Dirty Little Secret
4 Convite
Notas iniciais
Todo o dia seguinte passou muito devagar e recheado de ansiedade para todos os membros do Clube. Naquela noite, seria feita a primeira reunião oficial de membros. As aulas se arrastaram sem dó, não importando o que cada um fizesse, assim como a tarde também foi lenta para todos os indivíduos. Ymir resolveu ir para o quartel general logo depois de trabalhar, e chegou com alguns minutos de antecedência. Ficou lá sozinha, mas não por muito tempo, pois Armin chegou minutos depois, e logo em seguida os membros foram aparecendo um a um, como se a casa fosse um campo magnético que os atraíssem.
A líder analisou as figuras de cada um, todos com roupas casuais — a grande maioria de calça jeans, camisetas e tênis, alguns com casacos e outros com pequenos acessórios. No geral, não chamavam a atenção, e poderiam ser considerados apenas adolescentes normais. Assim era bom, já que não seria interessante se eles fossem reconhecidos na rua por arrombar a casa que usavam como quartel general ou por outros tipos de crimes.
Ninguém se cumprimentou na rua, aguardando Ymir abrir a porta para que todos pudessem entrar rápida e silenciosamente. Só depois que a mesma foi fechada foi que eles decidiram se acomodar no chão e no sofá, no escuro mesmo, usando o auxílio de lanternas e das luzes dos seus celulares para se localizarem.
Ymir ficou de pé encarando o estranho círculo de jovens que tinha se formado naquele local. Parecia até que pretendiam fazer algum ritual daquele jeito.
"Bem-vindos à primeira reunião oficial do Clube de Voluntários. Fico feliz que todos estejam aqui. São todos meninos e meninas bem responsáveis! Vamos falar dos avanços que vocês fizeram nesses últimos dois dias, mas antes, um aviso sobre possíveis novos membros. Quem conhecer alguém do Free, de preferência da nossa sala, que possa ser um novo membro em potencial tem a minha permissão para falar pra ele sobre o Clube, mas apenas como um clube de estudos. Mas sejam sensatos, por favor. Se forem convidar alguém, convidem alguém que realmente vá servir de alguma coisa com o propósito de ajudar os outros. Caso apareçam interessados, convidem para a próxima reunião na sexta que vem, durante a tarde para que eu possa... Fazer o ritual que eu também fiz com vocês." Ela anunciou, séria, antes de se sentar no chão ao lado de Historia e Sasha, ficando no mesmo nível que seus outros colegas.
"Agora, quem gostaria de começar com o relatório da semana?" A garota perguntou, e poucos segundos depois Marco se manifestou.
"Eu quero. Bem, a Sasha me ensinou a cozinhar, e ficou tudo muito gostoso. Foi muito legal ver que eu consegui fazer aquilo tudo sozinho. Muito melhor que viver só de pão com ovo. E ontem nós saímos juntos, como amigos. Fomos pro cinema e foi muito divertido. E comemos bastante também." Na verdade quem comeu mais foi a Sasha, mas o menino sardento decidiu deixar de lado essa informação, até mesmo porque todos ali já deviam imaginar que tinha sido desse jeito. E Sasha o tinha viciado no macarrão que fizeram juntos. A receita era realmente boa e o garoto agora estava morrendo de curiosidade para aprender a fazer novos pratos.
"Sasha, algo a acrescentar?" A líder questionou, direcionando o olhar para a moça de cabelos castanhos que estava comendo uma maçã que devia ter brotado de dentro de sua mochila. Ela terminou de mastigar e engolir o que estava na boca, antes de responder, educadamente.
"Não, só... Que o Marco é um ótimo amigo. Eu realmente me diverti muito com ele ontem, e antes também. Eu não o conhecia direito, e ele realmente é um anjinho. Um amor de pessoa." A jovem comentou, e Marco agradeceu por estar escuro porque não esperava aqueles elogios, o que o fez corar.
"Assim eu fico envergonhado! Mas eu digo o mesmo de você, Sasha. Eu também não te conhecia direito e agora ficamos mais próximos. Foi uma experiência muito boa." Ele logo disse, meio encabulado, porém sorridente. Pelo jeito, a relação entre ele e Sasha iria se transformar mesmo numa bela e duradoura amizade.
"Ah, olha como são fofinhos! Próxima dupla?" Ymir riu com o próprio comentário, e dessa vez a resposta de sua pergunta demorou menos a chegar.
"Reiner me fez começar a malhar e tudo dói. O que não dói é porque está dormente. Acho incrível como ele e muita gente conseguiu aguentar os primeiros dias. São terríveis. Mas sei que no futuro vai dar resultado e também que eu tenho que me dedicar. E eu o ensinei a jogar xadrez, e ele ainda não me venceu nenhuma vez." Armin falou, e a morena não pode deixar de ter um pouco de pena dele, e ao mesmo tempo achou graça de sua situação. Imaginar um garoto fraquinho como ele tentando puxar peso ao lado de alguém grandalhão como Reiner era realmente absurdo e engraçado.
"Você apela demais nesse jogo, Armin. Esse é o problema. Mas ajuda com a concentração e o controle, então eu gostei de jogar com você. E um dia eu te venço." Reiner afirmou, cruzando os braços, convicto. Armin riu e assumiu a mesma pose, imitando-o.
"Vamos ver, Reiner, vamos ver. Treine no xadrez como você treina na academia que isso pode acontecer." Ele retrucou, fazendo o maior rir e desfazer a própria pose.
"E eu espero que você continue dedicado na academia como é no xadrez. Na semana que vem você vai estar melhor dessas dores, prometo." O loiro disse, e Armin esperou que ele estivesse certo. Aquelas dores estavam de matar, ou pelo menos de o irritar bastante.
"No pain, no gain, pros dois. Próximos?" A morena perguntou, e se surpreendeu ao ver que Bertholdt foi quem criou coragem para respondê-la.
"Eu estudei com o Jean aqui no primeiro dia. Ele disse que eu sou um bom professor, e ele também aprendeu direitinho. Ele só precisa prestar mais atenção nas aulas, mesmo. E ontem fomos pra casa dele, e ele me mostrou que eu falo bem... Quando estou sozinho ou com pouco público. Meu problema é a timidez e o nervosismo, mas ele me deu umas dicas sobre isso. Foi bem produtivo pra nós dois, eu achei." Ele comentou, sendo o mais direto e sincero possível. Podia dar detalhes, mas achava melhor manter-se no resumo, assim como os outros que falaram antes dele.
"É verdade, Bert é um bom professor. Um professor colossal. E ele fala muito bem quando se sente confortável. O negócio é fazer ele se sentir assim mesmo em público, pra que ele não acabe se mijando todo ou desmaiando antes mesmo de abrir a boca. Acredito que ele consegue." Jean não pode deixar de falar, e o moreno sentiu-se levemente envergonhado com aqueles comentários. Era bom saber que tinha feito um novo amigo que confiava nele.
"Obrigado. Digo o mesmo sobre seus estudos." Ele respondeu, olhando para Jean, que sentiu a leve alfinetada. Até mesmo Bertholdt sabia mandar indiretas quando queria, se bem que nesse caso havia sido uma direta mesmo.
"Vou ficar feliz mesmo quando te ver apresentando um trabalho pra turma inteira sem gaguejar ou morrer antes. Espero viver pra ver esse dia." O jovem retrucou, no mesmo nível, e o outro apenas fez um último comentário.
"E eu também quero notas boas no seu boletim, Jean. Se esforçe." Bertholdt sorriu logo depois de dizer isso, sentindo que tinha ganhado a batalha verbal. Uma amizade realmente tinha potencial ali entre os dois rapazes.
"Historia? Connie?" Ymir não se aguentou e perguntou, rezando para que a garota loira falasse.
"Estudamos muita história e tomamos muito café. Também fizemos planos para sobreviver ao apocalipse, com café no meio. Muito café." Connie disse, rápido e direto. Ymir notou o quanto tinha sido resumido, e resolveu pressionar um pouco a dupla.
"Só isso? Não conversaram ou fizeram mais nada?" Ela questionou, com uma sobrancelha erguida, e logo Historia a respondeu, com a voz doce e o ar meigo de sempre.
"Demos uns conselhos familiares um pro outro. E o resto das conversas... Não acho que sejam relevantes de citar aqui, mas foram divertidas. Gostei de ter Connie como dupla." Ymir sentiu que havia alguma coisa que não tinha sido mencionada naquela fala, porém, decidiu deixar passar. Ironicamente, concordava que em certos casos, segredos deveriam permanecer como sendo secretos, pelo menos por um certo tempo.
"Certo, certo. Bom saber que todos vocês estão se dando bem! Pra terminar aqui, deixe-me apenas dizer quais serão as duplas que vocês vão trabalhar na semana que vem." Ela falou, levantando-se para analisar novamente seus colegas depois de saber de suas experiências. Eles agora estavam começando a ficar mais à vontade entre si, e amizades já estavam emergindo daquilo. No entanto, ela precisava promover ainda mais a interação entre os membros, e por isso decidiu continuar com as duplas inesperadas para a semana seguinte.
"Sasha e Armin. Reiner e Connie. Marco e Bertholdt. Jean e Historia. Qualquer dúvida sobre o problema da dupla, podem falar comigo. Aproveitem bem que não precisam fazer nada no final de semana pra já começarem a pensar no que vão fazer na próxima, e pensem com carinho na questão dos novos membros. Estamos todos de acordo?" Os membros ficaram tão surpresos com as suas duplas quanto na primeira vez, mas aceitaram rapidamente. Se já tinha começado assim e estava dando certo, podiam confiar que continuaria assim, não importando com quem trabalhassem. Ymir tinha mostrado que estava levando aquilo à sério, e que sabia o que estava fazendo.
"Dispensados, monstrinhos." A morena anunciou, encerrando assim a primeira reunião do Clube de Voluntários. E que viesse o final de semana.
Armin não era de acordar tarde, mesmo no final de semana. Sempre se sentia mais ativo pela manhã do que a noite, e gostava de planejar seu dia com cuidado, apenas saindo de casa quando tinha certeza do que iria fazer, quando e onde. Que fosse mesmo metódico ou obcecado como Eren costumava dizer — o loiro se achava apenas organizado, e sentia que isso facilitava sua vida, especialmente quando comparado à bagunça que o amigo costumava fazer com tudo. Portanto, não demorou muito para que tivesse feito sua higiene, arrumado a cama e ainda varrido o quarto antes de descer para tomar café com o avô. Já estava tão acostumado àquela rotina que simplesmente lhe vinha, quase sem pensar.
A casa da família Arlert era até que grande; uma residência austera de dois andares e um terreno amplo, recordação de tempos de maior prosperidade. Não que fossem hoje pobres, mas sem dúvidas não eram nem de longe tão ricos quanto foram no passado, como uma das famílias fundadoras de Rose Fields. Gerações de erros graves tinham levado àquela situação, segundo o que o avô dizia a Armin, tanto de gestão quanto alianças erradas e traições. O professor Arlert, agora aposentado, gostava de contar ao neto os velhos casos de sua linhagem à noite, depois do jantar. Histórias cheias de reviravoltas, sangue e manipulação que fascinavam o rapaz, ainda que ambos assentissem que o melhor era que estes tempos tivessem passado. O garoto não se importava muito com a questão de poder, levando em conta suas opiniões pessoais sobre valor e dinheiro. Pelo contrário, ele se sentia muito melhor longe das politicagens e holofotes que pareciam acometer pessoas como Historia Reiss ou Blake Summerland. Preferia muito mais ser um estudante comum com uma vida normal do que o alvo da atenção da escola. Deus sabia que ele já tinha atenção indesejada o suficiente.
Naquele sábado, Armin não tinha muito o que fazer — já tinha feito todos os deveres de casa e estudado na noite anterior. Não havia reuniões do Clube de Voluntários, e seu encontro com Annie seria apenas no dia seguinte, então o garoto tinha o dia livre para fazer o que quisesse. Pensou sobre isso enquanto descia as escadas, já conseguindo sentir o cheiro das panquecas que o avô fazia tão bem, e dando um sorriso envergonhado quando seu estômago roncou alto. Depois de uma vida sendo alimentado por uma comida boa como aquela, era surpreendente como conseguia ser tão franzino. Dizia seu guardião que fora a mesma coisa com seu pai, também bastante magricela, ainda que comesse o suficiente para alimentar um batalhão. Lembrar daquilo deixava o garoto reflexivo, de certa forma, ainda que tantos anos tivessem se passado desde o acidente. Sentia saudades dos pais, de como costumavam ler para ele, brincar de pega-pega como se fossem crianças, montar quebra-cabeças e incentivá-lo a socializar e fazer amigos — talvez nem tivesse conhecido Eren e Mikasa se não fosse por eles. Quando era menor, costumava chorar à noite com saudade, mas agora era quase um adulto e muito mais maduro. Sabia que, onde quer que os dois estivessem, estavam olhando por ele.
Encontrou o avô na cozinha, com uma pilha deliciosa de panquecas já prontas a seu lado. Gregor Arlert era um senhor grisalho de sorriso simpático e boas histórias, um tanto baixo para sua idade. Tinha mesmo a cara de um avô bonzinho, e quase nunca visto sem seu inseparável chapéu, cuja aba levantou para encarar o neto, ao mesmo tempo em que virava uma panqueca com uma habilidade que o garoto invejava profundamente. “Bom dia, Armin! Dormiu bem?”
“Sim, vovô. E o senhor?”
“Dormi feito uma pedra. Isso é, se pedras sonharem, pois tive um sonho bem legal. Sonhei que era um mago com próteses mecânicas e um irmão mais alto que eu, que saía pelo mundo atrás de aventura e redenção.” Gregor era sem dúvidas bastante imaginativo. Quase sempre tinha ideias de contos e livros que ele jurava que venderiam muito se fossem publicados. Infelizmente, ele nunca parecia ter paciência para termina-los.
“Por que um mago teria próteses? Ele não pode se curar?” Perguntou o neto, pegando os pratos no armário e começando a por a mesa para o café dos dois.
“Não corte minha diversão, Armin.”
“Desculpe, vovô. Eu só fiquei curioso. Mas bem, parece ter sido incrível!”
“Ah, e foi. Só um pouco confuso.” O senhor pôs algumas panquecas no prato do neto, que agradeceu em voz baixa, antes de também servir-se de algumas e sentar-se defronte ao adolescente, que já tinha começado a atacar seu café. “Vai na casa do Eren hoje?”
O loiro avaliou a sugestão por alguns instantes enquanto mastigava. “Estava pensando nisso. Já terminei meu deveres, não tenho muito o que fazer, então estava pensando em passar lá pra jogar, jogar conversa fora e essas coisas.”
O avô assentiu lentamente com a cabeça. “Eu sugiro que faça isso mesmo. Seus amigos podem achar que você os está deixando de lado depois de entrar pra esse clube novo. Sei que nunca faria isso, filho, mas é bom dar uma passadinha lá e lembrar isso pra eles”
A menção ao Clube de Voluntários lembrou Armin de uma questão que estava em sua mente desde a reunião do dia anterior. Claro que não tinha dado detalhes de suas atividades para o avô, muito menos do preço que pagara para entrar no inocente “clube de estudos”, mas não poderia explicar o fato de estar passando tardes fora sem uma boa justificativa. O caso era que, desde que Ymir menciona a possibilidade de entrada de novos membros, ele imaginava se deveria chamar Mikasa e Eren para se juntar a eles. “Estava pensando em convidá-los a entrar no clube também. A nossa líder comentou que poderíamos convidar os amigos que também quisessem estudar…”
Gregor tomou um gole de seu café, concordando. “É uma ótima ideia. Assim você continua estudando e ao mesmo tempo não se afasta dos seus gêmeos siameses. Fora que também seria bastante útil, não é mesmo? O Eren não ficaria dependendo só de você e Mikasa para estudar, e aquela garota pode socializar um pouco mais. Ela é muito fechada para uma menina tão nova.”
“Tinha pensado sobre isso, mas estava meio inseguro. Já que o senhor acha uma boa ideia, vovô, vou falar isso com eles hoje, então.” Afirmou o rapaz, ao mesmo tempo em que se levantava da mesa para levar a louça até a pia. Fez sinal de abrir a torneira para começar a lavar, mas o avô fez que não com a cabeça.
“Deixe que eu lavo a louça. Pode ir, e se divirta com aqueles jogos estranhos que seu amigo gosta. Só lembre de avisar se for dormir por lá.”
“Acho que não, vou dormir em casa mesmo.”
“Então… O que está esperando? Vá cortar algumas cabeças de Titãs com o Eren, e depois me diga o que ele achou da sua proposta.” Afirmou Gregor com uma piscadela.
“Certo! Obrigado pelo conselho, vovô. Até mais tarde.”
“É pra isso que magos de barba branca como eu estão aqui, filho, com ou sem próteses. Cuidado com o caminho, e se divirta!”
Ainda que não fossem vizinhos, a distância da casa dos Jäger para a residência dos Arlert não era muito mais que uma caminhada rápida por entre algumas ruas laterais. Ainda que conhecesse aquela região como conhecia seus livros de ficção científica, Armin ainda se sentia um pouco inseguro andando por lá sozinho, especialmente em horários de pouco movimento. O bairo até que podia ser bem seguro; o garoto simplesmente não conseguia tirar essa sensação da cabeça. Por sorte, o caminho daquela vez foi sem percalços, e logo ele estava de frente ao imóvel onde Eren e Mikasa moravam. Ainda que fosse talvez do mesmo tamanho que a dele, sempre lhe soara muito mais imponente, talvez pela diferença do terreno do portão para a casa em si; parecia que estava querendo entrar em um castelo. De qualquer forma, foi logo tocando o interfone, e não demorou muito para que fosse atendido.
“Sim?” Disse uma voz feminina do outro lado, muito gentil e animada para que fosse sua amiga asiática.
“Com licença, dona Carla?” Respondeu o loiro. Sabia que havia uma câmera dentro de casa e que a mãe de Eren sabia muito bem quem estava do lado de fora, mas também sabia que ela insistia em fingir que não, para pegar possíveis ladrões desprevenidos.
“Ah, Armin! Entre querido, entre.”
O portão deslizou silenciosamente para um lado, e o garoto entrou. Do lado de dentro, o jardim era pequeno, porém bonito, com as plantas em miniatura e roseiras que a Sra. Jäger adorava de todo o coração. Havia uma rampa ampla para os carros e uma escadaria menor que levavam até a garagem, e o rapaz optou por esse segundo caminho para subir o desnível. Quando chegou, a porta estava já aberta, e Carla Jäger o esperava com um sorriso e um abraço, como lhe era costume. Depois da morte dos pais, a mãe de seu melhor amigo fora a principal figura materna na vida do jovem, tratando-o como mais um de seus filhos. Armin sabia que tinha uma tia viva, irmã de seu pai, mas o avô não costumava falar dela, e ele não sabia o que lhe sucedera.
Depois de soltá-lo, Carla deu espaço para que o loiro entrasse na sala de estar confortável de sua casa. “Chegou cedo hoje, querido. Meia hora antes e o Eren ainda estaria dormindo.”
“É por isso mesmo que deixei pra vir agora. A senhora sabe que eu gosto de acordar cedo, e que o Eren praticamente hiberna.”
“Não é mesmo? Juro que não sei o que faço com esse meu filho. É uma luta tirá-lo da cama todo dia de manhã. Primeiro para achá-lo no meio da bagunça, depois pra removê-lo do casulo de lençóis que ele cria toda noite. Algum dia, juro que ele vai sair de lá de dentro com asas de borboleta.” Afirmou a dona de casa, balançando a cabeça em desaprovação ao comportamento do filho.
Apenas a imagem mental da cena já foi o suficiente para fazer Armin cair na gargalhada. Eren com asas de borboleta? Nossa, imaginava o que Jean teria a dizer sobre isso. Sem se abalar com a as risadas do amigo de seu filho, Carla continuou, batendo o pé no chão.
“E agora, onde esse garoto foi se enfiar? Será que se afogou no banho? EREN, ARMIN CHEGOU!” Gritou para o corredor, irritada com a demora. Ao invés de fazer aparecer o filho biológico, no entanto, quem o grito fez surgir na sala foi a garota séria que era sua filha adotiva. “Ah, Mikasa, minha filha, seu irmão já saiu do banheiro?”
“Não, mãe, tá lá dentro trancado.” Informou a moça, da forma inabalável que lhe era característica. Logo em seguida, ela fez um aceno de cabeça em direção ao amigo. “Bom dia, Armin.”
“Bom dia, Mikasa. Tudo bem?” O loiro não podia deixar de notar como mesmo dentro de casa e num dia quente como aquele, a amiga ainda usava seu cachecol de sempre. Se perguntava como ela aguentava aquilo.
“Estou bem.”
Ignorando completamente a conversa dos adolescentes ao seu lado, Carla prosseguiu com seus protestos maternos, que apenas se intensificaram quando Eren finalmente apareceu, o cabelo ainda molhado pelo banho. “Mas não é possível, já vai fazer vinte minutos. Ele por um acaso está fazendo sacanagem no banho? Só pode, pra estar demorando desse jeito… Ah, aí está você, menino. Ao menos limpou meu chão depois de gozar nele?”
A reação do garoto de olhos verdes foi corar profundamente pela falta de discrição da mãe, enquanto seu melhor amigo tentava inutilmente conter as risadas e sua irmã apenas assistia a discussão como sempre. “MÃE!!!! Eu não estava fazendo esse tipo de coisa!”
“Então por que estava demorando tanto? Não me diga que estava fazendo mais uma de suas experiências malucas? Vai ter um sapo dentro da minha privada se eu for ao banheiro agora?” Bradou a Sra. Jäger em resposta, cruzando os braços e encarando feio o filho, que devia ser uma cabeça mais alto que ela.
“Sapo não, mas… Hm… Eu andei fazendo alguns procedimentos com tinta…”
“EREN JÄGER!!!!”
“...Mas eu limpei tudo bem direitinho, mãe, eu juro!”
“Eu espero que sim, ou vou te fazer limpar tudinho com seu NARIZ mais tarde, moço. E dê bom dia a seu amigo, cadê a educação que eu te dei?”
“Ei, Armin…” Eren obedeceu, claramente contrariado e ainda corado pelo sermão da mãe.
“Oi Eren.” Respondeu o loiro, mantendo sua compostura por muito pouco.
Novamente, Carla não pareceu se importar com a presença alheia na sala e continuou a reclamar com o filho sem sequer hesitar. “Dê graças a Deus por seu amigo estar aqui agora, ou iríamos nós dois inspecionar aquele banheiro agora mesmo, e ai de você se houvesse qualquer mancha em um dos meus azulejos. Ouviu bem?”
“Sim senhora, comandante.” O rapaz revirou seus olhos verdes, incomodado.
“Ótimo. Por enquanto estão livres, já que eu vou fazer o almoço. Armin, querido, qualquer coisa pode me chamar, eu sei que sabe, mas não custa lembrar.”
“Claro que sim, dona Carla.” Armin foi pronto em responder, afim de não atrair para si a ira recém-controlada de Carla.
“Mikasa, fique de olho no seu irmão pra mim. Se ele tentar trazer um sapo ou algo do tipo pra dentro de casa, bata nele.”
“EI!!!!”
“Sim mãe.” A moça não parecia se importar nem um pouco em ter que seguir aquela ordem caso fosse necessário.
“E você, mocinho…” Ela fez uma pausa dramática e apontou o dedo bem para o nariz do filho mais novo, ainda que com certa dificuldade devido à diferença de altura. “...Sem mais um pio! Se comporte!”
Com isso, a sra. Jäger deu as costas com um rodopiar elegante e saiu, deixando para trás um Armin que mal conseguia conter a risada, uma Mikasa indiferente e um Eren muito envergonhado, que engoliu em seco o que restava de sua dignidade antes de se dirigir aos outros dois.
“V-Vamos pro meu quarto. Eu comprei um jogo novo, quero mostrar a vocês.”
O quarto de Eren era bem o que se esperaria de um garoto como ele, ou seja, cheio de pôsteres e extremamente bagunçado. Ainda que Carla se esforçasse para mudar o estado de desordem no local, a entropia ainda era bastante alta no recinto, com revistas jogadas no chão, roupas largadas no tapete, a cama completamente desarrumada e a mesa de estudos nem se fala. Os únicos lugares minimamente em ordem eram a estante onde o rapaz guardava seus mangás, DVDs e gashapons, e a cômoda onde guardava os jogos. Afora isso, o detalhe de maior importância no quarto era um móvel central, onde estava uma televisão de alta qualidade e a preciosa coleção de consoles do garoto, mais valiosa, dizia-se, que sua própria vida.
Já acostumado, Armin pegou um dos pufes largados contra a porta do armário e o arrastou para o meio do quarto, ao lado de um outro que se encontrava perpetuamente em frente à televisão. O pufe verde, claro, pertencia a Eren, e Mikasa costumava optar por se sentar na beirada da cama, podendo observar tanto os jogadores quanto a tela com facilidade. O rapaz loiro esperou calmamente enquanto o amigo ligava o PS3 e buscava o jogo no HD.
“Eu pensei que você tinha dito que não compraria outro jogo enquanto não zerasse GTA V.” Comentou o mais baixo quando o outro se sentou a seu lado já com o controle em mãos, os olhos fixos na tela de loading da versão HD de Shadow of Colossus. Devia imaginar que seria um jogo daqueles — não apenas Eren amava storylines complexas, parecia ser obcecado com a ideia de matar coisas gigantes. De fato, pôsteres de Gozilla, Cloverfield e do jogo Kill All Titans ostentavam o lugar de honra em suas paredes, logo acima da TV.
“Eu pensava a mesma coisa, até que vi essa promoção e simplesmente não deu pra resistir! É como se o jogo me chamasse… Me compre, Eren… Me compre, Eren… Quem sou eu pra recusar quando pedem com jeitinho assim, hm?”
“Muito me surpreende que você ainda tenha crédito no seu cartão.”
“A mãe controla.” Mikasa informou, olhando para as próprias unhas de forma desinteressada.
Eren revirou os olhos mais uma vez, irritado com o comportamento da irmã mais velha de critica-lo sempre. Parecia até que ela formava um time com Carla para persegui-lo, pelo amor dos Sete Deuses. “Fala sério, do jeito que essas duas falam, até parece que eu sou um vagabundo irresponsável!”
A moça ignorou totalmente os protestos do irmão mais novo, ao invés disso se dirigindo ao amigo, que assistia a cena com moderado divertimento. “Armin. Como foi com seu novo clube?”
A pergunta pegou o garoto de surpresa; ainda mais por ter sido corroborado por seu amigo logo em seguida. “É verdade, você nem nos disse nada, Arminho. Como que foi? Conseguiu pôr algum tipo de conhecimento dentro daquela cabeça de cavalo? Ele é membro também, né?”
Ele realmente não esperava que esse tema fosse aparecer tão rápido, então hesitou um pouco antes de responder ao último dos questionamentos, dolorosamente ciente do olhar inquisidor da garota sobre si. “Pra falar a verdade, eu não conversei muito com Jean essa semana. Passei mais tempo com Reiner.”
“Huh? Incrível Hulk? Por que?” Era realmente fantástico como Eren conseguia manter uma conversa sem desviar a atenção ou mesmo os olhos do jogo.
“Eren, tenha educação.”
“Eu estou sendo perfeitamente educado, o Hulk é um herói poderoso e querido da Marvel. Você só tem preconceito por ele ser verde.”
Foi a vez de Mikasa revirar os olhos. “Ignore-o, Armin. Diga como foi.”
“Bom…” O garoto refletiu como poderia dizer sobre as sessões de ajuda sem revelar mais sobre o propósito verdadeiro do clube. “Eu disse a ele que estava com problemas em educação física, então ele me ajudou a treinar…”
Nesse momento, o rapaz de olhos verdes o interrompeu, tirando os olhos da tela do jogo pela primeira vez até agora. “Ei, por que você não pediu a nossa ajuda?? Você é amigo de dois dos melhores lutadores do Free e vai pedir ajuda pra outro cara?”
“Foi uma simples questão de reciprocidade, Eren. Já que eu ia ajudar o pessoal do clube com os estudos, eles precisam me ajudar com uma coisa também. Exercício foi a saída.” Foi a primeira desculpa que lhe veio à mente, e até que não era tão ruim. Armin de fato tinha boa lábia e um pensamento rápido, o que muitas vezes o levou a ser escolhido representante de classe na escola. E, claro, também servia para acalmar amigos desconfiados.
Pareceu ser o suficiente, já que o outro rapaz voltou o olhar novamente para a tela. “Hm, ainda acho que devia ter pedido pra gente… Aposto que o Reiner te fez puxar tanto peso que você não conseguia levantar um lápis no dia seguinte.”
Mikasa, no entanto, não se abatia tão facilmente. “E como você o ajudou?”
“Ensinei ele a jogar xadrez, pra ajudar na concentração. Ele disse que anda meio disperso e tem medo que isso prejudique o desempenho escolar.”
“Agora você vai deixar de passar o intervalo com a gente pra jogar xadrez com o Dr. Bruce Banner?” O loiro não pôde deixar de notar o sarcasmo que pingava na voz do amigo, e teve que sufocar nova risada. Eram ciúmes tão ridículos!
“Lógico que não, Eren. Até por que… Ele é um jogador ainda pior que você.” Admitiu, mentalmente pedindo desculpas ao colega por ter que revelar esse fato. Claro, Eren tinha mais experiência no jogo, mas Armin apostava que ele relevaria esse fator.
“É mesmo??”
“Deve ser uma situação realmente lamentável pra ser pior que o Eren.” Opinou a garota.
“Shiu, calada Mikasa! Eu sou o Rei dos Jogos! Algum dia vou bater o Armin, e ele vai ter que pagar pizza pra todo mundo. É sabido.”
“Sonhar é bom. É sabido..”
Em resposta, o garoto de olhos verdes agarrou um travesseiro com as cores da família Lannister, que estava largado no chão perto de si, e ameaçou a irmã mais velha com o possível projétil. “Repete isso!! Repete!!!”
Armin decidiu que essa era uma boa hora para intervir na discussão, antes que os três começassem uma briga de travesseiros e novamente incomodassem os vizinhos. “Ei ei, não vamos nos exaltar. Eren, baixe esse travesseiro. Vamos, baixe, seu jogo não está pausado… Isso. Já que estamos falando do clube, eu estava pensando… Vocês não gostariam de participar? Quer dizer, está sendo bem divertido até agora. Conversamos bastante na primeira reunião e achamos coisas em comum que a gente nem sabia que tinha. Sabem que o Marco gosta de filmes de zumbi? Que Jean sabe fazer bonecos de sombras? Ou que Historia curte terror?”
Apesar de seu tom de voz casual e expressão tranquila, por dentro o coração de Armin batia com força contra sua caixa toráxica. Esperava estar soando inocente, ainda que estivesse ocultando parte da verdade. Gostava muito de aprender mais sobre seus colegas graças ao Clube, mas também achava que seus amigos fossem se beneficiar da entrada — Eren para domar o comportamento irascível, e Mikasa para se soltar mais e aprender a se divertir. No entanto, sabia muito bem que o problema não seria convencê-los, seria quando os levasse para o Quartel General na sexta-feira. Para ser sincero, ele não imaginava qual seria a reação de seus amigos quando soubessem a taxa de entrada, muito menos que tipo de segredos estariam escondendo.
Forçou-se a afastar a preocupação e voltar a se focar na conversa. “Hm, alguma coisa o cara de cavalo tinha que saber fazer, além de relinchar no meu ouvido...”
“Eren.” A moça chamou atenção, mas seu irmão a ignorou.
“Mas não sabia que o anjinho de sardas e Jesus Christa tinham um lado profano. Acho que até os seres divinos tem seus segredos.”
Por um instante, Armin achou que o ar lhe faltara com aquele comentário tão perto da verdade, porém conseguiu disfarçar com uma pequena risada. “Hahaha, não é? Isso é só o que descobri com algumas conversas. Imagina o que mais o pessoal anda escondendo, né? Acho que é uma das vantagens do clube, conhecer não apenas a matéria, mas também mais dos outros membros. Eles são pessoas bem legais, e tá todo mundo disposto a te ajudar com o que precisar. Se duvidar, tem paciência até pra ensinar inequação de segundo grau pro Eren.”
“Eu aprendi, tá? A duras penas, mais difícil que upar depois de level novecentos, mas consegui!” Teimou o moreno, cruzando os braços como que para demonstrar melhor seu ponto.
“Eu sei. Estamos tão orgulhosos de você.”
“Bom, já que você fala tão bem desse clube… Acho que a vale a pena dar ao menos uma checada. Não ponho minha mão no fogo pelo Demônio de Sardas, ou pelo Cavalo de Raça, mas se você diz que o resto do pessoal vale a pena, acho que aguento os dois numa boa.” Eren admitiu com um sorriso simpático, antes de voltar novamente as atenções para o jogo. Já Mikasa parecia ter se resignado a não mais corrigir os modos do irmão adotivo.
“Ótimo!” Armin sentiu como se um peso tivesse sido retirado de seus ombros. Se Eren havia aceitado participar e ele mesmo já estava dentro, então era praticamente garantido que a garota se juntaria aos Voluntários também. “E você, Mikasa? Vai tentar?”
De fato, a morena maneou com a cabeça em resposta. “Sim. Se vocês dois vão, então irei participar também.”
“Ceeerto, os cupinchas do Demônio de Sardas que se preparem, o Trio Parada Dura está chegando!” Eren fez o favor de declarar, fazendo Armin rir e Mikasa revirar os olhos.
“Qual é a sua idade mental mesmo?” Inquiriu a moça, sem mudar sua expressão séria desde o começo da conversa.
O garoto loiro chamou a atenção do amigo ao bater de leve em seu ombro, antes que nova discussão estourasse. “Posso jogar agora?”
“Só depois que eu morrer. É a regra.”
“Você já morreu.” Com essa frase, Eren voltou a olhar para a televisão e soltou um grunhido frustrado ao perceber que era verdade.
“...Não vale, vocês me distraíram. Agora fiquem quietos e assistam o Rei dos Jogos fazer sua mágica. Como que aquele cara de cabelo estranho dizia… Ah, sim! É hora do duelo!”
Armin estava satisfeito que tivesse conseguido convencer os melhores amigos a se juntarem ao Clube. Agora, só havia mais uma pessoa que ele achava que poderia se juntar aos escolhidos de Ymir, mas ele só a veria no dia seguinte. E apenas de pensar nela, conseguia sentir suas bochechas corarem e seu estômago se revirar, ansioso. Com certeza, Annie precisava de ajuda, nem que fosse para lidar com a família. Ainda que soubesse que convencê-la seria muito mais difícil do que fora com os outros dois, ele estava disposto a tentar. Se fosse para o bem dela, ele estaria disposto a tudo.
Os pais de Jean tinham viajado novamente, deixando o garoto com a casa só para ele durante todo o final de semana. Aquilo era comum para o adolescente, praticamente rotineiro, e ele não se surpreendia mais com os bilhetes que sua mãe deixava na porta da geladeira de manhã pedindo para que ele se cuidasse e mantivesse a casa arrumada. Claro que ele fazia isso. Era bagunceiro e se metia em alguns problemas na escola, mas no fundo até mesmo ele tinha um senso de responsabilidade.
Jean acordou sozinho naquele sábado, quase de meio dia. Uma vantagem de não ter ninguém para encher-lhe a paciência era poder dormir até a hora que quisesse, se bem que mesmo nos dias em que os pais estavam em casa, eles raramente o acordavam. No final, nem fazia assim tanta diferença. Assim como ele também era acostumado a comer sozinho na mesa da cozinha, a ver televisão na sala sem ninguém sentado do seu lado do sofá, a ficar acordado até tarde sem ninguém mandá-lo ir para a cama.
No entanto, a ausência de seus pais permitia ao jovem a liberdade de uma coisa em especial. Uma coisa muito importante e que ele já sentia necessidade de fazer por dias, mas que não fizera por falta de oportunidade.
Já era de tarde, depois do almoço, quando o rapaz pensou na oportunidade de se gravar. Precisava manter o dinheiro fluindo, os clientes satisfeitos. Não podia deixar as coisas pararem, ao menos não enquanto estivessem indo tão bem.
Para ser sincero, ele não se achava nada de especial em relação a todas as outras pessoas que trabalhavam no mesmo "ramo" que ele. Haviam muitos homens e mulheres mais atraentes e com melhores habilidades de edição — na sua opinião, é claro — que deveriam receber muito mais que ele. No entanto, sua renda era até boa. O jovem não se considerava famoso e nem influente nesse meio obscuro do entretenimento, mas tinha sua pequena parcela de fãs, e era isso que importava.
Podia fazer tudo sem medo, já que não tinha ninguém ali para perturbá-lo e nem escutá-lo. Assim era bom. Gemidos vendiam, excitavam, faziam tudo parecer natural e genuíno. Não apenas isso, mas um pouco de Dirty Talk, em doses moderadas, também ajudavam bastante. Com o tempo, Jean foi aprendendo todos aqueles truques, e agora os gemidos e as frases saíam com facilidade de sua boca. Era até irônico. Antes de começar com aquilo, ele nem era de gemer muito.
Antes de começar com aquilo, Jean não fazia muitas coisas.
Decidiu que devia se gravar na cama. Uma simples e agradável cena envolvendo ele e suas habilidosas mãos. Sem brinquedos desta vez. Mais tarde podia até tentar alguma coisa envolvendo um vibrador e um dildo que tinha comprado recentemente. Mas no momento, seu próprio corpo serviria.
Deixou a câmera em cima da cadeira do computador após revirar a cama e deixá-la livre de qualquer empecilho, deixando por perto apenas um pote de lubrificante que ele sabia que iria precisar. Retirou a camisa, ficando apenas vestido da cintura para baixo, e respirou fundo antes de ligar a câmera. Era hora do show.
"Finalmente sozinho. Ah, eu estive me segurando por dias. É hora de aproveitar..." Ele começou a falar de pé na frente da cama, e essa parte realmente era verdade. Tinha ficado a semana inteira sem se tocar por causa de toda aquela história do Clube de Voluntários, mas agora não era o momento certo de se pensar nisso. Precisava se focar no que estava acontecendo, nas suas mãos que alisavam o peito e desciam pelo ventre, chegando até a calça, onde ele apertou levemente por cima, soltando um grunhido baixo e satisfeito. Era nisso que ele tinha que se concentrar — no toque de seus dedos, no deslizar de suas mãos, no cenário que criava em sua mente para poder se excitar, no que poderia falar a seguir.
Continuou brincando por ali, em especial na barra da roupa, tanto para fazer um certo suspense quanto também para poder deixar-se ficar imerso na cena. Ao sentir que a cueca estava começando a ficar apertada, abaixou a calça devagar, para então deixá-la cair e revelar sua roupa íntima branca e já com um certo volume dentro. No entanto, ainda era cedo demais para mostrar o que tinha ali. Um pouco de charme não matava, afinal.
"Não acredito que estou assim tão rápido... Eu realmente estou necessitado! Sim, eu preciso... Eu preciso ser tocado aqui. Não vai dar pra segurar mais por muito tempo, eu tenho que fazer isso!" Assim que falou, deixou uma das mãos escorregar para dentro da peça, podendo enfim tocar-se diretamente enquanto, ao mesmo tempo, não mostrava nada realmente explícito para a câmera. Segurou o próprio membro, sentindo-o enrijecer ao seu toque, e soltou um gemido baixo. Virou-se assim que sentiu que estava completamente rijo, e tirou a roupa, acariciando as nádegas.
Aquilo era tão pervertido. Ele estava massageando o próprio traseiro para depois mostrar tudo isso na internet, e não sentia vergonha nenhuma. Pelo contrário, fazer aquilo apenas fez o seu membro pulsar, e Jean sorriu e lambeu os lábios, mesmo sabendo que seu rosto não seria gravado.
Enfim sentou-se na cama, abrindo as pernas e se expondo ainda mais, cheio de más intenções. Traçou com cuidado o caminho de toda a extensão de seu sexo com a ponta dos dedos, arrepiando-se com aquele toque leve.
"Meu pau está tão duro! Ficar sem gozar esses dias me deixou cheio de tesão... Aposto que vou gozar bastante hoje. Como seria bom ter alguém aqui para me tocar... Para ver como eu estou desesperado... Só as mãos já bastariam, mas eu não me importaria se me chupasse... Ou até mesmo se eu pudesse foder. Homem, mulher, não importa. Posso fazer isso em ambos. Se bem que eu também iria gostar de ser fodido... Acho que vou fazer isso com meus dedos hoje. Só tocar o pau não vai bastar, eu preciso de mais..." O garoto falou tudo aquilo em meio a gemidos claramente necessitados, que ele soltava em resposta aos seus próprios toques. A princípio, concentrava-se apenas no falo, em especial na glande, mas logo suas mãos tocavam todo o seu sexo, testículos, a virilha, coxas, períneo, e Jean sabia muito bem aonde isso acabaria dando. Desta vez, não bastaria tocar apenas o sexo se quisesse gozar de verdade.
Sua mente estava entopercida, imersa completamente em sua própria situação. Ele se esticou para melar os dedos no lubrificante gelado e sorriu marotamente quando estes o tocaram nas proximidades de sua entrada. Precisava fazer aquilo, tinha que ter algo o preenchendo, e principalmente, queria se tocar daquela maneira tão íntima na frente da câmera. Que ela captasse tudo, cada movimento seu, cada espasmo de seu corpo, cada gemido e palavra desconexa que saia de sua garganta.
Quando conseguiu penetrar o primeiro dedo, Jean grunhiu com gosto. Como sentia falta daquela sensação! Não era sempre que se tocava assim, e mesmo que já tivesse algum tipo de prática, colocar o primeiro dedo sempre lhe surpreendia um pouco, de forma bastante prazerosa. Ele olhou para a câmera, cheio de luxúria, e logo começou a movimentar o dígito. Que o mundo se danasse se aquilo fosse imoral. Jean só sabia que era extremamente gostoso, e que ele não pararia até ficar satisfeito.
"Agora tá começando a ficar melhor, mas ainda não está bom. Ainda tem espaço pra mais." Comentou, com a voz já rouca, tratando de logo introduzir o segundo dedo, para continuar a movimentar ambos e ficar relaxado o bastante para deixar que o terceiro dígito entrasse.
Os gemidos saiam naturalmente de sua garganta, agora que estava usando as duas mãos. A que segurava o seu sexo se movia com destreza, estimulando toda a região e se molhando com o líquido transparente que já começava a sair. Estava fazendo uma bagunça, mas não se importava. Quanto mais ele se melasse, melhor, já que seria mais excitante, mais erótico. Seus espectadores deviam desejá-lo, querer tocar cada pedaço seu, cada centímetro de sua pele, ansiar por cada gota de seu gozo. Se não fosse assim, aquilo não daria certo. E Jean necessitava dessa atenção tão errada mas ao mesmo tempo tão certa.
Seus dedos que o tocavam em seu interior finalmente encontraram sua próstata, e o garoto soltou um palavrão ao começar a massageá-la. Seu corpo já estava suado, e ele já se contorcia um pouco na cama, se controlando para não ficar fora do alcançe da câmera. Para Jean, aquele prazer era perfeito. Exatamente do jeito que gostava, totalmente sob seu controle, e ditado unicamente pelo instinto e pelo lado mais obscuro e pervertido de sua mente, que o mandava continuar, fazer mais, tocar-se mais, gemer mais, tudo para ganhar aquela atenção voyeurística que ele tanto gostava como também para poder chegar ao ápice que tanto precisava, externalizar tudo o que estava guardado dentro de si — o desejo animalístico, os gritos presos em sua garganta, a necessidade natural de sentir prazer.
Cada segundo que se passava desse jeito apenas aumentava aquilo tudo, e era quase como se Jean escutasse uma voz no fundo de seu ser que o incentivava a continuar, a fazer aquilo porque ele sabia que o público gostava, que a câmera o amava, e principalmente que ele adorava tudo aquilo e que a combinação de tudo isso resultaria num excelente orgasmo, que era exatamente o que ele tanto precisava depois de dias sem fazer nada.
Aquilo era tão imoral. Ninguém devia se excitar desse jeito, mas Jean se excitava. Ele era um garoto mau, que ignorava ordens, se metia em brigas e que amava se expor na internet, e por mais que devesse se arrepender disso tudo, ele não sentia isso. Ele não prestava, sabia disso, e isso apenas alimentava seu desejo.
Enquanto não gozasse para todo o mundo ver, Jean não se importaria com mais nada. Nem com o mundo e nem com ele mesmo. A única coisa que existia ali era seu prazer, seu corpo, e era por isso que ele estava se tocando.
Apenas por um simples desejo natural de adolescente. Nesse caso, nada ali era errado.
O rapaz não sabia quanto tempo já tinha se passado desde que começara a se gravar, mas com certeza as pessoas que estariam vendo aquilo mais tarde estariam babando pelo seu corpo, desejando tocá-lo e dar a ele tanto prazer quanto ele se dava com as próprias mãos. Nesse momento, seus espectadores deveriam estar em deleite, vendo aquele jovem fazendo algo tão íntimo. Mas ele gostava de se expor, e gostava ainda mais de ganhar dinheiro com isso. Que muitas pessoas gozassem enquanto o assistiam, era isso que ele queria.
"É tudo tão gostoso... Não sei nem onde é melhor! Aqui dentro é tão quente e apertado, e ao mesmo tempo meu pau está tão duro, pulsando tanto, e é uma delícia segurar... Eu realmente acho que não vou aguentar muito tempo desse jeito, eu tenho que gozar! Não posso esperar mais, tem que ser hoje, tem que ser logo, já faz dias que eu não gozo, eu já esperei o bastante e... O-oh, sim!" Aparentemente falar daquele jeito ajudou a fazer o orgasmo chegar mais rápido, e também mais forte. Jean sentiu o corpo tremer, e moveu o quadril contra os próprios dedos em busca de estímulo enquanto a mão que se assegurava do seu membro também se mexia, se melando um pouco com o esperma que saia em direção ao seu ventre, tudo numa questão de poucos segundos extremamente prazerosos.
Era esse ápice que Jean buscava. Aquele em que ele mal conseguia raciocinar direito, que o deixava com a respiração descompassada, que o fazia gemer alto e sem nenhum pudor e que no final o fazia sentir-se entopercido e com a sensação maravilhosa de alívio.
Ele riu um pouco, ainda deixando a mão suja subir e descer pelo seu membro que continuava firme, mas que logo relaxaria com o resto de seu corpo, e retirando os dedos de seu interior.
"Isso sim que eu chamo de gozada. Que delícia..." O jovem disse, satisfeito, para poder então se levantar e finalmente encerrar a gravação. Ele não mentira, fora mesmo muito bom e ele realmente precisava daquilo.
Era como uma droga. Saber que ele excitava outras pessoas quando fazia todas aquelas obscenidades, quando atendia a pedidos específicos e até mesmo um tanto estranhos, quando se gravava até mesmo apenas falando o deixava orgulhoso e estupidamente excitado. Para sentir isso, ele abria as pernas com prazer, gemia, se contorcia, se fazia gozar com gosto. Ele ainda se tocava sem compromisso, mas não era a mesma coisa. Fazer aquilo em frente a uma câmera, sabendo que depois isso tudo seria visto e apreciado por pessoas que deviam morar até mesmo do outro lado do mundo tornava tudo melhor. Ele não conhecia quem se tocaria pensando nele, o escutando, o vendo, e as possibilidades o deixavam arrepiado.
E ele ainda por cima ganhava dinheiro fazendo algo que gostava. Não tinha como não ser melhor. Agora só precisava limpar as mãos para poder editar o vídeo e se preparar para gravar o próximo.
Jean realmente não estava satisfeito só com as mãos.
Marco entrou na boate que ficava a algumas ruas de sua casa não com vontade de dançar, mas sim de companhia. O garoto não era de frequentar todas as festas, e na verdade só costumava ir de vez em quando — e tinha noites em que, apesar de seus esforços, ele via-se forçado a se contentar com as mãos.
Sempre haviam os jovens bêbados, mas o moço de sardas não era gostava da ideia de aproveitar da embriaguez alheia para se satisfazer. Se lembrava das conversas que tivera com Emily sobre o assunto, e sobre como ela o dizia que aquilo podia muito bem contar como estupro já que uma pessoa bêbada é incapaz de pensar direito e de dar consentimento claro e consciente. Marco não queria fazer nada errado. Se era para ir para a cama com alguém, que fosse pela vontade de ambos. E naquela noite, ele queria isso. Só precisava de alguém disposto a acompanhá-lo.
O rapaz passou os olhos pelo lugar escuro. Casais dançavam na pista, mas para ser sincero, ele mesmo não se achava um bom dançarino. Preferia encontrar alguém com que pudesse conversar um pouco, ser simpático, mesmo que no final tudo fosse se resumir a uma noite de sexo casual. Até mesmo porque ele gostaria de encontrar alguém que estivesse com vontade de experimentar coisas um pouco mais… Diferentes.
Uma garota chamou-lhe a atenção, pois estava sentada sozinha e mexendo no celular sem parecer muito interessada no que estava acontecendo. Seus cabelos eram pretos, mas tinham as pontas azuis, e ela usava um conjunto simples de calça jeans, camiseta, tênis e uma bolsa a tiracolo. Marco decidiu sentar-se ao seu lado, puxando assunto casualmente.
“Se importa se eu ficar aqui um pouco?” Ele perguntou, educado e fazendo com que a moça o encarasse rapidamente antes de voltar a olhar para o aparelho.
“Não, claro que não. Pode sentar.” Ela disse, e Marco sorriu. Pelo menos a jovem o deixara se aproximar, o que já era um começo. O garoto a olhou discretamente por alguns segundos, antes de falar novamente.
“Você não parece estar interessada em ficar aqui.” Ele comentou, e a jovem ajeitou o cabelo atrás da orelha enquanto se virava para encará-lo e falar. Nesse momento, Marco viu que ela tinha olhos azuis muito bonitos, e que combinavam com seu cabelo que ia até os ombros. Além disso, ela parecia ser apenas um pouco mais baixa que ele, e mesmo que estivesse sem usar nada de especial, era bem graciosa.
“É que estou acompanhando minha irmã mais velha. Ela quem me arrastou pra cá, e agora está grudada com um garoto que conheceu. Acho que vai passar a noite na casa dele e eu vou voltar sozinha, mas eu quero ter certeza de que isso vai acontecer antes de eu ir embora.” A moça explicou, sem soar irritada. Na verdade, ela o encarou com algo que para o adolescente pareceu ser curiosidade. Não devia ser sempre que ela saía para esses locais, e provavelmente ela não esperava encontrar um rapaz como ele logo de cara.
“Ah, entendi. Então você mora aqui perto?” Ele questionou, mesmo sem estar tão interessado assim no endereço da moça, que pareceu hesitar um pouco antes de responder — pelo jeito ela sabia que não era sensato dar o seu endereço a um estranho que acabara de conhecer numa festa. Nesse ponto ela tinha razão — até mesmo porque Marco também hesitaria se estivesse sendo perguntado sobre isso. Era melhor que ele desviasse logo do assunto para não soar como alguém perigoso ou indesejável.
“Mais ou menos. Tenho que pegar ônibus. Por que? Você veio a pé também?” A garota respondeu, evasiva, e Marco logo tratou de falar mais um pouco e corrigir o pequeno erro que tinha cometido. Sentia que podia conseguir uma noite interessante com a moça, bem melhor do que se fosse com uma das garotas que não saíam da pista de dança. Ao menos ali na área das cadeiras eles tinham um mínimo de chance de poder conversar.
“Da minha casa pra cá são só umas ruas. Então eu vim a pé sim. Ah, e meu nome é Marco. E o seu?” Ele resolveu se apresentar, e isso pareceu atrair novamente a jovem. Não que ele fosse um especialista em flerte, mas sabia um pouco sobre como jogar o jogo da sedução.
"Gabrielle. Com dois 'l's, caso esteja curioso. O que faz aqui, Marco? Não gosta de dançar? Está acompanhando algum amigo ou parente também?" Ela resolveu continuar conversando, o que era um excelente sinal. Pelo jeito havia algo ali que a interessou, mesmo que Marco não soubesse o motivo.
"Estou sozinho. E eu não acho que danço muito bem e prefiro não me atracar no meio desse pessoal. Ah, e eu gostei do seu cabelo. As pontas combinam com seus olhos. Acho legal." O rapaz respondeu, e elogiou de forma sincera. Tinha gostado do cabelo da moça, e sua mente já conseguia imaginar os fios pregados na testa suada e na nuca, os olhos dela cheios de desejo...
"Obrigada. E até que você é fofinho, com essas sardas no rosto. Parece um anjinho." Gabrielle falou, tirando o moreno de seus pensamentos. O garoto riu um pouco, já acostumado a essa observação e até mesmo apelido que todos pareciam dar a ele.
"Muita gente fala isso, mas agradeço o elogio. Se bem que eu não acho que pareço muito angelical aqui..." Marco comentou, e desta vez quem riu foi a moça. Estava apreciando a companhia daquele jovem, o que era uma surpresa considerando que achava que não encontraria ninguém interessante por ali e estava no local por pura obrigação.
"Um anjinho de verdade não deve frequentar essas festas. Por acaso você fugiu da igreja ou caiu do céu?" A garota provocou, não podendo resistir. Marco entendeu imediatamente que aquele era um sinal para continuar. As coisas estavam começando a ficar interessantes. Parecia que alguma coisa ia sair dali.
"Não mesmo. Está vendo minhas asinhas ou auréola? De anjinho eu só tenho a cara mesmo." Ele retrucou, fazendo charme. De fato, o que tinha dito era verdade. Por detrás do rostinho adorável, o jovem não era exatamente puro e doce, especialmente entre quatro paredes.
"Oh, está querendo insinuar alguma coisa?" Gabrielle questionou, e o jovem apenas a encarou nos olhos antes de responder, um tanto enigmático.
"Talvez." Mentiu, pois estava insinuando muitas coisas. A moça entendeu a dica, e sorriu atrevida. Até que aquilo estava sendo divertido.
"Hmn, esse seu talvez saiu bem suspeito. Será que no fundo você é um garoto mau?" Ela provocou mais, e Marco não pode deixar de sorrir ao vê-la chegando tão perto da verdade. Talvez ele fosse um garoto mau, dependendo do ponto de vista.
"Devo dizer que tenho meu lado malvado. E que eu gosto de fazer algumas... Malvadezas. Especialmente com meninos e meninas que não se comportam." Ele resolveu começar a ser mais direto, ainda que estivesse falando de forma sutil. Já queria deixar claro para a outra que, caso resolvesse acompanhá-lo, devia estar preparada para uma noite um pouco mais agitada. Marco gostava de sexo "normal" tanto quanto qualquer outro, mas nessa noite em especial ele queria mais do que isso.
"Acho que estou entendendo onde você quer chegar. Acha que sou uma menina má?" Gabrielle perguntou, com a voz carregada de malícia. Ela não tinha se intimidado com o que Marco disse, e na verdade achou tudo bem mais interessante. Deveria agradecer à irmã depois se a noite terminasse do jeito que estava esperando.
"No momento não, mas estamos em público. Isso é melhor de se definir em privado. Gostaria de me deixar analisar?" Marco resolveu ir direto ao ponto desta vez. Sabia que a moça tinha se interessado, e não queria arriscar perder tempo ou então acabar com o clima mudando de assunto.
“Claro, anjinho. Sua casa é aqui perto, não é? Vamos.” A garota se levantou, e Marco fez o mesmo, contente por tudo ter dado certo. Nessa noite, ele não precisaria se contentar sozinho. Aquilo prometia ser interessante.
A caminhada até sua casa foi rápida e sem muita conversa. As ruas estavam praticamente vazias por conta do horário, e o jovem foi rápido ao abrir a porta da frente de sua casa e também ao fechá-la quando viu que sua acompanhante entrou. Só então ele acendeu as luzes da sala, revelando tudo o que tinha ali — em especial as decorações.
“Casa legal. Os seus pais…” Ela falou em voz baixa, tomando cuidado porque não sabia se havia mais alguém em casa. E os enfeites que estavam ali realmente chamavam a atenção da garota. Eram bonitos e bem diferentes. Até que as pessoas que moravam ali tinham bom gosto.
“Saíram, e só vão chegar de manhã. Ah, e eu sou filho único. Não precisa ter medo de fazer barulho. Até porque você vai fazer barulho, querendo ou não.” Marco brincou, com um sorriso matreiro, e aproveitou para se aproximar da moça, que o agarrou pela cintura antes que ele pudesse fazer o mesmo e o olhou nos olhos antes de retrucá-lo.
“Você é bem danado, não é?” Ela comentou, rindo um pouco logo depois daquela constatação. Era óbvio que o moreno não iria mais esconder por muito tempo o que realmente queria fazer naquela noite.
“Sou sim. Vamos brincar hoje, Gabrielle. Assim é que eu descubro se você é uma menina má ou boazinha… O que acha? Aceita?” O jovem propôs, esperando honestamente que ela aceitasse. Estava mesmo com vontade de mostrar o seu lado “malvadinho” para alguém.
“Aceito. Regras?” A garota perguntou, claramente interessada. Marco se afastou um pouco dela, cruzando os braços antes de começar a respondê-la — queria mostrar que estava falando sério e que também era uma pessoa responsável nesse quesito.
“Você vai usar uma coleira. Eu mando, você obedece, eu faço o que quiser com você. Caso queira parar, é só tirar a coleira, ou então pode falar ‘azul’. Eu posso fazer o mesmo também, se eu não quiser continuar. É bem simples.” Ele explicou, paciente. O sistema era realmente simples, e pensado justamente para a segurança de ambos. Marco não queria fazer nada que pudesse machucar ou desagradar seus parceiros, então sempre usava essas regras — até mesmo porque o próprio BDSM usava tal princípio, e o garoto queria se mostrar responsável e não um idiota aproveitador.
“Sim, bem simples. Pois bem, Marco. Eu ainda aceito.” A moça falou, e Marco sorriu ainda mais. Era aquela resposta que ele tanto esperava.
“Ótimo. Vamos pro meu quarto.” Ele disse, guiando-a até o seu quarto, trancando a porta para garantir a privacidade de ambos, mesmo que fossem os únicos na casa. Ele se abaixou, puxando uma caixa que estava bem escondida debaixo da cama, e de lá tirou uma coleira de couro preta, passando-a pelo pescoço de Gabrielle e ajustando-a ali.
"Ficou bem em você. Mas vai ficar melhor quando você tirar a roupa. Toda. Quero só a coleira em você." Marco começou dando a primeira ordem. Gabrielle corou um pouco com o jeito direto do garoto, mas o obedeceu. Tirou os sapatos e meias, desceu a calça, conseguiu tirar a camiseta com um pouco de dificuldade e por último, após um pouco de hesitação — ela conseguia sentir os olhos do jovem explorando todo o seu corpo e a moça imaginava o que ele devia estar pensando em fazer logo depois -, tirou o sutiã e a calcinha, deixando todas as peças em um pequeno monte no chão.
Marco se aproximou da parceira, sorrindo, e começou a tocá-la apenas com as mãos, sentindo seu corpo.
"Muito bem. Foi fácil, não foi? E como você é bonita... Sua pele é macia... Seus peitos também, são gostosos de pegar. Macios e firmes. Olha que bunda gostosa também. Dá vontade de apertar toda... Tá se arrepiando, né? Dá pra sentir. Parece que você é bem sensível, não é? E aqui embaixo, como estamos?" Ele sussurrava no pé do ouvido da moça, em voz baixa, e estava certo. Ela estava mesmo se arrepiando com as palavras e os toques do jovem, que conseguiam passar de leves a firmes em uma questão de segundos. Ele era bom. Muito bom. Quando a mão dele deslizou pelo seu ventre, ela suspirou baixo, abrindo levemente as pernas para deixar que o garoto a tocasse, curioso.
"Tá começando a ficar molhada... Safada. No que está pensando? Não, não responda. Deixe tudo aí dentro. Eu vou te dar prazer, mas primeiro vai ter que mostrar que merece. Não gosto de pessoas egoístas." O moreno sorriu, afastando-se dela e lambendo com satisfação os dedos que a estavam tocando intimamente antes de tirar a própria camisa e os sapatos, deixando-se ficar apenas com a calça. Gabrielle não pode resistir, e admirou o corpo do jovem. Ele era bonito, e a moça sentia-se ficando mais excitada apenas com aquilo.
"Marco, você é..." Ela começou a falar, mas o rapaz levou o indicador até seus lábios, num pedido para que fizesse silêncio.
"Não, Marco não. Mestre. Agora continue." Ele disse, e por alguma razão, Gabrielle sentiu as bochechas ficarem mais quentes. Devia ser o olhar cheio de malícia que o garoto estava dirigindo ao seu corpo, apreciando cada curva e centímetro. De fato, ele gostara de tudo que a moça tinha a oferecer. Os seios medianos que ele podia pegar facilmente com a mão, o traseiro redondo, as curvas de seu quadril, e com certeza tinha apreciado como ela era sensível e estava se excitando tão rápido.
"Você é... Gostoso, Mestre." Gabrielle elogiou, um tanto tímida, e Marco continuou com o mesmo sorriso matreiro de antes, apalpando-se por cima das roupas.
"Obrigado. Mas você nem viu tudo ainda. Vem cá. Quero que você tire o que está faltando." Mandou, deixando por fim que a jovem o tocasse. Gabrielle se aproximou e deixou as mãos passearem um pouco pelo torso do parceiro, apreciando a rigidez de seus músculos e as sardas ocasionais que estavam ali, antes de chegar até a calça. Ela desabotoou o botão e desceu o zíper com a mão devagar, e ajoelhou-se para poder abaixá-la.
Ela instintivamente lambeu os lábios ao ver o quão próxima estava do volume entre suas pernas e que ainda estava preso dentro da roupa íntima. A garota olhou para cima, e foi retribuída com o olhar do moreno e também com um pequeno carinho na cabeça, incentivando-a a continuar. A jovem decidiu então fazer isso, e retirou a peça que restava, deixando o moreno completamente despido e com sua ereção a centímetros de sua boca que salivava de desejo — Marco não era o único que estava gostando do que via.
"Chupe." O moreno ordenou, olhando fixamente para a garota ajoelhada. Gabrielle tocou-lhe as coxas com as mãos e segurou com uma delas a base de seu membro antes de começar a lambê-lo. A primeira lambida na glande fez o moreno se arrepiar de prazer. Ela com certeza sabia onde era sensível. A moça continuou a fazer aquilo em movimentos lentos e circulares por mais alguns deliciosos segundos, antes de decidir beijar e lamber todo o resto do seu sexo, depositando algumas vezes beijos ocasionais.
Marco acariciava a nuca de Gabrielle, provocando pequenos choques na garota e a incentivando totalmente a continuar com o que estava fazendo. Ela sentia o próprio sexo ficando ainda mais úmido e necessitado de atenção, mas ela não queria se arriscar se masturbar e ser punida por isso. Além disso, estava gostando bastante de fazer aquilo em Marco. O garoto conseguia manter boa parte da compostura, mas gemia e suspirava baixo algumas vezes, além de a encarar com vontade de mais.
A morena aproveitou uma dessas vezes em que seus olhares se encontraram para finalmente colocar tudo o que conseguia da intimidade do outro na boca, fazendo-o arfar audivelmente. Começou então a movimentar-se, masturbando o que não conseguia colocar dentro dela. Marco mordeu o lábio inferior para não gemer muito alto, e deixou-se aproveitar da sensação por alguns segundos, mas logo decidiu que estava na hora de parar antes que perdesse totalmente o controle — ele queria gozar, mas faria isso apenas em um local bem específico.
"É o bastante. Você é boa isso, viu? Até agora você está bem obediente, safadinha e habilidosa... Mas isso ainda não é o bastante. Quero deixar sua buceta encharcada e te fazer implorar por mim. E se você implorar direitinho e continuar sendo uma boa garota até lá, te garanto que vou te foder todinha. Para a cama, Gabrielle. Deite-se de barriga pra cima." Como aquele rapaz conseguia falar todas aquelas coisas e ainda assim manter a carinha de santo? Gabrielle achava aquilo impressionante, e totalmente sensual. Se o visse na rua casualmente, jamais imaginaria que ele seria daquele jeito em privado.
Ela se levantou e deitou-se na cama do rapaz, e não pode deixar de perguntar.
"O que você vai fazer, Mestre?" Marco estava mexendo na caixa enquanto ela dissera isso, e sorriu. Garota curiosa. Logo iria saber o que ele estava planejando.
"Vou testar algumas coisas. Mas antes vamos cuidar dessas suas mãos. Não as quero me atrapalhando." O rapaz falou, subindo na cama com um par de algemas em mãos — par este que foi cortesia de Emily, por sinal -, e a garota deixou com que ele a algemasse. Após isso, ele a fez ficar com os braços acima da cabeça, e depois de alguns segundos tirou a mão dos pulsos da moça, que entendeu que deveria permanecer naquela posição e ganhou um aperto leve no seio esquerdo junto com um sorriso maroto do jovem de sardas em recompensa.
O garoto retirou então um pincel da caixa, e mostrou-o para a moça. Para uma coisa tão simples, tinha algumas serventias interessantes fora a pintura. Começou a passar o objeto delicadamente pela bochecha da jovem, descendo pelo queixo e pela curva do pescoço — o que fez a jovem se arrepiar — e indo até os seios. Acariciou ambos com cuidado, em especial os mamilos rijos e sensíveis, observando a garota suspirar baixo em meio à sua respiração acelerada. Toques leves realmente pareciam funcionar com ela.
Sentindo-se um pouco travesso, Marco decidiu fazer com que o objeto tocasse em uma das axilas expostas da moça, fazendo cócegas na mesma. O garoto sorriu ao escutá-la rindo e também ao vê-la lutando para não se contorcer muito. Era adorável, divertido, e ao mesmo tempo excitante. Os seus toques era suaves, porém rápidos, e era surpreendente como ela estava conseguindo resistir à tentação de simplesmente abaixar os braços para que ele parasse com aquilo.
“Você gosta disso?” Ele perguntou, e a jovem afirmou com a cabeça, sem conseguir parar de rir. Pelo visto, não conseguia achar uma chance para falar. Ele continuou por mais alguns segundos, e então parou, voltando a descer com o pincel e circulando o mesmo por entre os seios da moça enquanto a via arfando e recuperando o fôlego.
“I-isso é loucura, Mar- Mestre…” Ela comentou, gemendo baixo ao sentir o garoto acariciar-lhe um dos mamilos e sentindo-o descendo ainda mais com o objeto, passando por toda a sua barriga e contornando o umbigo, parando justamente no púbis. Só de sentir os fios macios na região, Gabrielle sentiu um arrepio delicioso passando pelo seu corpo, e ela sabia que Marco não ficaria apenas ali por muito tempo.
“Acha mesmo? Você não abaixou os braços até agora, já percebeu? E você abriu mais as pernas agora que estou tão perto… Tão obediente, tão gostosa, tão excitada… Eu sei bem o que é que você quer. Sabia que desse jeito eu consigo ver muito bem sua buceta? Deve estar tão molhada agora, já consigo até imaginar o barulho dos meus dedos se molhando quando te toco, ou então do meu pau entrando e saindo de você enquanto eu te fodo. É isso que você quer, certo? Eu sei que é, dá pra ver o quanto você quer pelo jeito que está me olhando… Mas não vou fazer nada disso agora. Ainda está cedo.” Gabrielle quis retrucar todo aquele atrevimento, mas ele estava certo. Se ela quisesse parar, podia muito bem ter pedido, mas ela não pediu, justamente porque queria mais. Estava começando a ficar realmente necessitada, e o fato do garoto estar passando o pincel em sua virilha e na parte interna de suas coxas não ajudava.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Quando ele decidiu pincelar lentamente a sua intimidade, ela gemeu. Era um tanto agoniante, mas ao mesmo tempo bom ter algo a tocando na região. Marco riu com a reação da garota, e repetiu o gesto mais um pouco, sentindo o próprio membro pulsar. Podia a provocar com suas palavras e ações mas no fundo estava com tanto desejo quanto ela. No entanto, sabia que precisava se controlar.
“Me responda… Você gostaria que fosse o que no lugar do pincel? Meus dedos, meu pau ou minha língua? Pode dizer.” O moreno questionou, parando com as carícias e deixando o objeto de lado, para a infelicidade de Gabrielle, que sentiu falta dos toques em seu sexo.
“E-eu não sei, os três parecem melhores que isso. Muito melhores.” Ela respondeu, sincera. Qualquer coisa já era melhor que apenas um pincel. Marco a encarou, pensativo, e aproximou-se dela, segurando um dos seus seios suavemente.
“Resposta interessante, mas não é isso que eu quero. Diga um dos três, Gabrielle.” Ele apertou o seio de leve após sussurrar aquilo em sua orelha, fazendo a garota corar e grunhir ao mesmo tempo.
“Eu já disse, Mestre, não sei.” A jovem retrucou, e recebeu um aperto um pouco mais forte no outro seio antes de ver o garoto de sardas se levantar, segurando os seus braços e a guiando para que se levantasse. Após isso, Marco sentou-se na cama novamente, e a fez deitar-se em seu colo. Gabrielle sentiu-se envergonhada por estar naquela posição, por mais que tivesse se exposto bastante deitada com as pernas abertas. Com certeza estava se sentindo assim porque ela sabia muito bem o que aquela posição em específico significava...
“Então eu já sei como te fazer dizer. Agora você está sendo uma menina má e teimosa. Se tivesse respondido direito não me forçaria a fazer isso…” Ele afirmou, acariciando uma das nádegas da moça. A carícia doce dos dedos de Marco apenas servia para deixar a garota ainda mais excitada e ansiosa pelo o que iria acontecer em breve. Ele estava tocando um local tão sensível, tão íntimo, tão próximo de onde ela realmente gostaria que estivesse sendo tocado, e apenas pensar nisso fazia sua intimidade pulsar.
“Se você falar agora, eu não vou continuar. Seria uma pena ter que bater nessa bunda tão bonita… Mas ao mesmo tempo também seria um prazer deixá-la toda vermelha e quente.” Marco falou, e as suas palavras apenas serviram para deixar Gabrielle ainda mais necessitada. Para ser sincera consigo mesma, ela sabia o que queria, mas iria se fazer de garota teimosa por enquanto. Ela realmente queria receber algumas palmadas como punição por ter sido desobediente.
"Pode fazer isso, então." A jovem disse, e sentiu as unhas do moreno arranhando de leve a sua pele, enquanto a outra mão brincava na área próxima de sua nuca e lhe alisava os cabelos.
"Ainda tem a coragem de me responder assim? Realmente está precisando aprender um pouco sobre como se comportar." O garoto de sardas comentou, estalando os dedos da mão e finalmente usando-a para dar uma palmada em uma das nádegas da parceira. Gabrielle soltou uma exclamação ao sentir o impacto no local, acompanhada da dor e logo em seguida do incômodo causado pelos dedos do rapaz alisando onde acabara de bater. E apesar de tudo isso, ela quis mais, justamente por ser tão deliciosamente errado.
"Está sentindo? Podia ter evitado isso. Você só precisa cooperar, Gabrielle, e assim a gente pode ter tanto prazer... Eu poderia estar com meus dedos dentro de você, ou então chupando e lambedo essa buceta tão molhada ou quem sabe até mesmo te fodendo, mas olha só como estamos. Mas tudo bem, eu ainda aguento esperar. E eu vou continuar com isso até que você implore por mim. Sei que isso tá te dando tesão, mas não tem como gozar só com isso. Vai precisar de mais." O moreno continuou a torturá-la com suas palavras, mas Gabrielle não cedeu. Dois podiam jogar desse jeito, e mesmo que ela fosse acabar perdendo no final, não o faria sem antes dar um pouco de trabalho para o anjinho de sardas — que de anjo realmente só mostrava ter o rosto.
Marco a deu mais alguns segundos de calmaria, e vendo que ela não abriria a boca apenas com uma palmada, ele logo deu mais uma na outra nádega. A moça novamente soltou um gritinho e se contorceu levemente em suas pernas, mas estava disposta a aguentar mais. O garoto deixou os dedos tocarem levemente a área por alguns segundos, e voltou a bater na outra nádega. Vendo que aquele ritmo lento não daria resultados, ele deixou que seus dígitos acidentalmente escorregassem para mais perto de sua intimidade, provocando a moça, que soltou um gemido baixo apenas com aquele simples gesto.
Ele continuou com aquilo por mais um tempo e então afastou a mão, no entanto, não escutou nenhum pedido vindo da outra. Ela podia ser sensível, mas era bastante teimosa. Se bem que era ela mesma quem acabaria pagando por tudo isso. Marco lambeu os lábios, e então começou a ser mais rápido em seus movimentos, dando palmadas leves, porém rápidas e alternadas no traseiro da garota, a escutando protestar um pouco com seus gemidos e ao mesmo tempo segurando-se para não falar.
O moreno era realmente muito bom naquilo tudo. Bom demais. Tanto que a dor se transformava numa espécie estranha de prazer que mexia com seus desejos mais profundos, que a fazia querer mais, que a deixava tão molhada que era até mesmo errado não estar sendo preenchida naquele exato momento. E Gabrielle sabia perfeitamente o que poderia estar dentro dela, e ela conseguia sentir aquilo não apenas roçando contra sua barriga a cada vez que ela se contorcia como também salivava só de imaginar todo o sexo do parceiro, rijo e quente, completamente dentro dela, a satisfazendo e a fazendo gritar, do jeito que ele prometera que a faria minutos atrás.
Era absurdo o quanto aquela não foi uma afirmação barata. Marco sabia mesmo como fazer uma pessoa gritar tanto de dor como de prazer.
"Eu quero você! Eu quero o seu pau! Me fode de uma vez, eu não aguento mais, eu preciso de você dentro de mim, e tem que ser agora! Por favor, Mestre, eu prometo que serei uma boa menina, que vou me comportar, você pode me foder do jeito que quiser e o quanto quiser, mas por favor, me fode!" A morena gritou, implorando, e nãos e importou se algum vizinho iria ouvir. A única coisa que importava naquela hora era o quanto ela precisava de Marco, que tinha parado com as palmadas assim que a escutara começar a falar, e agora estava sorrindo satisfeito enquanto entrelaçava os dedos em seu cabelo preto e azul, divertindo-se enquanto os enrolava nas mechas.
"Boa garota. Era isso mesmo que eu queria ouvir. De quatro na cama, agora." Gabrielle inspirou profundamente antes de se levantar, com o traseiro dolorido, e conseguiu posicionar-se na cama do modo que o outro a mandara, ficando de joelhos enquanto observava o jovem pegar um preservativo que estava guardado ali perto e colocando-o em seu membro, para enfim juntar-se a ela na cama, segurando a sua cintura e deixando o seu sexo roçar no dela, mas sem penetrá-la.
"Eu te disse que ia te deixar encharcada e louca por mim, não disse? Agora apenas aproveite. Vou fazer o que você quer, até porque eu também quero... Ah, nossa, como é apertada e quente... Gostosa. Vou fazer você ficar rouca e te deixar sem andar direito só por causa disso." Ele disse assim que a penetrara, fazendo-a gemer com gosto. Gabrielle amou tudo aquilo, e estava completamente disposta a ficar rouca e de pernas bambas por causa do parceiro. Aquela com certeza foi sua noite de sorte.
Marco começou a se movimentar, e em poucos segundos ele passou de estocadas lentas para profundas, fortes e rápidas, fazendo a garota gemer alto junto com ele. Os gemidos e grunhidos de Marco eram ótimos de se ouvir, necessitados e cheios de vontade pura e instintitiva de fazer sexo sem o menor pudor, do jeito que eles estavam fazendo agora. A cama de solteiro do rapaz rangia, os lençóis estavam uma bagunça, os dedos habilidosos do parceiro a masturbavam, o corpo dele batia contra o dela e apesar de doer um pouco — em especial no traseiro vermelho da moça — e do som ser explícito e alto, no final tudo era extremamente excitante.
Aquele garoto só podia ser um íncubo disfarçado de anjo. Não era possível que alguém tão meigo e doce fosse capaz de ser tão selvagem e fantasticamente experiente e cheio de truques. E Gabrielle tinha certeza de que estava completamente sóbria e acordada, porque o que ela estava sentindo naquele momento jamais poderia ser fruto de um sonho erótico.
Não demorou muito para o seu ápice chegar, visto o quanto ela estava excitada e tudo o que Marco fazia. E como prometido, ele a fizera realmente gritar e ficar com todo o corpo trêmulo. Para uma noite de sexo casual, o resultado final com certeza foi muito melhor do que ela esperava. A princípio ela achava que o garoto seria um rapaz tímido e um tanto inexperiente, mas ele provou ser justamente o contrário. Poucos segundos após ela terminar de gozar, a garota escutou o moreno gemer mais alto, sentindo-o apertar sua cintura com mais força enquanto se entregava ao próprio orgasmo.
Ela soube que ele terminou assim que o sentiu relaxando, arfando em busca de oxigênio antes de sair de dentro dela, sentando-se na cama e dando espaço para a moça finalmente se deitar de bruços, deixando o corpo descansar.
"Boa garota, você é uma boa garota. Só é teimosa. Deixa eu tirar a coleira e as algemas de você pra você poder ir tomar banho. Vou te dar uma toalha. Ah, e você vai querer tomar cuidado com a... Traseira. Deve ficar dolorida pelas próximas horas, mas o banho vai ajudar." O garoto de sardas comentou, rindo, enquanto a morena se sentava e o deixava tirar a coleira de seu pescoço e as algemas de seus pulsos, para então descartar o preservativo usado na lixeira que ficava entre a cama e a escrivaninha e se levantar para pegar uma toalha para a moça tomar banho. Gabrielle observou tudo aquilo um tanto impressionada. A minutos atrás aquele garoto estava agindo de uma forma completamente diferente.
"Como você consegue ser tão fofo e ao mesmo tempo tão safado?" Ela perguntou, sem mais conter a curiosidade. Marco apenas a entregou a toalha, antes de sorrir de forma marota e responder, sussurrando no ouvido da jovem.
"O anjinho aqui tem seus segredos."
Sasha fez uma careta quando o líquido desceu rasgando por sua garganta. A bebida era amarga e forte, horrível, mas era do que precisava agora, algo para distrair e esquecer. Já estava em seu terceiro copo, e podia sentir suas bochechas começarem a ficar vermelhas, a euforia tradicional do álcool que fazia efeito em sua corrente sanguínea. Sabia que não iria demorar muito para que ficasse completamente bêbada, e era esse mesmo seu objetivo naquele estabelecimento quase vazio e com música acústica ao vivo. Não costumava tomar essas coisas com frequência — era de menor, oras, mesmo que tivesse a identidade falsa que Connie arranjara -, muito menos ir para bares no final de semana, mas abrira uma importante excessão naquele dia. Uma excessão que só costumava abrir quando o vazio em seu peito se tornava insuportável, quando seus fantasmas ameaçavam engolí-la de vez.
Ainda estava em sua lembrança a tarde que passara com Marco na sexta-feira, sem dúvidas uma das mais divertidas que tivera nos últimos tempos. Lembrava dos doces, das conversas, das risadas, de quando saíram cantando as músicas do filme como se fossem crianças, de como ele estava sempre sorrindo e sempre prestativo, sempre a seu lado. Sentira terrivelmente a falta de alguém que a apoiasse dessa forma, especialmente agora que estava sozinha na cidade, longe da família. Em parte, sabia que ele fazia isso por ser uma de suas obrigações no Clube, mas também sabia que Marco era uma boa pessoa e se importava de verdade com seu bem estar, mesmo que não se conhecessem tão bem quanto gostariam. Por isso, Sasha lhe era muito grata, e planejava retribuir como pudesse, nem que tivesse que fazer dele um chef por magia.
E, como magia mesmo, a animação logo se fora quando ela se viu novamente naquela casa vazia e impessoal, com seus pensamentos. Mesmo com um ano morando no local, ela não conseguia chamá-lo bem de casa. Era tão diferente do lar a que estava acostumada, tão solitário, como a jaula de alguma fera do zoológico. Preferia muito mais passar a maior parte do tempo fora, na escola, no shopping com os amigos ou apenas caminhando pela cidade. Qualquer lugar que não fosse aquele, que usava só para dormir, quando não aguentava mais ficar em pé.
Depois da euforia da semana, com a entrada no Clube e sessões de ajuda, fora os compromissos que já tinha com o atletismo e a escola, Sasha não tinha tido muito tempo para refletir sobre os acontecimentos. Quando começou, no entanto, não demorou muito para que estivesse novamente abraçando os joelhos e com o olhar perdido. A culpa a atingiu com tanta força que praticamente a deixou sem ar. Como tinha conseguido fazer aquilo? Deixar pra trás a memória de uma pessoa querida daquela forma? Trocá-lo por outro como se não fosse um nada? Que tipo de pessoa ela era para ser capaz de algo do tipo? Que tipo de pessoa era Sasha Blouse?
Pensou até em ligar para os pais, como uma garotinha assustada; no entanto, mudou de ideia no momento em que pegou o telefone, colocando-o novamente no gancho. Não tinha vindo para aquela cidade para continuar se escondendo por trás das saias da mãe. Precisava ser forte. Precisava mudar. Precisava se distrair.
Precisava sair de casa o mais rápido possível.
Tinha consciência do barman que a encarava com um misto de pena e desconfiança enquanto virava o copo mais recente — seria o quarto, o quinto? Não lembrava mais. Também a incomodava a voz chata de sua consciência, que insistia em informar que precisava comer alguma coisa se não quisesse ter uma tremenda ressaca no dia seguinte, que não devia nem estar ali para começar, que não iria mudar nada, apenas mascarar e esconder algo que estava dentro dela e continuaria por muito, muito tempo.
A voz do homem finalmente trouxe sua mente meio entorpecida de volta a realidade. Havia um traço de gentileza em sua maneira de falar. “Acho que já foi o suficiente por hoje.”
Sasha balançou teimosamente a cabeça, fazendo seu rabo de cavalo balançar atrás dela. “Não. Mais um, moço, mais um e eu vou embora.”
Ao invés disso, o barman guardou a garrafa mesmo sob protestos da estudante, antes de encará-la de forma dura. “Você disse isso no terceiro copo. Agora está no oitavo. Você não tem realmente vinte e um, não é? Eu não sei o que está te deixando assim, mas encher a cara não vai resolver. Volte para casa, para sua família, para alguém que se importa. Eles devem estar preocupados com você.”
A moça engoliu em seco. O conselho tinha boa intenção, bem sabia, mas ele não fazia ideia. Não fazia ideia… Por isso mesmo, sua voz tinha sido pouco acima de um sussurro quando respondeu. “Bem que eu gostaria… Mas não tem ninguém lá quando eu voltar.”
“Sasha?” Outra garota havia se sentado no banco a seu lado, uma loira muito bonita, com os cabelos caindo em cachos perfeitos até o meio das costas e olhos azul-claro brilhantes que a observavam curiosos por trás de camadas de máscara de cílios marrom. Parecia uma modelo, mesmo com o conjunto simples de jeans e camiseta que usava. Algo na moça era estranhamente familiar à morena; parecia já ter visto aquele rosto em algum lugar antes. Demorou alguns instantes para finalmente se lembrar onde havia sido: a loira era sua colega de classe, até mesmo sentava perto dela na sala 104. A bonitona da sala que vivia recebendo reclamação dos professores por usar o celular na aula, mas que era surpreendentemente discreta e calma para uma fêmea alfa.
“...Elizabela?” A interiorana chutou, sem conseguir lembrar ao certo o nome da colega de classe. Sua mente estava confusa pelo álcool, e não é como se as duas fossem próximas mesmo.
“Elizabeth.” A outra corrigiu com um sorriso simpático, sem parecer se incomodar pelo erro. Sasha se perguntava como alguém conseguia ter um sorriso tão brilhante daquela forma enquanto a loira voltava rapidamente suas atenções para o barman que as observava sem esboçar reações. “Pode deixar, Trevor, eu cuido dela agora.”
Trevor apenas assentiu levemente e se afastou para servir outro cliente, deixando as duas garotas sozinhas. Elizabeth o seguiu cautelosamente com o olhar antes de novamente se dirigir a Sasha, com uma sobrancelha levantada de forma inqu isitiva “O que está fazendo aqui, Sasha? Num sábado a noite? Sozinha?”
A morena deu de ombros e bebericou o restinho do líquido que restara em seu copo, fazendo uma careta logo depois.“Afogando as mágoas.”
“Ah, isso é um infortúnio. O que aconteceu? Levou um fora? Nota baixa? Se bem que as notas não saíram ainda, da última vez que olhei o sistema.” Apesar de curiosa, Elizabeth mantinha um tom de voz leve e agradável, esperando educadamente que a colega respondesse, coisa que não aconteceu inicialmente.
“Só estou me sentindo meio sozinha.” A bolsista acabou deixando escapar, após alguns insantes.
“Então não vai se importar se eu te fizer companhia?”
Sasha não respondeu imediatamente, resolvendo entornar o restante de sua bebida antes de continuar. “Tem problema não… Mas e você? O que está fazendo aqui? Caçando novinhos?”
“Eu moro aqui.” Respondeu a outra, com uma naturalidade surpreendente.
“Passa tanto tempo assim aqui?”
“Não, eu realmente moro aqui. Meus pais adotivos são donos desse bar, então eu passo muito tempo aqui, conversando com as pessoas... Como estou fazendo com você agora.” A loira acrescentou com uma piscadela, tirando um cacho teimoso de cima de seus olhos.
“Eu não sabia que você era órfã.” O álcool nas veias de Sasha já estava fazendo efeito há algum tempo, e boa parte de sua educação e sutileza tinham sido deixados de lado por aquele momento.
“Sabe que eu também não sei? Nem imagino onde estejam meus pais. Nem quem eles sejam. Mas tudo bem, eu estou bem aqui. Os meus pais são gente fina e a staff é minha família, e tem sempre coisas pra fazer e pessoas novas com quem conversar. Realmente, não preciso de muito além disso.” Realmente, era surpreendente a naturalidade com que a moça se referia a essas questões pessoais como se nada significassem ou importassem para ela. No entanto, nesses momentos, Sasha percebia que os olhos azuis da outra nunca a encaravam como antes.
“Deve ser bom estar rodeada de gente o tempo todo…” A morena não pôde evitar de sentir uma pontada de inveja. Ao menos Elizabeth não passaria o tempo todo assombrada por seu passado como ela era, com medo da própria sombra. A própria loira, no entanto, não parecia pensar dessa forma.
“As vezes não é. As pessoas bisbilhotam, xeretam, brigam, dão opinião. Se acham no direito de se meter em tudo. Tem dias que eu só queria um pouco de tranquilidade.” Confessou, apoiando os cotovelos no balcão e consequentemente se aproximando mais da colega a seu lado.
“Já eu estou cansada de tranquilidade, obrigada.” A resposta saiu um pouco mais amarga do que esperava.
Como resposta, Elizabeth apenas sorriu abertamente, ainda que uma ponta de malícia restasse em seu semblante quando estendeu a mão para pôr uma mecha do cabelo castanho da bolsista atrás da orelha da moça. “Ora, então podemos agitar um pouco as coisas. O que acha? Topa?”
“Hm? Eu… Não entendi direito.” A morena confessou, ainda que estivesse curiosa.
“Ora, é simples… Vamos jogar, Sasha.”
Aproximadamente vinte minutos mais tarde, Sasha olhava fixamente para um papel colado na testa de sua acompanhante, enquanto apresentava um outro colado na própria. Aparentemente, segundo a loira pacientemente lhe explicara enquanto se sentaram à mesa num local mais reservado, o jogo consistia em se adivinhar o que estava escrito no papel colado na própria testa através de perguntas feitas à outra pessoa, perguntas que em tese só poderiam ser respondidas com “sim” ou “não”. Em tese, pois basicamente nenhuma das duas conseguia se limitar a dizer só isso durante as duas primeiras rodadas. Bastante simples, praticamente brincadeira de criança, mas, depois que Elizabeth adivinhara que era Ricky Martin enquanto ela mesma falhara em descobrir que era Papai Noel, a coisa toda se tornara toda muito mais séria.
“Vai lá, Sasha, é sua vez.” A loira incentivou, apoiando o queixo entre as mãos de forma relaxada.
A garota morena refletiu sabiamente por alguns minutos antes de arriscar. “Eu sou uma mulher bonita?”
“Muito bonita. E gostosa. Eu pegava.” Admitiu a outra solenemente. Naqueles minutos de convivência, Sasha tinha chegado à conclusão de que seu cérebro entorpecido não conseguia distinguir quando a colega estava brincando ou não.
“Haha, engraçadinha. Sua vez.”
“EU sou uma mulher bonita?”
“Você nem é human… Ops.” A bolsista percebeu na metade da frase o que dizia, fazendo com que a loira desse um sorriso triunfante.
“Aha, então eu não sou humana! Mas sou fêmea?”
“Preciso perguntar primeiro, pow.”
“Ok, ok, pergunte, Kirby.” O apelido irritante fez Sasha revirar os olhos, para diversão Elizabeth.
“Eu sou uma atriz?”
“Hm…” A loira refletiu, jogando alguns cachos de seu cabelo por cima dos ombros de forma dramática. “Você fez um filme, mas é uma porcaria. E era mais um documentário de qualquer forma. Agora, eu sou fêmea?”
“Não, você não é fêmea, Elizabeth.”
A garota fez uma careta e olhou para baixo, puxando a gola da blusa para espiar dentro da mesma. “Estranho, da última vez que olhei eu tinha peitos.”
“Estou falando do papeeeel, né! Do papeeeeel!!” Afirmou a morena, apontando para o meio dos olhos da colega, que riu abertamente.
“Ahhh, certo. Certo, certo, faz sentido.”
“Você faz isso de propósito pra me irritar, né?”
“Claro que faço. Você é uma coisinha adorável irritada, Sasha.” Afirmou a moça com mais calma, ao mesmo tempo em que dava uma piscadela sedutora. A outra não sabia ao certo como reagir a isso, resolvendo optar por continuar a brincadeira após alguns instantes de silêncio envergonhado.
“Então... Eu sou modelo?”
“Não, você não é. Apesar de se vestir estranho como uma as vezes.”
“Hmmm, certo, certo. Sua vez, Elizabela.” Duas podiam jogar o jogo dos apelidos.
“Eu tenho gênero?”
A pergunta realmente fez a morena parar por alguns instantes e pensar sobre como responder, algo dificultado por seu estado alterado. “...Acho que tem…? Você parece e se identifica como um homem, mas a sua espécie é meio estranha, então, sei lá… Não sei como gente azul se reproduz.”
“Então eu sou azul?” Deduziu a adversária.
“...Merda!”
“Hahaha, cuidado com essa boca, Sasha, vai acabar falando o que não devia!” Brincou a loira, divertida.
A interiorana deu de ombros, sem se importar muito com o que dizia até que fosse muito tarde.“Eu já falei muita coisa que não devia essa semana… Mais uma não faria diferença.”
“O que quer dizer?” Elizabeth franziu a testa, curiosa, e Sasha arregalou os olhos, se dando conta do que tinha dito.
“Ahm… Bem…” A morena engoliu em seco, sem saber ao certo que desculpa utilizar depois de uma bola fora daquelas. Quase conseguia sentir as mãos de Ymir lhe esganando por ter deixado escapulir logo aquela parte… Se bem que a líder realmente dissera que eles poderiam convidar novas pessoas. Por que não Elizabeth? As duas podiam nem se conhecer tão bem assim, mas sua colega loira era decididamente misteriosa, e devia ouvir muita coisa que poderia valer para a garota de sardas. Acabou decidindo então contar a verdade, em partes. “Ah, eu já fiz a besteira mesmo, né? Eu entrei pra um clube novo.”
“O clube da Ymir?” Elizabeth lembrou da apresentação que a morena de sardas fizera na terça-feira, sobre o clube de estudos que estava organizando. A ideia lhe soara realmente engraçada — Ymir, de todas as pessoas, tinha começado a estudar? — mas não sabia que Sasha estava participando, e não sabia que o plano da garota de sardas tinha sido realmente levado adiante.
“Sim. Clube de Voluntários. É pra ajudar as pessoas que participam. A galera lhe ajuda e você ajuda em troca. Não só com a escola, outras coisas também” A morena resumiu, deixando de lado as partes capciosas sobre segredos. Disso Elizabeth não precisava ficar sabendo no momento
“Parece algo bem legal, e vindo logo da Ymir… Ela não é a pessoa mais altruísta da sala, né?” Comentou a outra moça, parecendo levemente interessada. Uma ajuda talvez viesse bem a calhar em certos momentos. Havia algo específico em sua mente, no entanto, rapidamente o afastou ao sacudir a cabeça. Não era hora de pensar naquela pessoa no momento.
Sem perceber as dúvidas repentinas de Elizabeth, Sasha prosseguiu com sua explicação e acabou se abrindo mais do que esperava. “Enfim, eu tive que falar qual era o meu problema, e agora eu meio que me arrependi. Não da minha decisão de contar, mas de mostrar pra todo mundo o quão fraca eu realmente sou, deixando as coisas me abaterem desse jeito…”
A loira foi pega de surpresa por aquela declaração. Nunca antes vira sua colega tão triste, naqueles dois anos de convivência. Mesmo que não fossem tecnicamente amigas, não tinha imaginado que a morena tivesse uma autoestima tão baixa a esse ponto. Estendeu as mãos para a colega e a segurou entre as suas, procurando passar confiança. “Você não é fraca, Sasha. Disso eu tenho certeza. Posso não te conhecer tão bem assim, mas… Uma pessoa fraca nunca teria forças para admitir a própria fraqueza para os outros de forma tão aberta. Isso é admirável. É um sinal de coragem.”
Sasha deu um sorriso fraco em resposta. “Corajosa? Eu? Acho que não. Eu não tenho medo de enfrentar os monstros da imaginação, nem cavernas escuras, casas abandonadas ou assaltantes sanguinários. Mas eu tenho medo do mais importante. O que todo mundo faz, e que eu sou incapaz de fazer. Eu tenho medo da minha cabeça. Das minhas lembranças. De mim mesma.”
“E você acha que é a única que sente medo do que já passou? Todos nós temos momentos em que nos arrependemos. Todos nós somos assombrados por fantasmas, Sasha. Cada um a seu modo.” Afirmou Elizabeth de forma suave, apertando com ainda mais força a mão da morena, como que para demonstrar que estava ali presente com ela.
Só que os meus nunca vão embora, pensou Sasha ao assentir, tristemente. Os seus fantasmas pareciam estar sempre ao lado dela, pesando em seus ombros, sussurrando em seus ouvidos, as mãos em seu pescoço e em seu coração, segurando-a, puxando-a para baixo, para a sombra. Por anos, isso acontecera, e agora finalmente ela começava a fraquejar. Seus joelhos estavam finalmente ameaçando dobrar, e ela sabia que, se continuasse desse jeito, não duraria muito tempo.
Balançou a cabeça, procurando responder ao aperto de mão de Elizabeth e imprimindo mais confiança, ainda que falsa, a seu sorriso. “Obrigada pelo apoio. É bem importante pra mim… Bom, vamos falar de coisas melhores! Onde a gente estava com o jogo… Ah, sim. Eu sou uma cantora, Elizabeth?”
“Sim, Sasha, você é.” A loira havia percebido a súbita mudança de assunto, mas decidira não comentar nada. Do contrário, estava feliz ao ver a morena se animando novamente.
“Finalmente!!! Então eu sou uma cantora bonita e gostosa que fez um filme ruim que mais era um documentário…? Ahn… Eu sou a Katy Perry?” Arriscou a bolsista, pensando na primeira pessoa que viera a sua mente e se encaixava na descrição.
“...Droga.” A outra estudante admitiu a derrota e baixou a cabeça, ainda que mantivesse um sorriso leve no rosto. A reação de Sasha foi sorrir e praticamente pular da cadeira em comemoração, atraindo os olhares curiosos de alguns dos outros clientes.
“HAHAHA! A primeira vitória da noite!! Eu adivinhei!!! Uhuuul” Eu adivinhei!!!! Sasha manda, Sasha manda!”
“Salamandra? Eu era uma salamandra?”
“Não, sua boba, você era um Smurf. O Papai Smurf, pra ser mais precisa.”
“...Eu era um Smurf?” Perguntou a garota loira, completamente incrédula.
“É o que tá escrito aqui, ó.” A outra apontou para o papel na testa de Elizabeth e riu, enquanto a loira erguia lentamente a mão e retirava o objeto como se ele fosse explodir em suas mãos.
“...Alguém já disse que você não vale nada, Sasha Blouse?”
A morena riu novamente em resposta, antes da expressão de seu rosto mudar repentinamente e ela ter que se apoiar no espaldar da cadeira para não cair. Uma de suas mãos foi instintivamente até a barriga que doía, as pernas tremiam e ela sentia o suor frio escorrendo pela coluna. Parecia que os oito copos estavam realmente fazendo efeito de outra forma.
“Sasha, está se sentindo bem?” A outra estudante perguntou, se levantando preocupada da cadeira.
“A-Acho que vou vomitar…” A moça estava realmente pálida, e apenas o ato de falar já parecia fazer sua barriga girar desconfortavelmente, e a ânsia começar a crescer no fundo de sua garganta. Ficou surpresa, no entanto, quando a colega passou seu braço ao redor dos próprios ombros e passou a guiá-la gentilmente pelo corredor.
“Vamos, se apoie em mim, o banheiro é por aqui.”
Elizabeth mal teve tempo de abrir a porta do reservado antes que Sasha caísse de joelhos e vomitasse dentro da privada, uma cena a qual a loira estava bastante acostumada, dado a natureza do estabelecimento. Fez o favor de afastar o cabelo da colega para longe do rosto, para que não sujasse com o vômito, o tempo todo murmurando palavras de conforto; no entanto, sua mente estava mais focada no que a garota tinha dito antes, sobre o clube e as ajudas. Havia um problema na vida da loira, um problema muito complicado e que ela definitivamente não conseguiria resolver sozinha. Pelo pouco que sabia de Ymir além de seu sempre presente sarcasmo, a garota parecia sempre estar bem informada e ter uma ampla rede de contatos. Talvez…
Seu raciocínio foi interrompido pelo celular vibrando no bolso da calça. Uma mensagem nova. Ajoelhada a seu lado, Sasha já tinha terminado e agora estava apoiada na parede do reservado, branca como papel. Sem tirar os olhos da colega quase desfalecida, a loira recuperou o celular da bolsa e olhou a mensagem, fazendo uma careta ao ver tanto o contato quanto o que dizia, antes de guardá-lo novamente no bolso. Ao que parecia, não tinha realmente escolha nesse ponto. Teria que confiar em Ymir.
“Já terminou, Sasha?” Perguntou gentilmente, afastando a franja pregada de suor dos olhos da colega enfraquecida.
“Mãe… Só mais cinco minutinhos…”
“Por favor, mãe não, eu sou gostosa demais pra isso. Venha, levante, que eu vou te levar pra casa. Sabe me dizer onde fica?” Perguntou à morena, enquanto novamente passava o braço dela sobre seus ombros e a ajudava a se erguer, com cuidado redobrado depois que a garota de rabo de cavalo escorregou e quase caiu.
“Há uns três quarteirões daqui… Numa rua perto do restaurante italiano…” Informou a morena numa voz meio grogue, ao que Elizabeth assentiu o melhor que podia com aquele peso todo em suas costas.
“Ótimo. Vá me dizendo no caminho, eu te levo lá.”
A luz doía profundamente nos olhos de Sasha quando abriu os olhos, e um gemido escapou do fundo de sua garganta antes de fechá-los novamente. Aquele não era um bom começo de dia. Seu corpo todo doía como se tivesse sido atropelada por uma manada de búfalos furiosos, sua cabeça soava como um gongo e ela não tinha a menor ideia de como tinha chegado em casa na noite anterior, nem de como tinha saído para começar. Aliás, nem sabia que dia era aquele, demorando alguns preciosos minutos para se recordar que era domingo, que tinha enchido a cara no dia anterior e que estava com uma fenomenal ressaca.
“Mas que belo final de semana.” Murmurou para as paredes, a voz rouca graças à garganta ressacada. Realmente, parecia que tinha enfiado o pé esquerdo na jaca, ou seja lá o que fosse.
Demorou ainda mais tempo para recuperar a coragem para tentar abrir os olhos novamente, imediatamente virando de borco na cama e se arrependendo amargamente da velocidade com que o fez quando o mundo todo pareceu girar a sua volta. Segurou as têmporas, com a cabeça parecendo prestes a explodir e os olhos apertados com força, apenas uma réstia aberta, e gemeu novamente. “Nunca mais vou beber na vida.”, jurou num lamento. Logicamente, dizia isso toda vez que bebia.
Demorou um pouco mais para perceber um copo de água perto dela, na cabeceira. Sua garganta queimava como fogo, desidratada pelo álcool, então foi com avidez que estendeu a mão e tomou os primeiros goles, quase tomando tudo quando percebeu um pacote de aspirinas ao lado de uma nota escrita, perto de onde o copo estava. Rapidamente virou um dos comprimidos com o resto da água, agradecendo mentalmente aos céus por ter se lembrado de colocar aquilo ao lado da cama antes de se deitar na noite anterior… Mesmo que não se lembrasse de ter feito isso. Não que se lembrasse de muita coisa.
Uma vez o efeito da aspirina tendo começado, a garota resolveu ler a tal nota, ainda que seus olhos doessem com a concentração. Era curta, e a ela não reconhecia imediatamente a caligrafia; a cada linha, no entanto, ela podia sentí-los se arregalando mais e mais, até estar encarando o papel com uma expressão chocada de quem não acreditava no que tinha acabado de ler.
“Querida Sasha,
Oito copos de tequila é demais pra você, como pode comprovar por experiência agora. Da próxima vez, tente algo mais leve ou pare antes de começar a me chamar de mamãe. Sei que serei uma MILF, mas isso é só daqui a trinta anos. Ou então simplesmente não beba mais, também é uma boa escolha.
Aliás, da próxima vez que for beber, me avise para jogarmos Quem Sou Eu de novo. Você escolhe as melhores pessoas.
Deixei algumas coisas na cabeceira para amanhã de manhã, você deve precisar. Tente descansar pelo resto do final de semana... Até segunda.
Beijinhos no coração, na boca ou onde preferir,
Elizabela Smurf.”
“M-M-Mas o que…” Sasha Blouse conseguiu murmurar para si mesma após longos minutos de silêncio estupefato. “O que diabos eu fiz ontem???”
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