Notas iniciais
Por vezes, não há nada nos esperando, não há ninguém ou qualquer caminho. Há apenas nós mesmos, com nossos passos vacilantes no escuro. E, na descoberta da solidão, cada coração vai aprendendo a acender a sua própria lanterna.

Não, não é o bastante. A vida de hoje não é o bastante. O feito de hoje não é o bastante. A alegria de hoje não é o bastante. Não, não é. Ninguém nunca é o bastante para consertar, ninguém nunca é o bastante para destruir e ninguém nunca é o bastante para fazer o mundo parar.

A gente não quer, mas acorda cedo, levanta a voz e a cabeça. A gente não vê saída, mas abre um livro na matéria impossível de aprender, enfrenta a pessoa impossível de lidar, aconselha o filho incapaz de aprender e ama a mãe incapaz de amar. A gente não consegue achar a parada, o finito, o saciável. Nada é o bastante. Estamos famintos!

Estalo os dedos, mordo a boca, arranco um cabelo atrás do outro e enfio a unha em uma espinha até fazê-la sangrar. O meu corpo todo me irrita.

Eu tenho medo. Tenho medo o tempo todo. Meu coração dispara, minhas mãos suam. Há dias em que não consigo dormir e, quando consigo, tenho pesadelos. Há dias em que o estômago dói e eu sinto que vou vomitar. Há dias em que eu queria ter escolhido uma vida diferente só para não enfrentar os desafios dessa.

Mas eu olho para o passado, quando me empurrei para aquela lan house e me obriguei a estudar ao lado dos garotos que jogavam e gritavam, quando gastei meus últimos trocados para conseguir meia dúzia de anotações, quando pedi para anunciarem na rádio local que eu queria livros velhos para estudar, quando quis trabalhar, batendo de porta em porta, apesar da tremedeira e da taquicardia que me dava, simplesmente, em colocar os pés para fora de casa.

“Isso vai ser bom para você, isso vai ser bom para você. Apenas vá. Não pense muito.”

Meu coração pulava enquanto eu falava sozinha e o suor escorria gelado pelas minhas costas. Eu tocava a campainha, torcendo para não ser atendida. Eu queria que a vida parasse, mas me obrigava a prosseguir. A culpa é minha! Tudo que eu tenho é minha culpa!

Eu olho para esse passado, eu olho para o primeiro dia na faculdade, em outra cidade, em meio a quase noventa desconhecidos e o quanto eu queria fugir dali, mas não podia. Eu tinha um compromisso comigo, eu havia lutado muito para simplesmente deixar meus pânicos ridículos acabarem com tudo. Não seria inteligente ou justo. Eu quis fazer isso!

Eu olho para esse passado, eu olho para quando aprendi a tecer peneiras, ainda menina, para quando trabalhei naquele bar, entre sinuca e cachaça, e até quando transformei a sala da minha casa em minha própria venda. Eu decidi fazer!

Eu olho para o meu passado e ele é só um passado qualquer. Nada grandioso por nenhum ângulo, mas, para mim, foi como matar dragões. Se o olho por algum tempo o medo do amanhã se evapora, mas me dá a sensação de que eu não precisava ter escolhido nada disso. Poderia ter vivido de um jeito mais fácil. A culpa é toda minha!

Todos os dias, desde que me lembro de existir, eu faço meu corpo se levantar. Todos os dias eu o chuto, o espanco, grito em meus próprios ouvidos e obrigo minha carne a rastejar. Eu enfio as unhas em meus olhos e me obrigo a olhar. Puxo a minha língua e a faço falar. Eu me faço viver. Para quê? De onde está vindo isso? Que maldita força é essa que não me deixa simplesmente desistir?

Estar em mim é medonho e não houve um só dia em que eu não quisesse fugir, mas eu não o fiz. Essa carroça quebrada vai ranger, mas vai seguir. Eu jurei a mim mesma que seria assim e vivi até agora me perguntando o motivo dessa promessa. Para que eu quero tanto tentar? Poderia ter feito tudo muito mais fácil. Poderia ter me mudado para o meio do mato e me isolado do mundo. Mas eu não fiz isso! Eu não consegui querer isso. Não consigo parar de tentar. Não consigo. Fico desesperada, mas parece que essa energia é viva e me força a prosseguir ainda que meus ossos estejam rangendo e trincando.

O tempo me amarga a língua, mas sigo sendo a mesma criança de chinelos rasgados querendo o brinquedo colorido da vitrine mais bonita da rua. Sigo sendo aquela adolescente que tira do fundo do peito uma âncora e a joga para um mar de coragem. Sou a mulher que morreu e ficou puta com isso. Dane-se, eu não vou morrer! E começo a rir. A rir dessa idiotice toda.

Prosseguir foi sempre pisar descalça nos espinhos, foi explorar de mãos lisas a estrutura que me cercava coberta de lâminas, mas eu vou, eu sempre fui e eu continuo indo. Eu vou com medo, eu vou só e eu vou sem nada nos bolsos além da fé e dessa crença infindável em mim.

Sou meu demônio, minha deusa e meu céu. Sou meu palácio entre os anjos, sou meu manjar e meus virgens. Sou meu inferno, meu sonho e minha morte. Sou meu lar, minha cova e meu alimento eterno. E só por ser quem sou é que meu coração ainda bate.

Não, eu não conheço sorte. Cavouquei a vida com as unhas atrás de cada sonho que realizei e seguirei até o último suspiro arrancando dela, uma a uma, todas as alegrias que me deve. Não tenho mais medo dos dias duros ou das pessoas amargas, pois toda a minha existência é uma lembrança de que sobrevivo. E muito bem.