Notas iniciais
Créditos do início da história à Iara de Araújo Soares. Esse capítulo foi postado em agradecimento à todos os meus leitores, principalmente os que comentaram e, é dedicado à Gleek Camila. Obrigada por favoritar a história.

Fiquei encarando a polícia por um tempo que pareceu uma eternidade. Já estava começando a inventar mil e uma alternativas para me livrar daquela confusão. O que eu faria? Mentiria minha idade? Correria e pularia a janela? Mostraria minha identidade falsa? Decidi, por fim, fazer o certo. Quando havíamos acabado de descer todos os andares, eu dei sinal de que começaria a falar e eles deram um sinal para que eu entrasse no carro. Abri a porta. Entrei. Meu coração gelou quando vi dois rostos conhecidos. Eu não sabia se queria morrer, sair correndo dali ou simplesmente que tudo aquilo fosse um pesadelo. Mas, novamente, não era. Eu não sabia o que dizer. Aqueles olhares me deixaram com muito medo do que viria a seguir.

- Vóv... – Não consegui terminar, se não, começaria a chorar. Me segurei e continuei. – O que vocês estão fazendo aqui? – Perguntei, fechando a porta do carro e me sentando. Teria que me preparar para o que aconteceria depois da nossa provavelmente longa conversa.

- Nós não diremos uma palavra até chegarmos a nosso destino. – Disse meu irmão, num tom mais formal que o comum. No mesmo momento o carro começou a se mover.

- Muito obrigada Nicholas! – Disse, num tom irônico. – Mas eu acho que você não se chama Dona Georgia. – eu disse, olhando pra minha avó. Era estranho chama-la pelo nome, sabendo que também é o nome de um país da Europa pelo qual eu já passei. Coisas constrangedoras pro sinal, mas isso não vem ao caso.

- Não seja mal educada, menina. – Disse minha vó. – E nunca me chame de dona, eu não sou velha. – Completou. Quase sorri, mas me lembrei que tinha que estar brava com ela, e não feliz e nem surpresa por vê-la.

- Ok, vocês podem pelo menos me dizer pra onde estamos indo? – Perguntei, pondo a mão no rosto.

- Ah, claro que podemos mana. – Disse Nicholas, num tom que não pude discernir se era irônico ou verdadeiro. Meu irmão sempre era assim, e eu tinha me acostumado. – Você irá adorar o lugar para o qual estamos indo.

***

Chegamos ao lugar. Deuses, como eu queria sair correndo. Fazia anos que eu não ia àquele lugar, mas ainda me lembrava como ele fazia eu me sentir. Uma hora, feliz. Mas, logo após, a felicidade me era arrancada por um demônio loiro. Um demônio loiro chamado... Como era o nome dela mesmo? Tawny? Tracy? Realmente não me lembrava, só sabia que o nome dela começava com a letra T. De repente, a porta se abriu. Vi ali um homem de meia idade, que estava muito bem, por sinal. Tinha os mesmos cabelos encaracolados de muito tempo atrás. Os mesmos olhos castanhos esverdeados de sempre. Olhos lindos que me causavam inveja. Quantas mágoas haviam guardado? Quantas alegrias? Tinha pouca altura, mas, como todos, era mais alto que eu. Tinha um bom porte físico pra idade que aparentava e algumas linhas de expressão. Tinha covinhas, que me deixaram louca a ponto de, digamos, “me abrir” para ele. Se não fosse da família, claro. Ele deu um sorriso, surpreso. Ninguém disse nada, então, resolvi quebrar o silêncio.

- Oi tio Shue. – Disse, com um meio sorriso, acenando. – Como vai o senhor? – Ok, eu sei que foi idiota, mas foi o máximo que consegui fazer. Shue não é o nome dele. Shue é apelido de Shuester. William Shuester é nome pelo qual ele atendia. Fazia muito tempo que não via aquele rosto tão amigável e que me passava tanta tranquilidade. A mesma tranquilidade que seu irmão, meu pai, me passava. Estava com medo do que estava pra acontecer. Por que me levaram à casa do tio? Interrompi meus pensamentos quando tio Will olhou a todos nós e nos fez sinal de entrar. Entramos e nos sentamos no sofá.

- Então... – Eu novamente quebrara o silêncio que pairava sobre o ambiente. – Já chegamos ao nosso destino, certo? Agora, vocês podem, por favor, me contar o que está acontecendo? – Disse em um tom alterado.

- Eu concordo com a Jessie. – Disse meu tio Will, num tom sempre paciente. Me surpreendi de como, depois de tantos anos, ele ainda se lembrava do meu nome. Quis perguntar, mas me contive. – Eu também estou muito confuso em relação ao por quê vocês estão aqui. No pleno ano letivo. Em plena segunda feira, aliás. – Disse. Ele tinha um rosto realmente expressivo, sempre levantava e abaixava as sobrancelhas ao falar.

- Obrigada. – Eu disse. – Alguém aqui me entende. – Terminei e fizemos um toquinho.

- Você não tem o direito de pedir nenhuma explicação, senhorita. – Disse minha avó. – Já aprontou demais e é por isso que estamos aqui na casa do seu tio.

- O que ela fez de tão ruim assim? – Perguntou tio Shue.

- O que ela fez tio? – Disse meu irmão. – Ela simplesmente...

- Eu fugi de casa. – Falei, cortando-o.

- O que? – Perguntou meu tio, indignado. – Por que fez isso, Jessie?

- É isso mesmo Will. Só por que o pai dela morreu, ela acha que pode dar desgosto pra ele. – Disse minha vó, num tom alterado e amargo.

- Eu dou desgosto pro meu pai? – Disse, me levantando. Agora, tudo que estava ali guardado há dias sairia. Não importa como, mas sairia. – Agora vocês não vão me interromper, por que eu vou falar tudo. Não sou eu quem deu desgosto pro meu pai, tio Shue. – Disse, voltando minha atenção para ele. – Foram esses dois aí. Sabe o que eles fizeram? Simplesmente decidiram que seria melhor pra mim me colocarem em um colégio só pra garotas. Na Escócia. Por que? Segundo eles, por que seria mais fácil de eu superar a morte do papai. – Me virei pra eles de novo, meus olhos estavam vermelhos e lágrimas escorriam, não sabia se eram de raiva ou tristeza. Talvez os dois juntos. Percebi que eles estavam atônitos com a maneira que eu estava agindo. Até mesmo tio Shue estava. É que, normalmente, eu costumo ser uma pessoa muito amável e fofa. E, literalmente, quieta. É por que guardo todo o sentimento ruim que sinto dentro de mim e só mostro os bons. É o que as pessoas deveriam fazer, não esconder os ruins, mas demonstrar todo e qualquer tipo de sentimento. Assim, o mundo seria mais vivo. Mais espontâneo. Mais HUMANO. – Quem vocês acham que eu sou? Ou melhor, o que vocês acham que eu sou? Eu era a filha dele, tá legal?! Eu SOU a filha dele. A única menina. A princesinha. E vocês e acharam no direito de arrancar a memória dele de mim à força. Já não basta a própria vida tê-lo levado? Ok, eu errei em ter fugido, mas, se eu tivesse ficado, vocês teriam me ouvido? – Um silêncio pairou sobre a sala com a pausa que fiz. – Óbvio que não. Quem cala consente, não é assim que a senhora fala, vovó? Se é que posso chama-la assim. E você Nick, achei que éramos parceiros, principalmente agora que papai se foi. Eu realmente estou decepcionada com vocês. – Foi assim que terminei meu discurso. Muitas lágrimas rolaram durante ele, mês nenhuma após. Senti como se um peso fosse tirado de minhas costas. Me sentei novamente. No mesmo instante, ouvimos o barulho da porta se abrindo e uma voz doce dizendo:

- Will, será que você pode me ajudar com as compras. – Tio Shue se levantou e foi até a moça ruiva. Me surpreendi quando ele deu um beijo em sua boca, já que a mulher de titio é loira. No mesmo instante, rodeei meus olhos pela sala e percebi que todas as fotos contendo aquela bruxa haviam sido removidas. – Obrigada amor, isso tudo está realmente pesad... – Parou de falar no mesmo instante em que seus olhos, grandes e brilhantes olhos verdes, cruzaram a sala e viram três olhares curiosos para ela. Ela era realmente linda e me passava uma boa impressão. Diferentemente daquela Travis. Trace. Ah, sei lá, só sei que ela parecia ser uma boa pessoa. – Amor, você não me avisou que teríamos visitas hoje... – Ela disse, num tom baixo na esperança de que apenas ele a ouvisse. Não deu certo.

- É por que nem eu sabia que eles viriam. – Disse titio. – Mas, deixa eu te apresentar: Esses são Nick, Georgia e Jessie. Nick e Jessie são meus sobrinhos e Georgia é a avó deles. Pessoal, essa é Emma, minha esposa. – Disse titio, com um sorriso bobo, parecendo ter se esquecido do drama que havia vivido segundos atrás.

- Olá. – Disse Emma. – Podem me chamar de Em. Muito prazer em conhecê-los e eu realmente sinto muito por Ethan. – Esse era o nome de meu pai. Ethan Devian Shuester Strayder. Por um momento, tio Shue pareceu lembrar-se do real motivo de estarmos reunidos ali. E Emma também. – Se vocês me dão licença, eu vou preparar o jantar. – Disse, saindo do recinto.

- O que aconteceu com a Tracy? Tranny? Enfim, o que aconteceu com sua esposa loira que mais parecia uma górgona, tio Shue? – Perguntei.

- É Terry. – Disse ele, entre risos, me corrigindo.

- Tanto faz. O que aconteceu à ela? – Perguntei, ainda curiosa.

- Ela me enganou e eu a deixei. Longa história. Talvez fique pra depois do jantar, mas, voltando ao assunto que os trouxe aqui... Eu também não achei certo o que vocês fizeram à Jessie. Ela é só uma criança. Separá-la da família para ela superar a morte do próprio pai? Onde vocês estavam com a cabeça?

- Ok, nós realmente agimos errado e por impulso. – Disse minha vó. – Mas eu pensei que isso seria o melhor pra você, filha. Me desculpa, mas você não acha que a vovó também não tem o direito de errar às vezes? – Disse ela com lágrimas nos olhos. Não aguentei e fui abraça-la.

- Claro que pode, vó. – Disse, apertando-a fortemente. – Todos nós podemos. O importante é reconhecer o erro e pedir desculpas por tê-lo cometido, que são duas coisas dificílimas de serem feitas. – Tio Shue me olhou, assustado, provavelmente por causa de meu vocabulário. Meu irmão se juntou ao abraço e Tio Will não pôde deixar de fazer o mesmo. Depois de um tempo, longo tempo, nós nos separamos. Então, Nick disse, quebrando o silêncio:

- Mas você também não foi totalmente sincera, né mana?

- Como assim? – Perguntou Tio Shue. – O que você AINDA têm a dizer, moça?

- Errr... – Disse, envergonhada. – Então tio, eu peguei a antiga moto do meu pai, que é minha por herança, cuja a qual não tenho licença para usar, apesar de saber usá-la muito bem, por que ainda tenho 15 anos, mas já vou fazer 16.

- Ah, agora eu entendi o por quê de vocês terem vindo no carro da polícia. – Disse Will e quase ri. Suas expressões eram muito engraçadas. Seu sotaque americano de Ohio também.

- Espera, ainda tem mais. – Disse vovó, com sinal de me dar a palavra. Tio will me olhou de um jeito como se dissesse: “Ah, ainda tem mais?” e eu sei que ele dizia isso por dentro.

- É, então, eu forjei, faz tempo, uma identidade e carteira de motorista, o que me permitiu conseguir um emprego e morar sozinha. Por um dia e meio, mas foi sozinha.

- E, eu posso saber onde, diabos, aceitaram uma garotinha como você? Porque, mesmo com identidade falsa e maquiagem, você se parece com uma garota da sua idade.

- William McKinley High School. O diretor de lá é um idiota e me contratou por que eu ofereci os meus serviços por 4/5 do salário. Além disso, ele é muito tarado, e... – Não pude continuar ao ver a cara que tio Shue fez quando eu disse tudo isso. Ele estava tônito.

- Espera, você foi contratada no McKinley? Pelo Figgins? E eu não fiquei sabendo? E como assim tarado? – Perguntou titio, dessa vez, num tom de voz alterado e severo. Tanto, que Emma apareceu na sala.

- É isso mesmo. O tal de diretor Figgins que me contratou. Como o senhor o conhece?

- Ah, nada de mais – Disse ele. – É só que eu TRABALHO LÁ.

- Ah, meus deuses, mais essa? –Disse Nick.

- É tio Shue, eu trabalho lá, ou melhor, trabalhava né. Acho que agora que vocês me descobriram, vão me levar pra Califórnia. Não, pior, vão me levar pra Escócia como castigo, né?

- Claro que não menina. – Disse minha vó, pra minha surpresa. – Você endoidou, é? Pra que você acha que a trouxemos aqui?

- Como assim? – Eu disse. – Não estou entendendo aonde a senhora quer chagar.

- Primeiramente – disse vovó – nunca me chame de senhora, menina, já lhe disse isso. – Não aguentei. Dessa vez, pôde-se notar um leve sorriso em meu rosto. – Segundo, nós estamos aqui por que, eu acho que você realmente deve ficar longe da Califórnia por um tempo. – Meu sorriso esvaiu-se rapidamente. Depois de tudo aquilo, ela ainda teria coragem de me mandar pra Escócia? Será que vovó era tão sem coração àquele ponto? Não, me impedi de pensar naquilo e a deixei continuar. – Mas, não acho mais que deve ficar longe da família. Por isso...

- Se o tio Will aceitar, você irá morar aqui com ele, pronto falei. – Interrompeu meu irmão, como sempre fazia. Ele nunca se aguentava, ele tinha que falar. E eu o entendia. Só que não podia acreditar. Eu poderia morar em Ohio? Na casa do meu tio? Pelo amor de Zeus, que ele aceitasse.

- Isso é sério? – Disse, surpresa. – Não, não pode ser. – Disse, novamente, mais alegra ainda.

- Calma menina. – Disse vovó. – Seu Tio ainda tem que aceitar. E então, o que me diz Wlliam?

Nesse momento, fiz uma carinha de gato de botas pro meu tio, que implorava para que ele aceitasse.

- Bom, da minha parte, está tudo certo. – Disse meu tio. – E você, em, o que me diz?

Virei-me para Emma. Era aquele o momento. Onde a minha impressão dela ficaria pra sempre. Boa ou ruim.

- Então... – Disse ela, e eu senti meu coração gelar e pular mais descompassadamente ainda. – Sempre quis ter uma filha mesmo. Por mim está tudo bem. Eu aceito sim.

Não podia acreditar. Pulei de alegria e fui abraça-la no mesmo momento. Tio Shue, Nick e vovó se juntaram conosco no mesmo instante. Pela primeira vez, desde que meu pai se fora, eu me sentia em família. Depois de um tempo, nos separamos, com um cheiro de queimado vindo da cozinha. Emma correu para desligar o fogo e a sala foi tomada pelo doce som de nossas risadas.

***

Todos estavam se dirigindo à sala de jantar, quando titio me puxou pro canto e me questionou sobre Figgins. Perguntou sobre como ele não havia descoberto minha identidade e do por que eu havia dito que ele era tarado. Sobre o assunto do tarado, desconversei, mas expliquei à ele que na, na minha identidade falsa, eu só estava registrada com o sobrenome de minha mãe, por isso ninguém havia desconfiado sobre nosso parentesco. Ele apenas aceitou, um pouco desconfiado e fomos jantar, todos nós, afinal, já estava tarde. Acabamos por decidir que Vovó e Nick partiriam logo pela manhã e que no dia seguinte, resolveríamos sobre a escola.

Foi um jantar agradável e logo após, todos fomos dormir. Deitei-me no sofá e logo fui acolhida por Morfeu. O dia seguinte prometia.

Notas finais
Gente, esse capítulo foi meio ruinzinho, mas o próximo estará melhor, principalmente pelas músicas. Roqueiros de plantão, preparem-se.