Destinos Arranjados
12 O Assassinato
Notas iniciais
Encarava os olhos azuis à sua frente como quem olha para uma pedra preciosa, admirado. O dia estava tão claro que a brancura da neve espalhada pelo chão ofuscava parcialmente sua visão, motivo pelo qual demorou tanto para notar que a mulher vestia um espartilho de couro tão apertado que fazia os seios saltarem para fora, quase que totalmente descobertos — e estava certo de que poderia abranger toda sua cintura com uma só mão, enquanto pedaços de pele de animais grosseiramente costurados uns aos outros cobriam boa parte das coxas em um improviso de saia.
— Porque está vestida assim, afinal? — Perguntou curioso, nunca a vira naqueles trajes diferentes antes.
— Não gosta? — Ashe respondeu, ainda sorridente.
— Prefiro algo mais fácil de tirar — Apertou-a contra seu peito em um abraço, desejoso de seu corpo.
Tornou a olhá-la e ficou surpreso com o que viu: uma mancha enegrecida em volta do pescoço feminino, que ostentava pendurado um conjunto de quatro colares grossos de prata pura.
Ela o olhava com um sorriso perturbador, então resolveu encostar os dedos na marca para ter certeza de que não era uma sujeira — se soubesse o que viria a seguir, não o teria feito.
Os colares fecharam-se fortemente em torno da traqueia da mulher, que sufocava e agonizava pedindo socorro. Não, não era exatamente isso o que balbuciava, estava mais para “pare, por favor”. Caiu de joelhos ao chão, contorcendo-se, seu rosto tomando uma coloração arroxeada.
— Ashe! ASHE! — Gritava seu nome, angustiado, tentando retirá-los, mas foi inútil; nem mesmo toda a sua força parecia capaz de folgar o aperto e salvá-la.
No minuto seguinte, o corpo pequeno parou de se debater e seu rosto enfiou-se na neve, imóvel. Virou-a para continuar tentando resgatar sua vida e logo notou que seu rosto havia mudado; seus olhos, antes azuis e vívidos, estavam acinzentados e opacos, a boca agora fina pendia entreaberta e, quando seus cabelos passaram de brancos para vermelho-sangue, o susto o fez cair em completa escuridão.
Abriu os olhos de vez e demorou para identificar o local ao seu redor, completamente confuso. Quando viu que estava em seu quarto no castelo, virou-se em busca da sua esposa e ela estava deitada ao seu lado, imóvel. Não foi gentil ao tentar verificar se havia manchas em seu pescoço e acabou por despertá-la.
A envolveu em seus braços num abraço aliviado; felizmente, estava viva e bem.
— Teve outro pesadelo, não é? — A arqueira perguntou com voz sonolenta, aconchegando-se.
— Como sabe? — Franziu o cenho.
— O modo aflito como está me abraçando, é a terceira vez que faz isso.
— Que idiotice, não existe isso — Riu com chacota. Desde que voltaram da Torre dos Uivos, há mais de dois meses atrás, e passaram a dormir enroscados depois de momentos quentes, os sonhos ruins diminuíram consideravelmente, mas já não era a primeira vez que seu inconsciente lhe dizia que ele mesmo era um perigo para a rainha.
— Então como me explica esses batimentos acelerados, que foram diminuindo depois que se enganchou em mim como um polvo? — Sequer abriu os olhos enquanto sorria de canto, zombeteira.
— Creio que você ainda estava sonhando, tal coisa não existiu.
— De que tem medo, Trynda? — Dessa vez ergueu a cabeça para fitá-lo. — Ora essa, não me diga que você ficou tão apavorado com um pesadelo que veio a mim como uma criança medrosa!
Ela não parou de rir quando ele a empurrou para o lado e a soltou, resmungando.
— Não seja estúpida, não há nada nesse mundo que me faça ter medo, muito menos agir como uma criança — Não era de todo mentira, era um homem corajoso e destemido, mas alguns temores sempre estavam presentes onde quer que fosse; com quem estivesse.
— Então devo supor que morri em seu sonho e você acordou temendo que fosse verdade, estou certa?
Estava impressionado como ela conseguia adivinhar as coisas daquela maneira. À falta de resposta de sua parte, ela fez cara de espanto e levou a mão ao peito, a boca aberta em “o”.
— Não acredito… Tem medo de me perder, marido? Que romântico, quem diria! — Caçoou, gargalhando gostosamente.
— Mas é claro que não quero te perder.
O riso cessou imediatamente e a face delicada começou a ruborizar, deixando-o satisfeito — também sabia como jogar esse jogo. Aproximou-se o suficiente para que seus narizes se tocassem e completou, aos sussurros:
— Daria muito trabalho encontrar outra rainha para ocupar o trono e a cama.
— Ora, seu… — Afastou o rosto e empinou o nariz, esnobe. — Pois fique sabendo que seria muito fácil substituir você, bárbaros fortões têm aos montes por aqui.
— Mas além de ser o mais forte, eu sou o mais esperto e o mais bonito. E minha espada é a maior também — Piscou maliciosamente, deixando o cobertor escorregar de propósito, descobrindo sua barriga perfeitamente entalhada como uma escultura.
— Não comece, veja como está claro, já passou da hora de descermos — Protestou entre risos, pulando da cama ligeira como uma raposa.
Foi em seu encalço e a alcançou na altura da penteadeira, prendendo-a com firmeza entre o tampo e seu próprio corpo despido.
— Qual o seu problema com pijamas, afinal? — Ela perguntou, risonha.
— Só servem para atrapalhar, nada mais — Meteu a mão por baixo da camisola delicada e apertou suas carnes, enquanto mantinha a boca ocupada em sua orelha.
As retribuições da rainha duraram pouco tempo e acabaram por dar lugar à hesitação quando afastou suficientemente o tronco para encará-lo, preocupada.
— Sabe, isso aqui… quero dizer, nós… parece tão errado.
— Errado?— Não entendia a que ponto queria chegar. — Então deve ser por esse motivo os boatos de que casamentos são uma droga, com a esposa não se pode foder.
— Tryndamere! Isso são modos de falar? — Repreendeu, mas ele apenas revirou os olhos em resposta, afrouxando o contato corpo a corpo. — Eu fico pensando que, enquanto estamos nos divertindo, outras pessoas estão morrendo, passando fome, perdendo amigos e parentes… estamos em guerra! Não podemos simplesmente curtir a nossa vida e esquecer das pessoas pelas quais somos responsáveis. Entende?
— Entendo, mas não dou a mínima — Sentou-se na cadeira acolchoada defronte ao móvel. — Você acha mesmo que alguém nesse mundo deixou de fazer alguma putaria por causa de guerra? Aí é que fazem mesmo, aproveitam enquanto podem!
— Devíamos estar cuidando deles, da segurança, do bem-estar, no entanto temos passado as últimas semanas mais tempo agarrados, feito animais no cio, do que nos dedicando como deveríamos ao reino.
— Ah, claro, fica difícil concentrar-me nos problemas e tarefas quando, depois de tanto tempo sem fazer, passo uns setenta por cento do dia de pau duro e… — Parou quando ouviu o chiado que a mulher emitiu, ainda não se habituara à tamanha falta de educação, como fazia questão de dizer. Pesou cada palavra seguinte com chacota. — Correção: setenta por cento do dia com o órgão genital enrijecido e a cabeça cheia de lembranças e vontades.
Pensou que a arqueira fosse manter sua pose e continuar o discurso, entretanto começou a rir, inicialmente contida, até virar uma gargalhada.
— Às vezes você é… hilário — Ela o olhava de cima à baixo, o riso perdendo força.
Chamou-a para seu colo, dando batidinhas em suas próprias coxas morenas, apreciando a indecisão que trespassava seu rosto afogueado, evidente quando mordeu levemente o canto do lábio carnudo. Insistiu, o olhar cheio de desejo, e Ashe não pôde mais resistir; pulou para seu colo como uma fera esfomeada. Era essa uma das coisas que mais gostava nela: apesar de desfilar por aí como a Rainha de Gelo, inexpressiva e séria, transformava-se em uma verdadeira fogueira quando estavam juntos. Até mesmo um simples toque parecia acendê-la e deixá-la em fogo, completamente fora de si, e cada expressão lasciva, cada barulho que emitia, o fazia sentir-se extremamente satisfeito, poderoso, como nunca se sentira antes.
Quem a olhasse de fora não veria o quanto era surpreendente; era tão viva que o deixava da mesma forma, tanto que estava começando a acreditar que a vida não era tão ruim assim, apesar dos fantasmas que assolavam sua mente com insistência. Ainda tinha visões terríveis e não conseguia manter o controle de si mesmo todas as vezes que estava dominado por emoções mais fortes — não demorou muito tempo e ele reabrira o ferimento costurado no punho da arqueira quando a segurou com força desnecessária durante atos libidinosos na Sala do Conselho e, há alguns poucos dias, inquietou-se ao notar diversas escoriações em sua pele clara, mas o maior choque foi vê-la rir e dizer, em resposta, que estava gostoso demais para se importar com paredes e assoalhos ásperos, tapetes pouco macios, móveis de madeira mal polidos e seus entalhes erroneamente pontiagudos. Com essas palavras.
Jamais cogitara a hipótese de que ela apreciaria tanto essa maneira rude, todavia julgara o livro pela capa. Portanto, chegara a conclusão de que, enquanto a fizesse sentir-se bem, não se oporia.
Uma ave robusta entrou piando pela grande janela do aviário e pousou sobre o poleiro, alimentando-se do pequeno roedor que capturara pouco antes. O encarregado esperou que terminasse a refeição para desatar o pequeno rolo de papel sujo da pata do animal e percebeu, no segundo em que bateu os olhos no lacre, que se tratava de uma carta importante. Guardou no bolso e correu para a sala do Conselho.
Quando sua entrada foi autorizada, encontrou todos os conselheiros e os reis reunidos em torno de uma mesa grande e bonita de madeira maciça, repleta de papéis e outras quinquilharias que não sabia para que serviam.
— Majestade, acaba de chegar essa carta. Não há símbolo, mas o lacre é o mesmo da outra ocasião — Falou, fazendo uma reverência e estendendo o papelote.
A rainha revirou o rolo até achar a abertura e aproximou do próprio nariz, fazendo uma confirmação com a cabeça após identificar o cheiro de banha de algum animal.
— Sejuani. Por favor, aguarde lá fora — O homem consentiu e saiu, fechando a porta atrás de si.
Ashe rompeu o lacre inusitado que somente Sejuani fazia e desenrolou menos de um palmo de papel, era toda a sua extensão. A mensagem também era curta.
Aceito. Nós quatro, ninguém mais nem menos, na fronteira. Estarei preparada caso tentem fazer alguma burrice.
E só. Certamente educação e polidez não eram seu forte, tampouco higiene.
— Aceitou até mais rápido do que eu imaginei, que estranho — Dirigiu-se aos demais, franzino o cenho.
— Deve estar tramando alguma coisa — O moreno falou, tomando o bilhete para ler. — Vamos levar mais alguns soldados daqui e acionar os da fronteira, não seremos pegos desprevenidos.
— Será que essa é mesmo uma boa ideia, Majestades? Quero dizer, os dois juntos numa reunião assim, pode ser uma armadilha — O Alto Meistre trançava as mãos em aflição.
— Pode ser um tanto arriscado, mas é necessário, então o faremos — A mulher pegou um papel tão pequeno quanto o que recebera, quase brilhante de tão limpo, e escreveu letras longas e bonitas, desenhando-as com esmero:
Cara Sejuani da Garra do Inverno,
Está combinado, nos veremos dentro de sete dias.
Cordialmente,
Ashe
Líder dos Avarosianos, Arqueira do Gelo, Rainha de Freljord
Fez questão de grafar com mais força a última linha, para não correr o risco de apagar-se durante o caminho, queria que sua rival lesse cada uma daquelas palavras.
— Preparem os suprimentos e o transporte para a viagem, partiremos em três dias. Trynda, se… — Interrompeu a própria fala quando notou os olhares que os conselheiros trocaram em silêncio, deviam imaginar que a intimidade que tinham era tamanha que se estendia às reuniões de trabalho. Tentou disfarçar, usando sua postura mais profissional. — Mere. Tryndamere, selecione os soldados que irão nos acompanhar na estrada e acione a quantidade que achar adequada para o suporte na fronteira, caso nossa querida Sejuani tente algo. Tesoureiro, quero que todas as pendências sejam sanadas antes de viajarmos, vamos agilizar isso.
Enquanto cuidavam dos preparativos, lacrou o bilhete com cera derretida marcada com o símbolo real e entregou ao encarregado que ainda esperava no corredor.
O rapaz andou vagarosamente até o aviário e esperou a ave descansar o suficiente, praticamente o dia inteiro, antes de amarrar com cuidado e firmeza a pequena carta em sua pata e vê-lo alçar vôo pelo céu avermelhado de fim de tarde.
A semana passava e, apesar da ausência dos reis, o trabalho de Lesrie não fora diminuído. O Comandante ficara como Representante Real e Ashe deixou que as demais tarefas internas do castelo ficassem inteiramente em suas mãos, fazendo-a sentir-se um tanto quanto temerosa por tamanha responsabilidade sem sua orientação constante. Faça o que eu faria, não será difícil para você, eu confio!, a rainha disse enfaticamente. E parecia estar correta, tudo estava nos conformes, sobrando tempo até para que costurasse, como antigamente.
Recentemente, diversas peças de roupas de Vossas Majestades apareciam rasgadas de algum modo e, no começo, chegou a pensar que fossem acidentes de treinos ou lutas com animais, mas depois teve certeza de que estava sendo inocente demais em suas suposições. Quando mostrou a Ashe as primeiras peças que consertou, ela enrubesceu e não segurou os risinhos nervosos. Todos notavam que seu semblante passou a ser exultante e iluminado por mais tempo e, algumas poucas vezes, a pegou suspirando com um leve sorriso nos lábios e o olhar sem foco.
Ficou tão satisfeita em vê-la contente que resolveu fazer um presente especial para lhe agradecer por tudo o que tinha feito desde aquele dia pavoroso na floresta. Não sabia se a arqueira iria gostar, mas quis arriscar, estava apostando que ao menos alguns olhares compridos e suspiros melodiosos seriam arrancados.
— Pode colocar esse também, adorei a cor — Falou para o mercador, que separava os tecidos que escolhia.
— Sabia que a senhorita teria bom gosto, peça rara, muito fina! — Ele sorria e tentava lhe empurrar tudo quanto era pano, se não fosse experiente nessa área acabaria levando até o forro da barraca com as vestes do vendedor de brinde.
A idosa da tenda ao lado olhava-os com interesse.
— Ainda não acharam o assassino do nosso falecido mercante de tecidos? Ainda me dói, era tão querido…
— Não, senhora, as investigações não deram em nada, estão supondo que foi algum animal. Contudo estão atentos a qualquer novo indício — Completou, antes que começassem a falar mal da Patrulha.
O assassinato misterioso da sua irmã, e desse homem algum tempo depois, deixou a cidade inteira aos cochichos, especulando e temendo novas vítimas. Não gostava de tocar no assunto e o evitava ao máximo; sabia que jamais iria esquecer, mas não lembrar constantemente ajudava a suportar a dor da perda tão trágica de sua única referência de família. Concentrou-se novamente nas compras e tratou de adiantá-las, precisava averiguar o andamento do trabalho dos empregados e conferir com o Tesoureiro os estoques de alimentos e as quantidades a serem usadas nas refeições do mês.
Esse último era um trabalho que, particularmente, gostava muito de fazer.
Estava colocando o pé na pequena escada da carruagem simples que usava quando ouviu seu nome ser chamado à pouca distância. Virou-se, certa de quem era, e retribuiu os acenos enquanto a carroça de verduras abria espaço entre o trânsito de pessoas, animais e transportes.
— Nossa, quanto tempo! — Lesrie se aproximou para abraçá-la. — Faz semanas que não lhe vejo, o que houve? Algum problema?
— Sim, vários, por isso dei uma pequena sumida, sequer pude avisar, me desculpe! — A mulher baixa e morena, de grandes olhos escuros, parecia especialmente animada hoje. — Mas já os resolvi, não se preocupe. Vamos, suba aqui na minha carroça que eu te levo para casa, temos muito o que conversar.
Dispensou o cocheiro e aceitou a carona, alegre por ver que sua mais nova amiga estava bem, chegara a pensar que poderia ter desaparecido como as tantas outras pessoas recentemente. Conheceram-se há cerca de dois meses atrás, quando a viu conversando intimamente com o bárbaro cujas informações que possuía sobre Meliza lhe interessavam muito. Não entendeu muito bem o tipo de relacionamento que eles tinham e, a princípio, não achava certo usá-la para conseguir extrair daquele homem amedrontador o que precisava saber, no entanto a própria mulher veio até ela e, genuinamente, formaram uma amizade agradável; só então deixou escapar sutilmente seu interesse na história e ela prometeu lhe ajudar, já que parecia ser tão importante.
Hoje finalmente iria descobrir.
Tentou disfarçar sua curiosidade enquanto conversavam bobagens por entre as ruas apinhadas de gente, sabia que esse assunto deveria ser tratado no maior sigilo. Quando se afastaram o suficiente do centro e entraram na estrada praticamente deserta que leva ao castelo, a não ser pelos guardas espalhados em certos trechos, a morena começou a falar baixo e olhar para os lados com mais atenção.
— Ouça, não foi fácil fazer com que me contasse, certamente está confiando que eu não ousarei contar a mais ninguém, creio que você imagina do que ele seria capaz de fazer comigo se descobrisse. Então, seja lá o que for fazer com essa informação, não me meta no meio de maneira alguma. Entendeu?
— Entendi, não se preocupe. Jamais direi seu nome e, se me perguntarem, negarei tudo — Lesrie falou com veemência, tentando deixá-la menos apreensiva.
— Ótimo. Não vou falar o nome dela em voz alta, o vento pode levar nossas palavras, mas você já sabe de quem estou falando.
Sim, de Meliza, a mulher que Vossa Majestade quer tanto saber algo, Les pensou, fazendo apenas um aceno de cabeça em confirmação. Manteve-se calada, escutando atentamente.
— Ela vivia no Norte, na mesma tribo que Vossa Majestade, Tryndamere, morava. Ele já era um imponente líder, embora ainda fossem uma tribo muito menor do que é hoje, e ela era apenas uma prostituta jovem e muito bonita, cabelos vermelhos como sangue e enigmáticos olhos acinzentados — Fez uma pausa enquanto passava por um dos homens da Guarda Real.
Estava absorta demais em tentar entender porque a rainha queria tanto saber sobre uma prostituta de um lugar tão distante para responder devidamente aos cumprimentos dos sujeitos conhecidos. Isso seria por ciúmes do rei? Não fazia muito sentido.
— Ele confirmou que o rei a apreciava bastante, se é que me entende… — Torceu a boca em um meio sorriso malicioso, deixando Lesrie ligeiramente desconfortável. — E o mais interessante é que praticamente toda a tribo gostava dela, tanto daquele jeito, quanto por sua caridade. Sempre ajudava crianças famintas, idosos doentes e toda a sorte de necessitados, doando os diversos tipos de pagamentos que recebia de mercadores e outros trabalhadores; também pudera, naquela tundra congelada qualquer coisa serve como moeda, não é mesmo?
— Então por qual motivo alguém faria mal a essa mulher?
— Essa é a grande questão, ninguém sabe.
A face de Les assumiu uma expressão ainda mais confusa. Notou que a carroça se dirigia em ritmo lento à entrada lateral do castelo, que dava acesso a cozinha, como todos os mercadores de alimentos faziam.
— Até hoje é um mistério, sei que nossa fonte não está mentindo, ele realmente não sabe. Continuando: na época, a situação estava um pouco mais difícil do que o habitual. Comida escassa, um frio de matar, batalhas constantes e, apesar dos problemas recorrentes de temperamento do rei, ele conseguia manter a tribo firme e continuar crescendo; eis que numa noite particularmente melancólica, após vários homens terem morrido em um confronto inesperado que durou vários dias, embora tivessem ganhado a luta, uma das prostitutas que morava na casa estranhou a demora da mulher para descer ao salão — onde os últimos homens da noite bebiam em pesar, quase ao amanhecer.
Ao abrir a porta de seus aposentos, deparou-se com a cena estarrecedora: ela jazia nua e morta em cima da cama, sob lençóis rasgados e bagunçados; havia diversos hematomas pelo corpo como se tivesse lutado com seu algoz, os olhos esbugalhados e a face marcada por lágrimas. Mas a pior parte foi a grande mancha roxa, quase negra, em seu pescoço… fora estrangulada com os próprios colares que usava.
Lesrie precisou de alguns momentos para recuperar o fôlego. Era uma história horrível e o modo poético e detalhado como aquela mulher contava a deixava ainda mais perturbada; parecia estar lendo um conto para uma criança, como se o seu conteúdo fosse algo banal. Ela sequer parecia estar abalada com os fatos — talvez já tivesse passado dessa fase.
— Que terrível... lastimável… nunca conseguiram achar nem uma mísera pista do homicida? — Les perguntou, com a boca seca, ao pararem em frente à porta de serviço. Lembrou-se do que fizeram à sua própria irmã e isso a deixava completamente enjoada e derrotada.
— Não, nenhuma. Não deixou vestígios, a casa estava cheia de bêbados lamuriosos e não viram se ela recebeu alguém, se entrou escondido, quando saiu, quem teria motivos, nada. Um completo mistério — Fez uma longa pausa esperando alguma reação da jovem, mas esta olhava para as próprias mãos, que retorcia no colo em angústia. Prosseguiu com voz doce. — Foi só isso o que consegui, espero ter ajudado.
— Ajudou sim, e muito, obrigada! Estou lhe devendo essa. Quer entrar para tomarmos um chá? — Não conseguiu sorrir enquanto descia do transporte, as imagens fantasiosas de Meliza não saíam de sua cabeça.
— Terei de recusar, tenho um compromisso a pouco, mas agradeço. Ficará para uma outra ocasião!
Despediram-se e ficou ali parada vendo a carroça de verduras se afastar sacolejando, pensando em que interesse a rainha poderia ter nisso e em sua irmã, que tanto lhe fazia falta.
Tomou o cuidado de só cair na gargalhada quando não havia mais guardas por perto no caminho de volta. Para Lissandra, não havia divertimento melhor do que brincar com as emoções e sentimentos de reles mortais, principalmente se os faziam sofrer.
Não mentiu sobre os fatos que contou, mas encher a história com firulas e entonações cuidadosamente pensadas sempre lhe deu a recompensa esperada; nesse caso, a expressão abalada de Lesrie. Sabia que ela ficaria chocada com o modo como aquela moça fora morta e lembraria da própria perda brutal.
Se não fosse tão boa atriz, teria rido malevolamente em sua frente quando imaginou a cara que aquela palerma faria se soubesse que fora ela a assassina de sua querida irmã.
Estalou as rédeas para acelerar o passo do cavalo, ainda gargalhando sombriamente — segredos revelados, sem dúvidas, eram prelúdio de tempestade.
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