Destinos Arranjados

19 As Montanhas Ironspike


Notas iniciais
Ebaaaa, demorei menos dessa vez! *Ritmo, é ritmo de festa ♫* Gente, durante os meus estudos eu descobri que a coisa mais difícil desse mundo é postar uma estória enquanto a escreve, meu Deus do céu, se na época eu soubesse eu só teria postado depois de tudo escrito! Não posso mais alterar certas coisas que só vi que não encaixavam depois, quando bate o cansaço e o bloqueio criativo acabo deixando vocês na mão e perdemos facilmente o controle da estória: era pra ser um conto, coisa pequena, mas acabou virando um romance enorme! Se liguem nos números do word: Páginas: 252 / Palavras: 82.728 / Caracteres (com espaços): 475.228. E AINDA NEM ACABOU! kkkkkkkk Uma estória desse porte é muito difícil de escrever e requer muita atenção e minúcia para não ficar uma bagunça, portanto minhas demoras são para manter e melhorar a qualidade para vocês, espero que continuem aqui comigo, muito obrigada pela compreensão ♥♥♥ (sem os dizeres de sempre pq já tá muito grande essa nota kk)

Mais uma noite sem sonhos. Ou pelo menos deveria ser.

Estava acostumada a passar as noites mergulhada na mais profunda escuridão, silenciosa e acalentadora, uma paz como jamais vista. Nas poucas vezes em que sonhava, sentia uma certa fadiga durante o resto do dia; em uma mente vazia encontrava o seu melhor descanso.

Porém, desta vez, não soube dizer se estava sonhando ou se era real o vulto que acabara de passar ao seu lado.

Em uma fração de segundo a adrenalina tomou conta de suas ações. Como se o corpo que habitava pudesse se movimentar independente de sua vontade, Sejuani sentiu-se pular de cima de um amontoado de pelos para um chão duro e frio ao mesmo tempo em que tateava, sem nitidez nas vistas, à procura de seu mangual de Gelo Verdadeiro.

Quando enrolou os dedos no cabo da arma, em alguns segundos atordoados, sentiu um arrepio lhe subir à espinha: o vulto tensionava os músculos para arremessar o que lhe pareceu ser um machado.

Não em sua direção, mas à frente, para uma penumbra vazia.

Para dentro da caverna.

Um sonoro “não!” saiu de sua garganta, entretanto a momentânea confusão mental a impedira de ser rápida o suficiente. Quando a corrente do mangual enrolou no braço do intruso para impedir o arremesso, o machado já ganhava velocidade rumo ao desconhecido — e, provavelmente, à cama de Tryndamere.

De repente, tudo aconteceu ao mesmo tempo.

Um barulho alto irrompeu do fundo da caverna e se espalhou pelas paredes, fazendo Bristle guinchar ensurdecedoramente enquanto a mulher usava sua força para puxar a arma e derrubar o atacante no chão — contudo, este apenas cambaleou e se voltou em sua direção.

Quando seus olhos se encontraram sob a pouca luz que chegava ao local, não pôde discernir o que sentiu. Estaria sonhando, afinal?

— Mas que merda você está fazendo? — Vociferou o intruso com voz grave, irritado, tentando se sobrepor ao barulho.

Ola... — Sejuani começou, como quem pede uma confirmação, mas parou quando um brilho esverdeado chamou sua atenção.

Viu o tom de esmeralda se erguer do chão atrás do intruso para traçar um arco em direção às costelas dele.

Outra descarga de adrenalina.

Deu outro puxão na tentativa de tirá-lo do caminho da espada e içou-se para frente, aparando o golpe com um chute poderoso no corpo não cortante da lâmina.

Parem!— Gritou, com toda potência que sua voz alcançava, detendo-se entre os dois homens.

Por alguns segundos, silêncio. A tensão pairava no ar, como um uma nuvem de tempestade prestes a desabar.

Piscou os olhos algumas vezes para acostumar melhor a visão na penumbra e abriu a boca para falar, mas o intruso se adiantou.

Tryndamere?— O tom do homem era incrédulo. Os olhos claros emoldurados por grossas sobrancelhas loiras passavam freneticamente do moreno para ela mesma.

— Não, um fantasma — Respondeu o bárbaro carregado de sarcasmo, porém era possível discernir um leve sorriso em seus lábios. — Miserável, você quase me acertou!

O barbudo não esboçou nenhuma reação, apenas o olhou insistentemente, piscando mais de uma vez, como quem espera que a ilusão desapareça como mágica.

Mas Tryndamere não desapareceu.

Era real.

— Quem te mandou aqui? — Sejuani quebrou o silêncio, o semblante muito sério. Se os curandeiros desobedeceram a suas ordens, iria dar-lhes uma lição que jamais esqueceriam.

Me mandou? O que quer dizer com isso? — O loiro assumiu o mesmo semblante que a mulher.

— Quem te disse que eu estaria aqui nesta caverna? Quem te deu as coordenadas?

— Ora essa, então quer dizer que mais alguém sabe disso aqui? — Frisou as palavras apontando de um para o outro, assumindo uma irritação crescente.

— Pare de enrolar e responda, Olaf! Não ouse mentir para mim ou…

— Ou o quê? — Interrompeu, alteando a voz. — Vai me dar algum castigo, como faz com seus servos? Quem você pensa que eu sou?

Sejuani não esperava por uma reação tão agressiva a uma simples pergunta, mas não recuou. Empinou o nariz e manteve a rigidez.

— Responda!

Ninguém me mandou aqui, se quer tanto saber! Cheguei à aldeia e você não estava, várias pessoas me disseram que está dispersa e some sem explicação com frequência, então resolvi sair para te procurar e saber o que estava acontecendo. Vejo que fiz muito bem!

Seu olhar recaiu sobre o moreno que presenciava a cena imóvel. Ao notar a tensão que pairava entre eles, revirou os olhos e deu as costas para ambos, dirigindo-se com passos lentos para o seu leito enquanto massageava o local onde suas costelas estiveram fraturadas — não estava com ânimo para participar de uma discussão, preferiu deixar que a líder da Garra do Inverno se explicasse sozinha, seria mais divertido.

— Estava me espionando, Olaf? — Também aumentou o tom.

Que merda você tem na cabeça? E sou eu quem tem perguntas a fazer, que porra está acontecendo aqui?

— Se fosse da sua conta, você já estaria sabendo — Disparou, com a mandíbula contraída.

Não é da minha conta? NÃO É DA MINHA CONTA? — O rosto de Olaf estava vermelho de raiva e sua voz grave vibrava pelas paredes da caverna. Bateu com força um dos punhos na rocha dura, mas não pareceu sentir dor. — Você mantém o líder de um importante reino inimigo prisioneiro e acha que seus aliados não devem ficar sabendo?

Bristle começou a se mexer e emitir ruídos em desaprovação aos gritos que o berserker dirigia à sua companheira, mas ela própria lhe lançou um olhar gélido em silenciosa repreensão por não a ter alertado como deveria sobre o intruso.

No fundo sabia que ele o reconheceu pelo cheiro e não o viu como ameaça, por isso não a despertou com alarde, mas não podia deixar de se sentir frustrada com a situação. Sabia que Olaf não estava de todo errado e era isso o que mais a irritava.

— Porque ele não é meu prisioneiro! Você não sabe o que…

— Já entendi tudo — Ele voltou ao volume normal repentinamente e em seus olhos pôde ver um misto de desprezo e decepção. — Você nunca fez questão de esconder, de qualquer forma.

Deu-lhe as costas e andou alguns passos para dentro da caverna, o suficiente para recuperar o machado arremessado e, sem dizer uma palavra ao bárbaro, se dirigiu a passos firmes à saída.

Deteve-se em frente à mulher que um dia confiara uma aliança, até mesmo uma admiração, e encarou o fundo de seus olhos límpidos antes de proferir entre dentes:

Vá se foder, Sejuani.

E saiu.

Longos segundos se passaram até que a loira manifestasse alguma reação. Com a boca levemente aberta em espanto olhou para Bristle e o encontrou tão aturdido quanto ela, provavelmente por não entender claramente a situação — complexidades humanas talvez estivessem além de suas capacidades.

Agiu mais por instinto do que por razão quando correu com ferocidade atrás dele, alcançando-o alguns passos adiante à larga fenda da entrada. Sem paredes de rocha para os proteger, o vento frio corria solto por suas peles e chicoteava seus cabelos, mas ambos não se importavam.

Agarrou o pulso largo e o puxou com força para forçá-lo a virar-se e olhá-la.

— Você enlouqueceu, porra? — Não sabia se gritava de raiva ou para se sobrepor ao zumbido do vento. Talvez os dois. — Como ousa me tratar dessa maneira?

Olaf era seu aliado há um bom tempo e, de certo modo, sempre se deram muito bem. Como ele passava mais tempo na península de Lokfhar, onde nasceu, ou viajando mundo afora, o pouco tempo que dispunham juntos era usado para planejar e executar ataques e saqueamentos. Tudo o que Olaf queria eram bons combates: desde que os tivesse, ele não contestava seus planos e sua autoridade.

Essa foi a primeira vez.

Quem você pensa que é para me dar ordens? — Desvencilhou-se com brutalidade de seu aperto e cerrou os punhos, mas a mulher não recuava.

— Sua líder!

— Eu não sou um de seus servos, maldita! Sequer faço parte de sua tribo de bosta. Vá para o inferno!

— Eu não lhe devo satisfações de tudo o que faço, você não manda em nada aqui!

— É o que veremos em breve, pois você acaba de ganhar mais um inimigo — Seus olhos eram frios e sua expressão era dura.

— Como pode ser tão imbecil a ponto de suspender uma aliança por não saber ainda de um detalhe? — A exasperação era notável em sua voz.

Um detalhe? Pensa que não sei o que se passa aqui?

— E que diabos você acha que sabe?

O homem se aproximou mais, gritando à alguns centímetros de seu rosto, chamas de irritação dançando em seus olhos.

— Eu me aliei por reconhecer sua força e compactuar de seus métodos, mas você virou apenas uma puta desde que se apaixonou por ele! — Apontou com o indicador em direção à caverna. — Agora se esquece de seu povo, deixou de lado suas obrigações e ambições para viver em um buraco no meio do nada como uma verdadeira cadela!

As palavras de Olaf entraram por seus ouvidos como uma onda de torpor, deixando todo o seu corpo adormecido e os sons abafados. Levou vários momentos encarando as íris cristalinas à sua frente enquanto sua tensão aumentava; ele não conhecia a fundo seus novos planos e, mesmo assim, julgava e questionava suas atitudes.

Inadmissível.

Foi então que irrompeu em um soco ágil e furioso diretamente contra a mandíbula de Olaf.

Viu seu queixo se movimentar perigosamente para o lado, chegando ao limite do que as articulações poderiam aguentar sem que se deslocassem, e o barbudo precisou recuperar o equilíbrio para não cair.

Porém, quando estava prestes a esbravejar mais alguns xingamentos e ordens, sentiu uma pressão súbita no seu abdômen e a força do golpe a jogou alguns metros para trás na neve fofa.

Não poderia esperar por isso: ele, justamente ele, estava revidando.

E, a julgar pela fúria em seus olhos e os passos firmes em sua direção, não pretendia parar por ali.

— Se é uma luta que você quer, então é o que vai ter! — Gritou o mais alto que a falta de ar lhe permitiu, levantando-se para assumir uma posição de combate mais favorável. Jogou o seu mangual de Gelo Verdadeiro para longe e ergueu os punhos à altura do rosto; não pretendia que um dos dois acabasse por morrer ali, seria nada útil — afinal, ele só estava sendo cabeça-dura.

Sem pestanejar, o loiro retirou os machados do suporte nas costas e os deixou cair ao chão ao mesmo tempo em que saltava para cima de sua antiga aliada, o punho cerrado em uma explosão de força bruta.

Desviou por pouco, certamente que o impacto teria rachado seus ossos — no mínimo; ser um pouco mais baixa lhe dava alguma vantagem na agilidade, embora o terreno macio atrapalhasse os movimentos de ambos.

Golpeou seu joelho esquerdo com força, fazendo-o dobrar-se em direção ao solo, e aproveitou para desferir um gancho no queixo quadrado. Viu o sangue espirrar da boca e sujar a barba aloirada e o chão alvo, mas não teve tempo para completar o segundo chute que armara: o homem agarrou seu tornozelo e torceu.

Soltou um urro de dor enquanto caía e, antes que seus reflexos agissem, recebeu também um forte soco no rosto.

Sejuani ficou atordoada por alguns milésimos de segundo — mesmo que estivesse acostumada a brigas desse tipo, Olaf era um oponente tão forte quanto ela.

Não pôde deixar de sentir algo que há muito não se fazia presente: entusiasmo.

Isso a agradava.

Não soube mais dizer quanto tempo levaram trocando pancadas, sentia como se tivessem se passado horas e todo o seu corpo doía e latejava. Ambos sangravam e apresentavam hematomas por todo o corpo. Os diafragmas espancados dificultavam suas respirações e era o cansaço que estava levando a melhor dos dois.

Estavam próximos e jogados ao chão, puxando o ar com esforço para os pulmões na tentativa de recuperar o fôlego e acelerar os movimentos, agora mais lentos que uma lesma-do-verão. Mantinham os olhares fixos um no outro com ferocidade, uma tentativa muda de dizer que não iriam ceder.

Levantou o punho magro e largou em cima do peito largo e musculoso tentando lhe causar mais alguma dor, mas a fraqueza do seu golpe não fez nenhum efeito.

— Preciso… lhe espancar… por quanto tempo… até que… entenda? — Seus socos agora não passavam de brincadeira de criança. O barbudo grunhiu e segurou a mão que insistia em lhe acertar.

— Cale… a boca… e lute!

Com esforço ergueu o seu próprio e lhe acertou o ombro, no entanto o único efeito foi empurrá-la para o lado, de encontro à neve. Tentou se levantar, mas sua visão começou a escurecer e todo o mundo girar.

A última coisa que viu foi Sejuani tentar fazer o mesmo e desabar com o rosto contra o chão frio.

Uma água fria molhou seu rosto e o despertou de súbito. Não entendeu de pronto onde estava e muito menos o que tinha acontecido, mas sentia o corpo inteiro pesado e dolorido — o repouso no chão de pedra não parece ter ajudado.

— Acorde, já dormiu demais — Um homem falava com ele enquanto mancava em direção a uma cama improvisada. Precisou de algum tempo para lembrar com clareza de tudo que havia acontecido. O viu sentar-se e olhá-lo nos olhos com uma expressão séria. — Preciso falar com você.

— Não me diga que é para anunciar seu novo casamento — O sarcasmo veio com um tom de indignação. Estava tão chateado que poderia entrar em mais uma briga agora mesmo, porém o outro parecia ainda mais debilitado que ele.

— O que? — Sua expressão de desentendimento foi genuína, porém logo deu espaço a olhos revirando e um suspiro irritado. — Não estamos juntos, se é o que pensa. Já estou cansado dessa conversa, o que tenho para falar é muito mais importante.

Olaf calou-se por um momento, enquanto recostava-se na parede e verificava seus ferimentos — nenhum corte que precisasse de atenção, apenas muitos hematomas e algumas articulações inchadas por torção. Talvez uma ou duas rachaduras nas costelas, mas não era grande coisa, mais um tempo de descanso e estaria bem.

— Ouça, naquele dia em que atacamos os trolls, você se lembra que Trundle se referia a algum superior como “ela”?

— Para falar a verdade… não, não lembro, faz muito tempo.

O moreno arregalou os olhos com certa surpresa.

— Então é verdade? Estou aqui há quase um ano?

— Se você está aqui desde aquele ataque, então sim — Viu o bárbaro xingar e dar um soco no colchão, o que o deixou ainda mais confuso. — Como não sabe disso? O que aconteceu aqui?

Apesar da desconfiança, estava disposto a ouvir Tryndamere. Nunca foram aliados, contudo nunca se odiaram também — estavam de lados opostos, mas mantinham uma relação de respeito.

— Não sei o que Sejuani te disse lá fora e não acredito em nenhuma palavra que aquela mulher diz, porém tudo indica que estou aqui desde a avalanche.

— Onde ela está? — Olhou em volta da caverna e não viu sinal da loira.

— Quando Bristle saiu eu fui até a entrada para ver o que tinha acontecido, vocês desmaiaram de exaustão e o animal a levou embora. Eu tive que te arrastar até aqui, foi um trabalho de merda, mas consegui. Não há de quê — Esboçou um sorriso zombeteiro.

— Foda-se — Riu. — Você está irreconhecível… conseguiu deixar de ser o “bonitão da tundra”, que pena para você!

O homem ria em chacota, mas suas palavras eram, em grande parte, verdadeiras. Tryndamere se encontrava magro e pálido; os cabelos, outrora grossos e brilhosos, perderam o volume e o aspecto saudável e já lhe chegavam às coxas como uma cortina de um negro opaco e puído; a barba cheia cobria boa parte do seu rosto e pescoço e seus olhos fundos se destacavam naquela moldura desfavorável — embora ainda conservasse belos traços no geral. Mesmo assim, achava graça do comentário do loiro.

— Pelo menos eu posso voltar a ser o que era, já você nunca teve jeito — Riu. — O que me denunciou?

— A espada, a reconheci assim que pus os olhos nela. Achei que era outra pessoa usando, mas logo vi que era mesmo você. Mal pude acreditar.

— Imagine eu, quando acordei aqui há quase dois meses com Sejuani me falando um monte de bosta.

— Você estava dormindo? — Franziu o cenho, intrigado.

— Em coma, segundo aquela maluca e seus curandeiros — Por mais que não quisesse acreditar sabia que, em se tratando dele mesmo, isso era curiosamente possível.

Como isso é possível?

— Não sei, mas pouco importa, preste atenção ao que interessa, porra! Poucos momentos antes da neve desabar, naquela ocasião, eu vi uma criatura subir a montanha numa velocidade impressionante. Foi ela quem causou a avalanche. Lissandra, a Bruxa Gélida.

O silêncio pairou no ar por alguns instantes até ser cortado por uma gargalhada.

— Parece que não foi só sua perna que foi danificada, seu cérebro também!

— Eu estou falando sério, seu desgraçado, eu sei o que vi!

— Essa mulher viveu há séculos, não tem como…

— Udyr a viu também e não há tanto tempo assim.

— Ele era uma criança!

O berserker não parava de rir e Tryndamere amarrou a cara, completamente exasperado.

— Você e Sejuani se merecem mesmo, todos dois são igualmente estúpidos e imbecis. Não vê que agora tudo faz sentido? Uma série de coisas estranhas vêm acontecendo e não fomos nenhum de nós os responsáveis, só pode ter sido ela!

— Com que objetivo, Tryndamere? Essa história está cada vez mais absurda…

— Com o de tomar Freljord, é claro. Precisamos unir nossas forças para…

Uma gargalhada ainda maior interrompeu sua fala, seguida de uma tosse causada pela dor no abdômen espancado.

— Está falando de Sejuani se unir à Ashe? Até parece que não conhece aquela maldita… — Um leve tom de amargura pesou em sua voz.

— Por isso mesmo estou falando com você, não parece ser tão burro quanto ela, então acredite em mim e a convença a se juntar a nós. Se Lissandra atacar com o reino dividido dessa forma, não teremos chance.

— E com que exército ela vai atacar? Com o dos trolls, que massacramos em pouco tempo?

— É óbvio que não, ela é uma bruxa, deve estar preparando algo muito mais poderoso.

— Como tem tanta certeza de que é mesmo ela?

— Não era uma pessoa comum, era uma figura muito estranha, não se parece com nada que conhecemos. Não vi detalhes, porém pude enxergar um gelo muito escuro se mexer em volta de seus pés, não era algo natural. E nas histórias contam que apenas ela era capaz de manipular Gelo Negro.

O sorriso zombeteiro de Olaf sumiu do seu rosto.

Ele se empertigou e levou alguns momentos observando o chão com uma expressão intrigada, como quem tenta se lembrar de algo.

— O que foi?

— Curioso… Eu ouvi falar, há não muito tempo, sobre um corpo que foi achado no meio do nada, empalado em uma estaca de… — Fez uma pausa para fitar as contas verdes, como quem está prestes a compartilhar um segredo. — Um gelo tão escuro quanto a noite.

Tryndamere prendeu a respiração.

Por mais que acreditasse no que vira, a suposta confirmação de sua teoria era surpreendente até para si próprio.

— Porra, eu sabia! — socou o colchão com mais força desta vez. — Não pode ser coincidência, vocês têm de acreditar em mim!

Olaf se manteve em silêncio, pensativo. Não parecia ser uma situação concebível, porém já vira coisas inusitadas o suficiente em suas viagens pelo mundo para não descartar totalmente a possibilidade. Sendo verdade, Tryndamere tinha razão: se A Bruxa Gélida pôde causar, sozinha e sem grande esforço, uma avalanche naquelas proporções, o que não faria quando não precisasse mais se esconder?

Coçou a espessa barba e, por fim, suspirou:

— Você sabe que Sejuani não vai aceitar.

Tryndamere cerrou os punhos.

— Ficaremos de braços cruzados esperando que ela chegue e nos derrote, então?

— Me diga, o que o Rei Bárbaro faria? Pois eu só estou ouvindo Ashe falando aqui — Olaf o olhava diretamente nos olhos, o cansaço marcando suas feições. — O que você teria feito? Teria aceitado se unir ao seu inimigo por causa de uma mera possibilidade?

O moreno sentiu uma irritação crescer dentro de si, mas nenhuma resposta saiu de seus lábios quando abriu a boca para revidar. A raiva deu lugar à frustração e seus dedos esmagaram o colchão de palha. Sabia o que ele queria dizer e isso o incomodava.

Sejuani, Olaf e até si mesmo eram bárbaros, viveram em sua própria cultura, portanto pensavam e agiam de maneira totalmente diferente de Ashe — que, aliás, era a única em toda Freljord, na época, que possuía tais ideais e lutava por eles com unhas e dentes.

Contudo, Tryndamere viu em suas palavras e em seu sonho de mudança uma esperança de um reino próspero; desde então, viu que fizera uma boa escolha. Entendera que Ashe tinha razão e, provavelmente pela convivência diária, aprendeu a reproduzir os seus argumentos. No entanto, ainda não deixara de ser, como Olaf bem lembrou, o Rei Bárbaro.

Enfim, grunhiu ruidosamente com exasperação e apoiou os cotovelos nos próprios joelhos, apertando as têmporas.

— Não, eu não teria aceitado.

— Foi o que pensei — Se pôs a levantar com certa lentidão, ainda sentia a musculatura completamente dolorida.

— Mas eu teria concordado em último caso! Se tal ameaça realmente surgisse e não tivesse outro jeito, eu iria preferir unir forças do que perder Freljord.

— Exatamente, em último caso. Já fizemos uma breve aliança com vocês uma vez, não acho impossível que façamos de novo, mas não espere que fiquemos com medinho por qualquer suspeita e enfiemos o rabo entre as pernas para correr até a sua rainha feito covardes — Falou em tom duro, como uma repreensão.

Olaf levou alguns poucos segundos para perceber que estava falando como se ele e Sejuani ainda fossem aliados. Costume, talvez. Precisava terminar o quanto antes a briga que começaram.

— Talvez não sejam covardes, mas com certeza pensam pouco e são cabeça-dura.

— Igual a você — Zombou. — Tenho contas a acertar e já cansei de olhar para a sua cara mal-acabada, estou indo embora.

— Espere — Chamou, tentando disfarçar o tom de preocupação na voz. — Me dê notícias sobre… o reino.

— Que reino?

— O meu reino, é claro.

— Você morreu, Tryndamere — Caçoou, como se o moreno tivesse lhe dito algo inacreditável. — Não é mais rei de merda alguma. Não que antes fosse...

— Eu estou vivo, maldito, não estou? Aquela desgraçada me deixou aqui todo esse tempo sem notícias, fala uma coisa ou outra para me irritar, mas nada de útil.

— Estive viajando por lugares muito distantes por muito tempo, não sei de muita coisa, só que seu povo está se rebelando contra Ashe e causando diversos problemas — Começava a entender as intenções de Sejuani agora. — Ela não deixou você mandar uma mensagem, não foi?

— Foi. E ainda diz que eu não sou seu prisioneiro… — De repente se deu conta. — Olaf, escute, eu preciso sair daqui. Não posso ficar parado enquanto Lissandra faz a festa, já que ninguém acredita em mim, eu mesmo preciso ir atrás.

— E o que está lhe impedindo?

— Não conheço essas bandas e, caso tenha ficado cego, não estou na minha melhor forma para rodar sem destino e sem provisões.

— O que você quer, um guia? Esqueça — Deu-lhe as costas e saiu andando com algum esforço.

— Preciso apenas de uma direção, uma indicação de caminho até a Cidadela Praeglacius.

O loiro parou e o olhou de lado, uma das sobrancelhas arqueadas.

— O que diabos vai fazer lá?

— Investigar, o que mais?

— Um bárbaro investigando sorrateiramente… — Riu com desdém. — Não, pior: um rei morto procurando por bruxas velhas!

— Vá se foder… — Não pôde deixar de concordar que não parecia uma boa ideia. — Mande uma mensagem minha para Ashe, então, ela irá enviar alguns soldados…

— Também não — Interrompeu, categoricamente.

— Porra, Olaf! Eu lhe tirei de uma nevasca e passei informações importantes, você me deve essa!

— Ah, como se uma nevezinha daquelas fosse mesmo me congelar!

Ambos se encararam por alguns momentos, o cenho franzido.

— Tudo bem, obedeça à sua dona, eu me viro sozinho.

Alguns momentos depois, Olaf deu um longo suspiro.

— Que se foda… — Falou mais para si do que para o outro homem. — Aqui é sempre tudo tão igual que nos guiamos pelas montanhas. Venha ver antes que eu mude de ideia.

O acompanhou até a entrada da caverna, sentindo um novo entusiasmo. Andaram alguns poucos metros adiante para melhorar o alcance da visão.

— Está vendo aquela cadeia de montanhas ali? — Apontou à frente.

O moreno levou alguns instantes para acostumar a visão à brancura do ambiente e conseguir discernir a forma ao longe. Balançou a cabeça em confirmação.

— São as Montanhas Ironspike, eu conheço.

— Exato. Elas podem ser vistas de praticamente qualquer lugar de Freljord, ficam à sudeste em relação ao território total do reino. Então se você seguir à nordeste irá encontrar Vathcaer, uma vila, a cerca de uns quatro ou cinco dias de viagem. De lá vá para o leste até a Cidadela — Sem esperar confirmação, se virou mais uma vez para sair dali. — Isso é tudo. Boa sorte, Rei Morto.

— Nos veremos novamente no campo de batalha, Berserker estúpido.

— Assim espero.

Olaf acenou brevemente e seguiu seu caminho na direção oposta, provavelmente para a vila improvisada da Garra do Inverno. Tryndamere passou algum tempo observando o ambiente e traçando mentalmente uma breve estratégia de sobrevivência para a viagem. Pela localização de Ironspike em relação à sua própria, sabia que Rakelstake estava a alguns dias a mais de viagem do que a Cidadela, portanto seria ainda mais demorado ir até a capital e destacar homens para a missão do que ele mesmo ir até o seu principal palpite.

Estava preocupado com a rebelião dos bárbaros do Norte, com o seu povo e ainda mais com a sua rainha, mas enquanto não tivessem nenhuma informação sobre Lissandra e seus planos, tudo aquilo pelo qual lutara para construir estava ameaçado.

Aprendera isso há muitos anos com outro inimigo inesperado e desconhecido, da pior forma possível.

Estava com tanta vontade de correr para o sul e desfazer a farsa da sua morte que podia senti-la fisicamente, como uma pontada dolorida e recorrente em suas entranhas. Queria mostrar aos seus que estava vivo e que cometeram um erro ao se voltarem contra sua majestade, queria retomar a sua liderança e força, queria se trancar por dias com sua linda esposa no quarto e apreciar seus sorrisos e gemidos…

Mas não podia deixar acontecer de novo.

Suspirou, sentindo o vento gelado chicotear os seus cabelos e açoitar a sua pele. A determinação fazia seu sangue aquecer.

Nada iria pará-lo.

“Seja firme, Ashe, aguente mais um pouco… logo estarei em casa”, pensou.

Notas finais
Ai ai ai... Que treta! (Como sempre, né kkk) E então, o que estão achando? Já estou ansiosa pelos comentários lindos de vcs! ♥_♥ Vou avisá-los mais uma vez que a fic se encaminha para o final T.T Não pretendia fazer tantos capítulos e também não quero que se torne uma estória cansativa, então estou tentando não me deixar alongar demais - não sei em qual capítulo vai acabar, mas planejo que não terão muitos mais, claro que vocês serão avisados novamente quando estiver mais próximo. Obrigada imensamente por permanecerem aqui lendo, comentando e dando notas, vocês são os melhores! (Ah, aquele meu projeto de escrever livros ainda está de pé, quando eu tiver algo mais concreto eu falo aqui :3 ). Beijão e até a próxima! ♥