Notas iniciais
Essa é minha primeira fanfic então ainda estou meio apreensiva, mas quem sabe com o tempo eu melhoro (ou não). Enfim, boa leitura! :)

14 de dezembro de 1889,

Quero, através deste, mostrar a mim mesmo quem sou. É um diário como aqueles

que adolescentes costumam escrever futilidades ocorridas ao longo dos dias. Acho

que seria bom começar pelo meu nome, não? (No momento percebo que venho a fazer

perguntas para essa folha branca e vazia, mas quem sabe um dia, alguém irá ler

e então serão perguntas destinadas a um leitor) De todo modo, sempre dirigem-se

a mim por Gerard, então creio que este é o meu nome.

Por algum motivo desconhecido, fui deixado aos três anos de idade em um orfanato

na cidade de Nova Jersey, onde aparentemente nasci. Não estava sozinho, ao meu

lado tinha meu único irmão (pelo menos o único que eu saiba da existência). Era um noite chuvosa, por volta das 23h, tinha

acabado de assistir ao seu nascimento em um hospital perto, ao que supostamente

era minha casa; andávamos (isso inclui a mim que já sabia me equilibrar

precariamente e ao meu suposto responsável. Meu irmão, ainda sem nome, ia

embrulhado como um presente em meio a colchas e cobertores em um pequeno Moisés

que era carregado pelo mais velho). Ele me puxava pelo braço pedindo para que

eu fosse mais rápido, passos compassados e rápidos nasciam a cada segundo. Na

realidade, não sei se “ele” era um homem ou uma mulher, sempre me passou pela

cabeça de que era um homem pela altura, mas como era pequeno, todos eram

absurdamente altos ao meu ver. Utilizava um sobretudo largo e preto sobre as

costas e cobria o rosto com o capuz do mesmo, ao que enxergava, utilizava-se

também de um lenço amarrado na parte de trás da cabeça, para que fosse dificultado

seu reconhecimento.

Em minha pequena cabeça, aquele era o meu pai, mesmo que não fosse, era.

Chegamos então, ao ponto final, o orfanato. Para mim, que não compreendia nada,

era uma casa comum. Subimos por volta de 5 degraus e então “ele” bateu na

porta, colocou o pequeno cesto que protegia o frágil corpo de meu irmão no

chão, pegou minha mão colocando-a em cima da cabeça do mais novo, como um gesto

para que eu tomasse conta dele. E assim, foi embora, sem dizer absolutamente

nada.

A luz de fora acendeu, e uma senhora branca de olhos azuis atendeu à porta. Ao

primeiro ver, olhou para cima, sem encontrar ninguém, desviou o olhar e

finalmente colocou os olhos em mim, que sem reação tinha lágrimas no rosto,

enquanto meu irmão, doce e tranquilamente desfalecia nos braços de Morfeu.

Elena. Nunca me esquecerei dela, abrigava a todos que apareciam em sua porta,

mesmo sabendo que faltariam camas ou até mesmo comida, ela deixaria de comer

para nos dar. Nos olhava como se fossemos filhos dela. E se é que existe um

céu, ela com certeza está lá. Olhando pelas crianças que, assim como eu e meu

irmão, um dia foram abandonadas.

Cresci nesse meio, nunca necessitei de um pai ou uma mãe, sempre fui

instintivo, sabia cuidar de mim mesmo, nunca precisei que fizessem isso por

mim. Já meu irmão, era diferente.

Michael, foi o nome que a doce senhora colocou nele, dizendo que "seus traços eram

como os de alguém que conhecido por tal". Nunca entendi o que ela quis dizer

com tal afirmação, mas já que não possuía ideias, aceitei o nome. Passei a chama-lo de

Mikey com o passar dos anos. Um apelido que além de combinar com seu nome, veio

revelando-se com sua estranha obsessão em querer ver no jornal todas as manhãs as tiras, mesmo que não soubesse ler, que tinham como protagonista em uma coloração cinza, o rato Mickey Mouse.

Ele era o primeiro do orfanato a acordar nos sábados, apenas para ver os pequenos desenhos nos quadrinhos que tanto gostava e que distraiam sua pessoa.

Nos acostumamos facilmente com a casa, antes estranha para nós. Éramos

pequenos, então logo passamos a caracterizá-la como nosso lar, afinal, lar (em

minha concepção) é aquele lugar aonde você se sente feliz e passa a maior parte

do seu tempo com pessoas que ama.

Eu não conhecia nenhuma das crianças que lá viviam junto comigo na mesma

situação, muito menos a doce senhora que nos acolhia com tanto amor mas eles

eram a minha família, não a biológica, claro, mas eram minha família.

Raymond fora o primeiro com quem troquei palavras amistosas naquele local (após

Elena, obviamente). Nunca fui muito de falar, sempre tive preferência de

guardar tudo o que sentia e o que não sentia para mim, para ser franco: odeio

compartilhar todo e qualquer sentimento que não cabe ao interesse de outra

pessoa, eram coisas minhas, ou seja, morreriam comigo. E possuo tal

característica desde criança.

Ray, como o chamavam, foi se aproximando aos poucos, eu preferia passar o tempo

com o meu irmão, sendo para observá-lo ou cuidando dele. Demorou cerca de um

ano para que trocássemos frases inteiras. Ele era uma criança normal, tirando o

fato de que era órfão, sabia que seus pais estavam mortos, na realidade, só Elena

sabia. E veio a me contar anos depois, mas isso é história para um futuro

próximo, quem sabe.

Sempre analisei com cautela as pessoas que conviviam comigo, por menos que

fizessem eu as observava e ao menos percebia algum traço que vinha a

caracterizá-las. Identificava cada um pelo modo que comiam, falavam, mexiam as

mãos, corriam, riam...Uma pessoa que sempre analisei foi a mim mesmo. Ficava

horas na frente do espelho observando algo que fosse uma característica minha.

Gostava de pensar que era único, apesar de nunca ter me considerado especial,

sabia que ninguém no mundo poderia ser parecido comigo. Começava analisando

meus traços físicos...Possuo traços afeminados, noto isso desde pequeno e não considero um

problema, meu nariz sempre fora fino e meus cílios grandes. Meus cabelos sempre

foram negros e na maioria das vezes compridos. Algo que verdadeiramente me

incomoda são meus dentes, normais quando eu era criança. Hoje são como dentes

infantis, desenvolvidos mas pequenos, manchados de nicotina e café mas que eu

nunca pretendi mudar um milímetro se quer. Meu olhos, verdes. Verdes estes, que

foram perdendo o brilho conforme a vida deixou claro o quão amarga é.

Antissocial não seria o adjetivo que usaria para me descrever, mas é o que mais

se encaixa na minha miserável situação; Algo que sempre notei sobre minha pessoa

são meus pensamentos. Desde que me conheço por gente sou pego falando sobre a

morte e o quão normal ela me parece, algo obsoleto. Outra coisa muito normal

que sempre faço são desenhos, reconcilio minhas dores e perdas na arte.

Recordo que ao completar oito anos de idade, ganhei um caderno de capa dura

revestida em couro no qual iria ser utilizado para meus desenhos, que aliás,

deve estar em umas dessas caixas velhas e empilhadas, umas sobre as outras,

próximas a parede encardida (devido aos anos sem cuidados e a fumaça da

nicotina que consumo todo dia, que penetra-se em meu pulmão ao mesmo tempo que

é absorvida pelas paredes descascadas deste imundo lugar). Costumava utilizar

meu talento para coisas mórbidas, segundo conhecidos. Mas sentia-me feliz ao desenhar

aquilo, passar a lapiseira criando traços e mais traços era como uma droga ao

meu organismo, me sentia satisfeito com aquilo, aliviava-me e me fazia esquecer

da dor que já tão novo tinha que confrontar e superar. Tais desenhos sempre me

fizeram crer que eu possuía algum talento, mas nada incomum, era só “coisa do

Gerard” como tantas outras características já descritas.

Por hoje, creio que já escrevi de mais,

estou cansado, minha visão já falha combinando perfeitamente com as malditas

lâmpadas de meu quarto que não param de apagar, preciso trocá-las.

Boa noite (?), J.E.

Notas finais
Erros sempre escapam, caso ache algum, me avise! Obrigada por ler XO