Notas iniciais
Boa leitura!

Dia 19 de dezembro de 1889,

Bom dia, apesar de já estarmos iniciando a tarde desse dia nublado. Meu humor

vêm melhorando ao longo dos dias mas isso não ajuda em muito.

Estava finalizando o terceiro ano do colegial e precisava optar sobre o que

iria fazer para sustentar-me até o final da vida. Já tinha certa ideia daquilo

que preferia, era pouca a minha noção, mas sempre gostei do fato de que poderia

tornar-me médico e especializar-me para virar um cirurgião se estudasse um

pouco mais. Salvar vidas? Nunca vi por esse ponto. Tinha em mente outros

objetivos por trás de tal escolha. Era claro que isso não era o que eu queria

para toda a vida, minha paixão até hoje, é a arte. Mas, infelizmente, só

conseguiria fazer tudo o que tinha vontade sem levantar suspeitas se utilizasse

no ombro um emblema qual me faria doutor.

As provocações nunca cessaram, e como sempre morei no orfanato nunca pude mudar

de escola pelo fato de que aquela era a única da região. Já tinha minha mente

em coisas muito mais interessantes, planos que me faziam não ligar para a

solidão que vivia em uma época na qual amigos eram importantes. Todos possuíam

amigos nos quais confiavam e recitavam aquela antiga e mentirosa história de

que sempre estariam ali, um para o outro.

Não posso palpitar sobre tal assunto afinal, nunca tive um amigo que não

meu irmão. Mas já é verídico que, ao longo dos anos, você perde os amigos. Eles

tomam rumos diferentes, você toma um rumo diferente.

Os insultos dirigidos à mim tornavam-se a cada dia mais insanos e só piorou ao

descobrirem que havia optado em seguir a carreira de cirurgião. “Não vá mutilar

seus pacientes...” “Não mate-os de propósito ou denunciaremos você para a

polícia.” “Homens são abusados sexualmente por médico insano e gay... Já é

possível criar matérias de jornal com a sua cara na primeira folha, Gerard!”

“Finalmente terá a atenção que nunca teve de seus pais, garotão”.

Estes foram os que me vieram a cabeça no momento, claro que existem muitos

outros mas não vale gastar tinta dessa miserável caneta à toa. Aliás, tenho que

comprar mais dessas...

Enfim, empenhei e me dispus única e exclusivamente aos estudos nos quais me

fariam entrar em uma faculdade de medicina, grátis é claro. Não tinha nem

carisma para ser adotado, muito menos dinheiro. Já não tinha também notícias de

meu irmão que deveria estar com quinze anos já que eu estava prestes a fazer

dezenove e isso já não me interessava mais, minha mente era voltada, como já

disse, só para os estudos e claro que por trás dos estudos a minha tão esperada

vingança. E foi tanta a vontade de vingança que consegui.

Cerca de um mês após ter feito a prova mais importante de minha vida recebi,

pelo correio, a tão esperada carta que dizia minha posição entre os

classificados e consequentemente se eu passei ou não. Sétimo lugar. Não

precisei nem ver se havia mesmo entrado ou não, era claro que se eu era o sétimo das cem vagas disponíveis, estava dentro. Havia escolhido e aquele era o único jeito de me satisfazer por completo com meus desejos um tanto quanto... Psicopatas. Foi então que meu verdadeiro eu veio à tona.

A sede de vingança contra o mundo era cada vez maior. E assim fui levando a vida, estudava e me

aperfeiçoava nos meus planos psicóticos enquanto escolhia um local perfeito

para torná-los reais.

Depois dos seis anos intermináveis de faculdade, esperei mais dois nos quais seriam aperfeiçoados os conhecimentos necessários para a especialização que

tanto me ajudariam a realizar e estudar aquela máquina que queria destruir: o corpo humano. Não tinha vontade de destruir tão belo projeto da natureza sem antes

estudá-lo minuciosamente. Ainda morava no orfanato, não tinha dinheiro para

alugar se quer um quarto nas imundas ruas de Nova Jersey, mas assim que tão

suado dinheiro estivesse em minhas mãos, não pensaria duas vezes antes de

gastá-lo.

Raymond e todas as crianças (já não mais infantis) haviam deixado o local, Elena

estava vivendo com a aposentadoria e ainda mantinha o orfanato aberto única e

exclusivamente para mim, que sem ter casa, abrigava-me. Desde que Mikey havia

partido, não enxergava que aquela era minha casa, em minha mente era só um

local no qual eu me abrigava e guardava meus pertences momentaneamente. Graças

aquela bem feitora que já estava adoecendo devido aos anos não muito sadios que

passou tomando conta de crianças enquanto devia estar em repouso.

Via-me obrigado a cuidar dela. E acho que explicações para isso não eram

necessárias, tinha que fazer aquilo, por mais que fosse contra meus princípios

ajudar outro ser humano, era necessário.

Assim fiz, dia após dia, cuidei dela como nunca pensei que faria com alguém.

Cozinhava refeições consideradas saudáveis por médicos com todos os tipos de

alimentos, junto levava um copo de suco de caju (o favorito da doce senhora) e

ao lado de tal eram levados três tipos de vitaminas, quais ajudariam em seu

quadro de saúde.

Preocupava-me seu estado, mas caso morresse, não seria má coisa. Ela sofria,

era claro em seu olhar que a dor aumentava e junto, o sofrimento. A cada dia

que passava as enormes safiras azuis perdiam o brilho. Já não andava, permanecia

o dia inteiro em uma cadeira de rodas adaptada para conseguir ir ao banheiro

sozinha. Quando chegava da faculdade pegava-a em meu colo e a punha em sua

cama, trabalho nada difícil considerando a perda de peso da pobre Elena.

Estava em meu quarto ano de faculdade, voltava normalmente pensando no que

provavelmente faria para a janta. Entrei em casa e fui até a porta do quarto da

senhora, peguei-a em frente sua sacada onde obviamente olhava o sol se pôr

naquela belíssima e calma tarde, a leve brisa levava os não muito longos e

grisalhos fios de cabelo da senhora a voar.

Estava morta. Ouvira seu último suspiro segundos antes de sua cabeça cair para

frente, onde mantinha-se pendurada pelo pescoço. Não a toquei, muito menos aproximei-me,

aquele era meu primeiro contato com a morte, permaneci ali na esperança de

entender um pouco mais sobre aquele assunto que tanto chocava os ignorantes,

medrosos, pecadores... E que tanto me encantava. E lá ela ficou, imóvel, até o

meio da noite.

Não caiu uma lágrima se quer de meus olhos, não havia nenhum sinal delas.

Talvez tivessem me deixado assim como inúmeras pessoas fizeram, e agora, mais

uma fazia bem a minha frente.

Acho que ainda consigo encontrar a papelaria da rua aberta essa hora, como já

disse, necessito de mais canetas. Até

amanhã, quem sabe.

J.E.

Notas finais
Já sabem o esquema, né? Avisem erros e afins XO