Diário de Catarse
8 Dodói
Notas iniciais
Dodói
Uma vez ouvi uma frase que jamais consegui esquecer. Ela era assim:
“Procurar um psicólogo é uma coisa muito triste, pois mostra o desespero de precisar pagar alguém para te ouvir.”
Eu nunca tinha pensado dessa forma, mas a partir daquele momento comecei a pensar. Há tantos gritos que foram abafados e tanta dor excruciante que não verteu lágrima alguma diante das pessoas. Tanto sorriso de quem queria era dar cabo da vida. E dói. Dói tanto que parece matar cada pedacinho da gente, do que a gente é de verdade.
Queremos mostrar, mas não dá. Queremos ouvidos e braços, guias e mãos bondosas e não encontramos. Afinal, em que parte do mundo há socorro? Quem quer escutar o outro? Às vezes, nem a gente quer. E creio ser mesmo tal pensamento que leva à terapia. O desespero por alguém que se disponha completamente a ouvir, por alguém que, por pelo menos cinquenta minutos, se dedique a entender onde dói tanto na gente, onde dói tanto e não sara. Esse dodói que, miudinho, rasga e sangra sem parar.
Nosso peito cansado, nossa garganta apertada. Quem além dos espíritos nos vê minguar entre quatro paredes? Muitos olhos não param nos nossos mais do que alguns segundos. E o que veem realmente? Não veem nada. A maioria não quer ver, pois dá trabalho, impõe responsabilidade sobre a dor do outro e a decisão de procurar saber dela ou ignorá-la. Para não passar por essa situação, a de ter que decidir, a maioria evita ver.
Não há um só olhar na terra que não seja triste. Olhos, para mim, são sempre tristes. Gosto muito deles, parece que toda a pessoa se concentra ali, tem tudo expresso naqueles pequenos pontos iluminados e sedentos de vida.
Somos tão iguais e não vemos isso. Assim como toda pessoa nasce, cresce e morre, toda pessoa também sofre. Não há nada de mais especial no meu sofrimento ou no seu, a gente só não olha um para o outro.
Sempre senti falta desse tipo de coisa que te alivia do medo do mundo, que te acalma e te ajuda a compreender. É por isso que sempre escrevi. Preciso escrever, é minha forma de gritar, de chorar, de esvaziar e não enlouquecer. Catarse. É uma maneira de ser minha. Eu, meu verdadeiro eu, e só para mim, eu sou só minha ou, pelo menos, até começar a fazer terapia na próxima semana e, então, começar a fazer uso de algo que sempre evito: o falar.
Fico pensando no meu terapeuta, nos psicólogos formados e em mim, quando me tornar uma, no fim de 2016. Sempre vistos pelo senso comum como seres que não sofrem, como seres capazes de controlar e entender todos os sentimentos, seja das pessoas ao redor ou de si mesmos. Sempre frios, rígidos e observadores, capazes de captar tudo, de entender e manter qualquer coisa sob seu controle. Suas famílias são isentas de problemas, seus olhos sempre estão secos e a voz é alegre e equilibrada. É uma imagem ainda pior para se carregar, um estereótipo pesado para uma profissão tão linda, para algo que eu amo tanto, que é a Psicologia. Mas também me faz pensar no quanto é importante a terapia para os psicólogos, muitos deles devem fingir-se bem para não serem desacreditados.
É triste pagar alguém para ouvir? Não sei. Triste deve ser se abandonar. Levar sua mente para um cuidado parece ser mais uma prova de amor a si mesmo. Para mim, é a prova de que ainda não desisti de encontrar um pouco de sossego dentro do meu ser, significa aprender a acalmar essa tempestade, a parar de arrancar as cascas das feridas e deixá-las cicatrizar.
Chega de sentir a todo momento um rasgar incessante, o estômago dolorido e a mente a circular. Chega de adoecer e de idas loucas ao pronto-socorro. Chega de vomitar a alma para depois comê-la fria no jantar.
A vida dói e dói muito. Até quem cuida da dor do outro sente e se dói, é inteirinho dor em seus momentos. Nem todo mundo quer ver, mas, em toda a nossa volta, há muitos e muitos dodóis.
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