Notas iniciais
Vocês querem me matar, eu sei... Eu também quero, to trabalhando feito uma condenada e estudando bastante para melhorar minha escrita (vou falar melhor sobre isso nas notas finais para não ficar muito extenso aqui), não tenho nem mais cara para pedir mais uma vez que vocês perdoem a minha demora... =/ Mas peço mesmo assim pq é isso oq quem ama faz: xinga, mas perdoa ♥♥♥ Vocês sabem que eu demoro, mas sempre apareço, tenho TOC e não vou deixar de concluir a história, só estou muito atarefada e com problemas pessoais, isso tem me atrapalhado demais, é muito mais difícil postar enquanto escreve do que escrever tudo de uma vez sem mostrar a ninguém (vamos lembrar que George R. R. Martin tá aí enrolando até hj kkkkkk). Mas vamos deixar de enrolação, né? Segue: — Atualização a cada duas semanas ou quando Deus quiser, amém. — Essa fanfic é apenas BASEADA na história oficial dos personagens, NÃO quer dizer que se manterá fiel ao que o jogo já tenha divulgado ou divulgará. Semelhanças e divergências serão encontradas. — Os personagens pertencem à Riot Games.

A voz que ecoou fortemente pelas paredes chegou aos seus ouvidos em um volume muito maior do que o normal. Ficou completamente atordoada enquanto a luz se aproximava rapidamente, seguida de passos firmes, e o clarão intenso anuviava sua visão.

— Saia de cima dela, seu maluco! — Ouviu uma mulher dizer enquanto chutava e empurrava o homem que estava debruçado sobre si, fazendo-o rolar para o lado à contragosto.

Apurou as vistas e tentou se concentrar para enxergar e entender o que estava acontecendo. Viu uma Lesrie furiosa segurando uma tocha perigosamente próxima a um homem desconhecido que há pouco estava pesando sobre seu corpo. Tentou se levantar, mas o mundo pareceu girar com velocidade e o corpo pendeu de volta ao solo.

— Você é um abusado! Onde já se viu agarrar a rainha desse jeito? — Lesrie continuava afastando o homem à pontapés, que bradava de maneira desconexa por sua vez, e ambos não pareciam prestar atenção em suas tentativas de se erguer. — Tarado, como pôde se aproveitar? Você está demitido! Não bote mais os pés nesse cas…

— Les! — Ashe gritou, segurando a cabeça numa tentativa de diminuir a tontura. A mulher se adiantou em pendurar a tocha na parede e se ajoelhar com dificuldade ao seu lado para arrumar o vestido e fazê-lo voltar a cobrir os seios despidos.

— Majestade, não acredito que esse homem… Ele deveria ser preso!

— Ora, eu dão ataquei ninguém! — Retrucou consternado, parecendo tão inebriado quanto a própria Ashe.

— Não espere que eu acredite nisso, eu vi muito bem você agarrando a rainha como um animal. Você não tem respeito? — Precisou apoiar-se nos barris para ficar de pé, a barriga protuberante e pesada da gravidez limitava seus movimentos. Estendeu a mão e ajudou a outra a levantar-se também. — Quando eu voltar, não quero mais te ver aqui, ouviu bem? Não precisamos de um bêbado trabalhando na adega, tampouco.

— Les… não… — Seus pensamentos eram uma confusão e se esforçava para raciocinar o mais claramente possível, relembrando os acontecimentos que iam e voltavam como luzes piscantes. — Não voi culpa dele, eu insisti para beber comigo.

— Vossa majestade não está de inteira posse de suas faculdades mentais, pode deixar que eu cuido desse problema, vamos… — Falou com uma voz mais branda, conduzindo-a pelo corredor, mas Ashe sentiu uma irritação crescer dentro de si.

— Me doma por louca? Esdou bem!

Entretanto, sua voz embargada não passava muita confiança.

— Certo, certo. Vamos para os seus aposentos, já está tarde.

Praticamente a arrastou castelo adentro até o quarto real, o mais escondido que pôde para que não a vissem em estado tão deplorável. Pelo visto, os reis deste castelo apreciavam fazê-la assumir essa função. Ao menos Ashe não está coberta de vômito, como Tryndamere estivera naquela ocasião, pensou.

Achou por bem dar-lhe um demorado banho de água fria para curar a bebedeira, o reino não passava por bons momentos e não podiam ter uma líder acamada e improdutiva. Mesmo com as dores nas costas e os pés inchados, se esforçou para fazê-la se sentir melhor, mas não podia deixar de se decepcionar com as atitudes de Ashe nos últimos tempos. Estava relapsa, distraída e com frequência a encontrava bêbada pelos cantos do castelo, de onde raramente saía para cumprir obrigações que outrora fazia com satisfação.

— Eu sei que não estou bem — Ashe falou repentinamente, após um longo silêncio, notando a expressão no rosto da amiga através do espelho da penteadeira enquanto Les secava seu cabelo com uma toalha. — Não sou tão forte quanto pensava.

— Não diga isso, majestade, claro que é. Apenas está passando por um mau momento.

— Você só está colocando panos quentes, eu sei que não pensa assim. Nem você, nem ninguém.

A intendente sentiu que ela permanecia a observá-la pelo reflexo à sua frente e sabia que não adiantaria mentir, portanto preferiu se calar. Afinal, quem cala, consente — embora não a achasse fraca de modo algum, é compreensível ficar abalada com tantos problemas e responsabilidades jogados em seus ombros.

Com um longo suspiro tristonho, continuou:

— Eu não me reconheço mais, Les, estou totalmente descontrolada, perdida… não queria sentir nada do que venho sentindo desde que ele morreu, jamais pensei que chegaria a esse ponto…

Mais uma vez, silêncio. Lesrie sentiu que ela precisava colocar para fora tudo o que guardava dentro de si e apenas permaneceu ao seu lado, tentando lhe dar algum tipo de apoio mudo.

— Quando minha mãe morreu, foi como se tivessem arrancado o chão sob meus pés, eu me culpei durante muito tempo e quase perdi o rumo. Encontrar o arco de Avarosa foi o que me impulsionou a continuar em frente, a trabalhar duro para construir um lugar melhor para todos, para que mães e filhos e pessoas que se amavam não mais se separassem brutalmente. Agora estou me perguntando se tanto esforço valeu a pena, afinal, pela segunda vez tiraram de mim alguém que eu… — Fez uma pausa, como se fosse doloroso demais falar. — Alguém muito importante para mim. Só faltam me tirar você também.

As emoções que invadiram Lesrie foram impossíveis de segurar. Sentia uma gratidão tão profunda aquela mulher que seria capaz de trocar de lugar com ela para amenizar seu sofrimento, se pudesse. Sempre se colocou no lugar de serviçal, embora a própria rainha afirmasse que a considerava uma amiga, portanto, ouvi-la falar com tamanha estima a deixava extremamente tocada — os hormônios da gravidez contribuíam, mas sabia que não seria muito diferente em outra situação.

Uma lágrima de alegria escorreu por seu rosto, onde ela enxugou imediatamente numa tentativa de se manter firme em seu apoio. Puxou um banquinho e sentou-se de frente, segurando as mãos frias e pálidas de Ashe entre as suas mornas e levemente inchadas — essa parte é totalmente culpa da gestação.

— Vossa Graça não sabe o quanto fico feliz por saber que me considera tanto — Começou, com um sorriso afável. — E, por esse mesmo motivo, estou tomando a liberdade de lhe falar com toda sinceridade: erga-se! Não pode continuar desse jeito!

Ashe fitou seus olhos castanhos por alguns segundos antes de desviá-los para baixo, envergonhada.

— Uma mulher corajosa salvou a minha vida e me acolheu quando eu mais precisava, me deu um lar e um recomeço, me deu esperança. Essa mesma mulher, admirada por tanta gente, uniu boa parte das tribos e trouxe uma paz que há muito não se via, mas não foi bebendo e se lamentando pelos corredores de um castelo, foi lutando e trabalhando arduamente, jamais deixando de acreditar no seu sonho.

Notou que falava em tom de repreensão ao mesmo tempo em que parecia emanar um fervor de suas palavras. Tinha verdadeira fé no propósito de Ashe e sabia que ela precisava ouvir a dureza da verdade naquele momento. Apertou com mais firmeza sua mão e, segurando com delicadeza o seu queixo fino, forçou os olhos azuis a reencontrarem os seus.

— Onde está essa mulher agora?

Ashe não soube responder.

Talvez ainda estivesse sob efeito do álcool, ou talvez a tristeza tenha se instalado em sua mente de maneira tão profunda que a impedia de raciocinar com rapidez, contudo sabia que aquela mulher, mais nova e menos experiente, tinha toda razão. O que esperava encontrar deixando-se afundar dessa maneira? Não havia justificativa suficiente para negligenciar o seu tão amado reino, os problemas se acumulavam a cada dia e a culpa era unicamente sua, deixara de cumprir com seus deveres de rainha e esquecera das dores de seu povo, se concentrando na sua própria. Inadmissível.

— Minha irmã dizia que a parte boa de chegar ao fundo do poço é que não há outra alternativa senão subir. Já passou da hora de sair desse buraco, Freljord precisa de você.

Era a primeira vez que Les a chamava de “você”. Para alguns poderia significar a perda do respeito, mas Ashe sentiu como se ela finalmente colocasse a amizade acima das obrigações para com a realeza — não estava conversando com a sua intendente que lhe deve certas satisfações, mas sim com uma amiga que se importava mais com o seu bem do que com decoro, formalidades e bajulações.

Sentiu-se tão acolhida que não pôde conter o impulso de abraçá-la. Criara todas essas camadas de frieza para se proteger e, no entanto, apenas serviram para que se acomodasse e não soubesse o que fazer quando elas ruíssem. Seus olhos estavam marejados, no entanto achou por bem conter as lágrimas — já chorou o suficiente para uma vida inteira, chegou o momento de se levantar das cinzas.

— Obrigada pelas palavras, eu precisava ouvir — Sorriu, ainda sem jeito, ao afrouxar o abraço e se afastar para olhar diretamente em suas contas castanhas. — Você está coberta de razão, eu não estava preparada para lidar com tantos sentimentos e me deixei abater, mas não posso permanecer fraca quando o meu reino está entrando em colapso e o meu povo sofrendo. Já passei por isso uma vez, vou superar de novo.

— Eu não tenho dúvidas de que vai. Porém, podemos dizer que é uma promessa? Só para garantir... — Seu tom era divertido.

— Sim, é uma promessa! — Estendeu a mão para que sua confidente a apertasse, o que ela fez de pronto, selando o pacto. — Por favor, vá descansar, você já se esforçou demais.

— Deixe-me terminar de pentear seus cabelos, eu… — Ela levantou o mais rápido que seu ventre estufado permitiu e tentou alcançar a escova, porém a arqueira foi mais rápida e tomou o objeto para si, decidida.

— De jeito nenhum, você não pode fazer tanto esforço assim. E eu sei me pentear sozinha, ora essa — Fez um falso bico de insatisfação, arrancando risinhos da outra.

— Sim, senhora! — Suspendeu as mãos como quem se dá por vencida. — Tenha uma boa noite, mandarei trazer-lhe um chá para evitar as dores de cabeça de amanhã.

— Não se incomode, já lhe disse. Mas agradeço a preocupação, não sei o que seria de mim sem você — O sorriso que estampava em seu rosto era grato, não poderia estar mais feliz por tê-la ao seu lado.

Enquanto a observava se dirigir à saída, lembrou-se:

— Ah, Les! Eu não quero que você demita aquele homem, ele não fez nada de errado. Fui eu quem insistiu, acredite.

— Peço perdão pelo meu comportamento, julguei que ele estivesse se aproveitando da senhora, do vosso estado. Sei que Vossa Majestade tem o direito de se relacionar com quem desejar, não foi minha intenção ser intrometida.

— Não se preocupe, eu sei que não fez por mal e que só estava tentando me defender. Agradeço mais uma vez.

Quando a porta se fechou com um clique discreto, jogou a escova na penteadeira e rumou para debaixo dos lençóis, amanhã se pentearia melhor, agora só desejava sua cama e um sono pesado sem sonhos, de preferência.

Refletiu por alguns poucos minutos sobre as palavras de Les e chegou à conclusão de que ela estava correta em tudo, exceto, talvez, sobre poder se relacionar com quem quisesse. Não havia nada que a impedisse, de fato, porém sempre achou que relacionamentos eram uma distração das suas tarefas reais e, de certo modo, eram mesmo. Entretanto, se quisesse se fortalecer nas questões sentimentais, não poderia se fechar em copas novamente.

Estava longe de querer um namorado tão cedo, muito menos um marido, contudo o episódio na adega despertou desejos há meses adormecidos. Tryndamere conseguiu bagunçar completamente a sua vida, tirou-a dos eixos e lhe trouxe muitos problemas, mas todos os prazeres, emoções e sentimentos que descobriu ao seu lado superavam qualquer adversidade.

Com enorme pesar, remoeu até adormecer que ele partiu abruptamente e a deixou com um vazio no peito provavelmente impossível de preencher — estava certa de que jamais iria esquecê-lo.



— É, parece que não vai ter jeito, vamos ter que dormir aqui — Suspirava uma Sejuani levemente contrariada, braços cruzados no abdômen, próxima à entrada da caverna de onde observava a nevasca que caía impiedosa há um par de horas.

— Mas eu sempre durmo aqui — Respondeu calmamente o bárbaro, com algum tom de sarcasmo em sua voz alteada a fim de se certificar de que ela ouviria.

— Não estou falando com você e sim com Bristle — Deu as costas à saída e voltou-se mais adentro, parando em frente ao enorme animal e acariciando o seu focinho com doçura, olhando-o diretamente. — Eu sei, amigo, temos muito trabalho a fazer, receio que perderíamos mais tempo tentando atravessar do que se esperarmos passar.

O javali gigante grunhiu em desagrado, porém demonstrou estar conformado ao esfregar a ponta do focinho achatado em sua barriga. Abraçou-o como quem agradece e seguiu caminho até o fundo. Não era uma caverna comprida, contudo era o suficiente para ficarem bem abrigados do frio intenso e sua acústica permitia que os barulhos em seu início fossem ouvidos sem muitos esforços ali atrás.

— Tem certeza que não dá para ir? Acho que você só está fazendo corpo mole, não é mais tão forte como antigamente — O escárnio era palpável em suas palavras e sua boca esboçava um meio sorriso de zombaria.

— Pior está você, que mal consegue andar — Riu-se, adotando o mesmo tom. — Alegre-se, vou lhe fazer companhia essa noite.

— Não sei onde posso ver alegria nisso… — Revirou os olhos, amarrando a cara. Embora apreciasse que ela o tivesse salvo e providenciado cuidados para que permanecesse vivo e se recuperasse, não podia deixar de se incomodar com sua companhia ácida e inconveniente.

Desde que despertara do coma, há cerca de seis semanas, ela o visitava com certa frequência, mas nunca ficava por muito tempo. Segundo a própria, era atarefada demais para servir de babá, por isso sua mais constante companhia era um aprendiz de curandeiro cuja função era cuidar de suas lesões e lhe providenciar refeições — ou vigiá-lo, provavelmente. O rapaz pouco falava, parecia não gostar da sua presença e Tryndamere tampouco a dele. Preferia o velho curandeiro – ele também não lhe era simpático, porém gostava de explicar seus métodos de trabalho e o bárbaro aprendeu a ver utilidade em absorver tais conhecimentos; poderia se fazer preciso em ocasiões futuras. No entanto, este aparecia menos ainda.

Os exames aos quais ele lhe submetia eram mais minuciosos e, à medida que melhorava, mais espaçadas eram suas consultas. Embora ainda tivesse dificuldade para andar por causa da perna e costela fraturadas, que precisavam de mais tempo para se recuperar totalmente, as dores haviam abrandado consideravelmente — o maior problema, talvez, estivesse na vasta perda da musculatura, outrora forte e avantajada, hoje magra e com alguma definição, deixando seu corpo muito menos resistente e praticamente irreconhecível.

Era bem verdade que recuperou alguns quilos se alimentando bem, na medida do possível, e fazendo esforço para se manter ativo, contudo precisaria de treinos intensos para recuperar o corpo vigoroso de antes — algo que Sejuani o lembrava constantemente, mas seus ossos ainda não permitiam. A mulher fazia questão de lhe dizer sem rodeios que só o salvou porque queria matá-lo com as próprias mãos em um duelo à moda bárbara, portanto, deveria se recuperar totalmente o quanto antes.

Certamente ela é muito confiante, quem sabe até louca, pensou.

Como se não bastasse, por vezes a loira se insinuava abertamente e lhe fazia propostas obscenas, ora divertindo-se ora irritando-se com sua recusa. Até hoje não compreendia por quê encasquetou justamente com ele, que jamais a apreciou por conta da sua arrogância e teimosia. Masoquista, talvez? Quem sabe...

— Está servido? — Sejuani se aproximou de seu leito, estendendo uma garrafa de algum tipo de fermentado à frente. Sem responder, sentou-se na cama improvisada e apanhou o objeto, satisfeito em sentir a queimação familiar na garganta enquanto o líquido escuro fazia seu caminho. — Como tem se sentido? Melhor?

Olhou-a desconfiado, como sempre.

— Sim.

— Que bom. Me dê um espaço — E sentou-se na cama, recostando-se na parede com uma expressão cansada. Tryndamere estranhou seu comportamento silencioso e contido, mas pouco lhe interessava seus problemas.

— Quando é que você vai finalmente avisar a Ashe que me tem como prisioneiro e pedir algo em troca?

— Não vou, já lhe disse. Não é meu prisioneiro. Pode ir a hora que quiser — Respondeu casualmente, tomando de volta a garrafa e levando aos lábios.

— Maldita, você sabe que eu não tenho condições de me locomover sozinho por esse local hostil no momento.

— Se quiser que eu lhe ajude a sair, já sabe quais são as condições — Piscou, esboçando um leve sorriso nos lábios.

— Por que você não desiste de uma vez? Já lhe disse que não a quero.

Não era a primeira vez que tinham aquela conversa. A condição que ela impunha foi que o moreno lhe desse algumas tantas horas de prazer desenfreado e, quando achasse suficiente, o guiaria para um local conhecido e menos inóspito para que se virasse sozinho para chegar à fronteira.

Claramente um péssimo negócio.

Não por Sejuani não ser desejável — pelo contrário, era uma mulher muito bonita e obviamente fogosa, sem amarras e sem rodeios, algo que qualquer um apreciaria, inclusive ele próprio, mesmo que odiasse admitir – mas porque teria de se submeter às suas vontades sem nenhuma garantia de que cumpriria sua palavra. Portanto, preferiu não aceitar e se esforçar para sair dali o quanto antes, era possível que não levasse muito mais tempo para ficar forte o suficiente para aguentar a viagem.

— Não precisa me querer, basta fazer um serviço bem feito.

— Será que não existe uma pessoa em sua tribo que faça? Parece que por essas bandas as coisas não são tão superiores quanto você diz... — Riu com chacota e, para sua surpresa, ela o acompanhou.

— É, talvez não para mim… não fazem do jeito que eu quero — Deu de ombros como quem não tem outra alternativa.

Todos que experimentara até agora, e não foram poucos, a temiam e respeitavam até nesses momentos, no entanto estava cansada de não sentir um certo desafio nas relações, sabia que eles sempre acabariam se contendo e cedendo. Logo, não podia competir de igual para igual, estava constantemente ganhando e isso já não a apetecia mais.

— E o que diabos lhe faz pensar que eu faria do jeito que você quer? Seja lá que jeito seja esse.

— Intuição — Ela piscou novamente e devolveu a garrafa, enquanto Trynda ria ruidosamente.

— Você não enxerga um palmo à frente do nariz, o que poderia saber sobre intuição?

— O que quer dizer com isso? — Franziu o cenho, olhando-o.

— Insiste em continuar com essa guerra inútil, mesmo com uma ameaça maior à espreita.

Sejuani revirou os olhos, aborrecida.

— Estava demorando para começar a famosa ladainha!

— Pare de ser estúpida por alguns segundos e veja, não é difícil! — Trynda assumiu um tom irritado e exasperado, a mulher insistia em não acreditar nele. — Eu já te falei o que eu vi nas montanhas e Udyr já relatou algo parecido há alguns anos, não pode ser coincidência!

— Ele era uma criança!

— Mas não era cego e nem burro, você não acredita no seu próprio aliado? Bem se vê a merda de líder que você é…

— Olha quem fala: o Rei Aleijado! — Riu com desdém, sabia como irritá-lo e tinha um gosto especial em fazer isso.

— Ao menos minha inteligência não foi afetada, já a sua… Deixe de ser teimosa, mulher!

— Não me venha com essa conversinha, você só está inventando tudo isso para que eu me renda à sua esposinha e às suas ideologias coloridas e encantadas.

— Porra, Sejuani, eu vi! — Bateu o punho no colchão com um baque abafado. — Um ser subiu a montanha e causou a avalanche, eu vi uma figura feminina com os pés rodeados de um gelo escuro exatamente no ponto de partida da queda, só pode ser Lissandra! Trundle sempre se referia a um superior como “ela”, como você não consegue acreditar?

— E você quer que eu me una aos Avarosianos por causa de uma suposição? Era de se esperar esse tipo de atitude imbecil de medrosos como você, mas não espere de mim — Falou entre dentes, a irritação crescendo dentro de si.

— Esse é só mais um dos motivos, se unir à Ashe é o certo a se fazer! Seu povo está sofrendo com a falta de alimento aqui e se Demacia ou Noxus resolverem nos atacar, não poderemos nos defender estando divididos. Vários dos seus já debandaram para o nosso reino.

— Uns fracos, não aguentaram a realidade e preferiram viver no mundo de sonhos da sua magrelinha. Paz e amor não fortalecerão nossos exércitos, tampouco. Parece que os seus bárbaros já notaram que essa foi uma péssima ideia.

Tryndamere arqueou uma sobrancelha, intrigado.

— Do que está falando?

Um sorriso desdenhoso se formou nos lábios de Sejuani, que demorou-se saboreando a bebida enquanto apreciava sua ignorância sobre as novidades fora daquela caverna.

— Ah, sim, você ainda não foi informado… Sua esposinha não sabe cuidar de um reino sozinha, as coisas por lá estão pegando fogo… literalmente, em vários casos — Ela parecia se divertir com a informação. — A liderança fraca e questionável de Ashe está sendo contestada e afrontada por boa parte do seu povo, os Bárbaros do Norte, e por alguns Avarosianos mais espertos também. Uma guerra dentro do seu próprio reino está para estourar em breve, Rei Aleijado.

A mulher gargalhou, satisfeita em ver o maxilar e punhos do homem tensionados pela raiva.

— E eu, claro, resolvi esperar mais um pouco vendo o lindo sonho enfraquecer por si só para terminar de destruir o castelo de areia. Seu próprio povo… um verdadeiro deleite!

Não teve tempo de terminar o riso. Tryndamere agarrou o seu pescoço com uma mão e o apertou, um olhar sombrio em seu rosto tenso.

— Desgraçada… — As sílabas saíram pausadamente entre seus dentes cerrados. Agora podia entender o verdadeiro motivo pelo qual ela não o havia usado como moeda de troca: provavelmente fora dado como morto sob condições suspeitas demais aos olhos dos bárbaros, que o viram sobreviver às piores adversidades, e quando ficavam insatisfeitos era difícil controlar. Uma missão na surdina e uma avalanche não faziam o estilo de um homem feroz e poderoso como ele.

Sejuani o escondeu de todos. E de propósito.

Com um movimento habilidoso, a mulher o golpeou diretamente nas costelas convalescentes e ao mesmo tempo em que acertava seu cotovelo com tamanha força que teve de largá-la. Puxou o ar com força para tentar respirar enquanto seu corpo se dobrava instintivamente, mas a dor que irradiava do seu abdômen tornava essa tarefa praticamente insuportável.

— Se você não pôde me derrotar antes, o que o levou a pensar que conseguiria agora? — Seu rosto estava tão próximo que podia sentir a respiração pesada da loira em suas bochechas. Sua voz estava baixa, porém cada letra era carregada de tensão. Tryndamere sentiu o frio de uma lâmina curta pressionar o seu pomo-de-adão. — Poderia te matar agora. Com a facilidade de quem abate uma lebre.

— Então faça — Grunhiu, o rosto retorcido de ódio.

— Não teria graça — Afastou-se e desferiu-lhe um forte soco no rosto, arrancando sangue de seus lábios. Permaneceu séria enquanto guardava a adaga por dentro da bota que calçava. — Idiota, eu salvo sua vida e é assim que me retribui? Acho bom que você não esqueça quem é que dá as cartas aqui.

Ele não respondeu, a dor não lhe deu outra escolha a não ser olhá-la com chamas em suas contas verdes. Precisava sair dali o mais rápido possível, ainda que não estivesse suficientemente recuperado. Precisava avisar a Ashe que a ameaça era real e estava muito mais próxima do que imaginavam. Precisava retomar o controle do seu clã e lembrá-los dos seus ideais antes que fosse tarde demais.

Mas seria muito difícil derrotar Sejuani no estado em que se encontrava.

Admitiu para si mesmo, com rancor, que ela era uma guerreira extremamente forte e que, por mais que quisesse matá-la neste exato momento, seu corpo não aguentaria tamanho esforço, o longo tempo que passou em coma o deixou consideravelmente enfraquecido. Portanto, tudo o que lhe restou foi reunir uma força de vontade sobre-humana para não entrar em combate com a bárbara e ignorá-la o resto da noite — justamente para evitar seu ímpeto.

Não foi tão complicado, todavia, uma vez que ela também não estava para conversas e logo foi dormir aconchegada no calor e maciez do seu javali de estimação.

Tryndamere não pregou os olhos esta noite. Passou longas horas relembrando todos os problemas e eventos estranhos que aconteceram desde que se uniu à Ashe, tentando relacioná-los com outros fatos que poderiam ter alguma ligação. Falsas emboscadas, cartas misteriosas, trolls fora do seu território sequestrando pessoas para lhes servirem como escravos em uma forja sem explicação… pelo menos até agora. Desde que recobrara a memória da visão daquele ser, o bárbaro estava certo de que tudo isso fora obra da figura exótica a quem ele atribuía a alcunha de Lissandra, a Bruxa Gélida.

Em carne e osso.

Ou talvez em gelo e corrupção.

Difícil acreditar que aquele corpo mantinha algo de humano após tantos séculos.

As perguntas que fervilhavam sua mente estavam relacionadas à sua identidade. Trundle recebia ordens de alguém, mas se a Bruxa andasse por aí com aquela aparência, alguém já teria visto e desconfiado, pensou pela centésima vez. Com qual aparência ela se disfarça, afinal? Ou será que apenas se mantém escondida e isolada para que não a descubram? Se for isso, quantos ela tem sob seu comando para executar seus planos? Como poderiam antecipar um ataque às suas forças sem saber quem eles são?

Quanto mais pensava, menos saía do lugar — não era um trabalho que costumava fazer. Enumerou mentalmente uma lista de possíveis suspeitos pelos mais variados motivos, uma vez que não tinha base suficiente para começar, além dos trolls — que já sofreram muitas baixas e em breve seriam aniquilados, por sua vontade. E provavelmente a de Ashe também, pois abominaria aquelas criaturas tão logo soubesse os detalhes do que faziam.

Talvez perdoasse alguns que não tiveram envolvimento nos crimes cometidos: ponderar e dar uma segunda chance era de sua natureza.

Ela o perdoou e deixou que se reaproximasse mesmo quando lhe fizera tanto mal agindo como um completo estúpido, descontando nela a raiva que sentia. Aquela mulher conseguia surpreendê-lo dia após dia.

E teria acreditado nele.

Teria acreditado no que ele vira e, juntos, prontamente estariam fazendo planos para estar um passo à frente da inimiga que ressurgiu do tempo. Quando fora até sua cidade propor uma aliança, jamais teria imaginado que uma afinidade tão grande pudesse surgir entre ambos.

Era bem verdade que um casamento com uma mulher bonita e virtuosa não parecia ser desagradável aos olhos de ninguém nesse mundo, mas diversos motivos o levavam a crer que não manteriam um relacionamento além do profissional — por mais que, no fundo, bem lá no fundo, quisesse desde a primeira vez que pusera os olhos em seu rosto austero e enigmático; muito menos que sentiria tanta saudade da sua companhia, do sorriso contido, do cheiro adocicado, das mãozinhas frias acariciando sua nuca…

Suspirou, sentindo um desconforto familiar nas entranhas; lhe acometia todas as vezes em que pensava na rainha. Uma certa angústia lhe invadia quando lembrava das palavras de Sejuani no dia em que acordara de seu repouso forçado:

— Que rainha? Aquela que não veio te procurar durante todo esse tempo?

— Isso quem está dizendo é você, uma fonte nada confiável.

— Se ela tivesse se esforçado para procurá-lo, você não estaria aqui, comigo.

Poderia a sua rival, a mesma que de certa forma salvou sua vida, estar falando a verdade?

Não, não pode ser. Ashe não seria capaz…

Ou seria?

Uma voz insistente em sua cabeça pensava contra sua vontade. Mais uma vez estava se atormentando sobre as atitudes que sua esposa teve ou deixara de ter, se teria feito de tudo para encontrá-lo ou se o teria abandonado como um qualquer — e se, considerando que Sejuani e seus comparsas não estavam mentindo sobre o tempo em que ficara desacordado, mesmo depois de quase um ano separados ainda estaria sentindo a sua falta, assim como ele sentia a dela, ou se já o jogara ao esquecimento...

Um barulho na entrada da caverna o despertou de seus devaneios.

Sentou-se na cama improvisada e observou mais à frente o enorme animal farejar e emitir um barulho baixo, sacolejando o corpo para despertar suavemente a mulher que dormia sobre sua barriga. Como Bristle não se pôs em posição de ataque, imaginou que fosse um de seus adoráveis curandeiros, portanto não se preocupou em pegar sua espada e se dirigir a um local estratégico para repelir intrusos.

Porém percebeu, com imperdoável atraso, que a silhueta que adentrava o local era muito maior do que a de seus habituais companheiros de isolamento.

Notas finais
E então, meus amores, gostaram? Estou ansiosa pelos comentários lindos de vocês ♥---♥ (podem me xingar um pouco, eu mereço, mas só um pouco senão fico tisti T.T) Agora as boas notícias: terminei minha faculdade, finalmente, ihuuuuu! Também já escrevi exatas 2.037 palavras do próximo capítulo (planejava postar os dois no mesmo dia, mas não deu e eu resolvi adiantar), weee o/ E, como vocês me incentivaram muito, eu resolvi estudar bastante para melhorar minha escrita e criar estórias cada vez melhores, do jeito que vocês merecem, e também tentar publicar livros (primeiro online, depois físicos) pq é um dos meus sonhos. Vocês embarcariam comigo nessa nova fase? ♥-----♥ Já estou aplicando aqui os conhecimentos que adquiri nesses meses sumida e em breve trarei mais notícias sobre isso, espero realmente que eu possa continuar emocionando vocês com meus livros! Não canso de agradecer o apoio e companhia fiel de vocês, eu realmente os amo demais, mil vezes obrigada! Bjs e até a próxima! ♥