Diário de Catarse
4 Melindre
Notas iniciais
Na noite de domingo não há alegria. Não há alegria no abrir dos olhos em uma segunda-feira pela manhã. Não há alegria, pois a vida não está certa. Entortou, parou e enferrujou.
De cada amor o que sobrou foi medo. O dedão do pé está em carne viva de tanto tropeço. Onde há a certeza de que estamos fazendo o certo?
Triste, qualquer palavra áspera me dói. Alegre, qualquer palavra áspera me dói. Um melindrar inteiro. Estou sempre como se vivesse em uma constante corda bamba. O mínimo de desequilíbrio e o tombo é feio, violento e esmagador, mas me reergo, cambaleio, trato as feridas e subo outra vez.
Será que um dia saberei fazer isso direito?
Deprimida não acordo, simplesmente. Meu estômago dói junto ao abrir dos olhos em uma rotineira angústia há muitos, muitos anos. Tenho de me encorajar e dizer que está tudo bem, que ninguém irá me fazer mal se eu for até a padaria, à praça, à aula ou ao trabalho. Por vezes entendo perfeitamente que estou mentindo e, por isso, não consigo me convencer a sair.
Deprimida não almoço, simplesmente. Por vezes nem me lembro, outras como até passar mal ou, mais recentemente, sinto-me enojada e indigna de me alimentar. Quando o faço por obrigação a azia e a dor me consomem.
Deprimida não saio de casa, simplesmente. Sofro muitos dias antes, tenho taquicardia e imagino cada um dos meus atos. Tudo o que não segue o roteiro me enlouquece, conto os segundos para voltar e me jogar no quarto.
Deprimida não durmo, simplesmente. Posso olhar para o escuro durante horas. Vou e volto do banheiro a noite inteira. Começo a rir, sentindo as lágrimas nos olhos com o desejo de dormir um sono longo e pesado. Logo me engano que serei outra no dia seguinte.
Às vezes, até consigo adormecer, porém, ao acordar, o corpo está exausto, suado e a mente desorientada. E isso é o que mais tem me enlouquecido. Eu costumava adorar dormir, era um refúgio, só que a dor me achou lá também.
Agora tenho medo do sono e da noite. Seguro-me até o último segundo, até meu corpo desistir e desabar. Não quero enfrentar as imagens dos meus sonhos, as intensas horas de verdadeiro horror e desespero, os medos e fantasias agonizantes que se estampam em meus pesadelos.
Deprimida não vivo, simplesmente. Eu penso a vida, mas não a vivo. Não sei parar o pensar e não penso em nada. É extremamente cansativo que cada simples movimento para viver no mundo exija tanto e cause tanto. Nos outros não parece ser assim.
Seria bom não suar frio quando preciso ir a algum lugar ou quando tenho que cumprimentar qualquer ser humano. Seria bom sentir vontades e desejos em um sábado à noite ou em um feriado qualquer. É absurdo, louco, dá vontade de fugir de dentro de mim, dessa casca estragada, dessa prisão suja e complicada. Tudo dói demais, tudo é muito, tudo é desafio e tudo exige. Ao mesmo tempo em que tudo é nada, tudo é oco e tudo é vago.
E a gente sempre espera que quem nos ama, que quem tem o nosso coração nas mãos, aquelas pouquíssimas pessoas a quem a gente se entregou, nos segurem um pouquinho na vida. Mas é um grande erro, talvez o pior de todos. Quando a pessoa nos solta é um pouquinho mais doloroso do que o normal. O deprimido morre com cada coisa que vai embora, cada um que o apunhala leva seu sangue na navalha, leva seus olhos e sua carne. Ele vai junto. Morre junto.
Agora não dá para subir na corda bamba. Parei, mas o mundo continua correndo. Todos avançam, mas eu estou lá atrás em silêncio, tentando juntar os cacos quebrados. São tão pequenos que não consigo colar. Eles me cortam, entram nas minhas unhas e a tarefa é tão longa que me desanima, irrita e me deixa em agonia. Não faz diferença, creio, seguir sem uma parte de mim. Outras já ficaram antes.
Mas o começo não é fácil. As pessoas seguem te ferindo. Você sofre, não tanto pela maldade, mas muito mais pelo amor que segue agonizando e não morre de uma só vez. Sofre por sentir que jamais faria o mesmo e que os desejos silenciosos de vingança, bem, não são tão reais quanto gostaria. Você segue desejando o bem, ainda que sinta ser a coisa mais estúpida a se fazer. Mas é assim que você é. E é assim que os outros são.
Muitos não compreendem e nunca compreenderão como uma gota de maldade pode te desequilibrar dessa forma. Eles nunca viram e nunca estiveram na corda bamba. Não entendem que quem vive nela está sempre a um sopro de cair.
É por isso que assopram.
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