Diário de Catarse
3 Grilos que não cricrilam
Notas iniciais
Lembro de uma época, aos 13 anos de idade, quando eu raramente olhava pela janela e, quando olhava, era apenas se a rua estava deserta. Se alguém surgia, eu abaixava para não ser vista. Quando saía de casa, era pior, eu não olhava para ninguém e, na escola, nunca pedia para ir ao banheiro ou fazia perguntas aos professores. Também era conhecida como a menina que chorava sem motivo. Nunca consegui controlar as lágrimas que saíam sem pedir licença.
Buzinas, apitos e sirenes me assustavam e se recebia um tapa inesperado, ficava gelada, trêmula e agressiva. Até hoje eu cubro os ouvidos e meu coração dispara quando ouço um barulho. Também estou sempre procurando paredes em que recostar quando estou em um meio social, pois sei que assim posso vigiar quem se aproxima.
A vida toda fui descrita como tímida, chorona e brava. Era uma caixa de marimbondos sempre cutucada. Apesar disso, nenhum professor tentava me consertar como faziam com os alunos bagunceiros, a maioria mal sabia o meu nome. Alunos quietos são um alívio e ninguém se importa com o que pensam ou sentem.
Quando assisti ao filme “Mary e Max”, que se tornou um dos meus filmes favoritos da vida, descobri a tal Síndrome de Asperger e comecei a ler muito sobre ela, acreditando que deveria ser isso que eu tinha. Descobri logo que eu estava apenas buscando uma muleta, algo que amparasse minha “esquisitice”. Eu queria que as pessoas cochichassem “ela é assim porque é aspie” e isso me traria alívio, pois não seria minha culpa ser como sou. Uma bobagem gigantesca de minha parte, obviamente.
O grande problema do tímido é o desconforto diante de situações sociais e o grande problema do introvertido é não ter vontade de estar em situações sociais, pois ainda que não sejam desconfortáveis, elas cansam. Eu sou uma mistura dos dois e isso não é muito legal.
Muitas empresas não selecionam introvertidos, muito menos tímidos, pois uma das principais necessidades no trabalho, segundo elas, é a comunicação. Eles não querem pessoas que ficam isoladas, que não tomam iniciativa e muito menos que não conversam entre si. Portanto, você pode imaginar que não foi por minhas admiráveis habilidades sociais que entrei no cargo que estou hoje. Entrei por ser boa em passar em provas e, como passei nos dois processos seletivos da prefeitura, eles foram obrigados a me contratar.
Ainda que meu trabalho não pareça um desafio para a maioria das pessoas, para alguém como eu, passar o dia visitando desconhecidos, entrando em suas casas e perguntando sobre suas vidas é um martírio. As pessoas são quase sempre simpáticas, mas há uma surpresa pelo menos uma vez por dia, seja uma reclamação, uma porta na cara ou um cachorro bravo. Fico tremendo só de pensar em tocar a campainha.
Os agentes de saúde são muito importantes segundo os discursos que ouço nas reuniões da secretaria de saúde. Dizem que estamos em contato direto com a população e que sabemos muito sobre ela. Isso é verdade, pois eu descobri nesses cinco anos de trabalho que em Divino há muitos idosos solitários e analfabetos tomando medicamentos de forma errada e outros que nunca fizeram um único exame na vida. Muitas famílias não têm sequer um filtro e a falta de higiene dos adultos e crianças é alarmante. Também não há prevenção do uso de drogas, conversas sobre sexualidade na adolescência e saúde masculina, tudo é baseado no assistencialismo. Eu vivia formulando ideias de como poderíamos começar uma intervenção, mas depois descobri que, infelizmente, ninguém se interessava.
Na prática, o meu trabalho se resume em aferir pressão, marcar consultas e acalmar a população furiosa, para que ela não brigue com meus superiores ou reclame com prefeitos e vereadores. Meus colegas e eu somos o escudo humano responsável por cercar todo o descontentamento da população, ouvir seus xingamentos, suas queixas e seus pedidos, intermediando uma relação tremendamente turbulenta entre o povo e a saúde pública.
Quando apresentei essa situação na aula de Psicologia da Saúde, depois de rir um pouco da bela teoria que havia estudado a respeito das estratégias em saúde primária, consegui refletir o quanto esse trabalho se tornou inútil e ridículo em várias regiões. Não está sendo aplicado do modo correto e não há nada que eu, um simples pano de chão na área da saúde, possa fazer para mudar a forma como nos obrigam a trabalhar.
Nos fins de semana, não consigo passar na rua em que fica a UBS e quando estou voltando da aula e a van passa por aquele lado, eu fecho os olhos. Tenho pesadelos frequentemente e acordo assustada de manhã, pensando que perdi a hora e que vai ter alguma ligação perdida de algum superior no meu celular. Sinto que preciso ficar acalentando centenas de bebês doentes e se um deles chora, eu sou punida.
Se eu pudesse conversar com meu eu criança, diria para mim mesma que tudo bem brincar sozinha, que tudo bem ficar sentada lendo um livrinho ou colorindo em vez de estar em uma turma de vinte crianças em uma quadra de futebol, suando e gritando. Eu diria a mim mesma que não tem problema não servir para ser vendedora, agente de saúde ou político. Algumas pessoas não têm estômago para estudar medicina, outras têm tanto medo de altura que nunca poderiam ser piloto de avião e está tudo bem, elas podem ser outra coisa. Não precisam ficar se forçando a passar por essas situações como eu sempre tento me forçar.
Eu diria ainda que ser diferente pode ser maravilhoso. Tudo que tenho conseguido até hoje é ser péssima no que eu odeio fazer, esquecendo que eu poderia ser ótima em algo que eu ame fazer.
Encontrar nosso lugar no mundo só é possível quando aceitamos quem somos em vez de ficar tentando nos moldar ao que a maioria é. Mesmo quando o que fazemos não parece render tanto lucro ou admiração quanto o que os outros fazem, é preciso entender que o sucesso é alcançado quando estamos confortáveis e satisfeitos em nossa própria pele enquanto vivemos. É uma merda de um clichê, mas é verdade. É preciso reaprender a ser.
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