Notas iniciais
Boa leitura! Espero não ter demorado.

"Riqueza influencia-nos como a água do mar. Quanto mais bebemos, mais sede temos."
Arthur Schopenhauer

Drew não demorou para voltar com um vestido em mãos, uma peça que claramente era de alguém menor do que eu. — Aqui está. — Sorriu para mim galanteador como sempre, mas não me dei ao trabalho de responder, apenas peguei o vestido e o coloquei por cima da roupa que usava, o analisando.

– Onde arrumou isto? Pegou de alguma criança? — Questionei irônica por causa do tamanho e isso o fez rir.
– Uma criança não usaria uma roupa assim, isso eu te garanto. — Respondeu com tom de zombaria, o que me fez revirar os olhos.

Mas o moreno tinha razão, aquele modelo de vestido não era feito para crianças e sim para adolescentes que pretendiam ser sensuais, mas que confundiam o "ser sensual" com o "ser puta", algo muito visto por aí.
Todavia, isso não me importava, afinal, qualquer coisa seria melhor que a que se encontrava em meu corpo naquele instante. Que por um acaso, não se parecia nada com minhas próprias peças.

– Não me deixaram aqui com minhas roupas? — Inquiri, lembrando da grande quantidade de peças em meu closet, achando no mínimo estranho não terem tido tempo para enfiar apenas algumas em uma mala, antes de me trazer para cá.

– Não. Rick me disse que tudo foi feito às pressas e como ele mesmo teve de arrumar tudo, acabou se esquecendo desse "pequeno detalhe". — Deu de ombros com naturalidade, entretanto, aquela história não me pareceu cabível.

Não era uma questão tão grave assim, tudo bem que eu havia permanecido dormindo por um longo tempo, mas isso não era motivo para tanta afobação. Poderiam, ao menos, terem se lembrado do essencial. Em especial por ter sido meu irmão a preparar tudo, ele que sempre fora tão organizado.

Resolvi relevar aquilo por hora. Naquele instante, só conseguia pensar em me alimentar novamente, mesmo que já tivesse comido algumas poucas coisas e esvaziado boa parte do reservatório pessoal do moreno.

Ter ficado adormecida por tanto tempo, me deixou com uma apetência sem limites. Nada parecia ser suficiente para me saciar.

– Se arrume logo para podermos ir, sabe como funciona depois que alguém morre dentro de um "estabelecimento comercial". — Me apressou, revirando os olhos ao se referir à seu negócio assim como humanos fariam.

– Sim, somos obrigados a arrumar tudo, nos livrarmos do corpo, encobrir pistas, cuidar de testemunhas, o que dá um pouco de trabalho... — Citei o procedimento já conhecido, que fazíamos juntos há alguns anos atrás.

– Nem tanto. — Seu olhar adquiriu uma característica mais sombria. — Já temos um jeito de isso não ser um problema, agora, a questão é o tempo e por falar nele... — Deixou a frase no ar, sabendo que a compreenderia.

– Já estaria trocada se estivesse fora daqui. — Rebati, apontando para a porta.

– Achei que não precisasse disso, afinal, já vi tudo o que tinha para ver — Seu sorriso se abriu. — E posso dizer que sempre achei a vista maravilhosa.

– Só a vista? — Questionei sarcasticamente e o vi se aproximar até que nossos lábios quase se tocassem, seus olhos negros prendendo os meus.

– Não... Você sabe que não. — Ele tentou se aproximar, porém a única coisa de que eu sabia era que aquilo não daria certo, como não deu das últimas vezes. Nossa atração mútua sempre fora palpável, mas éramos parecidos demais e mesmo que não tivéssemos algo sério e nunca pretendessemos ter, isso se tornava não apenas bom, mas também destrutivo.

– Sim e é por isso mesmo que quero você lá fora. — Disse o empurrando e sorrindo triunfante.

– Isso foi golpe baixo. — Sua expressão mostrava uma mágoa tão fingida que me fez gargalhar.

– Minha marca registrada. — Complementei enquanto observava o moreno se retirar rindo.

Olhei novamente para a peça de roupa ao meu lado, suspirando por ter que vestir algo tão deselegante quanto vulgar, mas me dei por vencida e me levantei, retirando minhas próprias e colocando aquela em seu lugar.

Saí do quarto indo até o banheiro, me olhar e agradeci pelo fato de ter pernas e uma barriga tão definidas, pois os detalhes — mais conhecidos como rasgos — deixavam boa parte de meu corpo a mostra.

Senti-me ser observada e olhei para a porta do banheiro, que continuava entreaberta, visualizando o garoto de olhos azuis de mais cedo. Não estava mais com tanta fome, mas ainda sentia o cheiro maravilhoso que seu corpo vivo tinha.

– O que está olhando? — Perguntei, mas claramente ele analisava o mesmo que eu.

– Só me pediram para subir e ver se tinha terminado de se vestir. — Seus olhos passeiam por meu corpo lentamente. — Pelo que vejo, a resposta é sim.

Sua insolência era tamanha e isso me fez levantar uma sobrancelha. — Onde eles estão?

– A te esperar, na sala. — Respondeu mais do que pronto.

– Tudo bem, já sei o caminho, você pode ir. — Dispensei-o e ele foi.

Era incrível como ele se dirigia a nós como um igual. Geralmente, todos os humanos tínham o mínimo de respeito e reverência, entretanto, ele se demonstrava assim apenas com relação a Drew.

Saí do banheiro e me dirigi para a sala de estar, onde os três me esperavam impacientemente. — Já era hora. — Meu irmão falou.

– Oh! Demorei? — Inquiri retoricamente, colocando a mão em meu peito teatralmente. — Me desculpa.

– Vamos. — Me respondeu com o tom repreensor, de costume, seguindo para o lado de fora logo em seguida, lá encontramos um carro prata, esporte, não consegui identificar qual, afinal, nunca havia sido fã de carros.

Adentramos ao automóvel, eu e Rick na parte de trás, Drew no banco da frente, como passageiro e o humano como o condutor. O silêncio tomou conta do espaço e me pus a observar a paisagem.

Los Angeles era uma cidade relativamente conhecida, já tinha me instalado em Santa Monica uma vez, por dois meses e neste pequeno espaço de tempo, me deslocava com frequência pelo condado de L.A.

Ainda me lembrava das praias, da vida noturna e principalmente dos passeios por City of Dark Angels, Hollywood, eu realmente me divertia muito nos pubs que existiam por lá e arrumava alvos fáceis devido ao fanatismo por minha espécie.

Tentei me localizar pelas placas e por um tempo falhei, até entrarmos no centro da cidade, todo iluminado e cheio de pessoas a transita Ao ver a escrita "exit Hollywood Blvd west" fiquei radiante, já imaginando qual seria o nosso destino e pensando em quão inteligente Drew havia sido em fazer algo exatamente ali. Era o local perfeito.

Não demorou mais de dez minutos para chegarmos ao nosso destino e como havia imaginado, era uma das muitas casas noturnas da região, a diferença era que dentro, podia sentir o cheiro de sangue no ar e para onde olhasse, via vampiros e humanos juntos. Uma mistura no mínimo arriscada.

– Como conseguiu? — Me virei para Drew para perguntar.

– O que? — Levantou sua sobrancelha.

– São muitos humanos para controlar. Como faz isso? -Inquiri novamente, deixando clara a minha curiosidade.

– Lucy. — Falou apenas e franzi meus olhos ligeiramente, mostrando minha ignorância sobre quem era esta, então ele continuou. — Ela é química, me ajuda em algumas questões, inclusive no monitoramento e contenção do ambiente.

– E como podem fazer isso? — Quis saber.

– Inibidores PKMzeta, uma das proteínas que faz a ligação dos neurônios, possibilitando que nos lembremos das coisas. — Explicou-me. — A substância é ingerida por todos ao saírem daqui, como uma cortesia da casa, os que não aceitam beber são induzido, pois se eles não se lembram, não precisaremos nos preocupar.

– Hum. — Foi a única coisa que disse, mas muitas coisas se passavam em minha mente, como por exemplo o como seus técnica e habitos haviam mudado, o moreno estava se sofisticando cada vez mais e a lembrança de suas palavras de mais cedo me vieram em mente.

Realmente tudo o que disse não era mais um problema para ele.
Ele nos guiou até o fundo do local e nos colocou para dentro de uma sala pequena, que dava para uma escada. Nós a subimos e assim que chegamos até a parte de cima, minhas pernas travaram, não conseguindo acreditar no que via.

– Ainda bem que chegaram, já estava pensando por quanto tempo teria de ficar de babá. — A garota de cabelos castanho-claros falou.

– Onde está ela? — Drew demandou.

– No estoque, mas não vai poder ficar lá por muito tempo. — Ela replicou séria enquanto eu a observava. Ela era a mesma de meu sonho, não me lembrava de muita coisa, pois quando acordei, havia sido como se uma borracha fosse passada em minha mente. Contudo, ela era algo do qual não tinha me esquecido, seus olhos suplicantes, o cheiro irresistível do líquido carmerim, que a cobria quase por inteira.

O moreno assentiu e retomou seus passos, mas não o segui, somente quando ouvi a voz de meu irmão em meu ouvido foi que consegui sair de meu estado de torpor. — Está tudo bem?

– Sim, só tive uma sensação estranha, só isso. — Retorqui, decidindo verificar isso depois. Com um pouco de dificuldade, continuando meu caminho atrás de Drew, passando direto pela garota que aparentemente trabalhava ali. Senti seu cheiro e tive vontade de atacar, mas não podia, tive que me conter para ter a oportunidade de mais tarde, ter minha curiosidade sanada.

Apressei meus passos para resistir ao impulso e pude ver o moreno há poucos metros, ao lado de uma porta aberta, me dirigi até lá e vi um corpo no chão. O odor me alertava de que não estaria tão apetitoso como o da criatura de meu sonho.

Afastei este pensamento da cabeça, me concentrando no cadáver a minha frente, me ajoelhei ao seu lado, observando a face inexpressiva e imaginando o quão maravilhoso seria matá-la, ver a vida lhe escapar, sentir sua energia e força indo embora, entretanto, teria de me contentar com um corpo inanimado.

Procurei a área de coloração arroxeada da pele, consequentemente a que teria mais concentração do sangue, verificando que era a das pernas, minhas presas se libertaram e pude sentir meu corpo se preparar para trabalhar com esta substância que me faria farta.

Notas finais
Por favor pessoal, comentem o que estão achando, Ok? Bjs!