Destinos Arranjados
10 A Montanha Inclinada
Notas iniciais
– Senhor, acorde! — Lesrie sacudia o rei com cautela.
Fora dispensada após quase todos os convidados se recolherem e se dirigia para seu quarto, próximo aos aposentos reais para ir rapidamente quando a rainha a chamasse, quando viu Tryndamere caído na escada, dormindo. Iria passar direto e fingir que não vira para evitar constrangimentos, mas lembrou-se da preocupação da rainha quanto ao vexame que a bebedeira levaria a causar perante os convidados e voltou para tentar tirá-lo dali; o que poderiam pensar se vissem Vossa Majestade naquela situação?
Precisou de vários empurrões para que ele despertasse vagamente, resmungando de maneira indecifrável.
– Precisa ir para o seu quarto, Senhor. Levante-se, por favor!
Havia urgência em sua voz, não queria que ninguém o visse assim; tinha de ser rápida, ele não iria sozinho. Sacudiu-o com força até que despertasse o suficiente para entender alguma coisa que dizia. Com muito esforço, o ajudou a se erguer e tentou apoia-lo da melhor maneira que conseguia, abraçando sua cintura e colocando o enorme braço em seus ombros.
Sentiu os joelhos dobrarem e o equilíbrio ser quase impossível devido ao peso do homem que mal se sustentava por si só. O embrulho que deu em seu estômago, ao chegar perto o bastante para sentir o cheiro desagradável de vômito que certamente vinha da extensa sujeira em suas roupas e pele, dificultava mais ainda a caminhada. Como se já não bastasse, começou um falatório desconexo.
Quando chegou aos aposentos, tudo o que queria era largá-lo na cama e ir embora o mais rápido possível, mas a expressão de desgosto de Ashe apareceu em sua mente. Não podia deixar que, depois de um dia tão cansativo, ela tivesse que deitar ao lado dele e suportar tamanho mau cheiro. Pensou rápido e o levou para a sala de banho.
– Ei, cadê a mulher que fica ali? — Conseguiu entender, ele parecia mais alerta.
– Que mulher, vossa graça? — Encostou-o na beirada da banheira e virou de costas. — Por favor, dispa-se e entre na banheira.
– A de cabelo branco, passo as noites com ela aqui.
Não fez muita questão de entender o que estava falando, decerto que era algum delírio e não tinha tempo para alimentá-lo. Esperou mais alguns instantes e, percebendo que não havia feito progresso, virou-se para ele. Com muito constrangimento, pediu licença e começou a retirar-lhe as roupas sujas.
– Não, não é você, é a outra!
– Calma, Majestade, eu só vou limpá-lo; não se exalte — Começou a ficar nervosa, temia que se irritasse e fizesse alguma coisa, seu temperamento era péssimo e metia medo em muita gente.
Praticamente o empurrou para dentro da banheira, deixando-o ainda de calças — não via problemas em ajudar qualquer mulher a banhar-se, mas um homem adulto era diferente, nunca tinha feito isso. Tentou não olhar para seus músculos grandes e definidos quando pegou um balde de água fria e despejou com cuidado em sua cabeça. Apanhou uma esponja macia e tomou-lhe o braço para retirar a sujeira que grudara.
– Eu já disse que não quero você, eu quero a outra! Mande vir aquela outra!
Não compreendia o que ele queria dizer, só tinha certeza de que seu tom estava alto demais.
Novamente se encontrava observando os outros às escondidas. Tryndamere esbravejava algo sobre querer uma outra e a Intendente pedia encarecidamente, aos sussurros, que falasse mais baixo para não acordar todo o castelo. A surpresa dava lugar à inquietação crescente e inexplicável à medida que a mulher seguia limpando; dos braços para os ombros e logo após para o peito.
Bom, que sorte a dele em encontrar uma mulher jovem e bonita nessa altura da vida, dizia a voz grave que martelava em sua cabeça, uma lembrança inconveniente.
Num impulso desenfreado, adentrou o recinto a passos firmes, a mão direita estendida.
– Eu faço isso — Lesrie tomou um susto e levou a mão à boca para abafar o grito. Ashe também estava pasma. O que diabos estou fazendo?, pensou. A moça começou a falar alguma coisa, mas não conseguia ouvir. — Dê-me aqui e pode se recolher.
Com um olhar acuado, Les lhe entregou a esponja, curvou-se e saiu com pressa, o olho da rainha em suas costas.
– Ei, você também não é ela! Não mandam uma mulher certa nesse lugar — Por alguma razão, Trynda parecia consternado. Quando chegou na borda pôde ver, com um certo alívio, que ele ainda estava vestindo calças.
– Você! É impressionante o quanto… — Começou agastada, mas logo notou que, de fato, o homem se encontrava muito sujo para que pudesse deitar em sua cama. Sentiu uma pontinha de arrependimento por ter agido tão friamente com Les, provavelmente só queria ajudar. — Enfim, do que está falando?
– Eu fiz uma promessa — Começou, com a voz embargada. Se aproximou para ouvir melhor. — E a quebrei com ela, então...
Calara-se como se estivesse tentando lembrar.
Tentou disfarçar o grande interesse que tinha em descobrir que promessa era aquela, pegando novamente a esponja que já não fazia menção de usar e pondo-se a limpar-lhe o tórax, mantendo a voz neutra:
– Que promessa? Quem é ela? Talvez eu possa ajudar a encontrá-la.
– Pode? — Um pequeno sorriso se formou em seu rosto. — Mande vir a que fica nesse quarto, a de cabelo branco.
Suas sobrancelhas se juntaram em uma linha ao tentar entender o que estava sendo dito e, quando compreendeu que ele, em sua alucinação alcoólica, estava falando dela mesma e muito provavelmente como se ali fosse um prostíbulo, procurou a água mais gelada do reservatório e despejou-lhe em cima sem gentiliza. Certamente não a reconhecera porque seus cabelos estavam tingidos de azul e as roupas eram muito mais longas que as de costume; o que, na verdade, lhe poderia ser útil: entraria no seu jogo.
Passou a esponja na barba escura lentamente.
– Receio que ela não poderá vir esta noite. Se me contar que promessa quebrara, eu posso…
– Ela não quer me ver, não é? — Cortou-a, assumindo uma expressão infeliz.
– Acredito que não queira ter tanto contato agora. Mas você pode escolher qualquer outra — Arriscou, observando-o balançar a cabeça negativamente.
– Não, eu jurei... — Ele abriu e fechou a boca umas duas vezes antes de completar. — Mas ela… Eu a queria só mais uma vez.
Ficou parada feito uma estátua enquanto digeria aquelas palavras que, ditas de um jeito tão inesperadamente terno, a pegaram desprevenida. Não sabia o que pensar, tampouco o que dizer. Desde que aquela noite ótima terminou de maneira péssima, o evitava e não quisera tocar mais no assunto; ele, por sua vez, se isolara e parecia preferi-la distante também, exceto quando estava disposto a discutir. No entanto, desprovido de filtro entre o cérebro e a boca naquele momento, estava esquecido do seu orgulho e admitindo que a queria novamente — e só a ela.
– Maldita! — O grito que ele dera a despertou de seus pensamentos. — Eu estava muito bem até ela vir e me fazer voltar atrás, que o diabo a carregue para o quinto dos infernos! Como eu gostaria de vê-la derreter até torrarem os ossos, aquele cheiro bom da sua pele virar o de carne queimada e… Desgraçada! — Lembrou-se imediatamente dos motivos pelos quais o achara uma certa ameaça e se afastara, mas não pôde deixar de achar graça; conseguira elogiá-la inconscientemente enquanto lhe desejava um fim terrível.
– Falando nisso, me conte sobre essa promessa, gostaria de saber mais. — Passou sabão pela carne morena para tirar aquele cheio nauseante.
Demorou um longo tempo para que pudesse responder:
– Fiz coisas que prometi não fazer de novo, apenas.
– Que tipo de coisa?
– Antigamente traziam mulheres menos vestidas e menos curiosas, não volto mais aqui.
– Você visita esses lugares com frequência? — Até então nunca pensara nisso; nunca tivera muito interesse pela vida sexual de seu marido antes e até mesmo depois do casamento, a não ser que fosse para com ela mesma. Espantou-se por não ter imaginado que um homem como ele não fizesse questão de ser fiel em um casamento político — ou em outro qualquer; e mais ainda por não conseguir definir uma opinião sobre isso no momento: se encontrava desprovida de razão para lhe cobrar tal coisa visto que não estavam comprometidos nesse sentido específico, mas a ideia de que se divertia com outrem não lhe parecia agradável.
– Visitava, não o faço há sete anos.
Piscou várias vezes sem entender o que o levara a se afastar por tanto tempo; certamente estava relacionado à sua promessa secreta. Pensou em inúmeras explicações, mas não tinha certeza de nenhuma.
– E eis que me aparece aquela… por que estou falando disso mesmo? — Os olhos verdes rodavam nas órbitas, confusos e sonolentos.
– Ela não me parece ser tão ruim assim como diz — Segurou o riso por defender-se como se fosse outra pessoa. Enxaguou o sabão rapidamente. — Afinal, você a quer por quê?
– Não sei, devo ter merda na cabeça — Respondeu por fim. A julgar pelas atitudes, havia de concordar com ele nesse quesito.
– Pretende dormir aí ou prefere uma cama? Levante-se e venha. Tire essa calça molhada — Jogou uma toalha em sua cabeça e saiu, deixando-o para se virar sozinho.
Caçoou por detrás do biombo quando o ouviu esbarrar em algo pesado e proferir meia dúzia de xingamentos, enquanto se trocava rapidamente para continuar a conversa e descobrir alguma pista mais concreta. Ele nem se dera ao trabalho de vestir alguma coisa, muito menos desforrar a cama e cobrir-se, e já estava roncando. Tentou acordá-lo, mas foi inútil; poderia trazer uma banda para tocar em seu ouvido que não despertaria.
Suspirou, recordando-se da própria fadiga, e enfiou-se debaixo das cobertas a alguma distância, repassando cada parte daquele dia no pouco tempo que levara para adormecer profundamente.
O dia não poderia ter começado mais cansativo: aliados pedindo reuniões e puxando assuntos chatos durante o café da manhã, inclusive sobre ausência da Dervixe de Gelo à mesa — deixara apenas um singelo aviso de que fora esticar as pernas por aí acompanhada de alguns de seus guardas; gente demais para alimentar e provisões de menos; o rei voltara ao seu humor detestável e ostentava uma cara tão aborrecida que parecia querer quebrar tudo a qualquer momento, além das farpas que soltava a torto e a direito para quem se dirigisse a ele, principalmente Braum — implicara com o homem e fazia questão de demonstrar isso. A situação não melhorou quando o mesmo chamou Les ao seu lado.
– Quero aquele chá que fez ontem para mim, faça e traga agora — Ordenou, apertando as têmporas.
A moça a olhou como se esperasse que lhe dissesse alguma coisa, mas tudo o que recebeu foi um aceno de cabeça autorizando sua saída.
– Nunca mais vou beber antes do trabalho — Tryndamere pensou em voz alta, decerto que devia estar com uma ressaca horrível.
– Como se você tivesse mesmo essa capacidade — Alfinetou em voz baixa, levando um copo de suco à boca.
– Minha querida esposa, eu não estava falando com você — Disse entre dentes, se esforçando para manter o tom baixo. — Por que não volta a dar atenção aos seus convidados preferidos?
– Parece que não sou apenas eu quem tem algumas preferências por aqui. Deveria arranjar o seu próprio intendente, já que usufrui tanto da minha — Manteve o olhar em algum ponto adiante, mas podia sentir que ele a fitava de canto.
– Não sei do que está falando.
– Muito conveniente ter amnésia após vários barris de vinho.
– Concordo, é o pote de ouro no final do arco-íris. O nosso organismo é mesmo incrível — Rebateu com sarcasmo.
– Espero que não use isso como desculpa para fugir das reuniões de hoje.
– E deixar de ver até quando você manterá essa pose magnânima? Jamais.
– Ótimo, nos veremos na Sala do Conselho — Levantou-se e deu instruções aos demais sobre o que seria feito no resto do dia e se dirigiu para a sala com alguns dos líderes mais apressados.
A Dervixe dispensou seus guardas depois de uma caminhada demorada pelas ruas da cidade, visitando mercados e antigas construções. Ali já fora uma pequena e simples vila, hoje todo tipo de gente se estabelecia na próspera e pacífica Rakelstake, grande capital de Freljord, porém nada comparado ao que o país já fora num tempo muito distante.
Andou até uma rua deserta, se escondeu em um beco vazio, certificando-se de que ninguém a vira, e mudou de aparência num passe de mágica. Trocou as vestes elegantes por tecidos grosseiros e agora era uma avarosiana com cerca de trinta anos de idade, morena, grandes olhos negros, nariz aristocrático e estatura um tanto baixa. Saiu vagarosamente do esconderijo, como quem não tem nada para fazer, e andou até a casa que pertencia a antiga dona daquele corpo, para pegar a carroça usada na venda de legumes na parte mais afastada do centro. Puxou assunto com os outros habitantes pelo caminho, atenta a qualquer ponta solta que a levasse à alguma informação válida, porém o mais interessante que ouviu foi uma fofoca sobre os reis quando passava perto de um bosque:
– E não é que foi proveitoso sair daquela tundra? Achei que encontraria muita resistência, mas até que as mulheres daqui são bem cálidas — Disse um bárbaro jovem e relativamente baixo, dando um tapa no ombro de um avarosiano enquanto ria, ambos sentados ao lado de outros cinco homens. — Tryndamere que o diga, heim?
– Mas é claro que nosso chefe tinha segundas intenções quando se casou, até um cego desejaria aquela gostosa – Falou um bárbaro troncudo, selvagem e mais alto que os demais, sentado em uma pedra, retirando a pele de uma raposa das neves com uma faca maior do que o necessário. Todos riram e concordaram. — Fora esperto o bastante para se tornar rei e, de quebra, ter a rainha para foder todo dia.
As gargalhadas encheram o ar do bosque e a conversa foi se tornando cada vez mais obscena. Aproximou-se devagar, dando tempo suficiente para que a vissem chegando.
– Olá, senhores, desejam incrementar a refeição de vocês com produtos da melhor qualidade? — Puxou as rédeas e fez o cavalo parar quando ficou em frente ao grupo. — Perdoem-me, porém não pude deixar de ouvir parte da conversa. Aconselho que tomem cuidado com o que falam em voz alta, pois se chegar aos ouvidos da realeza, creio que não ficarão muito contentes.
– E quem é que vai contar para eles? — O grandão falou a olhando diretamente, girando a faca nos dedos ensanguentados.
– Alguém que possa ter ouvido e fora sensato o suficiente para não mostrar a cara, a fim de se proteger — Os homens entreolharam-se antes de relaxar os ombros. — E já que estamos no assunto, quer dizer que os reis tinham outros interesses quando se uniram e agora assumiram?
– Não assumiram nada, mas corre o boato de que já foram vistos aos beijos pelo castelo, certamente acontece muito mais quando não estão olhando — Um dos três Avarosianos respondeu, verificando as mercadorias em sua carroça e separando as que lhe agradavam.
– Que engraçado, ontem à noite viram o rei abraçando de maneira íntima aquela intendente da rainha; Lesrie, o nome dela — Lissandra soltou de propósito, uma intriga sempre era algo favorável. O grupo levou alguns segundos refletindo antes do mais novo dos quatro bárbaros se manifestar.
– Talvez na cama vossa graça seja tão fria e dura quanto seu arco.
Todos explodiram em gargalhadas, exceto o mais velho, que esperou o barulho cessar, enquanto despelava por completo o animal, para concluir:
– Aquela ali não me engana, aposto meu braço como é a maior puta. Capaz de se divertirem a três com essa criada.
– Não fale assim, alguém pode… — Começou um Avarosiano magro e tão pálido que chegava a assustar, mas foi interrompido por um muxoxo alto.
– Foda-se, eu digo o que quero e pronto — Um silêncio pesado se fez presente e tudo o que ouvia era o tintilar das moedas que recebia do homem simpático que comprara alguns de seus suprimentos. Viu os olhos acinzentados do selvagem a olhando de cima a baixo, com interesse. Não era o corpo mais bonito que já usara, mas tinha boas qualidades. — E você, pequena, quanto custa?
Pensou rapidamente e ele era justamente o tipo de pessoa insolente que ela apreciava em seus planos, poderia usá-lo e até instigá-lo a começar uma revolta mais adiante. Rabiscou um papel e jogou para o homem, lançando um sorriso malicioso e sensualizando cada palavra:
– Para você, eu faço de graça.
Estalou o chicote no dorso do cavalo mirrado, acenou para o bando e foi-se embora.
Pela primeira vez em dias, Ashe se sentia menos abatida e irritada; Tryndamere finalmente havia recobrado a razão e trabalhava com afinco ao seu lado, ajudando-a mais do que esperava. Quando estavam diante da posição de reis, entravam em uma sintonia perfeita: pareciam pensar as mesmas coisas ao mesmo tempo, um completava a ação do outro sem que fosse necessário pedir e tudo fluía tão bem que sequer se lembrava dos problemas anteriores. Chegou a sorrir discretamente quando ele lidou de maneira assertiva com um aliado problemático sem fazer uso dos socos que, com certeza, queria enfiar no meio da cara redonda do homenzinho.
Passaram o par de dias seguintes à reunião geral do Conselho Consultivo praticamente confinados em pequenas reuniões cheias de conversas e assinaturas em papéis oficiais; era um alívio saber que todas aquelas pessoas iriam embora na próxima manhã e que teria parte da tarde e a noite de folga. Convidara a todos para um passeio pela capital, embora preferisse ficar descansando sozinha em seu quarto, e estava terminando de vestir seu traje real quando seu marido entrou e desabou em um sofá macio próximo à porta.
– Você não vai? — Perguntou ao ver que ele fechara os olhos, prestes a dormir.
– Só se for de extrema necessidade. Esse é o caso? — Respondeu mansamente, imóvel.
– Seria de bom-tom ter o rei ao lado deles, estreitaria os laços e construiria mais confiança — Fechou os botões mais baixos nas costas, porém não alcançava o restante. Iria esperar Les chegar para ajudá-la, mas lhe pareceu uma boa ideia testar os impulsos do homem: queria saber se ele tentaria fazer algo ruim ou seria uma pessoa decente. — Pode me dar uma mãozinha aqui?
Teve a impressão de vê-lo relutar durante alguns segundos antes de se dirigir até ela e começar a abotoar os vários e pequenos botões dourados, concentrando-se neles e evitando tocá-la sempre que possível; se mantinha tão silencioso que nem parecia estar ali. Depois de algum tempo, pensou que talvez ele não fosse tão ameaçador assim.
– Como eu ia dizendo, seria bom que fosse, mas se não estiver disposto, tudo bem. Também nem devo demorar muito nesse passeio, combinei de acompanhar Braum logo depois até…
– O que? — Interrompeu, o corpo retesado de repente. — Combinou de sair com ele?
– Sim, Braum quer comprar uma casa em Rakelstake que é de propriedade da coroa, portanto eu o estou auxiliando.
– Suponho que não havia mais ninguém que pudesse fazer esse serviço, não é? — Sentiu a raiva pesando o tom de sua voz enquanto se afastava dela, deixando a tarefa incompleta.
Não costumava se chatear facilmente, mas ultimamente ele vinha testando sua paciência.
– Qual é o problema disso? — Virou-se com cara de poucos amigos, cruzando os braços na frente do corpo. — Por acaso preciso lhe pedir permissão para fazer algo?
– Está aí uma boa ideia! Afinal, você me deve satisfações, é minha mulher! — O homem vociferava com os punhos fechados, visivelmente irritado.
– Só pode estar louco! — Gesticulou com exasperação. — Esse é um casamento de fachada, entenda isso. Fa-cha-da.
– Ah, é? Pois não foi o que me pareceu quando você se jogou em cima de mim algumas noites atrás!
– Aquilo foi um erro, eu vejo. No entanto não lhe obriguei a fazer, você embarcou nessa porque quis.
– Um erro, de fato. Eu nunca deveria ter pensado que daria certo, passei por cima da minha prom… — Parou de súbito, dando-lhe as costas.
Como assim “dar certo”?, pensou, tentando processar rapidamente as informações. Na ocasião, focara somente no ato físico, nos desejos, não levando em consideração qualquer coisa além disso. Era possível que justamente ele tivesse algum sentimento?
– Da sua o quê? — Seu tom passou de chateada para interessada em segundos, sabia que estava prestes a falar lucidamente sobre a promessa que citou quando estava bêbado.
– Não importa — Voltou-se para olhá-la nos olhos, aparentemente contendo-se para não explodir. — Não há o que eu possa fazer e já não espero que vá melhorar. Jamais deveria ter vindo morar aqui, só me trouxe problemas.
Girou nos calcanhares e foi em direção à porta. Quis pedir para que esperasse e conversassem, que lhe contasse sobre o que mantinha em segredo, entretanto se ateve apenas em vê-lo partir sem olhar para trás.
Mal teve tempo de refletir porque Lesrie apareceu em seguida, trazendo a braçadeira de metal que compunha suas vestes brilhando de tão bem polidas.
– Alguma novidade sobre a nossa missão? — Perguntou à intendente, que se pôs em seu auxílio.
– Nenhuma, parece que a história foi muito bem abafada. Muitos não conheciam a tal Meliza, tampouco ouviram falar, mas os que sabiam da sua existência fecham-se em copas quando eu toco no assunto.
– Não pare, continue sondando e me informe sobre qualquer fragmento, por menor que seja, assim posso ir juntando os pedaços.
– Há um bárbaro que parece saber de algo, porém é escorregadio como uma enguia. E ele me dá medo — A viu sacudir o corpo como se estivesse sentindo calafrios.
– Posso dizer que não precisa ter medo, eles não podem fazer algo contra nós, mas devo alertar para que tome cuidado. Não lhes dê motivos para atacar, pois o farão sem pestanejar.
– Fala por experiência própria, Senhora? — Não esperou que respondesse. — Vejo que têm se desentendido e, apesar de não saber exatamente o que está pensando, eu quero…
– Não estou pensando em nada, Les — Interrompeu, incisiva. Entendera sozinha o que tinha acontecido e não estava com cabeça para discutir o assunto. — Há algo em que eu deva pensar?
– Não, Senhora — Respondeu sem desviar o olhar.
– Ótimo. Vamos descer logo, desejo voltar cedo — Encaixou a aljava no ombro, pegou o arco e saiu.
Calculou perfeitamente bem o tempo de permanecer à vista de todos no passeio, fingir uma indisposição, voltar para o castelo e sair sem que a vissem em outro corpo; quando chegou à pequena casa, faltavam alguns minutos para a hora do encontro. Não arrumou muita coisa, seu acompanhante não se importava com nada disso, apenas fez o suficiente para parecer uma casa habitada. Vestiu uma peça curta e atraente que achou no guarda-roupa e esperou — mais até do que devia.
Lissandra quase não abriu a porta quando ele finalmente chegou, odiava incompetência.
– Sentiu minha falta? — O bárbaro sorriu ao ver a cara amarrada da morena.
– Não, um outro acabou de sair daqui — Deu-lhe as costas e foi em direção ao sofá, mas seu braço foi agarrado e puxado com força.
– E ao que me parece, você já se lavou e estava me esperando — Baixou as alças do seu vestido e descobriu os seios. — Não percamos mais tempo, já perdi demais com aquela mulher.
– Que mulher? — Perguntou apenas para manter o personagem; se encontrava com ele durante os dias que permanecia na capital a fim de prepará-lo para algum plano que viesse a armar, aprendera a sempre ter cartas disponíveis na manga e uma voz em sua cabeça dizia que ele seria de grande valia, tanto que lhe revelara que havia um meio de entrar e sair da capital sem ser visto pelo alto de uma montanha próxima; certos homens costumam falar sem pensar diante de uma mulher nua.
– A intendente da rainha — Agora sim ele ganhara sua completa atenção. — Acredita que ela anda perguntando sobre uma pessoa que jamais poderia ter conhecido? Não sei que interesse teria nisso, tampouco como soube da existência dela.
Falava mais para si mesmo de que para ela. Podia sentir que havia qualquer coisa interessante naquela história.
– Não acredito, acho que você está inventando isso para encobrir um romance com ela — Fez cara de emburrada e afastou as mãos dele de seu corpo.
– Romance? — Deu uma gargalhada, voltando a agarrá-la. — Não sou homem disso, esteja avisada.
– Então em quem ela estava tão interessada? E porquê? — Afastou-se novamente, mantendo parte do corpo desnudo e um olhar desafiador. O homem levou um tempo antes de lhe sorrir de canto, entrando em seu jogo, e responder:
– Tudo bem, vou satisfazer um pouco da sua necessidade por fofocas – Começou a retirar as próprias peças de roupa enquanto falava. — Já não é a primeira vez que ela me vem com esse assunto, e muito me surpreendeu que tivesse ouvido falar de Meliza, uma vez que os poucos que sabem não gostam de falar sobre. Fiquei apenas desviando o rumo da conversa e lhe oferecendo os meus melhores conhecimentos, mas aquela mulher não me deixava chegar muito perto.
– E quem é essa tal de Meliza, finalmente? — Sequer deu atenção à falta de discrição do grandão, desde o dia em que o vira no bosque com seu bando, soube que jamais teria tato com as palavras.
– Uma jovem e bondosa prostituta que vivia conosco no Norte. Muito querida por todos, inclusive por Vossa Majestade, o rei.
– Tryndamere? — Seus instintos nunca falhavam, sabia farejar boas informações.
– Temos outro rei? Na época ainda não éramos uma tribo tão grande, mas ele já era o líder.
– E o que aconteceu? Você disse que ela vivia lá, não vive mais?
O bárbaro deu alguns passos, deixando as calças no chão, e parou em sua frente, exibindo o membro em riste como se fosse algo precioso.
– Já conversamos demais, o resto fica para uma próxima ocasião.
– Que tal amanhã, naquela passagem que prometeu me mostrar?
– Talvez. Agora use essa boca para algo melhor se não quiser que eu lhe tome à força — Segurou-a pelos cabelos e empurrou para baixo, fazendo seus joelhos dobrarem até se apoiarem no chão. Poderia facilmente abaixar a crista daquele ser arrogante e pô-lo em seu devido lugar, entretanto não era a hora, portanto manteve-se obediente e ardorosa como ele gostava, enquanto usava língua, lábios e mãos para satisfazê-lo. Ossos do ofício.
No começo, Ashe estava frustrada e irritada por ter de inventar tantas explicações, mas a essa altura estava começando a se preocupar. Desde que discutiram na tarde passada, não mais viu o seu marido: ele faltou ao passeio, não estava com Gragas nos bares, não dormiu no castelo, também não aparecera para se despedir dos aliados que partiram pela manhã e ninguém sabia informar onde ele se encontrava até então. Evitou fazer alarde sobre o seu sumiço, era provável que tenha saído para espairecer, porém não podia deixar de pensar que naqueles tempos de guerra, mesmo sendo um guerreiro esplêndido, algo de ruim poderia ter lhe acontecido.
Ou pior: teria ido embora.
Fora caçar para limpar a mente e tudo o que fez foi afundar e se enroscar ainda mais no emaranhado de pensamentos e emoções que preenchiam sua cabeça. Corria a esmo entre as árvores, subindo ladeiras atrás de pequenos animais que mal se concentrava em enxergar, e sequer se dava conta de onde estava. Não queria acreditar que ele teria jogado no lixo a aliança que formaram e a deixado dessa maneira. Certamente os bárbaros iriam atrás do seu rei, sua autoridade seria desacreditada perante todos e o que tanto se empenhara para construir poderia ruir como um boneco de neve na chegada do verão.
Sentiu um nó na garganta e lágrimas vieram aos olhos, mas respirou fundo e se controlou, como sempre fazia; não se permitia chorar.
Parou e olhou em volta procurando se situar, não demorou para ver que estava um pouco acima da base da Montanha Inclinada, próxima ao castelo, tão íngreme e cheia de pedras soltas que quase ninguém se arriscava mais por ali. Contudo, qual não foi sua surpresa ao ver que não estava sozinha.
Ao longe, acima de onde parou, uma mulher morena e baixa descia a montanha um tanto quanto apressada, olhando constantemente em todas as direções — ou estava fugindo de algo ou tinha aprontado alguma coisa. Se escondeu atrás de algumas folhagens e apurou as vistas para identificá-la, sem sucesso. Perguntou-se o que uma mulher tão comum e simplória, desprovida de qualquer armamento, poderia estar fazendo num lugar perigoso como aquele e esquadrinhou à volta a fim de encontrar algum indício que pudesse explicar seu comportamento.
E achou: ainda mais para o alto, mais ou menos na direção em que a mulher desceu, havia uma torre abandonada.
Se algo errado estava acontecendo, era lá que iria descobrir. Não pensou duas vezes antes de começar a escalada, esquecendo-se que sol já se aproximava da linha do horizonte.
À medida que avançava, se tornava mais difícil equilibrar-se de pé entre musgos e gravetos quebrados; faltava menos da metade do caminho quando teve de agachar e usar as mãos para se segurar e não rolar ribanceira abaixo. Mal tinha seguido cerca de trezentos metros e começou a ouvir barulhos entre as árvores, cada vez mais próximos — foi quando percebeu, tarde demais, que o sol estava se pondo, banhando de sombras a encosta e dificultando sua visão.
Apertou o passo e continuou avante, quem sabe poderia se abrigar no interior da torre, com certeza seria mais seguro do que descer correndo sem ter onde se esconder.
Agarrou um galho e içou o corpo para frente, tentando chegar à pequena clareira, ao mesmo tempo em que algo pulou em cima de sua cabeça. Desviou por um triz e entortou o pescoço para ver o que era: não só havia um, mas dezenas vultos andando vagarosamente no escuro, cercando-a. Ajoelhada, tirou o arco do ombro e preparou uma rajada de flechas, esperando o momento certo de atirar. Um par de olhos claros e brilhantes surgiu em sua frente, acompanhados de várias presas afiadas e rosnados ameaçadores.
Enfiara-se no meio de uma enorme alcateia, a julgar pela quantidade de animais presentes, e não tinha um bom pressentimento.
Quando o primeiro pulou, mais dois vieram em seguida, e flechas voaram em todas as direções, derrubando alguns e incitando os que ficaram de pé. Rolou pelo chão para se desviar dos ataques, ouvindo o barulho das garras contra os metais de sua bota e o tecido de sua capa rasgando-se em meio à algazarra que se formou com os rosnados, uivos e latidos das feras famintas.
Levantou-se e tentou correr enquanto atirava mais flechas, no entanto o chão era irregular demais e acabou por perder o equilíbrio e milímetros de mira diversas vezes. Teria de escolher, afinal, entre ficar parada e massacrar toda uma alcateia ou fugir.
No milésimo de segundo que levou para pensar, uma dor aguda atingiu o punho que segurava o arco, fazendo-a gritar. Dentes longos atravessaram a proteção leve que usava e penetraram o suficiente para amolecer seus dedos.
O lobo sacudiu a cabeça, tentando arrancar o que havia agarrado, mas não contava com a força da mulher ao empurrar-lhe uma flecha crânio adentro com a mão livre. Fugir agora era sua melhor opção. Partiu o mais rápido que pôde, sem conter os barulhos que emitia ao sentir a pele ser arranhada e superficialmente cortada por aquelas unhas compridas e, principalmente, ao fazer força com o braço ferido.
Sua estratégia estava dando certo, as árvores espaçadas a auxiliavam nos impulsos, até que algumas pedras soltas sob seus pés rolaram e seu corpo foi de encontro ao chão, incapaz de achar algo ao seu alcance para se segurar. Esse teria sido o menor de seus problemas, se outras pedras acima de si não tivessem despencado, sabe-se lá de onde, direto para a sua cabeça.
Mesmo tonta e apenas com a luz da lua e de seu arco para lhe dar o mínimo de visibilidade, segurou-o com algum esforço, engatilhou nove disparos e atirou no que viu e no que não viu, sem parar para conferir se havia acertado.
Foi nesse momento que o universo aparentemente não conspirou ao seu favor.
No instante em que olhou para os lados para verificar as possibilidades, bateu de frente com o que deveria ser uma contenção de textura estranha e voltou com toda força para trás, chocando a nuca com o tronco de uma árvore.
A última coisa que viu foi uma silhueta grande lançando-se sobre si.
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