Dinastia de Cinza
12 O herdeiro ilegítimo
A casa de praia, comprada discretamente anos antes através de três empresas fantasmas, parecia um refúgio longe do barulho de Washington, mas continuava carregando o peso do sobrenome Cullen. O mar era azul demais, a areia branca demais, o luxo silencioso demais para ser apenas descanso. Ainda assim, foi ali que Bella começou a respirar de verdade. Longe dos corredores dourados, longe das câmeras, longe das manchetes que ainda ecoavam o casamento do século e o nascimento oportunamente dramático do suposto herdeiro ilegítimo. Ela estava descalça, com os cabelos presos de qualquer jeito, rindo alto enquanto Emmett corria pela areia com uma bola de futebol americano debaixo do braço, fingindo ser perseguido por paparazzi imaginários. Jasper marcava o tempo no cronômetro do celular, sério demais para alguém que estava de bermuda, enquanto Alice gritava instruções contraditórias como se estivesse organizando um desfile e não uma partida improvisada. Pela primeira vez em semanas, Bella não parecia a esposa estratégica de um futuro presidente — parecia apenas uma mulher jovem, viva, quase leve.
Emmett era impressionante em qualquer esporte, mas na areia ele parecia ainda mais confortável, como se o corpo musculoso tivesse sido desenhado para aquele tipo de liberdade. Ele explicava regras inventadas, fazia comentários absurdos, exagerava quedas dramáticas só para arrancar gargalhadas dela. E Bella ria. Ria de verdade, jogando a cabeça para trás, esquecendo por alguns minutos que existiam fotos de bebês circulando em celulares e mensagens dizendo “te amamos, papai”. Quando ela tentou correr com a bola e caiu desajeitada, Emmett a ajudou a levantar segurando suas mãos por tempo demais. O toque não era invasivo, era quente, firme, seguro. Ela sentiu algo diferente ali — não a eletricidade perigosa que tinha com Edward, mas uma sensação de conforto que a desarmava.
— Você leva jeito — ele comentou, ainda segurando a mão dela. — Se quiser, posso te treinar.
— Para quê? Para fugir da imprensa? — ela provocou, mas o sorriso era suave.
— Para fugir de qualquer coisa que tente te derrubar.
O olhar dele não tinha malícia. Tinha promessa. E aquilo era quase mais perigoso.
Alice percebeu antes de qualquer um. Ela sempre percebia. Aproximou-se com um sorriso calculado demais para ser casual.
— Vocês dois estão demorando para decidir quem venceu essa rodada — comentou, cruzando os braços.
Bella soltou a mão de Emmett devagar. Jasper apenas observava, silencioso, como se avaliasse não apenas a cena, mas as consequências futuras dela.
Enquanto isso, em Washington, Edward voltava para o caos que jurara controlar. Ele dera folga a Jasper com um aceno quase generoso demais, dizendo que os amigos mereciam aproveitar mais alguns dias na praia. A verdade era menos nobre: ele não suportava assistir Bella sorrindo para outro homem com aquela leveza que ele próprio vinha sendo incapaz de oferecer. Ao chegar à Casa Branca, foi recebido por assessores, relatórios, reuniões urgentes e pela presença constante de Rosalie, que agora transitava pelos corredores com a segurança de quem carregava um trunfo nos braços. O bebê estava lá naquela tarde, envolto em mantas luxuosas, cercado por fotógrafos discretamente autorizados.
Quando Edward segurou o pequeno Edward pela primeira vez, sentiu apenas silêncio. Não houve arrebatamento, nem reconhecimento instantâneo, nem aquela comoção que esperava sentir. O bebê abriu os olhos por um segundo e voltou a dormir. Ele o devolveu para Rosalie com cuidado quase excessivo, como se estivesse manuseando vidro fino. A culpa veio imediata, esmagadora.
— Ele tem seus olhos — Rosalie murmurou, aproximando-se demais.
Edward não respondeu. Apenas se afastou.
Mais tarde, procurou Esme no jardim interno, onde ela costumava passar as tardes lendo relatórios sociais e tentando manter algum vestígio de humanidade naquela casa. Sentou-se ao lado dela como fazia quando era adolescente.
— Eu não senti nada — confessou, a voz mais baixa do que costumava permitir. — Eu segurei meu suposto filho… e não senti nada.
Esme fechou o livro com delicadeza.
— Sentir culpa por isso já diz muito sobre você.
— E se ele for meu? Que tipo de homem eu sou?
Ela segurou a mão dele.
— Um homem confuso. Mas não um monstro. Se há dúvida, peça um teste de DNA. Verdade não destrói — apenas revela.
As palavras ecoaram. E naquela mesma noite, Edward exigiu o exame. Rosalie chorou. Gritou. Disse que ele estava humilhando-a, colocando em dúvida sua honra, a legitimidade do filho. Usou o bebê como escudo, como argumento, como arma.
— Você vai me transformar na vilã pública enquanto se esconde atrás do seu sobrenome? — ela disparou, lágrimas perfeitamente calculadas escorrendo.
— Eu só quero a verdade — ele respondeu, frio.
Mas Rosalie não jogava para perder. Com ajuda de Victoria, estrategista silenciosa e sempre presente, o nascimento virou manchete. “HERDEIRO SECRETO?” estampava portais internacionais. Fotos cuidadosamente vazadas mostravam Edward segurando o bebê. A dúvida tornou-se espetáculo. A pressão aumentou.
Na casa de praia, Bella viu a notícia no fim da tarde, mas não comentou. Limitou-se a deixar o celular de lado e voltar para a areia, onde Emmett tentava ensinar Jasper a lançar a bola com precisão. O vento estava mais forte, o céu começava a se tingir de dourado. Em uma disputa boba, Bella tropeçou novamente e caiu sobre Emmett. Riram juntos, ofegantes. O mundo pareceu diminuir ao redor deles.
— Você merece alguém que te faça rir assim todos os dias — ele disse, mais sério do que antes.
Ela ficou em silêncio, os rostos próximos demais.
— Emmett…
Ele hesitou. A mão dele subiu até o rosto dela, afastando um fio de cabelo. A tensão ali era diferente da que ela conhecia. Não era guerra. Era possibilidade. Ele inclinou-se um pouco mais. Bella sentiu o coração acelerar, não por perigo, mas por escolha.
— Eu não quero ser só o amigo que te consola — ele murmurou.
Os lábios quase se tocaram.
— Aham! — a voz de Alice soou alta demais atrás deles. — Interrompo um momento esportivo ou um escândalo internacional?
Emmett afastou-se imediatamente. Bella levantou-se, limpando a areia do vestido leve. Alice sorria, mas os olhos estavam atentos demais. Jasper observava em silêncio.
Mais tarde, sozinha na varanda, Bella encarou o mar escurecendo. Ela gostava de quem se tornava ao lado de Emmett — leve, espontânea, risonha. Mas amava Edward com uma intensidade que ainda a machucava. A diferença entre os dois homens não era apenas caráter ou escândalo. Era o tipo de tempestade que cada um despertava nela.
E em Washington, cercado por manchetes, manipulações e um bebê que carregava seu nome, Edward sentia pela primeira vez que talvez estivesse perdendo algo que dinheiro, poder ou estratégia nenhuma seriam capazes de recuperar.
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