Diário de Catarse

13 Eu assisto pornografia


Notas iniciais
Suja é ilusão que se deita com meus neurônios e violenta minha sanidade, me adoecendo em noites de suor e de lágrima.

Sim, eu assisto pornografia.

Assisto quando acordo, quando vou trabalhar, quando vou à faculdade e também quando vou me deitar. Há pornografia em todo lugar.

Até em meus sonhos, em meus pesadelos, em meus desejos e em meus medos. Eu assisto pornografia a cada segundo e não sei como parar. Pornografia é o que há! E não venha me dizer que você também não assiste e não participa. Pode ser, se for o tipo de pessoa que não presta atenção. Contudo, me pergunto como isso pode ser possível.

Você é fodido, estuprado, gozado e empurrado do precipício. Você e eu. Nós somos os protagonistas desse filme adulto. Vemos muita dor, sofrimento, pedofilia, zoofilia, sadomasoquismo e assassinato. Temos os órgãos dilacerados e vemos morrer à míngua, dia após dia, a nossa dignidade e esperança.

Talvez você não entenda, mas vou explicar. Quando milhões de pessoas acordam pela manhã e vão trabalhar acontece instantaneamente: a obscenidade vem ao encontro delas, provocando náuseas. A puta, vadia e vendida burocracia fode sem piedade e sem parar, todos os dias. As expectativas e sonhos dos humanos se prostituem por um salário mínimo, eles preenchem relatórios com uma sensualidade vergonhosa e inútil. Seus sonhos, construídos sobre uma ética moribunda, descansam num prostíbulo escuro. Eles pedem mais uma dose e caem, roncando no chão cuspido.

Quando vamos fazer compras, pagar contas, pagar compras e fazer contas o governo nos fode. Ele fode gostoso e pede mais. Pague mais! Pegue mais! Amanhã vai ser mais! Tudo mais! E tudo sobe e tudo desce e tudo sobe e tudo desce. Transa que oscila. Pornografia romântica. Ele não vive sem mim. Eu não vivo sem ele. Eu nunca vou descobrir o que é impossível.

Quando vou votar, quando vou estudar e me divertir. Você não vê também? A pornografia está em todo lugar. Eu a assisto! Assisto a qualquer hora que quiser, até quando ligo a tevê ou, principalmente, quando ligo a tevê. Ela sabe foder tão bem!

Pega o cérebro frágil com tanto jeito e desejo, hipnotizando-o, oferecendo-lhe magia e beleza. Quando não se espera, mete. E mete e mete e mete mais. Vai viciando os neurônios, fodendo os hormônios, alienando e matando. A paixão é tanta, tão cega e dependente que o cérebro se dá todo, paga o que for preciso, junta imagens de perfeição, de desejos altíssimos e fúteis. Ele vai sofrendo, definhando, entregando-se até não ser mais nada. Ele ama, se torna parte viva daquele todo fictício e morre. A realidade se apaga.

E eu não posso esquecer que na língua libidinosa dos políticos, na melodia tendenciosa dos cantores de fama instantânea assim como no sistema hierárquico, sociocultural e histórico há sempre a sensualidade fingida, a provocação escondida, o jeito de dizer que não disse. E na religião, por que não? Todos perdidos! Sujos! Todos Marias Madalenas vestidas de Cristo apedrejando outras Marias Madalenas vestidas de Cristo! É uma verdadeira orgia no escuro, todos de olhos fechados, mãos abençoadas, pescoços com gravatas, brilhos e paetês no vestido a rebolar. Todos eles têm seu altar. São sagrados! Intocáveis! Modelos!

As pessoas são tantas. Olhe as pessoas! Dezenas, centenas, milhares! Olhe as pessoas! Pessoas se fodendo nas filas de banco, filas de SUS e filas de transporte público. Elas ficam rolando e gemendo, suando e chorando. Vão assim até morrer e morrem! Um vídeo pornô público.

Eu assisto pornografia. Toda criança, jovem, adulto ou idoso também assiste e todos parecem tão acostumados. Às vezes, o grito de dor nas ruas é apenas a véspera do gozo.

A pornografia está em todo lugar. O povo estufa o peito, mas passa um segundo e está de novo oferecendo o rabo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.