Destinos Arranjados
8 Desejos Marcados
Notas iniciais
A lua cheia iluminava o céu daquela noite em Freljord. A leve claridade da madrugada entrava pelos vitrais das janelas e se juntava às poucas arandelas acesas no quarto, oferecendo uma luz suave e amarelada devido à lareira que ainda mantinha aceso um fogo baixo em pequenos restos de madeira e brasas. A essa hora todos no castelo estavam dormindo, exceto os reis.
Ashe estava deitada em sua cama debruçada sobre Tryndamere, livre de qualquer fingimento e munida de coragem. Lembrou-se da primeira vez em que chegaram tão perto um do outro naquele mesmo cômodo e sentia novamente a vontade inquietante de desfrutar do que ele poderia lhe proporcionar. Cortou a distância entre os dois e beijou-o com suavidade, notando que permanecia relutante. Não entendia o porquê, afinal ele se insinuava frequentemente e a tocava com tanto desejo quando colocavam o plano da lua de mel em prática — no entanto nunca tentava fazer algo quando estavam em privacidade e, agora que ela tomara a iniciativa, parecia indeciso.
Insistiu um pouco mais, alisando seu rosto e esfregando delicadamente seu joelho nas partes íntimas do homem até sentir duas mãos percorrerem suas coxas por baixo do lençol e deterem-se em sua cintura, alisando-a enquanto intensificava o beijo. Não importava os motivos que tivesse para negá-la, sabia que Trynda não resistiria.
Havia um motivo para fazer brincadeiras sobre o assunto com ela: eram apenas brincadeiras. Gostava de provocá-la para quebrar seu jeito contido e reservado, mas não esperava que fosse provocado daquela maneira. Achava que o afastava quando se excedia por não querer chegar aos finalmentes com ele, compreendia que a tinha assustado na primeira ocasião e se mantinha distante por suas próprias razões; principalmente depois que soubera que sua esposa era tão inexperiente — difícil acreditar que uma mulher como ela, tão independente, confiante e poderosa não tivesse se permitido esse prazer até hoje. Porém, pelo visto, a rainha gostava dos seus toques e o impedia de avançar demais durante o plano por estarem em locais comuns aos moradores do castelo.
Um turbilhão de pensamentos embaralhava seu cérebro enquanto ela o beijava. Seu desejo lascivo travava uma batalha contra a decisão que tomara há quase sete anos, entretanto o pouco bom senso que tinha estava cedendo ao passo que a mulher o atiçava. Até hoje nenhuma chegara perto de fazê-lo revogar sua decisão, mas certamente com Ashe era diferente. Era sua esposa e mais cedo ou mais tarde isso teria de acontecer, ainda mais depois de todo aquele assunto sobre sucessores.
O que mais queria naquele momento era consumar seu casamento e não pôde mais resistir quando ela envolveu seus quadris com as pernas e deitou-se por cima dele, beijando levemente seu pescoço. Arrancou o lençol que os cobria e jogou-o longe, queria vê-la e aquilo estava atrapalhando. Observou sua bunda empinada parcialmente descoberta pela camisola curta que usava e levou uma das mãos até ela para apertá-la enquanto a outra seguia para seus cabelos brancos.
Não foi preciso muito esforço para fazê-lo entregar-se à sua vontade; teve a confirmação de que se rendera quando suas mãos se tornaram mais ousadas e uma puxada em seu cabelo a fez dobrar o pescoço e olhar diretamente para ele. Fitaram-se por alguns momentos e confirmou para si mesma que estava fazendo a coisa certa, nunca tinha sentido um desejo tão forte como aquele e já não podia mais permanecer refreada, deveria aproveitar enquanto há tempo.
O rei mordiscou seu queixo e seguiu para a orelha, fazendo-a arrepiar-se; a tração constante em suas madeixas a excitava mais do que supunha e lhe parecia que não chegava a um limite — quanto mais puxava, mais gostava. Ele suspendeu o próprio tronco sem soltá-la e sentou-se na cama encaixando-a em seu colo com as pernas abertas, deslizando as mãos para a barra da camisola e levantando-a para despi-la. Sentia seu rosto queimar à medida que ele analisava seu corpo seminu com os olhos e mãos, era a primeira vez que a via sem roupas.
Afagou os seios firmes com mãos quentes e tomou um deles em sua boca, chupando-o e lambendo-o com intensidade. Soltou um gemido baixo e mexeu os quadris involuntariamente, encostando em seu pênis duro e pulsante embaixo da calça. Sentiu umedecer-se mais a cada sensação e o sangue parecia fogo em suas veias. Acomodou-se de modo que pudesse friccionar mais seus órgãos e rebolou de leve. O efeito fora tão bom embaixo quanto em cima: ele sugou e apertou seus seios com força, em seguida mordeu-o levemente, fazendo-a gemer mais alto.
Imaginava que todas as virgens ficassem nervosas e retraídas na primeira vez, mas não aquela mulher. Mais uma vez ela o surpreendia com sua calma aparente e retribuições nada frígidas comparadas à personalidade que demonstrava diariamente, apoiando-se em seus ombros sem parar de mexer o corpo em ritmo lento, levando-o a emitir sons baixos e graves entre a respiração ruidosa.
Boa parte de si preferia que não tivesse sido o que desempenharia esse trabalho, sabia que precisava ser gentil para não a machucar tanto e isso era o que menos conseguia ser nessas horas; no entanto a outra parte estava eufórica por ser o primeiro. Já estava fazendo um esforço enorme para manter o controle e a maior delicadeza possível, não era nem um pouco fácil para ele aquela situação, contudo se deixou levar pelas próprias vontades, pelas dela e até pelos conselhos que ouvira recentemente.
Envolveu os braços em torno de sua cintura fina e, de maneira repentina, a deitou entre os travesseiros, posicionando-se por cima e esfregando-se com mais vigor enquanto mordia seus lábios macios e carnudos. Ela massageava sua nuca e costas com a mesma intensidade que ele a alisava e apertava, bem como devolvia-lhe as mordidas e beijos com o mesmo ardor. Percebeu que o roçar da sua barba negra na pele fina a arrepiava e usou isso a seu favor, descendo o rosto vagarosamente até seu umbigo. Distribuiu beijos pela barriga lisa e a olhou quando apertou os dentes em sua carne com mais força; Ashe fechou os olhos e soltou um gemido prazeroso, parecia gostar das pequenas dores que lhe infligia.
Sentia uma tensão crescente à medida que ele prosseguia pelo seu baixo-ventre, deixando marcas avermelhadas que não sumiriam com tanta facilidade. Prendeu a respiração quando o homem agarrou entre os dentes a sua última peça e a puxou até os joelhos. Olhou fixamente em seus olhos azuis quando juntou e ergueu suas pernas, terminando de despi-la. Percebeu que apesar de manter-se comedido, seu olhar era um tanto quanto selvagem, como um lobo espreitando a presa pouco antes de atacá-la.
Seu coração batia acelerado, bombeando adrenalina cada vez mais rápido por seu corpo aquecido. Achou que todo o seu sangue tinha se concentrado em seu rosto quando ele pousou suas pernas novamente na cama e permaneceu ajoelhado entre elas. Sentiu-se ligeiramente constrangida por estar tão à mostra para outra pessoa, mas tentou continuar encarando-o para não dar espaço ao nervosismo que fez menção de sobressair quando as mãos ásperas subiram pelas coxas macias e se detiveram em sua virilha.
Fechou os olhos. Estava completamente entregue.
Tocou-lhe o sexo com gentileza de início, como se quisesse sentir cada parte antes de prosseguir aumentando a pressão e ritmo aos poucos. Estava tão molhada que os dedos dele escorregavam deliciosamente e lhe arrancavam gemidos involuntários e consecutivos; sabia quais eram as regiões mais sensíveis e as estimulava com precisão, atento às suas reações. Sem parar o que estava fazendo, inclinou-se sobre ela e deu-lhe um beijo tão ardente que a deixou sem fôlego.
– Trynda… — Começou a murmurar acariciando o rosto a milímetros do seu, mas um fraco gemido de dor irrompeu de sua garganta antes que pudesse terminar. Um de seus dedos grossos fora introduzido lentamente em sua vagina, causando uma leve sensação dolorosa e prazerosa ao mesmo tempo.
– Gosto que me chame assim, Ashe — Sussurrou ao seu ouvido. A voz rouca e a mordiscada em sua orelha a fizeram derreter e suspirar. Tornou a beijá-lo e escorregou as mãos pelo corpo do homem, sentindo os músculos muito definidos do seu peito e abdômen; alcançou o cós da calça que ele usava e puxou as cordas que a amarravam, desatando-as.
Afastou a peça e foi de encontro ao membro que descobrira; era muito mais quente que qualquer outra parte daquele corpo, curiosamente macio e rígido ao mesmo tempo, com algumas veias saltadas que podia sentir ao alisá-lo suavemente. Sentia a respiração do moreno ficar cada vez mais ofegante à medida que o apertava com cautela, seguindo o compasso do dedo que entrava e saía de si.
Estava satisfeito em ver que ela o desejava da mesma maneira libidinosa que a cobiçava em pensamento por todo esse tempo e chegava a se encontrar feliz, de certa forma, naquele momento. Notou que os dedos finos da mulher mal se tocavam ao fechá-los em torno de seu pênis largo e que, apesar da pouca experiência, seu toque era deveras prazeroso. Desuniu os lábios e abriu os olhos para fitar seu rosto corado marcado por expressões de deleite; achava-a ainda mais bela desse jeito.
Deparou-se com grandes olhos acinzentados, arregalados e sem vida observando-o, emoldurados por longos cílios pretos. Ao redor do rosto arredondado, grossos fios vermelhos caíam-lhe em cascata sobre os ombros e seios nus; seu pescoço trazia marcas de um roxo tão escuro que mais parecia preto e sua boca entreaberta já não possuía cor.
Estava morta.
Com um sobressalto, saiu de cima do cadáver e se distanciou, piscando algumas vezes para saber se era realidade ou mais um de seus pesadelos.
– O que houve? — Sua esposa estava sentada na cama, as pernas encolhidas e o semblante alarmado. — Fiz algo errado?
– Não, não foi isso… — Ficou aliviado ao ver que os cabelos brancos à sua frente eram os reais; os ruivos não passavam de uma lembrança penosa. Seu peito ainda doía devido à visão assombrosa, precisou de alguns instantes para restabelecer a respiração e acalmar-se antes de responder evasivamente. — Eu pensei ter ouvido um barulho. Parece que foi só impressão minha, está tudo bem.
– Se você diz… — Aproximou-se quando ele terminou de tirar a própria calça e segurou suas mãos com um sorriso terno, puxando-as. — Vamos continuar.
– Ashe… — Trouxe-a para seu colo e a fez sentar-se de frente para si. — Quero que você faça o que for preciso para me impedir se eu tentar fazer algo contra você, seja lá de que jeito for — Viu-a franzir o cenho intrigada e adiantou-se quando esta abriu a boca para responder. — Não questione, só prometa.
– Não entendi o motivo disso, mas prometo — Afagou-lhe a cabeça e a nuca carinhosamente enquanto a outra mão explorava novamente seus músculos e detinha-se em seu falo ereto, posicionando-o de modo que pudesse roçar-se, agora sem peças de roupa para obstruir.
Senti-la deslizando livremente lhe trazia a tensão aprazível de que a qualquer momento iria introduzir-se finalmente. Controlou os próprios instintos e deixou que fizesse o que lhe conviesse.
Todo o seu corpo parecia queimar e pedir por mais e mais sensações como aquelas; já havia esperado o suficiente. Ajeitou a glande na porta de entrada da vagina e tentou fazê-la entrar, mas não conseguiu. Rebolou e forçou um pouco mais, porém era mais difícil do que imaginava: doía moderadamente e tinha a impressão de que estava tentando passar uma corda por um buraco de agulha.
Na terceira tentativa, sem sucesso, ele foi em seu auxílio. Abriu mais as pernas da rainha, segurou suas ancas com mãos firmes e, lentamente, conduziu movimentos circulares enquanto a empurrava para baixo e erguia o próprio quadril ao seu encontro. Ao perceber que a virgindade estava começando a ceder, o rei fez um movimento menos gentil e a cabeça do seu pênis enfiou-se de vez, arrancando-lhe um gritinho abafado. Esperou alguns segundos antes de continuar a penetrá-la devagar.
Sentia como se estivesse rasgando-se.
Era uma dor fina, constante e nada prazerosa — pelo menos não neste primeiro momento. Respirou fundo e ficou parada, esperando acostumar-se e sentir maior alívio.
– Ah... como é apertada… — Gemeu, fechando os olhos para saborear melhor a sensação. Logo depois demonstrou algum tipo aflição, talvez ansioso para continuar o quanto antes.
Há muito que Tryndamere não provava do calor de uma mulher, desde o incidente ocorrido há quase sete anos, e estava muito difícil manter-se controlado ao sentir o quão quente e úmida Ashe era por dentro. Uma espécie de fúria insistia em crescer em seu interior e controlar sua mente e ações, era daí que vinha sua agonia. Não gostava de admitir, entretanto temia que fizesse algum mal a sua esposa e levasse a pôr Freljord em colapso por consequência.
Afastou os pensamentos negativos e tentou se concentrar no que estava fazendo — o pequeno sofrimento dela parecia ter diminuído o suficiente para permitir-se movimentar. Começou a tirar o membro até cerca da metade e colocá-lo de volta, aumentando o ritmo gradativamente. Os gemidos de dor foram se tornando gemidos de prazer aos poucos e até começou a mover-se junto com ele. Os beijinhos refreados deram lugar a beijos tórridos e impudicos; mãos ávidas subiam e desciam acariciando e apertando o que podiam.
Ter seu corpo inteiramente tomado por outra pessoa era, de fato, uma experiência inigualável. Uma porção de sentimentos e percepções se misturaram como num balaio bagunçado e logo depois sumiram, deixando seus pensamentos totalmente em branco — apenas sentia fisicamente o que lhe era provido.
Seu marido segurava e puxava seus cabelos com vigor, distribuindo chupões e mordidas por seu pescoço e colo. Arranhava as costas e peito robusto com as unhas e devolvia os puxões em suas mechas negras, fazendo-o emitir barulhos excitantes de tesão. Estava tão empolgado que a deitou na cama, mantendo-se por cima, e deu início a fortes estocadas.
Ainda não estava preparada para a intensidade com que o moreno passou a meter-lhe e sentiu o orifício recém rompido arder e latejar. Tentou aguentar por um tempo, mas a penetrava com violência e cada vez mais rápido. Pediu que fosse mais devagar, porém ele pareceu não ouvir. Entre gemidos dolorosos, tentava chamar sua atenção, mas seu olhar era vidrado e seus movimentos mecanizados, bem diferente do que fizera anteriormente.
Tentou empurrá-lo e sacudi-lo para fazê-lo voltar a si, nitidamente os seus instintos bárbaros tinham tomado conta da sua cabeça, porém seus punhos foram agarrados e espremidos contra o colchão, imobilizando-os. Suas pernas estavam muito abertas e o corpo dele era demasiado pesado para que pudesse contê-lo e se libertar, por mais que se debatesse. Por coincidência, ou não, quando gritou seu nome mais alto, o viu dar três longas estocadas enquanto gemia baixo, em êxtase, e parar.
– Me solte agora! — Vociferou. Ele a olhou desnorteado por alguns instantes e em seguida largou seus braços erguendo o tronco, ainda aturdido. Seu gozo esbranquiçado escorreu e misturou-se ao sangue muito vermelho quando ele se retirou de dentro dela com cuidado.
– Eu... eu não queria ter feito isso, não consegui me... — Ele engoliu em seco, estava visivelmente atormentado.
– Você sabia que isso iria acontecer, por isso me fez prometer. Como pôde? — Sua voz era fria e as palavras afiadas como estacas de gelo. Sentada na cama, tateou a procura da camisola para cobrir-se.
– Lhe peço desculpas, eu achei que fosse capaz, mas falhei — Seus olhos verdes encontraram os dela e se mantiveram fixos, pareciam muito sinceros. Ele nunca havia se mostrado tão humilde, muito menos havia sequer vislumbrado desculpar-se com alguém.
Sem responder, ela tentou levantar da cama, no entanto a dor irradiou para suas pernas e barriga, fazendo-a bambear. Mesmo que à sua maneira rude, a amparou e tentou ajudá-la, contudo ela desvencilhou-se sem lhe dizer uma palavra e trancou-se na sala de banho.
Trynda sentiu aquela mesma culpa voltar à tona e amaldiçoou-se por ter se deixado descontrolar novamente, ainda que por pouco tempo. Com ar pesado, vestiu sua calça, apanhou a espada, um sapato e deixou o aposento.
Não tivera a oportunidade de entrar na enfermaria sem ser vista na noite anterior, por isso acordara bem cedo e fora sorrateiramente até o seu destino: uma sala anexa onde se encontrava um enorme estoque de remédios e utensílios médicos. Olhou de armário em armário até encontrar uma caixa com centenas de saquinhos de papel — certificou-se através da etiqueta indicativa de que era o que precisava buscar. Guardou vinte em uma sacola presa a sua saia e recolocou tudo no mesmo lugar que encontrara.
Saiu apressada e foi até a cozinha, não encontrou uma pessoa sequer pelo caminho, todos ainda estavam dormindo. Enquanto enchia uma pequena jarra com água, ouviu um barulho de madeira sendo partida vindo do quintal; escondeu por dentro da roupa a sacola que carregava com os medicamentos e foi ver o que estava acontecendo. Deu de cara com o rei praticamente desnudo, usando apenas calças finas e uma botina preta de couro, brandindo um machado com apenas uma mão e partindo ao meio as toras de madeira usadas em lareiras e fogões. Devia estar há horas naquele trabalho, pois estava suado, sujo de terra e a pilha que fizera aparentava ter uns três metros de altura.
– O que faz aqui? — Perguntou bruscamente ao notar sua presença. Fez uma reverência e manteve a cabeça baixa, constrangida com o traje do homem.
– Bom dia, Majestade. Vim buscar um pouco de água, apenas. Posso lhe ajudar em alguma coisa?
– Não, estou só passando o tempo. Pode ir, Lesrie.
– Se me permite, não é necessário que faça isso, os criados farão quando…
– Já mandei você ir embora — Interrompeu, aumentando o tom de voz. Curvou-se e rapidamente voltou à cozinha, agarrou a jarra e partiu pelos corredores. A rainha era educada e adorável, mas seu marido era bruto e hostil, principalmente quando estava de mau humor — dava-lhe medo quando o encontrava assim.
Iria direto para o seu quarto esperar dar o horário que Ashe costumava acordar, no entanto resolveu adiantar-se. Bateu à porta e esperou até sua entrada ser autorizada.
– Bom dia, Majestade, dormiu bem? — Aproximou-se sorrindo, apanhando um copo na penteadeira e enchendo-o de água.
– Pode-se dizer que nem dormi. Trouxe o que lhe pedi? — Olhava-se no espelho e segurava um pote de creme cor-de-pele em suas mãos.
– Sim, aqui está. Ninguém me viu — Entregou a sacola e o copo; observou-a rasgar um dos saquinhos, despejar um pó dentro da água, mexer e beber. Só então notara diversas manchas avermelhadas onde o decote do vestido deixava a pele branca como a neve à mostra e algumas arroxeadas em seu pescoço. Lembrou-se da atitude estranha e péssimo humor do rei essa manhã e levou a mão à boca em espanto. — Pelos Deuses, o que aconteceu? Não me diga que… Ele lhe bateu, Vossa Graça?
Ashe não pôde conter uma risada ao ouvir o que a outra dizia com olhos tão arregalados.
– Claro que não, ele não é louco de fazer uma coisa dessas — Ou será que era? Pensou. Todas as marcas, exceto as dos punhos, a agradaram muito quando foram feitas; porém depois do que acontecera naquela madrugada, não sabia exatamente até que ponto seu marido poderia chegar. — Isso aqui é o que chamamos de carinho.
– Minha nossa… Não quero estar por perto quando brigarem — Riu, ajudando-a a cobrir o restante dos hematomas. — Por que não podiam saber sobre esse remédio, Senhora? Para que ele serve?
– Les, por favor, não conte a ninguém. Conversamos sobre herdeiros e entendo toda a situação, mas não posso ter um filho agora, é perigoso, estamos em guerra. Se trata de uma mistura de ervas desidratadas que servem para não engravidar e não quero que saibam que estou tomando.
– Compreendo, tem minha palavra. Talvez seja por isso que Vossa Graça parecia tão chateado agora há pouco, pode estar desejando um filho.
– Como assim?
– Fui buscar água e o vi cortando lenha no quintal com tanta raiva que só usava a força de um braço para parti-las ao meio. Tentei lhe ser útil, mas me dispensou com aspereza.
– Esse é o estado normal dele, não me surpreendo mais — Mentiu em partes. Dessa vez ficara surpresa, sim: em vez de destruir os móveis do castelo como costumava fazer, ele fora extravasar em algo que não trouxesse prejuízo, como havia lhe pedido após o último surto de ira.
Estava confusa sobre o seu marido naquele momento; fizera algo muito ruim aquela noite, no entanto tentava agradá-la diversas vezes com pequenos gestos e pareceu mesmo arrependido. Precisava de algum tempo para colocar os pensamentos em ordem e tinha de esclarecer uma coisa que a intrigava o quanto antes.
– Les, eu tenho uma missão secreta para você. Quero que descubra tudo o que puder sobre uma tal de Meliza, acredito que ela morava no Norte com os bárbaros e tudo indica que morreu de maneira trágica — Guardou os saquinhos em uma gaveta, levantou-se e vestiu a capa habitual enquanto se dirigia para a saída. — Quero saber mais sobre ela, seja discreta e não levante suspeitas; Gragas deve saber de alguma coisa, mas não pergunte diretamente a ele ou ao rei.
Acatou e acompanhou-a para o desjejum, já bolando uma estratégia em pensamento.
– Perdemos uma boa quantidade de guerreiros, Senhora, voltamos com menos da metade — Dizia um dos seus braços-direito na tribo. Vários dias haviam se passado desde a batalha na Fenda e ainda insistiam em falar disso nas reuniões.
– Os que não sobreviveram eram fracos e inúteis, portanto não me importa quantidade, eu quero qualidade — Respondeu com impaciência.
– Sem uma quantidade decente, não poderemos vencer os Avarosianos, eles estão em um número muito maior e tem guerreiros bons também — Falou o outro homem na sala.
– Temos um bom estoque de comida, estamos aumentando nossa força física e compensaremos as perdas. Eu estou ciente disso tudo e cheia de vocês ficarem sempre repetindo as mesmas coisas. Se é só isso, podem sair — Sejuani não tinha tempo para conversas irritantes.
– Há mais uma coisa — Começou o primeiro com um tom preocupado na voz. — Percebemos que algumas pessoas da Garra têm desaparecido sem explicação, achávamos que eram desertores, mas agora desconfiamos que estão sendo sequestrados.
– E daí? Se permitiram ser capturados, então não são… — A líder não se importava nem um pouco com frouxos, mas um lampejo clareou sua mente. — Espere um pouco, quem vocês acham que está por trás disso?
– Só podem ser os Avarosianos tentando nos desestabilizar — Respondeu o segundo. Sejuani levou a mão ao queixo e pensou por alguns momentos.
Desde que enfrentara o rei da tribo inimiga no último ataque, ansiava por encontrá-lo novamente e ter uma revanche; fora uma das melhores lutas que tivera nos derradeiros tempos e precisava de mais diversão como aquela. Isso não era segredo para ninguém, entretanto o que mantinha escondido era o desejo que tentara reprimir inicialmente, mas que se alastrou como uma febre e tomou conta de si: queria aquele homem em sua cama.
Era uma loucura, sabia bem disso, contudo quando encasquetava com uma coisa, ia até o fim.
Talvez ele pudesse lhe dar o que tanto procurava — e não encontrava — em seus parceiros, ou talvez não, só ia saber se experimentasse e estava disposta a conseguir. Lhe agradava também o fato de tripudiar sobre Ashe e humilhá-la das mais diversas formas possíveis caso alcançasse seu objetivo — a fofoca do rei traidor com a maior rival da rainha seria um choque para aquela gente fútil. Quando não tivesse mais serventia, poderia matá-lo e abalá-los ainda mais.
No final das contas, só tinha a ganhar.
Se estavam raptando seu povo, essa era a sua oportunidade de procurá-los antes do previsto e preparar a armadilha. Sorriu satisfeita; esse revide iria lhe sair melhor que a encomenda.
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