Destinos Cruzados
1 Capítulo I.
Notas iniciais
Capítulo I.
Youth – Daughter.
“Sombras se acomodam sobre o lugar que você deixou, nossas mentes estão aflitas com o vazio. Destrua o meio, é um desperdício de tempo, do início perfeito, para a linha de chegada.”
Eu encarei Charlie descrente, não era a primeira vez que conversávamos sobre contar a verdade para Edward e nenhuma delas ele havia concordado. No entanto, aqui estava ele, observando meu braço refém curado, enquanto me dizia que eu devia ir até Edward e contar a ele que eu não era, nem de longe, tão frágil e tão nova quanto parecia.
– Então, você concorda? – Eu perguntei novamente enquanto retirava do fundo do guarda-roupa uma mala com antigas roupas, de uma antiga Isabella.
– Não exatamente. – Ele cruzou os braços, a expressão fechada e dura. – Mas não há opções para você, não é? E além do mais, eu só quero te ver bem. – Ele gesticulou em minha direção e em seguida para a outra de roupa que eu separava. – Precisa mesmo disso? Fazia tempo que eu não te via vestida assim.
Balancei a cabeça e ergui nas mãos a troca separada. Uma calça escura e justa e uma blusa de mangas também preta.
– Ele não acreditaria se me visse de jeans e casaco. – Eu dei de ombros com um sorriso de lado. – Não se preocupe Charlie. Nós dois sabemos que Edward não é exatamente a coisa mais perigosa que existe em Forks.
Ele arqueou uma sobrancelha e me deu um sorriso irônico, então inclinou a cabeça levemente e saiu do quarto.
Eu ri baixinho e em seguida me apressei a vestir as roupas. Edward dissera que queria conversar comigo hoje, e pelo modo como ele estava distante, era certo que estava se torturando por Jasper ter quase me atacado. Eu precisava dizer a ele que Jasper não me machucaria, de modo algum. Nem mesmo se quisesse.
Eu estava ansiosa para lhe contar, finalmente sobre mim, sobre mim, sobre quem de verdade era Isabella. Eu precisava dizer a ele.
Eu me aproximei do espelho alto e encarei a mim mesma. Os cabelos estavam mais vivos e avermelhados, minha pele branca parecia mais sedoza do que pela manhã. Era cansativo ser comum. O pensamento presunçoso me faria rir, se não fosse tão verdadeiro. Meu corpo ganhara certas formas que não tinham antes, e as botas me deixavam mais alta. Diferentemente do que Alice pensava, os saltos não me incomodavam, pelo contrário, eu os abraçava como um velho e conhecido amigo.
Assim que desci as escadas, o olhar de Charlie caiu sobre mim e ele sorriu.
– Boa sorte, querida.
Eu assenti para ele e segui para fora da casa, parando dois passos depois, Edward estava displicentemente encostado em seu Volvo, a expressão fria me encarava de um modo estranho, e isso me pertubou levemente. Eu segui em sua direção e seus olhos me analisaram, rapidamente notando a diferença, ele franziu as sobrancelhas, me encarando confuso.
– Oi. – Eu sorri me aproximando e beijando seus lábios.
Edward não retribuiu.
– Vem, vamos dar uma volta. – Foi a única coisa que ele disse e em seguida me deu as voltas caminhando em direção a floresta ao redor da casa. Meu coração perdeu uma batida e eu encarei suas costas enquanto caminhávamos sem dificuldade em direção a floresta ao nosso redor. – Bella, nós estamos indo embora.
Eu suspirei e assenti. Eu sabia que uma hora isso iria acontecer, era por isso que eu estava decidida a contar a verdade. No entanto, eu não sabia porque tão cedo, só fazia um ano que eles estavam em Forks.
– Porque agora? Outro ano...
– Bella, está na hora. Quanto tempo mais poderíamos ficar em Forks, afinal? Carlisle mal pode fingir que tem trinta anos, e agora ele já está dizendo que tem trinta e três. Nós vamos ter que recomeçar tudo de novo em breve, de qualquer jeito.
Eu assenti mais uma vez. Eu sabia disso.
– Edward...
Ele me encarou de volta friamente e arqueou a sobrancelha de um jeito debochado que eu nunca tinha o visto fazer. Com uma onda de náusea, eu percebi que não havia compreendido.
– Quando você diz nós... — eu sussurrei.
– Eu estou falando de minha família e de mim. — Cada palavra era separada e distinta.
Eu balancei minha cabeça mecanicamente, tentando clareá-la. Ele esperou sem nenhum sinal de impaciência.
Levaram alguns minutos até que eu conseguisse responder.
– Tudo bem. — eu disse. — Eu vou com vocês. Eu preciso te contar algo, uma coisa importante. Vai ser tudo diferente.
– Você não pode, Bella. Não vai ser diferente. O lugar pra onde estamos indo...não é o lugar certo pra você.
– Onde você estiver é o lugar certo pra mim.
– Eu não sou bom pra você, Bella.
– Não seja ridículo. — eu queria parecer com raiva, mas minha voz saiu baixa e lenta demais para isso. — Você é a melhor parte da minha vida. – Desde há muito tempo. Quis completar, mas ainda não era o momento.
– Meu mundo não é pra você. — ele disse severamente e eu quis revirar os olhos. Meu mundo era muito pior do que o dele. Edward vivia em uma rodoma e não sabia disso ainda. Eu precisava contar.
– Não, Edward! Me escuta! Isso é ridículo! – Balancei a cabeça. – Não faz sentido, você precisa entender, eu vou te contar...
Ele respirou fundo e encarou, sem ver nada, o chão por um momento. A boca dele se contorceu só um pouquinho. Quando ele finalmente olhou pra cima, seus olhos estavam diferentes, mais duros — como se o ouro líquido tivesse virado sólido.
– Bella, eu não quero que você venha comigo. — Ele falou as palavras lentamente e precisamente, seus olhos frios no meu rosto, observando enquanto eu absorvia o que ele realmente queria dizer.
Houve uma pausa enquanto eu repetia as palavras na minha cabeça algumas vezes, analisando elas pra saber seu verdadeiro significado.
– Você...não...me quer? — Eu tentei as palavras, confusa pela forma como elas soavam, colocadas em ordem.
– Não.
Eu olhei, sem compreender, dentro dos olhos dele. Ele me encarou de volta sem se arrepender. Seus olhos eram como topázio — duros e claros e muito profundos. Eu senti como se pudesse ver por dentro deles por milhas e milhas, e mesmo assim, ainda não conseguia alcançar o lugar onde encontraria a contradição de suas palavras.
– Bem, as coisas mudam. — Eu fiquei surpresa por como a minha voz soava calma e razoável. Devia ser porque eu estava tão entorpecida.
Eu não conseguia me dar conta do que ele estava me dizendo. Ainda não fazia nenhum sentido. Eu devia ser essa pessoa, a pessoa que magoa. Como eu podia estar sendo dilacerada desse modo? Por Edward Cullen?
– É claro que eu sempre amarei você... de certa forma. Mas o que aconteceu na noite passada me fez perceber que estava na hora de uma mudança. Porque eu estou...cansado de fingir ser uma pessoa que eu não sou, Bella. Eu não sou humano. — Ele olhou de volta, e as formas geladas do seu rosto perfeito eram muito não humanas. — Eu deixei isso ir longe demais, lamento por isso.
– Não lamente. — minha voz era só um sussurro agora; a consciência estava começando a correr como ácido pelas minhas veias. — Não faça isso. Eu não sou fraca como pareço, Edward.
Ele só olhou pra mim, e pude ver pelos seus olhos que minhas palavras estavam atrasadas demais. Ele já tinha feito.
– Você não é boa pra mim, Bella. — ele contornou suas palavras anteriores, então tudo ficou preso na minha garganta, como uma bala presa pela metade, quando você toma litros de água, e ainda assim, ela não desce. — Eu gostaria de te pedir um favor, porém, se não for pedir demais. – ele continuou.
Eu imagino o que ele viu no meu rosto, porque alguma coisa passou pelo rosto dele em resposta. Mas antes que eu conseguisse identificar o que era, ele recompôs o rosto na mesma máscara serena de antes.
– O que é? – Perguntei, minha voz estava levemente mais forte.
Enquanto eu observava, seus olhos congelados se derreteram.
O dourado ficou líquido de novo, derretido, queimando os meus com uma intensidade dominante.
– Não faça nada perigoso ou estúpido. — ele ordenou, não mais imparcial. — Você entendeu o que eu disse? — Eu balancei a cabeça, de repente debochada, com um sorriso lento e sarcástico tomando meu rosto. Seus olhos se esfriaram, a distância retornou. — Eu estou pensando em Charlie, é claro. Ele precisa de você. Tome conta de si mesma — por ele.
– Vou ver o que faço. – Minha voz saiu rouca, baixa e arrastada. Não parecia eu mesma, no entanto, eu já sabia que não era mais Isabella Swan. Meu disfarce, morria ali, naquele momento.
Ele pareceu relaxar só um pouco.
– E eu te farei uma promessa em retorno. — ele disse ignorando minhas ultimas ações. — Prometo que essa será a última vez que você vai me ver. Eu não vou voltar. Eu não vou te envolver em nada assim novamente. Você pode seguir a sua vida sem mais nenhuma interferência da minha parte. Será como se eu nem existisse.
A voz dele soou muito distante.
Ele sorriu gentilmente e eu senti uma náusea me envolver. — Não se preocupe. Você é humana — sua memória é como uma peneira. O tempo curas as feridas para as pessoas da sua espécie. Edward estava errado, mas eu não o contestei mais. Não adiantava contar-lhe nada, eu não confiava nele.
– E as suas memórias? — Eu perguntei. Parecia que havia algo enfiado na minha garganta, como se eu estivesse sufocando.
– Bem... — ele hesitou por um breve segundo — ...Eu não vou esquecer. Mas a minha espécie...nós nos distraímos muito facilmente.
Sim, eu sabia.
Ele sorriu; o sorriso era tranqüilo e não tocou seus olhos.
Ele deu um passo se distanciando de mim. — Isso é tudo, eu suponho. Nós não vamos te incomodar de novo.
Houve uma leve brisa sobrenatural e ele havia ido embora.
Meus joelhos cederam sobre o chão da mata e minhas unhas se fincaram na grama. Depois do que pareceram minutos, notei que eu havia engasgado em meus próprios soluços e me levantei cambaleante, caminhando em direção a casa de Charlie automaticamente. No momento em que encontrei o asfalto e ergui os olhos, ele estava lá. Olhando-me preocupado e algo mais. Um misto de ira e desprezo, certamente não por mim.
– Pai... – Eu comecei, mas ele balançou a cabeça, rapidamente atravessando o espaço entre nós e puxando-me para seus braços.
– Vamos embora, Bella. – Foi só o que ele disse, e eu concordei. — Vai ficar tudo bem. — Garantiu.
Sim, ficaria. Mas, não seria como antes.
“Bem, eu perdi tudo, eu sou apenas uma silhueta, um rosto sem vida que você vai esquecer logo. Meus olhos estão marejados pelas palavras que você deixou, ecoando em minha cabeça, quando você destruiu meu peito.”
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