Destino

3 Vida de babá


Eu não sou acostumado a acordar cedo no domingo, nunca tive nada pra fazer num domingo de manhã mesmo, então já dá pra ver a minha burrice armada né.

Eu coloquei meu despertador pra tocar as 6:30 pra dar tempo de eu achar a casa do Hyoga, mas acontece que eu não ouvi meu despertador, e abracei meu travesseiro e me aconcheguei mais ainda na minha cama que estranhamente estava mais quentinha e convidativa do que de costume, ainda mais naquela manhã fria.

Meu celular tocou e eu só fui ouvir depois da terceira chamada perdida, quando eu atendi levei um susto, ouvir a voz do Hyoga de manhã cedo me fez lembra rapidamente do que eu tinha que fazer, não deu outra e eu pulei de repente da cama.

─Hyoga?

─Oi Shun, você ainda vem? — ele estava extremamente calmo, então eu acho que eu não estava tão atrasado assim.

─Sim, sim, estou procurando seu prédio ainda. — menti, não podia dizer que eu estava dormindo né.

─Tanto tempo assim? E é um prédio tão destacado, tem certeza que está procurando no lugar certo? — ele disse ainda calmo, mas como assim tanto tempo? Que horas são?

Eu olhei pro meu despertador e vi a hora, eram 7:20, ahhh droga, droga, droga, eu estava muiiito atrasado.

Lembrei que o Hyoga nunca se mostrava aborrecido com nada, era sempre calmo e imparcial, mesmo que tudo estivesse pegando fogo, como pude me esquecer disso?

─Er... Eu vou achar Hyoga, já, já chego aí. — eu disse e desliguei sem responder nada direito pra ele que provavelmente ficou confuso.

Corri pro banho e pra me arrumar, fui tão rápido que acho que nem dei tempo da agua cair em mim, mas meu cabelo tava molhado então acho que deu tempo sim, me arrumei rapidamente também e sai correndo pra casa dele, torci pro prédio dele ser mesmo difícil de achar e que a minha desculpa fosse plausível, mas ao mesmo tempo eu torcia pra não ser, pois eu já estava atrasado demais pra procurar, então achei melhor ser um prédio bem de esquina com uma faixa enorme dizendo: casa do Hyoga.

Bom, eu penso numa desculpa no caminho.

Fui dirigindo feito louco, ainda bem que a policia não me parou.

Achei o prédio bem rápido, nem deu tempo de encontrar uma desculpa pro meu desleixo de horários.

Identifiquei-me pro porteiro que já sabia que eu vinha, então subi rapidamente pro andar do Hyoga, já eram 7:40, cheguei à porta dele todo alvoroçado, verifiquei meu estado antes de bater, pra ver se eu estava apresentável, droga, eu devia ter acordado mais cedo pra me arrumar melhor, vesti minha calça jeans já bem gasta e uma camiseta verde claro, e o meu tênis já bem gasto também, aff tô parecendo um moleque, ainda bem que sempre me disseram que eu não pareço ter a idade que tenho, que eu parecia bem mais jovem, então acho que não tava tão ruim assim.

Assim que bati o Hyoga abriu, ele já tava todo arrumado pra trabalhar, ele ficava tão bem vestido daquele jeito, tão bonito.

─Bom dia Shun. — ele disse calmamente, mas sem sorrir.

─Oi Hyoga, eu sei que estou muito atrasado, mas é que...

─Desculpe-se mais tarde Shun, vamos, entre. — disse e me deu passagem.

Olhei em volta, o apartamento dele era bastante espaçoso, e tudo tão organizado e limpo, fiquei até com vergonha quando me lembrei do meu, é que eu não tenho muito tempo pra arrumar, e em parte eu sou um pouquinho, pouquinho sabe, relaxado.

Com certeza o Hyoga tem tempo pro apartamento dele ser daquele jeito, eu acho.

─Cadê o Miguel?

─Tomando café... Vem. — disse me chamando pra cozinha.

Vi que o Miguel parecia ter acabado de acordar, pois ainda estava com um pijaminha azul, estava sentado todo quietinho numa cadeirinha na cozinha com um babador, brincava com algum brinquedo, olhei pra mesa com um prato com mingau, e percebi que o Hyoga tava alimentando ele antes de eu chegar.

Quando ele me viu fez um beicinho que parecia que ia chorar, poxa, ele não gostou mesmo de mim.

─Ele acordou faz uns vinte minutos. — Hyoga disse.

Vish, esse menino acorda mais cedo que eu.

─Olha o tio Shun aqui filho. — disse sorrindo pro garoto e pegando uma fralda pra limpar o rostinho dele.

─Ele já tá terminando o mingau, pode continuar aqui pra mim Shun?

─Hã? Ah, sim, sim. -eu disse chegando perto.

─Oi Miguel, tudo bom? — eu disse sorrindo, mas isso não desfez o mau humor do garoto.

─Papa, papa. — disse pedindo colo pro pai.

─Não Miguel, termina seu mingau que eu vou procurar as chaves de novo.

─Chaves?

─Sim, toda manhã é assim, ele acordou enquanto eu me arrumava e eu o tirei do berço pra brincar um pouco enquanto eu preparava o mingau dele, mas aí ele viu as chaves do meu carro na cômoda e escondeu, ele é esperto, ele sabe que quando eu pego elas é quando vou sair, daí ele sempre esconde de mim rsrsrsrsrs. — ele disse rindo e balançando a cabeça. ─Mas eu que sou burro mesmo, sempre me esqueço de colocar elas num lugar alto.

─Ahh. — eu disse rindo, aquele menino era esperto mesmo.

─Anda filho, diz pro papai onde você escondeu as chaves.

─Hum, hum. — disse emburrado e balançando a cabeça.

─Sem gracinhas hoje Miguel, estou atrasado. — novamente o menino negou.

Hyoga suspirou, era até engraçado vê-lo naquela situação, e ele sempre era um poço de paciência.

─Aff, tinha que puxar o temperamento da mãe, tão cabeça dura quanto ela... Deixa, vou procurar lá no quarto, continua aí com ele pra mim Shun, por favor. — disse e se retirou.

─Tá bom.

─Papa. — disse choroso chamando o pai, mas o Hyoga foi assim mesmo.

─Não chora não Miguel, o titio Shun tá aqui. — eu disse e peguei o prato dele pra continuar dando o mingau.

O menino me olhou irritado. Tentei e tentei dar o mingau pra ele, mas ele ficava virando o rosto.

─Sai, sai... Papa. — disse chamando o pai choroso.

─Vamos... Come Miguel.

─Achei. — disse Hyoga retornando. ─Ele escondeu embaixo do tapete do quarto. — disse balançando a cabeça. ─Mais uma gracinha dessas e você vão ficar de castigo, entendido senhor Miguel. — disse advertindo o filho com as mãos na cintura, Miguel ficou mais emburrado ainda.

─Ele não quer comer Hyoga.

─Eu fiz um pouco mais hoje, ele deve tá cheio.

─Hum. – que nada, ele não quer comer é porque é comigo.

─Vem cá. — disse e pegou o filho no colo e começou a limpar o rostinho dele e tirar o babador.

Hyoga foi até a geladeira e começou a me explicar.

─Vem aqui Shun. — disse e eu o segui.

─Está vendo aqui? — disse apontando pra uma vasilha branca. ─Aqui está o almoço dele, esquente e dê ao meio dia, se ele tiver fome antes pode dar esses pedaços de frutas aqui. — disse mostrando outra vasilha.

─Hum, ok.

─Eu daria um banho nele agora, mas estou muito atrasado, pode fazer isso por mim?

─Sim, sem problemas, tem que ser em agua morna certo?

─Bom, isso não faz muita diferença, morávamos na Rússia lembra? Lá é frio o tempo todo, ele já é acostumado, por isso ele ficou calorento quando veio pro Japão.

─Ahh tá. – igual o pai, pensei.

─Vem cá. — disse e fomos pro quarto do Miguel.

Lá tudo era azul com branco e tinha de tudo, tinha um berço/cama um armário, e um grande baú de brinquedos e com vários espalhados pelo chão, um mais legal que o outro, até me deu vontade de ser criança de novo, e tudo pro garoto.

─Não mandei você guardar esses brinquedos dentro do baú Miguel? — disse Hyoga colocando o filho no chão e o advertindo de novo.

─Bincar. — disse Miguel, ele foi até o baú e começou a tirar mais coisas de lá e entregando nas mãos do Hyoga, queria brincar com o pai.

─Agora não Miguel. — disse suspirando, mas pegando os brinquedos que o filho trazia.

─Quando o papai chegar nós brincamos tá. — disse afagando os cabelos do garoto e indo até o armário, o menino fez uma carinha que me deu dó.

─Aqui estão as roupas dele — disse abrindo o armário.

─Pode deixa-lo aqui brincando o tempo que ele quiser, ele gosta de assistir televisão também, então é só deixa-lo lá na sala com uns brinquedos e assistindo desenhos que isso vai distrai-lo por bastante tempo, aqui está a lista de canais que eu o deixo assistir. – disse pegando uma lista em cima da cômoda, caramba esse menino tem mesmo um manual de instruções, pensei que o Seiya tava só brincando.

─Aí tem também as alergias dele, os horários, a hora que ele dorme e o que pode comer. – céus o Hyoga chegou ao limite do pai coruja, que exagero.

─Eu vou voltar por volta das 17:30... Até lá você pode o deixar brincando ou pode levá-lo pra passear no parque aqui perto, não coloque roupas muito quentes e pesadas nele, isso acaba incomodando e ele pode se aborrecer e chorar, e pra o fazer parar é difícil quando eu não estou por perto, e você não vai querer isso certo.

─Não. — eu disse sempre com respostas curtas, o Hyoga não teria tempo de ouvir minhas perguntas e comentários óbvios, ainda mais porque não tinha nem porque ter duvidas já que aquela lista enorme falava por si só.

─Bom eu vou indo, já são cinco pras oito, vou me atrasar. — ele disse suspirando, esse comentário dele me fez ter um peso na consciência, afinal a culpa do atraso dele era minha.

─Desculpe Hyoga, a culpa é minha e...

─Esquece isso Shun, você deve ter um bom motivo, mas agora não é hora... bom, você pode dar conta de tudo? – ele me fez ficar com mais peso na consciência.

─Acho que sim e...

─Ok, cuide bem dele, por favor. — disse abaixando pra falar com o filho que estava brincando.

─Vou trabalhar agora Miguel, comporte-se e obedeça ao tio Shun, entendido?

─Vamos nos divertir juntos hoje Miguel. — eu disse sorrindo pra ele.

Miguel olhou pro Hyoga e depois pra mim, e fez aquele beicinho de novo.

─Papa. — disse levantando-se pra abraçar o pai.

─O que foi filho? — disse Hyoga estranhando.

─Ele definitivamente não gosta de mim. — eu disse em desgosto.

─O Shun é bonzinho filho. — disse sorrindo e afagando os cabelos do Miguel e dando um beijo na testa dele. ─Você vai ficar bem, comporte-se, que mais tarde vamos tomar sorvete tá. — disse fazendo o filho sorrir.

Hyoga levantou-se, mas o menino se agarrou nas pernas dele de novo.

─Ele é bem apegado a você né. — eu comentei.

─Hm... Já conversamos sobre isso Miguel, vamos, me solte, vai brincar, vai.

─Papa. — disse com uma carinha de choro.

─Não, não, sem drama hoje. — disse, mas o garoto começou a deixar as lagrimas caírem, Hyoga suspirou, mas enfim pegou o filho no colo.

─Pronto, pronto... Lamento, mas eu não posso ficar Miguel... Vai com o tio Shun, vai. — ele disse e passou o menino pra mim, e eu finalmente peguei o garoto, apesar de ter sido com esforço que o Hyoga me passou ele. Huumm, cheirinho de bebê é tão bom.

Miguel me olhou irritado no meu colo e ficou tentando se jogar pro pai dele de novo.

─Se eu souber que você ficou com birra vai ter castigo entendeu. — disse advertindo o filho. -Tchau. — Hyoga disse e deu outro beijo na testa do filho, ele chegou bem perto de mim, me fez sentir o perfume dele, ahh que cheiro gostoso.

─Você pode pedir seu almoço pelo mesmo restaurante que eu peço Shun, tem o cartão de lá na porta da geladeira, coloque na minha conta. — disse indo pra sala comigo o seguindo com o Miguel no colo que só tentava me afastar.

─Qualquer coisa não hesite em ligar pro meu celular que eu venho o mais rápido possível... Ah sim, se for passear com ele não compre nenhum desses lanches na rua, pode dar dor de barriga nele, no máximo um sorvete que ele gosta. — disse colocando o paletó e pegando uma maleta no sofá.

─Tá, entendi. — eu disse sorrindo pra ele, parecia bastante apressado, falava rápido.

Ele me olhou e finalmente sorriu pra mim.

─Obrigado. — disse com aquele lindo sorriso dele.

─Não tem de quê Hyoga. — ah eu não conseguia deixar de sorrir pra ele.

─Aqui estão as chaves do apartamento. Até mais tarde. Tchau... Tchau filho. — disse acenando pra nós e se retirou, ficamos eu e o Miguel olhando pra porta.

─Papa, papa. — o menino disse com as lagrimas caindo de novo.

─Não chora Miguel. — eu disse e ele me olhou de novo irritado.

─вы плохой, sai. — ele disse irritado e me afastando, que será que ele disse?

─Vai ser difícil te segurar desse jeito... lamento se não gosta de mim, mas você não tem opção. — ele me olhou mais irritado ainda, mas parecia entender perfeitamente tudo que eu dizia, ficou quieto de repente.

─Que bom que entendeu, agora vamos tomar um banho.

─No.

─Sem discursões, seu pai que mandou. — eu disse já indo com ele pro quarto, Hyoga trancava as portas dos cômodos, provavelmente pra não deixar o Miguel ficar entrando onde não devia, podia acabar mexendo em coisas que podiam machuca-lo.

Fiquei em duvida em qual banheiro usar pra dar banho nele, pensei melhor e conclui que com certeza o Hyoga dava banho no filho no banheiro do quarto dele.

Procurei nas chaves que o Hyoga me deu a do quarto dele, Miguel ficava prestando atenção no que eu fazia, eu mexia nas chaves perto dele, quando ele percebeu meu aperreio ele pegou as chaves que eu mexia com aquelas mãozinhas pequeninas dele.

─Isso não é pra brincar Miguel.

Ele nem ligou e pegou uma chave com uma etiqueta vermelha e mostrou pra mim.

─Papa. — disse me entregando a chave destacada e apontando pra porta.

─É essa a chave?

Tentei e era mesmo.

─Nossa que menino esperto.

Entrei e olhei pro quarto que era tão impecável quanto o restante da casa, não eram moveis novos, acho que o Hyoga trouxe toda a mudança dele quando veio pro Japão.

Fui pro banheiro e enchi a banheira pro Miguel. Quando já estava um pouco rasa eu fui tentar tirar a roupa dele, mas ele não deixava, não levantava os braços e ficava se mexendo o tempo todo.

─Fica quieto Miguel, assim não consigo.

─Nooo, saii. — disse me afastando.

Quando eu finalmente tirei a roupa dele comecei uma nova batalha pra coloca-lo dentro da banheira.

─Noo, no quelo. — disse se agarrando no meu pescoço pra eu não coloca-lo na agua.

─Aff, garoto teimoso.

Quando eu consegui colocar ele lá dentro tentei colocar xampoo no cabelo dele, mas ele ficava balançando a cabeça pra todo lado, fora que ele me molhou todo, mas consegui deixa-lo quieto quando dei alguma coisa pra ele brincar.

Dei banho nele, mas o maior desafio foi tira-lo da agua agora, primeiro não quer entrar, depois não quer sair, afff, onde foi que eu me meti heim.

─Nooo, papaaaa. – ficou chamando pelo pai.

Ele resmungou até não querer mais, mas eu consegui tira-lo de lá e peguei uma toalha, de estampa de patinhos inclusive, que eu achei atrás da porta.

Sai do banheiro sentei na cama do Hyoga com Miguel no meu colo e o enxuguei lá, ele ficou quieto por enquanto.

─Assim é melhor. – eu disse sorrindo pra ele, mas ele continuava sério, quê isso menino? Puxou pro pai mesmo, emburrado.

Olhei pra cômoda do Hyoga e avistei um porta-retratos perto do abajur e o peguei, estavam Hyoga e uma mulher muito bonita com ele, ela tinha longos cabelos encaracolados e loiros, tinha olhos azul escuros, ela tinha o Miguel nos braços, ele só era um bebezinho ainda, Hyoga estava a abraçando e ambos sorriam abertamente, estavam num parque, e estavam lindos e pareciam muito felizes.

─Mama. – disse Miguel apontando pra foto que eu tinha em mãos.

─Sua mãe? – eu disse e ele acenou positivamente.

─Ela é linda. – eu disse, não pude deixar de notar o semblante tranquilo e sereno que o Hyoga tinha ali, parecia tão realizado, tão feliz, e tão diferente de agora.

Miguel se encolheu em mim.

─O que foi? – eu perguntei estranhando, ele parecia triste agora, será que ele lembrava assim da mãe? Ele parecia carente, então eu o abracei, ficamos assim um tempinho.

─Vamos te vestir agora. – eu disse me levantando e colocando o quadro no lugar, Miguel era melhor peralta do que triste.

Fui pro quarto dele e procurei uma roupa bem leve pra ele, uma camisetinha e um calção, tudo pra ele era mini, ele era tão pequenininho.

Parecia que ele esqueceu a tristeza, pois não me deixou vestir ele direito e ficou correndo pra todo lado rindo, parecia que ele fazia de tudo pra dificultar as coisas pra mim.

─Vou contar pro seu pai Miguel. – eu disse e ele parou de correr e me olhou irritado, e veio pra mim. Aráá, era só chantagear que eu ia contar pro Hyoga que ele quietava.

─Ahhh, sabe que vai ficar de castigo né. – eu disse rindo.

Ele me olhou emburrado enquanto eu vestia a camiseta nele e de repente ele apertou meu nariz.

─Aii. Seu feio. – eu disse e ele riu. ─Não ria. – eu disse e ele riu mais ainda.

─Bobo. – ele disse rindo. Bom, pelo menos ele tá rindo né.

Levei-o pra sala com alguns brinquedos e liguei a televisão nos desenhos como o Hyoga disse.

E ele ficou lá quietinho, brincando e assistindo mesmo, melhor assim, não me aborrece e nem se aborrece, vezes ou outras ele ria do que assistia, aquele riso infantil que contagia, tão adorável, tão fofo, nem parecia o garoto ranzinza que não gostava de mim.

Sentei-me naquele largo sofá e fiquei o observando, ele ria cada vez mais alto dos desenhos, acho que quando ele viu algo muito engraçado ele virou-se pra mim rindo e apontando pra televisão.

─Legal, engraçado né. – eu disse sorrindo pra ele e ele balançou a cabeça dizendo que sim, parecia estar se soltando mais.

Observei a sala e vi que tudo ali era protegido pro Miguel, Hyoga sabia mesmo cuidar do filho. Quando olhei pra estante vi vários quadros com fotos, levantei e fui lá ver.

Tinha um retrato de todos nós, de muito tempo atrás quando terminaram as batalhas, fiquei feliz em ver aquilo, novamente me veio aquela sensação nostálgica.

Tinham outros retratos também, do Hyoga e daquela mesma moça, mais jovens e vestidos de beca juntos, eles fizeram faculdade juntos?

Outra com a moça toda vestida de noiva, e o Hyoga num terno preto, o casamento deles, sempre felizes, e várias com o Miguel, e outras com eles passeando, ou se divertindo, em todas elas o Hyoga parecia muito feliz, contente, tão realizado. Mas vi também que em outras que o Miguel estava mais crescido a moça nem aparecia mais, e aquele semblante tranquilo do Hyoga não estava mais presente.

Esse Hyoga é um masoquista mesmo, colocar tantas fotos assim onde ele fica frequentemente lembrando-se da esposa é muito torturante, assim ele nunca vai superar a perda dela.

Quando terminou o programa o Miguel sentou de novo e ficou ali brincando quietinho.

Fiquei quieto também olhando pra ele e pensando no Hyoga, meu estomago roncou de repente, lembrei que eu não tinha tomado café quando sai correndo pra lá.

Fui pra cozinha pra procurar alguma coisa pra comer, mas não achei quase nada na geladeira, acho que o Hyoga não faz as compras faz um tempo, só tinha as muitas coisas do Miguel, esse Hyoga não come? Daí que eu lembrei que ele me disse que pedia comida de um restaurante, ele não deve ter tempo mesmo pra cozinhar, não pra ele.

Achei uma caixa de cereais no armário, melhor que nada né, peguei uma tigela e fui pra sala com o cereal com leite, que não faltava, e um copo de suco que o Hyoga tinha preparado pro Miguel.

Quando cheguei lá gelei, cadê o garoto? O Miguel sumiu, rapidamente eu deixei a tigela na mesa da sala e fui procura-lo, o encontrei no quarto dele brincando lá.

─Ahh, não me dá um susto desses menino. – eu disse suspirando aliviado.

Ele me olhou e virou-se de novo me ignorando, eita menino da lua.

Peguei meu cereal na sala, dei o suco pra ele e fiquei com ele no quarto, longe é claro, ele tava brincando com uns legos, então não achei bom ficar perto dele enquanto ele brincava com coisas que podia atirar em mim.

Terminei e fiquei ali observando a decoração do quarto. Tinha uns desenhos de giz de cera dele pendurados num mural na parede, desenhos dele com o pai.

Sentei no chão e peguei um carrinho só pra olhar mesmo, e ele viu e sorriu.

─é vruuummm. – ele disse fazendo um barulhinho de carro e rindo.

Ele pegou outro carrinho que tava perto dele e trouxe pra mim, depois foi no baú dele e começou e tirar um monte de brinquedos de lá e vinha trazer tudo pra mim, ele tava fazendo a mesma coisa que ele fez com o Hyoga, acho que ele quer brincar comigo, até me animei, ele tava depositando confiança em mim aos poucos.

Comecei a brincar com ele então, ele tinha um riso tão contagiante.

Quando ele cansou dos brinquedos ele foi até uma mesinha pequena que parecia ser feita pra ele e pegou umas folhas grandes em branco de lá e uma caixa com um monte de lápis de cor e gizes de cera.

Deitou-se no chão e ficou lá desenhando, e eu o observava cada vez mais atentamente, ele fazia tantos gestos parecidos com o Hyoga, me lembro de quase todos os gestos dele, quando ele coçava os olhos, ou colocava uma mexa do cabelo atrás da orelha, ou fazia aquele beicinho quando se concentrava em alguma coisa. Era adorável ver aquilo na versão mini.

Ficamos ali bastante tempo, quando vi a hora já tava perto da hora do almoço, mas o Miguel ainda não parecia com fome, mas mesmo assim fui lá esquentar a comida dele, ordens do pai dele né.

Coloquei no micro-ondas e voltei e o chamei pra comer, ele só me olhou de novo e me ignorou e continuou desenhando. Aff, nunca sei quando estou me saindo bem com esse menino.

─Vem comer Miguel.

Ele balançou a cabeça negativamente sem me olhar.

─Você não tem querer, anda, vem logo. – ele continuou me ignorando.

Ohh santa paciência, preciso de uma dose dela. Bom, vou partir pra outra estratégia.

─Ohh Mick. – eu disse sorrindo e ele me olhou surpreso.

─Isso mesmo Mick, se você vir comer a gente vai passear mais tarde. – disse e ele me olhou desconfiado.

─Paque? – ele disse.

─Sim, sim, no parque.

─Papa. – ele disse sorridente.

─Não Mick, seu pai não vai estar lá. – eu disse e ele se emburrou de novo.

─Mas podemos nos divertir nós dois, o que acha? – ele continuou me olhando desconfiado.

─Eu te dou sorvete então. – era a palavra mágica, pois ele abriu um largo sorriso.

─Vai comer então? – eu disse e ele acenou que sim.

Ótimo, meio caminho andado, senão eu corria o risco dele não querer comer e dizer que tá com fome quando o pai dele chegar, aí o Hyoga vai pensar que eu quis deixar o filho dele passando fome.

Peguei-o no colo que agora não impunha tanta resistência assim pra vir comigo.

Quando eu cheguei à cozinha e vi que tinha colocado tempo demais no micro-ondas, ahh droga, droga.

Abri e a comida dele tava queimada, vish, e agora? Coloquei-o na cadeira dele.

Olhei pra ver se salvava alguma coisa, mas não tinha o que recuperar. O que era aquilo mesmo? Eu nem tinha aberto e só tinha colocado pra esquentar mesmo, era uma espécie de papinha, acho que tava melhor antes de queimado, porque aquilo parecia vomito quando eu abri.

Fui pra geladeira pra ver se encontrava outra coisa pra ele, mas só tinha iogurtes, mingau e frutas, definitivamente o Hyoga tem que comprar suprimentos.

Droga, o que eu faço agora? Olhei pra ele e suspirei.

─Vamos que ter que ir ao mercado Mick. – eu disse e ele só me olhando confuso.

Foi o jeito então, o arrumei melhor e fomos pro mercado, eu não tinha cadeirinha pra levar ele no carro, então fui a pé mesmo, ainda bem que era perto. Tava formando um tempo de chuva tremendo, tomara que dê tempo de ir e voltar, principalmente porque eu tinha esquecido o guarda- chuva, Hyoga me esganaria se esse garoto pegasse um resfriado.

Miguel parecia muito feliz quando saia de casa, estava agitado.

Cheguei ao supermercado e coloquei-o sentado naqueles carrinhos com cadeirinha pra bebê, ele ficava olhando tudo atentamente, vezes ou outras ele via alguma coisa e sorria apontando.

Uma hora ele quis porque quis descer.

─Não, vai ficar aí, vai que você some.

Ele fez um beicinho de choro de novo. Ah não, não chora, não chora. Tentei acalmar ele, mas foi inevitável, ele começou a chorar silenciosamente passando as mãozinhas nos olhos, ainda bem que ele não é escandaloso, e as lágrimas ainda caindo, oh céus, eu não aguento ver criança chorar.

─Tá bom, tá bom. – eu o desci. ─Mas não some viu, segura aqui na mão do titio vem. – fiquei segurando a mãozinha dele, mas ele era pequeno eu ficava andando encurvado e empurrando o carrinho ao mesmo tempo.

Fui comprar aquelas papinhas prontas, fiquei escolhendo, era um monte diferente, tomara que ele não seja alérgico a nada que tenha nelas, onde será que eu coloquei aquela lista heim?

Fiquei distraído lendo aquilo e coloquei o Miguel pra ficar ali quietinho enquanto eu escolhia... Foi um tremendo erro.

Quando dei por mim, cadê o Miguel? Já me desesperei e fiquei olhando de um lado pra outro. Perguntei pra algumas pessoas que tinham ali, mas ninguém tinha visto ele, ahh droga, mil vezes droga. Essas coisas só aconteciam comigo. Só na minha cabeça mesmo pra confiar que o garoto iria ficar ali parado perto de mim.

Vasculhei o mercado todo e nada dele, céus, o Hyoga vai me matar.

Procurei até não querer mais, fui pros caixas já com a intenção de colocar um anuncio de criança desaparecida, será que se eu pedir agora eles colocam logo a foto dele no rótulo da próxima remessa de caixas de leite?

Ninguém tinha visto ele, por Zeus, aquele garoto era uma peça rara aqui no Japão, como é possível alguém com aquela aparência dele sumir e ninguém ter visto? Será que foi sequestrado? Daí começou a passar mil coisas pela minha cabeça, uma ficando cada vez mais ridícula que a outra, pensei até na possibilidade de abdução alienígena.

Cheguei ao ponto de fazer a mulher do caixa anunciar pelo microfone do supermercado pra ver se alguém o achava.

Graças a Zeus não demorou muito e uma funcionaria do mercado veio com ele. Suspirei aliviado.

─Céus, obrigado... Onde ele estava? – eu disse pegando ele que tinha a cara mais lavada do mundo, de quem só foi ali na seção de biscoitos.

─Ele entrou no interior do mercado, no deposito, eu o vi e ele disse que queria ir pro banheiro e eu o levei. – disse a moça.

─Porque não disse que queria ir ao banheiro heim Miguel? – eu disse irritado com ele.

─Hum, hum. – disse me afastando, irritado comigo, mas olha, quem deveria estar com raiva aqui seria eu.

─O senhor é o pai dele? – disse a moça com uma cara desconfiada.

─Não, eu...

─Ele já estava com você mesmo? – continuou desconfiada.

─Sim, eu só tô cuidando dele por hoje e...

─Venha comigo, por favor. – disse me chamando pra segui-la.

Ahh, mais essa agora, será que pensam que eu quero sequestrar o Miguel?

Chegamos à sala da gerencia e a funcionaria foi falar com o gerente.

─Senhor Akio, tem um rapaz aqui com um garoto, o menino tinha se perdido no mercado, mas não tenho certeza se ele estava mesmo com esse rapaz, afinal o menino mostrou resistência em ir com ele.

Mas olha que audácia dessa garota.

─Ele é seu filho senhor? – o gerente disse olhando desconfiado pra mim, me olhou dos pés a cabeça, acho que reparou bem em como eu estava vestido, não disse que eu tava parecendo um moleque?

─Não, eu sou amigo do pai dele, estou cuidando dele hoje. – eu disse indignado, tá vendo só o que você me apronta Miguel.

─Esse menino é bem diferente, de onde ele é?

─Aff, que diferença faz?

─Apenas responda senhor.

─Tá, tá, ele é russo. – acho que pensam que eu tô traficando crianças, só pode.

─O pai dele também é?

─É claro que sim. – eu disse já muito aborrecido

─O senhor entrou aqui com ele?

─Sim.

─Parece que ele não quer ficar com o senhor. – disse vendo o Miguel com birra no meu colo.

─Ele é assim mesmo, ficou com birra agora.

─Hum... pode provar que tem permissão pra estar com ele?

Droga, se eu der pra eles o numero do Hyoga eles vão ligar e o Hyoga vai saber onde eu me meti e nunca mais vai confiar em mim, não posso contar.

─Posso, mas o pai dele via ficar bravo comigo.

─Mas vai ter que dizer, senão não vamos poder deixa-lo ir.

─Mas que droga, acham que eu iria sequestrar uma criança? – aquilo já tava ficando ridículo.

─É que todo cuidado é pouco senhor, se é inocente não vai ter problema nenhum em nos provar.

─Aff, vocês não me conhecem?

─E deveríamos?

─Sou Shun Amamiya. – eu disse no limite da minha paciência.

─Amamiya? Esse nome é familiar. – disse aquela garota prepotente. ─Ahh, lembrei. – disse e saiu, não demorou muito e ela voltou com o segundo volume do meu livro e mostrou pro gerente.

─Aqui senhor Akio, Shun Amamiya é um escritor muito famoso... adoro seus livros. – ela disse sorridente pra mim.

─Esse é você? – disse o gerente.

─Sim. – eu disse irritado e pegando minha carteira e tirando minha identidade. ─Aqui.

─Hum, ah desculpe senhor Amamiya, é que todo cuidado é pouco com as crianças ultimamente, mas sabemos que uma pessoa como o senhor nunca faria esse tipo de coisa né. – disse sem jeito agora, fiquem sabendo que acabaram de perder um cliente.

─Hunf. Posso ir agora? – eu disse ainda aborrecido.

─Sim, sim, e desculpe pelo inconveniente, espero que isso não tenha lhe aborrecido tanto, e não nos cause problemas. – disse envergonhado.

─Hunf. – ele já tem muita sorte de eu não ter surtado aqui.

─Ahh senhor Shun. – disse a garota. ─Pode autografar meu livro?

Ela só pode estar brincando, nem pensar que vou fazer esse favor pra ela.

─Não. – eu disse ríspido e sem mais delongas e me retirei com o Miguel, nunca mais faço compras aqui.

Quando cheguei lá fora suspirei aliviado.

─Tá vendo só o que você me faz passar Miguel... da próxima vez vou amarrar uma coleira em você – eu disse irritado com ele, aquele dia estava o cumulo pras coisas darem errado, e ele fez foi rir de mim.

Ah, disso você ri né moleque. Bom, tenho que admitir que aquele rostinho infantil dele me animava, mesmo com as coisas dando tudo errado. Paciência Shun, paciência.

Resolvi fazer compras num mercadinho que tinha ali perto, só de mau não volto mais nesse de agora a pouco. Pena que no mercadinho não tinha tantas opções do que naquele outro. Eu tinha que correr, a chuva tava pra desabar em nós.

Escolhi umas papinhas lá e fui comprar uns biscoitos também, sucos, iogurtes, e umas frutas pra fazer uma vitamina pra ele, é melhor variar, vai que eu compro coisas que ele não pode comer e eu tenha que voltar aqui de novo.

Cheguei quase uma hora depois no apartamento do Hyoga. Por sorte a chuva não nos pegou. Me arrependi de não ter ido de carro, eu poderia ter amarrado o Miguel no cinto no banco de trás que não teria problema.

Procurei pela aquela lista que o Hyoga me deu pra ver se o Miguel era alérgico a alguma daquelas coisas.

Bom, parece que ele não é. Preparei e fui tentar dar a comida pra ele.

Ele se recusou a comer de inicio, mas parece que a fome bateu e ele decidiu comer, mas também já passava da hora do almoço dele, já era mais de uma da tarde, acho melhor não contar esse detalhezinho pro Hyoga.

Liguei pro restaurante que o Hyoga falou e pedi comida pra mim também, eu estava faminto a essa altura.

Miguel terminou de comer e eu dei o suco dele e o coloquei na sala pra ficar brincando lá. A comida chegou bem rápido, mesmo com aquela chuva desabando, e estava ótima, enquanto eu comia fiquei observando o Miguel que já parecia sonolento.

Terminei de comer e fui olhar aquela lista e ver em qual seção tinha os horários do garoto dormir. Vi que já tinha até passado também.

─Vem cá Miguel. – eu o chamei e ele só me olhou.

─Hunf. Vem aqui, Mick, você vai dormir agora. – eu disse e ele continuou lá sentado me olhando.

─No.

─Você não tem escolha, vem logo. – eu disse indo logo até ele e o pegando no colo pra leva-lo pra cama, mas ele esperneou tanto que eu tive que sentar no sofá e esperar ele ficar quieto.

─Oh menino teimoso... Lembra que eu não vou leva-lo ao parque mais tarde se você não colaborar. – assim que eu disse isso ele lembrou e ficou quieto.

─Hum, melhor assim, agora vamos pro quarto.

─No, aqui. – disse saindo do meu colo e foi deitar numa almofada do sofá.

─Quer dormir aqui?

Ele acenou positivamente.

─Tá bom então. – eu recolhi as outras almofadas e coloquei em volta dele, Miguel se aconchegou ali e ficou quietinho de olhos fechados, não demorou muito e ele dormiu de vez, todo encolhidinho, tão fofo, nem parece que ele me deu tanto trabalho hoje.

O sofá era em L, e bem espaçoso, então eu aproveitei peguei uma daquelas almofadas e deitei lá também e fiquei assistindo televisão baixinho.

Relaxei completamente, eu estava cansado. Não demorou muito e eu adormeci também.

Acordei bastante sonolento e notei que tinha alguma coisa perto de mim e segurando minha camisa, quando me localizei vi o Miguel encolhido no meu peito, estranhei, ele saiu de onde estava e veio pra perto de mim, isso me alegrou, gostei dele ter procurado segurança comigo, ele dormia tão profundamente e parecia um anjinho, tão pequenino e fofinho. Deu uma imensa vontade de apertar ele, mas achei melhor não.

Procurei pelo meu celular no bolso e vi que já eram cinco e vinte, céus eu dormi tanto assim?

Olhei pra ele tão fofo daquele jeito, comecei a acariciar aqueles cabelos loiros dele, como os do pai. Miguel acordou aos poucos e foi abrindo aqueles lindos olhos azuizinhos dele e olhou pra mim.

─Dormiu bem? – eu disse sorrindo.

─Papa. – chamou pelo pai de novo e coçando os olhinhos enquanto levantava.

─Ele ainda não chegou Mick.

Ele fez beicinho de novo pra chorar. Ah, não, não, tava tão bonitinho antes.

─Não chora, podemos ir ao parque agora lembra?

O rosto dele iluminou-se de novo. Ele se espreguiçou e ficou me olhando.

─Shu. – ele disse com aquela voz infantil dele.

─Hum? Você disse meu nome Miguel? Shun?

Ele acenou que sim e repetiu.

─Shu. Bincar. – disse apontando pros brinquedos dele no chão.

─Quer brincar comigo?

Ele acenou de novo que sim. Fiquei feliz.

─Tá bom, mas primeiro vou preparar um lanche pra você e depois de brincar vamos pro parque tá?

Ele acenou que sim. Fui até a geladeira e peguei aquela vasilha com as frutas e uma tigela com os biscoitos que eu comprei e dei pra ele com um copo de leite.

─Come aí e depois nós vamos. – eu disse sorrindo pra ele e ele sorriu de volta, é, parece que finalmente ele gostou de mim, tomara que não mude de atitude de novo.

Ele ficou ali comendo enquanto assistia televisão e eu fui me ajeitar pra sair com ele, jogar uma agua no rosto.

Quando voltei pra sala ele já tinha terminado e tava brincando com os legos dele, me esperando.

─E então? Vamos? – eu disse e ele me olhou todo animado.

Quando menos espero ouvimos o barulho da chave na porta, acho que era o Hyoga, ele disse que chegaria cinco e meia.

Miguel me olhou sorrindo mais abertamente ainda.

─Papa? – disse em expectativa e eu só acenei que sim pra ele, não deu outra e ele correu pra perto da porta.

Hyoga abriu a porta e o Miguel correu pra ele.

─Papaaa. – disse todo alegre.

─Hm? Oi filho. – disse surpreso e pegando o filho no colo.

Miguel abraçou intensamente o pai, Hyoga parecia ser tudo pra ele, em nenhum momento do dia ele se esqueceu do Hyoga.

─Oi Shun. – ele disse sorrindo pra mim.

─Oi Oga.

Ainda estava de jaleco, tinha uma expressão tão cansada, e estranhamente estava usando óculos. E foi com o Miguel nos braços e sentou-se no sofá suspirando.

─E então? Como foi o dia de vocês? – ele disse sorrindo e olhando pro Miguel e pra mim.

Lembrei-me do dia e achei melhor não relatar tudo que aconteceu conosco.

─Er... foi legal. – eu disse sem jeito.

─Só isso. – Hyoga disse estranhando.

─Er, é, só ficamos aqui... Íamos sair agora pra passear. – ainda bem que o Miguel não me desmentiu, senão ia sobrar pra ele também.

O Miguel levantou e começou a malinar no pai, ficou brincando com a camisa do Hyoga, outras vezes apertando a bochecha dele, por ultimo pegou os óculos dele.

─Não, não filho, pode quebrar. – disse pegando das mãos do filho e colocando na mesa ao lado.

─E esses óculos Hyoga? – eu disse.

─Ah, é que eu perdi meu ultimo par de lentes. – ele disse, parecia mesmo um médico daquele jeito, pois ele parecia ser bem jovem pra ser médico, aqueles óculos o deixavam mais sério, fora que ele ficava bastante sexy com ele, droga, lá vou eu com essa mente poluída de novo.

─Hum. Não sabia que você usava lentes... Ficou muito bonito em você. – eu disse displicente, droga.

─Hm... E ele deu trabalho Shun? – disse não parecendo se importar com meu comentário.

─Não, não muito. – lembrei-me do que o Miguel aprontou, mas agora ele tava tão carinhoso então livrei ele do castigo por enquanto, fora que se eu contasse iria sobrar pra mim também.

─Não muito?

─Sim.

─Hm? – disse olhando pro filho. ─Ele nunca gostou de nenhuma babá que teve até hoje, você é exceção então.

─Ah, é mesmo? – eu disse sem jeito.

─Que bom que você não aprontou com o Shun Miguel. – disse afagando os cabelos do filho, hunf, ele que pensa.

─Passea Papa. – disse sorridente pro Hyoga.

─Passear?

─Si.

─É que eu prometi pra ele que íamos passear agora.

─Vamo papa.

Hyoga o olhou cansado, mas sorriu.

─Sim, claro, claro... vou trocar de roupa então.

─Se estiver muito cansado não precisa ir Hyoga, eu levo ele sozinho.

─Ah não tem problema Shun, vou passar um tempo com ele agora.

─Mas...

─Vou me trocar. – disse colocando o filho no chão pra brincar, levantou e foi pro quarto dele.

Eu o observei, ele parecia no limite, mas mesmo assim resolveu ir.

Passou-se um tempo e fui atrás dele pra insistir de novo que ele não se esforçar-se tanto. Ia bater na porta, mas ela estava escorada então eu só entrei.

Vi ele deitado na cama atravessado, tinha se livrado da camisa e estava com uma perna flexionada e apoiada no colchão e com o braço no rosto, tapando a vista.

Não pude deixar de notar o corpo dele, lindo e tão atraente. E ele parecia exausto, nem sei quanto tempo fiquei ali olhando pra ele quieto. Depois de um tempo ele finalmente levanta e nem me nota ali e sentou-se na cama apoiando os braços nas pernas e tapando o rosto com as mãos. Só ouvi um suspiro dele. Poxa, ele realmente parecia abatido.

Ele tirou as mãos nos rosto e olhou pro retrato na cômoda.

Resolvi anunciar logo que eu estava ali e bati na porta atrás de mim.

─Hyoga.

─Hm? – ele finalmente me olhou. ─O que foi? – disse sério.

─Nada, eu só... só vim insistir que você descanse um pouco mais.

─Estou bem Shun, não se preocupe. – ele pensa que me engana.

─Está estampado no seu rosto que você não está bem Hyoga. – eu disse.

─Você está imaginando coisas. – ele disse levantando-se e indo procurar outra camisa no armário.

─Não estou não. – eu insisti.

─Eu sei cuidar de mim Shun. – disse vindo pra perto de mim na porta e vestindo a camisa que ele escolheu.

─Bom, er... todo mundo precisa de ajuda Hyoga. – eu disse incomodado e constrangido com ele assim tão perto, vestindo aquela camisa devagar na minha frente, enquanto eu via aquele peitoral dele.

─Bom, eu não preciso agora... algum problema? – disse ainda sério e tranquilamente enquanto eu praticamente o comia com os olhos.

─Na-não.

─Então vamos. – disse e passou por mim.

Fiquei aliviado quando ele se afastou, ele estava exposto demais pra mim, se continuasse assim eu não sei o que eu faria. Percebi que meu coração batia acelerado, eu estava nervoso, ansioso, e... excitado. Droga Shun, ele é só seu amigo, só amigo.

Fui pra sala também e vi-o sentado no chão e brincando com o Miguel.

─Vamos Shun? – ele disse sorrindo pra mim, me encantou ainda mais.

─Ah sim, vamos. – eu disse sem jeito.

Fomos andando mesmo e o Hyoga foi com o Miguel no colo, o menino tava todo animado, qualquer coisa que via ficava mostrando todo sorridente pro Hyoga.

Quando chegamos no parque vi que tinham várias famílias ali, me senti estranho com aquilo.

O sol já estava se pondo, tinham várias arvores, era uma especie de pequeno bosque, tinham muitas pessoas por ali também e crianças brincando.

O Hyoga colocou o Miguel no chão e o deixou ficar brincando por lá.

─Vai deixar ele solto assim? Ele não vai sumir?

─Não, além do mais ele está na vista. – ele disse tranquilamente, ele que pensa que o menino vai ficar quieto.

O Miguel ficou correndo pra cima e pra baixo, a grama estava úmida por causa da chuva.

─Ele vai se sujar todo.

─Depois eu dou um banho nele.

Hunf, esse Hyoga falava tão tranquilamente, eu fiquei o dia tendo o maior zelo com aquele garoto, pensei que o Hyoga mal deixava o menino sair, que impunha regras o tempo todo, mas era o contrario, ele não parecia tão controlador agora.

Sentamos num dos bancos de lá. Enquanto o Miguel brincava.

─Como foi o trabalho Hyoga? – tentei puxar assunto.

─Trabalhoso. – disse simplesmente e sério, embora tranquilo.

─Er... você é que tipo de médico? – insisti, porque ele tinha que ser sempre tão objetivo?

─Cirurgião.

─Hum. Sua esposa era medica também? – porque diabos eu perguntei isso?

Ele me olhou e estranhou.

─Como sabe?

─Vi uma foto dela na estante. – eu disse sem jeito.

─Hm. Ela era oncologista. – ele disse sorrindo e ficou um tempo em silencio. ─O que achou dela? – ele disse do nada.

─Hã? Er... eu, eu achei ela muito bonita. – nem sei por que eu estava tão sem jeito.

─Tem razão, ela é linda. – disse sorrindo e parecendo nostálgico.

─Qual é o nome dela? – fiz outra pergunta, não estava seguindo o conselho do Shiryu, mas sempre pensei falar do que se atormenta é melhor do que guardar pra si.

─Lilia.

─Como ela era? – continuei insistindo no assunto.

Ele me olhou, e depois pro filho brincando mais adiante.

─Porque está interessado?

─Nada, eu... eu só fiquei curioso.

─Hm... Desculpe, não quero falar dela. – disse sério, mas o semblante dele ainda era tranquilo, e isso me tranquilizou também.

─Tudo bem. – eu disse e resolvi ficar quieto e ele percebeu.

─Desculpe Shun, não quis soar impaciente. – ele disse me olhando arrependido.

─Ah, sem problemas, eu entendo. – eu disse e ele sorriu de novo, adoro colocar sorrisos no rosto dele.

─E então Shun... quando vai lançar esse livro novo? – ele disse me olhando.

─Hã? Ah... nem eu sei, estou sem ideias. – eu disse sem graça.

─Eles são sobre o quê mesmo? – ele disse não parecendo muito interessado.

─Romance... você não leu nenhum? – saber que ele não conhecia meus livros me chateou, ora, meu amigo não está interessado no meu trabalho?

─É que não vendem exemplares em Moscou.

─Ah... vou te dar a coleção de presente então, quero que você leia e dê sua opinião sincera viu.

─Certo, certo. – ele disse rindo. ─Pra receber tantas criticas boas então você deve ser bom mesmo.

─Minha imaginação é muito fértil. – eu disse rindo.

─Não são inspirados na sua vida então? – ele perguntou curioso.

─São, bom... não exatamente, é que eu exagero sabe.

─Ah tá rsrsrsrs. – ele disse rindo. ─Só você mesmo heim Shun... lembro que antigamente você escrevia bastante mesmo.

─Você lembra?

─É claro, me fez ler várias coisas que você escrevia, e mal deixava eu terminar e já exigia o veredito.

─Ah, é mesmo, eu era bastante ansioso, quer dizer, ainda sou.

─Quando começou a escrever oficialmente Shun?

─Nem lembro, acho que foi ainda durante a faculdade, acho que assim que eu iniciei eu comecei o primeiro livro, mas o primeiro sempre é difícil de lançar, mas ele foi um sucesso e então comecei a sequencia.

─Que bom que se saiu tão bem, torci por você.

─Mas não ficou pra ver... Você sumiu Oga, quando terminamos a escola achei que você ficaria definitivamente no Japão, mas você decidiu partir do nada.

─Eu já tinha a intenção de voltar pra Rússia Shun, mas eu ainda era de menor, então decidi que faria ao menos faculdade lá... então assim que eu fiz dezoito anos decidi ir.

─Mas porque você queria voltar?

─É minha terra Natal, querendo ou não eu nasci lá... e tenho que admitir que eu ainda estava muito obcecado com minha mãe e fui até lá investigar onde era a casa onde eu e minha mãe morávamos antes do naufrágio.

Realmente ele estava obcecado mesmo, na época ele ainda ia frequentemente levar flores pra mãe dele na Sibéria, sempre fiquei preocupado quando ele ia pra lá.

─Que bom que você finalmente admitiu sua obsessão. – pensei que ele ia me olhar irritado, mas ele continuava tranquilo.

─Hm, tem razão.

─Bom... E encontrou?

─Sim.

─E então?

─Então o que?

─No que deu isso?

─Bom, não tinha sobrado muito, a casa ficou abandonada há anos, quando a achei tinha outra família morando lá.

─Poxa, deve ter sido muito triste voltar a ver sua antiga casa.

─É, foi... mas eu já superei isso, faz muito tempo. – ele disse ainda calmo, estranho, quando ele falava da mãe sempre era comovido, parece que ele superou mesmo.

─Por que decidiu fazer medicina?

─Essa é outra longa historia. – ele disse sorrindo.

─Mais outra? Quando você vai me contar elas?

─Quando eu me sentir bem em conta-las... Quando forem menos dolorosas. – ele disse triste.

─Tudo tem a ver com a Lilia?

─Em parte, está relacionado.

Ele sempre foi objetivo daquele jeito, mas eu já estava me irritando com aquela atitude. Ficamos um tempo em silencio. Mas que droga, porque ele não me deixa entrar mais na vida dele? Eu só quero ajuda-lo.

─Sentimos muito sua falta sabia. – eu disse aborrecido.

─Hm? Também senti falta de vocês. – ele disse.

─Mas porque se afastou tanto Hyoga? Você perdeu tanta coisa, o casamento do Shiryu e do Seiya, os Natais, seus aniversários, o nascimento dos meninos... tantas coisas, sentimos muito sua falta nessas ocasiões. Fora que você nos manteve longe da sua vida também, até do seu casamento e do nascimento do seu filho. Pensei que éramos importantes pra você, que fossemos amigos. – nem eu sabia que estava tão magoado assim com ele.

Ele me olhou e parecia surpreso pela forma que eu falava.

─Er... eu sinto muito Shun, eu os considero muito mesmo, e nunca me esqueci de vocês, e eu sempre mantive contato com Camus que sempre me dizia como andavam as coisas por aqui.

─Mas porque esse afastamento?

─Bom... Admito que fui relapso, mas eu tive meus motivos... eu sinto muito Shun, sinto mesmo.

─Sim, você foi relapso, irresponsável, tratante... mas eu te perdoo. – eu disse irritado cruzando os braços.

Ele me olhou e riu.

─Qual é a graça?

─Você não mudou nada Shun, continua o mesmo. – ele disse sorrindo.

─Hunf... Me conta o que está havendo com você.

─Não está havendo nada Shun. – ele disse estranhando.

─Tá vendo só, você não confia em mim pra contar seus problemas, suas aflições, quero que confie em mim Hyoga. – nem sei por que eu estava falando daquele jeito com ele.

─Mas eu confio. – ele disse surpreso.

─Não é o que parece. – acho que eu já estava exagerando.

Ele ficou quieto em silencio por um tempo. Ficamos observando o Miguel. Droga, eu deixei o clima tenso entre nós por causa desse meu mau humor repentino.

─Shun. – ele disse depois de um tempo.

─Hum?

─Eu vou lhe contar tudo que quiser saber, mas não agora, não me sinto pronto ainda... eu amava muito minha esposa... ainda amo, e sinto muita falta dela, eu disse que já se passou um ano, mas pra mim é como se tivesse sido ontem, tudo me faz lembrar dela até mesmo o Miguel se parece muito com ela, eu sei que você deve ter pensado que eu quero me torturar com tantas coisas que me fazem lembrar dela, mas é o contrario, acho que é melhor assim, não quero esquecer, não é doloroso lembrar daqueles momentos felizes, eu me mudei pra esquecer as lembranças, mas só as ruins, afinal foi lá que eu a perdi... na realidade eu me mudei pelo Miguel, faz só um mês que ele deixou de perguntar tanto por ela, então achei que aquele ambiente não fazia bem pra ele, ele sentia tanta falta dela que estava adoecendo, e eu não suportaria perder meu filho também, ele melhorou bastante quando se mudou pra cá, ainda está meio deslocado, mas isso passa, não quero que ele cresça obcecado com a imagem da mãe como eu... quero apenas que entenda.

─Mas e você Hyoga? Nunca vai se sentir melhor se continuar com ela em mente desse jeito, nunca vai superar.

─Está enganado, eu estou superando sim, acredite, eu já estive pior.

─Está falando a verdade?

─É claro, porque eu mentiria pra você?

─Pra não me preocupar. – eu disse e ele sorriu.

─Realmente você continua o mesmo. – ele comentou.

─Hum?

─Nada, nada. – ele disse sorrindo.

─Tudo bem Hyoga, vou esperar quando você se sentir pronto pra falar comigo. – eu disse e ele assentiu.

Eu fiquei quieto o observando e ele pareceu se incomodar agora.

─Que foi? Eu sei que sou bonito, mas acho melhor tirar uma foto que dura mais tempo Shun. – ele disse rindo.

─Hum? Ah seu bobo convencido. – eu sorri pra ele também.

─Com quem ele vai ficar amanha Hyoga? – eu disse depois de um tempo.

─Vou ligar pra aquela garota que o Shiryu recomendou.

─Hum.

Ficamos mais um tempo, andamos um pouco e tomamos o sorvete que o Miguel queria, até brinquei um pouco com ele.

Já eram quase sete da noite e muitas pessoas já tinham ido embora.

─Já tá tarde. – Hyoga comentou olhando a hora.

─É verdade.

─Miguel. – chamou o filho.

Miguel veio pra junto de nós.

─Vamos voltar filho. – ele disse e o garoto só resmungou.

─No.

─Miguel. – frisou num tom de aviso pro menino parar de birra, que resolveu ir mesmo a contragosto, mas olha, ele só era obediente com o pai.

─Qual é o seu segredo heim? – eu disse.

─Hm?

─Ele te obedece sempre.

─Claro, sou o pai dele.

─Sim, mas como ele vai obedecer as babás dele?

─Tem que ganhar a confiança dele primeiro, quando você passar mais tempo com ele vai ganhar confiança também.

─Mais tempo?

─Sim, ou quer se afastar? A experiência hoje foi tão ruim assim? – ele disse rindo.

─Não, não foi. – eu disse lembrando, muitas vezes o Miguel foi carinhoso comigo mesmo aprontando.

─Você vai querer ir embora agora Shun?

─Hum? Bom, eu não tenho nada pra fazer, então... – eu disse querendo prolongar meu tempo com eles.

─Que bom, então vai jantar conosco, podemos assistir alguma coisa também, ou sair... se você não estiver cansado é claro. – ele disse sorrindo, estava me convidando pra ficar com eles, e eu gostei é claro.

─Não estou cansado, você é que está. – eu disse afinal eu dormi praticamente a tarde toda com o Miguel, quem me preocupava mesmo era o Hyoga.

─Estou bem. – disse Hyoga.

─Não tá não, vai descansar um pouco nem que eu tenha que te obrigar.

─Tá bom, tá bom. — ele disse dando-se por vencido.

Voltamos pro apartamento deles e eu me sentia até que digamos entusiasmado em passar a noite com eles, me sentia mais parte da família sabe.

Mas alguma coisa me dizia que não seria uma simples noite.