Destino

6 Retorno


Notas iniciais
Continuação do relato do Hyoga.

O senhor Andrey cuidou de tudo relacionado com o velório, eu não estava psicologicamente capaz naquele momento.

Eu sei que a reação mais comum seria me desesperar, cair em prantos, lamentar da vida... mas e não fiz isso. Entrei numa espécie de transe, eu ouvia as pessoas me dizendo palavras de consolo, e eu simplesmente acenava pra elas, não sei o que estava acontecendo comigo.

Eu a tinha perdido, pra sempre, então porque eu não mostrava a reação que qualquer pessoa mostraria?

Eu sequer chorei. Naquela hora ela ainda sorria, parecia estar apenas num sono profundo, mas não era isso que os aparelhos indicavam.

Eu não chamei ninguém, e nem ouvia mais o barulho do monitor, só fiquei ali olhando pra ela. Quando ela morreu tiveram que me tirar do quarto e de perto de Lilia praticamente a força, pois eu não quis sair, fiquei ali parecendo um zumbi em frente a ela.

Aquilo estava mesmo acontecendo?

O velório foi em nossa casa, eu estava sentado numa daquelas cadeiras dobráveis que a funerária disponibiliza, estávamos no verão, eu estava com um calor tremendo, principalmente por estar naquele terno preto abafado, minhas pernas suavam naquele metal.

As pessoas se aproximavam de mim e deixavam suas condolências e eu só agradecia sem muitas palavras, estava no automático, isso já aconteceu antes, foi quando eu perdi minha mãe e fui mandado pro Japão, as pessoas tentavam falar comigo, mas eu parecia uma espécie de zumbi, só que mais tarde a noite eu finalmente cai em prantos, e toda aquela dor que estava estagnada em meu peito finalmente apareceu, acho que minha mente atrasava minha reação em momentos como aquele, e de certa forma isso era bom, era como um mecanismo de defesa, pois me poupava de mostrar meu lado emocional pras pessoas e não fazer nada muito constrangedor, e era exatamente assim que eu estava naquele momento, provavelmente mais tarde a ficha iria cair eu finalmente iria chorar... mas não agora.

O caixão estava no centro da nossa sala, era um daqueles luxuosos, ideia do senhor Poznanski, quem diria que até pra morrer as pessoas gostam de luxo, como se o corpo da pessoa fosse sentir que estava num caixão privilegiado com madeira de primeira qualidade e forrado com almofadas de pena e ganso.

E lá estava ela, esticada naquele caixão caro, complacente, e mergulhada num sono eterno, parecia serena e tranquila.

Parece loucura, mas a maquiagem e a peruca que colocaram nela tinham a rejuvenescido bastante, aquelas marcas da doença não estavam visíveis, e ela parecia até corada e saudável, tudo falso eu sei, mas uma parte de mim queria acreditar fielmente que não era.

Seu corpo agora estava rígido e frio. Lilia estava morta, será que ela estava no Elísios agora? Lembro-me daquele lugar como se tivesse sido ontem, era um lugar maravilhoso, eu queria acreditar que ela estava lá, ela merecia.

Irina estava com o Miguel, ele esperneava no colo dela querendo acordar Lilia, olhei em volta e vi muitos de nossos amigos chorando, emocionados e o drama do Miguel os atiçava ainda mais.

Porque eu era o único que não conseguia chorar? Eu queria chorar, mas ao mesmo tempo não queria.

Irina não sabia mais o que fazer com o Miguel então resolvi socorre-la, afinal ela também estava arrasada e tinha que prestar sua homenagem a filha.

─Deixe ele comigo Irina.

─Não precisa Alexei, estou bem. – ela disse enxugando as lagrimas.

Olhei pra ela e suspirei.

─Está tudo bem Irina, eu preciso sair daqui um pouco e o Miguel também... vou dar uma volta com ele.

Miguel me olhou com lagrimas nos olhos, ainda inquieto, ele não via Lilia fazia algum tempo, quando ela esteve doente não tinha condições sequer de falar quanto menos cuidar dele. Eu o levava pra que ela pudesse vê-lo, mas o estado dela praticamente a deixava irreconhecível, então eu acho que aquela maquiagem a tornou reconhecível pra ele naquele momento.

Ele veio comigo a muito contragosto, queria ficar ali com a mãe... eu sei como se sente filho.

Quando chegamos lá fora ele se calou, e ficou encolhido em mim, fiquei triste por ele, perdeu Lilia bem antes de mim.

Até então ele ainda não tinha me chamado de pai, ainda estava desenvolvendo a fala, mas ele já murmurava algumas coisas, é claro que a primeira delas foi ‘mama’.

Fui pra bem mais longe do que planejei, minhas pernas comandavam e eu não consternava, fui parar naquele banco de praça em frente ao lago onde eu e Lilia nos encontramos tantas vezes.

Miguel estava mais tranquilo, acho que aquele ambiente de velório não fazia bem nem a mim e nem a ele. Sentei e ficamos em silencio olhando pra frente.

Quis como nunca que de uma hora pra outra Lilia sentasse ao meu lado, como sempre fez e me presenteasse com um daqueles lindos sorrisos dela, mas isso não ia acontecer, olhei pro lado e ela não estava lá, e nunca mais estaria.

Será que ela estava mesmo certa? Eu era infeliz? Com certeza naquele momento eu estava, mas eu estava mesmo infeliz a muito tempo e não percebia?

Suspirei e voltei a olhar pro lago, era de tarde, a sombra da arvore próxima nos fornecia proteção e olhávamos pra agua cintilando com o brilho do sol, pra qualquer espectador aquele iria parecer um dia lindo, irritantemente lindo, eu queria que estivesse chovendo, que o céu pudesse chorar por mim, que o dia parecesse mais aceitável pra um velório, mas não, o dia tinha que me sacanear com aquele céu azul e passarinhos cantando.

Fiquei até com vontade de fazer nevar, mas em um dia comum de verão não iria parecer nada normal, então desisti daquela ideia.

Olhei pra Miguel que permanecia sério no meu colo olhando pra um ponto qualquer. No que estaria pensando? Será que entendia o que estava acontecendo? Ou só pensava em qual doce ele resmungaria pra que eu lhe desse depois que saíssemos dali?

─Miguel. – eu o chamei.

Ele me olhou, o coloquei de pé no meu colo e ele ficou olhando pra mim, levou suas pequenas mãozinhas ao meu rosto.

Ele era fofo, muito lindo, quando crescesse se tornaria um belo rapaz. Comecei a pensar no futuro dele, o que estudaria, como seria sua primeira namorada, se eu saberia lhe ensinar tudo sobre a vida, e até mesmo como eu iniciaria aquelas conversas constrangedoras que todo pai e filho devem ter, pensei se ele teria aquela fase de adolescente rebelde, e se eu realmente estava preparado pra cria-lo sozinho.

Será que seria prudente treina-lo pra ser um cavaleiro? Talvez ele pudesse ser o sucessor da armadura de cisne, pensei em mestre Camus, a algum tempo ele tinha me dito que eu era legitimamente o sucessor da armadura de aquário, mas eu tinha uma vida e não queria escolher viver como um soldado e guardião de uma casa no santuario, se eu aceitasse isso colocaria meu filho automaticamente como possível sucessor da armadura de cisne. Seria o certo a se fazer?

Será que ele seria capaz? Poderia ser até melhor do que eu, e é claro que eu teria orgulho de tudo que ele escolhesse fazer, seguindo meus passos ou não.

Eu pensava naquilo quando ele murmurou algo quase inaudível.

─Pa-pa.

─Hã? – eu ouvi bem?

─Pa-pa. – ele repetiu mais alto, fiquei boquiaberto.

Sorri, era a primeira vez que ele me chamava de pai, então é essa a sensação. Shiryu comentou a respeito disso há algum tempo, mas não imaginei que ficaria tão encantado com uma simples palavra... e ele ainda tinha escolhido um momento um tanto curioso pra dizer aquilo.

─Miguel, meu filho... somos só você e eu agora. – eu disse triste, e finalmente a dor surgiu e eu chorei, o abracei e parece que minha dor passou pra ele também, pois ele começou a chorar também, mas não era escandaloso, as lagrimas simplesmente deslizavam por aquelas bochechas rosadas dele, sem nenhum som audível. Ficamos ali, sofrendo... eu a perdi, nós a perdemos.

...

Eu fiquei de licença por alguns dias depois da morte de Lilia, principalmente porque eu não andava tão produtivo quanto devia, então a direção do hospital me deu um tempo pra me estabilizar de novo.

Eu ficava em casa quase o tempo todo, minhas saídas pro mundo lá fora eram raras e dedicadas apenas pra abastecer minha vida caseira.

A única desvantagem desse sistema é que minha casa é um campo minado e eu nunca sabia quando pisaria numa lembrança latente de Lilia e teria minhas pernas arrancadas pela explosão.

Foi ai que aquela depressão começou.

O tempo ia passando e a solidão só ia aumentando, eu estava triste, melancólico, abatido, desanimado, enfraquecido, esgotado, eram coisas demais pra se sentir de uma só vez.

Mesmo depois e tanto tempo Lilia ainda estava presente por todo lado. O livro que ela estava lendo antes de adoecer ainda repousava sobre a mesinha de cabeceira do quarto.

No banheiro, o sutiã vermelho dela continuava pendurado na maçaneta da porta, sem duvida ela pretendia joga-lo no cesto de roupa suja, mas acabou se esquecendo, esse hábito dela de deixar tarefas domesticas triviais de molho por algum tempo e não cumprir antes da hora sempre me aborrecia, mas agora eu não me importava.

Eu sequer tinha mexido em nenhuma das coisas dela ainda, seus vestidos ainda estavam pendurados nos cabides do guarda-roupa, sua escova de dente ainda estava num copo no armário do banheiro, a escova de cabelo ainda cheia de cabelos loiros, o perfume e os cosméticos espalhados na bancada da pia, a blusa branca de seda jogada na cadeira junto a cama, seus vários pares de sapatos ainda estavam espalhados pelo quarto assim como ela os deixou.

Seus livros em uma pilha em cima da estante da sala, organizados do jeito dela, ou seja, de qualquer jeito, tenho certeza que ela fazia de proposito, só pra ficar me ouvindo reclamar e rir da minha cara, e só Deus sabe quanta saudades eu tenho de ouvir ela rindo.

Tudo ainda estava lá...

Quando eu via aquilo me lembrava do ultimo dia normal que tivemos antes dela ter outra recaída.

Eu tinha chegado do trabalho antes dela, Miguel brincava no quarto e eu deitei na cama pra descansar e fiquei assistindo o noticiário.

Quando ela chegou estava agitada como sempre... Lembro-me dela andando por aquele quarto, reclamando de como a mulher do caixa do supermercado se atreveu a esquecer seu troco, ou que tinha algum babaca dirigindo feito uma lesma na frente dela quando ela vinha pra casa, de ouvir ela rir de alguma piada ou comentário que Annia lhe disse no trabalho, dela tentar me contar a piada e falar rindo o tempo todo, eu não entendia nada, mas ela falava de uma forma tão engraçada e eu acabava rindo com ela.

Ouvi-la comentar que tinha se esquecido de comprar mais shampoo, ou qualquer outra coisa... ou que estava com preguiça de cozinhar, e dizer que estava com vontade de comer algo diferente, dando a entender que queria comer fora, mas eu estava cansado e não queria sair.

Ela insistia e eu me fingia de desentendido e continuava assistindo a TV do quarto, ela resmungava alguma coisa e ia pro chuveiro, quando ela voltava eu ainda estava deitado na cama assistindo algum comercial idiota sobre alguma loja de eletrodomésticos.

Eu fingia não ver quando ela vinha com aquela mínima toalha só pra me atiçar e vinha pra cima de mim, era o “jeito Lilia" de convencimento. Então eu acabava cedendo é claro.

Daí ela procurava alguma roupa no guarda-roupa e tirava de lá uma calça jeans e uma camiseta qualquer, o engraçado é que ela me mandava vestir o Miguel com o maior zelo, dizia que filho dela não andava mazelado, e que até mesmo eu tinha que andar apresentável, sendo que ela mesma era relaxada.

É claro que eu respondia que mulher minha não andava de qualquer jeito, ela revidava dizendo que só íamos ali na esquina, mas eu insistia mais ainda e aí era a vez de ela ceder, ela ficava linda em qualquer roupa que vestisse, mas eu tinha que ter minha vitorias nessa relação né.

Só que eu acabava perdendo de qualquer forma, porque ela levava quase uma hora pra escolher uma roupa, isso que dá eu ser teimoso.

Eu peguei o Miguel no quarto dele e voltei pro nosso pra vesti-lo e opinar nas escolhas dos vários vestidos que Lilia tirava do guarda-roupa.

Enquanto ela escolhia a roupa continuava falando o tempo todo, ela perguntava o que eu achava da saia que ela vestia, eu dizia que estava ótima, mas ela discordava dizendo que a saia deixava seu traseiro enorme, ou que a blusa a deixava gorda, e no fim minha opinião não servia de nada... afff, mulheres.

Fomos jantar num restaurante mexicano que ela escolheu, odeio comida apimentada, fui reclamando o caminho inteiro, ela não se importou, disse que da próxima vez eu escolheria... mas eu não sabia que não teria uma próxima vez.

Ela brincava com Miguel o tempo todo, e ele ria de qualquer coisa que ela fizesse... era relaxante estar com os dois ali, minha mulher e meu filho, ambos alegres e tranquilos.

Até que a comida não era tão apimentada assim, principalmente porque eu pedi sem pimenta, de inicio o garçom praticamente riu da minha cara por causa do pedido descabido, mas acabou fazendo do jeito que pedi... Foi uma ótima oportunidade pra Lilia rir da minha cara também, eu não importava se era de mim, eu adorava o bom humor dela.

O jantar correu normalmente, estávamos todos animados, uma típica noite em família.

Quando fomos pra casa que aconteceu, Lilia começou a passar mal no carro, eu imediatamente levei-a pro hospital, Miguel chorou muito naquele dia, acho que ele entendia perfeitamente o que estava acontecendo.

Lilia estava tendo outra recaída, saiu do hospital, mas retornou logo depois, e não saiu mais de lá... não com vida.

Percorro nosso quarto como um fantasma, com cuidado pra não destruir nenhuma das provas acidentais da sua existência.

Durante algum tempo eu sequer trocava os lençóis porque ainda guardavam o cheiro de Lilia. O cheiro sumiu depois de um tempo. A gente se apega desesperadamente a cada lembrança, e então as próprias lembranças envelhecem e desvirtuam.

Ainda assim doeu muito trocar a roupa de cama, foi mais uma maneira de deslocar Lilia para o passado, mais um passo me levando a cruzar a inevitável fronteira, por isso não consigo me forçar a fazer uma arrumação, pois cada mínima coisa que retiro ou limpo é mais um vestígio dela que irremediavelmente era apagado. Meu desejo era estabelecer um perímetro com barras de metal e cordões de isolamento, como se faz em mansões históricas pra impedir que os turistas perturbem o passado.

No entanto, por pior que fosse ficar naquela casa, insistentemente eu permanecia nela. Porque a dor é meu ultimo vinculo com Lilia, e por mais forte que seja, eu me abrigo nela como num cobertor, porque eu tinha a necessidade de sentir alguma coisa. Não estou pronto ainda pra deixar o tempo cicatrizar minhas feridas, mas também sei que sou impotente pra detê-lo. E o fato de compreender isso me leva a lutar ainda mais pra me agarrar a dor e me ancorar a essa tragédia enquanto ela ainda está fresca.

Sei que o tempo vai levar minhas lembranças, e quando esse dia finalmente chegar, quando o tempo inevitavelmente acabar ganhando de mim, serei obrigado a aceitar que Lilia se foi pra sempre.

Às vezes a única verdade com que podemos lidar é aquela com que acordamos todas as manhãs, e a realidade que eu conhecia naquele momento era que a dor ainda persistia, e eu não queria que ela fosse embora, por hora a dor é a única coisa que me dá certeza que Lilia existiu e que fomos felizes juntos.

Depois de um tempo eu voltei ao trabalho e passei a contratar babás pra ficarem com o Miguel.

Mas eu não estava recuperado, não chegava nem perto disso.

Nem preciso dizer que essa dor me cegou pra tudo em volta, eu não me importava mais com nada, fiquei irresponsável e inconsequente.

Certa vez, eu estava desorientado dirigindo bêbado feito louco, e graças a Deus era numa rua vazia, o fato de ser um cavaleiro e ter tido todo aquele árduo treinamento me possibilitaram desenvolver meus reflexos e resistência de tal forma que o álcool ainda não fazia os efeitos que em uma pessoa normal resultaria em um coma alcoólico.

Então eu ainda estava de certa forma são, mas ainda assim eu tinha toda minha depressão, melancolia e aquele vazio tremendo que não me deixava pensar racionalmente.

Pela primeira vez desde a morte de Lilia me deixei cair em prantos, as lagrimas escorriam abundantemente pelo meu rosto, era deprimente minha situação, me sentia uma criança pedindo colo, um caso perdido de drama exagerado, era o que as pessoas pensavam, sei disso.

Já tinha uns sete meses desde que Lilia se fora, e pra todos em volta aquele era o prazo de validade do luto.

Eu ficava puto da vida com isso, desculpem o palavreado, mas é nesse estado que estou ultimamente. Afinal fui eu que estive ao lado de Lilia o tempo todo, fui eu que a vi definhar, vi a pessoa que amo tendo várias sessões torturantes de quimioterapia, sofrer e chorar por tudo, houve muitos momentos que ela quis desistir, e fui eu que tentei lhe dar forças pra continuar.

Fui eu que tive tantos meses de angustia, que não dormia mais por estar preocupado e em vigília o tempo todo, e tudo isso pra quê? Agora ela estava morta e todos os meus esforços foram em vão e que sobrou pra mim foi só a dor.

Eu simplesmente não tolerava mais que me viessem com esse papo que eu tinha que superar tudo aquilo e seguir em frente.

Como se fosse possível esquecer toda aquela dor em alguns meros meses, não dá pra simplesmente esquecer alguém.

As pessoas sentiam pena, e eu odiava aquilo, o fato de ter perdido minha mulher não significa que eu estivesse interessado em adquirir uma indicação ao Oscar de maior representação de drama e lamentação, eu só queria ficar sozinho e sofrer em paz, odiava ter que dar explicações sobre meu estado emocional. Aquelas perguntas do tipo: "Como você vai indo?", "Sente-se melhor?", "Posso fazer alguma coisa por você?".

Eu ia acabar enlouquecendo com aquilo. Não, eu não estava bem, eu não me sinto melhor, e se você tiver o poder de reviver minha esposa tudo bem, você pode sim fazer isso por mim, mas do contrario não me venha com perguntas idiotas como essa, porque só tendo a Lilia de volta pra eu voltar a ser como eu era.

Perdi alguma coisa quando Lilia morreu. Não sei direito como chamar isso, mas trata-se do mecanismo que nos impede de dizer a verdade quando alguém nos pergunta como estamos, aquela válvula vital que mantem as nossas emoções mais profundas e genuínas debaixo de tranca e cadeado. Não sei exatamente quando perdi essa capacidade, ou como poderia recupera-la, mas por enquanto, no que diz respeito a tato, civilidade e discrição, sou um acidente prestes a acontecer, vez após vez.

Socialmente, isso me transformava numa espécie de perigo ambulante.

Noutro dia quando eu estava no balcão da farmácia, reforçando meu estoque de comprimidos pra dormir, que eu apesar de ser médico não podia assinar minhas próprias receitas então eu frequentemente pedia ao meu amigo Adam do hospital que as assinasse pra mim, quando esbarrei numa amiga de Lilia do hospital que trabalhávamos, melhor amiga pra dizer a verdade, era Annia.

─Oi Alexei. – disse ela se aproximando. ─Eu ia ligar pra você. Como você está?

Eu conheço o roteiro, era sempre assim, até decorei minhas falas. Espera-se que eu diga que estou bem, que vou levando, ou que alguns dias são melhores que outros, ou que, na medida do possível, vou indo. Obrigado pela preocupação, mas não se incomode comigo... eu já tinha essas frases decoradas e prontas pra confortar a consciência de quem se aproximasse com clemencia as minhas lamentações.

Juro que abri a boca pra dizer algo do gênero, mas minha tolerância estava no limite assim como minha calma, eu não aguentei mais e surtei, não soube exatamente o que houve comigo e o porquê de eu não ter soltado minhas frases prontas, eu simplesmente me aborreci e descontei minha frustração e raiva nela. Balancei o vidro cor de laranja de comprimidos na minha mão.

─Tomo estas merdas de comprimidos pra dormir e mesmo assim não consigo dormir, por isso encho a cara de vodka e depois tenho pesadelos dos quais não consigo acordar porque as merdas dos comprimidos não deixam, e quando finalmente acordo estou mais cansado do que antes e, na verdade, nem quero acordar, porque quando acordo só faço pensar em Lilia e quero dormir de novo, e assim tem sido a droga dos meu dias, é assim que eu vou indo. E você Annia, vai bem?

Pobre garota, ela ficou perplexa com minha atitude, logo eu que nunca demostrei nenhum sentimento exaltado com ela nem com ninguém, que sempre fui à calmaria e a voz da razão em pessoa. Ela ficou aflita olhando pros lados, procurando uma maneira de fugir de mim e de minhas grosserias, eu suspirei lamentando por ter sido rude, mas não totalmente arrependido.

Murmurei um baixo desculpe e me retirei, com certeza ela ficou aliviada em se ver livre de mim.

As pessoas são assim mesmo, te veem e sentem pena, mas não se preocupam de fato, é só um sentimento momentâneo, na verdade elas querem que você mostre uma felicidade que na verdade você não tem, que mostrem recuperação, mesmo sabendo que não vai ser fácil, querem apenas se sentir seguras que você vai ficar bem e com a consciência leve pra poder dormir tranquilamente a noite e não ter que se preocupar com o amigo viúvo e depressivo.

Acho que soei muito amargo, mas foi isso que me tornei.

De volta à estrada eu ainda estava desorientado, outro carro veio em minha direção e só ai que eu percebi que seguia na contramão, felizmente consegui desviar a tempo, o sujeito seguiu também me xingado de seja lá o que for, de imbecil barbeiro eu acho, mas eu não ligava e acredito que eu seja mesmo, na situação atual sim, então preferi não discutir.

Parei no acostamento nauseado, suspirei cansado e encostei a cabeça no volante, porque aquela dor não passava? Porque Lilia me deixou? Aquilo tinha mesmo que acontecer? Era o destino? Pro inferno com essa merda de destino, quem disse que eu não podia controlar minha própria vida? O destino quis que Lilia morresse? Então todos os meus esforços realmente foram em vão? Então porque ninguem me disse isso antes? Porque eu tinha que passar por tudo isso se Lilia sempre esteve destinada a morrer? O que diabos eu fiz pra merecer isso? Um antepassado meu deve tar tacado pedra na cruz provavelmente. Eu não estava só triste, eu estava revoltado.

Eu não queria acreditar, nem por um milésimo de segundo que eu fiquei sem ela, que nunca mais a veria ao meu lado de manhã, nem seu sorriso, nem ouvir sua voz, ela se foi, se foi pra sempre, e aquilo doía muito, era pior do que tudo que senti em todas as lutas que travei.

Eu sentia raiva dela por ter me deixado, por ter me feito ama-la tanto, mas depois sentia raiva de mim mesmo por ter sentido raiva dela, depois sentia raiva de mim de novo por ter sentido raiva antes, era uma confusão, a única coisa certa era que eu sentia raiva, e no fundo eu sabia que realmente era raiva de mim por não ter conseguido salva-la da doença.

Uma náusea e uma ânsia terrível passou-se por mim, um mal estar tremendo e em poucos segundos desci do carro e comecei a vomitar, todo o efeito do álcool estava finalmente aparecendo, eu não conseguia parar de vomitar, o pior é que acho que já tinha uns dois dias que eu não comia nada, estava apenas na base da bebida, meu estomago estava vazio e aquilo não passava, parecia que iam sair até as tripas do meu corpo.

Tão rápido quanto veio aquela sensação passou, restou apenas o torpor, e estomago doendo, a dor de cabeça, a fraqueza, ou seja, eu estava só o bagaço.

Voltei pro carro cambaleando, entrei e sentei na marra, meu celular tocou e eu ainda levei um tempo pra achar ele no meu bolso, quando atendi era minha sogra.

─Onde diabos você está Alexei? — perguntou nervosa e enfurecida.

─Hã? Senhora Poznanski?

─Sim, sou eu Alexei, Sasha me ligou ainda a pouco desesperada perguntando por você, tem ideia de que horas são? — Sasha era a babá que arranjei pro Miguel naquela noite, uma garota de uns dezesseis anos, alegre e disposta... pobre garota, esperançosa que a vida fosse um conto de fadas, ela mal sabe as decepções que a vida lhe reserva.

─Não tenho nem ideia da hora... E já estou indo pra casa, e porque ela não ligou pro meu celular?

─Céus Alexei, já são quase meia noite, e Sasha disse que ligou pra você diversas vezes e sempre caia na caixa de mensagem.

─É mesmo? — eu disse inda tonto.

─Você está bêbado Alexei? — ela perguntou com uma voz surpresa e censurada.

─Bêbado? Que isso, imagine.

─Não minta pra mim Alexei, eu te conheço muito bem. — realmente ela me conhecia, me tratava como um filho e eu a considerava como uma mãe também então era natural que ela me conhecesse tão bem.

─Está bem, estou um pouco bêbado sim.

─Por Deus, nem pense em ir horripilante pra casa desse jeito que vai acabar assustando a pobre Sasha, quer saber, estou indo pra sua casa agora mesmo.

─Não é necessário senhora Poznanski.

─Fique quieto Alexei, quando eu chegar lá acho bom que você já esteja na porta entendeu? — desligou sem dar tempo de eu responder, bom, então é melhor eu me apressar, com sogra não se brinca, reuni forças e me dirigi pra casa.

Por sorte quando cheguei em casa ela estava acabando de estacionar, tomara que não me puna por esses segundos de atraso.

Ela desceu e ficou irritada me olhando descer do carro, como um maltrapilho.

─Oi senhora Poznanski. — eu disse com a cara mais lavada do mundo.

─Não me venha com ‘oi’ Alexei... Não acredito que esteja nessas condições. E que cheiro horrível é esse?

─Por favor, Irina, a auto piedade já me é o suficiente, me poupe de mais sermões. — eu disse ainda mostrando minha tolerância e respeito o máximo que eu podia, é claro que eu sabia que estava um horror, e não preciso de ninguém pra me confirmar isso.

Ela só me olhou e balançou a cabeça desapontada.

Fui pra porta e minha sogra me seguiu. Abri a porta com muita dificuldade principalmente por que não consegui encaixar a chave na fechadura.

Sasha estava deitada no sofá cochilando, e Miguel ainda estava acordado e a todo vapor brincando tranquilamente no tapete da sala.

Assim que ele me viu correu pra mim, tem sido assim desde que Lilia se foi.

─Agora não Miguel. — eu disse sem paciência, não é culpa dele, afinal ele é só mais uma vitima de tudo isso, mas eu não podia pegar meu filho com aquele cheiro fortíssimo de bebida.

─Papa. — disse choroso.

Ele me olhou com aqueles olhinhos parecidos com os meus, tristonho e querendo chorar. Eu quase o peguei no colo, mas resisti bravamente, esse garoto tem um poder incrível de persuasão, é só mostrar aqueles olhos que qualquer um se derrete, mas eu sou o pai dele, então de certa forma eu criei um nível de imunidade a toda àquela fofura e meiguice dele.

Sentei-me na poltrona suspirando e fiquei vendo minha sogra pegar Miguel no colo e foi tentar acordar Sasha.

─Sasha... Sasha querida, vamos acorde.

Ela acordou aos poucos, mas que coisa heim, eu pago a garota pra ficar dormindo, se bem que o horário dela já tinha passado faz tempo. Ela acordou de vez quando viu minha sogra e levou outro susto quando me viu sentado na poltrona.

─Senhor Yukida, senhora Poznanski... E-eu, desculpe ter dormido é que já é tarde e o Miguel não queria ir dormir de jeito nenhum, então...

─Calma Sasha, já é tarde mesmo, vou leva-la em casa porque Alexei não está em condições. — disse me direcionando um olhar assassino.

Tirei minha carteira e entreguei o dinheiro da garota.

─Aqui Sasha, desculpe a demora. — entreguei o dinheiro pra ela, acho que ela ficou com medo de pegar por causa da minha cara fechada.

─Obrigada senhor Yukida. — disse pegando o dinheiro rapidamente pra evitar mais contato comigo. E não era pra menos, eu estava com o cabelo desgrenhado, olhos inchados e vermelhos de tanto chorar, a barba por fazer, a roupa toda amassada e com aquele cheiro terrível de álcool, e ainda por cima estava com uma cara séria e carrancuda por causa da dor de cabeça, tenho que admitir que não era um dos meus melhores dias, já fazia um tempo que eu não me importava com minha aparência, pra ser mais franco eu não me importava mais com nada ultimamente.

─Vou leva-la em casa e quando eu voltar vamos ter uma conversa bastante séria entendeu Alexei? — disse séria.

Só dei um aceno pra ela, eu já sabia que levaria a bronca do século, então é melhor nem discutir senão ia ser pior.

Minha sogra se retirou, eu me sentia mal em ter que faze-la passar por aquilo, ela também estava triste, mas do contrario de mim não entrou numa depressão autodestrutiva.

Miguel ficou me olhando com a mãozinha na boca, estranhando o pai naquele estado deplorável, sim Miguel, esse é seu pai fracassado e triste, mas não conte pros seus amigos do parquinho viu.

Deixei-o lá e fui tomar um banho pra tirar aquele cheiro terrível.

Demorei bastante tempo ali, mas felizmente o cheiro saiu, fui pro meu armário no banheiro e retirei de lá uns analgésicos, quem sabe aquela dor de cabeça me dava uma trégua por um tempo, quando fechei o armário vi meu reflexo embaçado no espelho, suspirei antes de passar um pano pra ver minha imagem nítida e deplorável, e quando o fiz não fiquei tão surpreso, eu já sabia o meu estado e sem duvidas aquele não era eu, minha imagem não chegava nem perto do que já fui um dia, o que está acontecendo com você Hyoga? O que houve com o poderoso cavaleiro de Cisne? O homem frio, e insensível de antes? Sem duvidas mestre Camus ficaria decepcionado comigo.

Fui domado por uma mulher que me deu toda a felicidade que eu precisava e sem mais nem menos isso foi arrancado de mim, como uma arvore que tem seus galhos e tronco arrancados, mas que a raiz ainda permanece submersa pra sentir a dor.

Eu odiava Lilia por ter me feito provar um pouco da felicidade e depois ter levado aquela alegria de mim e levado para o tumulo junto com ela, seria melhor me deixar sem nunca ter sentido o gosto daquilo, eu me viciei de tal forma que acredito que nunca mais poderei provar um sentimento parecido... Bom, é melhor parar, senão ficarei o restante da noite me martirizando.

Vesti umas roupas e voltei pra sala pra junto de Miguel e sentei no sofá olhando pra ele brincando.

Não demorou muito e minha sogra retornou, ela entrou séria e bateu a porta como pra dizer que a sentença já ia começar.

Eu sequer a olhei, minha vergonha me impossibilitavam disso.

Ela sentou-se na poltrona ao meu lado e me olhou fixamente, não deu atenção nem mesmo ao Miguel quando ele chegou pra lhe pedir colo.

─Agora não querido. — disse afastando ele.

─O que está acontecendo com você Alexei? — ela perguntou depois de um tempo num silencio penoso.

─A senhora já sabe, não preciso detalhar minha desgraça.

─Por Deus Alexei, o que acha que Lilia pensaria se te visse nesse estado?

─Provavelmente ficaria envergonhada. – eu disse com um fio de voz.

─Sim, ela estaria envergonhada, o que houve com aquele homem responsável, maduro e sensato que eu conhecia? Você não está trabalhando direito, eu sei por que Ana me contou o que está acontecendo... Enche a cara nos bares e chega extremamente tarde e deixa as babás desesperadas te esperando, e por Deus o que houve com essa casa? Está um caos, o Alexei que eu conhecia era sempre limpo e organizado, isso aqui parece chiqueiro, fora que sua aparência é lastimável, está com olheiras profundas, não anda dormindo?

─Não.

Ela me olhou resignada e suspirou com preocupação.

─Eu sei que é doloroso Alexei, ainda dói muito em mim também, era minha filha, minha única filha... Sinto muita falta dela... eu sei que deve ser terrível pra você, mas já se passaram oito meses Alexei, ela não vai voltar e você vai ter que se conformar, não adianta ficar de luto pra sempre, tem que seguir em frente, você não está sozinho, você tem a mim, tem seus amigos, e principalmente, você tem o Miguel, seu filho, veja que dádiva Lilia te deixou, não pode continuar a ignorar o fato de que você tem um filho agora, ele precisa de você, sóbrio e responsável como sempre foi, ele precisa do pai, precisa de você Alexei.

Eu finalmente a olhei, mas não consegui encara-la por muito tempo, as lagrimas voltaram a cair, eu simplesmente não conseguia conte-las.

─Eu sei que ela não vai voltar, e é isso que dói mais... Tenho a impressão que a qualquer minuto ela vai passar por aquela porta e vir até mim, dizer que tudo vai ficar bem, mas eu sei que isso nunca vai acontecer... Sinto tanta falta dela, tanta... Às vezes eu sonho com ela, sonhos maravilhosos, lembranças do quanto fomos felizes, mas daí eu acordava e via que tudo não passou de uma ilusão, que ela não estava mais adormecida ao meu lado e que eu não a veria pela manhã, depois tento voltar a dormir, mas eu não consigo, me mexo na cama, ando pela casa onde tudo ainda faz lembrar ela, então eu olho pro Miguel adormecido e vejo ela, é terrível, só consigo dormir depois de grandes doses de álcool ou algum remédio pra dormir, mas daí eu começo a ter pesadelos terríveis com ela definhando, dos quais eu não consigo acordar por causa dos remédios e fico preso naquelas cenas horrendas... Acordo atordoado e em cima da hora do trabalho e acabo chegando atrasado, não consigo me concentrar porque penso em Lilia o tempo todo, mas eu não quero pensar, só que no final do dia eu quero pensar, e vou beber pra que eu consiga me lembrar só dos momentos bons, mas aí eu lembro que não adianta de nada e eu só me recordo dela definhando, sofrendo a cada dia que ainda tentamos salva-la, e sei que o dia seguinte vai ser igual, e que vou ter que enfrentar o mundo e as pessoas lá fora de novo, que a dor não vai embora e que eu nunca mais vou ter minha mulher de volta... Eu não consigo viver sem ela, ela era minha amiga, minha conselheira, minha amante... Meu amor. Ela era minha vida... Quando ela se foi levou uma parte de mim junto, sem a qual eu não consigo viver... eu não consigo. – eu desabafei com lagrimas abundantes, nunca me senti tão ridículo.

A senhora Poznanski olhou-me triste, com as lagrimas caindo também, só não sei se era por Lilia ou por mim.

─Vai viver, você vai ver que consegue... Ainda é muito recente, mas a dor vai passar algum dia, vai ficar mais tolerável e algum dia não vai passar de uma cicatriz... Você ainda é jovem Alexei, vai superar essa perda e vai encontrar outro amor, sei que vai.

─É difícil.

─Sei que é, ninguém disse que seria fácil. Lilia era maravilhosa, mas você também é, e merece a felicidade, você vai conhecer outra mulher linda e tão boa quanto Lilia, e vão os dois criar essa criança maravilhosa, vão criar juntos o Miguel e ainda terão outros filhos maravilhosos também... Eu torço por você, torço que dê tudo certo, você deu os anos mais felizes a minha filha, nunca a vi tão realizada e feliz em ter você com ela... Lilia te amava muito Alexei, e sei que ela se foi ainda querendo que você fosse feliz, que vocês dois fossem felizes.

Eu a olhei com as lagrimas ainda caindo, só que em menor proporção.

Olhei pra Miguel que brincava despreocupado no chão. Eu queria ter aquela mente infantil de novo pra não me preocupar tanto com o que se passava.

─Eu nunca irei encontrar alguém tão boa quanto a Lilia, muito menos uma mãe igual a ela.

─Existe um mundo inteiro pra explorar Alexei, sei que tem alguma mulher lá fora que te mereça.

Eu a olhei descrente. Ficamos novamente naquele silencio tenso até ela se pronunciar novamente.

─Olha Alexei... – ela ficou relutante. ─Andrey sabe o que está acontecendo também... ele entende, mas ele acha que no momento você não está apto a cuidar do Miguel, não nas condições que segue sua vida... ele... ele quer tirar o Miguel de você. – ela finalmente soltou a bomba.

─O QUÊ? – eu disse exaltado, era só o que me faltava, entrar numa briga judicial pela guarda do meu próprio filho, não sei se ela disse aquilo só pra me assustar pra que eu caia na real ou se era pra valer.

─Calma, eu sei que parece absurdo, mas você tem que admitir que o modo como anda vivendo não faz bem nem a você e nem ao Miguel, você tem todo direito de requerer seu direito de pai, mas nós nos preocupamos com o Miguel também e sabemos que você não tem dado a devida atenção pra ele ultimamente.

Eu realmente estava relapso, minhas atitudes estavam sendo negligentes tanto que a agencia de babas sequer atendia mais minhas ligações, Miguel já tinha trocado e babá várias vezes, primeiramente porque ele não tolerava nenhuma delas e aprontava o máximo que podia pra se livrar delas, já naquela idade ele sabia perfeitamente como atormentar as babas, nem sei onde ele aprendeu isso e nem o que fazer, mas a culpa é minha já que minha primeira atitude desde que ele se livrou da primeira babá seria a de disciplinar Miguel, mas eu estava ocupado demais sentindo pena de mim mesmo... fora que as agencias tem medo que eu chegue bêbado a noite e agrida alguma garota, é claro que eu nunca faria isso, mesmo que estivesse possuído pelo demônio, mas era o que pensavam, e agora mal atendiam minhas ligações, já foi com grande esforço que consegui Sasha.

─Olha Irina, eu sei que tenho sido uma droga de pai, mas isso é passageiro, Miguel é tudo que tenho, ele é muito importante pra mim.

─Então comece a demostrar esse amor paterno, acha que é o único que sofre? Porque acha que o Miguel é intolerante com tantas babás? Ele sente falta da mãe, Sasha disse que ele pergunta por ela o tempo todo.

─Sei disso. – eu disse suspirando.

─Aposto que não sabe de outra coisa. – ela disse mais seriamente ainda.

─O quê?

─Ele pergunta por você.

─Hã?

─Sim Alexei, o Miguel pergunta por você o tempo todo, Sasha disse que ultimamente ele tem perguntado e pedindo mais por você do que por Lilia. – ela disse séria e eu olhei pro Miguel que ainda brincava tranquilamente na nossa frente.

─Ele perdeu só a mãe Alexei, mas parece que ele perdeu você também... mostre que ainda está aqui, que ainda é o pai dele e haja como um, mostre todo esse amor que você diz sentir por ele... ele sente sua falta, não morra também.

Eu baixei a cabeça envergonhado, que espécie de pai eu estava me tornando? Miguel sentia falta da mãe, mas ele só tinha perdido ela, pois eu ainda estava ali, embora fosse apenas a sombra do que fui um dia, mas que ainda podia me recuperar alguma forma... eu sou o pai dele, eu tenho um filho, um filho que precisa do pai, que precisa de mim... eu tentava processar aquilo como se estivesse absorvendo uma informação nova quando na verdade eu sempre soube mas que estava ignorando ao máximo ultimamente.

─Sou mesmo uma droga de pai... Eu lamento – eu disse quase surdamente.

─Lamente o suficiente pra voltar a ser o Alexei de antes, que eu admirava e que o Miguel precisa. Volte a ser feliz Alexei, ao menos tente, faça pelo Miguel.

─Obrigada Irina, prometo que daqui pra frente vou melhorar.

─Fala sério? Agora é pra valer? Porque você já me prometeu isso antes. – ela disse descrente.

─Sim, dessa vez é sério, não posso correr o risco de perder meu filho também, ele só tem a mim, e eu a ele... não posso abandona-lo... eu o amo tanto quando amei Lilia.

─Isso é ótimo Alexei, espero que daqui pra frente você melhore seu comportamento, e espero que não tenha que tomar a guarda de meu neto, faça jus ao seu lugar de pai.

─Farei isso, desculpe por toda preocupação que tenho lhe causado Irina... sinto muito mesmo.

─Não se preocupe com isso filho, estou aqui pra tudo que precisar, e Andrey também... Sabemos que está passando por uma fase difícil, que precisa de ajuda, mas não se esqueça de que não está sozinho, como eu disse, você tem a mim, seus amigos, e o Miguel, não se isole mais, nem procure solução no álcool que isso não resolve nada.

─É, vou parar de beber também... sei que não leva a nada, mas é como uma maneira de anestesiar a dor no meu coração.

─Eu entendo... mas é errado, e você sabe.

─Vou parar... eu prometo.

─Acredito em você. – ela disse sorrindo e segurando minhas mãos, eu a olhei e sorri de volta, era realmente uma boa mulher.

─Tudo bem... eu já vou indo, é tarde... e coloque Miguel pra dormir, isso não é hora de criança ficar acordada. – disse e se levantou.

Irina despediu-se de Miguel e nos deixou.

Suspirei, até que ponto cheguei, não acredito que Andrey e ela pensaram em tirar Miguel de mim, tá certo que eu não vou ganhar o premio de melhor pai do ano, mas não precisavam chegar a tanto.

Suspirei colocando as mãos no rosto, foi quando senti algo tocando meu joelho, olhei e era a mãozinha de Miguel, ele me olhava com aqueles grandes e expressivos olhos, como os de Lilia, mas de um azul claro como os meus, ele era a imagem dela, a pele rosada como a dela e não pálida como a minha, os cabelos com um loiro mais escuro do que os meus, e aquele rostinho angelical também igual à Lilia, sempre achei que ele era a imagem dela, e que os olhos eram a única coisa que ele herdou de mim, mas depois de prestar mais atenção percebi que todo o resto se equiparava a mim, algumas características gerais não negavam que ele era meu filho, realmente éramos parecidos, muitas pessoas diziam isso, mas eu nunca esbati nenhuma concordância, não sei se era o que eu queria ver naquele momento, éramos parecidos, literalmente.

Acho que foi bom Irina ter me dito aquilo, tenho que valorizar o que eu ainda tenho, eu ainda tenho o Miguel, ele pode ter perdido a mãe assim como eu, mas ainda teria um pai e não ia se tornar uma pessoa fria e ressentida como eu fui por tantos anos, já era hora de tomar as rédeas da situação e começar a agir como o antigo Hyoga, responsável e maduro que sempre fui, agora só resta achar ele nesse bagaço que sobrou de mim.

Miguel continuava me olhando sem emitir nenhum som, só me olhava, assim como Lilia fazia, não sei o que aconteceu, mas ele sorriu, céus o que foi aquilo? Ele nunca sorriu pra mim, só pra Lilia, era estranho e me assustou, não sei o que aquilo significou, mas parecia uma mensagem, uma forma de confirmar que ele ainda estava ali, que eu ainda tinha um filho que dependia de mim, embora fosse apenas uma criança ele parecia entender tudo o que se passava, não sei se foi isso que eu quis interpretar, mas ele parecia dizer que tudo ia ficar bem.

Peguei-o no colo e fiquei o olhando, quer dizer que ele sentia minha falta é?

Ele nunca sentiu, sequer me chamou uma única vez quando Lilia estava conosco, ele sempre preferiu ela, quando eu o pegava no colo ele chorava, esperneava e voltava pra Lilia, mas bastava ter um sorvete que ele vinha pra mim, só assim pra que ele quisesse ficar comigo, isso me magoava afinal sou o pai dele, queria que ele gostasse de mim também, mas acabei me acostumando, se fosse eu também iria preferir ficar com minha mãe... com o tempo ele gostou mais de mim, o suficiente pra me tolerar, mas nunca foi muito carinhoso.

Quando Lilia morreu ele perguntou por ela todos os dias, eu mal suportava o choro dele, do jeito que ele era apegado a ela era natural que ele sentisse muita falta, eu deveria tê-lo acolhido, devia ter me preocupado mais com ele ou ao menos tentar suprir a falta da mãe, mas eu não fiz isso, realmente eu estava relapso e mesmo que eu não me aproximasse tanto quando Lilia estava conosco agora eu estava pior, nem me lembro da ultima vez que o abracei nos últimos meses, eu só queria me afastar pra não ouvi-lo pedir por ela, Deus sabe o quanto eu queria atender ao pedido dele, mas eu não podia, pois eu também pedia por ela, mas do contrario dele eu sabia que ela não voltaria.

Ele é só uma criança, não iria entender que eu não posso trazer a mãe dele de volta. Mas isso não justifica meu afastamento, eu sempre estive presente mesmo que pouco afetuoso, mas ele já tinha se acostumado com minha presença de uma forma ou outra, mas nos últimos meses eu me afastei tão drasticamente que ele acabou notando, e por incrível que pareça ele sentia minha falta também... nada como a morte de um ente querido pra unir as pessoas.

Não se preocupe filho, eu estou de volta, vou tentar voltar a ser o antigo Hyoga, mas não totalmente, vou tentar ser mais carinhoso, mais amável, mais presente... vou tomar meu papel de pai.

Eu o abracei e ele me abraçou também, ele era quentinho, fofo, e adorável, como pude me afastar tanto desse anjo? Do meu anjo... eu amei muito sua mãe filho, mas te amo muito também, apesar de eu não ter demostrado isso ultimamente e sinto muito por isso, muito mesmo, espero que me perdoe... E agora vou disponibilizar todo o amor e afeto que eu tenho me recusado a lhe dar nos últimos meses, vou fazer tudo que for preciso pra fazê-lo feliz.

Ele se aninhava em mim e eu beijei sua testa, e pela primeira vez ele dormiu nos meus braços... eu não tinha percebido ainda, mas eu também senti muita falta dele.

Eu te amo meu filho.

...

Conforme prometi eu mudei minhas atitudes, me tornei mais presente na vida do Miguel e com o tempo nós nos aproximávamos cada vez mais, ele passou a ser mais carinhoso comigo e eu com ele.

Minha primeira mudança foi a de apagar os vestígios da existência de Lilia, dou uma olhada em tudo em volta do nosso quarto e aquela dor latejante retorna ao meu peito, o vazio pesado enche meu estômago, mas não vou chorar. Fecho meus olhos e vejo novamente Lilia desfilando pelo nosso quarto, com seu jeito leve e despreocupado, me contando seu dia, dizendo coisas engraçadas ou comentando uma coisa ou outra que ouviu por fora, a dor da perda vem de novo a tona e remexe minhas entranhas, mas não choro, fiz uma promessa e vou cumpri-la, faço isso pelo Miguel.

Ele estava na sala, murmurava coisas, ria e eu ouvia o barulho de brinquedos caindo ou sendo remexidos, dou um ultimo suspiro e começo a recolher tudo que pertencia a Lilia e a guardar num local especifico e especial, eu tinha que deixar de viver no passado.

Dediquei-me mais ao trabalho e todos pareciam satisfeitos com minha mudança, inclusive meus sogros que mudaram de ideia em tentar tirar meu filho de mim, ainda mais porque eu não ia deixar de jeito nenhum.

Voltei a ser organizado e sistemático, só que mais sério e calado do que eu era... o que posso fazer se eu ainda pensava em Lilia o tempo todo?

Só que eu aprendi a suportar a dor, aprendi a lidar com ela e não deixar que ela me transformasse de novo naquela criatura horrível que eu estava me tornando.

Passado alguns meses e eu já estava um pouco melhor, digamos que eu voltei a ser eu mesmo, em parte, porem todo aquele lugar ainda me fazia lembrar-me dela, às vezes eu tinha meus momentos de fraqueza, passava a olhar as fotos de nós juntos e novamente aquela dor voltava, não sei como, mas Miguel sempre me salvava de cair na desgraça de novo, aquele garoto tinha um poder incrível sobre mim, eu não podia voltar a me afastar dele, eu fazia tudo por ele, agora eu vivia por ele, não posso dizer que eu estava feliz, mas sim que tentava continuar vivendo, vivendo por ele.

Passou-se mais uns meses desde minha mudança de comportamento, eu sabia que quando fizesse um ano da morte de Lilia eu teria que juntar todas as minha forças pra não desmoronar de novo, não queria passar por aquilo de novo, eu tinha que superar aquela dor definitivamente e continuar mergulhado naquele lugar onde tudo ainda me fazia lembrar dela não ia ajudar em nada e poderia acabar me matando, então tomei uma decisão.

Liguei pro doutor Asamori Hakase da fundação Graad, ele era o médico chefe da fundação e eu passei a ter bastante contato com ele a distancia quando decidi fazer medicina, ele me auxiliava e passou a ser meu professor também, era uma boa pessoa, fora que ele nos conhecia o suficiente pra saber por tudo que passamos no período das grandes batalhas, foi ele que sempre cuidou de todos nós quando voltávamos estropiados das lutas, então eu o considerava um grande amigo e muito mais, um mestre.

Pedi a ele que me indicasse algum hospital no Japão pra trabalhar, sim eu ia voltar...era uma mudança drástica demais pro Miguel, mas eu precisava fazer isso, não só por ele que ainda perguntava muito pela mãe, mas por mim também, nós nunca iriamos superar a perda dela se ainda continuássemos mergulhados ali e naquela situação, com o tempo ele iria entender.

Quem sabe se eu voltasse a conviver com meus amigos e mudasse de ambiente, aos poucos eu finalmente pudesse seguir com minha vida.

É claro que eu não iria querer trabalhar na fundação, o doutor Asamori sempre me garantiu um lugar ali com um cargo bastante promissor e eu tenho certeza que teria todo o apoio de Saori e Shiryu, ainda mais porque eu sempre fui o melhor médico cirurgião do hospital onde eu trabalhava, modéstia parte, apesar das minhas falhas nos últimos meses, mas que eram compreendidas por eu estar passando por uma fase difícil, mas eu não queria trabalhar pra Saori, pois iria parecer que eu estava me aproveitando do mérito de ser amigo da dona da fundação, não que eu me importasse com a opinião das pessoas, longe disso, mas eu queria ser um modelo de pai pro Miguel, e era bom começar desde cedo.

Doutor Asamori me indicou pra vários hospitais de lá, alguns até melhores que outros, e eu lhe pedi que não mencionasse minha relação com a dona da fundação Graad e que valesse apenas meu currículo e minha experiência, fiquei muito feliz em ter sido aceito em todos eles, ter me formado com louvor na Academia Médica de Moscou I. M. Sechenov, a melhor universidade de Moscou, me dava alguns pontos, e isso melhorava um pouco meu ego profissional.

Escolhi o hospital não pela melhor proposta, mas sim pela melhor localização, pra mim e pro Miguel. Assim que confirmei minha integração tratei de organizar minha mudança.

De inicio meus sogros não viram de bom grado minha decisão, mas no fim decidiram que era mesmo o melhor a se fazer, depois de longos abraços e lagrimas pra se despedir de mim e do Miguel eles nos liberaram, me despedi de meus amigos no hospital de Moscou com os quais formei grandes laços de amizade, vou sentir falta deles, assim como senti falta de meus amigos no Japão, mas já era hora de voltar.

Contatei Saori sobre meu retorno, ela sempre acompanhou toda a minha vida a distancia, era pra ela que eu sempre contei tudo que estava acontecendo e ela nunca faltou com apoio e palavras amigas, frequentemente ela me informava tudo que estava acontecendo por lá também.

Não digo que não tive mais contato com nenhum dos meus outros amigos, afinal Camus, Millo e Isaak sempre estiveram presentes em minha vida, inclusive estavam lá no dia do meu casamento e no nascimento de Miguel, até Lilia chegou a conhecê-los muito bem, eles vinham vezes ou outras me visitar e dar forças quando ela ainda estava doente, estiveram lá no velório dela e me deram todo o apoio que precisei, nem preciso mencionar que broncas não faltaram quando eu mergulhei naquela depressão.

Shiryu era outro amigo que sempre esteve presente, não pessoalmente, mas sempre me deu certeza que estaria sempre ao meu dispor. Ele me contava como andavam as coisas no Japão do quanto todos seguiam suas vidas felizes e eu me sentia mal em relatar a situação de saúde da minha esposa e estragar a alegria de todos com meus problemas, não queria que mais ninguém se preocupasse comigo, queria que eles continuassem como estavam, felizes, realizados e sem preocupações.

Seiya sempre soube de tudo através de Saori que ao que parece conseguiu segurar a língua do marido, soube como Shun estava também, nunca tive muito contato com Ikki, mas fiquei feliz em saber que ele ia bem também, enfim, eu estava feliz por todos eles, e torcendo pra que nenhum deles passasse pela mesma situação em que eu estava. Conforme a doença de Lilia avançava mais eu me distanciava deles, eu tinha que me dedicar a ela, toda minha atenção era direcionada a recuperação dela... mas no final nada disso adiantou.

Quando cheguei ao Japão senti uma nostalgia boa, era bom voltar pra casa, eu já tinha comprado um apartamento perto do hospital onde trabalharia, Millo e Camus prepararam tudo pra minha chegada e me receberam de braços abertos.

Comecei a organizar minha nova casa, decorei tudo a meu modo e preparei tudo pra que Miguel se sentisse a vontade, eu estava começando uma vida nova, e queria começa-la bem e até que tudo estava saindo muito bem.

Meus sogros me ligavam praticamente todos os dias pra saber como tudo estava indo. E até mesmo meus amigos de lá viviam pedindo noticias, eles pareciam bem mais preocupados comigo do que meus amigos no Japão, mas é natural já que todos viram pelo que eu passei, estavam lá o tempo todo e me deram todo apoio possível, não reclamo de nada, eu preferi não relatar nada do que estava acontecendo pros meus amigos no Japão, até pedi pra Shiryu, Millo e Camus guardarem segredo, eles ficaram relutantes, mas atenderam meu pedido, melhor assim, não queria preocupar ninguém.

O hospital onde comecei a trabalhar era ótimo e todos eram muito hospitaleiros, comecei a fazer amizade com todos, o que era estranho, pois embora eu não tentasse ser eu estava mais fechado a contato do que antes, mas ninguém parecia se importar, sempre respeitavam meu espaço e aos poucos eu aprendia a lidar com todos.

Mas eu ainda não tinha ido ver meus outros amigos, não me sentia pronto ainda.

Quando finalmente completou um ano da morte de Lilia eu me senti como achei que me sentiria... Eu estava péssimo, achei que me afastar da Rússia fariam as coisas mudarem, mas eu estava terrivelmente errado.

Eu evitava ao máximo olhar pra qualquer foto de Lilia, achei que se tentasse não lembrar seria melhor, mas era o contrario. Eu sentia tanta falta dela, e não era como se eu estivesse na minha antiga casa quando onde quer que eu esbarre encontraria algo que me faria lembrar dela.

Num ato desesperado eu retirei todas as nossas fotos guardadas e coloquei em molduras e as espalhei pelo apartamento. Pensei que iria mergulhar numa nova depressão, mas não foi o que aconteceu, não me senti tão bem, mas não estava tão terrível quanto eu achei que estaria. Eu me sentia tranquilo, lembrar-me dela não era tão doloroso agora, aquele ambiente novo mostrava que eu estava em uma nova vida e que Lilia infelizmente já estava no passado, mas isso significava também que a dor já estava passando e finalmente eu podia olhar pras minhas lembranças sem derramar lagrimas. Inclusive percebi que já fazia muito tempo que eu não derramava lagrima alguma, eu estava num estado de entorpecimento, e não era ruim embora também não fosse tão bom, mas era uma situação admissível.

Então decidi deixar os quadros ali, eu não sentia mais dor quando olhava pra eles, e Miguel também não se sentia tão mal e não perguntava mais tanto por ela.

Passado um mês daquela mudança e aquela vida nova ainda tomava muito do meu tempo, eu frequentemente contratava uma babá ou outra pra ficar com o Miguel, a essa altura ele já estava muito apegado a mim, e não tolerava mais ninguém, mas isso não era exatamente bom, pois ele não suportava mais minha ausência, eu não queria que ele ficasse assim tão dependente e eu também não gostava de me separar dele, principalmente com essa ideia de deixar meu filho com uma estranha, mas foi inevitável, e isso tornava as coisas cada vez mais difíceis de modo que encontrar uma babá pra ele já estava ficando monótono, já era a quarta babá em um único mês, e nem preciso dizer que ele se livrou das outras, era estranho, ele era apenas um garotinho, mal entendia o que falávamos então eu não entendia como aquela aparência de anjo poderia traumatizar tanto as babas, nem sei como ele faz, as garotas simplesmente desistem sem me darem maiores explicações, de qualquer modo vou ter uma conversa bem séria com ele.

Millo e Camus me ajudaram muito nesse sentido, variavam em ficar com Miguel, eu tinha que encontrar alguém que fique definitivamente com meu filho pra que ele não sinta tanto a minha falta quando vou trabalhar, mas eu não tinha tempo pra fazer aquilo.

Completou um mês e eu finalmente achei que era hora de me juntar a todos, e levei Miguel pra conhecê-los, a reunião de cavaleiros era na mansão da Saori, e não deu outra e o Miguel foi a atração principal, todos me cumprimentaram e eu me sentia ótimo em estar de novo entre eles, meu japonês estava um tanto enferrujado de forma que meu sotaque russo tinha voltado a ser fortíssimo, mas ninguém pareceu se importar, ainda bem, quanto menos etê eu parecesse melhor.

Acho que estou inseguro demais ultimamente.

Eu conversei com todos, e graças a Deus nenhum deles me direcionou nenhum olhar de lamentação e não tomaram minha situação de viúvo como o centro de nenhuma conversa, eles entendiam, só não sei se é porque eles sabiam que eu odiava aquelas atitudes ou se sou eu que disfarço tão bem com minha frieza.

Conversei especialmente com Shiryu, era com quem eu mais me identificava, ele era o mais sensato de todos, além de Camus e Millo é claro, mas Shiryu tinha minha idade, então me entendia melhor, fora que ele tinha filhos também, com os quais o Miguel se identificou rapidamente, foi a primeira vez desde tanto tempo que ele se divertiu de verdade, com aquele riso contagiante que eu a muito não ouvia. Era maravilhoso ver meu filho alegre novamente.

Contei a Shiryu tudo que aconteceu nos últimos tempos, embora ele já soubesse por alto, na verdade eu contei o meu lado, como eu me sentia e como estava lidando com aquela nova vida. Ele como um bom amigo não faltou em conselhos e em nenhum momento me repreendeu, ele apenas disse que meu estado depressivo era natural pra alguém que amava tanto a esposa e que achava ótimo que minha recuperação estava dando bons resultados. Senti-me bem ouvir algo assim dele, eu já estava farto de ouvir as pessoas dizendo que sou um irresponsável inconsequente e que era mais do que minha obrigação mudar de atitudes, na verdade não diziam na minha frente, mas eu sei que pensavam, era verdade mesmo, então eu não discutia... não que eu quisesse que passassem a mão pela minha cabeça, mas valha-me Deus, eu entro em depressão por alguns meses e as pessoas já começam a insinuar que eu sempre fui assim.

Eu não queria ganhar uma estrelinha de bom comportamento, longe disso, mas é sempre bom ouvir uma palavra de incentivo pra garantir que eu estava mesmo fazendo a coisa certa, eu sei que eu estava, mas gostaria de ouvir de vez em quando.

Desculpem, sou mesmo uma lástima, desse jeito vocês mal devem me reconhecer... Antigamente eu diria algo do tipo: ‘que se danem os outros’, ou ‘faço o que quero e quando quero, não me importo com a opinião alheia’, eu nunca disse nada disso alto pra não pensarem que eu me pareço com o Ikki, principalmente porque não era nem um pouco educado nem cortês, ter sido educado por Camus me privou de demostrar essa parte rude e grosseira de mim, mas acreditem, eu era assim mesmo... Pensar diferente torna cada vez mais palpável minha mudança, espero que entendam que eu tenho meus motivos pra isso, porem acho que meus amigos não notaram, pelo menos espero que não.

Aquela primeira reunião foi ótima, foi muito bom reencontrar meus amigos.

Era ótimo rever o Seiya e a Saori animados, o Shiryu, meu sensato amigo e conselheiro, os outros cavaleiros de ouro, e até mesmo Ikki, que mesmo do jeito dele mostrou simpatia comigo.

Fiquei triste em não ver o Shun, mas tudo bem, alguma hora eu veria ele. Descobri que ele tinha uma vida muito ocupada, e que só eventualmente participava daquelas reuniões, mas tudo bem, é bom saber que ele segue com a vida dele do jeito que achava melhor, mas confesso que senti falta dele, afinal ele sempre foi o mais amável e sensível de todos nós e eu gostava de ter alguém assim por perto.

Combinei com eles algum dia pra sair, ou qualquer coisa do gênero, é claro que só quando eu tivesse tempo, ultimamente tem sido bastante trabalhoso no hospital onde estou, mas é melhor assim, me sinto util.

Fico muito feliz em dizer que aquilo estava me fazendo muito bem, a mim e ao Miguel, eu já estava mais estabilizado, quem sabe com o tempo eu voltasse a ser como antes e realmente encontrasse outro amor, mas ainda é muito cedo pra isso, estou longe de achar qualquer outra mulher atraente quanto menos me apaixonar.

Eu conversava com Shiryu quando vi Seiya correndo pra cima e pra baixo com Miguel no ombro.

Céus aquilo me deu medo, agora eu sei o que a Lilia sentia quando eu fazia aquilo com o Miguel, eu merecia uma bronca mesmo, era angustiante, ele era um cavaleiro e eu não devia me preocupar, mas estamos falando do estabanado do Seiya né.

Tomei Miguel dele antes que minha mente começasse a formular várias maneiras sórdidas de assassinar aquele pangaré alado.

A noite se seguiu normalmente, se normal queria dizer todos se embebedando e fazendo coisas estranhas, é claro que tinham os comportados, estou sendo um deles hoje, principalmente porque eu tinha que me manter atento pra que ninguém cambaleasse e caísse bêbado em cima do Miguel, mas de certa forma todos se comportavam, a sua maneira é claro, afinal nenhum de nós é de fato normal, acho que minha caretice tem alcançado níveis tão altos que eu tenho achado tudo fora do comum ultimamente, se fosse a tempos passados eu sequer me importaria com qualquer algazarra, permaneceria quieto, mas enchendo a cara como todos. Sou comportado ao meu modo também, mas eu tinha certo receio de beber e começar a me lamentar de novo pela morte de Lilia, e eu sinceramente odiava chamar atenção ou qualquer coisa do tipo, mas vai saber o que eu faria se exagerasse na bebida, então achei bom parar de beber desde que me recuperei daquela depressão, era a atitude mais sensata a se tomar.

Mais uma reunião, eu conversava com Shiryu na varanda enquanto Miguel brincava com os gêmeos, Shiryu era um ótimo ouvinte e estava se tornando meu melhor amigo, ele me dava ótimos conselhos, e eu o ouvia também.

Quando menos espero ouço uma voz familiar atrás de mim, logo reconheci, finalmente ele apareceu, me virei pra ele e sorri, era muito bom revê-lo.

─Oi Shun.

Ele ficou me olhando por um tempo, será que eu estou tão mudado assim que ele não me reconheceu?

─Hy-Hyoga? – ele me olhou de um jeito estranho, e finalmente me abraçou. O olhei e vi que ele chorava, do que chorava?

Shiryu nos deixou sozinhos e começamos a conversar, ele parecia aborrecido comigo, tentei faze-lo entender o motivo do meu sumiço, mas sem revelar nada muito dramático, porem o que o deixou mais surpreso foi o fato de eu ter um filho, vindo logo depois com a pergunta que eu estava tentando evitar, ele perguntou por ela, e parecia mais aborrecido ainda.

Eu contei a ele minha condição e viúvo e ele se mostrou muito sensibilizado comigo, não era como a reação das outras pessoas que apenas me dão aqueles pêsames por educação sem realmente se importar, mas ele foi diferente, ele ficou realmente muito triste, parecia tomar minha dor pra ele, era estranho então tratei de tentar sumir com minha expressão de lamentação o máximo que eu pude, e pra minha alegria ele não insistiu no assunto.

Tomamos Miguel em nossa conversa, era bom falar do meu filho, isso sempre me deixava feliz.

Descobri que ele era homossexual, isso não foi uma surpresa, eu já suspeitava faz algum tempo, mas preferi não questionar.

Voltamos a olhar pros meninos e percebi que o Miguel já estava cansado, então fui até ele, Shun me seguiu, percebi que ele nos observava atentamente.

Estranhamente o Miguel não quis ir com ele. Miguel sempre foi intolerante com as babás, mas com todos os meus amigos ele foi muito carinhoso, mas estranhamente ele repeliu Shun de tal maneira que até eu fiquei sem jeito, Shun era um dos meus melhores amigos, eu queria que meu filho gostasse dele também.

Percebi que Shun ficou chateado também, mas eu não podia fazer nada, quando Miguel se enfeza com algo até mesmo eu tenho dificuldades de coloca-lo na linha, e eu não podia obriga-lo a gostar de ninguém.

Perguntei se algum deles tinha em mente alguma pessoa que eu pudesse contratar como babá, e estranhamente Shun se prontificou a cuidar do meu filho, pensei que ele não tinha tempo pra nada, então fiquei muito grato por ele disponibilizar um tempo pra me ajudar.

Aceitei a ajuda, seria uma forma de me reaproximar ele, afinal ele era um de meus amigos que estava mais distante, seguido de Ikki, mas Ikki é Ikki né, com ele eu nunca me dei muito bem mesmo.

Antes de ir eu ouvi um comentário do tagarela do Seiya: ‘─Huuummm. Com o maior prazer é? O caminho já tá livre mesmo, e com certeza isso dá uns pontos pra você Shun.’

Eles achavam que eu não tinha ouvido aquele comentário idiota.

Não entendi direito o que ele quis dizer com aquilo, eu andava meio emburrecido ultimamente, levei um tempo pra assimilar, mas quando finalmente entendi fiquei meio desconfortável.

De onde aquele pangaré desengonçado tinha tirado aquela ideia estupida? Eu e o Shun? NUNCA. Definitivamente NUNCA. Eu gostava do Shun, mas não daquela maneira, isso sequer tinha passado pela minha cabeça algum dia.

Então resolvi esquecer aquele incidente infeliz senão da próxima vez que eu visse Seiya poderia congela-lo e larga-lo no fundo de um abismo pra ele entender o recado que eu não gostei nem um pouco daquela brincadeira sem graça, mas vocês me conhecem, sou uma pessoa pacifica, ou eu esquecia ou pedia ao Ikki pra fazer esse trabalho sujo por mim, e tenho quase certeza que ele faria de graça.

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No dia seguinte liguei pro Shun, ele estava atrasado, e eu já ia me atrasar também. Será que ele tinha esquecido o que tinha me prometido?

Ele atendeu só depois de eu insistir muito, disse que estava procurando meu apartamento, o que era estranho já que eu não ouvia nenhum som de transito no fundo.

Ele chegou todo alvoroçado, provavelmente ele tinha acordado tarde e inventou aquela historia, acho que ele esqueceu que eu sou muito observador e que era difícil mentir pra mim, mas deixei pra lá.

Dei as instruções pra ele na pressa, eu estava atrasado, e ele pareceu entender tudo que eu disse, melhor assim, gosto de pessoas inteligentes e espertas.

Agradeci e me retirei, acho que estava colocando o Miguel em boas mãos.

O dia foi exaustivo, quando voltei pra casa eu estava muito cansado, eu só queria deitar e dormir, mas não achei justo deixar Shun cuidar de tudo sozinho, então disfarcei meu cansaço o máximo que pude, passei a ser especialista em disfarçar minhas situações físicas e emocionais, tive muito treino nisso quando eu chegava exausto em casa e tinha que cuidar de Lilia, não queria que ela se sentisse mal por mim.

Como sempre Miguel me recebeu com um caloroso abraço. Gosto quando ele faz isso.

Observei que Shun me olhava atentamente, aquilo me deixava um pouco desconfortável, depois daquele comentário idiota do Seiya eu passei a me incomodar com os olhares do Shun, era estranho.

Ele soltou um comentário que me deixou mais acuado ainda.

‘─Hum. Não sabia que você usava lentes... Ficou muito bonito em você.’

Bonito? Resolvi ignorar aquilo.

Perguntei se o dia tinha corrido bem pra eles, afinal eu conheço bem meu filho, sei que com certeza ele aprontou alguma.

Mas do contrario de todas as minhas suposições sobre Miguel ter feito com o pobre do Shun, o mesmo negou qualquer incidente, seria aquilo verdade?

Não acreditei muito não, Shun parecia meio acuado quando negou, ou ele estava protegendo o Miguel ou fez alguma besteira também e estava se protegendo, ou até mesmo as duas coisas.

Bom, não aconteceu nada grave então achei melhor esquecer minhas desconfianças.

Miguel queria sair, Shun prometeu eu acho, resolvi acompanha-los, afinal tenho que dedicar um tempo pro meu filho também.

Shun não gostou muito da ideia, acho que ele percebia muito bem o que eu tentava disfarçar, mas não dei a mínima, eu sei meu limite, já suportei cansaços extremos. SQN.

Tive que deitar um pouco pra descansar, tirei aquela camisa que me dava um calor insuportável e me deitei por um tempo.

Eu quase adormeci, mas levantei antes que o cansaço tomasse controle sobre mim, suspirei cansado e olhei pro retrato de Lilia no criado mudo.

─É meu amor, a vida continua... e é um saco. – pensei.

Foi aí que Shun se anunciou, a quanto tempo ele estava ali? Deixa pra lá.

Ele insistiu pra que eu descansasse, mas quem disse que eu ouvia? Levantei e fui procurar alguma camisa, vi que ele não saia, qual o problema dele? Aquilo era desconfortável, não só por ele estar ali, mas sim pelo olhar que ele me direcionava, fixo, um tanto... perdido.

Será que ele me achava atraente? O fato de agora eu saber a opção sexual dele e principalmente depois daquele comentário do Seiya me colocaram em alerta, decidi tirar a prova, me vesti lentamente na frente dele, e confirmei o que já suspeitava, ele não tirava os olhos de mim, então eu era mesmo atraente pra ele.

Me desculpe Shun, você é bonitinho, mas não faz meu gênero, literalmente.

Saímos e ele estava mais calado do que de costume, isso até perguntar como foi meu dia de trabalho.

Ora, eu não queria conversar, mas sou educado, respondi por monossílabos, mas respondi. Então ele iniciou as perguntas de praxe, até enfim perguntar novamente por que eu tinha sumido por tanto tempo, ele parecia realmente magoado.

Só que eu não queria explicar, falar sobre Lilia novamente me esgotava, eu definitivamente não queria pensar nela naquele momento. Então decidi faze-lo entender da melhor maneira possível, e graças a Deus ele entendeu.

Eu estava grato por ele se mostrar sempre tão prestativo comigo, tinha me esquecido que ele sempre foi assim, um amor de pessoa. Shun é assim mesmo, educado, gentil, compreensivo, e animado, senti falta disso... senti falta dele.

Mesmo sabendo como ele se sentia perto de mim e mesmo que fosse um tanto desconfortável eu resolvi que queria passar mais um tempo com ele, até porque ele não se atreveria em nada, se tem uma coisa que eu me lembro bem é que Shun sempre foi muito tímido, então fiquei tranquilo.

Até mesmo Miguel não parecia mais tão intolerável a ele. O convidei pra passar o restante da noite conosco. Afinal faz tanto tempo que não convivemos e poderia ser apenas impressão minha, mas ele não parecia querer ir embora também.

Perguntei a ele o que gostaria de fazer, e sendo o Shun novamente sendo ‘o Shun’, ele decidiu fazer o que achava melhor pra mim. E até se ofereceu pra cozinhar pra nós, sempre atencioso, é claro que eu me recusei, não poderia abusar da boa vontade do meu amigo, mas ele insistiu tanto e eu não sou lá muito bom pra cozinhar então resolvi aceitar.

Infelizmente eu não tinha comprado suprimentos, é um saco fazer isso, eu não tinha tempo nem paciência, mas era necessário então nós fomos.

Shun ficou relutante em ir a um mercado que tinha ali perto, não entendi nada, o que será que ele aprontou?

Fomos pra outro bem mais distante. Com ele me dizendo o tempo todo que ainda não era longe o suficiente.

Quando chegamos ao mercado o Miguel começou com as birras, e eu não estava muito paciente, ele quis descer e eu deixei, e Shun pareceu muito preocupado pelo jeito que eu agia, acho que eu pareci um irresponsável pra cuidar do Miguel, então eu expliquei pra ele ficar mais aliviado.

Shun ficou ao meu lado o tempo todo, mas parecia incomodado, impaciente, e ficou ainda mais quando uma daquelas garotas oferecidas chegou perto de mim, pra falar a verdade ela era bastante bonita, mas eu não estava muito a fim de ficar flertando com garotas com o Shun na minha cola, ou mesmo que fosse outra pessoa, ou mesmo sozinho... tá bom, acho que eu não fico a fim de fazer nada ultimamente.

Dispensei a garota antes que ela inventasse de se jogar pra cima de mim, até porque a presença do Miguel já tinha a espantado, não é muito comum um pai solteiro andar sozinho por aí, então logo as pessoas supunham que minha esposa estaria por perto, e é claro que eu confirmei, será que ela não tinha visto minha aliança?

Não tirei minha aliança nenhum dia sequer depois da morte de Lilia, aquela era a minha ligação com ela, como se eu ainda pertencesse a ela, ou seja, era uma prova de que ela realmente existiu, de que eu fui feliz. Fora que era bastante útil pra espantar essas garotas, Miguel e minha aliança eram meus amuletos pra me manter indiferente a tudo.

Sei que prometi a Lilia, mas no momento eu não conseguia sequer tira-la da cabeça quanto menos começar a pensar em outra que possa substitui-la.

Nunca pensei que poderia tocar num outro corpo que não fosse o de Lilia, na pele dela, no cheiro e nas curvas dela, eu simplesmente não conseguia imaginar.

Eu tinha medo de me meter numa relação casual e quando chegasse na hora H minha mente me pregasse a peça de vir com todas as lembranças de Lilia e todo o entusiasmo e excitação que eu tivesse com quem quer que fosse simplesmente desaparecesse quando percebesse que não era Lilia que estava ali comigo, e de repente eu perdesse toda a animação e acabasse falhando... Vocês me entendem.

Eu não poderia conceber que ela realmente tinha ido, minha mente já sabia disso a tempos, mas meu corpo não. Ter relações com outra mulher só confirmariam pro meu corpo o que minha mente tem tentado lhe dizer a tanto tempo, que ela realmente se foi, não sei se conseguiria deixar outra mulher me tocar nessas circunstancias, eu só me lembrava dos toques de Lilia, de sua mão macia e delicada passeando pelo meu corpo, de forma que qualquer outro toque faria meu corpo estranhar de imediato e acabasse com um trauma, sei que parece ridículo, mas é assim que estão as coisas.

Era angustiante só de imaginar, por isso eu não me arriscava, nem sei quanto tempo faz desde que tive relações, um ano? Mais? Há quanto tempo eu não sentia um calor como aquele?

Só sei que a ultima vez foi antes de Lilia ficar doente, não podíamos fazer aquilo com ela naquelas condições. Acho que foi quando ainda tentávamos fazer com que ela engravidasse, e não posso negar que as tentativas de ser ter um filho é a melhor parte, se é que vocês me entendem, não fazíamos amor muitas vezes quando ela estava gravida, era difícil, principalmente pra ela, então desistimos quando não tinha mais jeito, restava apenas esperar que ela tivesse o bebê e pudéssemos retomar nossa vida sexual. Depois disso tudo voltou ao normal, mas depois ela ficou doente.

Eu a compreendi perfeitamente, e acho que ela sempre estranhava e tinha fortes duvidas que eu lhe fosse fiel nesse meio tempo, e que procurasse aliviar minhas necessidades com outra mulher, mas eu não fiz isso, sequer pensei, é claro que ela teria a prova viva de que poderia confiar plenamente na minha fidelidade agora, mas ela não podia.

Então como podem ver já fazia muito tempo, então não era novidade que eu estivesse tão inseguro.

Será que estou destinado a virar padre agora? Com certeza não, não considero o celibato uma coisa boa pra ninguém, de que adiantava eu me reprimir se eu sei que mesmo que demore a necessidade iria voltar por conta própria algum dia? Era melhor esperar.

Achei estranha a reação de Shun com aquela garota, ele ficou... Enciumado?... Deixei pra lá.

Ele comentou algo como ser difícil ser casada comigo... será? Nunca pensei muito nisso, eu podia ser uma pessoa de difícil convivência mesmo, talvez eu só tivesse tido sorte em conhecer Lilia, e talvez eu nunca mais encontre alguém que me ame tanto quanto ela me amou. Droga, Shun tinha que ter dito aquilo mesmo pra me angustiar ainda mais.

Teve uma hora que ele se enfezou de vez pra que eu me apressasse, eu não poderia fazer isso, por mais que eu odiasse tanto fazer compras, mas eu tinha que fazer com cuidado. Miguel é alérgico a muitas coisas, e as chances dele ser alérgico a quase tudo que Lilia era aumentavam em 80%, ele herdou isso dela, então eu tinha que tomar cuidado com o que quer que eu fosse comprar, com anafilaxia* não se brinca, uma vez Lilia passou tão mal por comer umas simples nozes que causou uma angioedema* tão agressiva que tive que leva-la ao pronto-socorro as pressas, bela herança você herdou heim Miguel.

Acho que minhas idas ao hospital eram em maioria por alguma emergência em minha família do que pro próprio trabalho, eu tinha que estar em alerta o tempo todo.

Miguel nunca teve uma reação alérgica muito forte, apenas uma irritação ou outra, mas era melhor não arriscar, principalmente porque deixa-lo nas mãos de babás adolescentes não parecia ser muito seguro.

Shun parecia realmente com pressa, então solicitei a ele que fosse procurar o que usaria pra fazer o jantar pra que saísse do meu pé. Ele foi pisando duro, mas foi, me lembrou muito o temperamento da Lilia, sempre com emoções ao extremo, ora alegre demais, ora irritada demais, e por aí vai.

Achei estranho que o Miguel quisesse ir com ele, parece que se deram bem, estranho, mesmo com Shiryu ele não ficou assim tão apegado.

Eles foram e eu me apressei pra terminar logo com aquilo.

Quando terminamos as compras fomos a uma locadora de DVD’s pra alugar alguma coisa, eu não estava muito a fim de assistir nada, mas o Shun queria, então que seja. Shun falava o tempo todo, era agradável ouvi-lo, fazia tanto tempo desde que eu não ouvia alguém falando sem parar, Lilia era muito tagarela, as vezes eu até me irritava, mas nunca disse isso a ela, e hoje em dia eu sinto falta. A presença daquele virginiano era confortante.

Porem ele se incomodou por eu ficar calado o tempo todo, insistiu pra que eu dissesse alguma coisa, acho que ele não entendia que não se pode ensinar um peixe a voar, porque ele não entendia que eu só queria ouvir ele falar? Eu só queria companhia.

Suspirei e reuni minha paciência pra lhe contar meu dia, quando terminei o relato ele ficou me olhando estranho, assustado, esqueci que eu nunca precisava medir palavras pra falar de termos médicos e coisas sobre pacientes com Lilia, afinal ela era medica também, mas acho que pra uma pessoa que não convivia com essa realidade aquele relato poderia soar apavorante.

Ele se desculpou, não entendi porque, acho que ele tinha espairecido a mente e entendeu que meu dia realmente foi cansativo. Que bom, aprendia rápido.

Expliquei a ele que de inicio eu também fiquei muito abalado e que Lilia me ajudou muito nesse sentido, sempre cuidou de mim, tanto quanto eu cuidava dela. E agora tudo aquilo não era nada demais.

Era estranho, agora que eu notei que passei a falar dela sem me sentir tão mal, seria efeito da simples presença do Shun?

Depois do que eu disse ele ficou calado, um tanto apreensivo, será que eu disse alguma coisa errada?

Quando chegamos à locadora pedi que ele escolhesse logo os filmes, ele foi reclamando, mas foi, bem como pensei, igualzinho a Lilia, ou como o Ikki também, acho que eu só tenho a sorte de encontrar pessoas assim, acho que o único calmo igual a mim é o Shiryu.

Fiquei com peso na consciência em deixa-lo ir, estava deixando ele fazer tudo sozinho, acho que ele deve ter pensado que eu estava de má vontade, então fui ajuda-lo a escolher.

Vi que ele escolheu um DVD de um desenho que o Miguel se viciou faz algum tempo. Oh que gloria, eu tinha que passar por tudo aquilo de novo? Se bem que ouvir o Miguel rindo o tempo todo é muito bom, daquela vez só faltou ele me fazer dançar as musicas também, seria cômico com certeza, mas eu não ia ouvir aquelas musiquinhas de novo, ah não vou mesmo.

Peguei o DVD dele e empurrei outro diferente, Shun não entendeu nada, expliquei e ele riu, gosto de o ouvir rindo.

Ele ficou escolhendo outros e eu fui pro caixa pra irmos logo embora, foi quando eu vi uma colega de trabalho, Hana Takeda, ela tinha a minha idade, era uma boa moça, casada e tinha uma filhinha de uns três anos, eu também conhecia o marido dela, era um medico anestesista. Boas pessoas. Conversamos um pouco até o Shun aparecer, eu os apresentei, mas notei que ele ficou incomodado com Hana e foi um tanto rude com ela, lancei um olhar de desculpas a ela quando ele se virou, ela apenas sorriu e deu de ombros. Ainda bem que ela não levou a mal.

Shun praticamente me arrastou pra fora, quase não me despedi de Hana direito, ele entrou emburrado no carro, eu coloquei o Miguel quietinho lá atrás e fui perguntar o que ele tinha, se estava aborrecido comigo.

Talvez ele tivesse algum problema de mudança drástica de humor, problema sério esse, Lilia também tinha.

Perguntei se ele estava bem e me aproximei pra averiguar, ele ficou incomodado com minha aproximação, percebi que ele ficou eriçado quando eu o toquei.

Será que meu toque ou minha simples presença o incomodava de forma ruim? Se fosse isso eu não teria mais que me preocupar se sou ou não atraente pra ele, e essa suposição mal formulada me aliviou um pouco, achei melhor pensar assim.

Ele ficou calado o caminho de casa inteiro. Resolvi não insistir. Chegamos e ele subiu e me deixou sozinho, eu me sentia casado de novo, o que deu nele? Só faltou ele dizer que eu ia dormir no sofá por seja lá o que for que eu tenha feito.

Quando eu terminei de subir com as compras comecei a arrumar tudo, e então ele deixou o Miguel brincando na sala e veio até mim com cara de arrependimento.

Pediu desculpas, tapado do jeito que sou não entendi o porquê dele estar se desculpando, depois ele disse que era por ter se aborrecido comigo, e eu nem ao menos sabia o que tinha feito de errado e ele não parecia disposto a explicar, então deixei pra lá.

Ele foi tomar um banho e eu emprestei umas roupas minhas.

Enquanto eu arrumava as coisas percebi umas sacolas de outro mercado, então ele tinha saído, mentiu pra mim? Porque?

Será que era o mesmo mercado que ele evitou que fossemos? Decorei a marca das sacolas e iria lá depois pra averiguar... percebi também que a vasilha que eu preparei o almoço pro Miguel estava na pia, a abri e vi que estava com a comida queimada, agora eu entendi porque ele teve que sair pra ir no mercado. Porque ele não disse logo? Acidentes acontecem ora.

Acho que Shun deveria tomar mais cuidado em não deixar as pistas do crime a mostra, eu tenho um lado investigativo que desbanca qualquer um, era assim que eu pegava a Lilia no ato quando ela aprontava alguma coisa.

Bom, não vou discutir por besteira, afinal estava tudo bem, então resolvi me fingir de desentendido.

Quando Shun voltou começou a preparar o jantar e eu o ajudei, Lilia sempre gostou que eu fizesse isso, dizia que se eu ia comer tinha que ajudar também senão ia ficar só na vontade mesmo, jeitinho amoroso não acham? Às vezes ela era assim mesmo, era engraçado.

Mas antes tive que tomar um remédio já que aquela dor de cabeça já estava acabando comigo, aquela enxaqueca começou quando eu entrei naquela depressão, eu já tinha superado, mas aquela dor de cabeça insuportável tinha ficado pra me lembrar um pouco daqueles dias terríveis.

Shun ficou surpreso quando me viu tomar o remédio, então achei de aplicar uma brincadeira nele pra ele aprender a não tentar me enganar, eu disse que era remédio controlado. Ele ficou com uma cara de paisagem não acreditando no que eu disse, fiz foi rir da cara dele, ele se surpreende por qualquer coisa, até porque não precisa ser um louco pra tomar remédios controlados.

Ele suspirou aliviado, e levei um susto quando ele se aproximou de mim dizendo que só o remédio não adiantava, o que ele ia fazer? Segurei as mãos dele antes que se aproximasse mais.

Ele estranhou e disse que só ia fazer uma massagem, ah era só isso, então eu deixei. O toque dele era suave, sentir as mãos dele era muito bom, ele tinha jeito pra aquilo, e realmente era relaxante e estava me fazendo muito bem.

Foi quando meu celular tocou, droga, aquilo estava bom.

Fui atender, era o Shiryu, ele me passou o numero da garota que tinha me indicado de babá.

Liguei pra ela, mas descobri que ela não ia poder cuidar do Miguel, e agora o que eu faria?

Fui pra sala desanimado, Shun estava lá, cotei a ele e ele ficou pensativo antes de dar a ideia de publicar um anúncio de vaga no jornal, achei a ideia ótima, porque eu nunca pensei nisso?

Discutimos melhor a ideia e ele ainda se prontificou de cuidar do Miguel a semana inteira. Um amigo se disponibilizaria tanto assim por outro?

Não quis aceitar, todos sempre me disseram que o Shun tinha uma vida agitada e sempre teve pouco tempo, então porque ele queria tanto me ajudar? Só porque sou amigo dele?

Ora, Shiryu também era meu amigo, mas ele não deixaria de administrar as empresas Kido só pra me ajudar, então porque Shun estava fazendo tanto por mim?

Ele explicou que teria tempo livre, pois iniciaria seu manuscrito, mas pra esse tipo de coisa era necessário tempo e concentração, e ele ainda teria que cuidar do Miguel ao mesmo tempo, ele era uma espécie de jedai por acaso?

Eu insisti que não, mas ele é teimoso. Resolvi aceitar de novo, porque será que eu estava cedendo tanto com ele?

Decidido então tratei de ir preparar o jantar do Miguel e o Shun de terminar o jantar, eu o ajudei e depois fui tomar um banho, e como é bom relaxar depois de um dia exaustivo.

Quando voltei Shun já tinha preparado tudo e estava me esperando, conversamos mais enquanto jantávamos, e tenho que tirar o chapéu pra ele, a comida estava deliciosa, ele cozinha muito bem.

Diferente dos meus projetos de comida, minhas tentativas acabavam em desastre, eu não sabia fazer praticamente nada, mas tenho orgulho de dizer que sei ferver a agua, brincadeira, eu sei fazer sopa também, era isso que eu eventualmente preparava pro Miguel, mas eu sei que ele detestava porque nunca conseguiu comer tudo e sempre torcia o nariz pro prato que eu lhe dava.

Quem sempre cozinhou foi a Lilia, eu só ajudava, mas não entendia nada sobre cozinhar, apenas observava, aquela era uma ciência que eu não era muito habituado e não dominava nem um pouco.

Por isso desisti e passei a pedir comida de um restaurante, nem eu mesmo aturo minha própria comida.

Conversamos e percebi que ele andava tão solitário quanto eu, acho até que ele fazia o mesmo que eu, de focar no trabalho pra esquecer as angustias.

Ele estava animado, e eu também, a quanto tempo eu não ria assim?

Eu comentei alguma coisa sobre Lilia e confirmei que realmente não era doloroso falar dela com Shun.

─Hum. Vocês eram bastante unidos né? – ele perguntou.

─Sim... A Lilia me completava.... ela era sempre muito animada... você também é Shun, gosto de ter você aqui, sua presença anima o ambiente. – eu não acreditei que disse mesmo isso, o que deu em mim?

Ele sorriu de volta, gosto de vê-lo assim.

Quando terminamos de jantar o Shun foi assistir o filme que ele alugou para o Miguel, eu decidi repousar um pouco, fui pra varanda e me sentei naquelas cadeiras reclináveis, era assim que Lilia e eu as vezes ficávamos no fim de semana, sentávamos e conversávamos amenidades, inclusive eu ainda mantinha a cadeira dela ao meu lado... obsessão eu sei.

A voz dela era melodiosa e calma e sempre era relaxante ouvir ela falar, eu acabava adormecendo, é claro que logo depois ela me dava uns tapas por dormir em meio os discurso dela, nunca a fiz entender que não era porque ela era chata, mas sim porque a voz dela me acalentava.

Só de lembrar eu já adormecia, nem sei quanto tempo fiquei ali, só acordei com as batidas insistentes do Miguel na porta de vidro e do Shun dizendo pra ele me deixar em paz.

Eu o chamei e Shun abriu a porta pra ele, o peguei o comecei a aninha-lo, parecia cansado também, chamei Shun pra perto de nós, mas ele ficou relutante em se aproximar.

Tive que insistir, então ele resolveu se aproximar e sentou-se na cadeira ao lado, me senti estranho de novo, mas era uma sensação boa ter aquele lugar ocupado mesmo que não fosse por Lilia, fora que a presença de Shun era diferente, era algo novo, mas era bom, e eu já estava sentindo falta de vivenciar algo assim.

Passou alguns minutos e Shun se retirou repentinamente, não entendi o que houve, ele parecia angustiado, pensei se tinha feito outra besteira.

Quando Miguel dormiu eu o levei pro quarto e depois fui pra sala e vi Shun pensativo no sofá, estava tão distraído que nem me notou ali atrás dele.

Ele levou um susto quando eu me pronunciei, perguntei se ele estava bem de novo, acho que tinha se tornado um habito eu ter que perguntar o tempo todo se alguém se sentia bem, e acho que nem preciso dizer o porquê.

Shun quis ir embora, parecia até que queria fugir de mim por causa do jeito desajeitado que ele tentava explicar sua saída, fiquei triste, agora que queria que ele ficasse, na verdade eu não queria ficar sozinho, senão isso me obrigaria a pensar, se eu pensasse demais acabaria deprimido de novo.

Ele se aproximou de mim com o pretexto de ver se minha dor de cabeça tinha passado, eu deixei, admito que queria sentir de novo as mãos dele. Então fechei os olhos apreciando o contato, mas houve algo estranho, em vez dele continuar com a massagem ele começou a me acariciar, o que deu nele?

Abri os olhos imediatamente e vi a expressão dele, era terna, serena, e um tanto... apaixonada?

Com certeza não, eu estava imaginando coisas. Esquivei-me dele e o afastei.

Perguntei se ele ainda queria ir embora, mas ele não quis mais, fiquei novamente animado, eu queria a companhia dele.

Preparei o quarto pra ele e fomos assistir o filme, era ótimo descontrair com o Shun, acho que eu estava rindo mais naquela noite do que nos vários meses anteriores.

Quando ele colocou o segundo filme eu fiquei mais quieto, era o cansaço enfim tomando conta de mim, e eu acabei adormecendo ali mesmo, passei a sonhar com Lilia de novo, uma lembrança boa daquela vez.

Mas pra minha surpresa eu dormi no ombro do Shun, quando eu acordei estava praticamente deitado no peito dele e ele estava com os braços envoltos em mim, acho que pra impedir que eu caísse, fiquei muito constrangido com aquilo, eu não era acostumado a me expor daquela forma, e o Shun como o bom amigo que é sequer estava incomodado com meu atrevimento e não me repeliu, na verdade ele dormia tranquilamente apoiado em mim também.

Ele era aconchegante, e eu me sentia bem com ele, mas não podíamos dormir ali.

Tive que acorda-lo, só que eu tentei e tentei, mas ele dorme feito uma pedra, não acordou de jeito nenhum, até pensei em jogar agua gelada nele, mas seria desumano demais.

Resolvi leva-lo pro quarto, por incrível que pareça ele era leve, leve mesmo, acho que ele devia comer mais.

Eu o deitei na cama e velei seu sono por alguns minutos, eu era muito privilegiado em ter um amigo como ele, e ele ainda estava disposto a fazer de tudo pra me ajudar, eu não tinha nem palavras pra agradecer. Logo ele que foi com quem eu mantive menos contato todos esse anos.

Eu nem tinha percebido que estava com tantas saudades dele.

Pensando bem a melhor coisa que me aconteceu em minha recuperação até hoje foi reencontrar Shun.

E fiquei mais satisfeito ainda em saber que iria passar mais tempo com ele. Aquela semana teria um diferencial pra mim e pro Miguel... e esse diferencial era o Shun, meu amigo querido.

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*Anaphylaxis descreve uma reação alérgica severa e risco de vida. Uma resposta anafilática é caracterizada por um inchamento da laringe (caixa de voz) que interrompe a passagem do ar nos pulmões, conduzindo à falta de ar severa. A laringe inchada igualmente faz difícil falar e engolir. Além, os vasos sanguíneos dilatados podem causar uma queda afiada da pressão sanguínea.

*Angioedema é o inchaço rápido da derme, tecido subcutâneo, da mucosa e submucosa dos tecidos. É muito semelhante à urticária, mas urticária, vulgarmente conhecido como urticária, ocorre na derme superior.

Notas finais
Novamente tirei alguns trechos do livro de Jonathan Tropper: "Como falar com um viúvo". Ah, é assim que eu imaginei a Lilia, o que acham? digna do Hyoga? http://www.donagiraffa.com/wp-content/uploads/2013/03/Cabelo-loiro-05.jpg Continuem acompanhando que ainda tem muito pela frente. Até o proximo. Bjs.