Notas iniciais
Obrigada por continuarem acompanhando, boa leitura!

21 de dezembro de 1889,

Me vejo na necessidade de escrever mas sem que isso seja uma obrigação, não

quero que as datas colocadas aqui sejam perfeitamente seguidas.

Era claro que não poderia deixá-la ali até o odor tomar conta da casa.

Subitamente, quando já tinha certificado que ela realmente estava já sem vida e

ali só restava uma carcaça abatida devido aos duros anos que passou, liguei a

polícia. Havia planos para seu corpo, mas antes começaria minha peça teatral,

de seu início até o fim, nada sairia do lugar, assim como o planejado.

Meu plano iniciava-se naquele segundo ao qual a doce senhora bateu o coração

pela última vez. Eu tinha que mostrar-me vulnerável para todos, quanto mais a

polícia. Um verdadeiro teatro onde eu era o diretor da peça a partir daquele

instante. E assim iniciei o roteiro onde o pobre órfão encontra a salvadora de

sua vida, falecida ao que chega em casa e, abatido não vê outra escolha a não

ser ligar para os oficiais da cidade, pelo fato de não saber o que fazer. Recebi

instruções para que procurasse o médico de Elena o mais rápido possível pra que

tal fizesse seu atestado de óbito nos termos legais e assim enterrá-la.

Constantemente recebíamos visitas dele no orfanato, um tal de Dr. Bryar.

Sujeito aparentemente competente. Fui ao escritório e encontrei seu cartão,

expliquei a situação e tudo parecia resolvido quando ele assegurou que estaria

lá o mais rápido possível.

Aparentemente nada fora do contexto, os atores correspondiam perfeitamente aos

papéis que lhe foram resignados e eu como o protagonista (além de diretor)

também seguia perfeitamente o roteiro, já escrito ao longo dos anos pela mente

deste que agora relata sua história nestas folhas sem ter certeza de onde quer

chegar com isso...Seria tal mente insana? É o que iria descobrir conforme

aprimorasse o enredo e a qualidade de atuação das personagens. Mas a resposta

era cristalina de forma que não cogitava em voltar atrás com meus mais mórbidos

planejamentos. Sim, minha mente é e sempre fora insana. E eu provaria a mim

mesmo que cada instante de tal insanidade me faria amar aquilo cada vez mais.

Elena guardava uma boa quantia de dinheiro em um cofre no escritório e apenas

eu era confiável o suficiente na mente da senhora, afinal, apenas eu possuía a

senha de tal.

Nunca o abri, para mim aquilo seria usado em uma emergência e aquele era o

momento perfeito para isso. Ela era muito querida no bairro, o que obrigava-me

a fazer um velório para que todos pudessem despedir-se da tão adorada, já falecida amiga e “mãe” que infelizmente

assim como eu, já não possuía mais família. Seus pais morreram quando completara trinta e três anos e como não

possuía irmãos não restou-lhe mais ninguém, foi então que decidiu dedicar-se a

isto. Acolher àqueles que também já não possuíam outros a quem confiar ou se

deixar mimar.

Além de tudo também era católica o que mais uma vez obrigava-me a escolher um

local apropriado para seu último momento entre amigos. Uma belíssima igreja

próxima ao bairro com um estilo pitoresco e bastante apreciado por mim, algo um

tanto quanto gótico.

A notícia espalhou-se rápido nas bocas daqueles que habitavam aquela simples

vizinhança de Jersey. Minha primeira ação (após ligar para a polícia e Dr.

Bryar) fora procurar uma daquelas empresas que organizam funerais e ligar para

aqueles que já haviam passado pelos cuidados de tão maravilhosa pessoa. Por

sorte encontrei uma que parecia ter um nome a zelar e que aparentemente possuía

bom desempenho, devido à rapidez com a qual faziam seu trabalho. Tudo que me

restava naquela hora era convidar os vizinhos para o encontro final.

Após o velório a carcaça seria enterrada no quintal de casa, por opção minha

que, novamente, possuía uma segunda intenção. Diria a todos que nos

acompanhassem que a queria ali para meu conforto, para que toda a vez que me

sentisse só, fosse até lá para ver seu nome entalhado na pedra e me desfazer em

lágrimas de saudade e dor. O que obviamente era só mais uma fala de meu roteiro

que teria de ser dita com imensa convicção. Na igreja encontrei muitos daqueles

que um dia foram crianças e conviveram ao meu lado, inclusive Raymond. O único

para o qual não havia ligado fora Mikey, não sabia se seus pais haviam lhe dito

de onde verdadeiramente veio, não arrisquei estragar todos os sonhos que meu

irmão construira ao longo da vida. Nada especial ocorreu ao longo do tempo em

que fiquei na igreja além do já dito, encontro com os que um dia foram órfãos.

O caixão foi fechado e nisso

caminhávamos para o quintal onde tempos atrás crianças corriam, pulavam,

sorriam e divertiam-se, e eu não era uma exceção. Lá tive um dos poucos

momentos alegres de minha vida, fora lá o único local onde eu já havia realmente

sido uma criança... Diferente, mas ainda sim, uma criança.

A cova começava a surgir, dois homens iniciaram o trabalho manual enquanto eu e

alguns amigos mais próximos observávamos toda a terra ser retirada. Todos

devidamente vestidos de preto, alguns com óculos escuros e até mesmo chapéus,

eu como de costume obviamente trajava a tal adorada cor preta como os outros

(quando não era obrigado a vestir roupas brancas para frequentar a faculdade). E

assim o caixão era erguido por mim entre outros que lá também estavam, e

colocado em seu escuro, úmido e devido lugar.

Para todos ali naquela cerimônia de encerramento a uma vida, estava terminado.

Perfeitamente terminado, eu diria. Mas infelizmente eu não era parte desse

todo.

Assim que as orações, por muitas vezes, falsas de vizinhos que só conviviam com

Elena para reclamar do barulho que as crianças que uma vez já moraram lá faziam,

terminaram e todos foram embora eu continuei ali, de pé, e novamente nem sinal

de minhas lágrimas. Joguei ao gramado uma rosa vermelha, em minha opinião a

flor mais bonita que já havia visto na vida e li a frase em sua lápide

atentamente: “A melhor amiga e mãe para muitos que já não tinham mais ninguém”.

Tal escolhida por mim segundos após seu último suspiro.

J.E.

Notas finais
Mais uma vez não vou conseguir ficar sem agradecer por lerem, então: obrigada XO