Dirty Little Secret
2 Confissões
Notas iniciais
Confissões
Armin estava nervoso. Sentia o suor frio descendo por suas costas por debaixo do uniforme, seus joelhos tremiam, talvez estivesse até mesmo pálido. Não podia saber ao certo pois não havia espelho no quarto, e, de qualquer forma, estava escuro demais para que pudesse enxergar com clareza. As janelas estavam fechadas e cobertas por grossas persianas que bloqueavam quase toda a iluminação natural, com exceção de pequenas réstias de luz que não clareavam muita coisa. A única fonte de luz forte era a lanterna na mesa ao lado de Ymir, que a morena usava para iluminar as páginas de um caderno desgastado. O caderno onde iria anotar seu segredo.
O pensamento o fez engolir em seco mais uma vez. O loiro nunca contara aquilo para ninguém. Nem mesmo seus melhores amigos sabiam com certeza — talvez desconfiassem; algumas piadas de Eren o faziam imaginar que sim — do que escondia por trás daquela carinha de aluno perfeito. Era lógico que estivesse se sentindo inseguro, nervoso, temeroso e outros mil adjetivos que significam o fato de que aquilo era muito, muito importante, mas que ele precisaria contar de qualquer forma. Não que se arrependesse daquela decisão. No caminho pela escada silenciosa, ele tinha se acostumado com a ideia de que era sua única saída.
Do lado oposto da mesa, Ymir observava sua presa com curiosidade. Balançava a caneta entre seus dedos, impaciente, esperando que o nerdzinho à sua frente criasse logo coragem na cara e começasse a falar. Não era como se ela tivesse todo o tempo do mundo, afinal. No entanto, a curiosidade era muito mais forte que sua impaciência, e também o era seu pragmatismo. Ela se decidiu por não pressionar o garoto e deixá-lo se acalmar e revelar tudo naturalmente.
Após alguns minutos de silêncio e suspiros profundos, Armin limpou a garganta e levantou os olhos, ainda que evitasse encarar sua interlocutora.
“Está pronto?” Perguntou ela, acrescentando um “Finalmente!” em seus pensamentos.
“Sim.” Não havia indício de hesitação na voz dele, o que era bom.
“Comece se apresentando.” Ymir se posicionou de forma mais confortável na cadeira, esticando as costas antes de se debruçar sobre o caderno e tirar a tampa da caneta — vermelha, para mais dramaticidade — em expectativa. “É apenas uma formalidade.”
O estudante assentiu e começou a falar, não muito rápido, para que a outra pudesse acompanhá-lo mais facilmente. “Meu nome é Armin Arlert. Tenho quinze anos, estou no segundo ano do Ensino Médio na Freedom High School. E eu tenho um segredo para revelar.”
Por sorte, a morena era rápida em anotar coisas, ainda que não exercitasse tanto esse talento como fazia com outros. “Vá em frente.”
Armin engoliu em seco por um instante, mas prosseguiu, determinado. Teria que admitir isso em algum momento, afinal… Só esperava que Annie o perdoasse por contar sem o consentimento dela. “Eu tenho um namoro secreto com Annie Leonhardt.”
A garota de sardas imaginou que tivesse ouvido errado. Só podia ter ouvido errado. Não havia como não ter ouvido errado. Quer dizer, Annie Leonhardt e… Armin Arlert? A rainha do gelo e o rei dos estudos? A garota mais fria da escola e o garoto mais bonzinho? Parecia o tipo de coisa que não rolaria nem se Connie Springer colocasse LSD nos bebedouros da escola. Se tivessem pedido para que a moça apostasse dinheiro no casal mais improvável da escola, certamente seria esse, seguido de coisas como Marco e Mikasa e a tia da Biblioteca com o faxineiro. Que, agora que pensava com certo carinho, até que funcionaria.
Talvez aquela fosse algum tipo de brincadeira para quebrar o gelo, ou algo do tipo. Levantou a sobrancelha para Armin, cética. “Está tirando uma com a minha cara?”
O menino estava todo vermelho e embaraçado, o que não era surpreendente levando em conta seu caso de timidez crônica. “Não. É a verdade. Nós namoramos desde o nono ano do fundamental…”
Ymir tinha aprendido uma ou duas coisas de linguagem corporal em seus longos anos nessa indústria vital chamada vida, e nada no comportamento de Armin sugeria que estivesse mentindo. Parecia envergonhado, certamente, fingindo prestar atenção no tampo da mesa e não nela, mas não hesitava e sua voz não tremia quando falava. Além do mais, a garota de sardas não conseguia pensar em algum motivo plausível para que ele mentisse. Armin era um garoto inteligente e ingênuo — não era do tipo que tentaria confessar um segredo falso, e mesmo que fosse, com certeza seria algo menos… Polêmico.
“Como, em nome de todos os deuses desse mundo, você de todas as pessoas conseguiu pegar a Annie Leonhardt?” Perguntou a líder, sem conseguir disfarçar a surpresa em sua voz.
“Exatamente por eu não estar querendo nada disso… Eu só fui legal com ela. Estávamos no oitavo ano. Ela tinha perdido algumas aulas depois que machucou a perna, e eu me ofereci para ajudá-la a recuperar o conteúdo de exatas, já que eu era monitor na época. Sempre ficávamos juntos depois da aula em alguma sala vazia, para revisar. Ela não falava muito no começo, mas aos poucos, foi se abrindo comigo... Por causa disso, nos aproximamos um pouco. Descobrimos que tínhamos algumas coisas em comum… Interesses, gostos, até sonhos. Queremos conhecer o mundo. Gostamos de livros de mistério, e de luta livre…”
“Você gosta de luta livre?”
“Sim, eu gosto. Só por não praticar, não quer dizer que não seja legal assistir.”
“Claro… É só que eu não imaginava que um cara como você gostasse de coisas violentas.”
“Você esquece que sou o melhor amigo do Eren.”
“Touché. Enfim, continue.”
“Como eu dizia… Ela eventualmente recuperou o conteúdo, mas me pediu para continuarmos estudando juntos. Dizia que estar comigo a ajudava a se concentrar. Eu tinha tempo livre, realmente, então concordei... Com o tempo e a convivência, eu passei a ter menos medo dela, até que, quando vi, estava não apenas confortável, como feliz em sua presença… Ela me fazia feliz. Ela me faz feliz.” Pela primeira vez, o garoto desviou os olhos da mesa e encarou Ymir diretamente, olhos azuis e castanhos. “Por muito tempo, eu nunca percebi a extensão desse sentimento. E, de qualquer forma, não era como se fosse acontecer uma coisa, não é mesmo? Até você ficou surpresa agora. Eu era muito tímido, e achei que ela fosse somente uma boa amiga. Uma boa amiga que de vez em quando aparecia nos meus sonhos.”
“Que tipo de sonhos?”
“...Isso é realmente necessário para o registro…?”
“Foi você que comentou, colega, agora aguente.”
“Hm… Você sabe o tipo de sonho.”
“Ohhhh. Esta conversa está sendo muito esclarecedora sobre sua pessoa, senhor Arlert.”
“...Posso continuar?”
“Só um instante. Me deixe copiar o final.”
Armin se mexeu na cadeira, desconfortável, enquanto a morena terminava de anotar a conversa daquele momento, incluindo os detalhes que o loiro relutara em contar. Por fim, pôs uma mecha de cabelo castanho para trás da orelha e voltou a erguer os olhos para o rapaz. “Prossiga.”
“As coisas teriam continuado da mesma forma se dependesse de mim. Eu tinha dificuldades em aceitar o sentimento para mim mesmo, imagine para falar com ela? Assim, o primeiro ano da nossa amizade secreta passou como sendo apenas amizade… E da mesma forma os primeiros meses do nono ano. Até que Annie resolveu tomar a iniciativa.” O garoto tossiu um pouco quando Ymir virou para a próxima página do caderno, enquanto a própria soltava um sonoro espirro. “Q-Quanta poeira! Onde você achou esse caderno, no túmulo de alguém?”
“Menos comentários espertos e mais narração! Tá chegando na parte boa!”
Armin lançou um olhar de dúvida para a moça de sardas, como se questionasse sua sanidade mental, mas prosseguiu de qualquer forma. “Já disse que costumávamos estudar sozinhos depois da aula. Estávamos fazendo isso. Lá fora, chovia pesado. Uma tempestade elétrica. Dentro da sala estava frio como o Cocytos, mas tentei mostrar que não estava dando muita bola pra isso. Não gosto de demonstrar fraqueza, especialmente perto dela… Na verdade, eu estava congelando de frio. Enfim. Estávamos fazendo umas equações de segundo grau, como o normal... E foi aí que a luz começou a piscar. Annie não deu a mínima, então resolvi ignorar também, achando que podia ser temporário… Até que a luz caiu de vez.”
“Eu lembro desse dia.” Assentiu Ymir. “Fiquei ilhada na frente da biblioteca com Historia, Connie e Sasha.” A estudante tinha memórias boas daquele dia, já que resolvera se distrair contando histórias altamente detalhistas e sangrentas sobre o fantasma da biblioteca para os outros três. Historia sabia que era tudo mentira, mas levara tudo na brincadeira e até se assustara mesmo em alguns momentos. Sasha adorara e propusera uma investigação de campo, já que estavam todos ilhados ali, mas os gritos de Connie ainda faziam a morena rir até hoje.
“Então, eu levei um baita susto quando caiu aquela escuridão. Perguntei imediatamente pela Annie para saber como ela estava… É meio ridículo quando esse tipo de coisa acontece, né? A pessoa estava lá há meros segundos atrás, pra onde teria ido?” Armin soltou uma risadinha nervosa. “Ela estava lá, claro. Estava bem perto. Perto até demais…”
“Ohhhhhh, estou entendendo.” A garota de rabo de cavalo deu um sorriso malicioso. “Foi seu primeiro beijo?”
“F-Foi. Foi sim… E eu lembro de como foi até hoje. De quando eu senti a respiração dela perto do meu rosto, e então suas mãos estavam nos meus ombros, e quando eu me dei conta…” Ele parou, envergonhado. “Os lábios dela são bem quentes. E ela beija muito bem.”
Ymir sentia grande vontade de comentar o quão fofo tudo aquilo estava parecendo, mas se conteve. Mencionar esse tipo de coisa não era de seu feitio mesmo. “Confio em você, Romeu. Pode continuar.”
“Não. Romeu não. Eles não terminaram muito bem.”
“Tá, você quer que eu diga o quê então, Peeta Mellark? Você é até loiro como ele, mas a Katniss lembra mais a Sasha.”
“Acho melhor se eu continuar.”
“Justo. Vocês começaram a namorar depois disso?”
“Imediatamente não. Eu ainda estava muito confuso com isso tudo, e a própria Annie não estava muito interessada em relacionamentos no momento. Alguns meses se passaram, e nós… Fomos… Nos conhecendo mais… E então, no final do ano… Nós… Bem…” O nerdzinho se limitou a baixar os olhos para o colo e corar intensamente. A moça de rabo de cavalo o encarou por alguns instantes, antes que a ficha caísse e seus olhos se arregalassem.
“Não acredito que você fez isso!” E Ymir não acreditava mesmo. Isso tudo estava sendo bem mais interessante do que ela imaginara.
“Ah, isso é tão embaraçoso…”
“Você perdeu o cabaço antes do titãzinho! Ele sabe disso?”
“Não!!! Eu não contei pra ninguém sobre isso, a única outra pessoa que sabe é a Annie!”
“Me avise quando for contar ao Eren. Eu necessito testemunhar essa cena.”
“Ymir, você precisa anotar.”
“Oh, sim, claro, claro.”
Após mais uma pausa para anotar a saga até agora, e mais algumas perguntas por detalhes que Armin se recusou terminantemente a responder, Ymir pôs o último ponto até o momento e fez sinal para que o loiro continuasse sua confissão.
“Então… Depois desse… Acontecimento… As coisas ficaram um pouco tensas entre nós. Eu não sabia direito como reagir, e ela parecia não ter dado muita importância, então começamos a nos afastar… Ficamos sem nos falar direito por algumas semanas. E foi então que eu percebi uma coisa muito simples que tinha me escapado.”
“Que era?”
“Que eu não consigo viver sem ela.” Ele deu um sorriso triste. “Resolvi ser sincero com a Annie. Ela sempre tinha sido muito honesta comigo em tudo que fazia, então fui honesto com ela também. Que eu precisava ficar perto dela. Que eu precisava vê-la todos os dias. Que ela era realmente especial. Não só por ter sido a primeira, mas por ser a única garota na minha vida. E foi então que ela sorriu.”
“A Annie sorri??”
“Claro que ela sorri!”
“Sei lá, achei que ela tivesse algum problema na cara que não consegue mudar de expressão, igualzinho ao Levi.”
“Ela é capaz de sorrir. E o sorriso dela é lindo.” Armin desviou os olhos de volta para o tão conhecido tampo da mesa, embaraçado. Ele já tinha olhado tanto para o local que Ymir desconfiava que conseguisse reproduzi-lo com perfeição num papel. “Foi então que ela disse que também sentia o mesmo por mim. É só que ela queria que eu percebesse isso antes, sozinho. Ela sabia que eu tinha coragem o suficiente para vir falar diretamente com ela, e não é que ela estava certa?” O garoto deu um riso alegre, e Ymir percebeu que sorria inconscientemente também. “Foi assim que começamos a namorar. 27 de Setembro. Nosso aniversário. Estamos nessa até hoje… Com algumas discussões de vez em quando, como qualquer casal, mas ela ainda é uma das coisas mais importantes da minha vida. Eu sei que ela pode ser um pouco… Difícil de lidar, mas é uma ótima pessoa, quando se conhece melhor…”
Era realmente surpreendente como, mesmo com a pouca luz, os olhos azuis do garoto brilhavam enquanto ele falava. O leve rubor ainda não tinha saído de seu rosto, e ele tentava ser discreto, mas um sorriso começava a brincar em seus lábios. A perfeita imagem de um rapaz apaixonado, pensou a morena. Emocionante. Devia escrever um livro baseado naquilo tudo, publicá-lo e ficar rica.
“Você gosta mesmo dela, não é?” Perguntou, quando terminou de anotar as últimas frases.
“Eu a amo.” Respondeu o menino, sem nenhum indício de hesitação.
“Então por que manter tudo em segredo? Por que não revelar tudo de uma vez?”
Armin mordeu o lábio inferior; claramente a pergunta tocara num ponto sensível. “A família de Annie é… Muito rígida. Seu pai, especialmente… Se… Se eles soubessem do nosso relacionamento, e do que fizemos até agora… Estaríamos nós dois seriamente encrencados. É por isso que estamos esperando até terminarmos o colégio e irmos para a faculdade para assumir o relacionamento. Nos mantendo sozinhos e provavelmente longe da família dela, não teremos empecilho algum.”
“Certo.” Ymir assentiu, e pausou a caneta, tampando e colocando sobre o caderno. “Esse é o seu segredo?”
“Sim. Esse é meu segredo.”
A moça de sardas pôs a mão sobre o caderno, numa espécie de juramento que lhe parecia adequado. “Seu segredo está seguro. Ninguém nunca saberá. Tem minha palavra.”
“É, eu espero que sim.” Armin deu um sorriso fraco.
Tendo dado sua palavra, ela retirou a mão de cima do livro e apoiou os cotovelos na mesa. “Por que veio atrás de ajuda? O que o Clube de Voluntários pode fazer por você?”
“Eu… Tem pessoas me perturbando. Me perseguindo, para falar a verdade. Eles deixam bilhetes no meu armário, com ameaças, coisas na minha mesa, e nas aulas de educação física… Bem, eu digo ao meu avô que sou meio desastrado nas aulas, mas não sei se ele realmente aceita essa desculpa.” O loiro deu um suspiro. “Eles nunca me perseguem quando estou com meus amigos, mas como nossos horários são um pouco diferentes, esse pessoal aproveita quando estou sozinho… Eu sei, você me pergunta, por que não pede ajuda a Eren e Mikasa? Tenho certeza que eles quebrariam os meus bullies ao meio, mas eu não quero depender dos dois pra sempre. Eu não posso depender deles pra sempre.”
“Entendo.” A líder do clube comentou, pensativa. “Você quer que o ensinemos a lidar com o problema sozinho. É isso?”
“Sim.” Respondeu o rapaz com uma expressão determinada. “Eu não quero mais ser protegido pelos outros.”
“Heh. Você é mais macho que eu pensava.” Ymir sorriu brevemente, mas logo ficou séria enquanto estendia a caneta e o caderno para o garoto. “Assine aqui embaixo, e será um de nós. Eu prometo a você, Armin Arlert, que nós faremos o possível e o impossível para ajudá-lo. E você fará o possível e o impossível pelos outros. Assim é o Clube de Voluntários.”
Armin destampou a caneta e passou os olhos rapidamente pelo segredo escrito por Ymir, antes de concordar com a cabeça e assinar seu nome embaixo, cimentando seu compromisso. “Assim o farei. Tem minha palavra.”
“Ótimo.” A moça de rabo de cavalo estendeu a mão e ajudou o loiro a se levantar da cadeira. “Bem-vindo ao Clube de Voluntários. Traremos biscoitos na próxima reunião. Agora vamos descer e ver se mais um daqueles medrosos quer se juntar a nós.”
Quando os dois terminaram de descer as escadas, Ymir percebeu que ninguém tinha decidido ir embora. Todos continuavam na sala de estar, a maioria acomodados no sofá, outros de pé, sem trocar palavras. O clima de tensão ainda estava presente no ar, e todos estavam encarando Armin como que buscando nele respostas para suas perguntas, e principalmente, se a experiência tinha sido ruim. Pelo modo que o garoto parecia estar tranquilo, não devia ter sido traumatizante, mas a ideia ainda era um tanto assustadora.
"Então, alguém mais tem coragem? Armin sobreviveu, sei que vocês aguentariam também... Eu acho." Ymir questionou, cruzando os braços no lugar. Um já tinha ido, mas o resto precisava se decidir logo. Ela não podia perder todo o seu dia naquilo.
Passaram-se alguns segundos antes de Marco se erguer do sofá, com as pernas ligeiramente trêmulas.
"Eu tenho. Eu... Você disse que pode ajudar com problemas que vão além da escola, certo?" O jovem sardento perguntou, meio nervoso, e viu que a morena apenas concordou com a cabeça, sem dizer uma palavra.
"Nesse caso, eu vou contar meu segredo." Ele falou, soando mais ansioso do que determinado. A moça sinalizou com a mão para que ele a seguisse, e assim o jovem obedeceu de imediato. Subir as escadas foi uma tarefa tensa, e ele sentia-se como se estivesse prestes a ser interrogado pela polícia — não que isso já tenha acontecido, mas devia ser uma sensação parecida. E por um lado, ele teria que confessar algo sobre si mesmo.
Ymir não se deu ao trabalho de ligar a luz, indo direto até sua cadeira para poder se sentar, abrir o caderno empoeirado numa página em branco — ato este que fez o anjinho de sardas dar um espirro adorável -, ligar a lanterna e preparar a caneta.
Marco se acomodou em sua respectiva cadeira nesse meio tempo, sentindo-se desconfortável. Era melhor que ele não desmaiasse no meio de sua confissão. O suor escorria em sua nuca, e ele podia sentir o coração batendo mais forte, quase querendo sair por sua boca. Mesmo assim, ele ainda sentia um fundo de coragem por trás de todo o medo.
"Se você tem certeza do que quer, pode se apresentar ou ir embora. A escolha é sua." A morena afirmou, sem fazer pressão. Aquele era o último momento para voltar atrás, caso quisesse. Mas ele já havia se decidido antes de entrar naquele quarto.
"Meu nome é Marco Bodt, tenho dezesseis anos e estudo no segundo ano do Ensino Médio no Freedom High School. E eu tenho um segredo para contar." Agora não havia mais volta. Ymir já tinha escrito aquilo no caderno, e agora só esperava a revelação para poder transcrevê-la na página. O jovem engoliu a própria saliva, respirou fundo e soltou o ar junto com o segredo que carregava consigo.
"Eu sou um dominador BDSM." Assim que a moça escutou aquilo, ela não pode evitar de deixar o queixo cair. Se o primeiro segredo já havia sido chocante, este era tão bom quanto o outro. Parecia, assim como o anterior, com uma bela piada. Marco era um moço extremamente gentil e educado, que gostava de ajudar a todos, detestava brigas e era literalmente um anjinho de sardas — título este realmente merecido. Ele era tão amigável que imaginá-lo em qualquer tipo de situação sexual soava estranho e contra sua aura pura e limpa.
Se bem que depois dessa, a garota logo imaginou o moço sorrindo sadicamente enquanto usava chapéu, botas e uma cueca de couro, segurando um chicote e outros brinquedinhos nas mãos e tinha os pés beijados por um possível submisso sem roupas e com apenas uma coleira num quarto escuro. E aquilo era completamente bizarro.
"Com homens? Mulheres? Ou os dois?" Aquela foi literalmente a primeira coisa que ela conseguiu perguntar, por mais que muitas outras dúvidas se passassem em sua mente neste momento.
"A última opção. Eu sou bissexual. O que foi, Ymir? Está assustada por saber que esse anjinho aqui também tem um lado mais... Safadinho?" Apesar do nervosismo, Marco devia admitir que a expressão que a garota estava fazendo naquele momento era hilária, e não pode deixar de brincar com aquilo.
"Safadinho é pouco pra você, Marco. Sempre achei que você estivesse escondendo algo por trás dessas sardas, mas não... Isso." Ela falou, e escutou outro risinho vindo do rapaz, que estava começando a se soltar.
"Não se pode ser inocente pra sempre. E não se pode negar seus próprios desejos. Ninguém sabe porque eu descobri isso nas férias do ano passado, que foi quando eu perdi a virgindade... Meus vizinhos estavam acolhendo uma garota que estava fazendo intercâmbio aqui, uma francesa chamada Emily. Ela era uma gracinha, e como eu não tinha muita coisa pra fazer, era comum eu visitá-la só pra passar o tempo. E já que meus vizinhos confiavam em mim e me deixavam sozinho com ela em casa, não demorou muito para o inevitável acontecer. Eu queria, ela queria. Ela também era mais velha, tinha uns dezoito anos já, e aquela não foi sua primeira vez. Não que eu me importasse com isso. Na verdade até hoje não me importo, porque ela deixou claro que não queria um namoro sério, apenas sexo. E que tipo de adolescente cheio de hormônios seria capaz de negar uma proposta como aquela?" Marco pausou sua narrativa para dar tempo de Ymir copiar tudo, com um pequeno sorriso cúmplice no rosto. Por alguma razão, aquilo o deixava bem mais calmo. Não demorou muito para a moça acabar de escrever e olhar para ele com a expressão curiosa de quem queria saber mais detalhes.
"Começamos a transar em segredo praticamente todo dia. Como eu era inexperiente, tudo era novidade, mas não pra Emily. Aos poucos, ela foi me introduzindo a coisas novas, sem ter nenhuma vergonha. Ela era muito segura da própria sexualidade, então sempre encarava tudo com naturalidade e sabia ter paciência comigo quando era necessário. Acho que tive muita sorte de ter ela como primeira parceira. Então um dia ela me entregou uma venda e algemas, me disse para algemá-la na cama, vendá-la e a partir daí eu poderia fazer o que eu bem entendesse com ela. A princípio eu fiquei meio temeroso, porque era ela quem ficava no comando por ser mais experiente, mas nesse dia ela o entregou pra mim, de uma forma que nunca tinha entregado antes." Nesse momento o rapaz estava com o rosto levemente ruborizado, imerso nas lembranças da garota francesa. Quando Ymir ia abrir a boca para pedir para ele deixar de divagar, ele voltou a falar, ligeiramente embaraçado.
"Eu achava que ia me sair horrível nisso, mas quando me dei conta da situação, eu meio que senti que sabia o que fazer. Como tocá-la, provocá-la até ela não aguentar mais, que tipos de sacanagem eu devia sussurrar no ouvido dela, como fazê-la implorar por mim. No final, acho que aquela foi nossa melhor transa. Só não deu pra praticar mais com ela porque isso foi logo na última semana dela aqui... Mas ela bem que falou que eu levava jeito pra essa coisa de dominar. E como eu também tinha adorado, decidi seguir com isso com garotos e garotas que eu conhecia em festas perto da minha casa. Faço isso até hoje, e não me arrependo de nada. Só a sensação de ter todo o domínio é orgásmica, e tudo fica ainda melhor quando você consegue ver, ouvir, sentir isso. É fantástico saber que seu parceiro deve te obedecer, que você pode puní-lo do modo que quiser e escutar todos os seus gemidos de satisfação com isso tudo. Você devia experimentar, Ymir." Marco deu um sorriso matreiro no final, por pura brincadeira, enquanto observava a garota terminar de escrever.
"Vou tentar seguir esse seu conselho algum dia. Mas e a Emily? Ela voltou pra França e vocês nunca mais se falaram?" A morena perguntou, a puro nível de curiosidade e também para servir de retoque final na história escrita no caderno.
"É, isso mesmo. Acabou que esquecemos de dar nossos contatos, você acredita? Mas eu sei que nunca vou me esquecer dela, e acho que eu fiquei na memória dela também, de alguma forma. E espero que ela esteja bem e feliz, seja onde estiver agora." O jovem falou, agora com o rosto menos ruborizado, e sorrindo levemente. Ele gostava da garota, mas apenas como uma doce lembrança de férias que não poderia se repetir.
"Então, esse é meu segredo." Ele afirmou, sem mais estar nervoso. Ymir era a primeira pessoa que escutava toda aquela história vindo dele, e até que contá-la não foi tão terrível ou embaraçoso quanto achava que seria.
A garota passou o caderno para o rapaz, entregando-lhe a caneta. Marco encarou o que ela tinha escrito, e então assinou o seu nome debaixo de sua confissão, num ato que fez a morena sorrir.
Satisfeita com tudo aquilo, a jovem fechou o caderno, soltando mais poeira no quarto e fazendo o anjinho — que não era totalmente inocente — espirrar pela segunda vez. Pousou a mão na capa, do mesmo modo que fizera após Armin ter lhe relatado o seu segredo, e falou.
"Seu segredo está seguro. Ninguém nunca saberá. Tem a minha palavra." Aquilo realmente fazia tudo parecer um ritual de grande importância. Era até divertido. Com certeza devia continuar com aquilo.
"Agora, qual é seu motivo pra entrar no Clube de Voluntários? Com certeza não foi só pra contar sua historinha erótica." Ymir perguntou, e o garoto não hesitou em responder.
"Sabe, eu sempre me achei alguém muito comum e sem muita graça. O meu segredo é literalmente a única coisa em que eu acho que tenho talento, mas com certeza não é algo que eu posso sair por aí falando e demonstrando em público. Quero achar mais coisas em que eu possa me destacar. Quero ser reconhecido de uma forma única, e acho que participar disso aqui já é um bom começo." Marco disse, e notou que Ymir sorrira com isso.
"De fato, é um excelente começo. Pois bem, Marco, seu anjinho safadinho, saiba que aqui faremos de tudo para te ajudar, mesmo que seja absurdo. E você também vai fazer o mesmo pelos seus colegas aqui. É assim que as coisas funcionam. Estamos entendidos?" Ela estendeu a mão para o outro apertá-la, como se tivessem firmado um acordo de extrema importância.
"Com certeza!" O rapaz exclamou, animado, enquanto se levantava junto com a moça antes de descerem as escadas.
Dois já foram. E agora Ymir se perguntava quem seria o próximo. E ela devia admitir que aqueles segredos estavam bem interessantes. Se todos naquela sala tiverem segredos desse nível, com certeza vai ser interessante registrá-los. Pensar nisso a deixava bem animada.
Marco não resistiu e deu uma piscadela para seus companheiros que ainda estavam indecisos assim que os viu na sala. Aquele gesto rendeu alguns sorrisos, e serviu para deixar o clima do local um pouco mais leve. Todos gostavam do garoto, já que sua simpatia natural era algo inegável. E se tudo dera certo para ele, por que não para os que ainda não tinham se decidido?
Nesse momento, Jean decidiu se levantar do sofá, suspirando e atraindo a atenção que antes estava voltada para Marco.
“Resolveu ir embora?” Ymir perguntou, apenas para provocá-lo.
“Acha mesmo que eu vou sair daqui agora que Armin e Marco já aceitaram participar? Eu só estava esperando você e o anjinho descerem. É minha vez agora. Vou contar meu segredo.” Ao contrário dos dois primeiros garotos, Jean parecia estar mais à vontade com aquela ideia, sem demonstrar nenhum sinal visível de nervosismo. Todavia, aquilo era apenas externo. Por dentro, ele estava tão ansioso quanto seus companheiros.
Enquanto subia as escadas com a morena, o jovem se perguntava se havia feito a decisão correta. A cada passo que dava em direção ao quarto, menos chances ele tinha para desistir e ir embora. Mas se ele fizesse isso, seria uma tremenda covardia, não seria? Armin tinha enfrentado aquilo. Seu melhor amigo também. Ele não podia simplesmente fugir com o rabo entre as pernas. Precisava ter coragem, assim como seus colegas tiveram.
O segredo que ele pretendia contar não era algo bonito e nem do qual ele poderia se orgulhar. Após sentar-se na cadeira no meio daquele quarto escuro, o rapaz questionou-se se precisava mesmo contar aquele segredo. Ele podia muito bem contar um mais leve, correto? Afinal, era um segredo. Algo que Ymir não sabia sobre ele.
Porém, ao olhar para aquele caderno com cheiro de mofo aberto numa página em branco, Jean percebeu que só podia contar aquele segredo. Tinha que ser ele, e nenhum outro poderia substituí-lo. Até mesmo porque ele sentia vontade de contá-lo faz tempo. Aquela era a oportunidade que ele sempre esperara.
E Jean não iria voltar atrás.
"Apresente-se para o caderno, cavalinho." A voz de Ymir tirou o jovem do meio de seus devaneios indecisos. O estudante piscou algumas vezes, como que para ajustar a visão ao escuro, melhorou a postura e pigarreou antes de começar a falar.
"Meu nome é Jean Kirschtein. Tenho 16 anos e estou fazendo o segundo ano no Freedom High School. E agora eu vou contar meu segredo." Era incrível como sua voz não falhara no meio da frase. Ainda bem que a luz do cômodo estava desligada, porque suas mãos estavam tremendo mais do que em dia de prova de matemática. O jovem estalou os dedos das mesmas por debaixo da mesa, e finalmente tomou coragem para dizer o que precisava enquanto encarava o que conseguia enxergar do rosto da garota à sua frente.
"Eu sou um ator pornô amador na internet." Confessou, deixando de falar logo em seguida para aguardar todo e qualquer comentário que Ymir com certeza gostaria de fazer sobre aquilo.
A moça não podia negar que aqueles segredos a estavam deixando embasbacada. Ela já esperava que alguns fossem ser de natureza sexual, mas jamais imaginaria que alguém pudesse ter um que fosse capaz de ser ainda mais chocante que o de Marco. Pelo jeito, estava completamente enganada.
"Mostrando o rosto e tudo?" A jovem perguntou, tentando imaginar como o outro tinha conseguido aquele "trabalho" no mínimo peculiar, e até mesmo ilegal — ele era menor de idade, e com certeza devia saber que distribuir materiais assim vindos dele, mesmo que por livre e espontânea vontade, podia causar-lhe belos problemas judiciais.
"Claro que não. Eu tomo cuidado. Só filmo o que é necessário, se é que você me entende. E eu faço tudo sozinho." Jean respondeu, e notou que a morena riu um pouco com seu comentário.
"Realmente, se você mostrasse sua cara, muita gente ia broxar. Mas como você se meteu nesse negócio?" O próprio rapaz não sabia o que o impedira de dar uma resposta bem feia pra garota — provavelmente foi por causa da atmosfera do quarto e da situação, sem falar que ele ainda se lembrava de Marco pedindo para ele se acalmar minutos atrás. Dessa vez, era melhor não começar um barraco, até porque seria difícil explicá-lo aos que estavam lá embaixo.
"Na verdade foi bem simples. Tudo começou com uma simples curiosidade. Eu só queria saber como seria para outra pessoa me ver me masturbando, entende? Acho que todo mundo já deve ter pensando nisso alguma vez. E minha casa é grande, meus pais vivem viajando, então não foi difícil arranjar uma boa oportunidade pra eu poder fazer isso e me gravar pra ver depois. Fiz com o celular, até. Eu queria apenas ver, deletar e então fingir que isso nunca tinha acontecido, mas aquilo não foi o suficiente. Eu podia me ver, podia me ouvir, mas ainda era eu no vídeo, eu estava acostumado a ver esse corpo, não era excitante. Eu realmente queria uma outra opinião, mas a quem eu mostraria isso?" Ele pausou para que Ymir pudesse terminar de transcrever tudo na página meio amarelada, e também para poder encontrar as palavras certas para continuar.
"Você podia ter mostrado pro Marco." A líder falou assim que terminou de escrever.
"Aham, claro. Com certeza que eu vou mostrar um vídeo de mim batendo uma pro Marco. Olha, eu nunca vi esse cara fazendo isso, e também prefiro não ver. Acredito que ele tenha a mesma opinião sobre esse assunto. Somos amigos, mas nossas punhetas são particulares. Se eu mostrasse, o negócio entre a gente ia ficar muito estranho, então ele não era uma opção. Nem ele e nem ninguém que eu conheço." Jean retrucou do modo mais educado que conseguira, e percebeu que a menina de sardas lançou-lhe um olhar compreensivo pela luz da lanterna.
"Por isso eu acabei criando um perfil num daqueles sites de vídeos pornô. Você sabe, daqueles em que qualquer um pode se cadastrar e botar o que quiser. Eu botei o vídeo lá. Não fez um grande sucesso, até porque eu não sou o único que já tinha postado coisas assim lá, mas... Eu recebi alguns elogios. E eu gostei muito deles." Nesse momento, o estudante teve que baixar a cabeça. Aquilo era embaraçoso de se admitir, mas era verdade. Ele tinha mesmo gostado dos comentários cheios de elogios nada santos ao seu corpo, e lê-los deixava o rapaz encabulado e excitado. Tudo isso por causa de estranhos na internet que deviam ser mais velhos que ele e que deviam morar a quilômetros de distância.
"Eu desejei por mais. Me gravei de novo e de novo, só pra receber aqueles comentários novamente. Quando vi, já tinha uma quantidade razoável de vídeos e até mesmo de fãs. Eu já estava começando até a receber alguns pedidos, sabe? Coisas como me gravar usando certas roupas, enfiando os dedos em mim... É estranho, mas eles me amavam mesmo sem ver minha cara. Foi então que eu percebi que eu podia ganhar algo com isso. Eu recebo uma mesada dos meus pais e eu sei que vivo melhor que muita gente, mas aquilo era simples, gostoso e até mesmo divertido. Então eu comecei meu negócio. Fotos provocantes, vídeos longos e de melhor qualidade, até mesmo arquivos de puro áudio. Você me paga, eu te passo o pacote desejado pro seu e-mail, tudo na maior privacidade. Também atendo pedidos específicos por um preço justo, considerando que eu possa fazer sozinho e sem expor minha identidade." O jovem falou, deixando Ymir surpresa com toda aquela organização. Se Jean fosse assim com seus estudos...
"Ganho um bom dinheiro, dá pra fazer muita coisa com ele. Se bem que uma parte eu já gastei com câmeras boas e microfones decentes além de alguns, bem, apetrechos para certas ocasiões. Mas ainda sobra bastante pra eu gastar com o que eu quiser, e até dá pra poupar em certos casos. E é muito fácil de esconder. Os meus pais... Acho que você já percebeu, mas eles não são as pessoas mais presentes na minha vida. Uma vez me perguntaram como eu tinha dinheiro pra comprar uma das câmeras, e eu disse que estava trabalhando em casa, um daqueles empregos via internet, e eles ficaram satisfeitos com isso, achando que eu estou mesmo num trabalho honesto. Os arquivos no meu computador estão muito bem escondidos, se bem que ninguém nunca iria fuçar o bastante até descobrir. E quanto aos brinquedos, eles também não se importariam. Eu sou um menino em crescimento, posso ser curioso. E já que eu fico bem mais tempo em casa do que eles, posso me programar tranquilamente com meu trabalho extra. E enquanto tudo estiver dando certo, não pretendo parar." Só depois foi que ele percebeu o quanto tinha falado. Mas aquilo era algo que precisava ser desabafado, e era bom que alguém o tenha escutado.
Ymir não comentou nada até terminar de escrever tudo com a maior fidelidade que podia, e só então voltou a olhar para o garoto, que incrivelmente permanecera calado durante todo esse tempo.
"Algo a acrescentar?" Ela questionou, rodando a caneta entre os dedos. Jean pensou durante alguns segundos, revendo o que tinha dito, mas não encontrou mais nenhum detalhe que devia ser mencionado.
"Não. Esse é meu segredo." Assim que terminou de dizer isso, a morena entregou-lhe o caderno e a caneta para que ele o assinasse, e assim que ele o fez e o entregou de volta para ela, viu que Ymir fechou o caderno — lançando-lhe um belo ataque de mofo e poeira, por sinal — e colocou a mão em cima da capa, como se fosse uma espécie de maga prestes a lançar um feitiço.
"Seu segredo está seguro. Ninguém nunca saberá. Tem a minha palavra." Para Ymir, parecia que a cada vez que falava isso, ela se sentia mais segura e soava ainda mais confiante, se bem que podia ser só impressão dela. De qualquer forma, após esse "ritual" ela desfez a pose, apoiando os braços sobre a mesa.
"E o que te motivou a entrar aqui? Não me diga que foi pra dizer que é tão macho quanto Armin e o anjinho." Jean estirou a língua para a moça para retribuir sua provocação, e então sorriu. Isso, ao menos, era mais fácil de ser explicado do que o segredo.
"É bem simples. Eu estou levando uma porrada de advertências e suspensões esse ano. Estou praticamente no limite, mais um pouco e eu sou expulso. Sem falar que eu estou meio... Certo, estou muito fodido em algumas matérias por causas das faltas e da preguiça pra estudar. É isso." Era como a morena tinha suspeitado. Ele precisava de ajuda para salvar o ano letivo. Nada surpreendente, mas o segredo que ele lhe dera pagava esse preço e muito mais.
"Seja bem-vindo ao Clube de Voluntários. Jean, aqui faremos tudo que somos capazes e incapazes para te ajudar. Em troca, você terá que fazer o mesmo para os seus companheiros. Vamos descer agora, Cara de Cavalo. Acho que já deu tempo pro pessoal lá embaixo pensar mais." Dito isso, ambos se levantaram, e Jean não pode evitar de fazer uma pequena careta com a menção daquele apelido. Era melhor que ele fosse esquecido até seu último ano. Ele não queria ser conhecido por esse nome na sua formatura.
"Sobrevivi." O jovem comentou assim que desceu as escadas, logo assumindo a pose de que não tinha ficado com medo, apenas para se divertir com as reações dos outros. Tanto ele quanto Ymir agora estavam se perguntando quem seria o próximo corajoso, ou então o primeiro desistente.
Desta vez quem se ergueu do sofá foi Bertholdt, para o espanto de todos, especialmente de Reiner, que tentou murmurar alguma coisa para o garoto mas que foi então dispensado com um aceno de mão do mesmo.
"Posso ir agora? Contar meu segredo, eu digo..." O moreno disse, tímido, e Ymir respondeu com um ligeiro "sim", guiando-o até a escada que os levaria para o primeiro andar da casa. O garoto sentia o estômago revirando dentro de sua barriga, as mãos suando ao ponto de que ele achava melhor nem tocar em nada de tão molhadas que elas deviam estar, e seu lábio inferior tremia num misto de vontade e medo.
Ele tomara aquela decisão sem a ajuda de ninguém. Ele apenas disse a Reiner que iria contar seu segredo, e o loiro achou melhor que ele não o fizesse. Os dois podiam ser melhores amigos, mas haviam coisas que ambos precisavam fazer sozinhos, decisões que apenas eles poderiam tomar sem se deixar influenciar por ninguém.
Aquela era uma delas.
O jovem devia admitir que o quarto em que contaria o segredo para Ymir tinha atraído sua curiosidade. O escuro, o caderno que parecia ser bem mais velho que ele, a pouca iluminação fornecida pela lanterna que emitia uma luz tão amarela quanto as páginas do caderno velho... Parecia uma cena digna de um RPG, ou então de um livro de aventuras. Um daqueles em que o herói precisa fazer um pacto perigoso por um bem maior... Se bem que ele não estava sentindo metade da coragem que um herói desses deveria sentir.
"Apresente-se, garotão. Apenas como formalidade. Depois pode falar o que quiser." Ymir falou, duvidando seriamente da capacidade de fala do rapaz. Não era necessário ser um gênio sobre linguagem corporal para saber que ele estava completamente nervoso, mais do que todos até aquele momento. Na verdade, se ela tivesse que apostar em quem seria o primeiro a desistir disso, Bertholdt era a primeira opção.
"M-meu... Meu nome é Bertholdt Hoover. Tenho 16 anos, e estudo no Freedom High School, onde faço o segundo ano. E agora eu... Eu vou dizer o meu segredo." Os olhos verdes do jovem acompanhavam os movimentos da mão de Ymir, que anotou cada palavra que ele dissera, marcando a página que antes estava em branco com tinta vermelha que até cheirava a novo, contrastando com o cheiro do local onde escrevia.
"Eu sou o delinquente misterioso do colégio." A garota havia prometido a si mesma que não iria se surpreender novamente, mas acabou quebrando a própria promessa. Antes de escrever o segredo, ela encarou o rosto de Bertholdt, esperando que ele fosse se corrigir, mas o menino apenas esperava ela passar sua fala para o papel.
Ela não tinha ouvido errado. No entanto, aquilo era, no mínimo, surpreendente. Era mais fácil que o culpado fosse Eren, Jean, até mesmo Sasha, mas Bertholdt? O aluno de ouro, o garoto que cuida de gatinhos perdidos e passarinhos que quebram as asas, o ser humano do sexo masculino mais doce, tímido e inofensivo de toda a cidade? Ela só estava acreditando porque aquilo estava vindo do próprio moço, que era incapaz de mentir pra salvar a própria pele.
"Então foi mesmo você? As pichações, as privadas entupidas com vômito falso, os computadores com vírus que fazem tocar vídeos irritantes como aquele do que a raposa diz? Você, sozinho, sem mais ninguém?" A garota de sardas questionou, bastante intrigada com tudo aquilo. Ele devia ter uma boa explicação pra essas coisas.
"É, foi eu sim. Sozinho. Está mesmo tão surpresa assim por causa disso?" O jovem riu baixinho, meio nervoso e meio animado. A cara de Ymir — ao menos o que ele podia ver dela — era bem engraçada, e ele devia admitir que a situação em que os dois se encontravam ali era mesmo bem absurda.
"Claro que estou! Você é a última pessoa que eu suspeitaria dessas coisas no mundo. Por que isso, Bertholdt? Deve ter um motivo interessante." Sua voz não conseguia esconder a óbvia curiosidade, o que agradou o mais alto. Ela era a primeira e única pessoa que sabia agora de seu segredo, e era bom ver o quanto ela estava interessada nele.
"Sei que soa estranho, mas eu faço isso para criar coragem. Eu sempre fui um bom rapaz, inteligente, educado, que tira boas notas, um exemplo. É bom, mas tem vezes que eu me canso de ser o menino dos olhos. Eu também sou muito tímido. Você sabe disso, já me viu chorando por causa de bullies que me xingavam na educação física por eu ter medo da bola durante as aulas, sem falar das vezes em que já desmaiei, passei mal e até fiz xixi na calça apresentando trabalhos... Em todas essas ocasiões Reiner e Annie sempre estiveram lá pra me defender, e eu sou muito grato a eles por causa disso, mas eu preciso ter mais independência. Quero dizer, quando formos pra faculdade, não vamos mais andar juntos o tempo todo, né? Vou ter que me virar." O que ele dizia realmente fazia sentido. Ymir já presenciara mais de uma vez o quanto o garoto ficava nervoso ao falar em público e também como ele ficava sem saber se defender quando precisava. Dava até pena.
A moça fez questão de anotar cada palavra no caderno. Pelo visto, nesse dia ela ia escrever mais do que já fizera durante todo o seu ano escolar. No entanto, os conteúdos eram bem mais interessantes do que fórmulas de cálculos, anotações sobre mapas ou nomes de livros antigos e que a entediavam.
Aqueles eram relatos. Histórias reais do que se passava nas vidas e mentes de seus colegas de sala, coisas surpreendentes e até mesmo inimagináveis, mas que não foram inventadas. Ymir já escutara mais de uma vez que a realidade podia ser mais estranha que a ficção, mas apenas agora ela estava começando a acreditar nisso e a levar a sério.
"Eu gosto de pesquisar sobre coisas que eu acho interessante, e também amo ler. Por isso eu sei sobre muitas coisas, mesmo que sejam inúteis. Sabia que pichadores e grafiteiros tem seus próprios códigos e gírias? Eu as uso, se você prestar atenção. É por causa dessas pesquisas que eu sei fazer tantas coisas, ser tão criativo, e principalmente não ser pego. Acho que essa última coisa deve ser a mais importante." Aquilo era fácil de imaginar. Bertholdt realmente parecia ser aquele garoto nerd curioso que pesquisava sobre todo tipo de coisa, desde a invenção da batata frita, como funcionavam métodos de tortura medievais e até mesmo como sobreviver num apocalipse zumbi. Ela não se surpreenderia se o perguntasse sobre essas coisas e ele tivesse todas as respostas na ponta da língua.
"Pra um criminoso como você, realmente é bem importante. Você é mais inteligente do que eu pensava... Devia ter pensado nisso antes. Apenas um nerd como você seria cauteloso o bastante para não deixar pistas. E considere isso um elogio." A moça falou, e notou que o garoto corou um pouco e deu um sorrisinho no final.
"Obrigado. Se bem que eu não acho esse tipo de coisa digno de elogios. Se eu for pego um dia, sei que vou ganhar um belo sermão do Erwin ou até mesmo da direção, sem falar que meus pais iriam me matar... Eles me amam muito, fazem questão de me dar a melhor educação e tudo o que eu preciso, e como pais eles são excelentes. Eu que decidi que ia começar com isso. Não sei o motivo, mas eu adorei a sensação desde a primeira vez que invadi o colégio de noite. Era como se eu estivesse vivendo uma grande aventura, algo novo e incrível, e também sacana. Eu agi mal naquela noite, e eu adorei. Não tive medo, não passei mal, não suei de nervoso, nada disso. Eu fiquei animado, feliz como se fosse um menino ganhando um brinquedo novo. Acho que eu só queria liberar meu lado travesso, algo como Tom Sawyer ou Jack Frost. Quando eu faço essas coisas, me sinto como se fosse mesmo outra pessoa, e não aquele Bertholdt de sempre, tímido, medroso e todo certinho." Até mesmo o próprio estudante estava se assustando com toda a sua sinceridade. Aquela devia ser a primeira vez em meses em que ele estava pensando e falando a sério sobre esse assunto, e por isso estava chegando a diversas conclusões sobre si mesmo.
O que mais o impressionava era como a garota estava conseguindo acompanhar tudo e transcrever todo o seu enorme depoimento para o caderno. Para alguém que tinha preguiça de ir estudar, a morena com certeza era capaz de escrever bem rápido, e pelo jeito sem se cansar. Ver todos aqueles parágrafos na folha o deixou até mesmo um tanto envergonhado. Será que estava tagarelando demais? Isso não era muito educado, então... Ou será que os outros que contaram seus segredos antes dele falaram muito também? Eles demoraram um pouco, então devem ter se estendido sobre seus segredos, sim. Nesse caso, ele ainda podia falar mais um pouco, mas não iria abusar.
"Então... É isso. Eu gosto de fazer essas coisas mais do que deveria, mesmo com todos os riscos e sabendo que eu não fui educado e criado pra ter esse comportamento. Se eu consigo fazer tudo isso, já mostra que eu tenho coragem dentro de mim, e que eu sou capaz de muita coisa. Isso me deixa feliz. E espero que um dia isso se reflita na minha vida. Quero ser capaz de me defender com minhas próprias palavras, poder falar em público sem passar vergonha, conseguir falar com estranhos para dar minha opinião e exigir meus direitos. Esse é meu segredo." Assim que ele terminou, a jovem que anotava acabou de escrever tudo, dando uma última olhada no rosto do rapaz para certificar-se de que este tinha realmente dito tudo o que precisava. Assim que notara que ele não planejava falar mais nada, a moça entregou o caderno e a caneta para que ele assinasse seu nome — o que ele fez, com a mão suada que ele limpara na calça -, para então fechá-lo e colocar mais uma vez sua mão ficar por cima da capa.
"Seu segredo está seguro. Ninguém nunca saberá. Tem a minha palavra." Ymir falou, sentido-se ainda mais importante do que da última vez. Aquele negócio de guardar os segredos mais íntimos dos seus colegas era mesmo coisa séria.
"Você entrou pra ver se a gente te ajuda com esse seu problema social ou é por outro motivo?" Ela questionou, e o mais alto apenas negou com a cabeça.
"Não, é por isso mesmo. Não tenho problemas na escola ou em casa, e acho que esse aqui é realmente o mais importante e que eu posso não conseguir resolver sozinho." Bertholdt explicou, agora mais relaxado. Tinha sobrevivido ao ritual de iniciação com sucesso. Estava até orgulhoso de si mesmo.
"Entendo. Pois bem! Bertholdt Hoover, bem-vindo ao Clube de Voluntários. Aqui faremos tudo para te ajudar, do óbvio ao impensável. E você, como membro, tem o dever de fazer o mesmo por todos aqui. Agora vamos descer e ver quem mais se decidiu." A jovem anunciou, de modo até mesmo entusiasmado, e então levantou-se junto com o moreno para que pudessem descer as escadas.
A disposição dos outros estudantes estava diferente quando os dois desceram, com um clima mais leve no ar. Armin, Jean e Marco conversavam de forma descontraída sobre um seriado, com ocasionais comentários de Reiner, que prestava atenção na escada para ver quando o melhor amigo se aproximasse. Connie parecia querer abrir um buraco no assoalho ao andar de um lado para o outro pela sala, parecendo ansioso. Já Historia tinha se sentado no lugar que o careca vagara ao lado de Sasha, e conversava em voz baixa com a garota de rabo de cavalo, aparentemente tentando acalmá-la. A interiorana tremia visivelmente, e apenas assentia ao que sua colega loira dizia, como se estivesse com a mente longe dali.
Reiner notou a aproximação dos outros dois antes que o restante dos alunos, e chamou a atenção de todos ao acenar para Bertholdt, interrompendo o raciocínio que Jean fazia sobre o Governador. “E aí, como foi?”
“Hmm, melhor do que eu esperava.” O garoto alto admitiu, subitamente corando ao se ver alvo da atenção do grupo mais uma vez. “Fica mais fácil depois que se começa…”
“Ah, isso é verdade.” Marco sorriu em encorajamento, e Bertholdt assentiu, com um leve sorriso no rosto. O anjinho de sardas e o loiro corpulento abriram espaço no sofá para que o moreno se juntasse a eles, quase esmagando Jean, que protestou audivelmente.
“Ele não mijou nas calças, nem sua língua caiu, então estou bastante orgulhosa.” Admitiu Ymir, ao mesmo tempo em que levantava a sobrancelha para Historia de forma inquisitva. A moça baixinha apenas deu de ombros em resposta, para irritação da amiga. “Quem gostaria de ser o próximo?”
“Eu.” Connie prontamente se candidatou, ainda bastante tenso. “Estava só esperando vocês dois voltarem.”
A súbita resolução do rapaz surpreenderam a líder do clube. “Quanta iniciativa. Por que não estava tão decidido no começo?”
“Estava pensando no que lhe contaria. Sou um cara cheio de segredos.” O garoto respondeu, com um sorriso brincalhão que não chegava bem a seus olhos.
“Sem dúvidas.” O tom sarcástico e a expressão cética deixaram claro o que a morena de sardas achava daquela afirmação. “Bem, vamos subir então.”
Connie não queria admitir, mas estava tremendo quando começou a subir aquela escada. Estava óbvio que ele apenas brincara quando falara de seus muitos segredos — havia apenas um segredo que possuía, um segredo que definia a sua vida. Ele passara tanto tempo hesitante por estar pesando mentalmente as consequências de dizer aquilo. Se caísse em mãos erradas, seu segredo não apenas faria o jovem ser preso, como também quebraria a confiança de uma das pessoas mais importantes de sua vida. Isso fez um arrepio descer por sua espinha, e sua boca ficou seca.
Por outro lado, seu segredo era justamente o que estava arruinando sua vida, ele pensou ao se sentar na cadeira velha naquele quarto escuro. O ambiente lembrava muito os velhos filmes em preto e branco de máfia que gostava de assistir, dos detetives particulares com jaquetas maneiras e gângsters de metralhadora em punho e chapéus legais. Bastante apropriado para o que iria dizer, tinha que admitir. Foi então que solidificou sua escolha. Não podia continuar vivendo daquela forma. Não apenas aquilo iria destruir sua vida escolar, sua reputação, a confiança da pessoa que mais amava, aquilo iria matar Connie Springer. Ele precisava acabar com tudo. Precisava arrumar uma outra maneira, precisava sair dessa. Ouvira uns boatos nas ruas, boatos o suficiente para saber que a garota que sentou à sua frente e destampou uma caneta vermelha era muito mais do que parecia ser. Ela tinha recursos, tinha contatos. Talvez… Talvez pudesse…
Talvez tivesse sua segunda chance.
“Se apresente para o livro, Connie. Faz parte da formalidade.” A voz de Ymir tirou o rapaz de seus pensamentos, e ele assentiu.
“Certo. Sr Livro, meu nome é Connie Springer, tenho quinze anos e sou bolsista no segundo ano do Freedom High. E, você nem deve imaginar, mas por trás dessa minha cara linda tem um segredo.”
A moça de sardas revirou os olhos com aquela frase. “Não tem como ser sério, Connie?”
“Eu estou nervoso. Faço piadas quando estou nervoso. Mas, tudo bem, vou falar sério agora. Eu tenho um segredo.” Ele engoliu em seco e então deu um profundo suspiro, olhando de forma vaga os próprios nós dos dedos antes de continuar. “Eu sou um ladrão de carros.”
Ymir achava que mais nenhum segredo fosse surpreendê-la naquele dia, mas estava errada novamente. Claro, ela já imaginava que Connie escondesse algum tipo de brincadeira ilegal, mas não previa que fosse ser um crime sério como o que ele estava contando. “Você rouba carros? Como em GTA San Andreas?”
“Quisera eu que fosse assim tão fácil.” O garoto careca deu uma risada amarga. “Eu roubo carros de luxo. Os mais caros e cujas peças são mais valorizadas. Quase fui pêgo pela polícia umas cinco vezes, e eles não param de me perseguir depois de algumas ruas como no jogo.” Ele fez uma pausa para limpar a garganta. “É um negócio bem arriscado. Precisa ser rápido, bastante rápido, tanto com o carro quanto sem ele. Ninguém pode me ver chegando perto. E há os alarmes, satélites e coisas do tipo… Por sorte, eu manjo algumas coisas de eletrônica, e há um monte de plantas de aparelhos simples que achei na internet. Coisas que geram senhas aleatórias para abrir trancas, que bloqueiam sinais de alarmes, vírus que corrompem o GPS… Uma vez que tenha instalado isso tudo, ainda tenho que ligar o carro antes de ir embora. Por sorte, esses carros bacanas costumam ter direção elétrica, então são mais fáceis de ligar sem a chave.”
Connie fez uma pequena pausa para que Ymir registrasse as palavras de seu curso rápido de ladrão de carros, antes de prosseguir. “Uma vez que eu tenha ligado o carro e cuidado do básico da segurança, é levar ele embora pro desmanche o mais rápido possível. Nunca vendo um carro completo, levo para a oficina de um amigo, para que todas as peças sejam desmontadas e vendidas individualmente. Assim, o lucro aumenta bastante, e fica mais difícil ligar de volta para você com pedaços do carro por toda a Rose Fields.”
A moça de sardas assentiu lentamente, terminando de registrar mais aquele pedaço. “Mas você faz parte de alguma gangue? Eu sei que tem gente graúda mexendo nesse tipo de negócio.”
“Não. Eu sou freelancer. Titãs, Babylonia, Filhos da Harpia… Não quero mexer com nenhum deles. Deus sabe que já tenho problemas demais trabalhando sozinho. Já quase levei tiros, quase fui preso, tive que revender peças sob o nariz do delegado, fui forçado a receber peças falsificadas, fugi de credores… Adicionar a possibilidade de levar um tiro ou ser espancado pelos membros de qualquer gangue rival não me anima muito, realmente.”
“E por que você faz isso, Connie? Por que rouba veículos? Gosta da ação? Gosta do dinheiro?” Inquiriu a morena, incapaz de conter sua curiosidade. O garoto à sua frente, até agora muito tranquilo e até mesmo seguro, deixou o olhar cair para o tampo da mesa quando ouviu sua pergunta. Ela observou com atenção quando o rapaz mordeu o lábio inferior, pensando, até se decidir.
“É pelo dinheiro, sim. Eu… Preciso desse dinheiro. Preciso muito.” Connie suspirou alto. “Ah, merda, vou dizer tudo de uma vez. Minha mãe está doente, Ymir. Há muitos anos. É uma doença degenerativa grave, em que os músculos vão se atrofiando cada vez mais. Como se estivessem sendo… Comidos, sabe? Vão ficando fracos. Tem tratamento, mas é muito caro. Precisa de fisioterapia, maquinário médico, hospital, um monte de coisa. Não temos dinheiro para pagar nem um plano de saúde, como iria pagar pelo tratamento da minha mãe?”
A confissão realmente deixou a morena sem fala. Ela observou com os olhos arregalados enquanto Connie prosseguia, lágrimas teimando em descer de seus olhos, enquanto cerrava os punhos com força. “Durante muito tempo, ela me enganou. Fingiu que estava tudo bem, continuou trabalhando… Mas a doença piorou, piorou muito. Chegou uma época em que ela estava presa a uma cama, sem conseguir andar. E o seu pai, Connie? Você me pergunta. Seu pai não ajuda? Não. Meu pai não ajuda. Meu pai é um covarde que foi embora quando eu tinha oito anos, no meio da noite, sem ter coragem nem ao menos de dizer que ia nos deixar. Eu só acordei pra ir ao banheiro no meio da noite e ouvi a porta da frente batendo.” O garoto inspirou profundamente, uma, duas, três vezes. “Ela não se deixa abater, a minha mãe. Continua dizendo que devia focar na minha educação. Continua sorrindo. Ela é o tipo de pessoa sempre alegre, sempre animada. Sempre me diz ‘bom-dia’ quando volto da escola. Agora, com o dinheiro que estou ganhando com meu… Trabalho… Pude pagar parte do tratamento dela. Ela agora está numa cadeira de rodas, muito melhor que antes.”
Houve um pequeno momento de silêncio, enquanto Connie limpava as lágrimas e o nariz, e Ymir se ocupava em escrever o que o rapaz tinha dito. Depois que terminou, a moça de rabo de cavalo levantou os olhos e perguntou, de forma até gentil: “Ela não sabe, não é?”
“Não.” O garoto careca admitiu. “Ela acha que estou trabalhando como mecânico. Um trabalho digno. Ela nem imagina que… E, em parte, é por isso que decidi aceitar sua proposta. Minha mãe sempre acreditou que, para melhorar meu futuro, é preciso investir na minha educação. Ela trabalhou bastante pra isso, por muitos anos. Fez um bolo enorme quando entrei no Freedom High. E agora… Agora minhas notas estão horríveis. Estou quase reprovando. Fico até tarde na rua atrás de carros pra vender, me preocupo em ser pêgo, tenho pesadelos… Não tenho realmente foco ou tranquilidade para estudar. Durmo nas aulas por não aguentar mais ficar acordado. E faço zoeira com o pessoal para que ninguém perceba o quão merda está minha situação. Mas eu não posso… Eu não posso deixar o esforço da minha mãe ir em vão. Eu quero melhorar minha situação escolar. Quero sair dessa vida, conseguir um trabalho digno e honesto… Eu quero uma segunda chance. Não quero ter que esconder mais nada dela.”
A moça o encarou por um longo tempo, antes de continuar com seu ritual de sempre. “É esse o seu segredo?”
“Sim. É meu segredo.”
“Seu segredo está seguro comigo. Ninguém nunca saberá. Tem minha palavra, Connie Springer.” Entoou Ymir, jurando com sua mão em cima do caderno. A cada novo juramento que fazia, mais confiante e segura sua voz soava. E a garota começava a perceber o peso que teria que carregar a partir de agora. O peso da confiança de todos esses colegas.
“Bem… É isso. Tem mais alguma coisa que eu preciso dizer?”
“Eu iria lhe perguntar o motivo de ter se juntado a nós, mas você já disse.Então só preciso que você assine aqui embaixo do seu segredo.” Ela juntou as pontas dos dedos e encarou Connie do outro lado da mesa, enquanto o garoto pegava o caderno e anotava como lhe fora dito. “Eu prometo a você, faremos o possível e o impossível para ajudá-lo e a à sua mãe. E você fará o que for preciso pelos seus colegas a partir de agora. Assim é o Clube de Voluntários.”
O garoto não hesitou em assentir. Estava aliviado demais de ter finalmente sido sincero com alguém sobre isso, de tirar aquele peso de seus ombros. E tinha esperança nessa nova fase de sua vida. Que tudo iria dar certo. Que iria recuperar suas notas, largar os roubos e ajudar sua mãe de forma correta. Que iria deixá-la orgulhosa de verdade do filho que tinha. “Farei mesmo. O que precisarem.”
Ele achou que com isso estava liberado, mas quando começou a se levantar, percebeu que Ymir continuava encarando-o e não tinha movido um músculo do lugar. “O que foi? Falta mais alguma coisa?”
“Não. Só estou admirada com você. E pensar que o palhaço da escola seria capaz de ir tão longe para ajudar a mãe. Você é uma pessoa mais especial do que eu pensava, Connie.”
“Ahh, não fala desse jeito, eu fico encabulado!”
“Você sabe que eu não faço baba-ovo com ninguém, nem da Historia. Estou só falando a verdade.” A morena por fim se levantou, mas a franja de cabelos castanhos ainda cobria seus olhos quando continuou. “A minha mãe morreu, mas, se eu pudesse tê-la ajudado dessa forma quando estava viva, eu teria, sem nem pensar duas vezes. Então… Cuide da sua mãe, Connie. Continue cuidando. Você não vai se arrepender no futuro.”
A seriedade das palavras da moça, sempre tão sarcástica, pegaram o garoto de surpresa. Ele piscou algumas vezes antes de responder. “Pode deixar. Farei isso mesmo.”
“Ótimo.” E, num instante, era aquela Ymir de sempre, com um sorriso maldoso no rosto. “Estou satisfeita que seu segredo não tenha sido sobre como você raspa a cabeça. Vamos descer? Quero ver se mais algum dos medrosos decidiu se juntar a nós.”
A discussão sobre o seriado que estava acontecendo anteriormente acabou evoluindo para um planejamento de estratégias de sobrevivência no caso de um hipotético apocalipse zumbi, desta vez envolvendo todos que estavam ali presentes. Era bom ver que o clima estava menos tenso, e que os presentes estavam começando a se dar bem.
"Estou dizendo, o Free é o melhor lugar pra gente fortificar. É grande, mas suas paredes são fortes, sem falar que tem comida, água e ferramentas. Além disso, tem espaço o bastante pra todos nós aqui." Marco falou, com um sorriso no rosto. Estava se sentindo o grande estrategista, e para ele seu argumento fazia total sentido.
"Bem, vamos ter comida de sobra se a Sasha não resolver atacar tudo logo de cara." Jean comentou, recebendo um "Eu ouvi isso!" da garota de cabelos castanhos, que estava beliscando um pacote de biscoitos recheados que devia estar guardado na sua bolsa.
Reiner estava escutando a conversa, divertindo-se com ela, até perceber com o canto do olho que Ymir e Connie tinham voltado. Dos que ainda não haviam se juntado oficialmente ao clube, só estavam ele, Sasha e Historia. Nenhuma das garotas mostrava sinais de ter se decidido, então agora era seu momento.
"Ymir, se importa de eu ser o próximo?" O rapaz questionou, levantando-se do sofá e dando espaço para Connie se sentar, além de deixar seus amigos se acomodarem melhor.
"Nem um pouco. Vamos." A morena respondeu, e Reiner começou a seguí-la assim que a viu andando em direção às escadas.
O loiro conseguia sentir o suor frio descendo em sua nuca. Não sabia o que seus outros companheiros tinham deixado registrado no caderno antigo da líder, mas sabia que todos tinham tido muita coragem e sobreviveram. Armin, Marco, Jean, Bertholdt, Connie... Todos enfrentaram o nervosismo e o medo. Todos se abriram. E se eles conseguiram, por que ele mesmo não conseguiria?
Seu segredo era algo que ele não conseguia esquecer. Uma coisa, uma lembrança tenebrosa que adorava assombrá-lo nos momentos mais inoportunos. No meio das aulas, durante os treinos, enquanto conversava com os amigos, jantava com a família. Nem mesmo enquanto dormia ele era deixado em paz. Pelo menos uma vez por semana, os pesadelos vinham artomentá-lo, fazendo-o acordar completamente suado, prestes a gritar e a chorar, tremendo de nervoso e extremamente assustado.
A pior parte era a que Reiner precisava sofrer sozinho. Ninguém podia saber, e ninguém desconfiava. Para os pais, o garoto era um filho exemplar. Para Bertholdt e Annie, o melhor amigo que sempre sabia o que fazer. Para os professores, o tipo de aluno extrovertido e que se dava muito bem com todos de forma praticamente natural.
Nenhuma daquelas pessoas sabiam, mas o rapaz carregava um arrependimento pesado consigo. E isso estava prestes a acabar com sua sanidade. Era até irônico pensar que logo Ymir seria a primeira a saber, e quem iria ajudá-lo a sair daquela espiral que eventualmente o levaria à loucura.
A moça de sardas conseguiu perceber a ansiedade nos olhos dourados do jovem assim que ele terminou de se acomodar em sua cadeira no quarto. Era estranho. Se bem que depois de Connie e de todos os outros segredos anteriores, ela não sabia mesmo o que esperar do outro garoto, de Sasha, até mesmo de Historia. Ela abriu o caderno empoeirado numa página em branco, preparou a caneta e dirigiu o olhar para o loiro.
"Pode começar com a apresentação." A morena afirmou, e Reiner respirou pesadamente, possivelmente para criar coragem. Até ela estava começando a ficar tensa. Não era íntima do outro estudante, mas sabia que ele devia ter um bom motivo pra estar agindo daquele jeito.
"Meu nome é Reiner Braun. Tenho dezesseis anos e estudo no segundo ano no Freedom High School. E eu vou contar o meu segredo." Ele viu que Ymir foi rápida em copiar sua fala na folha. O quarto estava silencioso, e a garota estava apenas esperando para que ele continuasse a falar.
O jovem mordeu rapidamente o lábio inferior, desviando o olhar da moça por poucos instantes antes de conseguir confessar o que estava matando-o por dentro todos os dias.
"Eu quase matei uma pessoa com minha próprias mãos." As palavras saíram tão pesadas quanto seu segredo. Ymir ainda o escreveu, mesmo estando chocada, para então poder voltar a olhar para seu colega.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Reiner era grande, musculoso, corpulento. Aquilo que ele dissera não era algo improvável, visto seu porte físico. Mas como tal coisa podia ter acontecido? O loiro era alguém tão gentil e pacífico! Era difícil acabar com sua paciência, e ele normalmente estava sorrindo enquanto ajudava a todos, sem distinção. Mesmo assim, ele tinha a força necessária para matar alguém caso quisesse.
E ao que tudo indicava, teve um momento em que ele quis.
Reiner viu que no olhar de Ymir estavam depositadas todas as perguntas. E ele era o único capaz de dar todas as respostas. O estudante odiava se lembrar dessa história, mas esta seria a primeira vez que contaria a alguém. Precisava ter forças para fazer isso.
"No primeiro ano nós tivemos que fazer um trabalho sobre o Barroco. Você se lembra disso, certo? Aquele pesadelo onde todos nós precisamos apresentar no palco. Eu, é claro, fiz com Annie, Berrick e Bertholdt. Acho que você se lembra de nosso grupo em particular. Bertholdt desmaiou no meio da apresentação, quando era sua vez de falar. Sorte nossa que ninguém se prejudicou na nota por causa disso." De fato, a morena com certeza se lembrava daquilo. Tinha passado por muito estresse para fazer uma apresentação decente, e no final nem conseguiu muitos pontos. Uma grande porcaria, na sua sincera opinião. E ela também se lembrava do que tinha acontecido com Bertholdt. O menino já era naturalmente nervoso, e numa situação daquelas, vê-lo desmaiar não era algo espantoso para ninguém.
"Ah, disso eu lembro. Trabalhinho de merda esse, viu? Me fodi nele. E eu lembro que muita gente riu quando o Bertholdt desmaiou... Ainda bem que você e Annie o levaram pra enfermaria." A jovem disse, e Reiner concordou com a cabeça antes de continuar.
"Sim. Ficamos cuidando dele o dia inteiro. Só Berrick que foi assistir às aulas pra pegar o conteúdo e negociar com a professora. Quando ele acordou, ainda estava mal, todo nervoso pelo o que tinha acontecido, agitado, ansioso por causa da nota. E quando eu e a Annie conseguimos alcamá-lo... Era intervalo. Um garoto do terceiro ano entrou na enfermaria, e ele estava vendo nossas apresentações do trabalho mais cedo porque estava matando aula. Ele disse que viu Bert desmaiar, e então resolveu ir falar com ele, mesmo eu dizendo que ele precisava descansar porque só tinha acordado a pouco tempo e ainda não tinha se recuperado totalmente." Nesse momento, a raiva estava mais do que presente na voz do estudante. Não era necessário ser um gênio para adivinhar o que aconteceria depois. Ymir, então, percebeu que não conseguia falar nada, e apenas era capaz de anotar tudo no caderno enquanto escutava atentamente às palavras do loiro.
"Eu nunca vi tanta covardia. Ele entrou lá, sabendo do estado do Bert, e sabe o que ele fez? Ele riu! Riu com gosto, fez piada, chamou apelido, disse que se era pra ser assim, ele nunca conseguiria ter um emprego e muito menos um futuro decente porque não seria capaz de fazer nada sozinho! Ele nem conhecia o Bert, mas chegou lá e falou todas aquelas coisas horríveis na cara dele. Eu e a Annie ficamos tão chocados com aquela filha da putice que só conseguimos assistir enquanto ele se fazia de fodinha e o Bertholdt chorava sem poder fazer nada. Puta merda. Ele não precisava daquilo. A gente não precisava daquilo." A cena se formou mais do que facilmente na imaginação da garota de sardas. Reiner e Annie parados perto da parede, cheios de raiva mas incapazes de tomar alguma ação por estarem na escola e pelo choque, Bertholdt em lágrimas sentado na maca enquanto escutava aquelas palavras cruéis do garoto mais velho e este último rindo como se tudo fosse genuinamente engraçado.
Pessoas como esse rapaz deixavam Ymir com vontade de vomitar. Elas eram o que a jovem considerava a escória da humanidade. E não era necessário olhar nos olhos do jovem para saber que ele pensava desse mesmo jeito.
"Não mesmo... Que filho da puta covarde, Reiner. Eu nem conheço esse moleque, mas quero partir esse infeliz em dois só por causa disso que você falou." Ela comentou, mostrando que também tinha ficado irritada com tudo aquilo. Era impossível não se irritar.
"Ele ficou muito abalado por causa disso, é claro. De tarde eu até fui visitá-lo, pra gente passar um tempo jogando videogame, conversar, essas coisas, pra ele poder se animar mais. Foi um dia duro. E enquanto eu estava voltando pra casa, eu vi o cara do terceiro ano. Impossível se esquecer da aparência de alguém depois de algo assim. Não tinha como confundir. Eu o segui sem pensar duas vezes, e ele nem percebeu. Então eu consegui arrastá-lo pra um beco. Dei um soco no nariz dele antes que ele pudesse começar a falar qualquer coisa. A partir daí, eu perdi totalmente o controle." O estudante parou e massageou as têmporas, respirando fundo algumas vezes, dando tempo tanto para Ymir terminar de copiar a história quanto para ele mesmo conseguir ter o fôlego para continuar.
"Lembro que eu estava furioso. Gritei pra ele todos os tipos de xingamentos possíveis, e não sei como ninguém mais que estava por ali resolveu ver o que estava acontecendo. Então eu dei uma verdadeira surra nele, sem deixar uma mínima brecha pra ele revidar ou até mesmo falar. Eu só queria vê-lo sofrendo, apanhando para poder passar pela mesma dor que ele fez o Bert passar. A cada murro, cada chute, eu sorria com gosto. Não me importei quando o fiz vomitar todo o almoço no chão, nem quando escutava seus ossos quebrando e vendo sua pele ficando roxa de tanta pancada. Era pra ele sofrer mesmo. Eu estava tão puto com ele que em poucos minutos gastei toda minha energia. Foi só quando me cansei que eu me dei conta do que tinha feito. Tinha sangue nas minhas mãos, vermelho e quente, o mesmo que estava nas roupas dele e que manchava as minhas, sem falar que ele mal conseguia respirar e nem se aguentava de pé. Acho que, se eu tivesse insistido mais um pouco... Eu o teria matado ali mesmo." Reiner tremeu só de dizer a última frase. Não era fácil dizer algo assim, mas ao menos Ymir não parecia julgá-lo.
"Depois disso eu o levei pro hospital, paguei por tudo que ele precisava para ter o silêncio dele e o perdão, e deu certo. Nunca mais ele se meteu comigo e nem com o Bert pelo resto do ano. Mas eu ainda me assusto com isso tudo. Eu sei que sou forte, mas... Eu nunca quis matar ninguém com essa força, ao menos não até aquele dia. Depois dele, tenho medo de ter outro ataque desses de novo, e como eu estou cada ano mais forte e pesado... Eu sei que poderia matar mesmo. Eu me sinto como se fosse uma arma ambulante, Ymir. E também como se fosse uma bomba-relógio. Não sei quando vou explodir, e pensar nas consequências disso me apavora completamente. Como posso viver desse jeito? Eu não ganhei esses músculos para que eles machucassem os outros. Eles foram apenas fruto do futebol e da academia. Confesso que algumas vezes até olhar pro espelho me assusta, porque eu não sei se estou olhando para um humano ou um monstro." Os olhos amarelos do estudante agora estavam molhados, cheios de lágrimas que ele teimava em segurar. Ele piscou algumas vezes, e acabou deixando algumas delas molharem seu rosto, que ele logo tratou de secar com o braço.
A garota de sardas não conseguia deixar de sentir pena genuína ao olhar para aquela cena. Reiner era tão forte, mas neste momento estava tão frágil. Era como se qualquer coisa que ela dissesse fosse capaz de quebrá-lo de vez.
O que ela via não era um monstro, e sim um garoto assustado. Um menino que carregava o pesado fardo da dor e do arrependimento, todo o peso da culpa e que vivia agora cercado pelo medo do futuro e das possibilidades. Uma criança perdida e sozinha, que apenas neste momento decidiu chorar em busca de ajuda. E como ele precisava disso.
Estava claro que se as coisas continuassem desse jeito, ele realmente ficaria insano.
"Então... É este o seu segredo?" A jovem perguntou após ver que o outro tinha recuperado novamente o controle de suas emoções.
"Sim." Ele respondeu, sentindo-se então ligeiramente envergonhado por ter se deixado ficar tão emotivo na frente de Ymir. Se bem que aquilo não era nem um décimo do que ele gostaria de expressar. Ainda era melhor do que manter tudo trancado, porém. A garota o deu o caderno e a caneta para que ele assinasse seu nome, para selar sua confirmação. Ele o fez, com dificuldade pelo pesar, e então devolveu os objetos. As mãos da moça fecharam o caderno, e ela deixou um deles espalmado por cima da capa, enquanto ela sentava-se com a melhor postura possível e encarava o loiro nos olhos.
"Seu segredo está seguro. Ninguém nunca saberá. Tem a minha palavra." Ela entoou, e suas palavras acalmaram o coração ansioso do rapaz de uma forma que ele mesmo não imaginava que fosse acalmar.
"Seu motivo para entrar no Clube de Voluntários é para superar esse seu medo constante, certo?" Reiner afirmou com a cabeça em resposta, em silêncio, antes de acrescentar mais alguns detalhes.
"Exato. Isso está afetando especialmente meu desempenho no futebol. Estou tendo problemas lá, e por causa deles falta pouco para que me expulsem do time. Pouco mesmo. Eu quero jogar em paz, quero viver em paz. Quero seguir em frente sabendo que posso manter o controle de mim mesmo e nunca mais deixar que nada como aquilo aconteça de novo. Só isso." Ele disse, mordendo novamente o lábio inferior num gesto inconsciente.
"Reiner Braun, saiba que aqui no Clube de Voluntários vamos fazer tudo que for pensável e até impensável para te ajudar com isso. E em troca, você fará o mesmo pelos seus colegas, não importando quais sejam os problemas deles. Vamos te ajudar a sair dessa. De verdade. E..." A moça hesitou por alguns instantes, e viu que o loiro levantou uma sobrancelha novamente, curioso.
"Eu não acho que você seja um monstro. Eu faria o mesmo por meus melhores amigos se estivesse no seu lugar. Você não fez nada de errado." Ymir confessou, e viu que aquilo fez o outro sorrir de forma bem mais leve, daquela que ele costumava sorrir no colégio e no dia-a-dia. Era bom saber que ela tinha conseguido animá-lo novamente.
"Obrigado. Agora é a hora em que a gente desce, certo?" Reiner questionou assim que viu a morena se levantando de sua cadeira.
"Sim. Vamos ver se as garotas se decidiram."
No andar de baixo, a conversa acabara se voltando para jogos, em especial videogames. Ao descer as escadas, Ymir admirou por um instantes o som das risadas altas e gritos enquanto Armin narrava em detalhes uma sessão memorável de The Last of Us que jogara com Eren. Lógico, ela antevia pela própria ideia que convivência no clube fosse fazer com que os membros se aproximassem mais, mas não que a tensão fosse ser dispersada tão rapidamente. Até Reiner, à sua frente, parecia bem mais relaxado, provavelmente por suas palavras ao final da conversa.
O loiro estava de pé, fazendo gestos em frente ao sofá onde os outros, curiosos, o assistiam. “Aí nessa hora a gente estava gritando pra televisão ‘CARA OLHA PRA TRÁS OLHA PRA TRÁS’, quase arrancando os cabelos, quando a sra. Jäger bateu na porta e perguntou se estávamos bem e se podíamos abaixar um pouco o volume. Ela disse que o vizinho do outro lado da rua tinha ligado reclamando do barulho que estávamos fazendo! Sorte que o Dr. Grisha não estava em casa, ou acho que teríamos ido dormir os dois de couro quente…”
“Caramba, eu sabia que o jogo era bom, mas não imaginei que fosse tão envolvente…” Comentou Marco, surpreso.
“Agora tenho mais vontade de jogar, vou dar uma passada na casa do titãzinho um dia desses.” Brincou Connie, parecendo muito mais à vontade.
“Rein?” Bertholdt, que até agora ria timidamente no canto do sofá, percebeu que os dois colegas tinham retornado à sala. “Foi tudo bem?”
O loiro cumprimentou o melhor amigo com seu sorriso habitual. “Sim, foi tudo certo e eu não morri. Estou até aliviado agora.”
“Acho que todo estamos. É como se tirássemos um peso dos ombros… Ai, Marco, meu pâncreas!” Opinou Jean, que logo fez uma careta quando Marco lhe deu uma cotovelada acidental. O rapaz de sardas pediu desculpas, já que estava apenas abrindo espaço no sofá para que o recém-chegado se sentasse.
Reiner agradeceu, mas resolveu dispensar o sofá e sentar no chão, perto da lareira. Olhar naquela direção fez Ymir perceber quanto tempo já havia se passado desde que começaram a reunião, pois raios de luz alaranjada de final de tarde passavam através da janela um pouco suja. Era bom que faltassem apenas mais duas pessoas, levando em conta que muitos de seus companheiros precisariam pegar ônibus para voltar pra casa.
“Bom, quem gostaria de ir agora?” A morena inquiriu, chamando a atenção geral.
“Er, bem, eu.” Sasha se levantou, desconfortável, porém decidida. “Espero que essa história de tirar um peso dos ombros seja verdade, pois esse segredo realmente está me trazendo problemas.”
“É para isso que estamos aqui. Falar segredos, resolver problemas, salvar o mundo.” Afirmou Ymir, fazendo sinal para que a outra a seguisse, e voltando para a escadaria.
Sasha respirava profundamente, tentando acalmar seu coração desesperado enquanto seguia a outra moça até o quarto escuro no andar de cima. Estava tentando dizer a si mesma que tudo ficaria bem, que era até melhor que contasse logo, se livrar da sombra que a perseguia durante tanto tempo, mas suas mãos não paravam de tremer, e o suor frio descia por sua coluna. Apenas pensar naquele dia tinha esse efeito nela. E ela pensava, pensava muito sobre o que tinha acontecido, sobre o que podia ter feito de diferente, sobre as possibilidades, tanta possibilidades… Estava em seus sonhos e seus pesadelos, nas sombras de seus colegas no corredor, no canto de sua visão quando virava a cabeça. Aquela lembrança nunca deixava Sasha Blouse, em nenhum momento de sua vida, e ela sentia que não conseguia aguentar mais.
“Sasha?” A voz de Ymir subitamente a tirou de seus pensamentos. Estava de pé em um quarto pouco iluminado, em frente a uma mesa à qual a outra já tinha se sentado e esperava que fizesse o mesmo. A interiorana engoliu em seco ao se sentar na cadeira desconfortável, pensando que tinha sido tão consumida por aquilo que sequer tinha percebido como chegara até lá.
“Desculpe, eu… Perdi o foco.” Desculpou-se o mais sinceramente que podia. A garota de sardas a encarou com a sobrancelha erguida, mas deu de ombros e abriu o caderno antigo em cima da mesa.
“Apresente-se para o caderno, Sasha.”
“Meu nome é Sasha Blouse. Tenho dezesseis anos. Sou bolsista no segundo ano do Ensino Médio no Freedom High School. E tenho um segredo que eu não aguento mais esconder.”
A líder do clube esperou pacientemente, a caneta girando entre seus dedos, enquanto a garota parecia recolher toda a sua força de vontade para continuar.
“Eu sou culpada pela morte de uma pessoa.” A voz de Sasha não estava muito acima de um suspiro, apesar de que apenas pronunciar aquelas palavras já faziam com que seu corpo inteiro tremesse. Ela inspirou novamente, procurando se acalmar, como Historia lhe sugerira fazer quando as duas conversaram na sala. Se desse certo, era a última vez que precisaria rever aquele dia com detalhes.
“O que aconteceu?” A moça de sardas perguntou suavemente, procurando não pressionar a colega. Notara o cuidado na frase — a outra morena fora responsável por fazer alguém morrer, mas não matara diretamente ninguém.
“Há quatro anos atrás… Eu ainda morava na minha cidade natal. Numa fazenda, na verdade. Minha família é dona de alguns acres de terra e alguns bichos, o suficiente para termos uma renda mais ou menos fixa e conseguirmos sobreviver sem muitos percalços. Quando eu era mais nova, as coisas eram mais difíceis… É por isso que eu sou assim, louca por comida. Eu sei o quão difícil é ficar sem ela quando se precisa.” Ela deu um sorriso fraco, e então seguiu contando. “Somos uma família grande. Muitos tios e primos e parentes distantes morando juntos, então nunca me senti muito solitária crescendo lá. Mesmo assim, sempre somos mais próximos de alguém, e, no meu caso, esse alguém era meu primo Dean. Adorávamos sair por aí explorando cada canto, cada planta, cada mato. Entramos em cavernas, nadamos em riachos, cuidamos de passarinhos. Ele adorava animais. Queria ser veterinário quando crescesse…”
A voz de Sasha falhou. Penalizada, Ymir apenas anotou o que ela dissera até agora e esperou que se recompusesse para continuar.
“Enfim… Ele era… Meu melhor amigo. Éramos próximos como irmãos. Nos metíamos em muitas confusões, é claro, a maior parte por minha culpa. Sempre quis saber mais sobre o mundo, ainda que eu não gostasse muito das pessoas de fora. Um dos poucos motivos pelos quais brigávamos, já que ele queria vir para a cidade grande estudar.” A morena fungou, incomodada pela poeira que se levantara com o virar de folhas do caderno. “Ainda assim, tudo dava certo no fim. Apanhávamos, levávamos bronca, mas estava tudo bem… Tudo bem… Até aquele dia. Estava chovendo muito, muito mais do que o normal. Meu pai dizia que estaria chovendo ainda mais nas montanhas próximas, na nascente do rio. Dean e eu tínhamos ido atrás de uma nova gruta que ele tinha descoberto na floresta, mas a chuva estava muito grossa, então resolvemos encurtar o passeio e voltar logo pra casa.”
Sasha agora tremia tanto que a outra garota conseguia ouvir o tec-tec das pernas da cadeira batendo no chão, mas não ousou interromper. “E aí eu sugeri… Eu mandei… Eu pensei… Em pegarmos um atalho. Não queria que a gente se molhasse muito. Indo pela floresta, teríamos que atravessar depois a maior parte do terreno da fazenda, mas pelo rio… Havia uma ponte, e era bem mais curto. A ponte era segura, eu pensava. Ele me disse que provavelmente o rio estaria cheio por causa da chuva, mas eu o convenci que daria tudo certo…”
As lágrimas começaram a cair pelo rosto da interiorana, seus olhos desfocados como se não conseguisse ver nada além daquele momento, da trilha à sua frente, do som dos risos, a mão quente dele junto da sua. “Estávamos felizes. Pensávamos nas flores que nasceriam depois da chuva. Poderíamos pegar algumas para o livro dele de folhas. Eu conhecia aquela trilha como ninguém. Já tinha passado por lá tantas vezes. Então, não demorou muito para que chegássemos na ponte. Era pequena, de pedra, não muito antiga, mas também não era nova. Nada que se quebrasse com o peso de dois moleques magrelos de doze anos. O rio realmente estava muito cheio, quase tocando a margem, mas a gente já tinha chegado tão longe… Continuamos. O barulho era ensurdecedor, a água passando, sabe? Como cavalos de batalha, como se alguém viesse nos atacar. Eu fiquei com um pouco de medo, e sei que ele ficou também, mas nós tínhamos um ao outro, e era isso que importava, não era? Não era?”
Ymir deu mais tempo para que Sasha chorasse um pouco mais, inspirasse algumas vezes e limpasse de forma não muito efetiva as trilhas de lágrimas em seu rosto. “Estávamos de mãos dadas. Eu na frente, ele atrás. A chuva estava grossa, a ponte estava cheia de poças, e o barulho era alto, mas ainda conseguíamos nos ouvir. Ele me disse que talvez a gente devesse esperar diminuir um pouco. Eu disse que não, que daria para atravessar. Estávamos quase na metade do caminho, já. Que ele deixasse de ser medroso. Daria tudo certo, e teríamos uma história tão legal para contar mais tarde… Eu disse a ele, ‘Pense na lareira, Dean, em nós dois perto do fogo quentinho’... Foi aí então que eu ouvi. O estalo. Foi tudo tão rápido, eu mal tive tempo de reagir direito. Quando vi, metade da ponte tinha caído atrás de mim, caído no meio da água, e a correnteza estava tão forte que eu via pedaços de pedra sendo levados como se não pesassem nada. Eu mesma quase caí, mas consegui me segurar e consegui segurar a mão dele. Ficamos lá, pendurados no meio da ponte quebrada, muito longe para alguém nos ouvir, no meio da chuva cada vez mais forte… Foi então que ele me disse aquilo. Não consigo esquecer, mesmo depois desse tempo todo… ‘Me solta, Sasha. Me solta e vai embora. Você precisa sair daqui. Você precisa ir embora.”
Era como se cada palavra que dissesse ecoasse em sua mente com a voz dele. Ela estava lá mais uma vez, a mão doendo e sangrando de segurar o peso dos dois, os olhos fixos no garoto e na água abaixo deles. “Você precisa me deixar ir, Sasha. Não vamos subir desse jeito, não tem como.”
“Você o soltou?” A voz de Ymir veio de algum lugar em meio a seus devaneios.
“Não.” A garganta doía tanto de chorar quanto de falar. “Ele se soltou. Soltou minha mão, e caiu, caiu na água, e eu não vi quando ele caiu, eu só ouvi meu grito, e a espuma, e ele se foi. Ele se foi, e eu nunca mais o vi. Ninguém nunca mais o viu. Eu subi de volta e corri pra casa, corri pra avisar, e nós todos e a polícia procuramos por dias a fio, mas até hoje ninguém sabe o que aconteceu. Ninguém sabe onde o Dean está. Mas eu me lembro que a culpa foi minha, que fui eu que o convenci a tomar aquele caminho, que poderíamos ter ido pela trilha mais segura, se eu não fosse essa cabeça dura… Eu podia ter feito diferente. Podia tê-lo salvo. Podia ter puxado nós dois. Podia não ter saído aquele dia. Mas eu saí, e ele se foi, mas sua lembrança ainda está aqui comigo, todos os dias, em todo momento, e eu não aguento mais. Não aguento, Ymir. Eu vivo como um fantasma. Quero deixar isso pra trás. Quero voltar a ter uma vida só minha, a dormir uma noite toda, a sair por aí sem tremer em dias de chuva. Você lembra de quando estávamos na biblioteca, não lembra? Como eu fiquei o tempo todo perturbando você e a Historia? Eu não podia suportar ficar sozinha naquele momento. Se eu ficasse, ele não me deixaria em paz. Nem ele, nem o que ele me disse antes de cair.”
“O que foi que ele disse?”
“Eu te amo, Sasha.”
As duas garotas ficaram em silêncio por alguns instantes, uma limpando as lágrimas que ainda caíam, e a outra tentando absorver o que acabara de ouvir e anotar. Ymir estava francamente surpresa em como a Potato Girl conseguira esconder algo assim por tanto tempo. Claro que ela já tinha notado algumas peculiaridades no comportamento de Sasha — não tinha sido esse o motivo de tê-la chamado para o Clube de Voluntários? — mas nunca tinha passado por sua cabeça que fosse ser algo dessa magnitude. Estava claro por seu discurso que a garota do interior se culpava tremendamente pelo que tinha acontecido, mesmo que fosse apenas um acidente infeliz. A culpa de Sasha era tão profunda que estava começando a afetar quase todos os setores de sua vida. Devia ser um peso terrível de se carregar.
E agora a própria Ymir carregava uma parte dele.
“É esse o seu segredo?” A garota de sardas rompeu o silêncio desconfortável.
“Sim. Sim, é esse.”
“Seu segredo está seguro comigo. Ninguém nunca saberá. Tem a minha palavra quanto a isso.” Pôs a mão sobre o livro pelo que devia ser a sexta vez naquela tarde e proferiu seus votos, como gostava de pensar. Realmente, tudo aquilo estava muito mais sério do que imaginara que seria no dia anterior, mas ela não se arrependia nenhum pouco. Pelo contrário, estava mais decidida agora do que antes, depois de ter ouvido todas aquelas histórias de seus colegas. Histórias bonitas, histórias tristes, surpreendentes, todas reais e todas importantes para as pessoas que se encontravam ali com ela.
Sasha assentiu, sem falar nada, limpando o nariz com as costas da mão. Agora que finalmente tinha dito tudo aquilo para alguém, realmente era como se parte do peso tivesse sido tirado de suas costas. Agora provavelmente estava nas costas de Ymir, a quem ela nunca se imaginara contando alguma coisa. Irônico de se pensar, mas a moça não se arrependia nada. Sentia que aquele era seu primeiro passo rumo a uma nova vida, na qual o que ficaria com ela seriam as lembranças felizes de sua infância com seu melhor amigo, e nada mais.
“Então, Sasha. O que o Clube de Voluntários pode fazer por você?” Perguntou a líder, enquanto a outra moça deixava sua assinatura no livro com as mãos ainda trêmulas.
“Preciso de ajuda na escola. Estou com notas muito baixas em exatas, e minha disciplina também não está lá essas coisas graças aos lanches que faço durante a aula. Estou quase reprovando, correndo o risco de perder a bolsa. Preciso me recuperar logo… E… Também, se tiver uma maneira de… Me ajudar com esse problema de ficar revivendo lembranças… Eu….”
“Fique tranquila.” Ymir deu um sorriso que esperava ser encorajador. Talvez devesse pegar umas aulas sobre como fazê-lo com Marco. “Eu entendi. Você agora é oficialmente uma de nós, Sasha Blouse, e vamos fazer tudo em nosso alcance para ajudá-la a dar o primeiro passo em sua recuperação. E você também irá fazer tudo que puder para auxiliar os seus colegas. Uma mão lava a outra, é o que dizem. Aqui, todos ajudam todos. Está de acordo?”
“Pode deixar. Eu farei tudo o que puder. Mesmo que não seja muita coisa, eu acho.”
“Não seja modesta, Sasha. Você é capaz de mais do que pensa. Agora, não pense mais nisso. Vamos descer, e ver o que os outros estão fazendo.” A garota do interior pareceu inicialmente surpresa com suas palavras, para então abrir um dos sorriso mais bonitos que a outra já vira na vida.
“Você me assustava um pouco, sabe?” Sasha admitiu, com um riso sem graça, enquanto se erguia da cadeira. “Mas agora… Você está ajudando mais do que imagina. E de pura vontade! Talvez você não seja tão ruim quanto pensa, Ymir.”
“Com certeza.” Concordou a líder ao sair do quarto, afastando uma mecha de cabelo castanho do rosto. “Eu sou ainda pior.”
A sala de estar estava mais escura, agora que a noite caíra. Por sorte, tanto Bertholdt quanto Jean pareciam ter trazido lanternas nas mochilas, já que o grupo de adolescentes não ousava acender uma das luzes da casa e chamar atenção de um vizinho ou de um transeunte. Quando Sasha e Ymir finalmente desceram, a maior parte das atenções estava voltada para as sombras que Jean projetava na parede, fazendo figuras de animais que seus colegas pediam.
“Faz um elefante, Jean!” Pediu Historia, batendo palmas como uma garotinha entusiasmada. Prontamente, o garoto pôs uma das mãos sobre a outra de forma que a sombra projetada realmente lembrasse um dos animais.
“Nossa, parece mesmo! Você é talentoso com as mãos!” Exclamou Reiner, e Ymir não pôde deixar de dar um sorriso malicioso, mesmo que nenhum deles ainda tivesse notado sua presença. Ah, sim, ela sabia a verdade por trás daquelas palavras.
Por isso mesmo, ela foi a única que percebeu o leve rubor no rosto de Jean quando ele respondeu: “Heh, eu só tenho muito tempo livre.”
“Sabe fazer um cavalo pra combinar com sua cara?” A garota de sardas foi incapaz de se segurar, fazendo tanto o rapaz quanto a audiência notar sua presença.
“Sei fazer uma vaca igualzinha a você.”
“Ah, por favor. Sua mãe não é tão parecida assim comigo.” Provocou a moça com um sorriso irônico. Parecia que Jean estava disposto a comprar aquela briga, se Marco não tivesse posto a mão no ombro do amigo e pedido autocontrole em voz baixa.
“Como foi, Sasha?” Inquiriu Connie à garota de rabo de cavalo que se largou ao seu lado no sofá com um suspiro cansado.
“Exaustivo. E me deu fome. Alguém tem comida aí?”
“Acho que tenho uns biscoitos na minha mochila.” Declarou Bertholdt, abrindo sua bolsa e começando a remexer o conteúdo. “Pode ficar com eles se quiser.”
“Obrigada, Bert! Já mencionaram como você é um anjo bem altão? Um anjo colossal?” Exclamou Sasha, praticamente pulando em seu lugar no sofá. A reação do rapaz foi dar uma risada embaraçada e entregar um pacote de biscoitos à garota, que começou a comê-los imediatamente.
“Então… Eu sou a última que falta, não é?” Perguntou Historia, se levantando de seu espaço no sofá e arrumando as dobras da saia perfeitamente arrumada de seu uniforme.
“Sim. Estava imaginando se iria me deixar na mão depois de ter tido a ideia inicial.” Comentou a líder, apoiada no umbral da porta depois de ter deixado Sasha passar.
“Eu nunca iria te deixar na mão, Ym. Nunquinha.” A loira deu mais um de seus sorrisos fofos, e a garota de rabo de cavalo tornou a se virar e subir a escadaria antes que alguém pudesse ver seu rosto vermelho.
Ao contrário dos seis colegas que subiram aquela escada antes dela, Historia estava completamente tranquila quanto ao segredo que contaria. Em parte por ter tido mais tempo para refletir, em parte por achar que seria apenas uma questão de tempo até ter que falar aquilo de qualquer forma, e em parte por confiar plenamente em Ymir. A morena sarcástica e egocêntrica podia não querer demonstrar ou admitir o fato, mas era uma ótima amiga, sem dúvidas a melhor amiga que a meiga filha do Prefeito Reiss já tivera. Historia sentia que podia confiar a própria vida à mulher que se sentava na frente dela agora mesmo — e em parte, era o que iria fazer.
Já Ymir apenas tentava afastar o tipo de pensamento que teimava em aparecer quando pensava nela mesma, Historia e uma sala vazia e escura na mesma sentença. “Então, florzinha, se apresente para o livro.”
“Sou Historia Reiss. Meus amigos me chamam de Christa. Tenho quinze anos e curso o segundo ano do Ensino Médio da Freedom High School. E eu vim aqui para contar o meu segredo.”
A garota de sardas anotou rapidamente o cabeçário normal do segredo, tentando não dar atenção a seu próprio pulso acelerado. Uma parte dela se perguntava o que Christa poderia esconder que ela não soubesse. As duas eram amigas há muito tempo, desde os doze anos, e a morena sempre fez questão de mostrar o quanto sua amiga seria a única pessoa que nunca trairia sob nenhuma hipótese. Mesmo antes disso, fizera questão de descobrir o máximo que pudera sobre a garota que chamara sua atenção com seus sorrisos gentis e altruísmo legítimo. A única pessoa que conquistara a confiança de uma mulher reconhecidamente egoísta e que tinha orgulho de agir assim. Ymir não confiara nem na própria família da mesma forma que confiava em Historia Reiss.
E ainda assim, Ymir tinha segredos que nunca contara para Historia.
“Eu vi minha mãe ser morta pelo meu próprio pai.”
A simplicidade e calma com que a moça baixinha contara seu segredo deixaram Ymir mais surpresa do que todos os seis relatos anteriores juntos. Não apenas a jovem acabara de confessar que era órfã de mãe, que vira a dita mãe ser assassinada, que o próprio pai era o assassino, dito pai que era o prefeito de Rose Fields; de todas as coisas, o que mais surpreendera a garota de rabo de cavalo foi o fato de ser um segredo que ela nunca imaginara.
“Sua mãe? Mas… A sua mãe está viva! Ela não aparece ao lado do seu pai nas campanhas eleitorais? Ou então…”
“A senhora Reiss não é minha mãe. Ela fez questão de deixar isso bem claro em minha infância.” Novamente, o conteúdo sombrio de suas palavras não parecia abalar Historia. “Minha verdadeira mãe era uma mulher simples. Morava numa fazenda com os pais, propriedade da família Reiss, como uma camponesa comum. Isso é, até ela chamar a atenção do novo dono da fazenda, atenção demais. Naquela época, meu pai já era casado com a senhora Reiss, mas ele nunca deixou que isso o impedisse de ter o que queria. Até hoje, ninguém o impede. Enfim, os dois começaram um caso. Ele trocava o silêncio e a conivência dos meus avós com dinheiro e presentes. Por um tempo, conseguiram manter tudo em sigilo. Até que minha mãe descobriu que estava grávida.”
“Não havia como esconder uma gravidez sem esconder a ela mesma, e, caso a senhora Reiss descobrisse sobre uma jovem solteira e bonita de repente ficando grávida nas propriedades da família, ela logo desconfiaria, e todos seriam postos para fora ou desapareceriam misteriosamente. Então, meus avós optaram por cortar totalmente o contato da minha mãe com o mundo. Disseram que a mandaram morar com os tios. E ela passou os longos meses de gravidez sozinha, assim como meus primeiros meses de vida. Disseram que eu nasci durante uma tempestade, exatamente como aquela rainha de Game of Thrones, Daenerys Nascida da Tormenta. Devo ser Historia Nascida da Tormenta. Ou do sofrimento. O que for.”
A loira fez uma pausa para que a outra anotasse seu depoimento, balançando os pés como uma criancinha para passar o tempo. “Pode continuar, Christa.”
“Vivi naquela fazenda até meus dez anos. No começo, acreditei no que meus avós me ensinaram e no que todos me diziam — minha mãe se apaixonou por um vizinho dos meus tios, um rapaz honesto e muito doente. Os dois se casaram e ele infelizmente morreu antes que eu nascesse, deixando a viúva e a filha. Um caso muito triste de amor, se me perguntar. Ainda assim, não explicava o comportamento da minha mãe. Ela não agia como se eu fosse a última lembrança de seu amor morto. Ela agia como se eu fosse um nada, não existente, invisível. Como se não me visse ou ouvisse. Isso tudo me deixava muito triste. Achei que ela acreditasse que eu não a amava. Então decidi mostrar a ela que a amava sim, com um bom abraço.” O sorriso que surgiu no rosto delicado da moça era tão triste que fazia Ymir querer atravessar a mesa e lhe dar um abraço de amor ela mesma. “Ela me repudiou. Me afastou com puro nojo no olhar. Disse que eu era um nada. Que deveria ter morrido. Foi aí que eu percebi que… Minha mãe me odiava.”
“Uns dois ou três meses depois do meu abraço frustrado, meu pai descobriu que tinha câncer no testículo. Foi necessária uma cirurgia, quimioterapia, e todos aqueles tratamentos que pessoas que tem dinheiro como ele podem pagar. Papai sobreviveu, mas descobriu que agora era infértil.”
“Deixando você como a única herdeira.” Deduziu a líder.
“Exatamente, Ym. Era noite quando eles vieram me buscar. Por muito tempo achei que estavam a mando da senhora Reiss, mas creio que me matariam se assim fosse. De qualquer forma, eles vieram durante a noite, homens armados e uniformizados. Entraram na nossa casa e me levaram da minha cama, para depois tocar fogo em tudo. Eu vi o casebre queimando, ouvi os gritos da minha família. Vi quando minha mãe pulou pela janela, com queimaduras no rosto e nos braços. E vi quando um dos soldados puxou a pistola e atirou três vezes no rosto dela. Foi quando eu gritei e pulei do colo do soldado que me segurava. Corri até ela. Ninguém me impediu de fazê-lo. Corri até ela, e ela ainda estava viva, e consciente o suficiente para dizer suas últimas palavras.”
Por alguns minutos, o único som do quarto foi o da caneta de Ymir arranhando o papel velho. A moça de sardas terminou de anotar e levantou os olhos para a amiga, em expectativa. “O que ela disse?”
“É culpa sua. Você não devia ter nascido.”
Sem poder se conter, a morena estendeu a mão por cima da mesa e segurou uma das mãos pequenas de Historia na sua. Era macia e quente, com a pele perfeita de boneca. “Historia… Você não precisava me contar isso.”
“Pelo contrário. Eu precisava.” Afirmou a garota, seus lindos olhos azuis cheios de uma determinação que surpreendeu sua colega. “O maior segredo, você disse nas regras. Pois bem, esse é o meu. Não precisa ter pena, eu aprendi a lidar com isso. Aprendi os motivos de ter acontecido. Era necessário que ninguém soubesse minha verdadeira origem. Eu deveria ser apenas a filha bonitinha e perfeita do Prefeito Reiss e sua esposa, que viveu até aquele momento num colégio interno no exterior. Ninguém poderia saber que eu era na verdade uma bastarda. Ha, eu até pareço com minha mãe adotiva.”
“É esse o seu segredo?” Perguntou a líder, com a voz mais gentil que sabia fazer.
“Sim. É esse o meu segredo.”
A mão foi automaticamente para a capa do caderno, e as palavras vieram-lhe facilmente, numa jura clara. Parecia já estar se acostumando ao ritual em uma só tarde. “Seu segredo está seguro. Ninguém nunca saberá. Tem a minha palavra, Historia Reiss.”
A moça loira deu um sorriso, concordando, ao terminar de assinar com um floreio da caneta. “Eu sei que não. Eu confio em você, Ym.”
Seu apelido, aquele sorriso e a voz doce de Historia foram uma combinação tão poderosa que Ymir não foi capaz de evitar o rubor em suas bochechas. Embaraçada, ela resolveu continuar sendo profissional e exercendo o papel de líder que lhe cabia. “Bom… E seu motivo para entrar no clube? Só para me fazer companhia caso eu falhasse miseravelmente?”
“Na verdade… Não. Meu objetivo principal é ajudar os outros membros, apesar que, realmente, tem algo em que preciso de ajuda. Estou confusa em certos aspectos da minha vida, e acho que a interação com outras pessoas do grupo iria ajudar.”
“Muito bem. Agora você é uma de nós, Christa. Nem preciso te dizer para fazer seu máximo pelos outros, e que eles farão o mesmo por você?”
A reação da outra foi dar uma risada bonitinha. “Realmente, não precisa.”
“Então… Terminamos. Ainda bem, pois estou morrendo de fome. Será que o pessoal topa uma pizza?” Ymir já tinha se erguido e começava a caminhar para a porta quando percebeu que Historia se debruçara sobre a mesa e pegara o caderno de capa de couro. “Ei! Não pode mexer aí!”
“Não acha que está faltando alguém?” Respondeu a loira de forma suave. A garota de sardas piscou uma e duas vezes antes que sua ficha finalmente caísse.
“Oh… Tem razão.” Quase se esquecera depois das revelações bombásticas daquela tarde, mas ela tinha prometido que faria isso, não tinha? Precisava fazê-lo. E a pior parte não era sequer o nervosismo súbito, a tentação de ficar ainda mais tempo naquele quartinho com aquela garota, a fome que a incomodava… Não, a pior parte é que ela sabia exatamente qual segredo contar. E sabia que, depois que o revelasse, nada mais seria o mesmo entre as duas.
“Se apresente para o caderno, Ym.”
“Meu nome é Ymir Adler. Tenho dezessete anos. Estudo no segundo ano do Ensino Médio na Freedom High School. E eu…” Hesitou. Foi incapaz de não hesitar. Tinha tanta coisa em jogo com aquele segredo. Ela poderia contar outra coisa, mas… Como seria capaz de encarar Historia depois de mentir para ela? Não poderia. Não podia. Não iria.
“Você…?” Christa incentivou, a caneta em punho para continuar o registro.
“...Eu vou contar o meu segredo.”
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