Destinos Arranjados
4 Segredos Guardados
Notas iniciais
Aquela manhã estava agitada na cidade, muitos tentavam se apertar nas janelas da escola para ouvir o discurso para as crianças e outros tantos tentavam seguir suas rotinas entre uma parada e outra para matar a curiosidade. Parecia que todos estavam mais interessados naquela presença ilustre do que em se concentrar de fato em suas tarefas — em condições normais ela também estaria, mas não hoje. Sua irmã mais velha já deveria ter voltado de viagem há cinco dias, mas até agora não recebera uma notícia sequer. Imaginou que teria ao menos um bom motivo que a fizera se atrasar, mas alguma coisa inexplicável deixava seu coração apertado de aflição. Os guardas da Patrulha a aconselharam esperar mais algum tempo, pois era comum parar constantemente para se abrigar ao redor de uma fogueira. Sabia que eles estavam certos e atentos a quaisquer notícias sobre seu paradeiro, entretanto sentia que algo não estava bem.
Decidiu que procuraria sozinha por novidades nas redondezas, não tinha mais nenhuma família além dela e não a abandonaria no momento em que, supostamente, mais precisasse. Caminhou por horas a fio no dia anterior perguntando a qualquer pessoa que encontrasse sobre algum sinal de sua irmã, mas voltou para casa sem respostas. Acordou cedo e retomou suas buscas pensando em pedir ajuda novamente à Patrulha, porém eles estavam ocupados demais em manter a ordem perante a visita amistosa de Vossa Majestade, a rainha — sua presença era comum aos guerreiros e soldados, não ao restante da população.
Desviou-se das aglomerações e prosseguiu pelo restante da manhã, sem sucesso. Já se iniciava a tarde quando resolveu procurar pela floresta, uma voz interior lhe dizia que ela estava lá e que precisava de socorro. Podia ser apenas a preocupação falando mais alto que o bom senso, não sabia dizer. Certificou-se de estar de posse do seu facão afiado e se pôs a caminhar entre as árvores buscando qualquer pista que a levasse a algum esclarecimento. Rogava aos Deuses que estivesse bem. Mais ao longe percebeu, entre as diversas marcas das pessoas e animais que circulavam por ali, uma mesma pegada possivelmente feminina seguir sozinha cada vez mais fundo em direção à parte escura da floresta.
Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha, mas continuou.
A pessoa que deixara aqueles borrões na neve parecia andar a esmo, dava voltas e mais voltas como se estivesse procurando algo. Já estava cansada e certa de que aquilo não a levaria a lugar algum quando ouviu um barulho distante. Àquela altura a sua visão estava precária devido à falta de claridade, a luz da pequena lamparina que levara consigo não ajudava em muita coisa. Desviou-se das pegadas e seguiu em direção de onde veio o som, o medo fluindo por suas veias.
Já havia percorrido um bom caminho quando sentiu um fedor extremamente forte e a presença de alguém atrás de si, aproximando-se.
Virou-se e sentiu todo o seu sangue sumir. Estava encarando uma criatura grande e peluda, as presas longas e amareladas se destacavam em seu rosto. Seu corpo estava paralisado de medo, no entanto bastou um movimento brusco daquele ser em sua direção para que seus instintos mais primitivos de sobrevivência despertassem. Jogou-se para o lado e brandiu o facão com a pouca habilidade que possuía, acertando-o no braço, porém aquilo sequer se abalou. Seu pulso acelerou e ela reuniu a energia que precisava para correr o mais rápido que podia, se desviando dos galhos e dos socos que o bicho distribuía nas árvores tentando acertá-la enquanto a perseguia.
Tentava gritar por socorro, mas não conseguia, sua voz lhe abandonara. Sua noção geográfica tampouco permanecera, já não tinha ideia de para onde estava indo, onde ficava a saída ou qualquer coisa que pudesse lhe salvar.
Foi nesse momento que viu o que mais temia.
Logo à frente um corpo estava jogado ao chão, inerte e desfigurado. Quis parar de correr para ter certeza, mas suas pernas não obedeciam, o animal estava próximo demais. No segundo que pôde observar em meio às sombras reconheceu as roupas rasgadas como as que sua irmã costumava usar. Uma dor aguda em seu peito fez sua voz voltar aos poucos, seguida de lágrimas grossas e choramingo de desespero. Correu por o que lhe pareceram dias intermináveis em meio ao breu quando um soco em um tronco muito próximo à sua cabeça libertou um grito agudo muito alto que se recusava a sair antes do susto. As árvores estavam menos espaçadas e era difícil fugir quando mal enxergava um palmo à frente do nariz, havia se enfiado no pior lugar que poderia existir naquele momento.
Sentiu uma mão enorme agarrar um de seus tornozelos e puxar com força.
Caiu como uma boneca de pano no chão gelado e duro, gritando. Chocou o rosto contra uma raiz alta e sentiu um gosto forte de ferro espalhar por sua boca. Tentou se levantar, mas uma dor lancinante se espalhou por todo o corpo quando aquela criatura enfiou as presas na panturrilha direita da frágil mulher. Debateu-se com toda a força que conseguiu reunir, mas a dor só aumentava. Berrava em agonia enquanto ele a arrastava com crueldade para um lugar qualquer, parecia divertir-se com o sofrimento dela. Parou e desferiu um soco tão forte em sua barriga que a fez sufocar.
Iria morrer, estava certa disso. Não havia mais como escapar, tampouco quem a ajudasse, sua irmã estava morta... conformou-se, não teria mais motivos para continuar. Olhou para cima para tentar ver o céu uma última vez, todas aquelas folhas e galhos bloqueavam sua visão. Até em seus últimos momentos estava desprovida de sorte. Ele se preparava para dar mais golpes quando uma luz azul iluminou o local em sua direção, certamente era a morte chegando.
Sorriu. Finalmente a dor iria cessar.
Era realmente muito difícil enxergar ali, mirar e acertar estava mais por conta da sorte do que por conta da habilidade. Mesmo assim sua flecha acertou o alvo. Não foi onde ela queria, ele viu a luz e desviou a cabeça alguns centímetros para o lado bem a tempo, porém parte do pescoço e rosto foram atingidos. A besta urrou e disparou com truculência em direção de onde a arma que o atingira saíra. Com uma incrível destreza, Ashe escalou três galhos altos em poucos segundos e concentrou-se, precisava mandar um sinal à Tryndamere. O animal pútrido podia ver seu arco iluminado, não tinha como esconder em meio àquela escuridão, e ao invés de tentar escalar para alcançá-la, ele começou a esmurrar o tronco.
Entrelaçou as pernas com firmeza na ramificação e esperou mais alguns segundos. Quando estava pronta disparou para o alto, vendo as folhas abrirem caminho facilmente para o Espírito do Falcão — um encantamento de gelo em formato de ave — e aquele brilho forte se espalhar sobre a floresta quando explodiu no ar. Rapidamente puxou mais uma flecha da aljava e apontou para seu inimigo, aquela claridade não duraria por muito tempo. Atirou uma vez e acertou-lhe o peito, mas ele continuou de pé; na segunda vez não pôde mirar com precisão e atingiu apenas o ombro da criatura — o tronco estava cedendo e ela precisava se mexer. Pulou de galho em galho tentando gravar a localização do máximo que podia enquanto o efeito do Olhar do Falcão se dissipava e a floresta tornava a imergir em trevas. Posicionou-se atrás da fera, que não parava de proferir grunhidos ensurdecedores de dor e raiva misturados.
Já estava soltando os dedos para efetuar o disparo quando percebeu um vulto tão grande quanto o outro surgir atrás de si e se chocar com força contra o ramo em que se apoiava. Saltou para o alto um segundo antes do impacto, mas uma parte da madeira quebrada acertou em cheio seu joelho esquerdo, fazendo-a desequilibrar-se e bater as costas com força contra um tronco. Agarrou-se a ele e voltou a escalar, mantendo-se longe dos punhos pesados das duas criaturas.
Dois contra um.
Apurou as vistas e, antes que conseguisse preparar a flecha, o segundo bicho saltou em sua direção, agarrando-se aos troncos com voracidade — era mais esperto que o primeiro. Acertou seu abdômen, mas não o deteve. Afastou-se antes que a alcançasse, projetando-se para frente sem saber exatamente se encontraria apoio. Estava prestes a firmar os pés quando sentiu um solavanco a puxar para trás com força: sua capa comprida se enroscara em um galho próximo, rasgando-se com o seu peso em seguida. Tentou se segurar enquanto caía, mas tateou o vazio. Girou no ar e seu ombro foi de encontro à uma madeira fina que rebentou e fez seu estômago bater com estrépito em uma mais firme logo abaixo. Ashe ignorou a dor em suas costelas e pendurou-se novamente para içar-se para longe, porém um deles estava perto demais.
Um golpe pesado atingiu sua coluna, estalando-a.
Seus pulmões se comprimiram e seu corpo rolou pelo chão íngreme. Levantou-se ofegante, tentando recobrar o ar que perdera, já preparando um novo ataque. Esperou ambos estarem em sua pontaria e disparou uma rajada de nove flechas, acertando-os em cheio. O primeiro finalmente desabou, calando-se. O segundo urrava e avançava sem parar, ferido e ensandecido. Correu uma boa distância e parou, queria usar sua concentração para disparar flechas ainda mais rápido.
Aguardou.
A criatura estava a poucos metros quando começou a atirar mais de uma flecha por segundo, acertando vários de seus pontos vitais. Caiu de joelhos aos seus pés, lutando para não deixar que as flechas cravadas em sua garganta e crânio tirassem sua vida — mas a lâmina rápida e afiada que surgiu por trás levou seu último suspiro, degolando-o. Ashe reconhecera seu marido antes mesmo que ele falasse, o brilho esverdeado das suas vestes era facilmente visto no escuro.
– Essas coisas ainda nem esfriaram e já fedem desse jeito, imagine quando estiverem em decomposição — Ela desceu e aterrissou em sua frente com leveza. — Há mais alguém?
– Não sei, acreditei que havia apenas um quando esse outro apareceu, continue atento. Venha comigo — Iluminou o caminho com seu arco até achar novamente a mulher que ouvira gritar. Ela estava desfalecida e ensanguentada, pálida como um fantasma. Agacharam-se ao seu lado e a examinaram. — Ainda está respirando e tem pulso, mas está muito fraca.
– Sabe quem é? Eu já a vi em algum lugar.
– Sei, ela vive aqui na cidade é uma das melhores costureiras que conheço, apesar de tão jovem. Morava e trabalhava junto com a irmã... agora acredito que seja dela o corpo desfigurado que eu vi há pouco — Sentiu um pesar em seu peito, aquela pessoa tinha um bom coração e de repente estava naquela situação horrível, inimaginável. Retirou sua capa enquanto explicava ao rei o que vira antes e a amarrou em torno dos ferimentos profundos na perna dela, apertando com firmeza para estancar a hemorragia. Ele ouviu tudo com atenção; depois pegou-a no colo, estava mole como um pedaço de pano, e voltou para examinar rapidamente aqueles seres. Olhou atentamente para as características peculiares que Ashe iluminava: grandes tufos de pelos no corpo, pele de coloração azulada e repleta de manchas, presas protuberantes e mãos grandes e fortes, além daquele cheiro podre.
– São trolls, agora tenho certeza — Constatou. Pôs-se a caminhar rapidamente para longe dali, a mulher precisava de socorro urgente.
– Trolls? Mas... como? O que fazem aqui? — Ashe parecia alarmada, aquela espécie nunca chegara tão perto de seus domínios e agora estavam lá matando o seu povo. O homem manteve-se calado, pensativo. — Por favor, leve-a para o castelo, o Alto Meistre irá prestar auxílio, não a deixe morrer. Vou cuidar para que recolham o corpo da irmã para dar-lhe um enterro digno.
Já caíra a noite quando a rainha finalmente voltara para o castelo, estava ligeiramente descabelada e cansada, cuidara pessoalmente do enterro e tentou descobrir mais informações acerca dos trolls que invadiram suas terras na surdina, sem êxito. Ninguém vira ou ouvira nada. Era impressionante o quanto tantas coisas assustadoras estavam acontecendo bem debaixo do seu nariz e nenhuma pessoa era capaz de dar uma explicação. Estava prestes a virar a esquina de um corredor perto da enfermaria quando ouviu vozes sussurrantes e três sombras compridas desenharem-se à luz dos archotes. Encostou-se o mais próximo que pôde chegar sem ser vista para escutar o que diziam.
– Eu não acho isso correto, o que vão pensar de nós se descobrirem? — Reconheceu a voz do Comandante, parecia apreensivo.
– E se forem mesmo impostores? E se estiverem sendo controlados por algum feitiço maligno? — O Alto Meistre estava notavelmente temeroso. — Não faremos nada?
– Concordo, eles estão agindo de maneira muito estranha — O Tesoureiro parecia ser o mais calmo dentre os três. — Já os vi aos cochichos pelos cantos e sempre adotavam um ar esquisito quando alguém se aproximava. Em alguns momentos estão totalmente distantes, depois somem por horas juntos uma vez por semana e agora isso? — Notou que os conselheiros estavam se referindo a ela e Tryndamere. Tinha certeza de que desconfiariam da maneira como vinham se comportando, seu marido era mesmo um teimoso.
– Eles salvaram essa pobre moça, não é motivo para supormos que estão tramando coisas ruins ou sendo controlados ou seja lá o que for. Eu não quero arriscar a confiança que os reis depositaram em mim seguindo-os como se fossem criminosos. Também não irei permitir que nenhum dos meus homens se preste a este papel, se quiserem o façam sozinhos — Ashe gostou da atitude do Comandante, era mesmo um homem de valor.
– Você sabe que faremos. Se estivermos certos, evitaremos que o reino seja atingido — O Tesoureiro também foi firme. Sempre fora um homem desconfiado, porém honesto; apesar da atitude, tinha de reconhecer que suas intenções eram boas, a menos que estivessem fingindo. Estava ainda mais certa de que deveriam retomar o plano inicial, só faltava saber se ele concordaria novamente. Ouviu o Comandante desejar boa noite e se afastar na direção oposta.
– Amanhã mesmo eu irei atrás deles, logo após o café da manhã. Fique atento e me avise se descobrir alguma coisa. Tenha um bom descanso, Meistre — Foi-se na mesma direção que o primeiro seguira. A porta da enfermaria rangeu ao abrir-se instantes depois. Aguardou alguns minutos antes de prosseguir seu caminho pela passagem até o leito em que a costureira repousava.
Desviou o olhar vago do teto quando a viu entrar, tentando sentar-se em seguida.
– Por favor, não se esforce, permaneça deitada — Falou com brandura, aproximando-se. — Como está?
– Majestade, minha irmã... Ela... — Não segurou as lágrimas. Cobriu o rosto com as mãos e chorou copiosamente. O Meistre lançou a rainha um olhar entristecido, como se quisesse dizer que não havia mais o que fazer.
– Já cuidamos de tudo, ela foi enterrada com dignidade — Falou com cuidado, tocando seu ombro com as mãos frias. — Poderá ir se despedir quando estiver em condições, no momento precisa de repouso absoluto — A rainha manteve a voz suave, tentando amenizar o sofrimento daquela mulher e o seu próprio.
Queria chorar junto com a pobre moça, mas não podia. Rainhas não se davam ao luxo de cair em prantos, no entanto não deixara de sentir, apenas aprendera a esconder. Percebeu que o estado dela era péssimo. Sua perna estava enfaixada e um liquido esverdeado escorria pela cama — decerto que eram unguentos para os ferimentos profundos; seus lábios inchados e avermelhados contrastavam com diversos hematomas arroxeados por seu rosto, colo e braços. Levaria muito tempo para que se restaurasse totalmente.
– Você ficará aqui no castelo até estar completamente recuperada, não se preocupe com nada — Sentia-se culpada pelo que acontecera, é seu dever proteger os cidadãos da sua tribo e estava falhando.
– Majestade, obrigada — Disse entre soluços. — Vossa Graça me salvou, lhe devo minha vida. É muito corajosa, serei eternamente grata por tudo o que fizera.
Ashe esboçou um sorriso acalentado e reforçou que ficaria tudo bem, queria convencer a si mesma também. Despediu-se dos dois e foi se recolher, tivera um dia cheio e precisava descansar.
Quando finalmente saiu do banho, já vestida, o rei ainda estava acordado, absorto em pensamentos. Observou-a caminhar para sua penteadeira, sentar-se e escovar os cabelos brancos ainda úmidos. Amaldiçoou a si próprio por querer provocá-la e acabar beijando-a, fez com que vontades há muito reprimidas viessem à tona como o início de uma avalanche. Seu humor estava péssimo desde então, sentia-se mais irritado e carrancudo do que o normal e sabia exatamente o porquê: sua esposa era, de longe, a mulher mais linda que ele já vira na vida e não conseguia evitar desejá-la lascivamente — ainda mais depois que sentira tão de perto aquele corpo sinuoso. Entretanto não podia simplesmente rasgar suas roupas e fazê-la sua, como se pegava imaginando várias vezes ultimamente; não queria arriscar por tudo a perder.
Afastou-se dela essas semanas para que pudesse retomar seu controle, mas parecia só piorar. Passou a ter pesadelos com maior frequência e a raiva se acumulava cada vez mais. Deitar ao seu lado e sentir seu cheiro agradável todas as noites já estava se tornando uma tortura para sua cobiça masculina. Mesmo depois do que acontecera, a própria sugerira retomar o plano da lua de mel. Precisava admitir que aquilo o tinha deixado inquieto, sabia que devia prosseguir e estava praticamente convencido que reaproximar-se poderia até melhorar seu estado de nervos.
Voltou sua atenção para a dificuldade que ela estava tendo em passar a pomada no hematoma em suas costas, não alcançava todo o local e se contorcia na frente do espelho. Riu internamente e levantou-se da cama, vestindo apenas a calça de algodão que resolvera adotar — afinal não se controlaria se a pegasse o observando novamente daquela maneira. Sem dizer uma palavra lhe tomou o pequeno pote, pegou um pouco de pomada e começou a passar onde aquelas mãos pequenas não chegavam. Alisou sua pele devagar e cuidadosamente, percebendo que ela o olhava através do espelho. Preferiu não a encarar.
– Como se faz isso? — Perguntou apontando para o penteado alto que ela fizera nos cabelos, enquanto tampava o pote e o devolvia à penteadeira.
– O quê? O coque? — Pareceu surpresa com a pergunta inusitada.
– Sim, isso mesmo. Ensine-me, nem sempre tenho algo em mãos para prender meus cabelos quando preciso — Ashe o olhou por alguns momentos, ele parecia estranhamente calmo e gentil. Levantou-se da cadeira e apontou para que sentasse.
– Bom, você deveria se pentear mais para não ficar tão embaraçado — Pegou a escova e penteou com delicadeza os fios lustrosos. Até mesmo aquele toque despretensioso era instigante para o homem. — Agora você vai juntar os fios, suspender, enrolar e dar um nó assim. Viu como é fácil? Agora tente fazer sozinho.
Tentou por três vezes até fazê-la rir da sua falta de jeito com algo tão bobo, apesar de não ser tão simples quanto parecia, os cabelos dele eram bem mais longos e grossos que os dela. Se conformou com um coque troncho e feio para as primeiras tentativas, porém seu objetivo inicial fora atingindo: estavam se reaproximando. Seguiram juntos para a cama, cada um deitou-se do seu lado habitual, um tanto quanto distantes naquele leito imenso.
– Hoje eu ouvi os três conselheiros conversando, o Tesoureiro planeja nos seguir amanhã pela manhã, está estranhando demais nosso comportamento.
– Que ultraje, vigiados como se fôssemos os errados — Ele pareceu não gostar da atitude do conselheiro, mas não se alterou. — Estive pensando e, com essa nova informação, creio que deveríamos mesmo retomar aquele plano — Ashe sentiu vontade de negar só para fazer pirraça como ele fizera com ela, porém não estavam com tempo para isso.
– Por mim tudo bem. Inclusive, eu gostaria de lhe perguntar uma coisa... — Estava cautelosa, não sabia como ele reagiria ao tocar no assunto. Fez sinal para que prosseguisse. — Porque você não parou quando eu pedi? Quer dizer, você começou a agir estranhamente e… bom, eu achei que tentaria forçar algo — Fitou-o aguardando uma resposta. Ele demorou alguns instantes para responder, soltando um longo suspiro por fim.
– Por que eu não ouvi.
– Como não ouviu? Eu o chamei várias vezes — Estava confusa, não entendia como não poderia tê-la escutado.
– Eu me empolguei e perdi a cabeça, apenas isso. Exagerei — O rei estava relutante, questionou a si mesmo se deveria contar-lhe o que realmente acontecera, mas era bem capaz de odiá-lo e afastá-lo de vez se soubesse. Ou não, aquela mulher era um mistério para ele. Mesmo assim preferiu manter seus segredos onde estavam, apenas o próprio e seu amigo Gragas sabiam a verdade. Ela demorou alguns momentos analisando-o, provavelmente tentando decidir se acreditava no que disseram ou não. A viu fechar lentamente os olhos, o cansaço a vencendo.
– Já que vamos prosseguir com o plano, tente ir com calma da próxima vez — Mal acabara de falar com a voz embargada e já havia caído no sono. Tryndamere sorriu de leve, agradavelmente surpreso, e a observou dormir por alguns minutos antes de virar-se e adormecer.
Havia acordado mais cedo naquela manhã, precisou planejar com cuidado os seus passos para que não fosse descoberto. Já vinha observando os reis de longe há alguns dias, antes mesmo de externar suas suspeitas para os outros conselheiros, e eles pareciam afastados quando estavam à vista das pessoas ao mesmo tempo em que pareciam isolar-se para ficar a sós. Seria compreensível esse comportamento se fossem um casal sentimental que compartilhasse momentos íntimos e desejassem privacidade para tal, mas não eram. Ou será que eram? Pensou.
Os viu entrando sozinhos na floresta no dia anterior, não era tolo para se arriscar indo atrás deles já que não teria nenhum motivo para estar ali. E qual não foi sua surpresa ao ver o rei trazendo nos braços aquela mulher desfalecida e machucada. Lesrie era seu nome, jovem e bonita, devia ter um pouco menos que a idade da rainha. Ficara completamente confuso e desconfiado com aquela história estapafúrdia de que fora atacada por uma fera e que o mesmo matara sua irmã com tanta brutalidade. Que espécie de animal estava vivendo nesta floresta que poderia ser capaz de fazer uma coisa dessas? Fora o que pensara em primeiro lugar. Sabia que não era certo o que esquematizara e que poderia ser considerado um traidor por desconfiar da realeza, porém não podia simplesmente deixar que o reino que tanto trabalhara para ajudar a manter ruísse tão facilmente.
Faria o que fosse preciso.
Já estava sentado à mesa com o Alto Meistre quando os reis chegaram, o Comandante não havia aparecido ainda, por certo que estava atarefado demais em reforçar a segurança depois do episódio do monstro sanguinário das matas que ataca mulheres indefesas que nem deveriam estar lá. Atentou-se para qualquer sinal que poderia ser útil, qualquer palavra ou expressão, algum indício, contudo não conseguira captar nada além de um ou dois olhares um tanto esquisitos entre as majestades.
Fez sinal para o velho quando os dois se retiraram e tomou sua posição. Fingindo que escrevia enquanto andava, seguiu cauteloso pelos corredores silenciosos, parando de tempos em tempos para que não fosse notado pelos criados. Estavam indo em direção à sala de armas, imaginou que Ashe iria reabastecer sua aljava que apresentava menos flechas que o habitual. Adiantou-se em pegar um caminho diferente para chegar à uma pequena janela que lhe concedia uma visão ampla da sala. Como era alta, dificilmente seria visto dali. Já estava a postos quando eles entraram, deixando a porta entreaberta. Concentrou-se para escutar o que diziam.
– Acho melhor que ela fique aqui, não tem motivos para voltar para a cidade — A rainha dizia enquanto analisava as flechas do estoque e as separava.
– Concordo, mas vamos deixar que ela escolha — O homem depositou sua espada no suporte de polimento, conferindo com as pontas dos dedos se a mesma continuava afiada.
– É impressionante como uma simples caçada pôde se tornar um show de horrores de uma hora para outra. Espero que Lesrie se recupere logo — A voz da mulher parecia genuinamente preocupada e aflita. Observou o rei encaminhar-se até onde ela estava, afastar as flechas e sentar-se na mesa. Pôs ambas as mãos na cintura da rainha e a puxou para mais perto, encaixando-a entre suas pernas. Coçou os olhos para que enxergasse direito o que custava a acreditar que estava para acontecer.
– Nós vamos vencer essa guerra, nenhum dos nossos inimigos destruirá Freljord ou eu não me chamo O Rei Bárbaro– Sorriu desajeitado e a suspendeu de modo que sentasse de lado em suas pernas. Observou, perplexo, que não houve resistência por parte dela quando ele a beijou na boca; pelo contrário, retribuiu com intensidade acariciando sua nuca. Estava certo de que não deveria continuar espiando quando viu a mão dele escorregar pelas coxas da mulher e sumir por baixo do vestido, entretanto aguardou mais alguns instantes quando ela o deteve, segurando seu punho e descendo de seu colo.
– Aqui não, não quero que nos vejam — Ashe sorriu ao ver a cara de decepção que Tryndamere fazia e deu um beijo de leve em seus lábios. — Temos a noite toda para fazer isso.
Ficou ali parado vendo-os guardar flechas e polir espada, falando sobre outros assuntos que já haviam discutido com ele próprio anteriormente, como orçamentos para manutenções e abastecimento — nada que fosse mais interessante do que essa relação amorosa que eles mantinham em segredo.
Estava se deliciando com uma pequena caça abatida com seu bastão de Gelo Verdadeiro, tão poderoso e mágico que nunca derrete, enquanto supervisionava os novos escravos que seus lacaios traziam e os separava por funções — os mais fortes para o trabalho braçal pesado, os mais habilidosos para confecção de armas e proteções e os mais fracos para divertimento com violência e pancadaria — quando um de sua espécie viera dar-lhe notícias animadoras. Ao que tudo indicava a missão teria sido um sucesso, bastava aguardar o retorno dos dois que enviara para ter certeza de que o corpo fora deixado como e onde ela exigira.
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