Notas iniciais
Está se decompondo, mas eu não consigo libertá-la. Há uma estrela morta dentro de mim. No deserto que há em meu peito seu brilho é a miragem que seduz o coração nômade e perdido. Há uma estrela morta em mim. Ela nunca me deixa, nunca partirá. Seu túmulo é meu corpo e meu sangue é a terra que a consome. Há uma estrela morta dentro de mim.

Vá embora, criança. Você não tem condições para o mundo. A maldade, tão crua, te parece coisa da Cuca. Se pega daqui e de lá, o que sabe? Para você não é mais do que o monstro que vive debaixo da cama e no escuro do guarda-roupa.

Não se mostre, criança. Você não sabe o que é o amor ou o desamor. Não discerne quaisquer olhos brilhantes, estica a mão para o doce que te oferecem e come sem receio.

Vê se entende, criança. Eu tenho medo de você. É daquelas que amam brincar por campos verdes, olhar nuvens no céu e imaginar que vê dragões. É daquelas que correm até os que ama, beija-lhes a testa e se abandona em seus colos. Não tem medo dos chinelos e cintos, dos beliscões e malícias. Toda mão é boa, todo sorriso é amigo. Você é louca, criança.

Chora por tudo, sem saber se é de dor ou fome. Rasga a primeira lágrima e a reparte em mil. Deixa o rosto molhar e a vida florescer. Não para de sorrir, não é? Não para de acreditar nas primaveras da vida. Gargalha até para o vento e grita alto, muito alto, para que o Deus dos homens possa te ver.

Ah, vê se some de mim, vê se pega suas malas, foge e se esconde. Vê se voa para o fundo do mar ou mergulha na atmosfera até um buraco de minhoca.

Vá, vá logo. Esse mundo não te cabe, criança. Vai te esmagar com as botas sujas e raspar seus restos no meio-fio. Seu sangue vai secar e feder em algum beco imundo, nos cantos mais eternos em que mulheres doloridas e homens vazios vomitam suas almas. Eles vão foder os seus olhos inocentes e seu corpo miúdo apodrecerá sob o mijo dos cães.

Vá embora, criança. Vá. Solte os meus dedos e esqueça os meus olhos. Corra dos meus sentidos e me deixe sobreviver. Você não pode mais estar em mim.