Diário de Catarse

6 O filho: um pequeno conto de horror


Notas iniciais
Os monstros da infância pobres réus de minha inocência Sob a cama eu temia ver suas garras saindo a me puxar para o inferno E os fantasmas das histórias dos avós a vagar pelos casarões antigos e trilhas escuras Ah, que saudade, que carência dos calafrios Hoje o mundo, este carniceiro, assusta-me muito mais

Estou sempre exausto, mas, mesmo assim, todos os dias ela me acorda, segura-me em seus braços, põe o seio frio em minha boca e me aperta forte para que eu não possa fugir. “Não, por favor!”, peço-lhe sempre. Mas mamãe balança a cabeça negando e me agarra ainda mais forte, beliscando minhas pernas.

Arranho-lhe a pele enquanto me detém em seu poder. Ela sabe que é questão de tempo até eu parar de me debater e adquirir uma forma mais submissa. Eu não consigo chorar e não consigo gritar, faz muito tempo que não consigo.

Então, assim como era de se esperar, as forças me esvaem e, rendido, abocanho timidamente e começo a sugar. Sinto algo como o limo de dentes apodrecidos descer por minha garganta. Parece a água em que algum animal morto permaneceu mergulhado por horas ou, quem sabe, onde o mijo das criaturas mais grotescas se azedou. Temo que um dia eu não suporte e enlouqueça em seu colo.

No entanto, sempre antes que eu saia de mim por tamanha repulsa, a refeição é terminada. Tremo, incessantemente. Mamãe limpa os cantos de minha boca e sorri. “Minha cria”, dizendo isso, acaricia meus cabelos e me beija a testa, depositando um pequeno caramelo sobre a palma de minha mão. Sorrio com o coração aos pulos. Há tanto tempo não me dava um. Ela também sorri e parece amável assim. Ponho, rapidamente, o doce na língua e sinto-o aliviando o amargor que havia experimentado. Sabor fascinante! Os pelos dos meus braços se arrepiam e o meu corpo inteiro se contorce de prazer.

“Cuspa”, ela me diz. “Não, eu imploro!”, fico aterrorizado. Mas mamãe segura minhas bochechas brutalmente, enfia os dedos longos em minha boca e retira o caramelo de mim. Ela raspa minha língua com as unhas fétidas e nenhum vestígio resta dele, a não ser a lembrança de que o tive. “Se esperar, meu bem...”, mamãe me diz, “...terá mais doces”. E, assim, volta a me embalar, fazendo dormir o meu desespero.

E eu ainda espero, anseio e passo por tudo de novo, dia após dia, apenas para sentir o sabor dos caramelos de mamãe por aqueles breves instantes.

Todos os filhos da vida esperam.