Notas iniciais
Olá! Mais um capítulo para vocês.

“No fundo, não há bons nem maus. Há apenas os que sentem prazer em fazer o bem e os que sentem prazer em fazer o mal. Tudo é volúpia.”
Mário Quintana

Senti meu corpo despertar aos poucos, era como se meus membros estivessem atrofiados, mas não conseguia abrir meus olhos, pareciam pesados demais para isso, nem ao menos podia me mexer. Fui tentando acumular mais energia para que pudesse fazê-lo, mas foi realmente difícil.

Quando consegui sentir todas as partes de meu corpo em funcionamento, mesmo que limitado, abri o olho, percebendo uma relativa para que as coisas entrassem em foco, mas quando entraram, mesmo com a fraca iluminação da pequena fresta de luz que passava pela cortina e iluminava o suficiente para que eu visse alguns detalhes e soubesse que não estava em casa.

Virei um pouco minha cabeça, com um pouco de dificuldade e avistei meu irmão sentado em uma cadeira não tão longe de onde me encontrava deitada, estava com a cabeça pendida para trás, a tamborilar os dedos nas pernas, ele parecia extremamente entediado.

Tentei chamar seu nome, contudo, não conseguia, apenas um barulho estranho e baixo saía por minha garganta seca e este foi o suficiente para chamar sua atenção.

–Acordou. Finalmente. Estava imaginando se ficaria assim para sempre. — Comentou ao levantar a cabeça e me olhar e assim pude captar um tanto de alívio e surpresa.

Apenas balancei lentamente minha cabeça para assentir, não conseguindo entender o porquê de suas palavras, nem de sua reação, muito menos o que fazia ali e o motivo daquilo, mas sem ter forças para fazer mais do que gestos.

Vi que ele me analisava e após o que me pareceu um grande período, ouvi novamente sua voz. — Vou buscar algo para você, espere um pouco. — Disse, dando a impressão que eu teria alguma outra escolha, saindo do quarto logo em seguida.

Quase peguei novamente no sono, mesmo sem querer, Nunca havia me sentido tão debilitada e necessitada de sangue como sentia naquele instante, a não ser logo após minha transformação.

– Aqui está sua refeição. — Rick anunciou ao voltar, junto de um cheiro extremamente familiar e gostoso, além de chamativo. Derramou um pouco do líquido escarlate em minha boca, e este me pareceu realmente fresco, sendo despejado pouco a pouco em minhum poucoe sujando os cantos de minha boca, bem como a cama embaixo de mim.

Não sei se era porque estava com fome, mas aquilo estava simplesmente delicioso, tanto, que não deixei sequer uma gota para trás.
Tomei aquele pouco de sangue tão rápido que não deu nem para o cheiro, me senti um pouco mais revigorada, porém, necessitava de mais, muito mais do que apenas aquela tigela comportava.

– Mais — Implorei assim que consegui me pronunciar e o loiro sorriu para mim, indo buscar o que lhe pedia com tanto fulgor.

Bebi várias tigelas, nem todas tinham o mesmo gosto, algumas eram mais amargas que outras, mas considerava todas maravilhosas. — Onde estamos? — Questionei Rick, que agora havia se sentado na cama e observava atenciosamente meu desespero com relação a comida.

– Estamos em Los Angeles. — Respondeu, me surpreendendo e dando ainda mais margem para que continuassem pensando naquilo como sonho, mesmo assim perguntei. — Como assim em Los Angeles? Não me lembro de ter vindo até aqui, não me recordo nem mesmo de ter saído de Zurique, como posso estar na Califórnia? E qual o motivo disso?

– Estamos aqui por causa da sua repentina vontade de se tornar uma bela adormecida. Sabe, arrumou um grande problema, achamos até que não iria voltar mais, depois de três meses...

Minha atenção parou de fazer seu papel assim que ouvi as palavras "três meses". Não podia acreditar que tinha ficado todo esse tempo dormindo, não fazia o menor sentido, vampiros não precisavam de tanto tempo de sono, apenas umas poucas horas para ajudar na restauração da energia e também acelerando no processo de adaptação do que era ingerido, tornando o sangue humano uma real parte de nós, de nosso próprio organismo.

– Ainda não sabemos como isso ocorreu, mas preferimos te trazer para cá, te deixando longe de tudo o que pudesse estar induzindo este "coma". — Voltei a prestar atenção a tempo de escutá-lo finalizar.

Tinha muitas perguntas a serem feitas, mas sabendo que a maioria não poderia ser respondida, por terem sido baseadas em meus sonhos, o que sequer faria algum sentido para qualquer outra pessoa, me contentei com apenas esta. — E em que lugar de Los Angeles estamos?

O sorriso de meu irmão se abriu. — Venha ver você mesma. — Propôs-me, já se aproximando pra me ajudar a levantar. O efeito do sangue ainda não estava completo e a fraqueza, mesmo não me dominando mais, estava ali, por isso realmente precisei me apoiar nele.

Estava odiando aquele momento "mocinha indefesa", dependente demais para poder se virar sozinha, mas nada podia fazer a respeito, a não ser agradecer por ter despertado enfim. Saímos do quarto e já pude ver uma mesa preta, assim como boa parte da decoração do cômodo.

Não me recordava daquele local e estava prestes a perguntar para Rick, novamente, onde estávamos, quando escutei uma voz conhecida, que já não ouvia desde nosso último encontro na Espanha.

– Então nossa querida princesa acordou. — Me virei e pude vê-lo me olhar com seu característico sorriso debochado.

– Sabe o quanto odeio que me chamem de princesa. — Argumentei, sem me permitir perder a pose, não na frente dele, ou de qualquer outro que não fosse aquele em quem estava me apoiando.

– Exatamente por isso que insisto em te chamar de princesa, além disso, dormiu como uma. — Comentou, rindo logo depois e me fazendo perceber que até sentia certa falta daquela risada.

– É o que parece... — Disse, mesmo que aquilo ainda não me parecesse cabível.

– Não se lembra de nada que possa ter te feito "apagar"? — Drew me questionou com curiosidade.

Pensei um pouco antes de responder, tentando resgatar alguma memória que pudesse me dizer o que acontecera, contanto, a única coisa de que me lembrava eram dos inúmeros sonhos que tive.

– Não, só me recordo de ter me deitado depois da reunião do Conselho e de acordar aqui, morrendo de fome. — Omiti a parte dos sonhos por me parecer inútel e usei um tom levemente acusatório na última parte para mudar de assunto, não queria me lembrar do que havia se passado em minha cabeça.

– Não foi minha culpa. — Se defendeu, com as mãos levantadas. — A única culpada disso é você, que não aceitou uma gota de sangue sequer durante todo o tempo em que esteve aqui.

– Como assim "não aceitava"? Eu estava desacordada, não iria me alimentar por conta própria. — Ergui a voz um tanto quanto indignada.

– Ele está certo Katlyn, nós bem que tentamos te dar algo, mas não aceitou nada, era como se seu corpo se rebelasse e jogasse tudo para fora. — Rick se pronunciou em defesa. — Paramos com nossas tentativas após a quarta ou quinta vez em que você sujou toda a cama e o chão de sangue.

O observei intensamente por alguns instantes, ponderando acreditar ou não em sua versão, pois um coma já era estranho demais para um vampiro, não me lembro de uma só vez em nossa história que já tenha ocorrido, mas recusar sangue era demais para acreditar.

A cada segundo esse história se fazia mais estranha e me perguntava se haveria mais para descobrir dentre seus detalhes, porém, ao som de um coração pulsante junto com o cheiro único e forte de suor com sangue me desliguei de meus devaneios, ficando sedenta, mesmo que tivesse acabado de me alimentar.

Estava se aproximando cada vez mais e quase não me aguentei quando um garoto de cabelos negros e olhos azuis adentrou o espaço onde estávamos.

A única coisa que me impediu de ir até ele, tomar sua garganta de forma ébria, de uma só vez, foi o fato de precisar me apoiar em meu irmão, mas foquei meus olhos em suas veias, que apareciam por baixo da pele branca com tamanha voracidade, extremamente convidativos.

Não costumava ser assim, nunca tinha sentido tamanha vontade de beber sangue da fonte como naquele momento, a não ser pela garota do sonho. Meu auto-controle havia desaparecido e isso era extremamente perigoso, mas talvez se devesse a falta das doses diárias desses últimos tempos.

Ele me olhou atentamente, como se me analisasse, mas as palavras que emitiu não foram destinadas a mim. — Temos um problema.

– E qual seria? — Drew inquiriu e o garoto se virou para ele.

– Uma de nossas clientes foi morta, Amanda acabou de me ligar e disse para te perguntar como proceder.

– Há quanto tempo ela morreu? — Drew a inquiriu.

– Há mais ou menos dez minutos pelo que entendi, eles a estrangulada, mas já foram punidos pelos guardas.

– Interessante... Na verdade, perfeito! Nossa convidada precisa de mais que uns poucos potes de sangue para se recuperar e o que seria melhor que sangue fresco? — O vampiro moreno voltou a falar focando os olhos em mim, provavelmente percebendo o quão desejosa me encontrava.

Notas finais
Espero que tenham gostado e que continuem acompanhando e se não for muito, gostaria de pedir que comentassem, isso me deixaria ainda mais animada a escrever. Bjs!