Diário De Um Serial Killer
2 Adoção
Notas iniciais
Ia postar só na segunda-feira mas como o capítulo depois deste é mais curto que o normal, resolvi postar antes. Boa leitura!
15 de dezembro de 1889,
Pretendo escrever diariamente aqui, sinto que é parte de mim, quem sabe até nãofunciona como um tratamento psicológico para que eu entenda-me melhor. Eu sabia que todas as crianças do orfanato estavam ali por um motivo: a adoção.Constantes casais iam lá pelas manhãs de domingo, pediam para que pudessem veras crianças brincando e que também deixassem-nos fazer perguntas. Elena sempreera gentil e permitia, afinal, queria que estes casais saíssem de lá com umnovo membro na família. Nunca fui muito desejado, a maioria dos casais que iam visitar-me costumavampedir para dar uma olhada em meus desenhos e isso acabava deixando-os insegurossobre minha pessoa, mas eu não pararia de desenhar aquilo que me satisfazia sópara ser adotado, caso fosse, seria um pacote completo, eu, os desenhos eminhas esquisitices. Tudo junto. Não mudaria minha já (precocemente) formada personalidade para agradar aosoutros. Já com Mikey era diferente, eu via isso. Sempre o elogiavam, algo que medeixava feliz, assim, não teria que me preocupar em como, futuramente, iriasustentá-lo caso não fosse adotado. E não demorou muito para isso acontecer. Tinha seis anos, consequentemente,Mikey tinha três. Nunca me esquecerei. Foiem uma quinta-feira de muito sol em Nova Jersey quando ouvimos o tilintar dacampainha, que poderia vir a indicar duas coisas: mais uma criança ou mais umcasal em busca de filhos. Otimistas íamos correndo para a sala onde ocorriamvisitações.Eram ricos. Já sabia de longe, era fácil de descobrir. Aquela seria a famíliaperfeita para qualquer criança órfã. A mulher usava roupas delicadas, em umacoloração clara, tinha os cabelos no meio das costas, lisos e castanhos além dejoias, por sua vez, muito delicadas também. Ele utilizava roupas clássicas,camisa de tons também claros e uma calça ao que me lembro, bege. Ambos bonitos,com dentes branquíssimos e sempre sorridentes.Já sabia: teria que destacar Mikey em meio as crianças. Ele precisava de uma família o quanto antes. Queria que ele fosse adotado, que saísse dali antes mesmo que soubesse o queera adoção. E logo, encontrei um modo de fazê-lo. Chamei Mikey e o levei até ocasal, puxei a barra da calça da mulher desconhecida e disse simples palavrasque a convenceram a dar atenção para meu irmão: "ele me disse que quer teconhecer, moça". Persuadi a mulher com uma fala ingênua. A qual foi suficiente. Ela apaixonou-se por meu irmão em segundos.O marido não seria um problema afinal, era muito mais importante que a tal moçaapreciasse a ideia de ter meu irmão como filho. Mulheres são quem possuem o talinstinto materno, não?Aquele seria de longe o pior dia de minha vida, mesmo que eu soubesse que meuirmão estaria em ótimas mãos, não queria me ver longe dele. Não conseguiria.Fora eu quem cuidara dele a cada instante desde nosso abandono, ele era maisque apenas um irmão, mesmo pela pouca idade fora eu quem cuidei daquele corpofrágil. Elena só nos dava cama e comida,claro, atenção também, mas não a quantidade necessária a cada um, pela enormequantia de crianças. Eu quem dava atenção à ele. Eu quem cuidava dele como umfilho e agora, teria que deixá-lo ir. Para um melhor futuro, pelo menos.Não fora necessário nem uma hora para começarem a assinar os papéis da adoção.Enquanto estavam no escritório, que era mais uma pequena sala cheia de papéiscom os nomes das crianças que haviam sido adotadas até então, e formulários embranco aos quais seriam preenchidos (ou não) no momento adequado, eu estavaatrás da porta o observando pela última vez.Graciosamente meu irmão brincava com seu futuro pai enquanto sua nova mãeassinava aquelas páginas que me deixariam quem sabe para sempre, longe da únicapessoa que verdadeiramente amei na vida.Ele não sentiria minha falta, ele não lembraria de mim, claro que não. Eramuito pequeno para se lembrar de uma história que uma vez já contei. Sedependesse dele, nunca haveria um irmão bastardo e perdido no mundo. Mas eu merecordo dele, perfeitamente bem. Eles saíam pela porta da frente enquanto eu segurava minhas lágrimas de saudadeque já queriam sair assim como ele ia indo, deixando para trás um passado quejamais recordaria.Fora aquele o pior dia de minha vida. Foi naquele dia que meu ódio precoce pelomundo aumentou descomunal e absurdamente. Os intermináveis dias no orfanato após o ocorrido não eram mais os mesmos, eramsó dias. Os dias passavam e eu continuava lá, mal sabia eu, até atingir amaioridade.A pobre Elena me reconciliou, fazia-me lembrar de que agora meu irmão estava emum lugar melhor e que isso se dera graças a mim. Era plausível que estivessetriste, mas aquilo na minha cabeça, com o tempo, passaria. E não passou. Aquele maldito sentimento de abandono me corroía a cada dia mais, não era
obstante o abandono paterno e materno, agora, havia sido abandonado por meuirmão, mesmo que eu tivesse provocado a ação e soubesse que tal era certa, eunão me confortaria tão cedo com o fato de não ter ao meu lado aquele que, naverdade, era o meu objetivo de vivência. Até hoje não pude encontrar o porquê de eu ter sido capaz, com tão poucaidade, de me desapegar e diferenciar o bem estar que ele teria em umaverdadeira família do que o precário conforto que tínhamos no orfanato.Talvezpelo fato de que eu só nasci para tal missão, ou até mesmo, para nãoir diretamente ao inferno na hora do julgamento final. Quem sabe até pelo fatode que meu irmão não merecia conviver em tais condições. Mas estes são apenasvagos pensamentos que surgiram em minha mente e que ao longo do tempo, serãoesquecidos. Basicamente foi este o acontecimento que me fez enxergar que omundo, é só mais um lugar onde você, se não possuir sorte, acabada cada diapior.Vejo nesse momento doentio e cheio de lembranças das quais nunca vou medesfazer que ainda está claro lá fora. Acabo de olhar pela janela eaparentemente o sol está dando seus últimos relances de claridade, talvezuma caminhada não me faça mal.J.E.
Notas finais
Já sabem: se encontrarem algum erro, avisem! Obrigada por ler XO
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