Diário de Catarse
5 Preguiçosa
Notas iniciais
Há muitas roupas na cadeira próxima à mesa do notebook. A manga de uma blusa de frio listrada está pendurada no topo da pilha, quase encostando no chão. Em outro canto há uma sacola de papel, uma raquete de matar mosquito e o secador de cabelo que usei antes de sair.
Tudo isso me incomoda, mas não me levanto para arrumar, não me levanto para nada. Eu estou na cama e inerte, treinando como ser mais um objeto fora do lugar nesse cenário.
Minhas unhas estão grandes e feias. Não me recordo a última vez que usei esmalte ou tirei cutículas. Eu as corto. É tudo que consigo. Faço isso quando o incômodo de um pelinho que agarra em um quebradinho de uma das unhas é maior do que a preguiça de cortá-las.
Meu cabelo tem nós e pontas duplas, além de texturas e tamanhos diferentes. Eu não tenho máscaras, reparadores de ponta ou condicionadores. Eu tenho um xampu e um pente de plástico, mas também não tenho feito uso deles. Não vou a cabeleireiros há anos e arranco fios de cabelo enquanto escrevo, leio, estudo ou assisto a um filme. Fico com falhas e feridas no couro cabeludo, mas a tricotilomania é um estranho vício.
Há poeira nos cantinhos dos puxadores da janela, uma mancha no colarinho da minha blusa branca e uma folha de papel saindo da gaveta do criado mudo. Há também uma calça sem lavar no balde verde lá fora e eu vou precisar dela para amanhã, mas eu não vou lavar, eu vou continuar aqui, bem aqui.
Estou flutuando. A cena que os deuses ou demônios assistem é de um velório de um vivo. Tudo está tão quieto que posso ouvir meu próprio corpo trabalhar. O que eu sou, no entanto, está nesse momento a arranhar-me por dentro, gritando em desespero, socando por trás dos meus olhos. Um sopro de voz:
“Viva!”
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