Deveres Do Coração
7 De Coração Aberto
"A humanidade é infeliz por ter feito do trabalho um sacrifício e do amor um pecado."
Henrique Jose de Souza.
Capítulo 7 – De Coração Aberto
Sasuke olhava o seu reflexo no espelho pensativamente. Seus cabelos estavam ajeitados no penteado costumeiro, já que a parte de trás dos fios se recusava a se ajeitar mesmo sobre influência de um gel. Ele vestia um smoking de veludo molhado da Lanvin para H&M¹ com uma camisa branca, que estruturava toda a sua figura alta e esguia. Dando um longo suspiro, ele se afastou para caminhar até o quarto e encontrar a esposa sentada no banquinho de uma penteadeira vitoriana.
Ela estava linda.
Usando um bonito vestido de seda verde-água, longo e fluído abaixo da cintura confeccionado em uma modelagem simples, mas com um tecido ostensivamente brilhante, que garantia a elegância e o destaque do corpo magro da mulher. A peça possuía uma única alça grossa e uma fenda sensual na perna esquerda, que mostrava a pele aveludada da coxa torneada de Sakura. Os cabelos longos e cor-de-rosa estavam soltos em uma cascata cacheada pelas costas, e a maquiagem dava ainda mais destaque aos olhos incrivelmente verdes.
A imagem despertou o desejo do Uchiha, que sempre foi afetado pela beleza deslumbrante da figura feminina e delicada. Embora fosse somente isso que a modelo lhe despertava, apetite sexual. Não havia amor, nem paixão e muito menos amizade – principalmente nos últimos tempos. A rapariga era apenas uma conveniência e o pensamento, ao invés de lhe trazer culpa, não o afetava.
O empresário só amava uma pessoa.
E ter a plena ciência disso não o alegrava. Por outro mês inteiro ele se viu afastado do psicanalista loiro e por mais que tentasse, não conseguia esquecê-lo. Seu peito doía toda vez que pensava no homem e olhava para a esposa. Não era com ela que ele queria estar, mas se sentia obrigado a continuar com esse matrimônio por causa da sua família e das obrigações que o direcionava.
Todos os dias, ele acordava com a ânsia de sair correndo e ir ao apartamento do Uzumaki para ver o sorriso bonito e radiante, admirar os olhos azuis cerúleos brilhando em diversão e alegria, tocar a pele firme e bronzeada, se entregar e fazer o outro entregar-se a ele também. Todo o santo dia, ele desejava poder ouvir a voz rouca e grave, sentir o gosto dos lábios e o cheiro de laranjas, cuja fragrância parecia permear cada canto daquele lugar.
O desespero e a angústia eram tantas que ele se pegava, quando sozinho no banho, mordendo o lábio inferior até romper a carne do beiço, a fim de fazer com que a dor o impedisse de derramar lágrimas de desesperança.
Nunca; nunca em sua vida ele se viu chorar, exceto quando era criança.
Ele queria o loiro tão intensamente que chegava a doer, e saber que Naruto estava, agora, com outra pessoa, deixava-o louco. Ele tinha pesadelos constantes com o loiro, que o impedia de dormir adequadamente; seu apetite havia ido embora e as poucas palavras que falava, não passavam de murmúrios irritados. Sua atitude estava começando a preocupar a esposa e a mãe; a última só faltava lhe enfiar comida goela abaixo, toda a vez em que reparava o quanto Sasuke havia emagrecido. Seu pai lhe lançavam olhares condescendes e o irmão de desgosto puro, o que o deixava ainda mais nervoso. Ele não podia permanecer desta forma, mas semanas antes, ele realmente acreditou que o tempo poderia ajudá-lo.
Os dias se passaram e nada mudou.
Internamente, ele amaldiçoou o dia que conheceu o Uzumaki, porque nada disso teria acontecido se jamais tivesse colocado os olhos no loiro estonteante. Mas, logo depois, seu pensamento mudava e ele agradecia o envolvimento que teve com o homem, já que, com ele, o moreno viveu momentos incríveis e inesquecíveis. Ele aprendeu o que era realmente amar alguém que não a si mesmo e descobriu muitas outras formas de se deleitar com a vida.
Apenas com Naruto, ele se sentia a vontade em assistir um filme qualquer nas noites frias, escondidos por debaixo de cobertores quentes e Kurama alinhado entre ambos os corpos aquecidos; apenas com Naruto, ele realmente se divertiu em tentar fazer massa de macarrão caseira para Lamén²; apenas com Naruto, ele verdadeiramente apreciava algum doce, porque só o escritor se preocupava em manter os alimentos com o sabor equilibrado entre o salgado.
Ele mal podia se lembrar de todos os momentos simples e importantes que passaram juntos. Cinco anos significam muito tempo e uma grande história. Durante todo esse período, eles quase não tinham oportunidade para se curtirem durante uma semana e, por vezes, o casal não conseguia se encontrar por vários dias. No entanto, as poucas horas que tinham sempre era diferentes, intensas e inesquecíveis.
Só de imaginar que o loiro estava fazendo outra pessoa passar pelas mesmas sensações que ele tinha passado ao longo do relacionamento...
O Uchiha se sentia doente.
Ele correu em direção ao banheiro e, sem querer, assustou Sakura com o som de seus passos rápidos batendo contra o piso de madeira. O corvo praticamente se jogou em frente à privada e vomitou apenas o líquido gástrico de seu estômago, já que ele mal tinha comido durante o dia. Seu corpo inteiro tremia e ele sentiu a tão familiar sensação de ardência em seus olhos e esôfago, denunciando a fragilidade de suas emoções. A esposa trotou até onde Sasuke estava e entrou no cômodo com os olhos verdes brilhando em preocupação. O empresário nem teve tempo de fechar a porta, para privar a mulher de ver sua imagem tão miserável.
— Sasuke-kun, você está bem? – ela lhe ofereceu uma toalha umedecida para limpar as mãos e a boca. – Nós podemos ficar em casa. Você não precisa estar presente na festa dos Hyuuga se não estiver bem disposto, basta mandar um e-mail para Sr. Hiashi na segunda-feira, explicando que toda a quantia da doação será depositada em conta. O Hospital de Hiroshima³ não vai deixar de funcionar caso você demore mais dois dias para entregar o dinheiro!
— Não se preocupe, Sakura, está tudo bem. – resmungou, pegando uma escova de dente no armário espelhado.
— Você acabou de passar mal, o que está acontecendo com você? – franziu o cenho, estranhando a cada dia mais o comportamento anormal do marido.
— Deve ser algo que comi... – o barítono profundo e impaciente soou como se exigisse que moça de cabelos cor-de-rosa se calasse.
— Ou algo que não comeu, você mal se alimenta há dias! – exclamou visivelmente alterada, ficando cada vez mais irritada com o jeito esquivo e vago do cônjuge.
Desde que se conheciam, o moreno agiu dessa forma para com ela, mas nos últimos anos, a situação estava piorando consideravelmente. A princípio, quando eram adolescentes, Sakura não via absolutamente nada de errado no comportamento do colega e companheiro de estudos. Estava tão apaixonada que só enxergava alguém perfeito, destinado a ficar com ela para sempre. Quando ambos começaram a namorar, e, posteriormente se casaram, a atitude fechada havia amenizado um pouco, mas ainda assim, a menina de grandes olhos verdes sentia que existia um enorme abismo entre eles. Nos últimos sete anos, a relação virou um mero acaso e uma simples conformidade. Não havia nem um pingo de afeto, pelo menos, não por parte do moreno.
Embora os dois tivessem uma vida sexual ativa, o homem sempre pareceu muito distante e aéreo no ato. Na noite anterior, quando ele tampou a sua boca para abafar um gemido que queria sair dos seus lábios, foi como se um balde de água fria a atingisse e lhe fizesse abrir os olhos para o que seu coração se recusava a enxergar. Finalmente ela percebeu o que estava diante de si por tanto tempo: Sasuke não a amava.
Ela tentou lembrar uma única vez em que ele disse “eu te amo” e se deu conta de que não houvera vez nenhuma. Nenhuma. E, agora ela estava determinada a descobrir o que havia de errado com o empresário, para, pelo menos, poder tentar resgatar o que restava do seu casamento.
— Ando me sentindo enjoado nos últimos dias. – murmurou, sentindo-se acuado com o tom irado da mulher. O Uchiha percebeu que se não pisasse com cuidado, ele arruinaria o seu matrimônio e toda a sua família se decepcionaria.
— Nos últimos dias? Você mal toca na comida desde que o Uzumaki te recomendou outra psicanalista! Acho que ela não está fazendo um trabalho tão bom quanto o Naruto, porque você voltou a ficar tão estressado quanto naquela época da queda das ações. Por que ele te passou para outra psicanalista, afinal?! Na segunda-feira vou conversar com ele! – seus punhos se apertaram em agonia com os sentimentos negativos que a inundavam. – Você está me traindo com a Hyuuga?
— O quê?! – ele deu vários passos para trás, surpreso com a pergunta e ofegante com o choque. No começo, ele pensou em ter ouvido o nome do seu amante, até que seu cérebro processou a pergunta corretamente e ele conseguiu respirar corretamente.
— Você começou a agir dessa forma, ainda mais estranha, depois que começou a se consultar com ela. – apontou com a voz embargada e os olhos úmidos. – Por que, Sasuke? – ela soluçou e as lágrimas finalmente cederam, caindo em cascata pelo rosto de pele cor pêssego. – Eu não sou boa o bastante para você?
— Eu não estou te traindo com ela! – tentou se aproximar com certo receio. No fundo se sentia aliviado por não ter sido descoberto. Contudo, em algum lugar, escondido em sua mente, o moreno desejava que ela descobrisse que era, na verdade, traída com o próprio Naruto.
— Então me explique! – rosnou entre dentes cerrados.
O moreno abraçou a figura pequena da mulher, depositando a bochecha no topo da cabeça repleta de fios cor-de-rosa. Ele inalou o intenso e enjoativo cheiro de morangos com cereja, “doce demais para o meu gosto”, ele pensou, fazendo uma careta. Seu estômago retorceu em protesto novamente, mas conseguiu conter a forte náusea.
— Eu fiz uma besteira na Sharingan Corporation... – ele rapidamente pensou em uma desculpa convincente. – Por falta de atenção, vendi uma das nossas marcas para um fornecedor que tem grande potencial em se tornar nosso concorrente agora. – engoliu em seco. – Meu pai ficou louco e você sabe como a opinião dele mexe comigo. – desviou o olhar dos orbes verdes penetrantes; era como se eles pudessem ler a sua mentira e isso o incomodava.
A situação com a empresa de Shimura Danzo já estava praticamente acertada. Com a forte campanha publicitária do produto que precisava ser vendido, eles estavam quase conseguindo bater a meta de vendas. A divulgação foi tão intensa que eles começaram a exportar televisores automotivos. Os clientes gostaram tanto que começaram a pesquisar melhor sobre outras opções de compra da marca, aumentando ainda mais a margem de lucro da instituição.
— Você sempre se prejudica por causa das responsabilidades que envolvem a empresa da sua família! – ela franziu os lábios, ainda mais chateada por vê-lo sofrer tanto. – Em breve vamos viajar e você relaxará, querido. Preparei tudo para que você possa descansar o máximo possível. – ela acariciou o peito firme e deu-lhe um selinho. – Vou ter que retocar a minha maquiagem. – ela sorriu sem graça, antes de se afastar, lançando um olhar carinhoso por cima do ombro desnudo.
Sasuke caminhou até a cama de casal imensa de um quarto de hóspedes e se jogou, mal ligando se por ventura amassasse a roupa. Ele aspirou o cheiro de flores do edredom branco e sentiu saudades de outro perfume familiar que o entorpecia. A falta de Naruto em sua vida estava o prejudicando muito mais do que quando mantinham um romance às escondidas. Soltando um grunhido grotesco, ele amaldiçoou o fato de não conseguir desgrudar a mente do loiro atrapalhado.
Nas últimas semanas, ele ficou mais atento às notícias de fofoca, procurando saber qualquer coisa sobre o homem que amava. Eles quase não se falavam direito por dois meses e tudo que o fizesse se lembrar do loiro, lhe confortava. Embora que, nas últimas semanas, o Uchiha só encontrou matérias que abordavam sobre o relacionamento entre o Uzumaki e Sabaku do Gaara, pois ambos estavam ficando cada vez mais abertos sobre o envolvimento. E isso o deixava puto da vida.
Apertando o tecido abaixo de si entre os dedos, ele sentiu a imensa vontade de gritar até que sua voz sumiu, mas escolheu por ficar em silêncio, remoendo a ardência no peito como um aviso constante de que perdeu a única pessoa a quem Sasuke chegou a dizer “eu te amo” em toda a sua existência.
Toda vez que via imagens onde os olhos azuis estavam fixados nos verdes claros, ele morria um pouco. Cada fotografia que mostravam as mãos dadas e os sorrisos discretos entre o atual casal de enamorados, esta lhe dava sentimentos mistos, que variavam entre ojeriza, paixão, raiva e ciúmes... E o moreno sabia que, por mais que desejasse ter o loiro de volta, ele não conseguiria. Pelo menos, não enquanto ainda estivesse casado.
E pela primeira vez em quinze anos, ele realmente estava considerando fazer o pedido de divórcio, porque nas demais vezes ele somente avaliou a questão, sem nunca dar verdadeiramente razão aos seus desejos. O Uchiha ainda não tinha plena certeza do que faria ainda, afinal, era uma mudança muito brusca para 35 anos de vida planejados, cheios de crenças e certezas. As questões pipocavam em sua cabeça e ele se perguntava freneticamente: “E se algo der errado?”. Os possíveis resultados de sua decisão poderiam ser desastrosos, e, ao mesmo tempo em que ponderava, seu interior se enchia de boas expectativas; não havia muito que perder, havia?
(***)
Quando o CEO da Sharingan Corporation adentrou o grande salão de festas da mansão Hyuuga, ele quase se sentiu sufocado com a quantidade de pessoas que estavam no local. Todos com suas vestimentas extravagantes, seus gestos extremamente controlados e seus sorrisos vazios. Agora ele entendia o porquê de Naruto gostar tanto da simplicidade. O status não quer dizer necessariamente que você é feliz, pois comprar todas as coisas que o dinheiro consegue lhe proporcionar é apenas uma forma de saciar um interior oco, e, uma aparência requintada também não mostra se suas ações são tão bonitas quanto suas roupas.
Ele mesmo era um exemplo disso. Simples assim.
Cordialmente, Sasuke agradeceu um mordomo que guardou o seu casaco em um grande armário na entrada. Ao tentar digitalizar as pessoas conhecidas através da multidão, deparou-se com uma aglomeração de fotógrafos e jornalistas que lhe chamaram a atenção. A princípio ele não deu importância, mas quando ouviu um riso alto e familiar, o seu pescoço rapidamente se virou para espreitar o grupo; quase com desespero.
— Sasuke? – chamou Sakura.
Ela foi ignorada. Não porque o Uchiha quisesse desprezá-la, mas porque ele estava tão concentrado em ver por cima das cabeças tumultuadas, que acabou não ouvindo o chamado pequeno.
Por cima do grupo, olhos azuis profundos encontraram os ônix intensos. O Uzumaki, que ostentava um grande sorriso, rapidamente fechou a expressão. Na ligeira troca, foram passados inúmeros sentimentos, como amor, saudade, mágoa, tristeza... A avalanche foi tão grande, que o moreno teve que desviar a atenção para o teto, fingindo admirar os lustres gigantes de cristais, enquanto esperava para o coração estabelecer as suas batidas frenéticas.
— Sasuke? – ele ouviu o chamado baixo e sentiu o suave toque em seu braço.
Apesar de a aproximação ter sido sutil, assustou-o de tal forma, que ele quase pulou para fora de sua pele. Rosa e verde-esmeralda entraram em seu campo de visão como um contraste gritante do que ele realmente ansiava em ver.
— Sim? – engoliu em seco.
— Você está bem? – apertou as mãos pálidas em um gesto que deveria ser reconfortante.
O primeiro impulso do moreno foi se afastar do contrato e lançar um olhar temeroso para Naruto, receando que ele visse o singelo gesto íntimo. O empresário arregalou os olhos como pratos quando viu os lábios do escritor se unir com os de Sabaku no Gaara.
Sua respiração se prendeu a meio caminho da garganta, ao mesmo instante em que o coração parecia parar de bater.
E, naquele momento torturante, o tempo pareceu parar por um instante.
— Sasuke? Está tudo bem? – a mulher agarrou o seu rosto para que o fizesse encará-la.
O Uchiha estava tão desnorteado que apenas balançou a cabeça negativamente. Vendo o seu pequeno erro, ele acenou novamente, desta vez, positivamente. Ele molhou os lábios secos com a língua e retornou o olhar para a cena – que ficava se repetindo involuntariamente em sua cabeça –, mas o novo casal já havia se separado.
Sakura seguiu a direção dos olhos negros e viu o que parecia confundi-lo.
— Eu disse que eles estavam juntos! – ela riu. – Não sei o porquê da surpresa se a suspeita de um romance entre eles já estava sendo especulada há cinco meses. – comentou em diversão.
“Cinco meses? Se passaram cinco meses em que nós estamos nessa situação catastrófica?”, parecia apenas que os dias não passavam nunca. Nessa pequena perda de noção de tempo, o moreno só conseguia se perguntar – praticamente em desespero – quando é que ele se esqueceria do Uzumaki... Enquanto a outra parte escondida da sua mente se questionava: “será que Naruto já me esqueceu?”.
(***)
Discretamente, olhos azuis observavam o moreno à distância. Sasuke já estava na décima dose de uísque e já aparentava estar mais comunicativo e alegre do que o normal. Preocupação preencheu o interior do psicanalista, quando viu o empresário terminar a bebida em um único gole para logo agarrar outro copo da bandeja do garçom mais próximo. Até a esposa do homem parecia estar receosa, pela forma como ela contorcia as mãos em um aperto forte, enquanto notava o marido beber sem parar.
Assim como o loiro, a mulher parecia adivinhar onde a situação pararia.
Ao contrário de Sakura, que só olhava sem ter a mínima ideia do que fazer para adverti-lo sem contrariá-lo, o loiro não ficaria parado assistindo o futuro vexame. Ele olhou para o seu namorado, que conversava com uma senhora extravagante, e interrompeu o diálogo – o mais delicadamente quanto possível –, pedindo um tempo a sós com o ruivo, o qual foi prontamente cedido pela idosa, que sorriu, antes de se retirar.
— O que foi? – Gaara perguntou de forma suave, pegando a mão do mais novo entre a sua.
Naruto não respondeu com palavras, apenas desviou os orbes profundos e intensos para a direção do seu tormento, fazendo com o que outro compreendesse – em parte – o que o perturbava. O CEO da Suna Enterprises Communication apenas deu um suspiro resignado e balançou a cabeça negativamente, fazendo o companheiro morder o lábio inferior em insegurança, temendo causar outra discussão.
— Por que você simplesmente não o deixa sofrer as consequências de seus atos, sozinho? – seu tom não demonstrando nada sobre o seu temperamento, mas ele estava claramente aborrecido.
— Eu não posso... – colocou a mão livre no bolso da calça social off-white de seu smoking Viktor & Rolf⁴.
Ele observou com interesse o tecido rico da roupa e o tom lustroso de seus sapatos, tentando escapar da incômoda sensação do escrutínio do Sabaku. Era a primeira vez que ele se deu ao luxo de comprar algo tão caro; tudo para acompanhar o homem de cabelos vermelhos e olhos verdes-água.
— Naruto, você tem que esquecê-lo! – bufou com impaciência.
— Eu estou tentando, ok? Não é tão fácil quanto parece. – defendeu-se.
— E você acha que está sendo fácil para mim? – murmurou com raiva.
Os dois homens se encararam com o cenho franzido, até que o loiro suavizou a expressão e se aproximou para abraçar o outro.
— Desculpa. Eu sei que não está sendo fácil para você também. – apertou os braços ao redor do pescoço pálido, querendo recompensá-lo pela falta de entendimento. – Você deve se sentir como eu me senti todos esses anos, quando estive com o Sasuke.
— A diferença, loiro, é que ele te ama e você não sente o mesmo que sinto por você. – bagunçou os fios dourado com as mãos.
“Mas a sensação de ser sempre a segunda escolha é igual”, lamentou, mentalmente, o Uzumaki. Ele sentiu os olhos pinicarem e o nariz coçar com a súbita vontade de chorar; a sensibilidade de suas emoções estava começando a irritá-lo, mas não conseguia se segurar. O psicanalista sentia-se cada vez mais frustrado, porque em sua profissão, ele havia aprendido a controlar melhor os seus sentimentos, mas os últimos acontecimentos estavam tirando o melhor de si.
— Você não vai chorar agora, não é? – Gaara perguntou suavemente, olhando para os lados, alarmado que alguém pudesse ter percebido o estado sensível do namorado.
— Não. – fungou, enquanto esfregava os olhos com as costas da mão direita.
Naruto parecia uma criança que lhe foi negado o doce. O ruivo suspirou pela milésima vez.
— Vai lá. – apontou o Uchiha com um movimento de cabeça.
A declaração pegou o loiro de surpresa, que apenas balbuciou um “O quê?” atordoado.
— Faça o que pretende de uma vez, não é como se já precisou da minha autorização antes... – encarou os orbes azuis profundos, que agora estavam mais escuros pela tristeza e angústia. – Prefiro que vá, ao invés de vê-lo como uma coruja durante a noite; eu sei que você não vai conseguir dormir se não fizer alguma coisa. – sorriu e deu um beijo suave na boca do loiro e se afastou para conversar com outros empresários.
O psicanalista piscou, sentindo-se confuso. Seu cérebro demorou alguns instantes para perceber que precisava começar a agir. Quando se virou para a direção de Sasuke, surpreendeu-se ainda mais em encontrar o homem com as pálpebras caídas, devido ao estado de embriaguez, pendendo discretamente de um lado para o outro, mesmo parado.
O Uzumaki teria rido se fosse outra circunstância.
Quanto tempo havia se passado desde que o viu bebendo a décima dose de uísque, ele não saberia dizer, mas deveria ter sido um bom par de minutos, já que o estado do corvo estava relativamente pior.
Aproximando-se do casal, Naruto sorriu confiante para a mulher de cabelos cor-de-rosa, que parecia constrangida com a situação do marido.
— Se afogando no álcool, Uchiha-san? – perguntou em um tom divertido. Ele riu audivelmente quando recebeu um dedo do meio como resposta.
— Oh! – Sakura tapou a boca, horrorizada com a indelicadeza do cônjuge. – Desculpe-o, Naruto! – ela corou. – Eu não sei o que deu nele, de repente ele começou a agir-
Ela foi interrompida por um ronco de riso vindo do homem de cabelos negros.
— Você nunca sabe de nada, Sakura. – debochou, pegando outro copo de bebida.
Antes que ele pudesse virar o seu conteúdo, uma mão bronzeada retirou o objeto da sua mão.
— Obrigada, Sasuke-teme, eu estava mesmo precisando molhar a garganta. – o Uzumaki agradeceu com um sorriso, fazendo-o parecer ainda mais com uma raposa, e bebeu todo o líquido, sentindo-o descer quente pelo esôfago.
— Achei que sua garganta já estivesse bem úmida, uma vez que você e Gaara não pararam de meter a língua na goela um do outro. – disse com uma sobrancelha arqueada, em um timbre indolente e amolecido pela embriaguez, ríspido pelos sentimentos negativos.
— Sasuke-kun! – olhos verdes-esmeralda se arregalaram em descrença, pois nunca havia visto o marido agir dessa maneira.
— Não se preocupe com isso, Sakura-chan. – tentou sorrir para tranquilizar a moça. – Eu vou tentar dar um jeito nele para que você possa o levar para casa, ok? Já estou bem acostumado com as patadas desse bastardo arrogante.
— Eu não preciso da sua ajuda! – o moreno exclamou, atraindo a atenção de quem estava próximo ao trio.
— Sim, você precisa! – passou os braços pelos ombros do corvo, procurando sustentá-lo. O breve contato o fez perceber que o empresário estava muito mais magro do que a última vez que o viu.
O Uchiha ainda tentou empurrar o loiro, mas com a moleza do seu corpo, o máximo que conseguiu foi parecer que estava se apoiando no corpo forte e delgado do outro homem.
— Me deixa, dobe! – resmungou.
Naruto ignorou as reclamações como se nada ouvisse. Ele estava irritado com o empresário, o que era uma surpresa, já que sempre acontecia o oposto. Arrastou Sasuke para um imenso corredor, que ligava o salão de festas com a área de funcionários e o acesso a mansão Hyuuga. O loiro passou por uma saída de emergência que dava para o jardim na parte traseira do imenso terreno. A área estava deserta e fresca, perfeita para alguém no estado do outro.
— Quem sabe um ar te ajuda a clarear a mente, teme! – literalmente jogou o moreno no gramado macio.
— Eu não preciso clarear nada! – murmurou de forma embolada. – Quem precisa se esclarecer é você. O que está pensando? Gaara? Ele nem é tão bonito assim. Aquele cabelo vermelho dele é horrível, eu prefiro muito mais o meu. – inconscientemente ele fazia bico enquanto falava, arrancando um sorriso do Uzumaki.
O psicanalista se agachou em frente ao mais velho e vasculhou em um dos bolsos internos do paletó, uma pequena embalagem plástica que sempre carregava. Dentro do pequeno frasco, havia um líquido transparente. Ele quebrou a tampa e derramou a substância na boca do homem. O Uchiha até tentou se afastar, com uma careta que variava entre nojo e desgosto, mas perto do mais novo, que estava sóbrio, ele parecia uma massa de geleia.
— Isso é doce, usuratonkachi⁵. – limpou a boca com as costas da mão. – Eu odeio doces! – disse, agarrando os braços fortes do homem, procurando diminuir a onda de tontura que a série de movimentos bruscos lhe causou.
— É claro que isso é doce. – voltou a colocar a pequena garrafa, agora vazia, no bolso. – Isso é glicose, vai te fazer melhorar. – acariciou os fios negros com carinho.
Sasuke fechou os olhos em deleite, inclinando-se para o toque quente e reconfortante. O moreno sentiu o coração correr como louco no peito, como se sentisse que estava, finalmente, liberto da constrição permanente que o aprisionava. Ambos havia sentido saudades daqueles contatos breves que tanto os acalentavam. Apesar do sentimento relaxante em que os dois estavam experimentando, o estômago do moreno começou a revirar violentamente, fazendo-o sentir intensamente enjoado.
— Eu acho que esse negócio não está me fazendo melhor, não, dobe. – comentou o homem com a voz estrangulada.
Empurrou Naruto de cima de si e se levantou com pressa. O mais velho praticamente correu até uma árvore próxima e, apoiando-se ao casco, ele vomitou tudo o que havia bebido. O outro se aproximou e segurou as mechas longas e pretas que emolduravam o rosto pálido, ao mesmo tempo em que massageava as costas curvadas.
— Droga. – Sasuke tossiu.
— Melhorou? – sorriu presunçosamente, ouvindo o tom de voz do moreno mais firme.
— Você poderia ter esperado que eu melhorasse sem ter de me fazer vomitar as tripas. – pegou o lenço preso em seu paletó e limpou a boca.
— E deixar você passar por um vexame no meio daquelas pessoas metidas a moralistas? – vasculhou os bolsos em busca da sua embalagem de goma de mascar e oferecendo para o moreno, que apenas abriu os lábios esperando que o Uzumaki lhe desse na boca. O loiro deu um suspiro, antes de fazer o que foi pedido.
— Por que você carrega glicose no paletó em primeiro lugar?- perguntou com estranheza, sentindo os pensamentos voltarem ao lugar vagarosamente.
— Nunca se sabe quando podemos precisar. – murmurou distraidamente, ajeitando os cabelos do outro, que estavam uma bagunça. – Você precisa voltar para casa, comer algo leve e ir dormir. Tome também um analgésico pra amenizar o efeito da ressaca mais tarde. Precisa se cuidar, teme, você está emagrecendo. – olhos azuis demonstravam a preocupação que sentia.
— Eu te quero cuidando de mim. – o Uchiha sussurrou como se contasse um segredo, enlaçando os braços pálidos no pescoço do outro. – Eu preciso de você, dobe. – afundou o nariz empinado nos fios macios e dourados, sentindo o familiar cheiro de laranjas.
— Você tem a sua esposa para fazer isso. – tentou se afastar, mas Sasuke apertou ainda mais o abraço. – Me solta, porque precisamos voltar. – segurou as laterais do tronco da figura mais alta com o intuito de empurrá-lo.
— Só um pouco...
Naruto não sabia se era impressão, mas ele ouviu o barítono profundo soar levemente embargado. O corvo colou ainda mais os corpos, como se esperasse que dessa forma, os dois jamais se separassem. O loiro inclinou a cabeça para descansá-la na têmpora do antigo companheiro, enquanto acariciava o dorso do homem. Ambos fecharam os olhos, procurando aguçar o tato e a sensação maravilhosa de estarem na companhia um do outro novamente.
— Você já me esqueceu, Naruto? – sussurrou trêmulo.
O psicanalista sentiu um balanço violento no tronco do Uchiha, denunciando o soluço que ele tentou segurar. Ele arregalou os orbes azuis totalmente surpresos com a realização que o abateu.
Sasuke realmente estava chorando.
Ele nunca havia visto o corvo chorar, mesmo em cinco anos de relacionamento; mesmo em seis anos de consultas psicoterapêuticas; mesmo sobre influência da hipnose. O empresário só precisou de um porre para libertar as emoções há tanto tempo estavam guardadas.
O Uzumaki sentiu os próprios olhos pinicarem e o nariz coçar com a própria vontade de dar vazão ao seu sentimentalismo, mas controlou-se. Ele apenas abraçou o corpo mais alto com mais força, afundando as pontas dos dedos no tecido do paletó sofisticado e beijando sem parar a têmpora pálida, ao mesmo tempo em que sentia os espasmos de desespero do outro.
— Eu estaria aqui se tivesse te esquecido, Sasuke? – segurou o rosto delicado entre as mãos, mas não afastou a cabeça deitada em seu ombro, apenas afagou os cabelos macios.
Ele sabia que o Uchiha não poderia encará-lo agora.
Os dois perderam a conta dos minutos em que ficaram em uma mesma posição. Aos poucos o moreno começou a se acalmar. Ele limpou o rosto com as costas da mão e se afastou, com o rosto abaixado, envergonhado por ter sido tão emocional.
— Vamos voltar?
O corvo apenas concordou com a cabeça, começando a andar em direção ao local onde acontecia a festa. Antes que ele pudesse pegar a maçaneta da porta de aço, o CEO da Sharingan Corporation se virou para o loiro, encarando os azuis cerúleos que sempre lhe aqueciam o interior frio.
— Eu ainda te amo, Naruto.
— Eu também te amo, Sasuke.
Os dois trocaram um sorriso pequeno. O Uchiha entrou e o loiro continuou reflexivo do lado de fora. Se dependesse do coração do Uzumaki, ele teria pedido que o outro ficasse; teria levado o homem que amava para casa; teria implorado que largasse a esposa e ficasse consigo; teria permitido que se amassem mais e mais... Mas, contrariando as suas vontades, o psicanalista apenas aceitou que o amante partisse,...
... Porque não era o lugar para decidir. Quem tinha de escolher, havia acabado de se fechar a porta, afastando-o novamente.
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