"Amar não é aceitar tudo. Aliás, onde tudo é aceito, desconfio que haja falta de amor."
Vladimir Maiakovski.

Capítulo 2 – Bola de Neve

Eram 10h18m de um domingo, quando Sasuke Uchiha saiu do seu carro acompanhado da esposa, Sakura, e parou no enorme jardim vitoriano que contornava a casa dos seus pais. O sol brilhava quente e não havia uma nuvem sequer no céu – o clima agradável o fez se lembrar de certo alguém.

Removendo os óculos escuros Porsche Design¹ e colocando-os no bolso interno do blazer de linho cinza, ele encarou a enorme mansão a sua frente para avistar uma figura pequena, de longos cabelos pretos, em um vestido branco com estampa floral, vindo a passos rápidos em sua direção.

— Sasuke, meu bebê! – a mulher o abraçou apertado, afundando a bochecha em seu peito tonificado. Ao seu lado, Sakura sorriu para o gesto da sogra.

— Mãe, quantas vezes eu tenho de dizer que não sou mais o seu bebê? Eu tenho 35 anos! – ele rolou os olhos, entediado.

Ela, pelo visto, nunca aprenderia.

— Pra mim, você sempre será meu pequeno bebê! – apertou as bochechas do filho mais novo.

— Por que você não fala essas coisas pro Itachi? – indagou, irritado.

— Porque eu ajo como um adulto, Otouto²! – a voz tranquila retorquiu no topo da escada que dava para a porta de entrada. Ele estava casualmente encostado em uma das pilastras da varanda, com a mão direita no bolso da calça social grafite.

— Quem te disse que eu não ajo como um, sua doninha? – perguntou, enviando um brilho zangado pelo olhar.

— Vocês dois estão agindo como crianças agora! – a matriarca da família disse com uma voz firme, de quem não aceita discussões. – Você sempre será meu bebê, Sasuke-chan³, porque é o caçulinho da casa.

O Uchiha mais novo intensificou a expressão fria para o olhar presunçoso que seu irmão lhe lançou. Fingindo esnobar o outro homem, ele entrou na mansão, logo sentindo o cheiro do almoço delicioso que sua mãe devia ter preparado. Dirigindo-se para a sala de visitas, ele encontrou o seu pai lendo um jornal com a feição fechada e tensa de sempre.

— Bom dia, otou-san. – ele se curvou formalmente diante da figura paterna, recebendo apenas um olhar como reconhecimento.

— Bom dia, Sasuke. – respondeu secamente.

— Bom dia, Sr. Fugaku! – Sakura também se curvou em cumprimento. Ela ganhou um aceno, antes que o líder da família voltasse a sua tarefa anterior.

O corvo sempre se sentiu inseguro com relação ao tratamento do pai. Desde criança, o homem o destratou e o subestimou, comparando-o constantemente com o irmão mais velho, mesmo que fosse tão capaz quanto o primogênito – apenas não tão inteligente. Não havia como colacionar uma pessoa normal com outra, cujo QI era acima da média. No fundo, ele agradecia, porque era a vontade de ser reconhecido pelo líder da família Uchiha que o fez se esforçar tanto para chegar onde havia chego.

Quando era pequeno, até tentou confrontar a mãe para saber o porquê desse descaso por parte do homem, mas a mulher sempre afirmava o mesmo: que apesar de toda a rigidez e frieza, o patriarca amava e admirava os dois filhos, além de reconhecer todos os sacrifícios que ambos fizeram por toda a vida. Mikoto ainda confidenciou, com um sorriso secreto no rosto, que Fugaku tinha imenso orgulho deles, que apesar de terem disponibilidade de uma grande fortuna, preferiram construir suas próprias riquezas, sozinhos.

No entanto, Sasuke nunca entendeu o motivo da indiferença; até tentou, mas até hoje não conseguia acompanhar o raciocínio do pai.

Em uma das consultas com o seu psicanalista, o moreno expôs essas dúvidas que o acompanhavam desde a infância. Naruto pediu que o moreno aprendesse a perceber as pequenas atitudes, porque algumas pessoas tinham dificuldades em lidar com as emoções, por isso, adotavam outras maneiras, mais singelas, de demonstrar afeto. O loiro ainda chegou ao extremo de associar Fugaku com o próprio Sasuke, já que ambos tinham todas as mesmas barreiras psicológicas em demonstrar sentimentos.

— Eu não sou parecido com o meu pai. – resmungou mal-humorado.

— Posso citar exemplos, se quiser... – murmurou contra os cabelos negros e cheirosos.

O loiro respirou fundo, inalando o aroma marcante que lhe lembrava da mistura exótica de pimenta e canela.

— Cite-os. – ordenou com presunção, duvidando da informação do Uzumaki.

— Se eu dependesse de você para saber o que sente por mim, eu estaria com o coração em frangalhos, teme. – explicou com a voz abafada pelos fios pretos em seu rosto. – Você, assim como Fugaku-san⁵ e o restante da sua família, tem essa característica em bloquear todas as emoções, porque foram criados para pensar que os sentimentos enfraquecem o ser humano.

Os dois estavam sentados no divã de couro preto, com Sasuke apoiando o tronco no peito tonificado e forte de Naruto, enquanto este amassava os músculos tensos dos ombros largos do moreno, sem deixar de divagar sobre a questão do Uchiha.

— No entanto, toda vez que você sorri para mim, eu sei que sou privilegiado, porque sou um dos poucos que recebem esse gesto tão raro vindo de você. – a voz rouca do loiro continuou. – Eu sou aquele a quem você procura, quando precisa conversar. – pontuou outra vez, com o sorriso de raposa cada vez maior em sua face. – Sou o único que te faz gemer feito uma garota virgem... – apertou o pacote entre as pernas do corvo.

— Cala a boca. – beliscou a coxa vestida do outro em retaliação. – Você também geme feito uma mulher para mim.

Em resposta, o loiro resmungou algo ininteligível e alisou a carne maltratada.

— Meu pai não faz nenhuma dessas coisas por mim. – o moreno retrucou novamente.

— Graças a Kami-sama⁶! – louvou o amante, levantando as mãos para o céu. – Eu não gostaria de ter a imagem mental de seu pai te fazendo gemer. – a declaração o fez receber um tapa na parte de trás da cabeça.

— Que tipo de psicanalista é você, dobe? Você entendeu o que eu quis dizer, seja sério uma vez na vida! – brigou com as sobrancelhas franzidas em repreensão. – Eu quero dizer que ele nunca sorriu para mim e nem me procurou quando precisava conversar, ou qualquer outra coisa mais que você acha que são gestos pequenos que lhe dizem muito. – murmurou como uma criança emburrada.

— Eu só te peço para prestar atenção nas atitudes do velho, seu sádico espancador de homens indefesos! – resmungou novamente, massageando também a nuca lesada.

Ele não poderia brigar com Naruto sobre essa conclusão, quando, no fundo, Sasuke sabia ser verdade. Sempre se inspirou no pai e no irmão para tudo. Ambas as figuras mais velhas representavam a força que ele gostaria de ter. Internamente, desejava que todos os membros da sua família se orgulhassem dele e de tudo o que ele fez/faz por toda a linhagem Uchiha; mesmo sem tomar conhecimento de todos os seus sacrifícios...

— E então, Sasuke... – a voz de Fugaku retumbou pela sala. – Seu aniversário de casamento será daqui a dois meses, o que pretende fazer para a sua esposa?

O tópico incomodou o moreno, fazendo-o olhar em volta para procurar a mulher de cabelos cor-de-rosa, mas não a encontrando. Logo, ele deduziu que a modelo havia acompanhado a sua mãe até a cozinha.

Ouvindo apenas o silêncio como resposta do filho mais novo, o patriarca dobrou o jornal e o colocou na mesinha de canto ao lado do sofá.

— Você vai fazer 15 anos de casado, tem que pensar em algo especial para ela. – continuou.

— Eu ainda não consegui pensar em nada. – disse sem graça, sentindo o olhar reprovador em cima de si.

Ele estava tão focado em ver Naruto, falar com Naruto e transar com Naruto, que havia se esquecido completamente desse pequeno, porém grande, detalhe. Os acontecimentos recentes envolvendo o amante nublaram completamente os seus pensamentos para qualquer outra preocupação. Ele sabia que não podia facilitar dessa forma, pois poderia atrair desconfiança por parte das pessoas mais próximas, mas ele estava tão saturado do seu casamento, que não conseguia ficar na presença de Sakura por mais de cinco minutos.

— Eu acho que você precisa tirar umas férias da direção da Sharingan Corporation... – o pai voltou à leitura do jornal. – Que tal se vocês dois viajassem para algum lugar da escolha dela? Tenho certeza que Shisui pode cuidar das coisas por aqui e eu posso dar uma olhada no escritório de vez em quando também... – sugeriu.

— Acho que Sakura iria gostar de sair um pouco de Tóquio. – concordou.

— Mulheres adoram lugares românticos. – Fugaku continuou, virando a página. – Leve-a para Veneza ou Paris, quem sabe para países tropicais e cidades mais quentes, como Aruba e Curaçao... – ele fez um gesto de descaso com as mãos. – Compre tudo o que ela quer, eu tenho certeza que ela ficará feliz.

Sasuke tentou parar o estremecimento do seu corpo com o pensamento de ficar tão longe por tanto tempo apenas na companhia da mulher de cabelos cor-de-rosa. Ele não conseguia se imaginar passando um dia inteiro com a esposa, quanto mais uma viagem inteira.

— Eu te dou um mês para aproveitar com ela da forma que quiser. Que tal conhecer a Europa? – o pai lhe lançou um olhar por cima do jornal. – Quando o casamento é muito longo, meu filho, nós temos que nos esforçar o dobro para evitar que o relacionamento se desgaste. Eu estou percebendo certa distância entre você e a Sakura que talvez se resolva com um tempo juntos.

A mente do Uchiha mais novo estava começando a ficar mais lenta, devido ao nervosismo causado pela conversa. Ele não queria ficar um mês afastado. Isso significava um longo período sem ver Naruto e só o pensamento o deixava agoniado.

A corda dos seus problemas estava começando a se enrolar no seu pescoço.

— Eu tenho consultas com o meu psicanalista duas vezes por semana, não posso ficar tanto tempo fora. – o corvo tentou dissuadir.

— Quem está pagando não é você? – Fugaku se levantou. Seu tom de finalidade nadou por todo o cômodo. – Converse com o Uzumaki-san. Tenho certeza que ele vai concordar com a minha ideia, já que une o útil ao agradável. Dessa forma, você terá um bom tempo para estabilizar o seu relacionamento e também relaxar. – ele saiu da sala com passadas longas.

Apesar do exterior estoico, seu interior estava gritando por sua falta de escolha. Uma grande parte dele queria se levantar e acabar com toda essa palhaçada que chamavam de casamento, mas a outra parte, que considerava ser sensata, era ainda maior, e a sua escolha era o silêncio. Ele olhou para uma gravura em aquarela presa na parede à sua frente, sem realmente vê-la, pensando em como diria isso a Naruto sem o deixar chateado.

— Eu não te entendo, Sasuke. – ele ouviu a voz sedosa do irmão pronunciar. A figura alta e magra estava olhando a paisagem do grande jardim pela janela, aparentemente distraído. Mas, o mais novo sabia que o outro, apesar do olhar distante, estava muito atento ao seu entorno.

— O quê? – ele lambeu os lábios secos.

— Por que você não acaba logo com tudo isso? – orbes negros encontraram o olhar sério do caçulo.

— Do que está falando? – franziu a testa, fingindo confusão.

— Desse seu casamento. – ele apontou com o queixo, a porta que dava acesso à sala de jantar. – Está na cara que você não dá a mínima para ela.

— Isso é mentira! – o outro Uchiha fechou ainda mais a expressão. – Eu me importo com a Sakura, e muito!

— Continue a mentir para si mesmo e para as outras pessoas, que você vai ficar sem a esposa e sem o seu amante loiro. – Itachi murmurou.

A declaração quase fez o empresário arregalar os olhos. Se não fosse pelo seu grande autocontrole, ele teria denunciado a si mesmo. Mas, antes que pudesse retrucar, o mais velho saiu da sala.

O seu irmão sabia.

Não deveria ser nenhuma novidade, uma vez que nada passava despercebido pelo olhar afiado do homem, mas ainda assim, o surpreendera. Apesar do susto, algo em seu interior tinha plena certeza de que Itachi não diria nada para ninguém, porque não era o seu lugar interferir nas escolhas dos outros. O mais velho sempre foi uma pessoa muito astuta e ponderada, ele jamais tomava uma atitude por impulso; não era à toa que seus pais e outras pessoas o admiravam tanto.

Por esses e outros motivos, que o professor de filosofia era outra figura que sempre admirou e se inspirou, mas por não entender os ensejos e pensamentos do homem, nunca conseguira se assemelhar ao irmão, mesmo que tentasse – da mesma forma que acontecia com seu pai.

Sasuke ficou um bom tempo remoendo todos esses acontecimentos em sua mente. Ele queria ligar para Naruto e conversar, porque seu amante parecia ser o único que mantinham a clareza de sua mente. O loiro sempre teve uma linha de raciocínio muito imprevisível e interessante; toda vez que o moreno lançava uma dúvida, o psicanalista iria analisar o questionamento e lhe responder da maneira mais simples e racional possível. O Uchiha não entendia sobre sentimentos, ele apenas sabia o que sentia e não perdia tempo em dissertar sobre as emoções; talvez fosse por este motivo que não conseguia entender as outras pessoas, diferentemente do Dobe.

E quem sabe, fosse por esta razão que o Uzumaki o acalmava tanto. Ao lado dele, nada o perturbava. Naruto era como um anestésico para a sua vida de fantasias, porque ele sempre foi o que o corvo precisava para ser feliz; ele o compreendia como ninguém mais.

Por vezes, o pensamento simplório do amante irritava o moreno. Para o rapaz de cabelos dourados, tudo parecia muito fácil, e na cabeça de Sasuke, a vida não era para ser vista dessa forma, porque nada funcionava de maneira simplificada, muito pelo contrário, se as situações fossem como o outro lhe descrevia, ele não estaria tão enroscado em suas próprias escolhas.

O Uchiha estava tão preso em seus devaneios que não ouviu o som de passos se aproximarem.

— Querido? – disse a voz feminina, causando-lhe um leve sobressalto. – Desculpe, Sasuke-kun, eu não queria te assustar. – ele reconheceu Sakura olhando para ele um tanto receosa.

Analisando a atitude da esposa, ele não conseguiu deixar de reparar que a mulher estava muito mais cuidadosa ao seu redor. Talvez, ela sentisse que algo estava errado, já que o marido nunca fez questão de esconder o quanto a presença da moça o deixava irritado. Ele não tinha motivos para ficar nervoso – quem tinha pretextos para se ressentir era ela –, no entanto, aquela era sua forma defensiva para lidar com o remorso.

E, apesar de se sentir pesaroso, não se arrependia, ele precisava dela, assim como ela, dele.

— Está tudo bem... – murmurou, tentando ser um pouco mais civilizado.

— O almoço está pronto. Ajudei a sua mãe a preparar aquela salada de tomates que você tanto gosta... – mordeu o lábio inferior, baixando o olhar.

Essa postura submissa da esposa lhe coçava um nervo. O moreno sabia que ela não era assim, uma vez que sempre fora uma pessoa extremamente enérgica e autoritária, menos com ele. “O que ela acha, afinal? Que eu vou gostar mais dela por fazer tudo o que quero?”, ele pensou com raiva. Não havia como não compará-la com Naruto. Seu amante nunca fizera questão de esconder sua personalidade de ninguém, tratava todos igualmente, com tal intimidade e descontração que por vezes irritava Sasuke.

Contrariando todos os seus pensamentos raivosos, a sua expressão permanecera neutra.

— Obrigado, Sakura. – fez um gesto com a mão para indicar que ela deveria ir à frente, e por mera formalidade, depositou um toque suave na curva de sua coluna, quando ela passou por ele.

Ambos caminharam juntos para sala de jantar. A mesa de mogno no centro do cômodo estava repleta de comida, todas feitas pela matriarca, que no domingo reservava sua atenção para a família. Todo o primeiro dia da semana era a mesma coisa: eles se reuniriam para almoçar e passar uma tarde juntos.

Cada um se sentou em seus respectivos lugares, Fugaku no topo, Mikoto à sua direita, seguida de Sakura, e Itachi à sua esquerda, juntamente com Sasuke.

Todos começaram a comer em um silêncio agradável e polido; cada um perdido em seus pensamentos. O homem mais jovem da casa achava que o almoço não passava de um mero protocolo, pois raramente havia alguma interação entre os presentes. Ele já até conseguia imaginar o que aconteceria mais tarde: seu pai se enfiaria no escritório, seu irmão se trancaria no quarto e sua mãe iria ler algum livro na varanda, enquanto ele e Sakura caminhariam até a sala de TV. A esposa assistiria a um filme e ele ligaria o notebook para ver se havia algum novo e-mail da empresa.

Era quase robótico.

Sua vida era tão preto e branco, tão previsível, que beirava à monótona. A única cor, no momento, estava há quarenta e cinco minutos de distância. Pensando no loiro de olhos azuis, ele se perguntou como o Uzumaki se portaria em uma situação como aquela; a imagem mental com a sua resposta, quase o fizera rir. Era quase certeza que o homem estaria falando pelos cotovelos, fazendo inúmeras perguntas e tentando envolver a todos em uma conversa. Mesmo o patriarca, com toda a sua aura intimidante, não escaparia do monólogo hiperativo de Naruto.

— Do que está sorrindo, Sasuke? – a voz da mãe interrompeu seus devaneios, assustando-o ligeiramente e atraindo a atenção do restante da mesa para cima de si. – Não quer nos contar? – ela perguntou com genuína curiosidade.

— Estava pensando em algumas coisas... – ele murmurou vagamente.

— Que coisas? – a mulher nem se dava ao trabalho de esconder a surpresa, porque sabia melhor que ninguém, que o filho raramente sorria, pelo menos, não, depois que saiu da fase da pré-adolescência.

— Tenho certeza que ele está pensando sobre as férias. – Fugaku cortou a onda de perguntas da esposa.

— Que férias? – tornou a indagar, não se dando por vencida.

Vendo uma oportunidade para camuflar seus verdadeiros pensamentos, o Uchiha mais novo respondeu:

— Papai me deu algumas semanas para tirar férias da empresa, dessa forma, posso passar um tempo com a Sakura. Daqui a dois meses é nosso aniversário de casamento, e ele sugeriu que era um bom momento para viajarmos juntos. – ele estendeu a mão para a esposa, que sorriu verdadeiramente e aceitou o gesto sem pensar duas vezes.

— Isso é sério, Sasuke? – ela perguntou com os olhos arregalados em surpresa.

— Sim e o lugar será de sua escolha... – deu um aperto suave e se afastou. O corvo estava melhorando cada vez mais suas habilidades em camuflar as emoções, que, no momento, gritavam para não fazer o que estava fazendo.

Ele ignorou todas as vozes interiores.

— Oh, isso é tão romântico! – Mikoto sorriu. – Será como uma segunda lua de mel! – os olhos negros brilhavam encantados.

— Hn. – era o único som que Fugaku tinha dito para demonstrar a sua concordância.

— Quem sabe dessa forma vocês dois consigam me dar um netinho? – a matriarca olhava para a janela pensativa. – Com todo esse tempo para aproveitar sozinhos, talvez Sakura consiga engravidar... – divagou, fazendo os três homens, que estavam à mesa, engasgassem com a própria comida.

O líder da família Uchiha também deseja o mesmo que a esposa, mas o tópico repentino o surpreendeu, assim como aconteceu com seus filhos.

O mais novo estava lívido, olhando para a mãe como se esta tivesse adquirido uma segunda cabeça em seu pescoço. Nos últimos meses, ele mal conseguia tocar na mulher de cabelos cor-de-rosa, quanto mais pensar em aumentar o clã. O sexo em seu casamento se tornou uma obrigação que ele não estava disposto a cumprir, principalmente pelo fato de estar sempre tão saciado. Ele tinha quase certeza de que o fato de ter um amante com uma libido inacabável resultava na sua falta de vontade em tocar a companheira.

Os olhos verdes se abaixaram e a postura feliz da modelo mudou completamente para uma tímida e sem graça, devido ao comentário que a fez se lembrar da sua inaptidão em seduzir o marido. Não que ela não tivesse tentado, mas o esposo sempre dizia estar cansado do trabalho e, logo que chegava, trancava-se no escritório para mais afazeres da Sharingan Corporation ou ia para o quarto dormir. Sakura esperava sinceramente que o tempo de férias e descanso pudesse mudar o desejo de Sasuke, pois ela também queria ter filhos.

A mulher acreditava que as crianças mudariam o jeito frio do cônjuge. Os dois já estavam casados há quase 15 anos e juntos há mais de 17, era uma vergonha que ambos não tivessem se solidificado e formado uma família ainda. Sempre que perguntava, ele apenas rebatia, dizendo que eles não tinham tempo para crianças agora. Ela sabia disso; sabia muito bem que era um tipo de responsabilidade que exigia horas de dedicação, mas também acreditava que o casal poderia se adaptar a essa exigência com algumas mudanças na rotina.

— Mãe... – o Uchiha caçula disse em um tom reprovador.

— Estou falando sério, Sasuke-chan! – os olhos negros da senhora Uchiha brilharam em preocupação. – Já conversei com a sua esposa e ela me disse que não tinha problemas em gerar um bebê, que eu saiba você também não. Então, por que estão levando tanto tempo?

— Mikoto, querida... – Fugaku tentou interferir.

— Não. – ela levantou um dedo para o marido em tom de aviso. – Ele tem 35 anos e ainda não pensou em construir uma família. Vocês, homens, e esse medo irracional do compromisso! Vocês demoram meia vida para nos pedir em namoro, mais um bom período para nos pedir em casamento e ainda protelam em ter filhos!

Se havia algo que assustava o corvo, era ver a mãe irritada. Ela raramente ficava nervosa com algo, mas quando o fazia, significava que já estava a muito incomodada. A matriarca era calma, alegre e tão compreensiva, que Sasuke e Itachi sempre recorriam a ela quando o pai precisava ser amaciado. Mikoto era punho firme, mas nunca peito de aço. Apesar de toda a família carregar a expressão estoica, ela sempre sorria e tinha uma palavra amiga para confortar, quando o restante era sempre tão desconfortável com as emoções. Às vezes, o caçulo se perguntava como uma mulher como ela havia se apaixonado por um homem como o seu pai, tão grosseiro e insensível.

— Eu não tenho medo, mãe! – ele ergueu a voz, ganhando um olhar repreensivo do patriarca. – Só acho que não tenho tempo para dar a uma criança agora. Eu tenho uma empresa para cuidar e a Sakura tem uma carreira ocupada também... – ele estava bravo, tanto que o barítono profundo da sua voz ressoava por toda a sala silenciosa. – Um bebê precisa de cuidados, que não podemos dar agora!

— Seu pai conseguiu conciliar muito bem as responsabilidades da empresa para cuidar de vocês! – a testa estava franzida, concentrando-se em entender o ponto do outro homem.

— Não! – ele a cortou, surpreendendo a todos da família, menos Itachi, que olhava a tudo como se não fosse algo inusitado em acontecer. – Ele não conseguiu e você sabe muito bem disso! – o silêncio seguido pela sua afirmação foi pesado. Olhando para a sua comida, ele sentiu o estômago revirar. – Com licença, eu perdi a minha fome...

— Sasuke! – a mãe ainda tentou segurá-lo para se desculpar, mas o Uchiha mais novo não deu ouvido, ele subiu as escadas de dois em dois degraus para o seu quarto, buscando fugir de toda aquela dissimulação que o cercava.

(***)

O corvo ficou muitos minutos, talvez horas, trancafiado, apenas olhando para o teto imaculado branco. Sakura bateu na porta, procurando conversar, mas ele a dispensou. Sabia que ela não iria embora sem ele, mas o moreno estava precisando ficar um tempo sozinho. A sua falta de controle sobre as emoções o fez dizer muito mais do que realmente estava acostumado, mas, mesmo se arrependendo, o empresário não conseguia se lamentar, porque o que havia dito sobre o pai era algo que guardava desde a infância.

Ele estava tão cansado das regras da sua vida...

A única forma que encontrou de sair um pouco da realidade desgastante de seu cotidiano era estar na companhia de Naruto. Pensando no loiro de olhos azuis, ele decidiu fazer uma chamada para homem e, quem sabe, conseguir a sua mente fora dos problemas que envolviam a sua família.

Pegando o celular de dentro do bolso da calça jeans azul escura, ele discou o número do Uzumaki:

— Sasuke? – a voz profunda soou duvidosa.

— Quem mais seria? – ele rolou os olhos com a estupidez do outro.

— Não sei. Você raramente me liga. – confuso. – Hoje você não estaria em um dia exclusivo para a sua família?

— Você está ocupado? – ele ignorou a pergunta do homem.

— Estava escrevendo o novo livro que vou lançar, mas não é urgente. – ele completou antes que o moreno dissesse que queria desligar.

— Hn. – respondeu, sem fazer questão de puxar assunto. Ele não sabia o que dizer especificamente, sem parecer carente de atenção, então, preferiu se manter quieto.

Naruto parecia adivinhar que ele precisava de um momento para se distrair, porque deu um riso leve, antes de perguntar:

— Você já está em casa? – indagou, sem esconder a curiosidade.

O corvo sabia que o amante estava tentando ser cuidadoso com as indagações, ele apenas não entendia porque o loiro estava agindo tão ponderado, assim, de repente.

— Não, ainda estou na mansão dos meus pais. – ele franziu os lábios.

— E como está sendo? – a voz serena acalentava o coração atormentado do Uchiha, era como se o tom rouco e leve amaciasse seu interior constantemente tenso.

— Conturbado... – colocou o antebraço sobre os olhos, suspirando em exaustão. O silêncio do outro lado da linha, logo indicou que o loiro queria que ele explicasse. – Briguei com a minha mãe. – ele mordeu o lábio inferior, ponderando sobre o que dizer e o que não dizer. – Eu disse a ela que meu pai não soube conciliar a vida pessoal da profissional e, por isso, eu não queria ter filhos, para não cometer os mesmos erros. – ele decidiu falar o que estava entalado na sua garganta.

— É por esse motivo mesmo que você não quer? – o Uzumaki perguntou no mesmo timbre que usava em suas consultas, irritando-o consideravelmente.

— O que quer dizer? – franziu as sobrancelhas, enrijecendo a coluna, por causa do tom impessoal.

— Exatamente o que eu perguntei. – ele quase podia imaginar a figura alta e bronzeada do homem dar de ombros tranquilamente.

— Odeio quando você faz isso! – Sasuke rosnou, irado.

— Fazer o quê? – ao longe, o moreno pôde ouvir um farfalhar de tecidos e um mio alto ao longe. – Kurama está dizendo, “oi, papai”! – a frase seguinte quase o fez sorrir, mas ele se controlou, porque ainda estava nervoso.

— Não mude de assunto. – cortou. – Você sempre faz isso. Esse monte de perguntas que eu não posso responder! Isso irrita, Naruto! – ele ergueu a mão onde estava a aliança de casamento, contemplando-a por um tempo.

— Você sabe que pode me responder. É só você pensar um pouco.

— Irônico você me pedir para pensar, quando na verdade quem deveria aprender a raciocinar é você, idiota! – debochou, arrancando um riso do amante, fazendo-o sorrir também.

— Eu posso não me lembrar de coisas básicas como desligar o fogo do leite de manhã, antes de sair de casa, mas posso te garantir que sou mais esclarecido que você. A minha vida não é tão bagunçada quanto a sua e se eu tiver algo que precise resolver, eu o farei, independentemente do que digam as outras pessoas.

— Isso porque você não tem uma família; você não tem ninguém para prestar satisfações! – um momento depois, Sasuke se arrependeu do que havia dito. Sabia o quanto o fato de o Uzumaki ser órfão às vezes o machucava. “Hoje eu estou dizendo tanta coisa imprudente”, amaldiçoou-se mentalmente.

— Eu posso não ter uma com o mesmo sangue que o meu, mas os meus amigos sãos como irmãos, Tsunade é minha mãe e Jiraiya é meu pai de consideração... – suspirou. – Enfim, pode não ser a mesma coisa, mas eu os amo como uma família.

— Hn. – o corvo queria pedir desculpas, mas o orgulho o impedia.

— Bem... – a voz do amante soou despreocupada e preguiçosa, mas ele sabia que algo estava errado. – Se você não tem nada de importante a dizer, eu vou desligar, porque tenho trabalho para fazer... – não dando tempo para o corvo retrucar, ele continuou. – Nos falamos depois! – e desligou.

Sasuke encarou o telefone totalmente surpreendido.

Ele se levantou em um rompante, não gostando de como a ligação terminou, repleta de palavras não concluídas pelo outro. Isso nunca havia acontecido no passado, porque o Uzumaki era um falante incorrigível e, se a ligação havia terminado do jeito que terminou, só podia significar que havia chateado o loiro. Decidido a conversar com ele depois sobre esse impasse, o Uchiha tinha certeza de que tudo se resolveria quando ele explicasse que não queria dizer o que disse – literalmente.

No fundo, ele se sentia nervoso, porque raramente o homem de olhos azuis ficava triste ou aborrecido com alguma coisa que o moreno tenha feito ou dito. Inúmeras vezes eles tiveram brigas mais sérias e mesmo assim nunca acabavam a discussão como no caso desse telefonema em especial. Ambos sempre se resolviam logo que percebiam que a troca de farpas estava ficando realmente grave, com pequenos gestos que simbolizavam um mudo pedido de desculpas. Naruto jamais fugia de uma luta, mesmo quando estava errado, porque ele acreditava que por mais desnecessário que fosse o diálogo, as pessoas envolvidas precisavam se entender para minimizar mal-entendidos futuros.

Em pensar que só queria relaxar um pouco com o timbre rouco e tranquilo do seu amante...

Ele apoiou o cotovelo nos joelhos e afundou o rosto nas mãos, tomando algumas respirações profundas para tentar limpar a mente das preocupações que agora estavam agitando a sua cabeça... Por mais que ele tentasse fazer tudo certo para agradar a todos, Sasuke ainda sentia como se estivesse fazendo algo muito precipitado.

Notas finais
Porsche Design¹ - marca alemã de roupas, calçados e acessórios da empresa Porsche, fabricante de automóveis. Otouto² - irmão mais novo. Chan³ - emprega-se para demonstrar informalidade, confiança, afinidade ou segurança para com uma pessoa, não obrigatoriamente do sexo feminino. Otou-san⁴ - pai. San⁵ - usado para se referir a alguém de mesma faixa etária ou hierarquia profissional. Aplica-se tanto a homens como a mulheres, e a tradução mais próxima ao português é senhor e senhora. Kami-sama⁶ – deus. Kun⁷ - utilizado quando existe algum nível de intimidade, obrigatoriamente usado para nomes masculinos.