Notas iniciais
Olá, meus amores! ♥ Estou aqui morta de vergonha por ter demorado esse tempo todo, estava com um bloqueio criativo imenso, não conseguia digitar sequer uma frase, minha cabeça anda muito cheia e minha vida está numa fase péssima. Eu amo escrever para vocês, me emociono lendo cada um dos comentários carinhosos, e mesmo assim não estou conseguindo manter algo que me deixa tão feliz, a situação está complicada... Mais uma vez, me perdoem. Depois desse tempo todo, o mínimo que eu poderia fazer era escrever um capítulo bem grande (18 páginas!) e isso acaba me fazendo demorar mais, é um ciclo vicioso kkk Não vou prometer novamente prazos que não sei se vou cumprir, mas antes tarde do que nunca! Espero que gostem e que não me abandonem! ♥♥♥♥ Mais uma vez: — Atualização a cada duas semanas (esse prazo pode ser estendido caso haja algum imprevisto, peço desculpas se acontecer); [[[[ Acho que vou alterar essa parte aqui porque não tá dando T.T ]]]] — Essa fanfic é apenas BASEADA na história oficial dos personagens, NÃO quer dizer que se manterá fiel ao que o jogo já tenha divulgado ou divulgará. Semelhanças e divergências serão encontradas. — Os personagens pertencem à Riot Games.

Era impressionante o quanto uma pessoa poderia causar tanto dor quanto alegria à outra. Como se já não bastasse os inchaços por todo o corpo, as dores agudas nas costas, os enjoos recorrentes e a incessante necessidade de urinar a cada meia hora, ainda tinha que lidar com todas as dúvidas e medos do futuro incerto.

Com o reino em crise, a guerra estava cada vez mais próxima, portanto não podia deixar de temer pela vida do pequeno ser que crescia dentro de si. Os problemas se acumulavam com as várias revoltas dos rebeldes que surgiam aos poucos em todo país, liderados por alguns bárbaros insatisfeitos. É certo que alguns grupos menores eram formados por avarosianos e aliados ambiciosos, que desejavam enfraquecer o reino para tomar o poder.

Esses certamente não seriam perdoados.

Suspirou pesadamente antes de levantar com certa dificuldade, tentando equilibrar o peso da barriga; sabia que transtornos a esperavam na Sala do Conselho, mas aquele calor materno que sentia em seu peito a faziam ter alguma fé.

— Olhe, veja só como esse danadinho está chutando! — Ashe falava para Les, sorrindo. Sentia aquele pequeno ser em formação se agitar no ventre estufado à sua frente e imediatamente veio à mente uma imagem de si mesma segurando com carinho um bebê, o seu bebê.

Imaginou com quem ele pareceria, de que cor seriam seus cabelos e olhos, que som teria sua risada, se iria preferir arco ou espada, se puxaria ao seu temperamento contido ou se seria explosivo como Tryndamere… Suspirou, sentindo uma velha e conhecida tristeza tomar conta do seu coração.

Nunca mais poderia ter um filho dele.

Tirou as mãos da barriga de Lesrie, a amargura a consumia dia após dia e ter de ver justamente a pessoa mais próxima a si carregando um filho de quem amava não estava ajudando a melhorar. Escolheu não engravidar quando seu marido estava ao seu lado e, agora que se fora tão inesperadamente, apenas sobrou o arrependimento.

Tentava disfarçar sua tristeza sempre que podia, não queria que Les pensasse que não estava feliz por ela — pois estava, de verdade — mas nem sempre conseguia. Soube por meio de comentários pelo castelo que Les só aceitou se casar agora por causa do bebê, afinal, o Conselheiro insistia há algum tempo e ela sempre dizia que não era um bom momento para sujeitar a rainha a esse tipo de assunto.

— Vai ser um menino, ou menina, forte com certeza! — Tentou sorrir normalmente, no entanto não soube se sua amiga não percebeu ou se fingiu não notar sua dor para não reviver tais lembranças.

— Espero que só fique tão forte assim depois que sair daqui, porque esses chutes já estão me deixando em farrapos — Brincou, dirigindo-se até a porta — Vou avisar que a senhora está a caminho, parece que está cheio de gente lá. Desejo boa sorte e paciência, majestade.

Pela expressão no rosto da mulher, essa manhã começaria mal.

— Eles queimaram a minha casa porque eu disse que não cederia às exigências deles, majestade! — Um senhor franzino gesticulava de olhos arregalados, sua revolta era visível em cada uma das suas rugas. Ashe tentava se manter gentil, mas tudo o que mais queria era simplesmente sair dali e esquecer todas as lamúrias que vinha ouvindo ultimamente.

— Quais exigências? — Respondeu calmamente, mas já sabia a resposta.

— Que eu fornecesse, de graça, alguns mantimentos do armazém aos grupos de rebeldes! — O homem estava exasperado, seus olhos mostravam um misto de raiva e medo.

— Compreendo. Vamos retirar o que sobrou e levar para um local seguro; sua família está ameaçada, devem ficar afastados até que a situação seja controlada.

— E como eu vou me sustentar até que o reino volte para os eixos? As vendas no armazém são tudo o que eu tenho!

— Parece que você vai ter que escolher entre sua segurança e sua renda, qual dos dois você prefere? — O tom da rainha saiu ríspido e seu semblante estava obscuro, paciência não estava sendo o seu forte ultimamente.

Depois de longos segundos em silêncio, o homem curvou a cabeça a contragosto, agradeceu a proteção e saiu após ter sido dispensado.

— Perdão, minha rainha, mas se continuar os tratando assim, não demorará para que se juntem aos rebeldes — O conselheiro cochichou ao seu ouvido, sinalizando para que o próximo da fila esperasse antes de se aproximar.

— Suponho que nem sempre seja possível permanecer nesse teatro. Não está tudo bem e as pessoas têm que entender isso ou serão pegos de guarda baixa — Respondeu mantendo o foco fixamente à frente, pois olhar para o rosto daquele homem que seria pai em breve a irritava. Aquele sorrisinho contente que ele exibia nos corredores do castelo eram uma afronta constante à sua dor e aos problemas de Freljord.

— Até concordo, majestade, mas eles precisam de uma boia para se agarrar e não perder as esperanças, essa boia é a vossa figura. A senhora deve lhes dar segurança, consolo e, principalmente, vontade de lutar por vossa causa.

— Você quer me ensinar a fazer o meu trabalho, é isso mesmo? — Dessa vez dirigiu seus olhos diretamente aos dele, azuis, frios e duros como o gelo do seu arco. O homem a fitou tempo suficiente para decidir o melhor a dizer.

— Peço que me desculpe, apenas estava tentando fazer o meu trabalho como conselheiro real — Curvou-se, medindo cuidadosamente cada sílaba e fonema — Confio totalmente na sua capacidade como soberana, não foi minha intenção ser intrometido.

Ashe teve de engolir em seco, não havia mais motivos para discutir, entretanto tinha certeza que aquelas palavras bonitas eram carregadas de farpas. Aquele homem era mesmo um insolente, não perderia a oportunidade de colocá-lo em seu devido lugar da próxima vez.

— Próximo — Chamou encerrando o assunto, porém se arrependeu no segundo em que viu aquela mulher novamente.

Já havia se passado mais de um mês desde que um de seus filhos se envolveu em uma insana briga de bar com seus comparsas rebeldes e fora espancado até a morte no que os bárbaros chamavam de Duelo Justo. Testemunhas confirmaram que a vítima aceitou o duelo e sabia das condições, ele foi por livre e espontânea vontade.

— Eu vim saber… — A mulher magricela fora interrompida por um guarda que pôs a mão em seu ombro e o forçou levemente para frente, sinalizando que deveria curvar-se. Ela demorou um pouco para entender, mas obedeceu de pronto — Majestade, eu vim saber o que será feito do assassino do meu filho.

— Nós já lhe enviamos o aviso de que ele está sob nossa custódia, na prisão, aguardando julgamento.

Ainda?— Mais uma vez, seus olhos escuros se encheram de lágrimas, logo iria começar o drama — Ele já confessou, o que mais estão esperando?

— Ele confessou um duelo e testemunhas confirmaram sua versão, não um assassinato a sangue frio como insiste em acreditar. Temos outros casos além desse para julgarmos.

A mulher cerrou os dentes e fechou os punhos em ira, as lágrimas desciam livremente por seu rosto pálido e ossudo.

— Esse lugar não é mais o mesmo! Desde que esses selvagens apareceram por aqui que fazem o que bem querem e ninguém os impede! Não há justiça e a que se diz rainha e protetora de Freljord não se importa mais conosco.

— Com que direito você acha que pode falar assim? — Ashe se levantou, a voz tão gélida e ameaçadora que fez a outra se escolher instintivamente — Seu querido filho não passava de um criminoso. Acha que não me lembro? Pois eu me lembro sim…

Com as mãos nas costas, desceu a passos lentos em direção à figura chorosa. Viu todos os guardas ficarem em posição de alerta, não poderiam descartar a possibilidade de que ela estivesse escondendo uma arma pequena que a revista não detectou.

— Dois anos aprisionado por cometer pequenos delitos; depois mais três anos por reincidência e tentativas de fuga; desde que se juntou aos rebeldes, vinha cometendo atrocidades como roubo seguido de morte, incêndios criminosos…

— Por favor, pare… — Choramingava entre soluços.

— … Tortura, estupros…

— Pare! — Gritou, tampando os ouvidos com os dedos e caindo de joelhos ao chão, desolada. Ashe parou poucos centímetros à sua frente e tudo o que sentia ao olhá-la era desprezo.

— Como pode não enxergar o mal que seu filho fez e agir como se fosse um santo? Como pode julgar e acusar os outros se faz vista grossa para os erros dele e os seus próprios?

— Se você fosse mãe iria me entender… — Começou, fitando a rainha com um olhar de súplica, no entanto não poderia ter escolhido palavras piores.

— Se for para ter um filho cruel e malfeitor e ainda apoiar seus crimes e transgressões, eu prefiro nunca ser mãe — A amargura que sentiu em seu peito chegou a deixar um gosto ruim em sua boca; seu estômago revirou e não pôde mais suportá-la ali — Você será avisada por cartas oficiais sobre o andamento do julgamento, portanto não torne a voltar aqui. Levem-na embora.

Dois homens a pegaram pelo braço com certo cuidado, devido à sua magreza e desânimo, e a conduziram para fora da Sala do Trono, ainda aos prantos.

— Conselheiro, conduza você o resto da sessão, eu não me sinto bem, minha cabeça vai explodir de tanta dor. Peça que me levem um chá, estarei nos meus aposentos.

Não esperou resposta para se retirar a passos largos, ansiosa por dormir um pouco e esquecer o furacão em que havia se metido. Andava tão tristonha que tudo o que outrora a fazia feliz e motivada, hoje já não via graça ou sentido.

Ao passar pela porta da Sala do Conselho, viu um brilho azulado que chamou sua atenção. Sabia o que era, sabia que tentar novamente lhe causaria ainda mais dor, mas foi mesmo assim. Entrou e se dirigiu até a estante próxima à janela, pegando o pequeno pássaro de gelo em suas mãos frias. Rogou para que desta vez ele voasse e fosse ao encontro do seu destinatário antes de fazer o típico movimento que lhe autoriza o voo.

Nada.

O pássaro jazia imóvel em sua mão.

Tentou mais uma vez, mais duas, sem sucesso. A Voz do Vento acha qualquer um, onde quer que esteja, desde que sua mensagem possa ser passada, desde que possam ouvi-la. Sabia muito bem o que isso significava, mas vinha tentando convencer a si mesma que tudo não passou de um mal-entendido e que aquele pássaro mágico finalmente lhe daria o sinal que tanto ansiava.

Contudo, seu anseio não passava de uma ilusão. Nos primeiros meses consultava constantemente se a ave cumpriria seu destino, mas sua imobilidade fora rasgando suas esperanças. Aos poucos, foi se dando conta de que alimentava uma mentira esperando que se tornasse uma verdade, uma atitude claramente tola e vã. Por mais que tivesse negado por todo esse tempo, lá no fundo Ashe sabia que esse dia chegaria.

Fechou os olhos, inspirou longamente e tentou pela última vez.

Movimentou sua mão direita verticalmente e, quando o peso do pequeno objeto não pôde mais ser sentido, seu coração deu um salto. Abriu os olhos o mais rápido que pôde para ter certeza de que a Voz do Vento batia asas janela afora, mal podia acreditar.

Como se o tempo tivesse parado, o pássaro pairava no ar, as asas próximas demais ao seu corpinho e as patas em noventa graus. Pouco a pouco ele foi ganhando velocidade e as lágrimas não puderam ser contidas…

O seu mensageiro caiu com um baque surdo sobre o tapete grosso da sala.

Imóvel. Rígido.

A mensagem jamais seria entregue.

A adega de vinhos era realmente um lugar assustador: frio, escuro e mesmo os sons mais baixos ecoavam de maneira audível e fantasmagórica em suas paredes de pedra; porém, aquele lugar se tornara um refúgio. Não pelo isolamento em si, mas pelos variados líquidos que apuravam nos inúmeros barris de madeira da melhor qualidade.

Desde o funeral simbólico do rei, Ashe adquirira o péssimo hábito de recorrer à bebida para fugir momentaneamente dos seus pesares. Começou por provar os que ele mais gostava, como se pudesse senti-lo mais próximo de si dessa maneira, e a embriaguez que nunca experimentara se tornara cada vez mais atraente.

Quando Les tomou o cuidado de evitar que lhe levassem muitas doses, passou a buscar as bebidas por si só, aproveitando para mergulhar no silêncio e paz daquele lugar.

Não foi nada fácil tirar a moeda do bico da Voz do Vento há alguns dias e ordenar que se desfizesse, apagando sua mensagem e, assim, admitindo que Trynda estava morto; por mais esta tarde precisava beber até o álcool tomar conta de suas faculdades mentais.

Odiava-se por estar perdendo o controle, odiava-se por amá-lo tanto, a ponto de permitir que sua falta interferisse no seu papel de soberana, entretanto isso apenas a fazia mais infeliz. Era um ciclo vicioso.

Ainda não tinha sorvido o suficiente quando a larga porta se abriu rangendo e alguém adentrou o recinto, tão certo de onde ia que não teve tempo de se esconder, seus reflexos já estavam mais lentos. Primeiramente achou que fosse Les, sempre tão determinada a lhe tirar do fundo do poço, mas qual não foi sua surpresa ao dar de cara com um homem forte e moreno, os cabelos medianos presos em um rabo de cavalo mal feito e uma roupa simplória de serviçal, que nunca vira no castelo antes.

Puxou o arco e engatilhou uma flecha, apontando diretamente para o rosto do rapaz. Viu sua expressão levemente assustada e as mãos calejadas se erguerem em sinal de rendimento.

— Majestade? — Murmurou, em dúvida. Decerto que a luz forte que emanava do seu arco naquele escuro não o deixava enxergar com clareza.

— Identifique-se — Ordenou em tom ríspido.

— Sou Hadrien, trabalho em vosso castelo como carregador — Respondeu sem pestanejar.

— E como eu nunca o vi antes?

— Eu não sou um empregado de sala, faço meu serviço com poucas pessoas por perto; em depósitos, despensas, adegas… Certamente não são lugares que vossa majestade costuma frequentar — A voz do homem era gentil e um tom de curiosidade podia ser sentido em suas palavras. Não parecia ameaçador, no entanto o reino estava passando por tantos percalços que não poderia se dar ao luxo de confiar em qualquer um.

— Esvazie os bolsos — Sua flecha continuava apontada para ele, mas sabia que sua visão não estava tão nítida quanto o normal. Tudo o que pôde ver foram materiais de trabalho como cordas, luvas de couro e alicate quando ele os jogou à frente de seus pés. — O que te trouxe aqui, exatamente?

— Levar barris cheios para abastecer os da cozinha, como costumo fazer de tempos em tempos, quando estão perto de esvaziar.

— Entendi… — Precisou de alguns segundos a mais para realmente entender tudo o que dizia. — Prossiga com o seu trabalho. E se contar para alguém que estou aqui, será prontamente demitido.

— Sim, majestade — O homem sorria enquanto apanhava seus pertences, parecia que achava graça em algo.

— Posso saber por qual motivo estás a sorrir tanto, Hadrian? — Perguntou franzindo o cenho.

— Perdão, senhora, é Hadrien. Apenas estava pensando com os meus botões… A senhora está bebendo este vinho por quê? Odeia ele!

— Como… Como você poderia saber disso? — Assustou-se como uma pessoa que nunca vira poderia fazer tais afirmações com tanta confiança. Agora que ele disse, notou o quanto aquele sabor era ruim.

— Ora, um entregador precisa saber que tipo de produto levar, eu sei que a senhora nunca gostou de bebidas amargas, por isso sempre escolhi as mais doces para agradar-lhe.

— Presumo que não seja um mero serviçal e sim um especialista em bebidas — O tom da rainha ainda não era agradável, talvez aquele ar alegre a estivesse incomodando.

— Pode-se dizer que sim, majestade, eu sei o que há dentro de cada barril desse, o seu gosto, o grau alcoólico, entre outros detalhes. Permita-me mostrar — Ele deu alguns passos à frente e acendeu uma tocha presa à parede, mergulhando o ambiente em uma luz amarelada e acolhedora. Recolheu o copo ao seu lado com um aceno e seguiu pelo corredor, fazendo sinal que o acompanhasse. Guardou suas armas e seguiu adiante, cautelosa.

— Aqui, experimente esse, está no ponto — Abriu a tampa e serviu metade do objeto grosseiro feito de barro, os olhos brilhando de satisfação. Cheirou e analisou o líquido o quanto pôde antes de bebericá-lo.

De fato, a doçura que sentiu no paladar era tudo o que precisava. Deu um gole maior e todo o seu corpo pôde deliciar-se com aquela sensação leve e aconchegante, como se os problemas fossem facilmente lavados.

— Maravilhoso! — Disse com um sorriso surpreso, ao passo em que o homem alargava ainda mais os lábios, provavelmente muito contente em demonstrar suas habilidades diretamente à rainha.

— Eu tinha certeza que vossa majestade iria gostar, é uma honra para mim servi-la pessoalmente — Fez uma reverência singela. — Aquele que a senhora bebia, além de amargo, é muito adstringente, deixa na boca uma sensação de secura que incomoda.

— Você parece entender bastante, de fato, eu quero experimentar mais, me mostre. E beba comigo, é deselegante beber sozinha.

— Majestade, eu preciso voltar ao trabalho e…

— Cale-se, não me conteste. Vá buscar um copo para você enquanto eu bebo mais um tanto deste primor.

As horas se passaram sem que se fizesse perceber; os variados sabores que existiam naquele lugar trouxeram risos que há muito não apareciam, além de impressões de liberdade, independência, poder e bem-estar, a vida era tão doce quanto aquelas bebidas deliciosas que Hadrien lhe mostrava e bebia de bom grado para aproveitar a oportunidade de desfrutar abertamente de todos aqueles barris.

Ele lhe contava uma história engraçada, pois ambos gargalhavam, mas não entendia quase nenhuma palavra do que dizia, muito menos do que ela mesma respondia, a palavras embolavam em suas línguas e os soluços constantes também não ajudavam. A tocha brilhava mais distante, a luz era fraca onde estavam e pouco se podia ver um do outro ou do ambiente, voltar tateando aos tropeços os corredores seria uma verdadeira aventura.

— Depois de dando dempo voi que viemos descoburir que voi o gato quem caussou aquilo dudo… Maldito! — O moreno se dobrou sobre os joelhos e, ao tentar voltar à posição original, bateu com a cabeça na pilastra atrás de si. Soltou um xingamento enquanto ela caçoava, alisou o local dolorido e resolveu soltar o frouxo rabo-de-cavalo para refazê-lo.

Quando os fios escuros lhe caíram sobre o rosto, Ashe pensou ter visto alguém que conhecia muito bem. Sua visão estava borrada, distorcida e sua capacidade cognitiva altamente prejudicada, então se aproximou do homem apertando os olhos para aumentar o foco.

— Tryn…? — Sua voz embargada falhava em um sussurro. Tomou o rosto masculino em suas mãos tentando enxergar além dos contornos. — Trynda…?

— O que? — Respondeu atônito.

— Voc… Voltou… — Ashe sorria e seus olhos brilhavam, marejados de alegria. — Danda saudade…

Aproximou seu rosto e juntou seus lábios em um beijo contido, a princípio, evoluindo para um beijo mais profundo e envolvente.

Não podia se conter de tanta felicidade, sentira tanto a sua falta e o desejo que estava adormecido foi bombeado por todas as suas veias tão rápido quanto um raio atinge o solo. Ele a puxou para seu colo e suas mãos ásperas e calejadas começaram a percorrer seu corpo com avidez, apertando suas carnes enquanto distribuía beijos úmidos por seu pescoço e colo.

Ele a deitou desajeitadamente sobre o chão frio de terra batida e prosseguiu com as carícias corpo abaixo, demorando-se em seus seios fartos. Entre os leves gemidos de prazer que emitia, sentiu o ambiente clarear subitamente e uma voz conhecida ecoar nas paredes de pedra.

Ashe!

A tundra se estendia à sua frente como um campo de horror, onde corpos mutilados jaziam sobre poças de sangue congeladas e o vento forte soprava o frio e o cheiro da morte. O barulho fantasmagórico do vendaval se misturava aos gritos das crianças, aos choros das mães e aos gritos dos guerreiros que se esforçavam para reverter a situação.

Assistia à toda aquela cena sem conseguir se mover, estava impotente diante de seu adversário e não podia ajudar seus amigos e irmãos. Um a um, todos foram caindo ao chão, até que nada mais restasse. A dor que sentia era excruciante, aquelas pessoas faziam parte da sua vida e, a partir daquele momento, jamais poderia ouvir novamente o som das suas vozes, das gargalhadas em volta da fogueira, tampouco observar seus rostos alegres quando abatiam uma caça grande e todos podiam saciar melhor a fome cada vez mais constante.

Não pôde ajudá-los e eles se foram.

Fora largado à própria sorte e se pôs a vagar sem rumo, procurando um local que pudesse se abrigar da nevasca que se intensificava a cada passo. Estava a ponto de congelar quando avistou uma abertura na rocha de um paredão que nunca vira antes; entrou o mais rápido que conseguiu, apertando-se entre as paredes até chegar a uma abertura muito mais ampla do que poderia imaginar.

Estranhamente o local era bem iluminado e qual não foi o seu espanto ao ver que havia uma cama larga e arrumada bem no centro. Olhou em volta sem entender do que se tratava aquilo, mas não havia sinal de que alguém vivia ali. Tateou em busca de outras entradas e saídas e não achou nenhuma além da que usara. Aproximou-se com cuidado e tocou os lençóis, a cama estava curiosamente aquecida — não somente em um pedaço como se alguma pessoa tivesse se levantado há pouco, mas toda a sua superfície por igual.

Não podia ser mais esquisito.

Ainda mantendo sua atenção e desconfiança, deitou-se debaixo dos lençóis macios e esperou que algo acontecesse.

Nada.

Talvez alguém a tenha construído aqui para passar noites mais agradáveis longe do frio. A cama aquecia seu corpo rapidamente, ficando cada vez mais aconchegante, e seus olhos começaram a pesar, o cansaço tomava conta de si e sua visão escurecia lentamente.

O sono levou embora suas angústias e sofrimentos, sentia-se leve como um pássaro; por alguns segundos sentiu um afago em seu rosto e, ao despertar vagarosamente, avistou o rosto de uma mulher bem mais que linda, que o observava de cima — tão próxima que podia sentir a respiração delicada contra seu rosto. Sabia que a conhecia e sorriu, um calor acalentador engolfou seu peito e o desejo de amá-la naquele momento virou necessidade ao fitar profundamente o seu olhar de azul-piscina, convidando-o a mergulhar e se afogar em suas águas cristalinas.

Tomou-a em seus braços e a beijou gentilmente, acariciando sua nuca e abraçando-a com ternura; tocou seus braços desnudos enquanto distribuía beijos em seu pescoço, que cheirava como a doce e intensa flor gardênia; a meia-luz do local conferia um brilho especial aos seus corpos e sua pele era tão fina que poderia passar a eternidade a senti-la sob seus dedos. Ela lhe retribuía timidamente os carinhos silenciosos e pouco a pouco despiam aquilo que os impedia de se unirem como um só.

As tochas que brilhavam fortemente na sua chegada diminuíam cada vez mais rápido, como se quisessem lhe impedir de apreciar o corpo da mulher ao seu lado. Não demorou para que suas chamas apagassem e não mais sentisse aquela presença acalentadora. Seu cheiro adocicado, a sedosidade de sua pele, a beleza do seu rosto, o brilho do seu olhar — tudo isso se fora junto com as luzes.

Abriu os olhos com lentidão, piscando repetidamente até restabelecer o foco de sua visão, e tentou entender onde estava. Pedras grotescas se retorciam à sua volta refletindo um brilho amarelado e projetando sombras trêmulas e esguias. O teto era tão alto que não podia ver até onde ia, mas logo notou que as laterais eram estreitas, não caberia muita coisa ali.

— Ora, ora… A bela adormecida finalmente acordou — Uma voz familiar caçoou ao seu lado, pouco acima de sua cabeça, e o reflexo o fez tentar levantar de súbito, mas uma dor excruciante em seu abdômen o fez voltar à posição inicial, xingando. A mulher riu e se aproximou, revelando-se. — Não precisa fazer tanto esforço para me ver... sei que sou uma visão magnífica, mas você está todo quebrado, precisa tomar cuidado.

Precisou de alguns instantes para reconhecer a loira à sua frente.

— Se… juani? — Balbuciou em meio a dor que agora se espalhava por cada centímetro do seu corpo. — O que diabos aconteceu? Onde… estamos?

— Além de dorminhoca, você agora também é a bela esquecida? — Um sorriso debochado marcava seu rosto, parecia satisfeita com algo. — Isso foi resultado da noite selvagem que tivemos, não se lembra? Pensei que você fosse mais resistente, parece que me enganei…

Um sentimento raivoso começou a se formar em seu peito com o insulto, zombaria era a última coisa que precisava nesse momento.

— Até parece que eu iria querer alguma coisa com você — Retrucou, tentando sentar-se numa posição minimamente confortável. — Você me sequestrou, maldita?

A gargalhada que Sejuani deu foi tão inesperada quanto o barulho alto que uma criatura imensa fez mais próximo à entrada da caverna.

— Eu? Me toma pelos trolls que fomos enfrentar antes da avalanche o soterrar? Não, não… Você sabe que eu não faria isso, duelos cara a cara até a morte fazem mais o meu tipo.

De repente, diversas imagens dos últimos acontecimentos invadiram seu cérebro e uma pontada de dor o fez retorcer as feições. Uma batalha, sangue por todo lado, gritos, correria e neve descendo brutalmente a montanha.

— Foi você quem me tirou de lá? — Perguntou desconfiado, não podia acreditar que ela o tinha salvado sem motivo algum.

— Em partes. Primeiro, você se desenterrou sozinho — A revelação pareceu chocar a ambos. — Seus soldados desistiram de buscá-lo em poucos dias e, coincidentemente, eu estava passando pelo local quando vi uma movimentação no chão. Enquanto a neve se remexia, eu me aproximei e vi suas mãos tentando afastar os pequenos troncos que estavam por cima e a grande quantidade de neve até abrir passagem suficiente para você passar. Seus olhos estavam vermelhos como em brasa e sua expressão era de puro ódio, nunca vi igual. Por fim, você deu um urro ensurdecedor como um animal enfurecido e desmaiou. Foi aí que eu o trouxe para cá.

Tryndamere suspirou, cansado. Mais uma vez, ele não o deixaria partir. Mais uma vez, sua fúria milagrosamente o mantivera vivo e sabia muito bem o porquê. Seu desejo de vingança contra Aatrox era tão forte que superava qualquer lógica de vida e morte.

— Suponho que você tem se dedicado a pastorear meu sono há dias, esperando o momento em que eu acordasse apenas para fazer piadas imbecis, não é?

— Dias? — A mulher riu novamente — Quase dez meses, para ser mais exata.

— O QUE? — O espanto o fez arregalar os olhos e aumentar a voz. — Não brinque comigo, mulher, ou eu não respondo por mim!

— É a mais pura verdade o que ela diz, bárbaro — Um homem idoso adentrou o recinto, sorrateiro, carrancudo e surpreendentemente forte para a idade que seu rosto aparentava ter. — Tenha mais consideração com quem salvou sua vida.

— Não pedi para que nenhum de vocês cuidassem de mim, fizeram porque quiseram. Porém, foi um ato digno que um dia eu irei retribuir, não se preocupem — Acrescentou de cara amarrada.

— Eu também não queria cuidar de você, mas Sejuani me obrigou — O velho pôs no chão a sacola que trazia no ombro e começou a retirar pequenas garrafas com líquidos de cores diferentes e outros utensílios médicos rústicos, como cumbucas e pilões de madeira para macerar ervas e misturar substâncias, uma tesoura torta, agulhas, panos aparentemente limpos e um carretel de linha de sutura feita de intestino de carneiro.

Os dois o observavam preparar, em silêncio, um unguento avermelhado de cheiro forte e ruim, não conseguiu identificar o que era aquela mistura e como ela poderia cheirar tão mal; no entanto, se deu certo até agora, não precisaria reclamar. Ainda não estava totalmente certo de que Sejuani e seu curandeiro falavam a verdade, não podia acreditar que Ashe simplesmente o abandonaria como se fosse um qualquer, como se não tivesse a menor importância para o reino e — sentiu um aperto incômodo no peito, para ela.

O velho aproximou-se e retirou a pele de urso que lhe cobria, revelando diversos hematomas e feridas costuradas, algumas pareciam mais bem curadas que outras.

— Ele fez algum movimento brusco, não foi? — Falou consternado, dando muxoxo.

— Sim, quando acordou.

— Quando você falou atrás de mim e me assustou, sua imbecil!

— Nossa, está assustadinho agora, é, Trynda? — Fez voz de falsete e riu-se, mas foi interrompida antes de continuar.

— Vou ter que abrir novamente, está sangrando. Vocês deveriam facilitar o meu trabalho, não o estragar. Agora preciso me concentrar e preciso de água quente, minha senhora.

Revirando os olhos, Sejuani se dirigiu à lateral da caverna, mexeu em alguma coisa de metal e despejou um líquido antes de levá-lo a fogueira próxima de onde estavam. O homem começou a cortar os pontos, a sensação da linha sendo puxada da pele machucada era angustiante, contudo não foi pior do que veio a seguir.

Com as ferramentas, afastou vagarosamente sua pele e seus músculos como pôde, sem cortá-los, até conseguir vislumbrar os ossos. Tentava suportar a dor contraindo todo o seu corpo.

— Felizmente, para você, as costelas quebradas já calcificaram o suficiente para suportar certos movimentos, porém nada forçado ou pesado demais, tem que tomar cuidado — Recolocava tudo no lugar com confiança.

— A água já ferveu o suficiente — Sejuani se aproximou trazendo um balde médio fumegante, depositando-o ao lado do velho. Este transferiu parte da água para um outro recipiente e esperou que esfriasse um pouco antes de despejar em cima da ferida aberta.

Cerrou os dentes para segurar o grito de dor que tentou sair de sua garganta à medida que ele limpava o local jogando água quente e enxugando com os tecidos que trouxera. Sentiu um alívio quase que imediato quando ele aplicou o unguento após costurar toda a pele.

— Tente não se mexer até que os pontos cicatrizem. Quando estava finalmente melhorando você os forçou e arrebentou, pelo menos tivemos certeza de que não tinha nenhuma infecção e que os ossos estão indo bem. A linha se dissolverá sozinha com o tempo. Deixe-me ver o resto.

Passou algum tempo analisando os ferimentos e fazendo os procedimentos necessários para cada um deles. Tocou seus membros com um pequeno objeto afiado para verificar a sensibilidade e puderam perceber que suas pernas não correspondiam tão bem.

— Ele não poderá mais andar? — Sejuani indagou com um tom de preocupação na voz. Trynda olhava de um para o outro, espantado demais para dizer alguma coisa.

— Como ele ainda sente alguma coisa, acho que poderá recuperar os movimentos com o tempo, se não ficar parado. Deve forçar os músculos e articulações, mas não demais, senão terá o efeito contrário. Vamos ficar de olho no progresso.

— Ouviu, né? Trate de se recuperar logo, não posso lutar contra um aleijado… — Divertiu-se.

— Vá se foder — Disparou sem olhá-la. O velho acenou com a cabeça para a mulher antes de se retirar do recinto — Devo achar que você, uma alma tão caridosa que cuida de pessoas debilitadas como eu, me deixaria enviar uma carta para a rainha?

— Que rainha? Aquela que não veio te procurar durante todo esse tempo?

— Isso quem está dizendo é você, uma fonte nada confiável.

— Se ela tivesse se esforçado para procurá-lo, você não estaria aqui, comigo.

Foi a vez de Tryndamere rir.

— Lógico, você me sequestrou! Claramente sou um prisioneiro nesta caverna, sequer posso comunicar ao meu reino onde estou.

— Você não é prisioneiro, eu sou uma mulher de palavra. Demos uma trégua para acabar com a festa dos trolls e eu jamais iria me rebaixar a isso. Pode sair quando quiser, ninguém irá impedi-lo, só que o lugar onde estamos é de difícil acesso e você pode facilmente se perder ou se ferir gravemente.

— E quanto à carta?

— A resposta é não. A última coisa que eu quero é aquele povinho chato batendo na minha porta.

— Então dá no mesmo; se não posso sair, muito menos me comunicar, sou um prisioneiro.

— Entenda como quiser — Suspirou, dirigindo-se até um canto para remexer uma bolsa de couro de animal. Pegou um embrulho gorduroso e uma garrafa de barro com uma rolha na tampa. Sentou-se no chão ao seu lado e desenrolou um pedaço de carne assada; o cheiro invadiu suas narinas e instantaneamente seu corpo reagiu com uma fome avassaladora. Seu estômago doía, o corpo tremia levemente e o desejo de prová-la enchia sua boca d’água. — Eu não sabia que você iria acordar hoje, então só trouxe um lanchinho para mim. Coma tudo, vai precisar de energia, você emagreceu demais… Prefiro mais fortinho, mas ainda dá para o gasto.

Ela piscou com um sorriso malicioso antes de entregá-lo o maciço pedaço de carne. Mordeu-o desesperadamente, como um predador faminto devora sua presa; o gosto era um deleite para o seu paladar e podia sentir cada célula do seu corpo vibrar com o alimento que ingeria.

— Tome um pouco de água também, depois lhe dou vinho — Estendeu um cantil grande que estava pendurado em seu ombro, como se lesse seus pensamentos, pois a sede lhe parecia insuportável no segundo pedaço que tentava engolir.

Bebeu tudo de uma só vez e pediu por mais. A mulher levantou-se para encher em um enorme barril logo atrás da cabeça do homem e fez isso por mais três vezes até que ele desse a sede por aplacada. Em pouco tempo não havia mais vestígios do alimento em sua mão, apenas a gordura em seus dedos — porém estas também não duraram muito tempo. Olhou para a loira como quem pede por mais. Ela revirou os olhos, contrariada.

— Maldito, me dava menos trabalho quando estava desacordado — Pegou seu mangual, encaixou o elmo na cabeça e pôs-se a caminhar para a saída — Tente não fazer nada estúpido, vou caçar algo para comermos. Também não beba todo o vinho!

Uma sensação estranha percorria seu corpo enquanto a observava ir embora. A cama improvisada e macia, a fogueira baixa e com pouca fumaça, a água fresca, a comida, os ferimentos cuidados… O que estava sentindo seria… gratidão?

Notas finais
Aaaaaaah, to louca pra saber o que vocês estão achando, por favor, me contem!!! *-----* Espero que tenham gostado e matado a saudade, que Deus me ajude a escrever mais rápido, amém. Amo vocês, obrigada mais uma vez!!! Bjs e até a próxima ♥♥