Uma regata branca, uma calça de moletom cinza e um all star preto, o cabelo em um rabo, os óculos disfarçando um pouco do seu olhar triste. Impaciente era uma definição ótima, ela odiava estar ali, já que poderia muito bem estar em seu quarto escrevendo as histórias patéticas que há fazia um pouco mais feliz nas horas vagas.

Quanto tempo ela não pisava em uma grama, quanto tempo ela não se via repleta de árvores? Muito tempo ela não se via com vida, e uma chama de coragem ali no peito reascendeu, mas não o suficiente, o vento mais forte que bateu por ali a apagou, e todo o brilho que por instantes resplandeceu seu olhar se foi.

_Veja Mô, escolhi a toalha xadrez vermelha pensando em você! – Aninha alisava a toalha enorme sobre a grama, e Magali rápida esvaziava a sesta.

Aquilo lhe deu um nó, há quanto tempo ela não usava um vermelho? Alguns anos, talvez. O vermelho deu alas para um guarda roupa repletos de peças brancas e pretas, sem graça, como a mesma se sentia.

_É linda. – Ficou alegre apesar de tudo por ver como suas amigas estavam ralando para te ver bem, se esforçou e sorriu como todos entrando nas brincadeiras antigas e se sentiu feliz, como há muito não sentia.

Deitou contente depois de comer, as nuvens corriam, divertidas em seus formatos, e a brisa lhe fazia cócegas, as meninas correram junto de Cascão no horizonte, fizeram uma roda, jogavam bola e os risos eram músicas largadas ao ar.

_Que bom que veio Mô. – Ela se virou para encontrar com os olhos de Cê.

_O estranho é que também estou feliz. – Em seguida se sentou, olhando o menino de cima.

_Hei depressiva, não tem nada de errado em estar feliz! – Mônica riu chacoalhando a cabeça.

_É verdade! – Espreguiçou, e soltou suas madeixas negras. – Não conte que viu isso pra ninguém. – Em seguida retirou os óculos.

Como pode? Seu coração sambou no peito, e o motivo tinha nome. Mônica. Seus cabelos lisos de negro absoluto desciam nas pontas em cachos definidos, agora sem o esconderijo indigno da armadura pesada e negra de seus óculos ele podia ver o mel que iluminava aquele olhar.

_Que vi o que? Como é linda e ninguém faz idéia? – Então ela cessou o ato de deslizar os dedos entre os fios e o olhou indignada.

_Engraçado você. – Voltou amarrar o cabelo e a colocar os óculos, Cebola corou: primeiro por ter dito o que não devia e segundo, por ela não acreditar nunca no que dizia.

_Vai se foder então, gorda. – Se virou emburrado. Cebola era de um gênio difícil, queria dizer tudo o que sentia ali, pra ele Mônica era perfeita com todos os erros e acertos, gostava até mesmo dos moletons surrados, gostava dela, mas assumir isso o deixava apavorado, então voltava ao método de sempre... Aos xingamentos.

A dentucinha não se deu a trabalho de resposta, só continuou sentindo o mundo, sem permitir que a tristeza lhe voltasse tão cedo, ela queria sentir mais desse calor gostoso no peito, só um pouco mais de vida.

_Cebola, você gosta de alguém? – Viraram na mesma hora, um de frente pro outro.

_E-EU GOSTAR DE ALGUÉM? CLALO QUE NÃO! – A garota sorriu sapeca, e ele corou ainda mais, de raiva e vergonha.

_Devia arrumar alguém Cebola, a cada dia que passa fica mais bonito.

_Sério? – Ele queria correr dali gritando pra tudo e todos: “ELA me acha bonito, viu só? ELA... ELA”.

_Eu gosto de alguém... – Então toda sua atenção de menino se multiplicou. – Mas é ridículo.

_Fala? – Ela se chacoalhou.

_Não, nunca falei pra ninguém, e você riria... Muito.

_Não! Pode contar. – Quase implorou, e se fosse ELE? Seria tudo mais fácil, não teria complicações, seriam os dois, da maneira que Cebola sempre achou que deveria.

_É o Toni. – “TONI?”, aquilo ecoou de maneira dolorosa e prolongada em sua mente.

_Realmente Mônica. – Se levantou batendo a grama. – Você é RÍDICULA. –Uma raiva misturada a mágoa lhe acertou o peito, e saiu dali rápido, se juntando a roda de amigos do vôlei.

Então a onda de remorso a invadiu, ela não deveria ter se exposto de maneira tão constrangedora.

Notas finais
Gostaram?
Ficou meio grandinho, não é? rs