Diário de Catarse
7 Demônios de estimação
Notas iniciais
Ele pulou sobre meu peito e me estrangulou. Era uma sombra negra, com asas de morcego e nenhum rosto. Senti que se deitava sobre mim e me imobilizava. Meus olhos estavam abertos.
Eu costumava ter sonhos lúcidos quando criança. Neles eu percebia, ainda dentro do sonho, que estava sonhando, e conseguia parar de ter medo de um perseguidor ou de um animal perigoso. Se via um precipício eu pulava, pois sabia que assim iria acordar de um pesadelo. Depois que cresci, no entanto, não consegui mais controlar os sonhos.
Ontem à noite eu acordei, mas parecia estar dormindo ainda. Era por volta das três e meia da manhã e eu abri os olhos, mas meu corpo permaneceu imóvel, assistindo a cenas terríveis de sombras em volta de mim.
Dizem que a paralisia do sono não dura muito tempo, mas me pareceu uma eternidade. É uma coisa sinistra, como se a gente pudesse transportar o pesadelo para fora, como se o quarto fosse uma tela e a mente um projetor. Tudo parece sonho e parece real ao mesmo tempo.
Alguns dias atrás eu comecei a sentir medo. Tinha a impressão de ver sombras atrás das portas ou debaixo das camas, mãos próximas às minhas orelhas e coisas desse tipo. Apenas sinais estranhos, como quando assistimos a um filme de terror e ficamos alerta para qualquer coisa a nossa volta. Contudo, meus medos se confirmavam em pequenas percepções assustadoras e arrepiantes.
Sendo uma pessoa extremamente cética, comecei a pesquisar e ler artigos que me instruíssem a respeito desses acontecimentos. Entendi que o máximo que pode estar acontecendo é um estado de confusão mental por causa da febre, da falta de água e de uma boa alimentação.
Algumas pessoas da minha família tiveram experiências parecidas com essa em momentos de saúde debilitada. Pensavam que estavam enlouquecendo, mas só estavam entrando em pane por causa da depressão. Ela é algo comum em minha família, ainda que eu não possa dar um diagnóstico.
Os “hormônios da felicidade” como a ocitocina e a serotonina, não parecem agir em nós como nos outros e só percebi isso quando observei outros grupos familiares. Eu noto uma baixa de humor constante que nos faz cuidar menos de nós, que nos faz esquecer nosso corpo.
Diferente do que as pessoas pensam, a depressão é uma doença perversa e misteriosa, que parece ter raízes antigas em um passado que não vivemos. Independe muitas vezes de traumas ou de formas de ver a vida. É algo que nos acompanha e que, se damos bobeira, nos devora. Se buscamos médicos, eles encontram mil doenças e nenhuma cura. O remédio dá um passo à frente e a depressão nos faz dar dez para trás. A gente não sabe o que fazer com esse monstro que nos espreita a vida toda.
A noite era sempre uma bênção para mim. Apagar, desligar por algumas horas, isso era tudo o que eu tinha. Mas agora nem isso estou conseguindo fazer. Comecei a ter medo de dormir e isso está me enlouquecendo.
Demônios na luz do dia, demônios nas madrugadas escuras. Demônios por toda a parte. Não me deixam mais sozinha. Há agora um desespero, como se eu estivesse perdida em um vazio, em uma escuridão medonha em que não há nenhum momento de descanso.
Sabe quando alguém fica te cutucando sem parar e em um momento você acaba perdendo a paciência e se descontrola, agindo sem pensar, até mesmo batendo na pessoa para que ela pare? Pois é, por vezes, penso que posso chegar a esse limite, fazendo qualquer coisa para cessar essa agonia. Absolutamente qualquer coisa.
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