Destinos Arranjados

7 Entre Sangue e Grãos


Notas iniciais
I'm back, my dears ♥ Capítulo gigante para compensar minha burrice: tive de viajar para fazer uma prova importante e ~tchan tchan tchan tchan~ não tinha notebook nem PC para eu corrigir e postar a fic no lugar onde fiquei e o meu note deixei em casa. Fui obrigada a esperar voltar de viagem, por isso estou postando hoje o cap que já tava quase todo pronto, sorry T.T Espero que um capítulo grande assim não seja tão cansativo e que vocês gostem =3 Estou ansiosa pelos comentários ♥ Como sempre: - Atualização a cada duas semanas (esse prazo pode ser estendido caso haja algum imprevisto, peço desculpas se acontecer); - Essa fanfic é apenas BASEADA na história oficial dos personagens, NÃO quer dizer que se manterá fiel ao que o jogo já tenha divulgado ou divulgará. Semelhanças e divergências serão encontradas. - Os personagens pertencem à Riot Games.

– Vejam só, Garra, como ele permanece com a pose de almofadinha mesmo derrotado — Falou Sejuani, arrancando risadas e xingamentos dos seus guerreiros enquanto segurava o Tenente da Torre da Fenda pelos cabelos, mantendo-o ajoelhado ao seu lado.

– Vou morrer defendendo meu lar, não tenho porquê me desesperar — Rebateu o tenente.

– Pena que por aqui as notícias correm rápido, senão eu mandaria sua mão em uma caixa para a rainha de merda de vocês — Cuspiu no chão em sinal de desprezo à realeza. Notou que ele usava na mão direita um anel com o símbolo dos Avarosianos. — Pensando bem, vou fazer isso mesmo. Quem quer cortar a mão desse filho da puta?

Um coro de “eu” se fez perfeitamente audível e o que estava mais próximo foi escolhido para a tarefa.

– Estique o braço, Senhor Honrado — A mulher sorria com perversidade. O homem engoliu em seco toda a raiva e medo que estava sentindo e obedeceu de cabeça erguida e olhos fechados. Quanto mais relutasse, mais eles se divertiram. O bárbaro feio e barbudo brandiu o machado e decepou sua mão como quem corta um pedaço papel. Não pôde evitar o grito de dor que saiu de sua garganta.

– Esses fracos não aguentam uma dorzinha sequer! — Ela gritou em meio às gargalhadas de satisfação. Sacou uma pequena faca de sua bota e abriu a garganta do tenente, o sangue jorrou à sua frente e o corpo caiu mole aos seus pés. O sorriso sádico permanecia em seu rosto. — Bristle, coma seu lanche antes que esfrie.

Os quatrocentos defensores de Ashe que faziam vigília na torre lutaram com bravura, mas não conseguiram impedir que os rivais adentrassem e aniquilassem a todos. Destruíram boa parte do local sem piedade, deixando os corpos mutilados largados à toa no chão gelado enquanto aproveitavam a luz do final da tarde para avançar um pouco mais e erguer acampamento ao cair da noite. Comemorariam a pequena vitória que tiveram e descansariam para o dia seguinte.

– Estou ouvindo — Falou para o pássaro de gelo em sua mão. Ele abriu o bico e a voz de um dos Sentinelas soou.

“Sejuani matou os cem vigias da segunda torre ontem pela manhã e os três mil soldados do primeiro regimento foram mortos na luta no armazém esta tarde e noite, ela permanece lá. Perdeu cerca de mil guerreiros ou um pouco mais. O segundo regimento deve chegar amanhã por volta do meio dia”. A ave deixou cair do bico o pequeno selo dos Sentinelas e se desfez, voltando a ser uma pedrinha que seria usada novamente quando precisasse.

Tryndamere socou o galho ao seu lado com tamanha força que ele se partiu e caiu ao solo. Imaginou que os primeiros enviados não os deteriam por completo, mas não previu que fossem derrotados tão facilmente. Pelo visto o modo como aquela líder treinava e conduzia sua tribo estava dando os frutos que desejava, porém não seria o suficiente quando ele próprio chegasse com seus conterrâneos.

Mais uma Voz do Vento chegou com notícias ruins aquela noite, a Garra do Inverno estava tendo sucesso nas batalhas e os soldados que enviara para repor os que foram perdidos na fronteira demorariam para chegar até lá. Preferia estar a caminho da Fenda para defender pessoalmente seu reino, mas, como não podia por enquanto, tudo o que lhe restava era esperar e tomar as providências cabíveis de longe.

Se pegou rogando aos Deuses que emprestassem sua força para os seus guerreiros a fim de vencer Sejuani e que os habitantes da vila fossem protegidos. Vez ou outra deu por si desejando que seu marido voltasse bem para casa e, apesar de chegar à conclusão de que o motivo para isso era que se acostumara com sua presença ruidosa dia e noite, essa sensação era estranha para ela. Suspirou com cansaço e deixou os papéis que deveria revisar para depois.

O sol do quarto dia estava quase a pino quando avistou ao longe os milhares de soldados Avarosianos avançando rapidamente em sua direção; certamente eles estavam em maior número, mas sabia que não eram tão resistentes quanto os que trouxera das montanhas. Escolhera em sua maioria os menos fortes para testá-los e sacrificá-los se fosse preciso; um grupo menor era formado pelos mais fortes que estavam lá para lhe auxiliar.

– Estão chegando, quero que apenas um grupo pequeno leve o resto dos mantimentos para a fronteira, já enviamos muitos suprimentos ontem; carreguem o que puderem daqui e não parem por motivo algum. Fui clara? — Falou em tom firme, recebendo “Sim, Senhora” como resposta. — Os demais se preparem e não esqueçam do plano: prestem muita atenção em suas habilidades e estratégia e quando eu der o sinal, batam em retirada.

Na hora em que finalmente estavam próximos o suficiente, viu que este regimento continha os Bárbaros do Norte e aquele a quem chamavam de rei vinha à frente, montado em um enorme cavalo-urso acinzentado com os cabelos negros dançando ao sabor do vento. Ashe não estava ao seu lado, só podia significar que não viera. Covarde, mandou um homem fazer o trabalho por ela– pensou. Sentiu-se frustrada por não poder lutar diretamente com sua rival, mas ela sentiria o peso da sua ira mesmo assim. Sem esperar qualquer negociação, fez sinal para avançarem e esperou que a linha de frente corresse aos berros encosta abaixo antes de partir em frente montada em Bristle.

Viu o rei manter a marcha enquanto os guerreiros passavam por ele às pressas para iniciar o combate depois que lhes deu permissão. E quando este foi iniciado, o banho de sangue começou. Ambos os lados eram ferozes e sedentos de matança, podia sentir a vibração de cada choque de metal contra metal e ouvir o som da carne humana sendo cortada. Pedaços de corpos amputados voavam por todos os lados e o chão se cobria de vermelho.

Girava seu mangual e esmagava cabeças em volta de si, por vezes congelando os mais resistentes com a magia do Gelo Verdadeiro. Vasculhava o emaranhado de gente à procura do seu oponente, mas foi ele quem a encontrou primeiro. Virou-se de lado bem a tempo de vê-lo aproximar-se brandindo a grande espada e por pouco não a atingiu em cheio, seu animal apoiou-se nas patas traseiras e ergueu-se tempo suficiente para que desviasse do golpe. Mal teve tempo para se recompor e aquele homem já estava atacando-a novamente, sem dar espaço para revidar adequadamente. O cavalo cinza conseguia se esquivar dos golpes de Bristle, era muito ligeiro e astuto, mas não era páreo e não iria durar muito tempo.

Pareceu que ele pôde ouvir seus pensamentos, pois deu meia volta e conduziu a montaria até uma área menos abarrotada, desmontou e deu o comando para que o animal partisse seguro; certamente imaginava que precisaria de um transporte para voltar para casa, mas iria mostrar que estava enganado.

– Tryndamere, o Rei Bárbaro — Riu com sarcasmo, andando em círculos em volta do homem. — Finalmente tivemos o prazer de nos enfrentarmos.

– E o prazer será todo meu no final, Sejuani — Sacudiu sua espada na diagonal e abateu dois guerreiros inimigos que haviam se aproximado; ela própria tinha de se ocupar com alguns Avarosianos enquanto tentava não perder o foco.

– Cadê a magnífica rainha? Agora manda lacaios fazerem o seu trabalho? — Ele barrava os golpes com uma resistência incrível, Bristle não conseguira tocá-lo em momento algum, sua fama não era um exagero.

– Minha mulher tem coisas mais importantes para fazer do que ficar dando atenção a você. Eu apenas vim me divertir um pouco — Deu um salto e pisou no dorso do javali para impulsionar-se e atingir a mulher com força nas costas.

A armadura que usava em algumas partes do corpo impediu que a espada a cortasse profundamente, porém pôde sentir um fio de sangue escorrer-lhe pelas costas proveniente do impacto que abrira sua pele. Percebeu naquele momento que seu oponente era de fato o que ansiava: alguém que a enfrentasse de igual para igual. Ele tivera a audácia de pisar em Bristle, deixando-o enfurecido a ponto de persegui-lo e jogá-lo longe com uma patada poderosa. Quando conseguiu achá-lo novamente, já havia se levantado e girava com extrema rapidez fatiando quem estava em seu caminho.

– Desça daí e lute comigo cara a cara se você tiver coragem! — Gritou quando a viu em meio ao caos. Os nervos de Sejuani se inflamaram com a ofensa, mas não caiu em seu jogo. Permaneceu montada e atacando com mais severidade. Seu animal mordia e enfiava as presas em quem encontrasse pela frente.

A batalha se estendeu por horas e ambos os lados se mostravam difíceis de derrotar. Os guerreiros foram subindo o morro até chegar novamente ao armazém, milhares de corpos ficaram pela estrada e outros tantos permaneciam em um embate furioso; machados, clavas e espadas faziam o seu trabalho de partir e esmagar enquanto seus usuários continuavam vivos. O depósito tinha um grande portão lateral e teto alto, diversas sacas de grãos e caixotes de mel, frutas e outros alimentos formavam uma variedade de pilhas pelo enorme espaço outrora cheio, agora mais da metade vazio. O javali podia se movimentar sem dificuldades no local e contribuiu para aumentar a bagunça que já haviam feito ali, rasgando os sacos e derrubando os produtos, que se misturavam às poças de sangue no chão.

Bristle receberam múltiplos cortes e já não estava tão rápido quanto antes, uma vantagem para seu rival, que conseguia chegar até ela com menor bloqueio. Não sentia muita dor em nenhum dos seus ferimentos, a adrenalina cuidava de anestesiar a maior parte deles, e o mesmo parecia acontecer com aquele homem. Ele estava coberto de sangue inimigo, porém o seu próprio também vazava pelas lesões que causara em seu corpo grande e forte, deixando-o cada vez mais irado e violento. Se não fosse ágil, teria seus braços e cabeça decepados com facilidade.

Aproveitou o milésimo de segundo de distração que um de seus homens proporcionou ao tentar enfrentá-lo e arremessou a arma em sua direção, atingindo-o em cheio do lado direito do abdômen, logo abaixo das costelas. Viu-o arregalar os olhos quando a ponta gelada e afiada do mangual perfurou sua armadura e adentrou a carne profundamente. Estava admirada com o poder de luta de Tryndamere, fora um excelente oponente e, notou com alguma insensatez, que era um homem bonito e viril, certamente era uma pena ter de matá-lo sem que pudesse fazer um uso mais prazeroso do mesmo.

Fez o movimento que precisava para congela-lo e quebra-lo em diversos pedaços.

Foi quando sentiu a corrente que segurava tencionar e um forte puxão de surpresa a arrancar de cima da sua montaria, fazendo-a cair e deslizar por entre sangue, corpos e grãos. Quando seu javali correu em sua direção, o rei cortou as cordas que sustentavam uma coluna muito alta de caixotes de madeira e estas caíram com estrépito em cima do animal.

– BRISTLE! — Sejuani gritou com o susto. Ele retirou a extremidade da arma de sua barriga e atirou aos pés da mulher, que apresentava uma expressão raivosa enquanto se levantava. Sentiu seu ombro latejar quando girou a corrente e o acertou por diversas vezes, no entanto nada acontecia. Continuava avançando em sua direção com um olhar ameaçador, vidrado e avermelhado, como se chamas fossem sair dos seus olhos. Não fizera sequer um arranhão em sua pele, por mais que tentasse.

Com um rompante, projetou-se à frente e conseguiu agarrou seu pescoço, suspendendo-a no ar. Sacudiu os pés e tentou se desvencilhar chutando-o, mas o aperto em sua garganta estava fazendo seu cérebro oscilar pela falta de oxigênio. Lampejos prateados se sobrepunham à sua vista que escurecia pouco a pouco.

Pela primeira vez em muitos anos estava sentindo a morte chegar mais perto.

Não tinha espaço para manejar o objeto que segurava tampouco força suficiente para golpeá-lo com mais vigor àquela distância, não conseguia alcançar sua adaga e, pior, não podia chamar por seu amigo.

Se fosse outra pessoa já teria sucumbido; a compressão estava muito forte e não iria resistir por muito mais tempo, mas algo pesado se chocou contra os dois e os derrubou no chão. O impacto da queda fez sua consciência voltar rapidamente e, com a visão parcialmente embaçada, avistou com alegria uma grande massa peluda arremessar para o alto o que deveria ser seu opositor. Tateou à procura do mangual e assoviou quando o achou, montando em seguida no dorso de Bristle.

Deu meia volta e retornou ao campo aberto para se recompor, mas a cena que viu a deixou extremamente desgostosa.

Estavam perdendo.

Mais da metade dos seus homens foram abatidos e os que restavam provavelmente não sairiam vitoriosos; mataram muitos dos bárbaros de Tryndamere e avarosianos, contudo estavam em menor número e cansados das batalhas anteriores.

Era chegada a hora de partir.

Deu o comando ao animal e este grunhiu de maneira estrondosa, os mais próximos tiveram que tapar os ouvidos tamanha a potência que conseguia emitir. Saiu em disparada morro acima, grunhindo por mais duas vezes seguidas. O que restou da pequena mostra da Garra do Inverno começou a recuar e a partir em retirada, deixando para trás os que não possuíam energia e integridade física suficientes para correr.

Aquele ferimento ardia como o diabo quando jogava novamente o rum a fim de higienizar bem o local. Usara um terço da garrafa no buraco que se formou em sua barriga e o restante despejou goela abaixo. Comprimiu bem a área para conter o sangramento e bebeu mais um concentrado de equinácea que levara consigo, uma flor muito usada para fortalecer a imunidade do organismo e assim aliviar dores e tratar doenças, além de evitar inflamações e infecções. Guardou as raízes da planta para mastigar durante a viagem, sabia que não seria o suficiente para acabar com o incômodo, todavia auxiliava no tratamento.

– Estão se dirigindo para a fronteira, Senhor, fugiram com o rabo entre as pernas — Falou em tom divertido um dos vinte bárbaros que levara para a batalha. Todos os outros riram e se vangloriaram do feito.

– São mesmo uns filhos da puta, só prestam para dar dor de cabeça e se esconder feito lebres assustadas — Gargalhou com satisfação. — Mas não se engane, eles farão outra tentativa. Pode demorar, porém eu sei que vão — Recostou-se em algumas sacas que permaneciam inteiras e pegou uma pedrinha azul de uma pequena sacola de couro que levava presa por dentro do cinto. — Voz do Vento — O pássaro surgiu em sua mão no lugar da pedrinha. Continuou.

– Para Ashe, Rainha de Freljord. Vencemos a batalha, pouco mais de mil combatentes nossos abatidos, Sejuani fugiu com menos de dois mil; estão a caminho da fronteira, saquearam mais da metade do armazém e inutilizaram praticamente todo o resto. Ficaremos acampados por mais um dia para assegurar caso retornem. O novo regimento da fronteira está próximo de lá, mas não deve encontrar os bastardos a tempo. Voltaremos logo — Pôs a insígnia no bico do pássaro e deu o impulso para que alçasse voo.

Vinha andando apressada pelo corredor, suas pernas trabalhavam no automático levando-a por caminhos conhecidos enquanto seus pensamentos estavam em um lugar distante. Lembrava a todo momento que há quase vinte dias ele recebera um golpe que poderia ter matado qualquer um, mas se mantinha firme como se o que tivesse acontecido fosse bem menos do que realmente era. Cuidou pessoalmente do ferimento profundo, seguindo as orientações do Alto Meistre, ainda que o teimoso protestasse alegando que era forte e não precisava de tanta frescura. Trocava seu curativo todos os dias e teve que obrigá-lo a usar faixas compressoras bem apertadas para cessar as hemorragias que ele causava ao se esforçar demais. Se curava com rapidez surpreendente em relação a um guerreiro comum e não levou muito mais que uma semana, desde que retornara ao castelo, para a chaga estar praticamente sarada.

Chegou finalmente aos seus aposentos, mas não o encontrou lá. Começou a desabotoar a capa que usava e, antes que pudesse se afastar da porta entreaberta, ouviu passos se aproximando pelo corredor. Atirou a capa em uma poltrona próxima e tentou ouvir o que as vozes conversavam. Adquirira esse hábito desde os seus quinze anos, quando quase fora morta em uma emboscada feita por homens da sua própria tribo que não concordavam com suas novas ideias de união e paz. Tentando fugir, encontrou — com a ajuda de um grande falcão, o arco lendário de Avarosa em uma sepultura ancestral numa clareira desconhecida e, ao removê-lo, sentiu o frio fluir do artefato para dentro de si e despertar seu grande poder adormecido.

– Eu não quero me intrometer nisso, não tenho motivos para tal. Depois conversaremos com mais calma, eu preciso pegar as roupas e levar para a lavadeira agora — a voz de Lesrie parecia um pouco impaciente.

– Isso faz mesmo parte do seu trabalho? Vou te aguardar — Reconheceu a voz do Tesoureiro com algum espanto, não sabia que ambos mantinham conversas pelos corredores vazios. Os passos estavam próximos da porta.

– Não exatamente, mas como sou eu quem administra os serviços do dia a dia para a rainha e estou com esse tempo livre, não me custa nada. Espere-me aqui fora então, não vou demorar — A intendente estava a poucos passos quando Ashe procurou um lugar para se esconder e continuar ouvindo o que falariam posteriormente. Olhou em volta e viu a porta fechada da sala de banho que havia dentro do seu quarto; correu e entrou, encostando-a e pondo-se a observar através da fresta que deixou.

– O que diabos você está fazendo? — Aquela voz grave vinda de dentro do cômodo a assustou tanto que teve de levar a mão à boca para abafar o som que emitira. Olhou para o lado e deparou-se com Tryndamere sentado na banheira a olhando intrigado, mais da metade do corpo imerso na água. Era um cômodo amplo e a banheira ficava afastada da porta, só podia ver da sua cintura para cima através da borda. Levou o dedo indicador aos lábios pedindo para que fizesse silêncio, ouvindo Les bater na porta para verificar se havia alguém e entrar após alguns momentos sem resposta. A viu apanhar as roupas que o rei jogava à toa pelos móveis e colocar num cesto que levava consigo.

– Então, você vai fazer o que lhe pedi? – Ambas se espantaram com a entrada não liberada do Tesoureiro; o rei apurou os ouvidos.

– Você não devia entrar, eu te pedi para me esperar lá fora — Seu tom era ríspido.

– Não estou fazendo nada demais, não vou mexer nas coisas — O homem levou na brincadeira. — Além do mais, a rainha me conhece há muito mais tempo que você.

– Mas você não tem autorização para estar aqui — Voltou apressada para sua tarefa, visivelmente incomodada com a situação. Tirou os vestidos usados da sua majestade de um baú atrás do biombo e juntou às peças que carregava.

– Vamos, faça esse favor, Les! — Ashe franziu o cenho ao ouvi-lo chamá-la pelo apelido; não esperava por essa intimidade entre os dois, apesar de ter notado alguns olhares furtivos ultimamente. — Não há nada demais em sugerir que apressem um herdeiro, meses já se passaram e não se tem sinal de que esteja a caminho.

Foi a vez de Tryndamere juntar as sobrancelhas em uma expressão intrigada. Sua esposa o olhou com o mesmo espanto, aquela conversa estava estranha o suficiente. Afundou-se até o pescoço na água morna quando ela voltou a olhar pela abertura da porta, recostando a cabeça na borda de pedra lisa; fechou os olhos para se concentrar em ouvir melhor o que diziam.

– Então por que você mesmo não sugere?

– Eu não sou tão íntimo dela quanto você, vejo que viraram amigas e sei que mulheres conversam sobre esses assuntos. Les, é importante, o reino precisa de alguém que dê continuidade a esse legado; as pessoas andam cochichando sobre isso, ainda mais depois do ataque repentino da Garra do Inverno! Imagine se nossa rainha morresse em uma dessas batalhas, quem iria assumir o lugar dela? — Os reis haviam de concordar que o Tesoureiro não estava errado, era compreensível que deveriam assegurar seu povo quando não estivessem presentes, porém não era tão simples. Os conselheiros poderiam crer que eles estavam mantendo uma relação amorosa como um casal normal, mas não estavam.

Era de conhecimento geral que se casaram apenas com intenções políticas; Ashe passou dias negociando a aliança com os Bárbaros do Norte e fora Tryndamere quem ofertara o tratado, mas fora ideia da própria fortalecer ainda mais o acordo com um casamento, mantendo assim as tradições de Freljord que diziam que a rainha deveria escolher um homem para ser seu rei e governar ao seu lado.

Ela o escolheu visando as necessidades da sua população e, satisfeita, viu centenas de bárbaros habilidosos fortalecerem a sua tribo ao se instalarem em Rakelstake, a capital das tribos unidas; ele, por sua vez, finalmente poderia proporcionar ao seu povo a voz ativa que necessitava e o reconhecimento como os orgulhosos nobres guerreiros que sempre foram. Apesar de mal se conhecerem, o casamento fazia parte dos seus deveres como líderes e o aceitaram, porém não atentaram muito para a parte prática do matrimônio. Era mais do que óbvio que os Avarosianos esperassem e até ansiassem pelo herdeiro do trono após o enlace mesmo sabendo os reais motivos para aquela união. Talvez essa fosse mais uma obrigação que suas majestades teriam de acatar em prol do reino.

– Olha, eu não sei... não quero chateá-la e nem quero que pense que estou me intrometendo em sua vida — Lesrie se dirigia diretamente para a sala de banho enquanto falava e a rainha percebeu que ela iria conferir se havia mais alguma peça ali que pudesse recolher. Olhou rapidamente para os lados e não encontrou nenhum lugar fechado que pudesse se abrigar, exceto a banheira de pedra grande o suficiente para caber duas pessoas com folga. Correu nas pontas dos pés e sussurrou “abaixe-se” para um Tryndamere surpreso, enquanto mergulhava o mais silenciosamente possível de botas e roupa na mesma água em que ele se banhava. O moreno submergiu milésimos de segundo antes da porta abrir e a intendente entrar. Não puderam ouvir o que o Tesoureiro falou, apenas o som distante da voz feminina dentro da sala.

– Tudo bem, vou pensar. Se der para falar, eu falo, satisfeito? — Concordou por fim com certa relutância, pegando uma calça e faixas compressoras sujas de unguento do chão, além de toalhas úmidas em cima de um balcão de pedra entalhada à alguns passos da banheira e as depositando na pilha. Olhou rapidamente em volta e saiu logo depois, deixando a porta fechada. Quando o ar começou a faltar ambos emergiram lentamente e se certificaram de que estavam sozinhos antes de se sentarem e respirarem adequadamente.

– Eu não sabia que eles tinham essa proximidade toda — Falou o rei enquanto passava os dedos pelos próprios cabelos para desembaraçá-los.

– Nem eu. Bem que notei que havia algo diferente entre os dois, vou averiguar essa história depois — Tirou as botas e as depositou no chão ao seu lado. O homem a olhava maliciosamente.

– Não basta espiar os criados, tem de ficar aqui me olhando tomar banho também? — O leve sorriso que ele dava nessas situações sempre a aquecia por dentro. Era estranho e instigante ao mesmo tempo estarem juntos ali.

– Pensei que já estivesse terminando, iria aproveitar para tomar o meu já que estou toda molhada — Ele não sabia se aquelas palavras foram ditas sem intenção ou de propósito, contudo seu sangue acelerou em suas veias instantaneamente. — Não deveria ficar tanto tempo com o corte imerso, deixe-me ver como está, certamente você já danificou algo.

Aproximou-se e sentou-se ao seu lado, olhando-o de frente e esperando que se erguesse um pouco mais para que a água não encobrisse o ferimento. Ele revirou os olhos, tanto cuidado não era necessário e sabia muito bem se virar sozinho, no entanto faz o que pedia. Ela chegou o rosto mais perto da abertura em sua pele logo abaixo das costelas e examinou, tocando a região arroxeada em volta com as pontas dos dedos finos e puxando de leve para ver se o corte havia finalmente fechado.

– Ainda está aberto, mas não parece infeccionado. Como eu esperava, a pele está mais frágil, evite molhá-la. Não está ardendo?

– Um pouco, sim, porém não me importo — Segurou seu punho fino e o afastou, fazendo-a erguer-se e encontrar seus olhos. Tentou encará-la, no entanto não conseguiu, não estava acostumado a gentilezas. — Ashe, tudo o que tem feito… Já lhe disse que não precisa, mas você é turrona como um burro e... Enfim, eu agradeço.

Ela piscou os olhos por alguns segundos para ter certeza de que não tinha se enganado. Nunca o ouvira agradecer a ninguém de maneira tão verdadeira, chocava-se ao ver que ele tinha essa capacidade lá no fundo.

– Não há de que — Retribuiu com um sorriso delicado.

– O que você achou sobre essa conversa de herdeiro? — Perguntou de repente, com uma expressão séria. A rainha precisou de alguns momentos para responder.

– Não sei, os tempos estão difíceis, como vou lutar bem estando grávida? Posso até colocar em risco a vida do bebê e a minha. E como vou criar essa criança em meio a esses ataques inesperados?

– Isso quer dizer que a possibilidade existe, só depende das circunstâncias? — Encarou-a, mas foi a vez dela de desviar o olhar, não estava habituada a ter conversas sérias com ele sobre esse assunto; fazia parecer que era algo real, não só brincadeiras ou fingimentos.

– É o que esperam de nós, não é? O que ele falou está certo, alguém precisa assumir o lugar e laços de sangue são os mais poderosos.

– Entendo — Um silêncio incômodo se abateu sobre eles por alguns minutos. — Bom, quando quiser fabricar esse bebê ou treinar o processo, é só me chamar — Sorriu dissimuladamente. Ela o encarou, aliviada por ter quebrado a tensão com graça.

– Treinar não me parece uma ideia tão má assim, meu marido. Afinal, sou um tanto quanto leiga no assunto — Disparou. Tryndamere franziu o cenho e levantou uma das sobrancelhas enquanto digeria a informação imprevista.

Leiga? Não me diga que você nunca… — Não segurou a risada de incredulidade.

– Não, qual o problema? — Amarrou a cara com a zombaria dele. — Minha mãe foi morta quando eu tinha apenas quinze anos e desde então eu sou a líder da tribo, não tive tempo nem muito interesse para chegar a esse ponto.

– Todo mundo tem tempo para isso, menos a Rainha de Gelo. O apelido lhe cai bem — Continuou rindo com chacota, não conseguia se segurar.

– Pois é, agora que tenho você para assumir meu lugar quando estiver ocupada, poderei dedicar um tempo para tais atividades — Rebateu.

– E quem vai ficar no meu lugar quando estiver ocupado com você? – Encarou-a com aqueles penetrantes olhos verdes e esta não encontrou resposta para dar.

– Vamos, saia logo, eu sei que você já terminou e só está enrolando. Vou virar de costas para dar-lhe privacidade — Disse por fim, virando-se.

– Sequer posso banhar-me em paz, que mulher inconveniente… — Resmungou após alguns momentos. Levantou-se e despejou um balde de água pura sobre a cabeça para tirar o restante do sabão; desceu da banheira e apanhou uma toalha limpa para se secar a caminho da porta.

Mais uma vez não conseguia pegar no sono, estava acordada e inquieta olhando distraidamente para o teto do aposento real repassando na mente toda a sua vida e planos e já estava certa de sua decisão. Seu marido também estava inquieto aquela noite, mas não pelo mesmo motivo que ela; era mais um de seus pesadelos estranhos. Ele nunca contava o que sonhava, nunca respondia direito seus questionamentos, pelo menos não quando estava acordado. Nas últimas três vezes em que ele resmungara durante a noite fizera-lhe perguntas enquanto dormia, porém as respostas não faziam muito sentido. Ouvira alguns nomes desconhecidos, ameaças de morte e alguns xingamentos, então supôs que estaria brigando com seus desafetos em sonho. No entanto um nome se repetia com frequência, sempre seguido de “está morta”, e isso a encafifava.

Ele estava proferindo aquele nome novamente esta noite como se fosse um lamento. Chegou bem perto dele na cama e começou a sussurrar em seu ouvido.

– Quem é Meliza? — Esperou, mas a única reação que teve foi uma careta. Resolveu mudar a tática. — Oi, Trynda, me chamou? Pode falar.

Arriscou chamá-lo pelo apelido, já ouvira Gragas chamando-o desse jeito e poderia fazer com que seu inconsciente deixasse algo escapar. Tinha de esperar algum tempo até que ele respondesse alguma coisa que fizesse sentido.

– Está morta… Não pode... — Silêncio.

– Como eu morri? Você sabe? — Observou-o e sua expressão parecia de angústia.

– Não… Não quis…Sufoquei…

– Quem fez isso comigo, Trynda?

– Ele… Não eu… Culpado… — Agora estava bem mais agitado e ainda não conseguira entender bem o que dizia.

– Ele quem? — Insistiu, mas se arrependeu no instante seguinte. Viu-o levar a mão à uma cicatriz bem grande na lateral do abdômen e começar a se contorcer, chutar e gemer de dor. Tentou acordá-lo, contudo os gemidos foram aumentando de volume e se tornando gritos de raiva, deixando-a nervosa. Não deveria ter feito aquilo, ele visivelmente estava com problemas.

– Acorde, ACORDE! — Sacudi-o e falou mais alto até que o rei se sentasse de súbito na cama, trêmulo e em silêncio. — Que susto você me deu! Vai me dizer o que estava sonhando dessa vez?

– Não — Fora taxativo. Ashe suspirou decepcionada, vendo-o enxugar o suor da testa com a mão.

– Como ganhou essa cicatriz? — Perguntou curiosa.

– Em uma luta.

– Contra quem?

– Não é da sua conta.

– Estúpido, só queria entender para te ajudar.

– Não quero nem preciso de ajuda — Recostou-se nos travesseiros e passou a fitar o teto. Ela permanecia sentada e claramente chateada. — Não quero falar sobre isso agora, pode ser? Pare de me azucrinar.

– Que seja — Concordou a contragosto após algum tempo. Tocou a cicatriz do homem com interesse e percebeu-o desconfortável. Era uma marca de quase dois palmos de comprimento e tinha um formato bem peculiar, nunca tinha visto algo parecido. Resolveu sanar outra curiosidade que existia há um bom tempo. — A propósito, por que sua pele é tão quente?

– Não sei, sempre fui assim; deve ser o sangue bárbaro. Já você tem mãos geladas e o resto um pouco morno, é estranho — Colocou um dos braços sob a cabeça e fechou os olhos para voltar a dormir.

– Falando em estranho, há algum tempo eu sondei Les e descobri que ela e o Tesoureiro têm um interesse romântico mútuo. Isso explica aqueles olhares nas refeições — Riu-se ao lembrar do quanto era engraçado vê-los disfarçando, sem muito sucesso.

– E também aquela conversa que ouvimos. Bom, que sorte a dele em encontrar uma mulher jovem e bonita nessa altura da vida.

– Ele não é tão velho, deve estar perto dos quarenta anos e é um homem ativo, bem-apessoado, elegante, ela não está fazendo uma má escolha. E quer dizer que você anda reparando em quem é bonita e quem não é por aí, não é mesmo? — Seu tom saíra um pouco mais ácido do que realmente queria.

– Ora essa, eu não sou cego — Notou o silêncio da mulher e abriu os olhos para fitá-la; estava deitada de lado voltada para si, o tronco levemente erguido pelo braço que apoiava nos travesseiros para sustentar a própria cabeça em sua mão e o olhar perdido em algum pensamento. Não pôde deixar de notar, mesmo com pouca luz, as curvas que o lençol desenhava naquela posição. — Mas não se preocupe, você é muito mais bonita do que todas que já vi. Não me caso com qualquer uma.

– Convencido… — Sorriu, encontrando e fixando seu olhar como se estivesse agradecida pelo elogio. Deu um longo suspiro e resolveu falar de uma vez. — Eu estive pensando há muitos dias sobre aquela conversa de herdeiro e acho que poderíamos tentar.

– Tentar ter um? Você mesma tinha dito que não era um bom momento e eu concordo, melhor não arriscar — Olhava-a com o cenho franzido, como se estivesse falando bobagens. Ela aproximou-se ainda mais e pousou a mão em seu peito, girando entre os dedos o pingente verde em formato de losango que ele sempre usava. Vinha desejando esse tipo de contato há um bom tempo, mas não sabia como abordá-lo quando estavam a sós. Finalmente tinha uma boa desculpa e alguma dose de atitude e também confiança naquele que era praticamente um desconhecido há vários meses atrás.

– Bom, imaginei que seria legal treinar um pouco… — Sua voz saía aos sussurros de tão próxima que estava. Entrelaçou uma de suas pernas nas dele por baixo do cobertor e debruçou metade do corpo por cima do tórax desnudo; seus narizes quase se tocavam, podiam sentir a respiração um do outro em suas faces, porém suas contas verdes estavam agitadas nas órbitas, certamente tentando chegar a uma decisão rápida.

– Não se lembra daquela vez? Eu não sei se vou conseguir me conter e você é… — Ashe o interrompeu colocando os dedos sobre seus lábios. Curiosamente estavam menos frios que o habitual.

– Eu sei que vai — Chegara até ali e estava determinada; não passaria daquela noite.

Notas finais
Opaaaa... ( ͡° ͜ʖ ͡°) Vejam só quem está botando as manguinhas de fora... ( ͡° ͜ʖ ͡°) E nessa fic as tretas nunca acabam, né verdade? :v pokepaoekpasoekpa Mal posso esperar para saber o que acharam *-* Bjs e até o próximo ♥