Destinos Arranjados
13 O Tratado dos Reinos
Notas iniciais
Uma chuva leve caía na fronteira, umedecendo a vegetação rareada dentro e fora dos muros. Ashe olhava atentamente a movimentação dos sentinelas no portão através da pequena janela aberta da torre de vigia, vez ou outra perdendo-se no vasto horizonte diante de si. O céu era de um branco acinzentado devido às nuvens e, quanto mais longe olhava, mais claro ficava o chão coberto de neve. Quase não havia sinal de vida onde a vista alcançava, a não ser por alguns animais pequenos que circulavam em busca de alimento no perímetro e enormes ursos-das-montanhas, destacando-se no cenário bem adiante.
Suspirou com ansiedade, aquele ogro em forma de mulher parecia demorar uma eternidade para aparecer e atrasos não lhe agradavam. Perdeu a noção de quanto tempo ficara parada ali, o que justificou sua surpresa ao finalmente olhar ao redor e notar que Tryndamere adormecera de tanto esperar. Esboçou um sorriso terno ao aproximar-se para sentar na beirada da cama mediana que havia no aposento.
Admirou sua face por um tempo que não sabia quantificar, era um homem tão bonito e conseguia ficar ainda mais quando adormecido; seus traços fortes e bem marcados não apagavam a serenidade que se estampava todas as vezes que tinha um sono tranquilo.
Tocou-o com cuidado, afastando algumas madeixas negras do seu rosto, sem resistir a alisar levemente a pele rústica, a barba áspera, os lábios curiosamente macios… estranhou um súbito calor diferente em seu peito que nunca havia sentido antes. Era certamente acolhedor e aconchegante, como se fosse um cobertor quentinho em uma noite bem fria, embora ainda melhor.
Percebeu, com certo atraso, que seu coração estava um pouco acelerado e entendeu de onde aquilo vinha: sangue fluindo rápido gera calor. Só não sabia porque seu corpo precisava de mais bombeio naquele momento de repouso.
Estranho.
Um som grave e forte encheu o ar, fazendo-a sobressaltar-se; era o aviso, finalmente chegara. O bárbaro mal se abalou com o barulho alto.
— Trynda, acorde — Sacudiu-o com urgência. — Rápido, vamos descer.
Alisou o traje especial de rainha para que estivesse bem alinhado, encaixou a coroa de ouro e preciosas safiras por cima dos fios azulados bem cuidados e apanhou seu arco mágico antes de sair para as escadas com o marido sonolento — precaução nunca era demais.
Bristle parecia agitado, talvez a ideia de entrar com pouca proteção no território inimigo fosse ruim, mas já tinha tudo preparado; além do mais, sabia se virar muito bem sozinha. Viu uma pequena janela no portão abrir o suficiente para mostrar apenas os olhos de uma pessoa. Estava abrindo a boca para reclamar da demora quando o guarda falou taxativamente:
— O animal não pode entrar.
— Como não, se você está aí? — Debochou. — Ele está comigo, então vai entrar, abra já esse portão.
— Ordem do rei, o animal fica do lado de fora.
— Do rei, é? — Sorriu de canto com ar malicioso. — Então acho que posso considerar o seu pedido.
Bristle bufou em desaprovação, não gostava de ficar longe dela, principalmente em situações de risco. Acariciou seu largo pescoço antes de descer do seu lombo e sussurrar em seu ouvido:
— Tudo bem, eu já esperava por isso, mas você será muito útil aqui fora. Se eu mandar aquele sinal ou não voltar até o anoitecer, você alerta os outros. Entendeu?
O javali gigante balançou a cabeça como se respondesse afirmativamente, era de fato muito inteligente e confiável, só faltava falar. Deixou-o deitado ao lado das grades e placas de ferro reforçado e entrou com ar desafiador, com seu acompanhante logo atrás. Mal terminaram de atravessar quando o portão foi rapidamente fechado com um baque e trancado — muito bem trancado, observou.
O pátio estava vazio, não havia ninguém além deles mesmos e do guarda que os atendeu.
— Armas, por favor — O homem truculento apontava para um baú bem grande ao seu lado, parecia ser feito de uma madeira bem grossa e resistente, difícil de quebrar.
Não lhe agradava nem um pouco separar-se de seus maiores tesouros, mas sabia que não passaria dali caso se recusasse; Ashe era esperta demais para confiar nela e já devia estar com tudo preparado para se defender. Depositou seu mangual de Gelo Verdadeiro, assim como o homem entregou apenas os seus dois pesados machados de guerra, e, como não fizeram menção de dar-lhe mais nada, o guarda insistiu. Bufando em desagrado, ambos retiraram adagas escondidas de dentro das vestes e aguardaram alguns momentos antes que ele se desse por satisfeito e enfiasse uma chave enorme na tranca do baú para selá-lo.
Em silêncio, levou-os a um casebre recém construído — já que sua última visita tinha destruído boa parte da infraestrutura local — e esperou que entrassem para encostar a porta. O lugar estava iluminado por uma janela alta e por alguns archotes nas paredes, uma mesa agreste de pedra tomava o centro da sala, rodeada de cadeiras grosseiras de tronco e algumas pilhas de papel cuidadosamente arrumados. Duas figuras emergiram das sombras dando passos à frente e a primeira coisa que chamou sua atenção foi o ouro reluzente oriundo das coroas enfeitadas com pedras preciosas — símbolo da ostentação e riqueza que tantos tolos enalteciam.
Seu olhar desceu e encontrou diretamente o tom vívido de azul da íris de sua rival, que os mantinha fixos e esnobes enquanto a encarava. Decerto que faíscas podiam ser vistas jorrando dos olhos de ambas, mas ninguém parecia se importar.
— Olaf! Quer dizer que você ainda está vivo? — A voz alta e grave do rei a fez lembrar-se de todo o resto e desviar o olhar para o objeto de seu atual desejo; ele permanecia bonito e imponente, ainda mais usando seus suntuosos trajes reais, esboçando um sorriso zombeteiro que realçava seus agradáveis traços.
— Ainda não achei uma morte digna, Majestade, mas estou confiante de que a terei um dia e só então partirei — O robusto homem com cabelos e barba ruivos que chegavam à altura do peito deu um leve sorriso, irritando Sejuani.
— Majestade? Por acaso você se bandeou para o lado deles, Olaf? Não os reconhecemos como reis de merda alguma!
— Eu não me esqueci disso — Respondeu emburrado, olhando-a com desagrado.
— Ora essa, Sejuani, onde estão os seus modos e entusiasmo ao reencontrar um conterrâneo? — Alfinetou Ashe, com uma expressão claramente desdenhosa.
— Verdade. Devo beijar seu marido para mostrar o quanto estou satisfeita em vê-lo novamente?
A expressão de espanto dos outros três não podia ter sido mais cômica, afinal, por essa ninguém esperava. Os homens pareciam ter enormes interrogações estampadas no rosto, mas a mulher mudou rapidamente de aturdida para desconfiada e logo depois demonstrou um cinismo impressionante.
— Se é o que deseja, fique à vontade — O sorriso amarelo de Ashe não conseguiu disfarçar seu tom frio. Voltou-se ao Berserker com uma voz mais gentil. — Devo dizer que é um prazer conhecê-lo pessoalmente, Olaf, já ouvi falar muito dos seus feitos.
— Posso lhe dizer o mesmo, senhora.
— Chega de bobagens, vamos nos sentar e ir ao que interessa — Tryndamere falou, tomando uma cadeira maior e mais alta, gêmea da que Ashe tomou para si.
Olaf parecia atento a tudo, esquadrinhando à volta e até medindo seus movimentos e falas — um feito incomum para um homem explosivo como ele. Talvez ele também tenha percebido que tudo naquele local fora arquitetado para que eles parecessem, e até se sentissem, menores e impotentes perante à magnificência daqueles que se achavam os reis de Freljord. Isso estava deixando-a aborrecida.
— Como vocês já devem saber — Ashe começou — várias pessoas tanto do meu quanto do seu povo estão desaparecendo sem explicação e acredito que nenhum de nós tem a ver com isso.
— Isso é o que você diz – A bárbara cruzou os braços e arqueou uma das sobrancelhas.
— Com que intuito eu raptaria alguém da sua tribo? Você não se importa com nenhum deles.
— Está certa, se foram tão inúteis a ponto de serem raptados por avarosianos, não merecem fazer parte da Garra do Inverno.
— Não fomos nós — Tryndamere tomou a frente. — Temos quase certeza de que os trolls tem algo a ver com isso.
— Trolls? – O outro homem soltou uma gargalhada — São tão burros que sequer seriam capazes de pensar em raptar a minha avó. Se bem que nem eu ousaria tentar algo contra aquela velha endiabrada…
— Concordo — o rei o acompanhou na risada — Porém ambos sabemos que eles fariam tais coisas se alguém os tivesse chefiando.
— Que absurdo, eu jamais me aliaria àqueles imbecis! — Sejuani esbravejou.
— Foi o que pensamos, por isso solicitamos essa reunião. Proponho que no unamos em uma missão de exploração e resgate, afinal… — A fala de Ashe foi interrompida por uma gargalhada ruidosa.
— Vocês me fizeram vir até aqui para isso? Então são mesmo tão estúpidos quanto eu imaginei. Vamos embora, Olaf — Levantou-se e deu as costas aos demais, mas seu pulso foi agarrado.
— Espere, vamos ouvir tudo — O ruivo piscou discretamente para ela como quem dá um sinal. Levou alguns segundos, mas concordou torcendo o bico.
— ... afinal, vocês conhecem bem essa região e nós temos soldados suficientes para lutar.
— O que eu ganho mesmo, me juntando a você?
— Seus guerreiros de volta, se ainda estiverem vivos, claro.
— Já disse que não me importo.
— E com os números, você se importa? Ou será que seu contingente é tão grande assim que possa ficar perdendo à toa?
Não sabia o que a irritava mais, o meio sorriso irônico daquela magricela maldita ou a verdade em suas palavras.
— Talvez você esteja preocupada com seus números e queira usar meus guerreiros para fazer um trabalho que os seus não conseguem. Lá em cima não é tudo bonitinho, florido e alegre como o mundinho de merda que você vive. Poros bebezinhos e assustados como vocês não duram um dia por lá!
Ashe e Tryndamere se levantaram.
— Cale a boca, mulherzinha burra, já falou asneiras demais — O moreno a olhava raivoso, paciência não era seu forte.
— E o que você vai fazer? Quero ver você tentar — Vê-lo inflamar-se a divertia.
— Será possível que é tão cega que não enxerga um palmo à frente do nariz? Não vê que essa sua picuinha não leva a nada? Olaf, explique a ela! — Ashe estava exasperada.
O Berserker sequer havia se abalado, permanecia sentado e atento, estava estranhamente calmo.
— Acha mesmo que seus cacarejos fazem algum efeito sobre nós? — Sejuani falava para a outra com desdém. — Pensa que eu não sei que você pretende armar alguma para cima de mim?
— De onde tirou isso? Eu jamais quis que fôssemos inimigas, você que persiste nessa estupidez, deixando pessoas morrerem à míngua, dividindo e enfraquecendo Freljord!
— Eu não vou me curvar a você, sua desgraçada! — Seu tom de voz chegou ao nível dos gritos. — Não sou mais um de seus fantoches retardados, quero mais é que você e toda a sua laia se fodam, SE FODAM!
— E eu espero que seu próprio povo faminto te jogue viva em uma fogueira e devore sua carne podre, que roam até os ossos, os receberei ainda mais satisfeita — A rainha estava vermelha de raiva, bem como sua rival. No momento em que pareceu que uma pularia em cima da outra, uma risada não pôde ser contida.
— Muito bom, devo admitir — Olaf começou a aplaudir e rir descaradamente. — Achei que seria uma reunião chata, sequer quis gastar minhas energias para algo além de escutar, mas vejo que estava enganado, isso aqui está bem divertido.
Olhares desgostosos o fuzilavam, mas ele não esmoreceu.
— Por favor, parem de discutir e vamos logo cair na porrada! – Deu um tapa audível em umas das próprias coxas extremamente definidas e largas; sua túnica que parecia feita de pele de animal, cujos pelos foram mantidos nas extremidades, começava composta e terminava como uma pequena tanga pouco depois do quadril, deixando suas pernas completamente à mostra. — Sabemos muito bem que três de nós aqui temos o sangue bem quente, não convém perder tempo com palavras.
A primeira a se manifestar foi Ashe, dando um longo suspiro.
— Não será necessário, nossa intenção não é brigar e sim nos unirmos para um bem comum. A proposta é essa, juntar um pequeno grupo para se infiltrar e resgatar o máximo possível de pessoas. Saberemos o que os trolls pretendem e já os impediremos. Daremos um tempo para que reflitam à sós.
Assim que os anfitriões se retiraram da sala e fecharam a porta, Sejuani dirigiu um olhar feroz ao acompanhante.
— Eu não vou me juntar a eles, viemos aqui claramente com a intenção de manter a rivalidade e brigar o quanto pudéssemos!
— Mas veja bem, não é uma má ideia. Nosso contingente já não é muito grande e se deixarmos os trolls agirem como quiserem, não vai demorar para que ganhem forças e se voltem contra nós.
— Então vamos nós mesmos e acabamos com eles, não precisamos salvar nenhum avarosiano tampouco fazer favores.
— Para que correr o risco de perder mais guerreiros se podemos usar os deles? — O sorriso malicioso que se formou em seu rosto indicava as verdadeiras intenções de Olaf.
— É, acredito que uma pequena luta não faz mal a ninguém — Aproximou-se para baixar o tom de voz. — Ou será que faz?
— Não sei se vai dar para confiar naqueles dois, pode ser bem arriscado… — Ashe e Trynda conversavam aos sussurros um tanto afastados da porta do casebre.
— De fato não dá para confiar, devemos ter o máximo de atenção. Conheço Olaf de outras épocas e sei que ele se importa mais com uma boa briga do que com qualquer outra coisa, mas Sejuani vai nos atrapalhar em tudo que puder.
— Também penso isso, mas essa missão pode fazê-la repensar sobre a união das tribos e, quem sabe, até aceitar.
— Às vezes você é tão tolinha, minha senhora — Segurou o queixo fino com seus dedos largos e balançou suavemente, como quem fala com uma criança.
— Nunca ouviu dizer que a esperança é a última que morre, meu senhor? — A expressão falsamente enfezada que exibia a deixava ainda mais bela. Sentiu uma vontade enorme de largar toda aquela chatice e a arrastar para um canto mais reservado, a fim de iniciar o que faziam de melhor juntos.
Porém, antes que pudesse dar o primeiro passo, a porta do casebre se abriu e a mulher acenou brevemente para que entrassem.
Esperou que todos estivessem sentados para anunciar sua decisão.
— Não foi fácil me convencer de ajudá-los nessa missão ridícula, mas decidi que vou prestar-lhes esse favor. Não tomem isso como um gesto de bondade, não mesmo, aceitarei sua proposta porque os trolls também são meus inimigos.
— Sábia decisão — Disse o rei, pegando um papel escrito e estendendo-o à sua frente. — Isso é um documento que comprova o nosso acordo, um tratado temporário, assine no espaço em branco ao final da página.
Sejuani levou alguns minutos para ler todo o texto e, ao terminar, soltou uma risadinha de canto.
— Não, não… eu tenho uma condição e ela não está especificada aqui, pode fazer a alteração: um de vocês tem que ir junto.
Ashe e Trynda trocaram olhares intrigados e cochicharam algo entre si antes da mulher responder.
— Pois muito bem, eu irei com você, dê-me o tratado para...
— E quem foi que disse que são vocês quem escolhem? Eu quero ele.
Dirigiu ao moreno um olhar penetrante e malicioso, sem fazer questão de disfarçar.
— Mas é evidente que isso não vai dar certo, essa é uma missão furtiva, um monte de bárbaros esquentados não vai conduzir de maneira adequada! Eu posso muito bem…
— Não tem conversa, bebezinho poro — Interrompeu, ainda o olhando fixamente. — Ou o cabeludo vai comigo ou não tem acordo.
— Mas… mas isso não faz o menor sentido! Eu não vou permitir que… — Sua fala foi interrompida novamente por uma mão grande segurando seu braço e a puxando para o lado.
Trynda sussurrou algo inaudível ao seu ouvido, ao passo que ela fez o mesmo como resposta por alguns momentos. Ainda parecia contrariada quando seu marido se dirigiu aos convidados.
— Está feito, eu irei, já que faz tanta questão. Adicionarei meu nome ao documento, você assina e estamos conversados.
— Como quiser, Majestade. — Debochou, sorrindo satisfeita. Não havia pensado com clareza antes, mas a oportunidade que esperava estava bem à sua frente. Certamente teria o corpo daquele homem em suas mãos, primeiro bem vivo e depois, talvez, bem morto.
Foram longos dias de viagem de volta à Rakelstake, seu corpo inteiro estava moído. Como não tinha o costume de permanecer por longos períodos montada no lombo de um cavalo-urso, sentiu a parte interna das coxas arder como em brasa por causa do atrito da pele com o couro da sela. Tudo o que mais queria era repousar um dia inteiro em sua cama macia e quentinha, sem preocupações, sem interrupções — salvo as que seu esposo costumava fazer com segundas intenções. Desejou sua companhia desde o dia em que se despediram com beijos e abraçados acalorados no quarto da torre de vigia na fronteira, por algum motivo essa breve separação a deixava aflita, como um mal pressentimento.
Tentou argumentar que claramente era uma armadilha de Sejuani, mas não teve jeito, ele estava decidido a se arriscar. Apesar de ter lhe garantido que sabia se cuidar sozinho e que a rival não era páreo para ele, uma sensação de perigo a inquietava, contudo não sabia explicar exatamente o porquê. Tentou afastar os pensamentos ruins e se concentrar em sorrir e acenar para as pessoas da capital que se reuniram nas ruas para ver sua comitiva passar, todos pareciam satisfeitos com o seu retorno.
Porém não mais do que uma pessoa que acenava radiante ao longe, na entrada do castelo. Ao aproximar-se, praticamente correu em sua direção, sorridente.
— Majestade! Fico tão feliz que tenha voltado sã e salva, estava preocupada! — Les segurava as rédeas do animal enquanto Ashe desmontava.
— Que mal temia? Eu não sou tão fácil de matar assim — Brincou.
— Não, senhora, eu não quis dizer isso! Só temi que fosse pega em alguma emboscada, com esses sumiços nós pensamos cada coisa…
— Obrigada por se preocupar comigo, minha amiga — A rainha sorria com doçura enquanto caminhava em direção aos seus aposentos. Viu a boca de Lesrie ampliar-se mais ainda em alegria antes de fazer uma breve reverência.
— É uma honra, majestade. Como foi a viagem? Onde está vosso rei?
— Ocorreu tudo bem, sem problemas, só estou um pouco cansada. Trynda preferiu ficar para comandar a missão sobre os trolls, mas voltará logo.
— Entendo. Imaginei que chegaria exausta e arrumei tudo como a senhora gosta: lençóis e toalhas limpas, água quente e vapor na sala de banho, travesseiros macios, está tudo pronto.
— Que maravilha, não vejo a hora de tirar toda essa sujeira da estrada e dormir tranquilamente. Suponho que tudo correu bem por aqui na minha ausência.
— Sim, não tivemos problemas, rotina normal — Les adiantou-se para destrancar a porta do quarto real e Ashe logo notou que o trabalho da intendente estava impecável, todos os itens pareciam cuidadosamente arrumados. Nota mental: lhe dar um aumento quando possível., pensou. Ao colocar seu arco e aljava em cima da poltrona que ficava aos pés da cama, notou uma grande caixa vermelha adornada com um laço de fita, obviamente um presente.
— O que é isso?
— É para a senhora, eu mesma fiz, espero que goste. É para agradecer tudo o que tem feito por mim.
— Les, que bobagem, não precisava! Você sabe que lhe considero uma amiga de verdade, não faço tais coisas para receber pagamento em troca — Um leve sorriso se fez em seus lábios por receber tal consideração.
— Não é um pagamento, é só uma lembrancinha para mostrar minha gratidão. Estou ansiosa para ver o que achou!
Sem ter mais o que discutir, Ashe se entregou à curiosidade e logo abriu a caixa. Desenrolou um papel de seda e retirou uma roupa tão bonita que a deixou de boca aberta. Suspendeu a peça no ar para visualizar melhor: uma espécie de vestido cinza-chumbo com um leve brilho arroxeado, de mangas compridas, com detalhes acetinados em vermelho e dourado, ombreiras bufantes clássicas e um grande adorno frontal do busto ao umbigo em formato de coração se destacava. A qualidade do tecido e a delicadeza do acabamento a deixaram impressionada. Uma longa capa nas mesmas cores e um par de luvas brancas acompanhavam o conjunto e, ao retirá-los da caixa, notou que havia mais alguma coisa embaixo do embrulho.
Um par de botas cinza-arroxeadas de salto Anabela e cano alto com femininos babados amarelados na barra das coxas também fazia parte do pacote, juntamente com uma última peça: um enfeite de cabelo de metal leve, pintado igualmente de vermelho com contornos dourados.
— Les… É tão lindo! Estou sem palavras — Sabia que seus olhos deviam estar brilhando, de fato gostara muito da vestimenta, era diferente de tudo que usava. Quando viu o sorriso satisfeito de moça, abraçou-a num impulso. — Obrigada, de verdade.
Não houve resposta, apenas a retribuição do abraço. Ashe não costumava ganhar presentes tão carinhosos desde que sua mãe morrera, portanto, aquele gesto foi altamente significativo. Soltaram-se e pôde ver que Lesrie lutava para conter a emoção, sem muito sucesso.
— Agora me diga o porquê de tantos corações nessa roupa, o que isso quer dizer? — Era uma pergunta pertinente, visto que se podia contar vários destes espalhados, como o enfeite de cabelo, o prendedor da capa, os babados da bota, o punho das luvas, o detalhe na ponta da capa e até mesmo dois nas laterais da peça que ficava por cima do curto saiote de prega vermelho.
Les corou levemente e sorriu sem jeito.
— Eu notei que anda suspirando e sorrindo pelos cantos, olhando para vosso rei com doçura e admiração e…
— Opa, eu ando assim? — Interrompeu, intrigada. Não havia notado nada disso.
— Sim! Acho que é normal não perceber esses detalhes quando a cabeça só pensa em uma pessoa… — A leve risada de Les era acusatória.
— Pois eu acho que você está vendo coisas que não existem, sua maluca — A rainha riu como fosse bobagem, entretanto talvez ela tivesse alguma razão, pensava muito em Tryndamere ultimamente.
— Sua negativa só me dá mais certeza.
— Certeza de que?
— De que está apaixonada— Abafou um risinho nervoso com as mãos, como se tivesse relevado um segredo.
— Eu?— Soltou uma gargalhada. — De onde tirou essa besteira?
— Eu vejo como olha para ele, como seus olhos brilham quando trabalham juntos, como andam juntinhos para cima e para baixo… Perdão, senhora, não é fofoca, mas já ouvi comentários de que vossas majestades são vistos com frequência aos agarros pelo castelo e… — Parou ao ver a expressão levemente assombrada de Ashe. — Bom…Deixa para lá.
— Continue — Ordenou.
— Me desculpe, senhora, mas meu dormitório não é tão afastado daqui e as paredes às vezes deixam passar barulhos mais altos…
— Les! — Repreendeu, corando furiosamente. Não sabia o que mais a surpreendia: os empregados virem e ouvirem seus momentos de intimidade ou o fato de não ter se dado conta dessa exposição antes. Levou alguns momentos abrindo e fechando a boca, sem saber o que dizer, até sentir uma vontade incontrolável de rir.
Começou fraca e foi se tornando cada vez mais forte, fazendo-a dobrar-se sobre o próprio tronco. A intendente, inicialmente cabisbaixa, não aguentou e a acompanhou na gargalhada.
— Deveras constrangedor, Les, mas… — Mal conseguia falar com clareza. — O que se há de fazer, não é? Parece que todos sabem das nossas saliências. — Respirou fundo várias vezes para tentar parar de rir. — Então, isso não quer dizer que estou apaixonada.
— Por que vossa graça crê que não está?
— Ora, porque… — Tentou buscar uma explicação plausível, no entanto não conseguiu. — Boa pergunta.
— Viu? Eu acho que está, só falta a senhora perceber.
— Então esse tanto de coração é para desfilar pela capital mostrando, supostamente, o quão apaixonada eu estou pelo meu querido rei?
— Para falar a verdade, minha intenção era que ele fosse impulsionado a demonstrar o que sente quando a visse vestida assim.
— E o que você pensa que aquele brucutu sente?
— Digamos que essa roupa representa o amor, então é o que ambos devem ser induzidos a demonstrar. Vamos chamá-la de cupido!
— Mas que ideia mais descabida, Les, só você para pensar nisso tudo — Riu, dirigindo-se ao espelho. Posicionou a roupa em sua frente para ver como ficaria; levou alguns momentos refletindo sobre o que fora dito e se tinha algum sentido, sua mente agora estava cheia de perguntas. — Você acha que ele sente algum tipo de amor por mim?
— Sendo sincera, compreendo que ainda não está claro se ambos sentem amor de fato; mas que estão apaixonados, ah… isso estão!
— Você tem certezas demais para uma pessoa só — Voltou-se para a cama, recolocando as peças na caixa e retirando as que vestia.
— Bom, se vossa majestade não estava apaixonado antes, com certeza vai ficar depois de lhe ver nessa roupa romântica — Apesar da brincadeira, as palavras de Les pareciam ter alguma verdade. Não sabia classificar o que estava sentindo, realmente alguma coisa tinha mudado nesses últimos tempos, mas paixão e amor eram exagero; não chegava a tanto.
— Vamos, dona Sabichona do Amor, venha me ajudar com o banho e me contar mais novidades — A jovem dirigiu-se rapidamente à sala de banho, despejando os baldes de água aquecida na banheira. Muniu-se de sabonete e uma escova de cerdas macias e sentou-se na beirada da construção de pedra enquanto a rainha mergulhava o corpo, seria uma longa conversa.
Era impressionante como um banho quente a fazia sentir-se bem. Fez praticamente um interrogatório sobre o reino à Lesrie enquanto se lavava e até mesmo os problemas costumeiros pareciam bobos diante do estado de relaxamento em que se encontrava.
— Senhora, antes que continuemos a falar sobre o reino, quero te dizer que descobri o que me pediu sobre Meliza — Falou a moça enquanto esfregava suas costas com a escova macia. Pôde sentir sua curiosidade aumentar rapidamente.
— Pois me conte! — Falou com urgência. — Como descobriu? O que houve?
— Então, lembra-se daquele bárbaro esquisito que eu falei? Conheci uma espécie de namorada dele por acaso, é uma mulher até muito gentil para aquele homem…
— Tem gosto para tudo. Prossiga.
— Fui sondando com ela e consegui que arrancasse dele as informações que precisava, mas hora nenhuma citei vosso nome, claro. Ela me contou uma história pavorosa, chegou a me causar arrepios o modo como falou…
Despejou delicadamente uma jarra de água morna na cabeça da rainha para enxaguar seus cabelos.
— Ela disse que Meliza era uma prostituta muito bem quista por uma tribo de bárbaros do Norte, pois era muito caridosa, cuidava de idosos, crianças, sempre ajudava como podia nos tempos de crise. Já os homens, a senhora deve imaginar o motivo pelo qual gostavam tanto também.
— Com certeza — Terminou seu banho e saiu da banheira, secando-se rapidamente com uma toalha aquecida pelo vapor do ambiente.
— Devo dizer, senhora, que vosso rei era o líder daquela tribo e que ele, nas palavras de quem me contou, “a apreciava bastante”. Claro que isso foi bem antes de conhecê-la, não há boatos de que ele continue frequentando esse tipo de lugar, não se preocupe.
— Não estou preocupada — Não era de todo verdade. Apesar de saber que ele não teria motivos para pagar por algo que ele tem de graça o tempo todo, sentiu uma pontadinha de ciúmes ao pensar que ele poderia ter se divertido com outras. Dirigiu-se ao seu quarto e procurou uma camisola no guarda-roupa enquanto a intendente a esperava para escovar seus cabelos.
— Resumindo: um dia, depois de uma batalha em que muitos guerreiros da tribo morreram, ela foi encontrada morta em seu quarto, nua e com sinais de luta; cheia de hematomas pelo corpo, lençóis rasgados, olhos esbugalhados… Terrível.
Ashe olhou para Les pelo espelho com uma expressão abalada.
— Que horror! Ela foi estuprada antes de ser assassinada? Coitada… Quem poderia ter feito algo tão vil?
— Esse é o problema, até hoje ninguém sabe. A mulher me garantiu que aquele bárbaro também não sabia. Não tem uma alma viva que possa imaginar alguém que pudesse querer fazer algum mal a ela.
— Que estranho… — O cérebro de Ashe tentava achar uma pista no meio de toda essa explicação. — E como ela morreu exatamente?
— Fora estrangulada com os próprios colares que usava. Ficou uma enorme mancha negra no seu pescoço.
— Nossa, como essa mulher sofreu, esse assassino só podia ser um sádico, louco e asqueroso. Estupro e morte por estrangulamento… — Calou-se.
De repente, sua cabeça foi bombardeada por uma série de lembranças. Primeiro, as vezes em que Tryndamere citou o nome de Meliza em seus pesadelos; depois, sua mania recente de sempre verificar o seu fino pescoço após os sonhos ruins e, por último, uma ocasião muito particular em que ele proferia o nome dela como se fosse um lamento. As palavras daquela noite ainda ressoavam em sua mente:
— Oi, Trynda, me chamou? Pode falar...
— Está morta… Não pode...
— Como eu morri? Você sabe? — Sua expressão parecia de angústia.
— Não… Não quis… Sufoquei…
— Quem fez isso comigo, Trynda?
— Ele… Não eu… Culpado…
— Ele, não eu… Culpado — Repetiu baixinho, o olhar paralisado em direção ao tampo da penteadeira.
— Como disse, senhora?
A compreensão chegou à Ashe como uma avalanche chega a uma cidade. Forte, impiedosa, destruindo tudo à sua frente. Sentiu um calafrio lhe subir a espinha e o copo de vidro em que bebia água fresca pareceu pesado demais para seus dedos enfraquecidos, incapazes de segurá-lo e de evitar que se espatifasse no chão.
— Majestade! Está se sentindo mal? — Lesrie sacudia de leve seus ombros, com uma expressão alarmada. Ainda em choque e sem olhar para a moça, Ashe balbuciou com voz fraca:
— Foi ele, Les… Foi ele quem a matou…
— Ele quem, senhora?
— Meu marido.
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