Notas iniciais
Lembrando que os acontecimentos não estão em uma ordem cronológica correta, coencidentemente as datas quais identificam o dia da escrita no começo de todo o capítulo estão próximas as atuais, nada que interfira na leitura, apenas um comentário para melhor compreendimento... De todo modo, boa leitura!

24 de dezembro de 1889,

Véspera de natal, algo tão deplorável. Nada melhor do que tal data para começar a narração de algo um tanto quanto chocante à olhos normais que fiz. Em pensar que lá fora está a representação do inferno. Vendas e mais vendas para aqueles

que deixaram os presentes para o último instante. Sinto-me feliz por não ter ninguém, assim não preciso passar por tal rebaixamento... Nada mais do que isso, analisando friamente é só uma data onde o motivo principal foi desviado

para a compra de presentes. Muitas das vezes dados por obrigação.

Naquela mesma madrugada fria, dia após a morte de Elena, dirigi-me ao quintal. Não sei bem ao certo de que horas eram, mas esperei até que não fosse possível avistar mais nenhuma pessoa ou carro pela rua e lá comecei minha primeira, eu diria... Insanidade.

A pá retirava a terra uma vez posta no lugar para esconder o caixão, com

movimentos rápidos e no mínimo silenciosos, finalmente começava meu primeiro crime. Que na realidade eu não considero tão absurdo.

Finalmente a camada grossa e marrom já estava completamente retirada, pulei dentro do não muito raso buraco e consequentemente cai sobre o caixão. Nunca conseguiria movê-lo só, era necessário no mínimo mais três pessoas além de mim

para que o pesado objeto de madeira se movesse.

Não iria em circunstância alguma voltar atrás, e assim abri o caixão,

retirando dali a única coisa que possuía.

O corpo de Elena era leve, sabia disso, todas as noites era eu quem a colocava a frágil senhora em sua cama. Com um único movimento, por vez este extremamente

abrupto, joguei a carcaça contra minhas costas para mover-me com maior

facilidade na hora de levá-la para dentro de casa. E assim adentrei ao antigo orfanato, onde coloquei o peso no chão e corri novamente para o jardim, começando novamente a cobrir o buraco ali feito com toda a terra que uma vez estava fora

de seu lugar. Se alguém passasse por ali e visse tal, como faria? Pensava em cada detalhe para que cada vez menos suspeitas apontassem à mim.

Uma vez que as evidências encontravam-se cobertas (literalmente) voltei para onde estava aquele maravilhoso objeto de estudo. Já possuía ferramentas das

quais médicos recebem para a dissecação. Bisturis, tesouras, seringas e meu mais secreto medo: agulhas. Nunca fui diagnosticado com uma síndrome exata para

essa minha apreensão diante de tal objeto, era algo que normalmente colocaria nos outros como um médico, mas que jamais permitiria que encostassem em mim. É

provável que nunca tenha tomado nenhuma vacina desde que minha idade parou de

permitir as famosas gotinhas que bastam para que crianças não contaminem-se. Tirar

sangue é algo que jamais fiz e espero que continue assim, como também o recebimento de soro na veia entre outros processos que envolvam tal. Todos esses matérias encontram-se, até hoje em uma pequena maleta que com o tempo fora perdendo sua cor e, de branca passou a bege. Colocando novamente o corpo sobre minhas costas desci as escadas que levavam até o minúsculo porão, descoberto por acaso em uma brincadeira de pique-esconde.

Lá estava tudo o que precisaria: uma luz falha que era suficiente para enxergar

meu trabalho, uma mesa de madeira retangular com aproximadamente um metro e setenta, que até hoje não sei como entrou em tão pequeno local, e claro, agora ali sobre tal mesa, estava o corpo no qual faria minha primeira necrópsia. Não era autorizado a tal, mas faria mesmo assim.

Na realidade aquilo tudo era só um estado de loucura, em nenhum milésimo de segundo parei a pensar que era algo normal para médicos forenses. Apesar de que

nem formado era em tal momento, muito menos especializado em alguma área. Fazia pela diversão, tal encontrada quando via as poucas gotas de sangue saírem conforme cortava aquele objeto, infelizmente já sem vida.

Eram poucas porém, recompensadas pelos vermes que já saíam de seus órgãos, levemente necrosados. A

cada corte eu sentia mais repulsa, o cheiro pútrido era tudo o que minhas

narinas conseguiam captar. O desejo de parar surgia a cada maldito instante, mas não era nada se comparado ao da insanidade e ao prazer que eu sentia fazendo tal coisa. Ali surgia um vício, como a dependência química... Só que no lugar de entorpecentes encontravam-se corpos e objetos cortantes.

Já não estava mais com o bisturi apontado para suas tripas expostas na região do abdômen e sim para seu crânio. Era necessário muito mais do que apenas uma

mísera lâmina para abrir tão duro osso, uma serra elétrica talvez surtisse

maior efeito. Nunca vi grande diferença naquelas utilizadas para o corte de

árvores e as que profissionais manuseiam em cirurgias, a estrutura era

basicamente idêntica com o diferencial de que eram desinfetadas nas mais mínimas

áreas. Como não era formado e não tinha dinheiro para uma que fosse

verdadeiramente resignada ao meu objetivo, utilizei-me de uma que penhorei em

uma loja de usados de materiais de construção, assim comecei a dilaceração em

busca do cérebro. Incrível como tal órgão possa desenvolver tantas funções de

uma única vez enquanto ainda ocupa-se com pensamentos no consciente e

subconsciente humano, muitas vezes banais... Já em meu caso, insanos.

Ali existiam segredos que nem os maiores gênios conseguiram desvendar, era como uma relíquia encontrada facilmente, mas que nunca poderia ser aberta. Em um relance deparei-me com meu objetivo. Não

possuía mais um aspecto familiar, era mais como uma gelatina que ainda encontrava-se quente. Algo tão absurdamenterepugnante

mas ainda sim, fascinante.

Se tão enorme prazer era adotado por mim

ao fazer isso com um corpo sem vida, imaginei como seria fazer tais cortes em um corpo qual ainda sentisse tudo... E parecia-me milhões de vezes mais

interessante. Minha mente substituía o silêncio da casa por gritos de piedade e

desespero. Imaginava-me matando, e cada vez a ideia parecia-me melhor. Sempre soube que a dor física nunca seria nada comparando-se à sentimental, dor essa

que não possui cura, onde as cicatrizes deixadas permaneceriam ali para sempre. Mas era claro que para as mais fúteis pessoas, só o físico importava. E era

aquilo que mantinha minha mente ocupada nos pensamentos de mutilação exterior.

Mas eu não poderia me dar ao trabalho de ser reconhecido, caso começasse, seria necessário terminar. Assim a deliciosa mutilação acompanhada de pedidos

desesperados e lágrimas que só existiriam em nome da dor, nada sentimental (logo, tais eram falsas) seria acompanhada da morte. Uma consequência inevitável para aqueles escolhidos por mim como vítimas, alvos fatais de uma mente

doentia.

O que me levava a procurar por um nome fictício, qual me faria conhecido em todos os noticiários. E já tinha tal em mente...

Jack Estripador.

Notas finais
Revisei apenas uma vez antes de postar e estou praticamente morrendo de cansaço, é provável que exista algum erro. Se encontrarem, avisem nas reviews. Agradeço imensamente por ainda acompanharem XO