais em post-its coloridos. Após alguns instantes de serena contemplação de seu material, a garota voltou-se para o colega. “Muito bem, que parte da matéria gostaria de rever?”
“Ah, eu sinceramente não entendi nada que veio depois da Revolução Industrial.” Confessou o garoto, com a mão atrás da cabeça e um riso sem graça.
Levando em conta que o organizado caderno de Historia indicava que o assunto atual era Guerra Fria e Mundo Bipolar, realmente, ele estava muito atrasado na matéria. Apenas uma tarde de estudo não seria suficiente. Pegou o celular de dentro da mochila e olhou sua agenda, pensando em como fazer. “Hm, é bastante conteúdo. Não vamos conseguir cobrir tudo hoje. Deixe-me ver um horário aqui pra que possamos continuar estudando...”
O rapaz não pôde evitar de se sentir culpado por aquilo tudo. Provavelmente a moça tinha muitas obrigações, importante como era. Tinha o trabalho de meio-período, participava de clubes, e ainda tinha as propagandas com o pai… E lá estava ele, fazendo-a gastar seu tempo graças à preguiça e noites mal-dormidas de um ladrão de carros. O que sua mãe diria sobre o filhinho dela nessa situação?
“Desculpe, Christa. Não queria te dar trabalho dessa forma.”
A frase surpreendeu a garota, especialmente pela culpa explícita naquelas palavras. Ele parecia tão triste com a cabeça baixa daquele jeito. “Você não me dá trabalho, Connie. Estamos nessa para ajudar uns aos outros, não é?”
“É… O problema é justamente esse. Você sem dúvida vai me ajudar bastante. Caralho, pode acabar salvando meu ano, se eu não arranjar mais suspensões. E eu? Como vou ajudar você? Você é absolutamente perfeita. Suas notas são ótimas, os professores lhe adoram, os outros alunos, é linda, é a filha do homem mais poderoso de Rose Fields… Como ajudar uma pessoa que não tem problemas?”
Foi uma confissão tão súbita que Historia ficou parada por alguns instantes, pensando em como responder. Havia duas opções possíveis: mentir na cara dura, o que fizera por muito tempo, ou ser sincera. Tinha decidido para si mesma que tentaria ao máximo não faltar com a verdade com seus colegas de clube — no entanto, havia coisas que ela não gostaria que Ymir soubesse, quem diria Connie. Talvez houvesse um outro jeito...
“Assim você me deixa encabulada…” A loira deu uma risadinha adorável. “Pra falar a verdade, eu tenho problemas sim. A Ymir pode ser minha melhor amiga, mas eu não teria entrado no Clube de Voluntários se não tivesse.”
A declaração deixou Connie curioso. O que poderia preocupar tanto uma pessoa que tinha a vida praticamente perfeita? Ele não conseguia imaginar algo que perturbasse aquela menina bondosa e tranquila, ou a vida de princesa que levava. Só podia deduzir que ela estivesse mentindo para deixá-lo mais confortável. Christa era o tipo de pessoa que sempre pensava nos outros antes de si mesma.
Pensando nisso, o rapaz perguntou, o mais educadamente que conseguiu: “Foi mal se eu estiver sendo metido, mas… Que problemas são esses? Quer falar sobre isso?” Se não poderia ajudá-la realmente, ao menos tentaria de alguma forma mostrar que a loira tinha seu apoio.
“...Eu estou… Confusa… Sobre certas coisas na minha vida. Coisas que quero fazer. Coisas que tenho vontade de fazer. Muita vontade.” Ela engoliu em seco, tentando esconder em vão sua insegurança. Seu pai sempre dizia para parecer confiante e inabalável, uma estratégia inteligente para garantir a simpatia de eleitores e colegas. Os Reiss não cometiam falhas por fazerem todos acreditar que eram incapazes de cometer falhas. No entanto, não era isso que o coração acelerado de Historia afirmava no momento. Sabia que, se continuasse falando, só se meteria em problemas, então que a melhor saída seria mudar de assunto. Pôs sua máscara mais inocente e prosseguiu, como se nada tivesse acontecido alguns minutos antes:
“Falamos sobre isso amanhã, okay? Hoje é meu dia de ajudar você. Podemos começar?”
Connie notou logo que havia algo errado. Não acreditava que tinha visto Historia hesitando. A moça sempre parecera tão segura de si, como se fazer tudo com perfeição fosse para ela tão normal quanto respirar. E, no entanto, ela agora parecera uma simples humana comum, com seus medos e dúvidas sobre suas decisões. Um momento muito breve, ainda que inegável. Ele precisava admitir que estava curioso. Seja lá o que fosse aquilo que a loira queria desesperadamente fazer, precisava ser muito sério para abalá-la daquela forma. Resolveu só balançar a cabeça e deixar a questão de lado. Pressionar Christa seria errado e bastante insensível de sua parte. Que a garota lhe contasse apenas o que achava necessário.
E havia aquela estranha sensação de conforto em saber que não era o único que não conseguia ser sincero naquele momento, quando pôs seu sorriso falso e assentiu.
“Claro. Claro que sim.”
Foi estranho para Armin ter que sair sem estar acompanhado de Eren e Mikasa. Normalmente, ele ficaria muito nervoso, mas estar com Reiner serviu para acalmá-lo. O loiro servia quase como seu próprio escudo humano contra bullies, o que tornou a caminhada até o prédio em que se realizavam os esportes alternativos, como xadrez, bastante pacífica e especialmente segura. Ele sabia aonde o loiro alto o estava levando. Ali tinha um pequeno conjunto de salas que servia como uma pequena academia para os alunos interessados em fazer musculação, do qual podiam usufruir de graça. Nunca treinara lá, mas sabia que seus amigos Eren e Mikasa o faziam, assim como algumas outras pessoas de sua sala.
"Você não se esqueceu das roupas para se trocar, certo?" Reiner o perguntou, assim que chegaram. Não dava para se exercitar com o uniforme normal da escola, que atrapalharia os movimentos e ficaria encharcada de suor. Por isso o garoto estava com uma troca de roupas na mochila, e como ele não tinha nada em casa que fosse parecido com roupas de academia, ele trouxera o uniforme da educação física — que segundo o outro estudante, também serviria para esse propósito.
"Trouxe sim. Vou me trocar e logo volto." O menino disse, indo então até o vestiário que ficava ao lado da academia para fazer isso.
"Não se preocupe. Eu vou me trocar também. Não posso te deixar treinando sozinho, e muito menos te ensinar como fazer tudo certo com o uniforme normal." Aquilo a princípio surpreendeu Armin, mas de fato fazia muito sentido. Seria muito egoísta da sua parte se apenas ele fosse usar os equipamentos, e seria mais fácil explicar sobre o funcionamento deles demostrando como se faziam as séries de exercícios.
Reiner olhou de relance para o colega antes dele se despir no vestiário. Ele realmente parecia ser um alvo de bullying, segundo os relatos de Ymir. Para ser sincero, achava a ideia de treiná-lo fisicamente para poder se defender em caso de necessidade algo compreensível, mas não podia negar que tinha se sentido desconfortável ao saber que essa responsabilidade ficaria com ele.
Apenas quando a garota explicou-lhe que aquilo o ajudaria a controlar e conhecer melhor seus próprios limites físicos foi que ele concordou. Além disso, Armin era um jovenzinho bem esperto, ele sabia disso por sentar-se perto dele praticamente todos os dias. Ele devia ter algum plano para ajudá-lo também no dia seguinte. Ao menos era o que esperava.
Quando ele viu o outro tirar a camisa do uniforme, suas suspeitas foram confirmadas. Aquele menino nunca devia ter pego peso na vida, e aquela seria sua primeira vez. Era magrinho, meio desajeitado e sua carne parecia ser apenas o suficiente para cobrir os ossos para que eles não ficassem aparecendo a cada vez que ele respirasse. De qualquer modo, precisava começar de algum lugar. O próprio Reiner também não nascera do jeito que estava atualmente, e também já fora um garoto magricela, por mais que agora isso só pudesse ser comprovado em suas fotos de quando era mais jovem.
Já Armin ficou até mesmo um pouco admirado quando o mais velho tirou o uniforme. Sabia que ele era forte, mas nunca tinha visto seu corpo de forma tão próxima e detalhada por nunca ter feito educação física com ele. Aquilo com certeza era fruto de muito trabalho duro, suor e disciplina. O corpo de Reiner era invejável, bem cuidado e com músculos visíveis que com certeza não estavam ali apenas de enfeite. Não era por nada que o loiro era considerado tão atraente e vivia recebendo cantadas de muitas garotas — e até mesmo alguns garotos — por aí. Mesmo Armin, que era completamente heterossexual, sentia-se com vontade de tocar um pouco.
Reiner devia tentar a carreira de modelo se continuasse desse jeito. Iria fazer muita gente feliz e levaria os fãs à loucura.
"Minha nossa, como você é forte! Dá até inveja..." Armin comentou, completamente sincero e surpreso. Para alguém da idade deles, ter um físico tão bem trabalhado era um grande feito. O garoto mais velho já tinha começado a se vestir, mas suas roupas não escondiam o que ele tinha.
"Eu apenas treino faz um bom tempo. Você também pode ficar assim se fizer que nem eu e se esforçar bastante. Quando eu comecei, era fininho que nem você, e olha como estou agora." O cérebro de Armin deu um tilt tentando imaginar o amigo sem todos aqueles músculos. Mas se ele dizia, então devia ser verdade.
"Se eu ficar pelo menos um pouco mais forte já vai estar de bom tamanho. E eu nunca peguei nessas máquinas ou pesos... Espero que não se incomode de me ensinar." Nesse momento, o jovem percebeu o quanto devia ser incômodo para o mais velho ter que ser o responsável por isso, e como ele mesmo devia ter tido a iniciativa de começar a treinar antes de toda aquela história do Clube de Voluntários.
No entanto, ele sabia porque nunca fizera isso. Tinha medo dos bullies, e lhe faltava coragem para acompanhar Eren e Mikasa em seus treinos. Pelo menos com Reiner ele estava seguro e sabia que não seria julgado. Para ser sincero, sentia-se calmo perto dele não apenas por ele ser forte, mas também pelo seu jeito amigável e até mesmo protetor de ser.
Aquele rapaz parecia não ter medo de nada e estar sempre com tudo sob controle. Mas a verdade é que isso era apenas fachada. Reiner morria de medo todos os dias, e praticamente o tempo todo. E ele tinha medo especialmente de um dia perder todo o controle que tinha.
Exatamente como acontecera no ano anterior.
Agora, todavia, ele precisava tirar esses pensamentos de sua cabeça. Tinha que se concentrar em Armin, em como iria ajudá-lo naquela tarde e pelo resto do tempo graças ao Clube de Voluntários. O menino confiava nele, e ele precisava fazer isso valer.
"Não me incomodo de jeito nenhum. Mas não se preocupe, não é muito complicado. Hoje vamos fazer um treino misto, mas nos próximos dias você vai alternar entre exercícios de braços e pernas. Vou fazer os programas pra você e te acompanhar no começo até você pegar o jeito. A não ser que queira sempre treinar comigo, até porque o tempo passa mais rápido quando se tem alguém pra conversar." Armin com certeza ia pedir para acompanhar o loiro sempre. Enquanto não se sentisse totalmente seguro, não gostaria de andar sozinho pelo colégio. Por sorte, Reiner não via problema nisso.
Os dois garotos terminaram de se vestir e seguiram para a academia. Era hora de começar o primeiro dia de treino de Armin. O primeiro passo para se livrar dos bullies.
O primeiro passo para se tornar alguém independente.
Sasha ajudou Marco a limpar toda a bagunça que eles fizeram na cozinha antes de sair e voltar para seu apartamento. Nessa hora, os pais do garoto ainda não tinham chegado do trabalho, o que significava que ainda tinha a casa só para ele por mais algumas horas. Os pensamentos que invadiram sua cabeça quando ele percebeu isso o fizeram sorrir de canto e corar de leve.
Ele estava mesmo com a mente poluída naquele dia. Sua inocência com certeza tinha ido embora para a França junto com a Emily. E como tinha ido embora!
Marco ainda se lembrava muito bem de como a perdera na sua primeira vez. Como poderia esquecer? Era uma tarde agradável e ensolarada e Emily estava linda, com os cabelos loiros curtos e ondulados, os olhos castanhos — da cor do chocolate — por trás dos óculos ovais e usando um vestidinho listrado de vermelho e rosa que ia até os joelhos. Os vizinhos tinham saído e ficariam fora durante toda a tarde, assim como já tinham feito outros dias — foi num desses em que eles se beijaram pela primeira vez, e ainda faziam isso, mas nunca iam além.
Nesse dia, o rapaz também queria beijos. Ele estava na cozinha e, ainda um tanto envergonhado, se aproximou da garota assim que vira que ela terminará de beber um copo d'água.
"Emily... Podemos nos beijar mais? De novo?" Marco se sentia como se fosse uma criança desse jeito, mas sabia que era errado fazer esse tipo de coisa sem permissão. Inclusive porque não queria fazer nada que a moça mais velha não fosse gostar. Felizmente, ela sorriu, compreensiva, e chegou perto do jovem, pondo as mãos em seus braços.
"Claro, queridinho. Vem cá." A loira disse, apoiando-se na ponta dos pés — Marco era mais novo, mas ainda assim era mais alto que ela — para poder beijá-lo. Tudo começou doce e lento, mas gradualmente foi se tornando mais intenso. Ambos andaram pelo cômodo, até que o garoto teve as costas prensadas contra uma das paredes, momento este em que a francesa pausou o beijo para sussurrar um pedido para que ele abrisse a boca, coisa que fez para que pudesse deixar a carícia mais íntima.
Era molhado, um tanto confuso e ao mesmo tempo quente e delicioso. Marco sentia as mãos da moça percorrendo seus ombros e braços, a pressão que seu busto pequeno fazia contra seu torso e todo o calor de seu corpo contra o dele. Nunca tinha estado numa posição tão comprometedora na sua vida, e por isso seu corpo reagiu muito bem ao que Emily fazia, e logo o moreno sentiu um certo incômodo nas calças.
Nesse momento eles se separaram para poder respirar, e o jovem estava envergonhado. Tinha certeza que seu estado não passaria despercebido, e aquilo nunca tinha acontecido na frente dela. Ele simplesmente não sabia o que dizer e nem o que fazer, ainda mais quando notou que ela analisara rapidamente o volume em suas roupas antes de voltar a olhar para seu rosto e sorrir.
"Me desculpe se eu estiver sendo indelicada, Marco... Você é virgem?" A garota questionou, e isso fez Marco corar ainda mais. No entanto, sua única opção era a sinceridade naquele momento.
"Sim, sou..." Ele respondeu, e viu que a garota deu um risinho antes de falar de novo.
"Nesse caso, gostaria de ter sua primeira vez comigo? Não se sinta pressionado, você pode dizer não se não achar que está preparado ou se quer esperar por outra pessoa. É só que você está muito fofinho desse jeito e também parece estar bastante necessitado aqui embaixo. Mas vou entender e respeitar se não quiser." Emily deixou com que o garoto pensasse, e não avançou em nenhum momento até ele se decidir.
Aquela pergunta foi um choque para Marco. Ele realmente não podia negar que achava a moça bonita e que já tinha pensado nela em momentos solitários, mas nunca imaginara que teria alguma chance de chegar tão longe com ela. Ele era simplesmente tão novo e ela era uma garota mais velha que ele. Devia achá-lo imaturo ou algo assim, mas na verdade ela o estava dando a chance de poder escolher exatamente como um adulto.
Era uma decisão importante. Pensou nas outras garotas que conhecia, mas não se via tendo nada com nenhuma delas. Emily fora mesmo a melhor e aquela com quem ele estava cogitando aquela possibilidade. Ela não era uma má pessoa. O respeitava e tratava bem, e até nesse momento estava mostrando ser gentil, atenciosa e compreensiva com ele.
Tinha que ser com ela.
"Eu quero, Emily. Quero ter minha primeira vez com você." O moreno falou, e então a jovem pegou sua mão, apertando-a bem e beijando-lhe a bochecha, carinhosa.
"Vamos pro meu quarto, então." A jovem afirmou, guiando-o rapidamente até o cômodo que ficava no primeiro andar, onde ela trancou a porta assim que ambos entraram, para garantir privacidade.
O garoto não podia negar que estava nervoso. Sabia que não seria interrompido por ninguém e que tudo ficaria apenas entre ele e a francesa, mas não podia deixar de ficar ansioso. E se ela não gostasse de seu corpo? E se ele fizesse algo que ela não gostasse? E se ele acabasse gozando rápido demais e não a deixasse satisfeita? Emily era mais velha e mais experiente que ele, e saber disso o deixava tenso. Ele era apenas um adolescente virgem. Com certeza ela já devia ter se deitado com outros meninos mais velhos, experientes e seguros do que ele.
Mesmo assim, ela queria ser sua primeira mulher. E o moreno não podia negar que a desejava também.
"E-eu não sei bem o que fazer..." Marco confessou, sentindo o suor começando a escorrer pelo rosto e nuca. A moça não ligou para isso, e abraçou-lhe.
"Tudo bem. Deixa que eu te ajudo. Agora fique quietinho enquanto começamos a tirar essa camiseta." Ela falou, subindo a peça de roupa que tinha mencionado pelo torso do parceiro, que ajudou-a levantando os braços e terminando de tirar sozinho por causa da diferença de altura. O garoto resistiu a tentação de se cobrir, até mesmo porque viu o quanto os olhos da outra brilharam ao vê-lo despido da cintura para cima.
"Você tem sardas por aqui também! Que gracinha! Me pergunto onde mais elas podem estar..." Ela comentou, vendo as marcas que ficavam concentradas nos ombros e braços do rapaz e também espalhadas de forma mais esparsa pelo torso. Ao ouvir isso, ele não apenas ficou feliz por saber que a parceira tinha gostado do que vira como também ficara excitado. As conotações ali estavam bem claras...
Emily voltou a beijá-lo, acariciando-lhe as costas nuas com a ponta dos dedos e depois passou a beijar-lhe o pescoço e desceu devagar até os ombros, onde se demorou para poder beijar cada pequena sarda que conseguia ver. Era um gesto adorável, e ao mesmo tempo bastante sensual.
"Posso tirar seu vestido?" O mais novo perguntou, com toda a coragem que tinha. Achava injusto ser o único ali a receber atenção, e queria mostrar para a moça o quanto gostava dela e como também queria seguir em frente. Ele notou que as mãos dela deslizaram por suas costas, e seguiram caminho até encontrar com as dele, que ela segurou e posicionou nos lados do vestido que estava usando.
“Claro que sim. Vá em frente.” Emily consentiu, com um sorriso doce. Marco deixou os dedos tocarem no tecido e agarrá-lo, para então levantá-lo lentamente, revelando aos poucos o corpo da garota. Primeiro as coxas que ele algumas vezes espiava em momentos oportunos, depois a intimidade ainda coberta pela calcinha, e o ventre. Surpreendeu-se quando, ao subir ainda mais, deparou-se com os seios desnudos da garota — ele esperava que ela estivesse usando um sutiã, mas não podia negar que aquela fora uma surpresa agradável. Ao terminar de tirar a peça, com a ajuda dela, ele a deixou no chão, e parou para contemplar o corpo da parceira.
Era muito melhor que em suas fantasias solitárias. As pernas tinham coxas torneadas, que pareciam deliciosas de pegar, a cintura o convidava a segurar-lhe o quadril, os seios eram pequenos, porém firmes, e Marco queria tocá-los e beijá-los do mesmo modo que a garota fizera com suas sardas — gentil, atencioso, e de forma totalmente sensual.
“Você não usa sutiã?” Aquela foi literalmente a primeira coisa que o rapaz conseguiu falar, o que fez a garota rir.
“Não quando estou em casa.” Ela respondeu, voltando a se aproximar do parceiro, desta vez beijando-lhe o torso e desfazendo o zíper e o botão da calça que ele usava, para deixá-la cair. Agora ambos estavam apenas de roupa íntima, o que era justo.
Marco conseguia sentir o coração batendo mais rápido em seu peito. Os dedos da garota estavam agora acariciando o volume que estava formado em sua cueca, o que o fazia suspirar. Sabia que logo teria que tirá-la, e não sabia qual seria a reação de Emily ao vê-lo completamente nu. Perguntou-se como deveriam ter sido os parceiros anteriores da jovem, e principalmente se ele a agradaria. Quando os dedos dela se enfiaram no elástico, o rapaz prendeu a respiração por alguns segundos, e olhou para a francesa, que fazia o mesmo num pedido silencioso por permissão.
Ele afirmou com a cabeça, e em poucos segundos a última peça de roupa que ainda o cobria fora abaixada. Por um lado, sentiu alívio por não ter mais nada lhe apertando, mas por outro estava incrivelmente nervoso — era até surpreendente que ainda estivesse ereto mesmo com todas as dúvidas e ansiedades na sua cabeça.
“Você é lindo, Marco. Lindo de verdade. Não há nada aqui para se envergonhar.” Emily sabia o quanto aquelas palavras serviriam para deixar o mais jovem mais confiante. Ela também se lembrava de como estava tensa ao se despir pela primeira vez na frente de alguém. Porém, ela não estava fazendo isso apenas por pena, mas sim porque era verdade. Marco era um garoto muito bonito, e era até uma honra ser a primeira a poder vê-lo tão de perto e de uma forma tão íntima.
O jovem tinha o corpo repleto de sardas, o que chamava a sua atenção e era, na sua opinião, adorável. Além disso, era alto para a idade, com alguns poucos músculos, e sua pele era macia e boa de tocar. O fato de que ele estava com o rosto vermelho, respirando erraticamente e também claramente excitado só o tornava ainda mais atraente para a moça.
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Por isso, ele sorriu e a beijou de novo.
O gesto pegou a loira de surpresa, mas não foi ruim — pelo contrário. Agora que estavam quase completamente despidos, podiam sentir o calor e a fricção dos corpos que já começavam a suar, os contornos de cada um e também o quanto suas intimidades estavam próximas. O sexo do moreno roçava no ventre e na calcinha da mais velha, e apenas aquele contato era o suficiente para que ambos gemessem baixo, necessitados um do outro.
Num ato de ainda mais coragem, as mãos do rapaz foram até as laterais da roupa de baixo de Emily, e assim como ela fizera com ele, o jovem a olhou nos olhos, esperando por um sinal de que poderia continuar — coisa que ela fez de forma bem mais rápida e segura do que ele, beijando novamente sua bochecha corada e sardenta.
Suas mãos tremiam, assim como no momento em que tirou o vestido da parceira, mas ele conseguiu abaixar a calcinha pelas pernas da mais velha, revelando seu sexo. Marco engoliu a própria saliva, e sentiu o membro pulsar. Era a primeira vez que via uma garota sem roupas na vida real, e não em imagens e vídeos que encontrava na internet. Emily não era alta, não tinha os lábios grandes ou busto avantajado, mas era linda do jeito que era. Foi nesse momento em que o jovem descobriu o quanto uma pessoa de verdade e natural conseguia ser mais sensual do que um ator ou atriz fabricado para isso.
Ele queria falar sobre o quanto a achava bela, mas todos os elogios estavam presos na sua garganta. No entanto, a moça entendeu tudo assim que viu o brilho nos olhos do parceiro.
“Hora de ir pra cama, anjinho.” Emily sussurrou em seu ouvido, antes de levá-lo até sua cama, onde se deitaram, com ela por cima dele, e voltando a se beijar. Marco adoraria ficar daquele jeito para sempre. Sua ansiedade ainda estava lá, mas agora estava bem menor do que antes graças ao modo que sua parceira o tratava, com carinho e muita paciência.
Novamente, a loira desceu com os beijos, trilhando o caminho dos cantos do rosto, pescoço e indo mais uma vez até as sardas em seus ombros, onde ela mordiscou de leve, fazendo o garoto gemer. Continuou com aquilo até chegar em um dos mamilos do mesmo, lambendo-o e sentindo os dedos do mais novo percorrendo suas costas.
A garota deixou com que uma das mãos acariciasse o resto do torso, para então descer lentamente, provocando arrepios quando passou pelo ventre e indo enfim até o sexo do moreno. Tocou-o por toda a sua extensão apenas com a ponta dos dedos, indo da base até a glande, que ela circulou com o polegar. Escutou o mais novo gemer apenas com aquele gesto, e decidiu continuar com aquilo, segurando o membro e passando a masturbá-lo lentamente.
“Está gostando, anjinho? É bem mais gostoso quando é outra pessoa fazendo, não é?” Ela questionou, e o garoto concordou com a cabeça e soltando mais um gemido rouco. A sensação de ter a mão dela o tocando numa região tão sensível era extremamente prazerosa, e Marco lutava contra o instinto de mover o quadril contra ela para aumentar a intensidade os movimentos. Não queria gozar só com aquilo. Precisava se controlar.
"Emily, eu quero te tocar também..." Ele pediu, e a loira trocou de posição com o rapaz, deixando-o ficar por cima. O garoto a encarou rapidamente antes de beijá-la nos lábios, para logo fazer o mesmo que ela tinha feito com ele, seguindo caminho pelo pescoço, ombros e peito com a boca e também com as mãos. Demorou-se um pouco mais nos seios, onde lambeu, beijou e apertou suavemente para não machucá-la, e deixou a mão descer até chegar na intimidade da loira, que grunhiu quando ele a traçou com o dedo para então tocá-la diretamente.
Marco percebeu o quanto a moça estava molhada, e sentiu o rosto queimar quando notou que ela estava desse jeito por sua causa. Deixou com que os dedos se molhassem, e explorou com cuidado todo o local, prestando atenção nas reações da garota. Viu que ela gemeu mais alto, em especial, quando pressionou um dos dedos em um ponto pequeno e rijo. Ali era o clitóris dela, e assim que ele entendeu isso, resolveu tocá-lo de novo, desta vez circulando-o do mesmo jeito que ela fizera com sua glande.
Emily arranhou de leve as costas do parceiro, e fez um leve carinho em sua cabeça em meio aos seus gemidos. O rapaz era tímido, mas estava começando a tomar uma boa iniciativa.
"Muito bem, Marco... Mas vamos fazer uma coisa melhor." Assim que disse isso, a mais velha ergueu o braço para a mesa de cabeceira, onde conseguiu abrir a gaveta e, após vasculhar um pouco, pegou um preservativo. Não foi necessário mais do que isso para o moreno entender o que ela pretendia com aquilo, ainda mais depois que ela o fizera deitar-se de costas novamente.
O que o surpreendeu, no entanto, foi ver que a loira voltou a beijar seu corpo, descendo cada vez mais até ficar com o rosto próximo de seu membro.
"E-Emily, você não precisa fazer isso..." O garoto disse, envergonhado. Podia ser virgem, mas não era totalmente ignorante. Sabia o que ela estava planejando fazer.
"Nada disso. Você foi um bom menino e está se comportando muito bem. E bons meninos merecem uma recompensa, você não acha? Apenas relaxe." A voz dela era realmente tranquilizadora. Depois disso, Marco decidiu que não precisava retrucar, e sim obedecer ao que ela dizia. Emily sabia o que estava fazendo, e não iria machucá-lo. E se tinha decidido fazer isso com ele, era porque queria.
A moça ajeitou os óculos no rosto antes de começar a lamber todo o seu sexo, metódica e sem deixar nenhum centímetro ficar seco. A língua dela o fazia estremecer de prazer, e ele sentia o membro pulsando a cada vez que ela completava uma lambida longa e demorada. Após certificar-se de que tinha deixado o local molhado com sua saliva, a jovem colocou-o em sua boca, devagar, indo até onde conseguia. Somente aquele ato já fez Marco quase gritar, e ele não conseguiu conter a voz quando a moça começou a movimentar-se.
A boca dela o sugava e ele sentia a língua dela pressionando a parte de baixo de seu sexo. Era insano. As mãos do jovem estavam entrelaçados nos cabelos loiros de Emily, incentivando-a a continuar junto com seus gemidos. Porém, ele sabia que não seria capaz de aguentar muito tempo mesmo naquele ritmo.
Felizmente, a mais velha tinha entendido isso, e logo tirou-o da boca, para poder então abrir o preservativo e desenrolá-lo em seu sexo. Aquilo tinha sido apenas um pequeno agrado, e também uma preparação para o que estava por vir.
Mais uma vez, os dois trocaram de posição. Emily deitou-se confortavelmente na cama, abrindo as pernas e olhando para o parceiro cheia de desejo. Marco lambeu os lábios, respirando fundo. Mal conseguia acreditar que tudo aquilo realmente estava acontecendo.
"Pode vir. Sou toda sua agora." O moreno sentiu o pulso acelerar, se é que isso ainda era possível naquele momento. Posicionou-se por cima de Emily, deixando o membro roçar contra a entrada da loira. Ele sabia que aquilo seria diferente de tudo o que sentira até aquele momento, e que seria intenso. Por um instante, hesitou, com medo de não conseguir aguentar tempo o bastante, mas resolveu continuar. Já tinha ido longe, e não queria voltar atrás justo agora.
Ele segurou a cintura da moça, e após algumas investidas desajeitadas, conseguiu fazer o sexo deslizar para dentro da jovem. Como aquela não era sua primeira vez e estava bem lubrificada, a entrada foi fácil e suave, e em poucos segundos Marco já se sentia totalmente dentro da parceira.
A garota gemeu baixo e sorriu ao vê-lo grunhir de prazer. Não precisava perguntar para ele o que deveria estar sentindo, já que o rubor em sua face, o suor e os olhos semicerrados já diziam tudo que ela precisava.
Emily era quente, molhada e os músculos dela o apertavam de forma deliciosa. Aquilo era muito melhor que o que ele podia simular com a mão, e não era igual a nada que podia imaginar. E isso porque ele ainda nem tinha começado a se movimentar, por mais que estivesse com muita vontade. Já haviam se passado alguns segundos desde que entrara, e a garota já parecia estar acostumada com sua presença. Ele é quem precisava de coragem para continuar sem gozar de imediato.
Decidiu começar devagar. Tirou quase toda a sua extensão, para então colocá-la de novo, controlando a respiração. Repetiu os movimentos mais algumas vezes, para garantir mais segurança.
"Isso mesmo, Marco. Devagar... Depois pode ir mais rápido." Emily o incentivou, abraçando-o e fazendo carinho nas costas do moreno enquanto suspirava por causa de seus movimentos lentos. Era um prazer bom, um tanto inocente e ao mesmo tempo quase torturante. Para o garoto, devia ser a mesma coisa.
Após isso, Marco começou a acelerar gradualmente o que fazia. Ver o quanto a garota estava gostando daquilo o fazia querer continuar, e logo ele aprendeu o que deveria fazer. Seu quadril se movimentava sozinho contra o corpo da loira, num ato instintivo que parecia estar enraizado nele por anos e que só agora se mostrava. Logo o quarto estava cheio dos barulhos de seus corpos suados se encontrando, dos gemidos de ambos e do ranger da cama de solteiro. No entanto, nada disso os incomodava — na verdade, os excitava mais ainda.
Por mais que estivesse se controlando, o garoto sabia que estava próximo do ápice, e que não aguentaria mais muito tempo. Beijou a moça mais uma vez, de forma rápida e necessitada, para então falar.
"Emily, eu tô quase gozando..." Ele sentiu as unhas dela contra suas costas, numa possível resposta às suas palavras. Aquilo era exatamente o que ela queria ouvir.
"Tudo bem! Goze, Marco! Eu quero te ver gozando." Ela terminou de dizer aquilo enquanto estava agarrada no pé do ouvido do parceiro, como se estivesse confessando um segredo. Segundos depois, o rapaz perdeu todo o controle, enfim chegando ao orgasmo. Nesse momento, gemeu alto o nome da parceira, estocando o mais fundo que conseguia dentro dela enquanto fechava os olhos e deixava o corpo tremer e pulsar, aproveitando o momento. Durou apenas alguns segundos, mas estes fizeram valer todo o esforço e a experiência. Nem mesmo seus melhores orgasmos que já tivera se masturbando podiam ser comparados com este que tivera.
Assim que acabou, saiu de dentro da garota, sentindo-se exausto. Deitou-se em cima dela por alguns instantes para recuperar o fôlego, e então sentou-se junto com ela na cama. Depois que Emily tirou o preservativo usado de seu sexo, porém, foi quando ele notou uma coisa.
"Você não gozou! Se deite de novo, por favor. Quero que você goze também." A loira sorriu ao ver o quanto o garoto estava sendo atencioso, e deixou a camisinha de lado depois de ter dado um nó nela. Aquilo podia esperar alguns minutos antes de ser jogado fora. O que Marco queria fazer com ela agora era bem mais importante.
Quando a mais velha deitou-se na cama novamente, Marco a encheu de beijos e carinhos por todo o rosto, pescoço e também nos seios, para então deixar a mão tocá-la novamente entre as pernas. Umedeceu os dedos com a lubrificação natural da garota, para poder voltar a masturbá-lá tocando o clitóris. Desta vez, porém, seus toques eram mais rápidos, e ele frequentemente mudava o modo como movimentava e pressionava os dígitos pela região, experimentando e vendo como ela mais gostava. Não demorou muito para ela chegar ao seu limite, e Marco não parou de tocá-la nem mesmo por um segundo até ela deixar de gemer e se contorcer na cama, arqueando as costas e movendo os quadris, indicando que o orgasmo já havia passado.
Na opinião do jovem, aquilo foi um espetáculo que durou poucos segundos. E ele sabia que o contrário também se aplicava naquela situação.
"Você é mesmo um anjinho, Marco. Se bem que eu tirei sua inocência agora." Emily comentou, rindo em meio ao torpor do orgasmo que restara. Marco sorriu, acariciando os cabelos encharcados de suor da moça e tirando-os da sua testa.
"Não me importo com isso. Foi com você, e isso é que é importante. Obrigado, Emily. Eu estava muito nervoso e você foi muito paciente e carinhosa comigo. Foi muito gostoso, e acho que não tinha como ter sido melhor." Ele agradeceu, sincero. Tudo o que ele sentira naqueles últimos minutos foi totalmente diferente e melhor do que em suas fantasias, e ele estava honestamente grato por ter experimentando logo com ela, que o tratara com tanto respeito.
"De nada. Pra mim também foi maravilhoso. Você aprende rápido, sabia? Se quiser, podemos fazer de novo em outras tardes... Tenho muita coisa pra te ensinar, e que você deve estar louco pra aprender. Sem compromisso sério, tudo bem? Só pra gente se divertir enquanto estamos juntos aqui." Emily propôs, e viu o quanto aquilo tinha soado interessante para o jovem por causa do jeito que ele lambera os lábios inconscientemente. Com certeza, devia ser uma tentação para o rapaz. Mesmo assim, ele ainda parou para pensar durante alguns segundos antes de dar sua resposta.
"Eu aceito. Sem compromisso. Só diversão. E estou mesmo curioso pra saber que coisas são essas..." Assim que ele falou, a jovem sentou-se na cama, e deu-lhe um selinho.
"Você vai descobrir tudo na hora certa, anjinho." Ela falou, sussurrando novamente no seu ouvido. E como ela dissera, o garoto realmente descobriu tudo na hora certa.
E sua inocência saiu mesmo voando pra França junto com Emily.
Passar o resto da tarde com Jean não foi no final uma experiência ruim para Bertholdt. O garoto era bem simpático e extrovertido, e por mais que tenha falado mais do que ele, parecia não ligar muito para isso. Os dois passaram algumas horas assim, conversando na cozinha e depois no sofá da sala e se conhecendo melhor enquanto esperavam Ymir chegar.
A moça só resolveu aparecer de tardinha, mas se aquilo fora de propósito ou não nenhum dos garotos podia dizer. Eles apenas sabiam que era hora de voltar para casa, e partiram, cada um em seu próprio caminho, depois que a jovem de sardas terminou de trancar o quartel general novamente.
Bertholdt não morava muito longe dali, mas ainda tinha que fazer uma boa caminhada. O rapaz olhou para o relógio de pulso, e calculou o tempo que teria até o jantar. Tinha tempo o bastante, e por isso podia ir tranquilamente. Normalmente — ou seja, praticamente todos os dias -, Reiner o acompanhava no caminho de volta não apenas pela amizade, mas também porque ambos moravam relativamente perto. Não eram vizinhos, mas eram separados apenas por algumas ruas.
O estudante cogitou a possibilidade de visitar o amigo loiro, mas depois desistiu. Primeiro porque não sabia se o outro estaria em casa, já que tinha sido designado como dupla de Armin — o garoto se perguntava o que eles tinham feito hoje e como planejavam se ajudar, e esperava que tudo tenha dado certo do mesmo modo que ocorrera com ele e Jean — e poderia estar ainda na rua. E segundo, porque se ele aparecesse lá nessa hora, era possível que os pais do moço o convidassem a ficar para o jantar, mas Bertholdt só fazia isso quando planejava dormir na casa do outro, o que não era o caso desta vez.
Por mais que estivesse muito curioso para saber como fora a experiência do amigo, ele podia esperar pelo dia seguinte para falar com ele — ou, se a ansiedade fosse demais, ainda tinha a tecnologia ao seu favor. Os dois tinham celular, computador e internet em casa. Não precisavam se manter apenas em conversas cara a cara.
Naquela hora do dia as ruas estavam começando a ficar mais movimentadas, pois estava perto da hora de quem trabalha ir para casa e das aulas de quem estuda durante a tarde terminar. Como tinha feito uma boa revisão das matérias do dia com Jean, o moreno decidiu não estudar mais pelo resto do dia, para poder relaxar e se preparar para o dia seguinte.
Para ser honesto, ele não sabia como Jean seria capaz de ajudá-lo. Seu problema não envolvia notas ou problemas dentro da escola em si, como faltas ou advertências, sendo de natureza totalmente psicológica. Ymir tinha decidido as duplas sozinha, e depois chamou cada um para conversar privadamente para dizer qual seria o problema que seu parceiro tinha, se bem que sua dificuldade em se relacionar com as pessoas, se defender e falar em público com certeza era conhecida por todos ali.
O rapaz tentou se lembrar das apresentações de trabalhos em que seu parceiro estava envolvido. Ele realmente parecia não ter muita dificuldade, mas costumava fazer mais piadinhas com o assunto e brigar com outros alunos do que falar da matéria. Ao menos ele conseguia ficar de pé na frente da sala inteira sem se embaraçar todo. Era um começo. Se fosse capaz de fazer o mesmo já seria um belo passo dado.
Bertholdt continuou a pensar nisso durante toda a sua caminhada, ignorando as pessoas que passavam por ele na rua. Não gostava de falar com estranhos, ainda mais estando desacompanhado. Rose Fields era uma cidade de tamanho mediano, e no geral era segura se fossem excluídas as zonas de periferia, onde a criminalidade era mais alta, mas como qualquer local, também tinha seus problemas. Roubos, assassinatos, gangues, até mesmo histórias de corrupção e máfia emergiam de vez em quando. E o moreno, por mais que fosse em parte um deliquente, não queria se meter nos crimes de verdade, que eram bem piores do que as pegadinhas que ele fazia com o seu colégio.
Ele chegou em casa exatamente na hora do jantar. O garoto comeu com os pais na cozinha, dizendo apenas que tinha se juntado a um grupo de estudos novo e que por isso passaria boa parte de suas tardes fora antes de subir as escadas para tomar um bom banho e poder enfim relaxar no seu quarto.
O jovem deitou-se na cama, relaxado, e olhou para o teto em contemplação. Não precisava estudar mais, e ainda tinha um certo tempo livre até ficar com sono. Nada de interessante devia estar passando na televisão, e ele não estava com muita vontade de jogar videogame. Em parte, sabia que aquilo era porque estava ansioso pelo dia seguinte. Ele realmente estava curioso para saber o que a sua dupla tinha em mente para ele. No entanto, ficar se mexendo na cama não ia ajudar em nada. Bertholdt precisava se distrair.
Livros normalmente eram uma boa opção, junto com música, mas nessa noite o moreno estava precisando de outra coisa para se animar. Algo que em parte o fazia sentir-se um tanto culpado, mas que também o deixava mais confiante e feliz do que qualquer coisa. Não podia botar tudo em ação imediatamente, mas não tinha problema. O rapaz sabia esperar pelo momento certo para agir com suas coisas.
Um sorriso matreiro surgiu inconscientemente em seu rosto. Era hora do menino bonzinho planejar algumas travessuras.
Já era noite quando o carro oficial deixou Historia em casa, ou melhor, na mansão que a garota chamava de casa. O motorista, um senhor com cara de avô que trabalhava para a família desde que o pai dela era criança, gentilmente a ajudou a descer do veículo, enquanto outro empregado pegava sua mochila de dentro da mala. A garota os agradeceu em voz baixa e lhes desejou boa noite com seu melhor sorriso, em seguida pegando sua mochila e atravessando o jardim de sua madrasta num passo ritmado. Mesmo no escuro, conseguia sentir os olhos sobre ela por todo o trajeto: dos vigilantes, do motorista, das secretárias do lar nas janelas. Não que fosse uma surpresa — estava acostumada com o fato de que nunca se estaria sozinha na Mansão Reiss.
O resto da tarde de estudos com Connie tinha sido tranquila, visto que a loira já tinha paciência e experiência em ensinar graças a seu período na monitoria. O garoto havia se atrapalhado algumas vezes com nomes e datas, então ela lhe ensinara alguns macetes para mantê-los frescos na memória e o fizera escrever bastante para recuperar a matéria perdida.
Como sempre acontecia, o motorista já estava esperando quando a loira fechara a biblioteca e saíra pelo portão da escola, se despedindo de Hannes no processo. Não era novidade nenhuma que o prefeito Reiss e sua amorosa esposa não deixariam sua querida filha andar pela cidade sozinha, ainda que Rose Fields fosse dita tão segura. Aquilo na verdade frustrava bastante a menina, que não tinha tanta liberdade de locomoção como seus outros colegas. Sendo sincera, não seria eufemismo dizer que ela não tinha liberdade em geral. Fosse onde fosse, fizesse o que fizesse, de qualquer forma seus pais ficariam sabendo. Suas palavras, notas, amizades, atividades, talvez mesmo seus pensamentos. Nem mesmo no Freedom High os olhos do prefeito estavam longe de sua herdeira, ciente de cada passo e cada ação que ela fizesse. A ironia de tal situação não lhe escapava.
Entrou em casa, sendo cumprimentada por uma governanta silenciosa que abrira a porta. A sala de entrada mais parecia o saguão de um castelo, ampla e imponente, de chão de mármore claro e uma escadaria clássica que levava aos andares superiores. Uma pérola do Art Noveau, diziam os estudantes de arquitetura. O pai costumava dizer que era para que os outros se sentirem inferiores em seu domínio. Bem, com certeza funcionava com ela. Sempre se sentia vulnerável em qualquer lugar daquela mansão, ciente do que aconteceria se…
Guren no Yumiya a tirou de seus pensamentos. Era seu toque de mensagem nova. Estendeu a mão até o bolso do casaco e deu uma olhada.
“Se minha mão cair, a culpa é sua.” Era de Connie, claro. A moça não pôde deixar de sorrir para a tela do telefone com a brincadeira.
Logo digitou uma resposta. “Peguei leve com você hoje. Venha com um saco de gelo amanhã. ♥” O rapaz devia estar perto do celular, já que ela não tinha chegado ao meio da escada quando recebeu uma nova mensagem.
“Você é uma criatura má e sádica, Historia Reiss.”
“Bom, sou amiga da Ymir. ♥” Falando nisso, onde será que a morena estaria? Normalmente já estaria online no WhatsApp nesse horário, mas uma rápida checada confirmou que a última visualização da outra tinha sido pela manhã.
Connie aparentemente concordava com isso. “Mentes malévolas se atraem. Falando nisso, cadê a Capitã Sardas? Mal a vi hoje” O apelido engraçado a fez soltar um risinho, ainda que sua alegria fosse durar pouco tempo.
“Do que está rindo, Historia?”
Levantou a cabeça já se preparando mentalmente para a confrontação a seguir. A senhora Reiss estava no topo da escada, parecendo ainda mais perfeita que o normal em um tailleur cinzento. Naqueles seis anos de convivência, a garota nunca a tinha visto sequer um dia em roupas casuais. Com seus longos cabelos de cachos loiros e olhos azuis, quem visse de relance realmente acreditaria que as duas eram parentes. Historia não sabia se agradecia sua sorte ou amaldiçoava seu azar por isso. De qualquer forma, não era difícil esquecer que não eram relacionadas pela forma com que a madrasta a tratava.
“Um amigo me mandou uma mensagem. Apenas isso.” Respondeu de forma educada, porém distante. Demonstrações de afeição não funcionavam contra aquela adversária.
“Esse amigo tem um nome?” A senhora Reiss descia lentamente a escada em sua direção, seus saltos impecáveis anunciando sua aproximação como o tic-tac de uma bomba.
“Connie. Connie Springer.”
A loira mais velha refletiu por um instante, parando no degrau imediatamente superior ao que sua enteada se encontrava. “Não conheço. É mais um esquecível, como aquela garota com quem anda… Qual o nome dela?”
“Ymir Adler.”
“Ymir… Adler.” Havia um toque de veneno nos lábios cobertos de batom cuidadosamente escolhido daquela mulher, e que ainda assim não se refletia em sua expressão. Nada se refletia na expressão da senhora Reiss, nem em sua voz, nem em sua postura. Nada, em nenhum momento, em seis anos. Não surpreendia Historia que seu pai tivesse tantas amantes. Sua esposa parecia tão capaz de amor quanto um torrão de lama seria, e a garota seriamente duvidava que ela mudasse de expressão mesmo durante o sexo. “Certamente tem um gosto estranho para amigos, Historia. Pessoas pouco marcantes. Não são como nós... Como você. Até parece que quer se esconder do mundo em que realmente vive, minha querida. Que quer ser esquecida. Gostaria de desaparecer como eles?”
A reação de Christa foi sorrir e responder com uma dose sutil de sarcasmo. “Creio que não. O pai ficaria muito triste se eu sumisse. Quem iria herdar esta bela mansão e seu querido jardim novo? Não há ninguém mais. E não podemos deixar que o patrimônio dos Reiss caia em mãos erradas. Como dos Braun. Ou dos Arlert?” Não pôde deixar de alfinetar. Afinal, ela não era a única que tinha vindo de baixo. A senhora Reiss há muitos anos tinha sido senhorita Arlert.
Se a madrasta se incomodara com aquela cutucada polida, não demonstrou. A moça não esperava que demonstrasse. “Quanto pessimismo, Historia. Como se algo fosse acontecer a você. Não há lugar mais seguro em Rose Fields do que a mansão Reiss. Então, se preocupe com coisas da sua idade, sim? Como a escola. Como foi sua aula? Se reuniu com seu novo clubinho?”
Também não lhe surpreendia que a mulher soubesse. A rede de informações de sua família era vasta, informantes e espiões basicamente em todas as esquinas de Rose Fields. Normalmente, eram utilizados contra adversários políticos, mas ninguém deixaria de reportar que vira Historia saindo da escola com um grupo de colegas. Dali a saber do que Ymir dissera em sala para arregimentar os primeiros membros era um pulo. Sem dúvida, ela também sabia muito bem quem era Connie Springer, e só perguntara para saber se a enteada teria razões para mentir. “Normal. Sim, estudamos depois da aula. Na biblioteca. Acho que já sabia.”
“Talvez eu já soubesse.” Aparentemente, a madrasta se dera por satisfeita com aquelas respostas por algum motivo. Passou por Christa sem lhe dar nada além de um olhar de esguelha, e continuou falando ao descer a escadaria. “Mas não custa perguntar.”
“Não. Não custa.” Historia observou sem se mover e sem perguntar quando a outra loira saiu pela porta da frente. Para onde ela iria não era de sua conta, e era até melhor que estivesse longe. O pai trabalhava sempre até tarde — ou assim dizia — e, sem a mulher por perto, estava livre de obrigações sociais por aquele momento. A moça suspirou alto e voltou a seu caminho, para se trancar no quarto e passar lá o resto da noite. O quarto da garota era exatamente o que se imaginava achar na alcova de uma adolescente com sua aparência e posição: paredes de cores claras, tecnologia de última geração, uma guarda-roupa enorme, espelho de corpo inteiro, tapete felpudo branco… Que sempre a fazia espirrar. Mas era sofisticado, não era? Exatamente o tipo de coisa esperavam dela. Suas vontades eram irrelevantes.
Mandou uma mensagem para Connie avisando que não sabia onde Ymir estava, antes de se sentar em frente com computador. Era realmente desgastante jogar aquele jogo de sutilezas. Precisava espairecer um pouco. E ela sabia exatamente como.
Reiner notou na manhã seguinte que Armin não estava escrevendo com tanto vigor durante as aulas. Suas mãos ainda deviam estar doloridas por causa do treinamento na tarde anterior, assim como os braços e pernas. Infelizmente, aquilo era algo que só o tempo podia curar, e ele nada podia fazer pelo garoto a não ser dar apoio moral e dizer que ele também se sentira bastante dolorido nos primeiros dias em que começara com isso — o que era verdade e também totalmente normal.
Já o garoto baixinho passou boa parte das aulas pensando também sobre como iria ajudar o companheiro. Se lembrava com clareza sobre a conversa que tivera com Ymir, e que mostrava que o caso dele era diferente dos outros membros.
"Reiner teve um episódio em que não conseguiu medir sua força e nem seus sentimentos e isso quase acabou em tragédia. Por causa disso, ele se sente muito mal e morre de medo de perder o controle sobre si mesmo de novo. Você precisa dar essa segurança pra ele." Essa foi a explicação que Ymir dera para seu problema, que não seria nada fácil de resolver. Levaria tempo, e honestamente, o jovem não sabia se seria capaz de ajudá-lo a fazer algum progresso.
"E o que aconteceu?" O loiro perguntou, em parte curioso e também receoso. Não conseguia imaginar que Reiner fosse ter um trauma dessa natureza. Ele sempre parecia estar tão tranquilo e controlado! Era estranho pensar que tudo isso era apenas uma máscara.
"Isso eu não posso dizer. É melhor você não saber, Armin." A morena respondeu, deixando implícito que aquilo fazia parte do segredo que ele lhe contara. Nesse caso, realmente era melhor não saber.
"Entendo... Mas como vou poder ajudá-lo, então? Eu sou um garoto fraco, e nunca tive nenhuma experiência que deva ser parecida com a dele. Como vou ajudar o Reiner direito se nem sei o que ele deve estar sentindo?" Armin decidiu ser sincero e vocalizou logo suas dúvidas sobre esse caso. Não fazia sentido para ele fazer dupla com alguém que ele não conseguiria ajudar, ainda mais em um local com tal propósito e chamado Clube de Voluntários.
"Você não precisa sentir, só precisa entender. Reiner sente muita culpa pelo o que aconteceu no passado, e isso o corrói por dentro. Ele tem muito medo de cometer o mesmo erro de novo, de não conseguir controlar a própria força e de fazer coisas terríveis por causa disso. Você é um menino fracote, mas não se esqueça que tem um cérebro. Use-o. Faça com que ele seja capaz de se focar no presente e conseguir ficar tranquilo consigo mesmo independente da situação. Reiner precisa do seu apoio, Armin. Eu sei que você consegue. Você é amigo do Eren, lembra? E também é uma das pessoas mais inteligentes e pé no chão que eu conheço. Sei que vai conseguir pensar numa boa forma de ajudá-lo." Aqueles elogios surpreenderam o mais novo, no entanto, faziam total sentido. Não que Eren fosse traumatizado por causa de algo — ao menos não que ele soubesse -, mas se ele conseguia controlá-lo, então seria capaz de ajudar Reiner com isso.
Por isso, o garoto decidiu prestar atenção no comportamento do outro no dia anterior. Na maior parte do tempo, o mais velho parecia estar totalmente normal, relaxado e calmo, mas Armin percebeu que algumas vezes o seu olhar se perdia um pouco, como se estivesse se lembrando de alguma coisa que o perturbava rapidamente antes de voltar a focar-se no que estava fazendo. Era sempre tão sutil que apenas dava para o menor perceber isso se ele estivesse bem atento.
Armin também precisava agradecer por Eren e Mikasa se sentarem na metade da sala, e não na frente, pois assim ele podia relaxar um pouco na escrita sem que os outros dois suspeitassem do motivo. Depois das aulas acabarem, o jovem se juntou ao garoto mais velho novamente, indo com ele até o pátio do colégio, onde ambos se sentaram numa mesa que aproveitava a sombra de uma árvore.
"Está dolorido, Armin?" Reiner questionou, agora que estavam a sós. Bertholdt podia saber do Clube de Voluntários, mas Annie não era parte do mesmo. Eren e Mikasa também não sabiam de nada, e por via das dúvidas todos os membros decidiram manter o verdadeiro propósito do Clube em segredo, mesmo dos amigos mais próximos.
"Muito. Não senti direito minhas pernas ontem e hoje até os dedos doiam. Mal consegui escrever as matérias de hoje." O mais novo respondeu, e viu que o outro riu um pouco, achando graça do seu estado. No entanto, Armin não se sentiu mal por isso. Sabia que Reiner nunca o trataria de uma forma desagradável, e se o fizesse, logo pediria desculpas.
"É normal. Daqui a uns dias você se acostuma. Então, o que é que vamos fazer hoje?” Ele falou, bastante curioso. Não tinha sido o único ali a ficar acordado durante a noite pensando em como seria a tarde seguinte. Após isso, ele viu que o companheiro abriu a mochila, tirando de lá uma caixa, que ele colocou na mesa antes de abrir e revelar que era um tabuleiro e peças de xadrez.
“Bem, eu e o Eren algumas vezes jogamos xadrez no intervalo. Acho que seria legal jogar com você. Acho que vai te ajudar a manter a mente focada. Sabe jogar?” Armin perguntou, enquanto montava o tabuleiro, separava as peças e as colocava em suas posições, prontas para mais um jogo. Era um tabuleiro antigo, mas bem conservado, e as peças eram artesanais e muito bonitas. Devia ser alguma espécie de herança de família.
“Nunca joguei muito, então posso dizer que não sei mesmo.” O mais velho foi sincero, e aquilo fez Armin sorrir um pouco. Ele realmente nunca tinha jogado muito, e sabia apenas o básico, como os nomes de cada peça e seus padrões de movimentos, mas nunca tivera o hábito de se dedicar a esse jogo. Por isso, era até melhor que o outro o ensinasse, para que ele pudesse relembrar tudo e também tirar qualquer dúvida.
“Tudo bem, eu te ensino. Ontem você me ensinou a usar as máquinas da academia, hoje eu te ensino a jogar xadrez. É uma troca justa, não é?” O jovem disse, deixando o clima na mesa leve e tranquila. Sim, com certeza aquela era uma troca mais do que justa.
Armin explicou todas as regras do jogo, como se movia cada peça, e como o xadrez envolvia nada mais do que estratégia, atenção e raciocínio. Para deixar tudo um pouco mais emocionante e desafiador, os dois decidiram fazer uma aposta. Aquele que levasse a pior em três partidas pagaria o lanche naquela tarde.
As três partidas foram difíceis, especialmente para Reiner. Armin até pegara um pouco mais leve com o oponente, já que ele ainda era um iniciante, mas ele acabou perdendo inevitavelmente. No entanto, ele não pareceu ter se abatido quando tivera que abrir a carteira e pagar um salgadinho e um copo de suco para o mais novo.
“Relaxa, Reiner. Com o tempo você vai melhorar bastante e vai conseguir me vencer.” Armin comentou, assim que o mais velho retornou com os lanches de ambos e se sentou para comer.
“Tenho a impressão de que você diz o mesmo para o Eren.” Reiner disse, fazendo o mais jovem rir um pouco antes de respondê-lo, sorrindo.
“Digo mesmo. Um dia vocês dois vão me vencer. E aí eu pago uma rodada de pizza.” O garoto brincou, desafiando o loiro a vencê-lo. Aquela era uma promessa que tinha feito com Eren desde que ambos começaram a jogar, e até hoje ele ainda não tinha conseguido vencê-lo mesmo com esse incentivo. Quem sabe um dia.
“Nesse caso, então, irei treinar bastante! Pode ir preparando o bolso, Armin!” O mais velho falou, rindo, e os dois garotos passaram o resto da tarde se divertindo e jogando xadrez.
Reiner não venceu nenhuma partida, mas tinha melhorado desde a primeira. Talvez, um dia, ele poderia vencer Armin. E assim, todos comeriam pizza.
Aquela era uma ideia agradável e deliciosa.
Historia não pôde evitar de bocejar. Estava cansada depois de ficar acordada até a madrugada no computador, navegando e checando algumas informações. Tinha conseguido evitar demonstrar seu sono durante as aulas há muito custo, mas agora não aguentava mais. Pensou que talvez deveria ter comprado um café no refeitório antes de vir para o jardim; no entanto, já era tarde. Connie garantira que não se atrasaria daquela vez, então ela agora o esperava sentada em uma arquibancada de pedra que lhe dava vista para a piscina. Observava de forma distante o clube de natação treinando, imaginando o que seu colega traria. Aquela era a vez de Connie ajudá-la, e a loira se perguntava o que Ymir teria dito a ele sobre seu problema, se nem mesmo à morena fora capaz de contá-lo em detalhes. Agora pensava em quão injusto isso tinha sido com seu amigo, mas não era como se pudesse fazer algo por isso. Simplesmente não conseguia falar aquilo, nem mesmo para sua melhor amiga.
“Ei, Christa! Demorei?” A voz do garoto rapidamente a tirou de seus pensamentos, e Christa envergou seu sorriso de sempre para cumprimentá-lo, enquanto dava espaço para que o rapaz se sentasse a seu lado. Ele o fez com certa dificuldade, visto que além da mochila também carregava dois copos de café.
“Não se preocupe, chegou bem na hora.” Respondeu de forma amigável, segurando um dos copos para que o colega pudesse se ajeitar no lugar. Ia devolvê-lo quando o bolsista fez um sinal de não com a cabeça. “Ah, é pra mim?”
“Cappuccino com um toque de baunilha. A moça do refeitório disse que era seu favorito, né? Você me parecia meio cansada na aula, então dei uma passadinha lá pra comprar um.” Declarou o rapaz com certo orgulho de sua atenção. Ninguém mais parecera ter notado o quanto a loira parecia cansada, e ele mesmo só percebera por estar observando a imagem da moça em uma tentativa de decidir como iria ajudá-la. Não tivera tempo de pensar na noite anterior graças a seu trabalho, e mesmo as instruções de Ymir sobre o assunto eram vagas.
“Muito obrigada. Estava mesmo precisando, não dormi direito ontem.” A moça agradeceu com sinceridade, logo tomando um gole de sua bebida favorita. Era justamente o que precisava para clarear os pensamentos.
“Aconteceu alguma coisa?” Connie inquiriu, enquanto provava seu próprio café, notando que preferia o da oficina. Tinha a opinião de que café ruim o fazia acordar mais rápido.
“Apenas fiquei muito tempo na internet.”
“Hahaha, até você vira a noite na net de vez em quando? Vendo coisas erradas, mocinha?” O garoto não foi capaz de evitar uma provocação. Por sorte, a menina levou suas palavras na brincadeira e respondeu calmamente.
“Só fuçando uns sites. 4Chan conta como uma coisa errada?”
“Depende da Thread.” Ele mesmo sabia de uma ou duas threads de seus colegas de profissão, por assim dizer.
Historia tomou mais um gole antes de prosseguir. “Normalmente eu entro lá para ler as Creepypastas. Pode não parecer por essa minha carinha adorável, mas eu adoro terror.”
“É mesmo?” Connie se surpreendeu. Não imaginava que uma garota adorável como Christa gostasse de coisas assustadoras e contos de internet. Isso o fez pensar como o Clube o fazia descobrir novidades sobre seus colegas, mesmo que não soubesse seus segredos. “Isso é bem legal. Eu não gosto muito, devo admitir que sou meio medroso… É só ver como fiquei naquele dia da biblioteca com você, Sasha e Ymir. Estava quase subindo pelas paredes com aquela coisa de fantasma…” Lembrar disso o deixava encabulado.
“Me desculpe, mas sua reação foi bem engraçada.” A garota deu uma risada bem humorada, e era tão contagiante que ele teve que acompanhá-la. “A Ymir sabe mesmo inventar uma história do nada... É bem criativa.”
“É, ela é mesmo. Só podia ser um pouco menos simpática, sabe? Ela assusta as pessoas com toda aquela extroversão.” O careca teve que alfinetar, e os dois riram novamente. “Sobre a Ymir… Você quer falar sobre sua amizade com ela? Ou discutir alguma outra coisa?”
O tom de voz e a súbita seriedade de seu colega inicialmente fizeram Historia franziar o cenho, até que ela percebesse o que ele queria dizer com isso. “Então é isso que vamos fazer? Falar dos meus problemas? Você seria meu terapeuta, Connie?”
O rapaz fez que não com a cabeça, e então baixou os olhos para o café que ainda estava pela metade. “Nah, nem de longe. Não tenho treinamento pra isso… Mas sou seu amigo. Estou aqui pra te ouvir. Posso não ter habilidades especiais pra resolver as coisas por você ou te ensinar a resolvê-las, mas ainda posso te escutar e te aconselhar da melhor forma que puder.” Novamente, as palavras do garoto surpreenderam a loira, que o encarou, surpresa. “E posso te garantir, ninguém saberia do que você me contar. Eu não traio o que meus amigos dizem, te dou minha palavra.”
“...Você é um doce de pessoa, sabia, Connie Springer?” Foi a única resposta que a moça conseguiu arranjar naquele momento. Não esperava que Connie fosse apoiá-la daquela maneira. E a parte de não dizer nada… Era lógico que ele se referia a seus pais. Tamanha lealdade a uma simples colega de escola era realmente admirável.
O garoto, por sua vez, estava desconcertado com a falta de reação de sua colega. Resolveu então fazer uma piada rápida para quebrar o gelo. “Hmm, é mesmo? Talvez eu devesse me morder um dia desses pra saber se tenho gosto de morango ou chocolate.”
Tanto a brincadeira quanto a perfeita imitação da expressão de Sasha que Connie fizera naquele momento causaram novo ataque de risos na moça. “Hahaha, eu não faria isso se fosse você! Imagina que você gosta? Um dos meus filmes favoritos começa assim, sabia? Mas o garoto não tinha gosto de doce.”
“Credo, não quero nem pensar nisso.” Connie fez uma careta, pensando como a garota loira conseguia gostar desse tipo de coisa perturbadora. Tomou mais um gole de seu café — agora quase frio — antes de prosseguir. “E então? Tem alguma coisa sobre a qual queira falar?”
“Me desculpe se eu for indelicada, mas… Se você reencontrasse o seu pai depois de todo esse tempo, como se sentiria?” A pergunta pegou o rapaz de surpresa. Ele se virou para a colega, que estava de cabeça baixa, encarando o líquido escuro dentro do copo como se ele pudesse lhe dar todas as respostas de suas perguntas.
“...Também me desculpe se eu parecer grosso, mas por que especificamente essa pergunta?”
“Vamos dizer que… Eu tenho alguns problemas com meu pai. Sei que não é uma situação tão drástica quanto a sua… Mas eu também fui abandonada. Sabe que vivi algum tempo no exterior, não é? Bom, nesse período, ninguém ligava pra mim. Nenhuma notícia, visita, nem mesmo para saber se estavam vivos. É como se tivessem me mandado embora para ser esquecida. Até que eu me tornei útil, ao ser a única filha e herdeira para a linhagem. Se não fosse por isso… Acho que ainda estaria lá fora, sozinha. Isolada.” Uma risada amarga escapou por entre os lábios rosados de Historia. Sabia que não devia estar falando sobre isso. O pai ia a grandes esforços para garantir que a reputação da família Reiss fosse mantida — incluindo a imagem de família unida e feliz. Estar quebrando essa regra a deixava estranhamente eufórica, a trazia para a vida de forma que não achava ser possível. Suas mãos tremiam de ansiedade, e ela disfarçou isso e seu pulso acelerado ao tomar mais café.
Connie refletiu sobre o que Christa lhe dissera, sem saber o que dizer. Não imaginava que a princesinha de Rose Fields fosse compreender o abandono e a solidão, mas agora via que não era bem assim. Lhe parecia por aquele relato que sua colega não era mais que um peão nos planos do pai, mais uma peça que um membro da família, e tal pensamento o enchia de raiva. Pensar que alguém poderia tratar um parente daquela forma… Mas não era o que acontecera com ele mesmo? No momento em que esposa e filho se tornaram estorvos, Kenny Springer dera as costas e sumira no mundo, e Deus sabia o que acontecera com ele. O filho esperava que tivesse pagado por seu crime de alguma forma.
“Olha, Christa… Vou ser sincero com você. Você não merece menos que a verdade. E a verdade é que eu encheria o filho da puta de porrada. Alguém que abandona uma pessoa que precisa desesperadamente de ajuda, um filho, uma criança… Essa pessoa é um merda. É um covarde. Dizem por aí que todo mundo comete erros e se arrepende. Eu concordo. Mas ninguém toma uma decisão de abandonar um filho dessa forma se não estiver totalmente consciente do que faz. Eles são culpados. Todos eles. E merecem pagar pelo que fizeram. Me desculpe se não é a resposta que você queria ouvir, mas sou incapaz de perdoar o meu pai pelo que ele fez comigo e com minha mãe. Uma pessoa melhor, como você, até pode encontrar o perdão para os erros do seu pai. Não eu. Não consigo.” O peito de Connie doía a cada palavra que dizia, a voz tremida de raiva concentrada. Anos e anos de ira empilhados uns sobre os outros, queimando dentro dele de tal forma que nem percebeu que tinha esmagado o copo — por sorte vazio — durante sua fala.
“Está tudo bem Connie. Eu entendo o que sente.” A voz da moça era suave e tranquila, como que para acalmar o colega exaltado. O rapaz respirou profundamente algumas vezes, enquanto a moça segurava sua mão livre para apoiá-lo. “Desculpe ter te feito falar sobre isso.” Murmurou a loira, soando bastante arrependida.
“Não precisa se desculpar. Eu precisava falar isso há muito tempo.” O bolsista deu um suspiro, se sentindo de certa forma culpado. Afinal, ele deveria estar falando sobre os problemas dela, não extravasando sobre os próprios. “E se te ajudou em alguma coisa ouvir minha opinião sobre isso…”
“Ajudou. Na verdade, você me ajudou muito, Connie. Mais do que pensa.” Historia garantiu ao amigo. As palavras do garoto durante aquela conversa realmente fizeram com que mudasse sua opinião sobre ele. Agora sabia que podia confiar em mais alguém além de Ymir, alguém que a compreendia e entendia seus sentimentos, que se importava com ela, mesmo que não a conhecesse tão bem. Sabia muito bem que nenhum laço jamais seria tão forte quanto o que tinha com a morena de sardas, mas ainda assim, era bom ter mais alguém com quem contar. Alguém que não a venderia para o prefeito Reiss no minuto seguinte.
As palavras da moça soavam verdadeiras, e o garoto careca deu um sorriso fraco em resposta. “Bom, se você diz… Ao menos eu pude ser útil.”
A loira pôs a mão no ombro do colega, penalizada. “Aw, não fique assim. Você é um cara muito legal. A Sasha é uma garota com muita sorte.”
“Hm?? A Sasha? O que está insinuando, Christa?” Connie gaguejou ao perguntar rapidamente, fazendo a garota sorrir com sua reação exagerada.
Historia pôs-se de pé com graciosidade e pegou sua mochila, que estava no banco. “Que preciso de mais café. Me acompanha?”
“Claro. Quem sou eu para deixar uma dama andando sozinha… Mas que Historia é essa de Sasha? É sério, Christa. Ei, ei, Christa!! Me espera!!”
Naquela tarde, Jean e Bertholdt não iam para o quartel general. A experiência de ficar uma tarde a sós na casa não os assustou, mas o que Jean pretendia fazer para ajudar Bertholdt nessa tarde envolvia barulho em potencial, coisa que eles não podiam e nem queriam correr o risco de fazer numa propriedade que não era deles por direito.
Bertholdt não fazia a menor ideia do que o outro garoto tinha planejado para ele, e só sabia que seria na casa de Jean. Ele sabia que o jovem vinha de uma família abastada, mas ao que ele sabia, os Hoover não eram amigos e nem inimigos dos Kirschtein. Na verdade, ele nem sabia o que a família do companheiro fazia, e não achava que perguntar sobre esse tipo de coisa fosse ser educado, mas sim intrometido.
O moreno não se interessava por status e não ligava para as origens de seus amigos, desde que estes fossem boas pessoas. E até agora, Jean estava se provando um garoto simpático, prestativo e amigável. Talvez fosse por isso que ele e Marco eram tão próximos — se bem que alguns boatos maliciosos sobre a relação dos dois circulavam pelos corredores da escola, mas todos eram falsos e não passavam de fantasias bobas de pessoas fofoqueiras.
Os dois pegaram ônibus e aproveitaram para conversar casualmente sobre seus gostos pessoais. Descobriram que ambos gostavam de videogame, sendo que Bertholdt preferia jogos de estratégia e RPG enquanto Jean preferia os de ação e aventura, com leves toques de explosões. Além disso, Jean descobriu que o mais alto adorava livros, coisa que ele nunca tinha parado pra prestar atenção, e Bertholdt soube que o outro garoto era um cinéfilo apaixonado. Outra coisa que tinham em comum, por isso, era que ambos raramente gostavam de filmes de livros. Os dois concordavam que as adaptações geralmente pecavam tanto em qualidade geral quanto em respeito às obras originais, com raras exceções.
Quando chegaram, a conversa parou. Jean não morava numa mansão, mas sua casa era grande e bonita, com um belo jardim, garagem, dois andares e segundo o jovem, um quintal com piscina e até mesmo churrasqueira. Além disso, era muito bem cuidada, com as paredes claras sem nenhum arranhão, as janelas limpas, tudo impecável. Bertholdt viu que não tinha nenhum carro na garagem, e olhou para o rapaz com um ar claro de questionamento.
"Ah, os meus pais estão trabalhando agora. Relaxa, eles não se importam se eu aparecer com uma visita por aqui. Pode ficar bem à vontade, até porque é assim que você tem que ficar." Jean explicou, abrindo o portão para que ambos atravessassem o caminho de pedras no jardim que levava até a porta da frente, que o jovem abriu com a cópia das chaves que tinha extra da mochila.
"Isso tem alguma coisa com o que vamos fazer hoje?" O mais alto perguntou, entrando na casa junto com o anfitrião. A sala de estar parecia ser ainda maior no lado de dentro da casa, com bastante espaço, um belo sofá, um tapete enorme e uma televisão na parede digna de cinema aliada a caixas de som e um belo Home Theather. Desse jeito realmente devia ser divertido ver um filme, o que explicaria muito bem o fascínio de Jean por cinema.
"Tem sim. Tem tudo a ver com o que vamos fazer hoje. Se importa de esperar um pouco? Vou só ajeitar meu quarto pra você poder entrar e a gente poder começar. Pode ficar no sofá, tomar água na cozinha, juro que não vou demorar. E o banheiro é logo no corredor, caso precise." O jovem falou, logo subindo as escadas e indo até o quarto, deixando Bertholdt sozinho. O moreno deu uma rápida olhada na cozinha que ficava logo ao lado da sala e no banheiro, mas não usou nenhum dos cômodos, decidindo esperar sentado no sofá, que por sinal era bastante confortável.
Jean inspecionou o seu quarto assim que chegou. Estava uma bagunça, mas isso não importava. Ele era um adolescente, era natural ter o quarto bagunçado. O que ele queria era certificar-se de que estava tudo bem para uma visita entrar lá.
Começou chutando as cuecas que estavam no chão para debaixo da cama, junto com mais algumas peças de roupa para disfarçar. Checou o computador que tinha deixado ligado, assegurando-se de que não estava com nenhum arquivo suspeito ao alcance alheio e nenhum site esquisito no histórico. Após isso, abriu o armário, pegando a câmera que usava para filmar, e deu uma última olhada para ver se não tinha deixado nada comprometedor nela — já tinha passado tudo para o computador na noite passada, mas prevenir não custava nada -, e por último olhando se a caixa preta com seus "acessórios de filmagem", certificando-se que tudo estava bem guardado e deixando-a novamente no fundo do armário, onde podia ser facilmente confundida com uma caixa de sapato.
Apenas depois de todo esse procedimento — que para ele já tinha virado rotineiro e que por isso não durou mais do que dez minutos — foi que ele decidiu que seu quarto era seguro para visitas. Ainda estava terrivelmente bagunçado, mas agora era apenas um inocente quarto bagunçado de um adolescente.
Ele chamou o moreno da escada, que subiu e entrou junto com o outro no quarto. Bertholdt não se surpreendeu com a bagunça, por mais que seu próprio quarto fosse muito mais arrumado do que aquilo. No entanto, aquilo combinava com Jean, em especial por causa da verdadeira coleção de pôsteres de filmes nas paredes.
"Caramba, quanto pôster! Mal dá pra ver a cor da parede! Mas por que você subiu para organizar aqui se ainda tá tudo bagunçado?" Bertholdt riu um pouco por causa da bagunça, mesmo sabendo que não deveria, mas Jean não ligou — até porque aquela era uma observação válida e verdadeira.
"Essa é minha bagunça socialmente apresentável. A verdadeira só pode ser vista pelos olhos do seu verdadeiro dono, ou seja, eu. Acredite, é melhor assim. Pode sentar na cama." Ele disse, tomando posse da cadeira de rodilhas do computador, pegando a câmera que tinha deixado na mesa e colocando-a no colo, para poder então se virar e falar com o outro jovem, que tinha se sentado na cama.
"Diga oi pra nossa amiga. O nome dela é Éowyn, que nem a do Senhor dos Anéis. Olha que linda." Jean falava do objeto como se fosse uma pessoa de verdade, e Bertholdt não pode deixar de notar que, por mais que aquele fosse um nome estranho para uma câmera, era uma boa referência.
"Ela... É uma câmera." O moreno comentou, atestando o óbvio.
"Exato. E você vai ficar bem íntimo dela, mas não num mal sentido, é claro. Você vai falar hoje, e a Éowyn vai gravar tudinho. Depois vamos assistir juntos. Quero que você veja como fala e como pode melhorar nisso. Aqui só tem a gente, então pode ficar tranquilo e falar do que quiser, a primeira coisa que vier na sua cabeça. Ah, e a Éowyn guarda segredo muito bem. A gente promete que vai deletar tudo depois e vamos manter tudo em segredo, seja lá o que for. Sinta-se livre, Bert." Jean explicou, sabendo o quanto aquela câmera podia ser capaz de guardar segredos. No entanto, Bertholdt não precisava saber sobre sua relação verdadeiramente íntima com ela. Aquilo era desnecessário.
"Antes de começar.. Você tem o costume de dar nomes de personagens pras suas coisas?" O mais alto perguntou, curioso. Ele adorava ler, mas nunca dera nomes de personagens aos seus pertences, mas agora estava começando a levar em consideração aquela ideia.
"Tenho sim. O computador se chama Spider, e o celular é Sherlock. Podemos começar agora?" Bertholdt assentiu com a cabeça, e logo Jean ligou a câmera e a deixou gravando.
A princípio, o garoto estava um pouco nervoso e sem saber direito o que fazer enquanto estava sendo filmado, mas aos poucos começou a se soltar. Jean tinha dito que ele podia falar sobre qualquer coisa, então o moreno decidiu fazer uma pequena análise de alguns filmes de livros, assunto que por sinal captou o interesse do próprio parceiro. Falou tudo o que sabia, até suas palavras se esgotarem e ele fazer um sinal para que o outro parasse de gravar, e ambos foram assistir a gravação no computador do garoto — ou melhor, Spider.
Agora Bertholdt tinha entendido os elogios que o estudante o fizera na tarde passada. Quando estava sozinho e à vontade, ele conseguia falar muito bem. O que ele precisava criar agora era a coragem para conseguir fazer o mesmo na frente de outras pessoas que formavam um público maior.
Pelo menos aquele fora um bom começo. Sentira firmeza e segurança naquela abordagem, que o permitira ver que ele podia sim, melhorar. Quando conseguisse atingir esse objetivo, com certeza agradeceria Ymir por ter criado o Clube, Jean por ter sido seu primeiro parceiro a mostrar-lhe seu potencial, e Éowyn por ter registrado tudo isso.
Talvez ele também devesse criar o hábito de batizar seus pertences.
Marco sabia que não devia se impressionar com a capacidade de Sasha Blouse de consumir quantidades enormes de comida, mas depois do terceiro sundae tamanho grande foi inevitável levantar as sobrancelhas em descrença. Ele continuou assistindo enquanto, sem se importar com os olhares de surpresa nem de seu acompanhante nem da moça simpática da sorveteria, a morena de rabo de cavalo derramou uma quantidade absurda de calda de chocolate sobre sua sobremesa antes de voltar a comer alegremente. Como aquela criatura conseguia comer tanto e continuar sem engordar um quilo sequer lhe escapava — mas bem que ele queria aprender esse truque também.
Alheia ao fato de que metade dos clientes do estabelecimento cochichavam sobre sua pessoa, Sasha tomou mais uma colherada e em seguida retomou a conversa que tinham começado ainda na escola. “Você foi muito gentil de me trazer aqui, Marco. Eu adoro esse sorvete!”
“É, eu percebi.” O rapaz teve que comentar, ainda impressionado com a quantidade, e logo acompanhou a risada da garota com a própria.
“Então, o que vamos fazer hoje?” Prosseguiu a menina. Sabia que aquela era a vez de Marco ajudá-la, e se perguntava o que ele tinha planejado para aquele dia, além de lhe pagar sorvete — uma decisão que em retrospecto não parecia muito sábia. Provavelmente Ymir dissera a ele alguma coisa a ele sobre o problema que a bolsista enfrentava, da mesma forma que falara com ela sobre a vontade do menino de se destacar em algo. No entanto, a própria Sasha estava um pouco pessimista sobre o que podia ser feito em seu caso. Anos de culpa não sumiam dessa forma tão facilmente.
Enquanto refletia, o garoto de sardas tomou mais uma colher de seu sorvete antes de propor seu plano para aquela tarde.“Pensei em irmos ao cinema assistir um filme. Tem aquele novo da Disney, sobre a princesa do gelo, que tem músicas ótimas. Aceita?”
A moça o olhou por cima de sua taça, a testa franzida, sem saber se tinha ouvido corretamente. Aquela proposta parecia assustadoramente romântica. Pensar em si mesma e em Marco juntos era… Estranho. Conseguia vê-los flertando amigavelmente um com o outro, mas nada além disso. “...Está me convidando para um encontro, Marco Bodt?”
Por sorte, o garoto percebeu seu súbito desconforto e a tranquilizou. Por mais que Sasha fosse uma garota bonita e ótima pessoa, o rapaz não queria um relacionamento no momento, e muito menos se aproveitando daquela forma da fragilidade emocional de uma amiga. “Sim, mas como amigos. Sei que você não sai muito, e sinceramente, ficar tanto tempo numa casa sozinha não é bom para ninguém. Precisa se soltar mais, querida.” Ele estendeu a mão por cima da mesa e segurou a de Sasha entre seus dedos, de forma amigável. “É por isso que estamos indo ao cinema hoje, tomar sorvete, cantar músicas bobas e jogar pipoca em quem nos atrapalhar no cinema. Quero que você se divirta, espaireça, seja feliz, Sasha. Mesmo que seja só por um tempo. Você merece isso.”
Uma súbita vontade de chorar abateu Sasha. Marco estava errado. Ela não merecia aquilo, não merecia estar ali, não merecia ser tratada daquela forma gentil, não merecia sorvete e cinema e amizade, ela tinha matado alguém, pelo amor de Deus! Como podia continuar ali e sorrir e dizer que estava tudo bem? Continuar vivendo daquela forma? Esquecer era fácil assim? Engoliu em seco, procurando se controlar emocionalmente. Pensar daquela forma era o que estava acabando com ela. Não podia deixar esse tipo de pensamento tomar conta.
A única coisa que chegou a dizer foi: “...Isso seria um desperdício de boa pipoca.”
Por sorte, parecendo não perceber a súbita distância da moça, Marco deu um risinho. “Desde que não seja desperdício de bom tempo, eu acho que vale, né?”
Ele parecia tão feliz de forma tão natural que ela teve que dar um pequeno sorriso, e segurou a mão dele com mais força. “Com certeza vale… Todo o tempo que eu passo com você vale a pena, Marco.”
“Ei, agora eu que estou achando que você quer alguma coisa comigo…” O rapaz de sardas comentou, com um toque de malícia na voz. Por dentro, estava preocupado com a retração repentina de sua amiga. Em um momento ela estava feliz e rindo, no outro seus olhos perdiam o foco e ela parecia estar com a mente a quilômetros de distância. Ymir dissera que a culpa a perseguia, e ele se perguntava que peso era esse que a moça tinha que carregar. De qualquer forma, estaria ali para apoiá-la se precisasse.
Sasha balançou a cabeça, procurando voltar para a realidade. Devia se focar apenas em Marco e naquela tarde, sim, que a culpa ficasse para depois. “Se você continuar usando esse charme de bom moço pra cima de mim, vou sim. Homem fofo assim é raro de encontrar.”
Parecia que ela tinha voltado ao normal. E ele iria garantir que continuasse dessa forma. “Ahh, você nem sabe... Eu tenho meu lado malvadinho.” Comentou, e deu uma piscadela divertida.
“É mesmo? Isso só me deixa mais curiosa. Adoro garotos malvados, rawr.” A garota de rabo de cavalo respondeu sem perder tempo, imitando garras com suas mãos. Ambos os jovens riram com a brincadeira, sentindo-se muito mais relaxados. Então, chegara a hora de falar de coisas sérias para a bolsista. “Vai tomar o resto desse sorvete?”
“...Eu não acredito que você já tomou isso tudo e ainda quer o resto do meu! Sasha!”
“Eu só tô com fome.”
“Deixe espaço pra pipoca do cinema, ao menos…” Replicou o garoto de sardas, ignorando a cara de desespero que Sasha fazia ao espiar seu sorvete.
“Eu tô deixando. E também estou contando que vou ter que deixar espaço pra pizza depois do cinema, e o chocolate e…” Foi subitamente interrompida quando Marco terminou seu sorvete e foi até o caixa pagar por seus pedidos, visto que tinha se recusado a deixá-la pagar uma parte. Voltando com a carteira bem mais leve, o rapaz ajudou sua amiga a se levantar.
“Você precisa mesmo me ensinar esse truque de comer tanto e não engordar.” Afirmou Marco quando os dois saíram da sorveteria rumo ao shopping e ao cinema.
“Talvez eu ensine… Se você me mostrar seu lado malvadinho.” Brincou Sasha, dando uma cotovelada de leve no colega. O garoto se encolheu, rindo, e fez uma cara de pensativo, como se realmente considerasse a proposta.
“Hm, vamos negociar sobre isso, negociar. Agora, vamos ver se ainda tem horário hoje a tarde...”
Ymir não se deu ao trabalho de pôr as coisas que trouxera em seus lugares quando finalmente chegou em casa, preferindo jogar tudo de qualquer jeito em cima do sofá. Morava sozinha, de qualquer forma; era noite, e estava exausta. Dois dias de trabalho como aquele quase a mataram, ainda que estivesse precisando do dinheiro. Se limitou a guardar apenas o equipamento na gaveta. Foi rápida em se livrar dos sapatos, do capuz e do rabo de cavalo, deixando que o cabelo escuro caísse livre por sobre os ombros enquanto se largava em sua cama e ligava a televisão em algum filme aleatório.
Sabia que deveria ir jantar, mas não tinha saco pra cozinhar nem muito menos para pedir comida, visto que não queria ter que lidar com nenhum entregador em sua casa naquele momento. Sabia também que deveria acordar mais cedo no dia seguinte para organizar suas mercadorias, e passar na loja depois da escola, e…
“Chega de responsabilidades!” Disse para as paredes do quarto. Essas coisas só lhe davam dor de cabeça, e não era como se pudesse resolver tudo no momento mesmo. Decidiria tudo aquilo depois. Agora, ela iria se divertir — e já sabia bem como. Xingando a si mesma em voz baixar por ter jogado o casaco para o outro lado do quarto, foi atrás da peça e tirou o celular do bolso direito, antes de voltar para a cama e fazê-la ranger com a violência com que se jogou.
“Boa noite, monstrinhos. Sentiram minha falta?” Digitou rapidamente a mensagem e enviou para seus colegas de clube, se perguntando qual deles responderia primeiro. Estava curiosa para saber o que tinha acontecido durante sua licença sabática, por assim dizer.
“Finalmente apareceu. Onde você estava?” Connie foi o primeiro a responder, menos de um minuto depois da mensagem enviada. E já chegava sendo impertinente. Ah, ser líder realmente gasta a beleza de uma moça como ela.
Forçando-se a ter paciência, respondeu ao garoto com certa calma. “Trabalhando, querido monge. Ralando pra ganhar dinheiro pra comprar comida, como qualquer pessoa decente.”
Aparentemente o garoto Springer não tinha nada melhor pra fazer no momento do que enviar mensagens. Provavelmente era muito cedo ainda para sair para seu… Trabalho. “E desde quando você é uma pessoa decente? Aliás, não sabia que você trabalhava.”
“Eu sou uma pessoa decentíssima, vocês que não merecem ver isso. E eu trabalho sim, sou vendedora, onde não direi por não querer ver vocês lá. Agora, como foram suas duas tardes com Historia Reiss? Detalhes, detalhes.” Pressionou, cansada da intromissão do garoto.
“Vamos nos casar e ter um filho chamado Rico.” Foi a resposta, e mesmo sabendo que era brincadeira, ela não pôde deixar de fechar a cara para a tela do telefone. Uma resposta malcriada, no entanto, deixaria certas coisas muito claras, mesmo para alguém que não a conhecia tão bem, como Connie. Decidiu apelar para seu conhecido sarcasmo.
“Pobre criança, vamos rezar que ele puxe a mãe. Se puxar você, está fodido.”
“Hahaha. Você é tão engraçada.”
“Começou com a palhaçada, agora aguente. Como foi?”
“Normal. Estudamos nos dois dias. Ela é uma ótima professora, devia dar aula no lugar do Pixis. Também conversamos um pouco, temos mais em comum do que eu imaginava. Gostamos de café e zumbis.” Algo lhe dizia que isso não era tudo que tinha acontecido, fazendo a morena levantar a sobrancelha. Infelizmente, o celular não registrava suas expressões de descrença, então teve que enviar uma confirmação escrita.
“Café apocalíptico histórico, foi só isso que fizeram?”
“Escrito dessa forma soa mais legal do que realmente foi. E seu trabalho, como foi?” De novo essa insistência, o suficiente para fazê-la revirar os olhos. Além disso, a súbita mudança de assunto a deixou intrigada. Contudo, teria mais chance de descobrir o que era falando com Historia, então não pressionou.
“Normal. Amanhã é reunião, à noite. Só lembrando pra você justificar que vai chegar atrasado ao… Trabalho. ♥”
“Sem problemas. Aliás, falando em trabalho, vou nessa. Se cuida, Miss Simpatia.”
Miss Simpatia. Quem ele achava que era? Ymir estava pensando numa resposta apropriadamente irônica quando uma nova mensagem chamou sua atenção.
“Aí está você, vaca. Fiquei com a triste esperança de que tivesse sumido.” A delicadeza de Jean era realmente marcante. Mas ao menos lhe entretinha.
“E me privar do prazer de ver essa sua cara de cavalo? Claro que não. Aliás, assisti seus vídeos. Você é mesmo habilidoso com as mãos.” Respondeu com sinceridade. O rapaz não era de seu interesse, mas até ela precisava admitir que seus vídeos eram de boa qualidade. O fato de ele não mostrar o rosto também ajudava bastante, já que aquela cara, na opinião de Ymir, deveria tirar o tesão de qualquer pessoa.
As respostas de Jean demoravam mais do que as de Connie, provavelmente pelo garoto ter o que fazer além de ficar checando o celular o tempo todo. A tamanha presunção da mensagem a fez rir alto. “Que bom que gostou. Se até alguém como você achou boa a minha atuação, devo ser muito sexy.”
“Lamento estourar esse seu ego desmedido, cavalinho, mas você não faz meu tipo.”
“Que ótimo, você também não faz o meu. Me sinto muito mais tranquilo ao saber que não vai rolar hatefuck entre nós.”
“Igualmente, querida égua, igualmente. Agora, como foi seu período com Bertholdt? Ensinou o garoto a usar as mãos?”
“Não, o ensinei a usar a língua. Pra falar, antes que diga alguma coisa. Não faz meu tipo também não.”
“Estranho, achei que seu tipo fossem morenos de olhos verdes.” Não resistiu em alfinetar, rindo baixo ao imaginar a cara de raiva do rapaz ao ler a mensagem. Como esperava, a resposta não demorou muito.
“Vá se foder. Meu tipo são princesas lindas, não dois titãs horrorosos.” Ymir duvidava seriamente daquele julgamento. Sabia que Jean estava interessado na irmã de Eren, e que esta por sua vez não parecia ter emoções o suficiente para estar interessada por qualquer pessoa que não fosse seu irmão ou Armin. Ela sempre se perguntara o que tinha de tão interessante na aluna perfeitinha — não negava que a moça era muito bonita, mas parecia ser parente de Levi ao ser incapaz de mudar a expressão. De qualquer forma, o cavalinho estaria bem longe do páreo.
“Eu não chamaria Mikasa de princesa. Psicopata em treinamento, talvez. Agora, volte ao nosso amigo Colossal.”
“Não fale mal da Mikasa! Sobre o Bertie, o garoto não fala ruim, só tem uma timidez patológica. Quando não está em perigo de mijar nas calças de medo, ele é uma boa conversa e um ótimo professor. Aprendi mais anteontem que semana passada toda.”
“Se você, de todas as pessoas, aprendeu, até eu quero estudar com ele agora. Ah, e lembre da reunião de amanhã. Precisamos da sua cara feia lá para compensar minha beleza e da Historia.”
“Morra, sua vaca.” A morena de sardas riu mais uma vez e enviou um coração como resposta. Se divertia bastante em ver como o garoto reagia a cada provocação.
Ficou por alguns minutos assistindo um filme na televisão — alguma história maluca sobre vampiros tatuados e romances estranhos e magia druida. Seja lá o que fosse, a protagonista tomava decisões horríveis, e estava revirando os olhos com mais uma delas quando checou o celular e percebeu uma mensagem não vista no WhatsApp.
“Boa noite, Ymir. Tá tudo bem? Você meio que sumiu por dois dias.” Então Bertholdt tinha recebido sua mensagem e respondido pela internet? Quem diria que ele tinha um lado mão de vaca.
“Grande amigo, o único que me responde com educação. Sim, estou ótima, só estava ocupada trabalhando. Como que foram esses dias ensinando a mula do Jean?” Aproveitou a demora do garoto em digitar para dar mais uma espiada no filme, e se perguntou se tinha ânimo o suficiente para fazer pipoca.
“Ele na verdade é bem inteligente, só preguiçoso. E disperso. Mas foi bem legal, nós conversamos, ele entendeu direitinho o que expliquei e ele me ajudou um pouco a falar em público. E em chamar os objetos por nomes de personagens também.”
“Eu chamo meu celular de Irene. É o nome da minha irmã, e ela não solta o dela nunca.”
“Não sabia que você tinha irmã.”
“Ela mora longe. Não nos falamos muito.” Uma vez enviada a mensagem, achou que tivesse sido talvez um pouco seca com o garoto tímido. Isso foi provado pela resposta dele, alguns minutos mais tarde.
“Desculpe por perguntar. Não devia me meter.”
“Tudo bem, grandalhão. Não precisa chorar, ok? Agora me diz, o Jean não tem nada esquisito no quarto dele, tem?”
“Não. É bagunçado pra caramba, mas nada de anormal. Por quê?”
“Por nada, abençoado. Por nada. Obrigada de qualquer forma. Lembre da reunião de amanhã, ok?”
Depois de receber a confirmação de Bertholdt, dizendo que lembrava da reunião, a garota de sardas se julgou com força de vontade o suficiente para ir até a cozinha e fazer uma pipoca. Sabia que não era a escolha mais saudável de jantar, mas não se importava realmente. Estava ligando o microondas quando sentiu o celular vibrar no bolso da calça e foi dar uma espiada para ver quem respondera dessa vez.
“Boa noite, Ymir! Desculpe a demora em responder, estava jogando GTA na casa do Eren.” A mensagem trouxe um sorriso aos lábios da moça. Armin era um dos membros do clube em cujo problema ela estava mais interessada. Até mesmo imaginar o garoto franzino puxando peso para enfrentar seus bullies parecia engraçado.
“E eu achando que você estava tendo um pouco de ação com Annie Leonhardt.” Alfinetou, mesmo sabendo que a resposta não seria nem de longe tão engraçada quanto as de Jean.
“Eu apreciaria se você não falasse desse tipo de coisa assim abertamente. Nem pude falar com ela ainda sobre ter contado” Ohhh, então Annie não sabia de nada? Será que aquilo viraria uma DR entre Romeo e Julieta? Isso ela queria saber.
“Tanto faz, querido. Como foi o treinamento com Reiner?”
“Parece que fui atropelado por um caminhão de concreto.”
“Haha, ótimo. No pain no gain. E o que você ensinou a ele?”
“A jogar xadrez. É uma compensação, agora o cérebro dele parece ter sido atropelado por um caminhão de concreto.”
“Vou passar a tomar mais cuidado com caminhões de concreto. Então é isso, vocês puxaram peso e empurraram peças? E como foi o comportamento dele, ele parecia agressivo?”
“De forma alguma. Estava super tranquilo e calmo.”
“Ótimo, Romeo, ótimo. Me mantenha informada. E lembre da reunião de amanhã.”
Com um pacote ainda quente de pipoca em mãos, Ymir retornou para sua fortaleza da solidão e se aninhou novamente na cama, voltando a prestar atenção ao filme. Estava tão concentrada em achar furos de roteiro que o celular vibrando na mesa de cabeceira lhe deu um susto. Pegou o aparelho, se preparando para uma resposta venenosa a quem tinha lhe assustado dessa forma, mas mudou de ideia assim que viu o nome do contato.
“Ym! Está tudo bem? Você sumiu o dia todo…”
“Ei Jesus Christa. Tô ótima, só trabalhando. Sabe como é.”
“Ah, sei sim. Alguma ocorrência hoje?”
“Nope. Tudo correu normalmente. E você, como foi a conversa com Connie Springer? Ele me disse que vocês estudaram e falaram de café e zumbis.”
“Foi muito interessante. Connie é um cara muito legal, ainda que tenha uns problemas para memorizar coisas, e temos coisas em comum, mais do que eu imaginava.”
“Por exemplo? Só não me diga que vai casar com ele.”
“Claro que não, Ym! Só tem lugar pra uma pessoa no meu coração, e é você. ♥’
“Assim que fico encabulada. Mas e aí? O que era?”
“Temos alguns problemas em comum com a família. Pudemos nos aconselhar sobre isso.”
“Estou entendendo.”
“Mas e aí, o que você está fazendo?”
“Vendo um filme horrível.”
“É de terror?” Tinha que ser Historia. A fascinação da garota por coisas sombrias era quase perturbadora.
“Não, só ruim.”
“Sobre o que é?”
Passou o resto da noite falando com Historia pelo celular, primeiro sobre o filme e depois sobre outros assuntos comuns das duas. Estranhou a falta de contato de Reiner, Marco e Sasha, mas imaginou que estivessem ocupados de alguma forma. De qualquer forma, veria os três no dia seguinte — se não na escola, então na primeira reunião de sexta do Clube de Voluntários. Precisava admitir que estava um pouco ansiosa, tanto para ver o andamento das ajudas mais de perto como as possíveis indicações de novos membros. Imaginava ser uma questão de tempo até que mais alguém se interessasse em participar, e mais um segredo e assinatura fossem se juntar aos que já estavam no livro.
E por isso ela mal podia esperar.
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