Destinos Arranjados
2 A Emboscada
Notas iniciais
O dia amanhecia em Freljord, nublado, escuro e frio como de costume. Nevava o ano inteiro, com poucos períodos de um sol mais caloroso. O castelo era uma construção imponente no meio de uma cratera gigante na montanha, as casas singelas da vila ao seu redor, e à sua frente uma abertura nas rochas era a única entrada e saída, guardada por torres altas e homens bem armados.
A guerra civil na qual se encontrava era motivo de medo em todo o reino. A qualquer momento as batalhas sangrentas recomeçariam, camponeses temiam por suas famílias e casas, os soldados ansiavam secretamente pela paz o quanto antes, já bastavam os entes queridos que perderam. O sol mal tinha clareado a cidade quando um grito de dor pavoroso encheu os aposentos reais. Ashe levantou-se de súbito, completamente atordoada, e agarrou seu arco e flecha, cuidadosamente colocados perto de si antes de dormir. Em milésimos de segundo estava de pé em posição de ataque, procurando o que havia causado aquele grito, o coração acelerado. Viu que Tryndamere estava sentado na cama, suado e ligeiramente trêmulo, seus cabelos negros longos e lisos escondendo seu rosto.
– Pode baixar sua flecha, foi só um pesadelo. Vejo que está preparada para algum tipo de ataque.
– Não é o que está pensando — Suspirou, fora tão boba ontem com aquela cena toda, de certo que um casamento assim embaralha o juízo da pessoa. — Estamos em guerra, isso é uma proteção para nós, eu também coloquei a sua espada ao seu lado — Com muita dificuldade, diga-se de passagem, que diabo de espada pesada era aquela? Ele olhou de soslaio para sua direita e viu que sua arma se encontrava à poucos centímetros de si. Havia esquecido de trazê-la para mais perto antes de dormir, fora descuidado. Ela colocou os objetos aos seus pés e sentou-se novamente na cama, a adrenalina já deixando o seu corpo.
– O que você sonhou? — Perguntou curiosa, fitando-o.
– Não quero falar sobre isso. Devemos deixar de conversa e nos levantarmos, já amanheceu.
– Você parecia assustado, estava tremendo um pouco, o que poderia lhe deixar tão abalado?
– Está para nascer algo que possa me fazer tremer, mulher — Ashe calou-se com a resposta ríspida, estava evidente que ele não iria contar, devia ser algo terrível para sequer assustá-lo.
Ele apresentava um olhar pensativo e preocupado quando se levantou do outro lado da cama e ela pôde observar por alguns momentos seu corpo ainda nu de costas, seus ombros largos e músculos bem definidos traziam várias cicatrizes de batalhas. Atreveu-se a observar um pouco mais embaixo, dessa vez não tomara um susto com a visão repentina — pelo contrário, precisava ver — afinal, parecia que ele não se importava em ficar desfilando pelo quarto balançando suas coisas, então quanto antes se acostumasse, melhor. Estava tão absorta em observá-lo vestindo a calça e em não ficar corada que nem teve a reação de disfarçar quando ele se virou para ela, estranhando sua quietude.
– Qual foi o problema? — Seu tom era impaciente, julgara que ela estivesse fazendo algum tipo de birra, como era típico das mulheres, mas estranhou o modo como ela o olhava, parecia analisar cada parte.
– Nada — Olhou em seus olhos com sua expressão impassível de sempre e deslizou da cama em direção ao guarda-roupa, sorrindo bem levemente pelo seu atrevimento quando ficou de costas para ele. Sempre fora uma pessoa muito séria e ocupada com seus deveres, ainda mais desde que começou sua campanha de paz para Freljord, sem contar que sempre tinha aquela expressão fria no rosto. Apesar da delicadeza, nunca fora dada a afetividades demais ou romantismos, não era à toa que por suas costas a chamavam de A Rainha de Gelo. Achava graça daquele apelido, até gostava, sempre pôs seu reino acima de tudo, nunca teve tempo nem interesse para nada além disso. Não tinha muitos amigos, de fato, mas os que tinham lhe eram aliados fiéis, já era muito grata por isso.
Pegou seu vestido preferido, um preto com detalhes dourados, e foi trocar-se atrás do biombo, ouvindo o tintilar dos metais da roupa que Tryndamere costumava vestir. Quando reapareceu, ele já estava encaixando sua espada gigante no suporte em suas costas, quase pronto. Olhou-a de cima à baixo quando ela andou em direção à cama, sentando-se na poltrona à frente para calçar suas botas de cano alto. Seus cabelos voltaram ao habitual tom branco e caíam-lhe sobre os ombros, lisos e sedosos; duas alças largas saíam do seu pescoço e desciam pelo busto com o intuito de cobrir seus seios firmes e arredondados — apenas o intuito mesmo, porque deixavam boa parte à mostra naquele decote profundo — e se uniam ao corpo do vestido; sua fina cintura estava marcada por uma faixa branca, seus quadris largos eram precariamente cobertos pela saia levemente rodada, uma olhada mais atenta do ângulo correto revelaria o que aquele tecido tentava esconder, e suas coxas alvas e torneadas estavam à mostra em liberdade.
Tryndamere não fez questão de disfarçar, ela estava de costas para ele e era sua esposa, afinal. Esposas tem obrigações para com seus maridos e ela seria dele se ele quisesse. Mas, por enquanto, ele não estava interessado, tinha coisas muito mais importantes com o que se preocupar. Tratou de pegar seu elmo e se dirigir vagarosamente para a porta.
– Me pergunto como uma mulher tão pequena e tão magra quanto você não sente frio usando essas roupas curtas — Seu tom era ao mesmo tempo curioso e desdenhoso, claro que em sua visão ela parecia frágil, mas ele estava enganado. Ela também percebeu que não fora a única a observar alguém hoje.
– Talvez um dia você saberá — disse por fim, sem emoção aparente.
***
O café da manhã transcorreu normalmente, exceto pela voracidade com que Tryndamere comia, parecia que não havia feito uma refeição há dias tamanha sua rapidez e vontade. Todos à mesa o observavam curiosos. Os conselheiros e seus empregados trocavam olhares risonhos entre si e Ashe não sabia se ria dele ou se o repreendia pela falta de etiqueta.
– Vossa graça, por favor, a comida não vai fugir do prato — Um dos conselheiros interrompeu o silêncio com um sorriso amigável. Tryndamere apenas o olhou por alguns segundos antes de desacelerar o ritmo — Agora sim — Completou. Virou-se para os empregados — Por favor, nos deixem à sós.
Quando as portas da sala de jantar foram fechadas, o comandante da guarda real adotou uma expressão séria e preocupada.
– Recebi novas informações hoje cedo. Eles pretendem atacar quando abrirmos os portões para a passagem das carroças de mantimentos. Mas algo me diz que eles atacarão de cima também, pelas montanhas.
– Estou certo disso — Falou Tryndamere ainda se fartando de um grande pedaço de pão com carne. — Montaremos guarda em todos os cantos da cidade, pontos estratégicos com sistema de alerta de invasores e pedido de reforços se necessário.
– Já alertamos nossos aliados e os soldados, a essa hora já devem estar se dirigindo aos seus postos. Eu e Tryndamere ficaremos à frente do castelo — Completou Ashe afastando seu prato vazio.
– Ótimo, irei com vocês — disparou o comandante.
– Não, alguém precisa manter as coisas em ordem aqui dentro, caso haja algum invasor, traidor ou qualquer coisa do tipo. Queremos que fique aqui — Ashe ordenou com delicadeza. O comandante refletiu por uns instantes, deu um sorriso aprovador e curvou a cabeça em sua direção.
– Como quiser, Majestade.
– Temo que nossas provisões não sejam suficientes para suprir os habitantes se essa guerra continuar por mais tempo — começou o tesoureiro real. — Algumas plantações foram destruídas nas batalhas e os deuses sabem como é difícil plantar alguma coisa nesse solo coberto de gelo.
– Digo o mesmo sobre as ervas medicinais e outros utensílios. Há mais feridos e menos recursos — disparou o Alto Meistre.
– Entendemos a situação, senhores, essa guerra logo acabará. Tempos como esse são difíceis, mas logo passarão. — Respondeu Tryndamere.
– Devemos nos apressar, senhores. Não levantem suspeitas, finjam que nada está acontecendo e os que não irão se juntar à batalha, procurem um local seguro. — Completou Ashe. Todos se levantaram e se dirigiram aos seus postos.
– Eu não vou ficar à frente do castelo — Avisou Tryndamere de súbito, quando estavam sozinhos no corredor.
– O que? Eu vou defender o castelo sozinha?
– Não, os soldados estarão lá para lhe ajudar.
– Não me refiro a isso, me refiro a... Bom, esquece, darei conta. Onde você vai ficar então?
– Há uma clareira no alto da montanha, ela dá acesso à uma descida íngreme até os fundos do castelo. Tenho razões para acreditar que, apesar da dificuldade para descer a montanha, dos muros e do fosso, eles já pensaram em um jeito de entrar aqui e nos atacar de dentro para fora.
– Compreendo. Por que não contou isso aos conselheiros? Teme que um deles seja um traidor? — Ashe estava falando aos sussurros enquanto andavam para a entrada do castelo. Fez questão de manter a expressão fria de sempre, para que não notassem seus planos.
– Sim, nunca se sabe em quem pode confiar.
– Então isso quer dizer que você confia em mim? — Ashe estudou seu rosto a fim de encontrar qualquer indício de que ele superara o que acontecera na noite passada.
– Não sei, é o que veremos. Fique alerta, eu volto daqui. — Girou nos calcanhares e deu as costas à Ashe e às grandes e altas portas reais de gelo maciço, se dirigindo aos Jardins Gelados do fundo do castelo.
***
O sol já estava começando a se pôr no horizonte quando Tryndamere se perguntou, pela milésima vez, o que estava errado, finalmente sentando-se num banco de pedra frio, atento aos barulhos ao seu redor. O vento gélido balançava levemente as folhas das poucas árvores que haviam no jardim, e seu som se misturava ao uivo baixo do vento e o harmonioso toque de finas estacas de gelo batendo umas contra as outras. Gragas bebia de um enorme copo ao seu lado, igualmente calado e atento. Seu amigo era um gordo beberrão, mas um guerreiro muito habilidoso e um excelente aliado. Fora graças a ele que Ashe conseguiu unir duas tribos que ameaçavam guerrear entre si e trazê-las para a sua ideia de nação de Freljord.
– O que você tem aí? — Tryndamere quis saber, olhando de relance para o barril que o amigo trouxera.
– Uma maravilhosa cerveja quente, para dar energia e aplacar um pouco do frio. Serve também para solidão, se estiver interessado — respondeu com uma risada baixa, dando-lhe o copo pela metade.
– Por que eu estaria interessado? Não me importo com solidão, ela não é uma fraqueza para mim — tomou um longo gole. A cerveja quente era de fato aconchegante e enérgica, seu gosto era levemente azedo e um tanto quanto cremoso.
– Ora, meu caro, você se casou ontem e não me parece nem um pouco feliz.... Ou pelo menos aliviado. Você me parece tenso e carrancudo, eis a verdade. Até onde eu sei, a noite de núpcias sempre é prazerosa — sua risada foi mais alta dessa vez.
– Não me venha com essa conversa de novo, você sabe que eu não me casei com ela por isso. Eu não posso arriscar...
– Eu sei, eu me lembro — Gragas interrompeu, assumindo um ar sério e apático. — Pobre moça, não merecia morrer daquele jeito. Não posso negar que a culpa é sua, mas ao menos serviu para que você se controlasse mais.
– Ontem eu senti muita vontade de matá-la — Confessou aos sussurros. Checou o perímetro novamente, mas nada mudara ao alcance de sua visão.
– Então isso quer dizer que vocês...
– Não, não. Não foi isso, já lhe disse que não vai acontecer e tenho meus motivos. Eu estava conversando com ela e, quando me aproximei, a vi segurando um enfeite de cabelo bem pontudo, parecia prestes a me atacar. Desarmei ela e por pouco não quebrei seus braços e torci seu pescoço.
– Acha que ela pretendia te matar com um enfeite de cabelo? — Gragas riu como se o amigo tivesse lhe dito um absurdo. — Não é do feitio dela, não mesmo.
– Nunca confie nas pessoas, ainda mais em mulheres. Malditas! Sejuani está por aí, planejando atacar a qualquer momento. Ashe tentou fazer um acordo de paz com ela, mas aquela desgraçada ateou fogo aos grãos que lhe foram oferecidos. Lissandra ninguém sabe onde foi parar, pode estar em qualquer lugar só esperando o momento certo.
– Sejuani me lembra você, Vossa Graça. Raivosa e impiedosa, orgulhosa e cruel. Quem sabe não são irmãos? — Gragas gargalhou ruidosamente, se servindo de mais cerveja. — Falando nisso, estamos aqui há horas e nada aconteceu. Já vai anoitecer e ninguém apareceu, nenhum sinal de ataque. Nem os patrulheiros nos picos da montanha avistaram algo, nenhum deles. Acho que foi um alarme falso.
– Imagino que esteja certo. Mas eu não entendo, quem nos trouxe essa informação foi o Comandante, ele afirmou que ouviu diretamente de guerreiros das tribos não-aliadas na Estrada do Campo, ele nunca foi um homem desleal.
– Pelo visto, nunca é tarde para começar a ser um traidor. Aconselho deixar os guardas à postos.
– Certamente. Tem alguém vindo — Tryndamere olhou para a enorme porta de gelo dos fundos do castelo, coberta de estacas pontiagudas e cristais de gelo brilhantes. Um mensageiro vinha apressado pelo saguão trazendo um pequeno pedaço de papel em suas mãos.
– Vossa Graça, a Rainha pediu para que lhe entregasse — Estendeu o papel. Tryndamere viu que estava lacrado com cera e esta marcada pelo desenho do selo real, que só ela e ele próprio tinham acesso. Abriu e leu para si.
Rei Tryndamere,
Suspenda a operação, dispense os aliados que estão com você, deixe os guardas à postos e me encontre nos nossos aposentos assim que ler esta mensagem.
Ashe
Dispensou o mensageiro e mostrou a carta para Gragas, que examinou bem o selo e a letra antes de falar:
– É, ao que me parece, vossa esposa deseja ter um momento à sós com vossa majestade. Vou deixá-los à vontade — um sorriso debochado apareceu em seu rosto, enquanto apanhava seu barril de cerveja e se punha a passos largos pela porta, suas banhas balançando de um lado para o outro. — Se precisar de qualquer coisa, já sabe onde me encontrar, eu estarei pronto — E se foi.
***
Ashe estava sentada na poltrona aos pés da cama comendo uma porção de pão torrado quando Tryndamere adentrou aos aposentos. Parecia bastante irritada e examinava vários papéis à sua volta. Assim que o viu, deu um longo suspiro.
– Ah, que bom que chegou. Venha, sente-se aqui — e apontou para a poltrona em que estava sentada. — Tomei a liberdade e pedir para trazerem o nosso jantar, precisamos conversar. Sirva-se. — À sua frente estava uma mesa pequena e improvisada, com uma cesta de pães, um prato de carne e uma jarra de suco de uva. O rei estava se servindo quando Ashe começou:
– Anivia veio falar comigo hoje no início da tarde, ela sobrevoou todo o castelo e entorno da montanha e não havia sinal de um guerreiro para a emboscada. Ela me avisou, sobrevoou de novo e já próximo do pôr-do-sol ela retornou confirmando que não havia ninguém em lugar algum. Você sabe o que eles estão tentando fazer conosco? — Ashe perguntou como se Tryndamere já soubesse a resposta.
E ele sabia.
– Nos desacreditar, para parecermos tolos e fracos na frente dos nossos soldados e aldeões — A compreensão que teve foi tão amarga quanto o suco de uva que acabara de beber. Pôde sentir que a fúria dentro de si estava aumentando em ritmo acelerado.
– Exatamente. Veja só isso aqui, alguns soldados acharam essas cartas no quartel. É inaceitável, Freljord não pode continuar em fragmentos assim, não pode! — Ele analisou as cartas e em todas elas a inteligência, força, autoridade e até sanidade dos reis eram questionadas. Amassou as cartas num rompante de raiva e se levantou vociferando:
– Eu vou arrancar dedo por dedo dos malditos que escreveram e espalharam essas cartas! — Ashe sequer pareceu abalada com a reação do seu marido.
– Sim, você vai, porque quem escreveu isso armou todo esse plano de falsa emboscada, portanto são nossos inimigos. Mas esse não é o maior problema, veja bem: Como eles tiveram acesso à cidade e, pior, ao interior do quartel? — Ashe o olhava alarmada, procurando respostas que ele não sabia.
– Como eu disse, não podemos confiar em ninguém. — Ele pareceu acalmar-se tão repentinamente quanto enfurecera-se, apesar da sua expressão dura de sempre. Deu uma mordida no pedaço de carne, rasgando-a com os dentes e mãos. Ashe lançou um olhar de desaprovação aos seus maus modos, mas não poderia esperar nada melhor de um bárbaro como ele. – Isso não parece ser obra de Sejuani, creio que Lissandra está por perto. A partir de hoje, nossos planos reais serão discutidos apenas entre nós dois, não podemos cometer falhas com um perigo tão iminente. Diremos planos falsos ao conselho para pegar o traidor ou seja lá quem esteja infiltrado.
– Todos vão desconfiar, verão que estamos nos encontrado às escondidas e, portanto, pensarão que não estamos dizendo a verdade — Tryndamere admitiu internamente que Ashe tinha razão. — Precisaríamos de um motivo plausível para justificar tanto cochicho e proximidade entre nós sem levantar suspeitas, mas não temos.
– Será que um casal recém-casado não pode ter momentos à sós sem que todos desconfiem que estão tramando algo obscuro? — O tom do homem soou mais como um desabafo desdenhoso, mas a compreensão atingiu ambos em cheio. Olharam-se como se tivessem descoberto algo à um palmo do nariz. O rei logo se lembrou da conversa que tivera com Gragas essa tarde e deu um tapa na mesa. — É isso, mulher, estamos em lua-de-mel!
– Claro que não vai dar certo, eles sabem que não nos casamos por amor ou algo do tipo, logo vão saber que não estamos em lua-de-mel nenhuma! — Ashe estava achando aquela ideia muito descabida, não convenceria a ninguém.
– Então mostraremos isso a eles, basta fingir um pouco aqui e ali, na frente de um e outro, até conseguirmos pegar o traidor no pulo. — Ela olhou atentamente para o rosto dele e, exasperada, viu que falava sério. Abriu a boca para protestar, mas não achou argumentos, essa era a única opção viável no momento para fazer a armadilha que queriam e proteger o reino. Pensou por mais alguns longos minutos, enquanto ele terminava sua refeição, antes de dar sua resposta.
– Tudo bem então, que seja. — Novamente, nenhuma emoção que ele pudesse notar.
– Então está decidido, vamos deixar passar alguns dias para que não levantemos suspeitas. Vou convocar uma reunião agora com os conselheiros para começar a tirar essa história de hoje à limpo. — Saiu do quarto a passos largos, deixando Ashe sozinha com seus pensamentos. Não sabia nem como iria executar esse plano inusitado, mas de uma coisa já estava convencida: não estava bem do juízo.
***
Muito longe do castelo e da vila, as profundas ruínas da antiga Freljord eram um local assustador para qualquer um que se aventurasse por suas terras frias como a morte, escuras como o medo. Uma mulher jovem e bonita estava empoleirada a vários metros da entrada, observando a imensidão do local à sua volta, pedras e gelo se misturavam numa figura disforme sobre o chão coberto de neve, aquele lugar não era mais do que uma poeira do que já havia sido.
Viu uma figura surgir ao longe, correndo ao seu encontro, era o homem que estava esperando. Acenou e esperou que chegasse até ela, arfando.
– Consegui, minha querida! Fiz o que você me pediu, deixei as cartas no quartel. – O rapaz sorria satisfeito, recuperando o fôlego.
– Alguém viu você entrar ou sair? – A voz da mulher era amável mesmo quando estava preocupada.
– Não, eu me certifiquei disso. Vai me dar agora o que prometeu? – Um sorriso malicioso se fez notável no rosto jovem e feio daquele homem, estava extasiado por poder desfrutar de uma mulher tão bonita em troca de um favor tão simples; nem aquele frio terrível o abalaria, trouxera equipamentos para fazer uma fogueira e uma cabana aconchegante para passarem a noite longe das vistas de todos, como ela exigira.
– Mas é claro, você foi ótimo, merece sua recompensa. – A malícia no tom da mulher o deixou arrepiado, seu sangue estava circulando muito rápido. Ela se aproximou o suficiente para que seus narizes quase se tocassem e pousou a mão em seus ombros ao mesmo tempo em que ele alisava sua cintura fina por cima das roupas grossas. Ele tentou beijá-la, mas ela recuou o rosto, brincando com o desejo dele. Desceu uma das mãos por seu peito até chegar a região do seu baixo ventre, acariciando superficialmente o volume que se elevava na calça do homem, fazendo-o se permitir deslocar as próprias mãos para os seios parcialmente cobertos da moça e apertá-los, enfeitiçado. Ela deu uma risada baixa e fez um movimento rápido com mão que o alisava.
Uma estaca de gelo afiada emergiu do chão logo abaixo do rapaz, entrando pelo meio de suas pernas e saindo em sua cabeça, empalando-o como um espantalho. Seus braços escorregaram dos seios da mulher e penderam ao lado de seu corpo, balançando ao sabor do vento gélido, o sangue escuro escorria de seu corpo inerte e manchava o alvo solo de vermelho. Deu as costas e se pôs a caminhar satisfeita, indo em direção à parte mais escura das ruínas, deixando o cadáver ainda preso naquele macabro suporte feito de gelo negro.
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