Destino

7 Sentimentos aflorados


Notas iniciais
Desculpem a demora, mas aí está... Ah, um novo capitulo de sentimentos do passado já está a caminho, aguardem.

Faz muitos dias que eu simplesmente acordo desanimado com tudo, mesmo estando em um lugar novo, num emprego novo, numa vida nova, ainda assim eu estava desanimado, deprimido.

A vida, na maior parte do tempo, cai na rotina e a confluencia aleatoria de momento e sorte, que determina os elementos que a compoem, fica esquecida. Entretanto, de vez em quando eu tenho um vislumbre da minha propria vida e me surpreendo com o que vejo. Tudo isso é resultado de quem eu sou, passo os dias trabalhando até a exaustão naquele hospital e, mais tarde, volto para casa ao encontro de meu filho querido que foi fruto de minha vida passada com uma esposa amada. Isso não aconteceu por acidente, eu fiz acontecer, tirando a parte tragica, eu tinha um plano, então porque eu não formulava um plano B já que o A deu errado? A verdade é que eu realmente nunca pensei que precisaria de um plano B, pois minha vida já estava suficientemente completa e alinhada e ninguem tinha o direito de mudar seu rumo, mas mudou, eu gostando ou não.

Eu gostaria muito de dizer que acordo todos os dias disposto e cheio de energia, mas não é bem assim, na verdade eu acordo é com uma indisposição tremenda e uma preguiça desgraçada pra sair da cama.

Nem lembro quando foi a ultima vez que acordei disposto.

Não tem um unico dia que eu não olhe para o lado a procura de Lilia, mas ela não está ali, é um lado vazio e frio, e que faz muito tempo não é ocupado por ninguem, mas que eventualemente tem dado lugar ao meu filho.

Normalmente minha cama é sempre assim, fria, literalmente. Estou falando sério, pra uma pessoa normal minha cama estaria congelante, meu corpo é gelado pela manhã, sempre foi, era Lilia quem preenchia com o calor de seu corpo a nossa cama, se ela não me conhecece direito iria pensar que eu estava morto todas as manhãs. Ela mesma confessou que quando acordava antes de mim sempre verificava se eu estava respirando, depois se aconchegava em mim e aquecia nossos corpos com seu calor. Eu adorava aquele calor, principalmente o aroma doce que provinha dela. E nesses dias sim eu me sentia bem disposto e alegre, mas ultimamente tudo tem sido um saco.

Isso não pode ser bom. Penso em voz alta todas as manhas.

Acho que passei da fase depressiva dramatica pra fase depressiva entediante. No entanto tem algo alem disso que sempre me ocorre todos os dias, e nada é mais pateticamente otimista do que essa ereção matinal, nas vezes que Miguel dorme comigo eu pulo da cama pra evitar contato com ele nesas situações, é meio estranho.

Estou deprimido, mal-amado, um tanto irriadiço ultimamente e de luto que acho ser eterno, mas lá está ela, toda manhã como um reloginho, levantando-se pra saudar o dia, surgindo abaixo de mim e me apertando, confiante e ostensivamente inutil. E toda manhã encaro as mesmas opções: me masturbar ou urinar. É a unica hora do dia que sinto que tenho escolha além das mais monotonas que tenho que tomar todos os dias e em todas as horas, é ao menos uma que me dá prazer.

Tenho que dizer que ultimamente meus dias têm sido mais do que monotonos, estão voltando a ser depressivos, não tanto, mas o suficiente pra me deixar um tanto chatiado e sem o minimo de animo pra esperar o proximo.

Eu fazia boa parte das coisas mecanicamente, estava em um lugar, mas ao mesmo tempo não estava. Ao menos pra exercer minhas funções no hospital eu ficava atendo, afinal vai que eu esqueço um bisturi dentro de alguem né.

Mas tirando isso eu normalmente vivia com a mente em um universo paralelo.

E ainda querendo com todas as minhas forças voltar pro passado. Eu tentava não pensar assim, mas quando eu tentava, começava a ficar angustiado, e estando angustiado que eu começava a fazer merda, tudo errado. Eu esquecia coisas, algumas até muito triviais e outras as vezes sem noção ou com certo grau e importancia.

Outro dia eu quase esqueci minha maleta de trabalho, noutro esqueci-me de calçar os sapatos e só lembrei-me deles quando fechei a porta.

Ou esqueci-me de pentear o cabelo, ou de me ensaboar ao seco antes de ligar o chuveiro e ficar com cara de idiota olhando pro azulejo por um bom tempo ainda voando em um universo paralelo.

Esse tipo de coisa tem acontecido com bastante frequencia.

Noutro dia eu tive a proeza de derrubar vários pratos no chão que quebraram espalhando cacos de vidro por toda minha cozinha. Nem sei por que eu estava com eles na mão, eu simplesmente os tirei do armário e comecei a lava-los sem nenhum motivo aparente. Mas daí tive uma lembrança de estar ajudando Lilia na cozinha, e enquanto eu executava aquela tarefa ela preparava alguma coisa pra colocar no forno.

Era estranho eu sei, passei a querer voltar a vivenciar essas lembranças assim que elas me vêm à mente.

Gritei da cozinha pro Miguel continuar lá na sala enquanto eu recolhia aqueles cacos, sorte que não eram os do conjunto de porcelanas preferidas de Lilia.

Certa vez, enquanto eu dava banho no Miguel, ele brincava com um patinho de plastico e cantarolando musicas do Doreamon, eu fiquei olhando fixamente pra agua. Lembrei-me da vez que eu levei Lilia a praia quando fomos a Portugal. Dela correndo pela areia branca de biquini vinho que lhe caia muito bem e realçava suas curvas, estava sorridente o tempo todo, quando eu ia fui atras dela e a agarrei pela cintura e depositei beijos em seu pescoço alvo ouvindo-a dar risinhos e comentando que alguem poderia ver, mas ao mesmo tempo se entregando as caricias.

Acordei da lembrança com o Miguel me chamando com a voz tremula.

─Papa. — disse se tremendo todo.

─Hum? Está com frio? Mas eu acabei de te colocar aí. — eu disse estranhando.

Ele estava com os lábios arroxeados, realmente estava com frio, ainda tremento veio até mim e me abraçou pelo pescoço.

Estranhei, porque ele estava com tanto frio?

Foi aí que eu notei o banheiro com tudo em volta embaçado e uma misera camada de gelo formada no azulejo, daí eu notei que minha mão que estava apoiada na banheira estava com meu cosmo ativo. Inconcientemente eu estava congelando tudo em volta, Miguel tinha razão em estar com tanto frio.

Ele tremia como nunca nos meu braços, peguei no colo e logo fui pro quarto pra enrola-lo numa toalha quente.

─Perdão, filho. Eu não percebi. Perdão.

Ele se encolheu em mim, sentei na cama e fiquei com ele ali até a temperatura se normalizar.

Por Deus, eu estava perdendo o controle do meu proprio cosmo, eu estava perigoso e poderia acabar congelando meu proprio filho nessa arrumação. O que está acontecendo comigo?

Não falei muito dele não é? Meu filho...

Bom, Miguel é um bom garoto, é quieto, surpreendentemente inteligente e bastante flexivel com qualquer situação, acho que é parecido comigo quando eu era criança.

Quando ele tinha pesadelos acordava de madrugada com um choro estridente e Lilia corria pra acudi-lo já que minha ida lá não era tão bem-vinda quanto a dela em momentos assim. Ela o aninhava com uma canção ou o distraia com uma historia ou brincadeira e ele voltava a adormecer com esses gracejos.

Quando Lilia se foi os pesadelos se tornaram cada vez mais frequentes, mas ele não chorava mais tão escandalosamente, ele já tinha aprendido a descer do berço sozinho a essa altura e em meio a noite ele corria a minha procura, pro meu lado na cama, por isso confirmei que ele sempre se habituava muito bem a novas situações, já que não tinha mais a mãe então porque não recorrer ao pai não é mesmo?

Na primeira vez que isso aconteceu e ele veio a mim fiquei muito surpreso e não soube direito o que fazer, até porque eu já tinha problemas demais em minha cabeça quando chegava à noite.

Vendo ele ali de frente a minha cama com o pijaminha adoravel de ursinhos e seu pequeno lençou nas mãos e na altura do rosto junto com seu brinquedo preferido pra esconder o choro contido que era denunciado pelas lágrimas cintilando no azul de seus olhos redondos e as bochechas rosadas, com expressoes perturbadas, suspirei vencido pelo meu lado paterno que mesmo em meus momentos solitários e com minhas proprias perturbações ainda clamam por acudir esse garoto que é tudo que tenho agora, e que eu amo mais que tudo.

Foi a primeira vez que aconteceu. E com o passar do tempo passei a ficar preocupado com a frequencia com que acontecia, eu devia leva-lo a um terapeuta?

Os primeiros meses foram assim, isso explica o fato de ele nunca dormir cedo quando estava com alguma babá, ele estava me esperando pra aninha-lo, pra ter a certeza que me veria antes de adormecer.

Ele não dizia nada, apenas murmurava todas as vezes que vinha pra mim, as mesmas palavras.

─No vá papa, fique. No vá. – choramingava, como se eu fosse a algum lugar, como se eu fosse abandona-lo, acho que ele tinha medo de não me encontrar mais, e sofria com a possibilidade de me perder do mesmo modo que perdeu Lilia, repentinamente, no caso dele sim.

E lá vem o Migueu, como um relogio, correndo pro meu quarto com medo, com seu boneco preferido do capitão america, como sempre, bem seguro em sua mão direita, seu pranto assustado quebrando o silencio de nossa casa, arrancando-me de um sono que a muito custo chega.

Sento-me na cama, os braços bem abertos, e ele dá um salto vindo direto pros meus braços e agarrando meu pescoço, os soluços sacudindo os braços dele, com suas costas suadas pelo medo.

Fico emocionado por ele me procurar na hora do medo, a unica pessoa que pode reparar o seu mundo. Eu o abraço com força, balançando pra frente e para trás, enquanto minhas palavras de confiança susurradas vão, aos poucos, penetrando na neblina sonambula de seus pesadelos.

Quando ele se acalma, beija o meu rosto e se enrosca ao meu lado sob o cobertor, aconchegando-se em mim e adormecendo, é meu lado paterno me dominando e então canto pra ele uma canção que minha mãe sempre cantava pra mim.

Boa noie, filhinho, boa noite.

Estou aqui e de você vou cuidar.

As estrelas, a lua prateada.

Eu e essa antiga balada.

Faremos cada sonho seu se realizar.

O som da respiração lenta e ritmada de Miguel me confirma que é aqui que sempre devo estar. Que ele precisa de mim e que eu preciso dele muito mais.

Com o tempo os pesadelos foram diminuindo e ele passou a dormir mais tranquilamente, isso foi na época que melhorei daquela depressão, mas algo me preocupa, pois quando viemos pro Japão ele voltou a ter pesadelos. Talvez seja pela mudança que ainda o afeta, mas ainda assim não posso deixar de me preocupar.

Nas ultimas semanas ele tem dormido comigo praticamente todas as noites, ou então acorda no meio da madrugada pra vir até mim.

Entretanto, eu acordo cedo pra trabalhar, e ele sempre sente a movimentação e choraminga de novo com a possibilidade que eu possa deixa-lo, por isso ele sempre acorda cedo, pra ficar comigo. Até pra dormir é assim, ele não dorme a noite se eu não estiver por perto.

É isso que me dá forças pra levantar todos os dias, ter a certeza que serei útil pro meu filho, mas embora isso devesse me deixar feliz ainda não é o suficiente, sinto que sou um egoísta e que deveria me contentar com o que tenho, mas ainda assim sou infeliz.

...

O chuveiro é um ótimo lugar pra relaxar, ainda mais com aquela agua quentinha, fiquei até mais desperto e animado também... o domingo que passei com eles foi maravilhoso, então vou tratar de esquecer as angustias que me sondaram noite passada e vou apreciar meus momentos com eles ao máximo, e acho que essa semana vai ser bem divertida também... Assim espero.

Hyoga ficou mais um tempo ali dando o mingau pro Miguel, depois que ele terminou o Hyoga desceu ele e o menino saiu da cozinha e o Hyoga começou a lavar a louça suja.

Fiquei olhando pra ele distraído, ele parecia meio tenso.

─Está tudo bem Hyoga?

─Hã? – ele olhou pra mim, estava tão distraído que não ouviu o que eu falei.

─Perguntei se você está bem.

─Estou ótimo. –disse com um sorriso forçado, não sei quem ele pensa que engana, mas não voi insistir.

─Vou tomar um banho agora. — eu disse quando terminei meu café.

─Ok... Suas roupas estão na área de serviço em cima da secadora. — ele disse distraidamente.

─Minhas roupas?

─Sim, eu coloquei na máquina hoje cedo, e já estão limpas e secas.

─Ah... Er, muito obrigado Hyoga.

─Por nada. — ele disse ainda distraidamente sem me olhar.

Fui à área de serviço que ficava mais no fundo e vi que minhas roupas estavam impecavelmente dobradas exatamente onde ele disse, fiquei sem jeito com aquele favor. Porque ele tinha que ser assim tão prestativo?

Peguei e fui pro banheiro, tomei um banho relaxante, aquela agua quentinha estava ótima.

Quando terminei enrolei a toalha na cintura e fui pro quarto, mas quando passei pelo corredor observei a brecha do quarto do Hyoga e vi uma pessoinha passando rapidamente de um lado pro outro. Abri a porta e vi o Miguel já saindo.

Ele me viu e levou um susto.

─Shu!! – ele disse e rapidamente colocou as mãozinhas atrás das costas quando me viu.

─Miguel? O que você tem aí?

─Nada. — disse com aquela vozinha infantil dele e balançando a cabeça repetidamente.

Foi andando bem devagar e evitando que eu olhasse o que ele tentava esconder.

E ainda continuou me olhando desconfiado. Assim que ficou um pouco mais distante de mim ele correu pro quarto dele.

É claro que eu fui atrás dele pra ver o que ele tava aprontando.

Olhei pela brecha da porta dele e o vi pegando um boneco de montar e colocar alguma coisa dentro dele, depois colocou o boneco bem no fundo do baú de brinquedos dele. Huumm, o que foi que ele escondeu ali?

─Shun? — Levei um susto com o Hyoga falando bem atrás de mim.

─Ai que susto Hyoga.

─O que foi?

─Xiiii. Acho que o Miguel tá aprontando alguma.

─Aprontando? — Hyoga disse estranhando e chegando perto de mim pra ver o Miguel no quarto.

Parece que o garoto percebeu que estávamos ali porque assim que o Hyoga apareceu e olhamos juntos pela brecha o Miguel tava com todo o ar inocente brincando despreocupadamente. Garoto esperto.

─Não parece que ele tá aprontando. — Hyoga disse olhando pra mim.

─É que eu o vi saindo do seu quarto todo desconfiado.

─Hum. — pareceu nem ligar pro que eu disse e entrou de vez no quarto.

─Miguel. — chamou o filho. ─Hora do banho.

─Hum, hum. — queria continuar ali brincando.

─Sem birra hoje. — Hyoga disse chegando perto do menino e o pegando no colo.

Miguel resmungou um pouco, mas logo ficou quieto.

─Melhor assim. — Hyoga disse sorrindo pro filho.

─Você já tá arrumado Hyoga, vai se molhar todo quando for dar banho nele.

─Vou não, ele vai ficar bem quietinho né filho. – disse e foi pro quarto dele.

Bom, fui me vestir, e nem demorei muito. Fui procurar pelo Hyoga.

Estavam no quarto dele, o Hyoga estava acabando de dar banho no filho.

─ папа(papa) tá tiste?

─Não filho, só estou pensando.

─Em quê?

─Em como você pode ser tão fofo.

─Fofo?

─Sim, sabe o que é isso?

─É igual os usinhos? Fofos?

─Sim, igual aos ursinhos.

─Eu sou um usinho papa?

─Não, você é fofo, e isso é bom.

─Papa gosta?

─É claro.

─Vô cê fofo po papa, pa sempe.

─Sua intenção é boa, filho. – ouço o Hyoga rindo, e eu sorrio só de imaginar a cena.

Quando adentro definitivamente o cômodo já vejo o Hyoga saindo com o Miguel do banheiro, com o menino todo enrolado em uma toalha que mais parecia um embrulho.

─Que rápido. – eu disse.

Hyoga só sorriu quando me viu já arrumado.

Baixou o lado móvel no berço e deixou o Miguel sentadinho lá e foi escolher uma roupa pro menino.

Pegou uma calça com jeans e uma camisetinha azul com uma estampa de um ursinho branco e em alto relevo na frente, terminou de enxuga-lo e colocou o talco e uma fralda descartável no Miguel antes de começar a vesti-lo com as roupinhas que escolheu pra ele, depois o Miguel ficou cutucando o enfeite da camisetinha enquanto o Hyoga calçava umas meias brancas e um sapatinho pequeno nele.

Depois pegou um pente e começou a pentear os cabelos rebeldes do Miguel, aquele cabelo loirinho era tão bonitinho, e eu ficava feito bobo olhando aqueles simples e fascinantes gestos dos dois.

Miguel não parava de falar, não exatamente falar, ele murmurava algumas meias palavras naquela linguagem de bebês, na verdade era mais confuso porque era de bebê russo.

─Você entende o que ele fala?

─Um pouco... Lilia entendia melhor, não sei como mulher sempre compreende melhor os filhos do que o pai.

─Ah. Coisas de mãe.

─É.

Depois o Hyoga pegou aqueles perfumes de bebê e passou no Miguel.

─Pronto, agora vai conquistar as outras bebês né filho. — Hyoga disse sorrindo assim que terminou, o Miguel ficou uma gracinha, adorável.

─rsrsrsrs, é só ele mostrar o sapatinho dele que acende a luzinha que as menininhas gamam. — eu disse rindo e o Hyoga também.

Miguel ficou rindo também com a gente, batendo palminhas como se entendesse do que falávamos.

─Vou preparar a bolsa dele agora. — Hyoga disse e foi no guarda-roupa, tirou de lá uma bolsa média de estampa azul de bichinhos e revestida de plástico e começou a tirar várias coisas de lá do guarda-roupa e colocar na bolsa.

Outra muda de roupa, mais umas três fraldas descartáveis, lenços umedecidos, babador, até mesmo protetor solar.

─Nós não vamos viajar não Hyoga. — eu disse o vendo colocar coisas demais ali.

─É precaução Shun, tenho certeza que você vai precisar de tudo isso aqui. — disse ainda colocando mais algumas coisas na bolsa, mas eu tenho quase certeza que não vou precisar de tudo aquilo.

Depois desceu o Miguel do berço.

─Escolhe um brinquedo pra levar Miguel, mas só um viu. — disse apontando pro baú dele, que pareceu entender perfeitamente e foi lá e tirou um boneco do Capitão América de lá e trouxe pro Hyoga.

─Hum papa. — disse mostrando o boneco.

─É esse? Que bom, agora vamos... Ah é. — Hyoga disse antes de sairmos.

Abriu o armário de novo e tirou um bonezinho azul de lá e colocou na bolsa.

─Não deixa ele pegar muito sol nem sereno viu Shun. — disse olhando pra mim.

─Ele é alérgico ao sol também por acaso?

─Não, é que a pele dele é muito sensível, assim como todas as crianças. Fora que ele pode pegar um resfriado.

─Hum. – mesmo assim acho que ele estava exagerando.

Ele pegou o menino no colo abraçado com o brinquedo e fomos pra cozinha.

Hyoga deixou Miguel na cadeirinha dele brincando com o boneco e começou a preparar um lanche pro Miguel e colocou numa pequena lancheira que estava em cima da geladeira. Pegou um pedaço de bolo de padaria e uns biscoitos e pedaços de queijo e um copo grande de suco.

─Nós também não vamos acampar Hyoga. — eu disse entediado sentado a mesa enquanto observava ele preparar aquele banquete pro filho.

─Isso é pra você não ter que comprar nada pra dar pra ele comer Shun, caso tenha duvida.

─E o que tem se eu comprar?

─Essas são coisas que o Miguel pode comer, já deu uma boa olhada naquela lista que eu te dei? Lá tem uma lista enorme das alergias do Miguel. — ele disse ainda arrumando as coisas distraidamente, nem falo nada, fiquei foi com preguiça de ler aquilo tudo, eram coisas demais ali, só sei que era uma lista grande mesmo.

─Ah, a lista.

─Sim, você leu né? – ele me olhou sério rapidamente.

─Er... Sim, claro, claro.

─Que bom, fique atento viu.

─Tá.

─Bom, acho que é tudo. — disse dando uma olhada geral nas coisas do Miguel.

─É mesmo? Só essas coisinhas? — eu disse irônico.

─Rá-Rá, muito engraçado você Amamiya. Quando você tiver filhos você vai entender.

─Hunf... acha que um dia terei filhos? — eu disse um pouco triste, será mesmo que algum dia terei filhos? Era difícil de imaginar.

─É claro. Porque não?– disse estranhando.

─É que... você sabe, considerando minhas opções.

─Você pode adotar não é?

─Acho que sim... dá o Miguel pra mim então. – eu disse rindo.

─Ele não é opção. Esse bebê já tem dono, né meu bebê. – disse sorrindo e afagando os cabelos do Miguel.

─Então divide.

─Você já vai ter a semana inteira pra experimentar a sensação de se ter um filho.

─É mesmo. Valeu pela experiência... depois eu posso levar né?

─Boa tentativa Amamiya. – ele disse rindo.

─Ah, quase esqueci. — Hyoga disse de novo.

─O que? Outra mala?

Ele me direcionou um olhar 44 pra me intimidar, mas fingi que não era comigo.

Hyoga foi ao quarto do Miguel e voltou com um vidrinho de remédio em gotas.

─Isso aqui é caso ele tenha alguma reação alérgica leve viu Shun, é importante, são seis gotas. — disse balançando o vidrinho na minha frente e colocando no bolso da bolsa.

─Ok. Sem grilo, vai ficar tudo bem.

─Assim espero. — ele disse olhando pro Miguel e eu também.

─Ixii, fique sabendo que eu cuido muito bem de crianças viu Hyoga.

─É mesmo? De quantas você já cuidou? – disse irônico.

─Bom, eu já ajudei a Shunrei com os gêmeos.

─Ah, fez estagio é?

─Engraçadinho. – eu disse e ele só riu.

─Ele gosta desse boneco heim. — eu disse vendo o Miguel todo animado com o brinquedo.

─Hm, esse aí é antigo, é o preferido dele agora.

─Tinha outro?

─Sim, antes desse aí ele tinha um ursinho branco que Lilia deu pra ele, mas começou a dar alergia nele.

─Ainda tem ele?

─Tenho, ele andava com o urso pra cima e pra baixo, mas ele tava todo acabado, com o recheio saindo e os olhos postiços caindo, nem sei como ele não tinha pesadelos quando dormia com aquilo, o urso era bonitinho quando estava novo, mas com o tempo ficou assim, ele era muito apegado a ele, e ele não é tão cuidadoso com as coisas dele, mandei reformar aquela coisa, mas continuou a dar alergia nele então tive que esconder.

─Ele percebeu?

─É claro, tive que ser sorrateiro pra esconder aquele troço, levou um tempão pra ele esquecer.

─Ele deve ter feito o maior escândalo quando o urso sumiu.

─Nem me lembre. — disse suspirando. ─Certo, então acho que agora é tudo... Tenho que colocar a cadeirinha dele no seu carro também. — ele disse lembrando.

─Bem lembrado.

─Sete e meia, tudo pronto. – disse olhando a hora.

Hyoga foi pro quarto, não demorou muito e ele voltou.

─Certo, onde você escondeu dessa vez Miguel? – disse sério com o filho que ficou todo desconfiado.

─O que foi?

─As chaves do carro de novo.

─Aff, de novo. Tem que ser mais cuidadoso Hyoga.

─Eu esqueço ora.

─Acho que eu tenho uma ideia de onde esteja.

Fui pro quarto do Miguel e o Hyoga me seguiu, abri aquele baú e vasculhei entre os brinquedos.

─Acho que ele colocou dentro de um brinquedo aqui.

Encontrei o brinquedo que o Miguel mexeu e tentei abrir ele.

─Me deixa ver. – Hyoga disse pegando o brinquedo de mim.

Ele abriu e achou a chave.

─Não falei que ele tava aprontando.

─É. – Hyoga disse suspirando. ─Porque eu nunca me lembro de esconder essas chaves?

─É o estresse.

─Quem sabe.

─Como é que ele consegue aprontar tanto com apenas dois anos?

─Considerando que ele vai fazer três anos mês que vem é bem natural esse nível de astucia. – Hyoga disse quando íamos pra sala.

─Três? Você disse que ele tinha dois.

─E tem. Ele vai ter três só mês que vem. – ele disse rindo.

─Ra-ra. Muito engraçado.

─Acho que não fui exatamente claro quando você me perguntou a idade dele, normalmente quando alguém pergunta a idade do filho a uma mãe normalmente ela responderia quantos anos e meses o filho tem, então sua duvida é bastante considerável com relação ao que eu disse antes.

─Então porque você não disse desse jeito ora?

─Porque eu não sou uma mãe, sou um pai. Rsrsrsrsrsrs.

─Idiota.

─Você me adora que eu sei.

─Convencido.

Ele só riu.

─Qual dia ele faz aniversário?

─Vinte e três de setembro.

─Hum. – ele é de virgem, concluo.

Quando chegamos à cozinha o Miguel tava com todo aquele ar inocente.

─Outra gracinha dessas e você vai ficar uma semana inteira sem brinquedos, entendido Miguel? – Hyoga disse aborrecido quando pegou o filho no colo.

Miguel ficou todo muxoxo que me deu até pena dele.

Terminamos de arrumar as coisas e saímos.

O Hyoga pegou a cadeirinha do Miguel e colocou no meu carro.

─Muito obrigado Shun, obrigado mesmo. — disse debruçando-se sobre minha janela e ficando bem proximo de mim.

─Não é nada demais Hyoga.

─É sim... Olha, tudo que você precisar, seja o que for, eu vou estar feliz em te ajudar.

─Sério? Até pra desovar um corpo?

─Bom, aí depende, se o motivo do assassinato for consideravel então posso até te ajudar a matar.

Rimos juntos com a suposição.

─Certo, certo, vou anotar isso, e te aviso se eu precisar desse tipo de ajuda.

─Tá.

─Bom, melhor eu ir. — eu disse.

─Eu também... Até mais tarde.

─Até.

─Tchau filho.

─Chau papa.

─Cuida bem do meu bebê viu Shun.

─Ok, ok.

Despedimo-nos, Miguel resmungou um pouco, mas quietou, Hyoga foi trabalhar e eu e Miguel nos dirigimos pro meu apartamento pra eu me arrumar.

...

Encontrei Misaki, minha editora, em uma mesa no mesmo restaurante que sempre que nos encontrávamos.

─Oi Misaki. – eu disse sorrindo pra ela.

Misaki é bem nova pra ser tão bem sucedida, tinha trinta e seis anos, jovial, alegre, sábia, e bonita também. Eu a conheço desde meus dezenove anos, ela investiu em mim e arriscou no sucesso do meu livro, sou muito grato a ela.

É a editora chefe do grupo Hitotsubashi, logo é muito importante, mas ainda assim é sempre simpática e animada com todos, conseguiu tudo devido ao esforço e dedicação, é um exemplo a seguir, eu a admiro muito.

─Oi Shun. – ela disse com uma expressão de duvida quando me viu com o Miguel. ─De quem é ele? – disse olhando pro Miguel.

─De um amigo... olha Miguel, essa é a Misaki. – eu disse e ele ficou olhando estranho pra ela com a mãozinha na boca.

─Oi Miguel. – ela disse sorrindo e chamando ele.

─hum, hum. – ele se agarrou em mim, mas Misaki não se importou.

─Tá trabalhando de babá agora Shun? – ela disse rindo.

─É que meu amigo não podia cuidar dele essa semana e também não conseguiu uma babá, então eu me ofereci pra ajudar.

─Só você mesmo heim Shun... mas ele é muito bonitinho, um é fofo. Já imagino como seja o pai. – ela disse apertando as bochechas do Miguel que ficou resmungando.

─Sô fofo. – ele apalpando as próprias bochechas. Misaki olhou pra ele e sorriu com ternura.

─Nem me fale.

─Humm, vi olhinhos brilhando, conte mais. – ela disse se sentando.

Eu chamei o garçom e pedi uma cadeira adequada pro Miguel, não demorou muito e ele trouxe.

─Não tem nada entre mim e o Hyoga, somos só amigos.

─Não é o que seus olhos dizem... é um daqueles da foto que você me mostrou?

─Sim, ele é um amigo de infância.

─Shu é migo do meu papa. Né Shu? – Miguel disse sorridente enquanto batia palminhas.

─É sim Miguel.

─É mesmo? Qual deles? – disse Misaki com curiosidade.

Peguei meu celular e mostrei uma foto antiga nossa.

─Esse loiro aqui. – eu disse passando o celular pra ela. ─É claro que ele está mais velho agora, mas não mudou muita coisa.

─Nossa! Ele é lindo. – ela disse e ficou um bom tempo olhando pra foto.

─Já tá bom né Misa. – eu disse pigarreando e pegando o celular dela.

─Ah, me deixa ver melhor... você tá igualzinho a essa foto Shun, não envelheceu quase nada, que injusto. – ela disse suspirando.

─Tô não.

─Tá sim, tá um fofo. – ela disse piscando pra mim, não pude deixar de rir.

─Fofo, fofo. – Miguel repetiu animado.

─Mas gente, esse Hyoga é um príncipe heim, e você ainda disse que ele não mudou quase nada? Vocês estão correndo contra as regras da natureza, deveria ser crime.

─rsrsrsrsrs, não tem nada de mais em nós Misaki. – ela é tão exagerada.

─Mas é sério, você escolheu bem dessa vez heim Shun... Yamato não vai gostar nada quando souber de você com esse loiro lindo. – ela disse piscando pra mim.

Yamato é meu assistente, é um estudante de administração, ele estagiava na Shueisha, nos conhecemos lá quando eu ia sempre a reuniões com Misaki. Acho que já tem um ano isso.

Ele tem vinte e quatro anos, é só um garoto, pelo menos pra mim, mas ele tem um jeito sério e calculista que o faz parecer mais velho, muitos acham que ele é até mais velho que eu, mas ele é até um pouco mais animado quando está comigo, apesar de Misaki viver me dizendo que ele é um tanto arrogante e que eu deveria parecer mais um chefe pra ele, mas eu não acho, gosto de ser assim, agir naturalmente com ele, até porque eu não acho que ficaria bem em um papel tão controlador e severo.

Eu não queria um assistente, mas quando ele me conheceu ele quis muito trabalhar comigo, até hoje não entendo o porquê de ele ter insistido tanto, mas resolvi contrata-lo, fora que ele disse que precisava de um emprego diurno pra ajudar em casa.

Ele é bem esforçado, me ajuda com minha agenda, marca reuniões, contata a editora geral, enfim. Ele é bem util, principalmente pra uma pessoa um tanto relaxada como eu.

Converso normalmente com ele, como se fosse um amigo, ele me conta sobre a familia dele o tempo todo, é prestativo, até me protege às vezes, pelo menos ele acha que sim, mal sabe que se eu quisesse poderia quebrar todos os ossos dele com um simples golpe.

Não gosto muito das pessoas me achando um fragil indefeso, mas minha aparencia não ajuda muito.

Os unicos que eu gosto que me tratem com tanta gentileza e delicadeza é o Ikki, e o... o Hyoga, eu sei, eu sei.

Mas não vou dispensar Yamato, gosto dele, é um cara legal.

─Para de graça Misa, lá vem você com essa historia do Yamato de novo, ele é só um amigo também.

─Ele é só um assistente, e que inclusive devia saber seu lugar, ele vive grudado em você ora, e por falar nisso, cadê ele?

─O dispensei essa semana, está cuidando de uns assuntos com a Jump Comics pra mim, e você só não gosta dele por que ele é um pouco sério demais.

─Ah, ele é um chato Shun, e ele aceitou bem essa semana afastado de você? Qual a desculpa você deu pra ele?

─Eu disse que estava tratando de assuntos familiares e ficaria longe por um tempo.

─rsrsrsrsrs boa, mas uma hora ele vai ficar sabendo desse seu loiro.

─Já falei que o Hyoga é só um amigo... ele perdeu a esposa faz pouco tempo.

─Nossa que pena.

─Pois é.

─Ele foi casado por quanto tempo?

─Uns cinco anos eu acho.

─E ainda tá bonito? Estranho, normalmente quando o homem se casa ele fica gordo e careca né. – ela disse rindo.

─É mesmo. Rsrsrsrs. — e tenho que concordar com ela, o Hyoga foge da normalidade mesmo.

─Vai tentar fisgar ele então?

─Eu não acabei de falar que ele perdeu a esposa?

─E daí?

─Daí que eu tenho consciência ora... e não viemos aqui pra falar dele né.

─Aff, você é muito certinho, devia tentar.

O garçom apareceu e pedimos o de sempre, fatias de torta de maçã.

Peguei a lista enorme do Miguel de novo, acho que eu vou mandar plastificar aquilo.

─O que é isso? – ela disse olhando pra aquela lista.

─O manual dele. – eu disse rindo.

─Nossa, o pai dele é protetor heim.

─Nem me fale.

Quando vi que o Miguel não era alérgico a nada pedi uma torta pra ele também, o Hyoga não ia saber mesmo.

Começamos a tratar de negócios, quando o pedido chegou começamos a comer. Deixei que o Miguel comece sozinho, achei que ele ia conseguir.

Misaki e eu continuamos conversando, quando eu olhei pro Miguel ele tava todo sujo de torta, e as roupa dele também, mas estava uma graça, todo animado, acho que ele não come muito dessas coisas quando está com o Hyoga.

─Ah droga, se sujou todo Miguel. – tentei limpa-lo com o guardanapo.

─Você não achou mesmo que ele ia conseguir comer sozinho né Shun. – Misaki disse em desaprovação.

─Vai ficar me criticando ou vai me ajudar Misaki? – eu disse aborrecido tentando limpar as bochechinhas do Miguel.

─Não tem lenços umedecidos? – ela disse pegando o Miguel da cadeirinha que resmungou um pouco, mas ficou quieto pouco depois, Misaki tinha jeito com crianças, afinal ela já teve três.

─Acho que sim. – lembro-me do Hyoga colocando um pote disso naquela bolsa.

É, ele tinha razão quando disse que eu ia precisar de tudo aquilo.

Entreguei os lenços pra Misaki e ela começou a cuidar dele com a graça de uma mãe. Sorri vendo aquela cena.

─Vai ter que trocar essa roupa dele, ele tá todo grudento. – ela disse enquanto o Miguel ainda se lambuzava no prato a sua frente.

─Eu tenho outra muda de roupa pra ele aqui.

─Que bom, o pai dele pensou bem, foi bastante atencioso... Se prepara que é só o começo, cuidar de criança não é tão simples como se imagina. – ela disse.

Enquanto ela falava o Miguel pegou o garfo do prato dela e começou a brincar com o bolo inacabado dela no prato a sua frente.

─É, eu sei, nem imagina o que esse menino me aprontou ontem.

─O quê?

Contei a ela o que Miguel me fez passar no mercado e todo o dia que passei com ele.

─Caramba, esse menino aprontou heim, essa carinha de anjo engana qualquer um, queria ter visto você nessa situação Shun, deve ter sido muito engraçado. – ela disse rindo.

─Hunf. Não tem graça. Ainda bem que aquela garota reconheceu meu nome, senão eu tava ferrado. – eu disse suspirando.

─Você contou pro seu amigo?

─Nem pensar, ele ia me achar um irresponsável.

─Ah, que exagero, você só se descuidou um pouco, acontece com qualquer um... fora que ele pode acabar indo naquele mercado com o garoto de novo e pode acabar descobrindo.

─Não enquanto eu puder evitar.

─Conta com a sorte.

─Ah, quase me esqueci de coisa que eu preciso falar com você Misaki.

─O que?

─Você tem influencia com vários jornais da capital não é?

─Tenho.

─Poderia providenciar que publiquem um anuncio pra mim?

─Sobre seu livro? Já falei que a divulgação vai ficar por conta da Shueisha Shun.

─Não, é outra coisa, é um anuncio comum, é que eu não sei direito como funciona isso... eu queria um anuncio de uma vaga de emprego.

─Ahh, mas pra que?

─De babá, pro Miguel, falei pro Hyoga que trataria dessa parte por ele, é que ele não tem tempo.

─Isso é bem simples, só preciso de uma ligação. – ela disse pegando o celular sorrindo.

Ela fez uma simples ligação e falou por um tempo me pedindo detalhes vez ou outra.

─Já? Que rápido. – eu disse quando ela finalizou a ligação.

─Esqueceu quem eu sou Amamiya? – ela disse cheia de si.

─Tá, sei... pra qual jornal você ligou?

─Mainichi Shimbun.

─É sério? Nossa! É um excelente jornal.

─Eu sei, eu sei, sou o máximo. – ela disse rindo.

─Muito obrigado Misa, me ajudou muito, e quanto ao custo?

─Não se preocupe com isso, eles me devem um favor. – ela disse piscando.

─Obrigado mais ainda.

─E então. Quando vou conhecer esse seu amigo?

─Shu, Shun. воды. – Miguel ficou perturbando.

─O que ele quer?

─Não sei, o que foi Miguel?

─ воды. воды . – disse ficando irritado.

─Espera, fala devagar Miguel. – eu disse calmamente pra ele.

─ воды. – falou mais alto.

─Ah, é agua. – incrivelmente eu entendi. Peguei um copo de agua e dei pra ele que pegou com as duas mãozinhas os copo d’agua e bebeu com gosto.

─Ele tá com sede heim.

─É.

─Ele fala muito enrolado. – disse Misaki estranhando.

─Ele fala muitas coisas em russo, mas eu entendo um pouco, desde o tempo que eu convivia com o Hyoga.

─Ele é russo?

─Sim.

─Por isso ele fala enrolado, e ainda mais pra uma criança de... quantos anos ele tem mesmo?

─Vai fazer três anos mês que vem. – eu disse me lembrando do que o Hyoga disse.

─Sério? – ela disse sorridente. ─O que você quer de presente Miguel? – ela disse afagando os cabelos dele.

─ торт Misa. – ele disse ainda brincando e mostrando o boneco dele pra ela, parecia bem mais a vontade com ela.

─Hum?

─Bolo. – eu disse.

─Ah... boa escolha heim, vou te dar um de chocolate. – ela disse balançando as pernas e remexendo o Miguel no colo dela que ficou todo animado.

─Ele tem uma boa memoria né? Lembrou rapidinho do meu nome.

─Verdade, ele é muito esperto.

─E então? Quando vou ver esse seu novo namorado? Já gostei do filho, agora falta o pai.

─Ele é meu amigo. – eu disse aborrecido com a teimosia dela. ─E acho bem difícil encontra-lo, ele tem pouco tempo livre.

─O que seu namorado faz?

─É meu amigo... ele é médico.

─Uhh, olha só, Shun Amamiya tá podendo heim. E ainda por cima com um médico, evoluiu bastante desde o Hayato.

─Nem me lembre desse idiota. – eu disse melancólico e Misaki percebeu.

─Ainda pensa muito nele não é? – ela disse colocando o Miguel na cadeira de novo.

─Não muito agora. – eu disse com um sorriso numa mistura de triste com esperançoso.

─Ah, eu sabia, o tal Hyoga mexe com você mesmo.

─Não diga bobagens Misaki. Ele tinha uma esposa, ele é hetero.

─Isso não impede ninguém.

─Tá, tá Misa, acho melhor eu ir logo antes que você invente de planejar meu noivado.

─rsrsrsrs. Tá bom, vou parar... e você? Já começou o manuscrito?

─Bom... – eu disse enrolando.

─Shun, tem que terminar ao menos a sinopse.

─Tá bom, vou trabalhar nisso hoje, é que eu não tive tempo, eu estava com o Miguel ontem.

─Tem que falar pro Hyoga que o Miguel tá te atrapalhando.

─Miguel não me atrapalha, ele é quieto, só se emburra às vezes, mas a maior parte do tempo ele fica na dele.

─Então como não teve tempo ontem?

─Tive uns contratempos, mas de hoje não passa, prometo.

─Tá bom, me liga quando enviar.

─Tá... acho que tá na hora, você sabe quando o anuncio vai ser publicado?

─Amanhã.

─Ok... vou começar o manuscrito então.

─Boa sorte, se bem que você vai ter uma grande inspiração com esse Hyoga por perto né. – ela disse fazendo graça.

─Não inventa Misa.

─Tá, tá.

Despedimo-nos e eu fui pro meu apartamento pra arrumar umas coisas. E o Miguel até que gostou de Misaki.

Estávamos no começo de agosto, no verão, onde o clima é extremamente quente e úmido, por causa da temporada de chuvas. Por isso estava com uma leve garoa quando saímos do restaurante.

Olhei pro Miguel lá atrás pelo retrovisor, e ele estava tão quietinho abraçado com o boneco dele enquanto olhava pela janela que eu até estranhei.

─Miguel? – ele me olhou sério e virou o rosto de novo me ignorando. Aff, garoto da lua.

Quando chegamos ao meu apartamento eu coloquei o Miguel no sofá e liguei a televisão pra ele, e ele ficou brincando com o boneco dele e fazendo barulhinhos.

Hum, melhor assim. Fui arrumando algumas coisas, meu apartamento estava uma desordem, organizei algumas coisas e fui arrumar minha mochila com meu laptop pra voltar pro apartamento do Hyoga e trabalhar, isso e algumas mudas de roupas e uns itens pessoais, acho que não terei que voltar aqui tão cedo, é minha casa, mas a casa do Hyoga parecia bem mais aconchegante agora.

O Miguel entrou todo desconfiado no meu quarto enquanto eu arrumava minha mochila, fingi que não vi pra ver o que ele ia fazer, e era até adorável ver aquela pessoinha passeando pelo meu apartamento, todo curioso, entrando onde podia.

Até que ele viu dois porta-retratos na minha cômoda, logo reconheceu.

─Papa, papa. – ficou tentando pegar o retrato na pontinha dos pés, e depois olhou pra mim e eu peguei ele no colo e sentei na cama com os retratos em mãos e mostrei pra ele.

Eram três porta-retratos que eu tinha ali, um de nós seis juntos, bem antiga aquela foto, até meu irmão estava conosco, Shiryu no canto esquerdo, Saori do lado do Seiya, o Hyoga com o braço apoiado no ombro do Seiya, e eu ao lado do Hyoga e do Ikki. Todos sorridentes... que nostalgia boa.

Tinha outro porta-retrato de mim e do Ikki, e outro de mim e do Hyoga, ele estava sentado numa poltrona na sala da mansão com um livro na perna, e eu estava ao lado dele no braço da poltrona, foi Saori quem tirou.

Agora que eu percebi que sempre guardei aquela foto com tanto carinho, mas era um dos únicos retratos em que eu estava sozinho com alguém, e era uma foto muito especial pra mim, porque eu nunca percebi isso? Porque nunca percebi que sempre via Hyoga com um carinho tão especial?

─ папа. – ficou olhando pro retrato todo sorridente e apontando pro Hyoga na foto.

─Sim, seu pai. – olhei melhor aquela foto de nós dois juntos.

Lembro claramente daquele dia... Todos estavamos na sala.

Seiya e Shiryu dividiam um sofá grande. Seiya tagarelava sem parar coisas que só faziam sentido na cabeça dele, mas que Shiryu ouvia tudo que ele dizia só pra corrigi-lo. Acho que esses dois foram irmãos em outra vida.

Eu estava sentado no chão e apoiado na mesa de centro escrevendo outro texto de ideias no meu caderno, o Ikki fazia umas palavras cruzadas numa poltrona ao meu lado e o Hyoga estava no lado oposto da sala lendo um dos livros da coleção imensuravel dele.

Eu tinha uma grande inveja daquela coleção, só pra começar ele tinha umas duas estantes lotadas no quarto dele, porém os livros mais valiosos dele ficavam dentro do guarda-roupa e até envoltos em plastico só pra manter conservados, ele era muito criterioso nesse sentido, mas mesmo assim não deixa de ser exageradooo.

Hyoga lia bastante, e de tudo, ficção, drama, aventura, romance, comédia, tragedia. Nem sei como ele consegue, mas alguns dos livros dele eram rarissimos, tanto que ele até impedia que Seiya entrasse no quarto dele com medo do estabanado bagunçar alguma coisa ou danificar algum item da sua inestimavel coleção, é claro que eu tinha acesso livre naquele quarto, por isso me interessei tanto por literatura, mas eu fui muito mais alem que o Hyoga, fui alem da leitura e passei a criar as minhas proprias historias, é bem interessante contar algum ponto de vista, é como se fosse um diario também, ou sonhos, fantasias.

E ele me deu grande parte daqueles livros antes de partir, inclusive aumentei aquela colação mais ainda, estão todos nas minhas varias estantes no meu escritorio.

Uma grande quantidade dos livros dele era em outros idiomas, principalmente em russo, ingles, grego, francês e alemão e todas eram linguas que o Hyoga era familiarizado e falava fluentemente, muito impressionante, ele sempre foi muito bom com idiomas.

Eu nunca fui tão bem dotado quanto ele, por isso não li todos os livros daquela coleção, pois só metade era de livros japoneses. Não é pra menos que ele é tão inteligente, e sempre foi o mais autodidata de todos nós, assim até eu gostaria de ter sido pupilo de Camus, mas eu sempre me esforçava e aprendia rápido, ele me ajudava bastante.

Por isso todos os textos com ideias que eu escrevia eu pedia pra ele avaliar, ele corrigia alguns erros simplorios, mas fico feliz que ele sempre tenha parabenizado minha criatividade e sempre me deu incentivo pra continuar, dizia que eu tinha muito talento.

Não é pra menos que eu considerava muito a opnião dele.

Com o tempo eu fui melhorando bastante, sempre com a ajuda dele, que também foi me ensinando linguas, apesar de ele não ter me ensinado russo eu fui aprendendo aos poucos, pois boa parte do que ele falava quando não queria que ninguem entendesse era em russo. Então eu ficava curioso pra saber o que ele dizia.

Não foi surpresa descobrir que boa parte do que ele dizia eram insultos.

Normalmente eram em momentos que Seiya estava por perto dizendo alguma bobagem, e é claro que pro meu irmão também.

Ele não sabia que eu entendia, e nem quero que ele saiba, era engraçado ver o Hyoga que sempre foi um poço de calmaria se mostrar irritado, e ele sempre mostrava uma expressão tão imparcial e neutra que o pobre do Seiya nem imaginava que estava sendo ofendido.

Mas é claro que com meu irmão não dava certo, já que Ikki era mais esperto, então ele podia não entender do que estava sendo xingado, mas sabia que estava. Assim que surgia boa parte das brigas deles.

─Daí ele se jogou por cima do alto da cabeça do monstro disparando lases que fizeram vários buracos nas costas do monstro jogando sangue roxo pra todo lado. — dizia o Seiya todo animado contado seja lá o que for pro Shiryu, um filme que ele viu ou alguma bobagem que ele mesmo inventou.

Shiryu ouvia tudo sorrindo.

O Ikki nem parecia que estava na sala de tão concentrado que estava naquelas palavras cruzadas.

O Hyoga estava sentado com as pernas cruzadas e com o livro na frente de seu rosto, por um breve momento ele olhou pra Seiya e Shiryu por cima do livro e murmurou bem baixinho em russo, mas que eu pude ouvir e interpretar um pouco.

Idiota tagarela eu acho. Com certeza ele estava falando do Seiya.

Não pude evitar um riso, olhei pro Seiya que sequer percebeu, depois voltei minha atenção pro Hyoga de novo e levei um susto quando vi que ele estava me olhando também.

Ele baixou o livro e pude ver que ele sorria, um sorriso divertido, raro em se tratando dele.

Depois ele ficou abrindo e fechando a mão como que pra dizer que o Seiya falava demais.

Eu ri mais ainda.

Ele olhou pros papeis que eu escrevia tanto, eu fiz sinal que era uma nova historia, ele entendeu, fiz outro sinal perguntando se ele queria ver e ele acenou de novo que sim.

Era assim que nos comunicavamos às vezes, ninguem percebia nossos gestos, e sempre entendiamos um ao outro sem muitas palavras.

Me levantei e fui até ele e sentei no braço da poltrona entregando as folhas.

─Terminou aquela outra? – ele perguntou.

─Sim, te passo mais tarde, essa é outra, olha o começo.

─Hm. – ele leu por um tempo. ─Tá legal, muito bom...

Quando menos esperamos vimos um flash, era a Saori.

─Que bonitinhos vocês estavam. – ela disse sorrindo.

─Quando foi que você apareceu aí Saori? – eu disse ainda surpreso pelo flash.

─Agorinha. – ela disse com um sorriso jovial.

─O que é tão bonitinho aí Saori? – disse o Seiya enciumado voltando a atenção pra nós.

─Eles dois. – nós só nos olhamos e rimos balançando a cabeça.

─Eu que sou bonitinho. – Seiya disse fazendo bico.

─Sim Seiya, você é... – ela disse rindo. ─Agora olhem pra cá e sorriam. – ela disse com a camera virada pra nós de novo e bateu outra foto.

─Essa vai pro album. – ela disse sorrindo e indo até Ikki que continuava fazendo as palavras cruzadas e alheio a tudo, ele levou um susto quando ela tirou uma foto dele também e ficou resmungando.

Depois ela foi tirar outra do Shiryu e do Seiya.

Pedi aquela foto de mim e do Hyoga pra ela depois, e tenho guardado desde então.

Hyoga era meu melhor amigo naquela época.

Eu olhei pra ele sorrindo, ele tinha um sorriso muito bonito, não nego que sempre notei isso, isso e muitas outras coisas nele com o passar do tempo e convivencia.

Já estavamos bastante unidos nessa epoca, sempre que Ikki não estava era o Hyoga que me fazia companhia, ele deixava o que quer que estivesse fazendo só pra que eu não me sentisse solitário, mas quando todos estavamos reunidos e ele via que não precisava se preocupar comigo tanto assim eram as vezes que ele partia pra Sibéria pra ver a mãe dele.

Eu queria ir até lá e fazer companhia pra ele também, retribuir o favor, mas algo me dizia que ele queria ficar sozinho nesses momentos com a mãe, e eu não estava no direito de tirar isso dele.

Ele não é como eu, sempre foi independente, mas também reservado, quieto, nunca brincou muito, nunca foi de falar muito também, sempre na dele, e eu adorava aquele jeito enigmatico, acho charmoso, e nem era proposital da parte dele, mas Hyoga parecia sempre tão triste, é até intrigante eu ver beleza em algo triste, pode até ser exagero meu acho que esse ainda era o lado sombrio de Hades quando ele estava em mim, mas não posso ignorar que esse era sim um lado chamoso do Hyoga, acho que ele gostava de ficar sozinho, porém sempre abria uma excessão comigo, provavelmente por me considerar um irmão.

Embora eu e Seiya fossemos os mais novos do grupo sempre era eu a ser mimado, e rodeado de atenção, não entendo o porquê, mas não questiono, até que gosto disso, principalmente quando essa atenção vinha do Hyoga.

Ver Hyoga um tanto triste me entristecia também, mas acho que era assim que deveria ser, era como uma forma de equilibrar o universo, equilibrar nossas relações, idiotice eu sei, mas eu sou animado, e quando eu me juntava a ele, eu o animava também e eu me sentia util pra ele, é algo que eu não consigo explicar, não imaginava que outra pessoa pudesse fazer Hyoga rir tão livremente e espontaneamente a não ser eu, ideia bastante pretenciosa eu sei.

Continuei a olhar pra ele, calmo, espontaneo, momentos assim eram mais frequantes agora que as guerras acabaram, e todos nós estavamos mais relaxados. Enfim férias, e estavamos dedicados aos estudos. Hyoga e Shiryu estavam com quinze e eu e Seiya com catorze, meu irmão com dezeseis.

Sempre juntos, e no meu caso era mais com o Hyoga. Não pensem besteira, naquela epoca eu ainda não tinha segundas intensoes com meu amigo. Ele era só um amigo, e eu ainda estava descobrindo minha opção sexual, até levei um tempo pra entender, tempo prolongado em anos pra falar a verdade, pois eu estava muito confuso.

Eu tinha curiosidade, e mesmo antes das batalhas acabarem eu já tinha dado meu primeiro beijo, e o Hyoga pode até não saber, mas foi com ele.

Foi quando o salvei na casa de libra, ele estava lá desacordado em meus braços, então não achei nada de mais experimentar, não entendam errado, eu não estava apaixonado por ele, só estava curioso.

Mas não foi nada impressionante, ele estava desacordado e praticamente congelado, e não é tão excitante beijar alguem que não corresponde e que ainda por cima estava com a boca gelada, foi como beijar um cubo de gelo, literalmente, mas até que gostei da ideia de ter encostado meus lábios nos do Hyoga.

Depois que tudo aquilo passou decidi não dizer nada disso a ele, eu não ia ganhar nada com isso mesmo, e com certeza se eu contasse deixaria as coisas estranhas entre nós, e afinal ele não foi meu primeiro amor, até porque eu já mencionei que nunca amei ninguem, tão pouco estive apaixonado por ele naquela epoca, só curiosidade, só isso.

O estranho é que foi meu primeiro beijo, e ainda por cima com um garoto, e eu não achei aquilo esquisito, nem repulsivo, foi quando passei a pensar melhor na forma como eu via as mulheres e não as via mais como unica opção.

Não que eu não as ache atraentes, afinal qual homem não repara num belo par de seios e pernas? Sou homem ora.

Mesmo quando Hyoga partiu meu interesse por rapazes ainda ia crescendo, primeiro procurei sair com algumas garotas, e nem entendo essa ficsação delas comigo, afinal tenho que admitir que minha aparencia não seja tão mascula, sou diferentissimo do Ikki, e sempre achei que as mulheres se ligassem naquela figura de macho alfa, isso é cientificamente comprovado, as mulheres sempre escolhem o mais forte, por isso não entendo a atração delas por mim.

Depois passei a sair com homens, e acrescento também que foi bem mais interessante do que sair com mulheres, ser tocado de uma forma diferente, mais prazerosa, assim com o tempo fui perdendo meu interesse por garotas.

Me lembrar do Hyoga traz também as recordações de quando passei a me interessar por homens.

Fiquei olhando aquele retrato por um bom tempo, era muito bom lembrar esses momentos. Só depois de um tempo que eu percebi o Miguel inquieto no meu colo, soltei ele na minha cama e voltei a dobrar umas roupas, ele chegou mais perto e ficou malinando em tudo.

Quando terminei de arrumar tudo, que demorou um pouco por causa do Miguel que ficava colocando um monte de coisas desnecessárias na minha mochila, e me dirigi pro apartamento do Hyoga, por alguma razão ficar perto de coisas que me faziam lembrar do Hyoga e do Miguel me animavam.

No caminho passei na livraria, sempre com o Miguel, e aquela chuva fina ainda caia.

Comprei a coleção dos meus livros, é estranho comprar meus próprios livros passando despercebido, mas eu não gosto de chamar atenção, um tanto contraditório com a evolução de fãs que minhas criações têm alcançado, mas ainda não me acostumei com tanta atenção, até porque eu quase não fiz lançamentos com distribuição de autógrafos em livrarias, umas duas ou três vezes apesar de Misaki ter me pressionado a aparecer mais, mas ainda assim é um pouco desconfortável.

Miguel continuava quieto, o que será que ele tem?

Quando cheguei no apartamento do Hyoga, arrumei os livros com uma fita vermelha, pra ficar com ar de presente mesmo, tomara que ele goste.

Deixei o Miguel na sala e fui preparar alguma coisa pra ele, estranho, ele tava todo animado no restaurante e agora tá tão quieto.

Fiz um suco e levei pra ele na sala, ele pegou e ficou bebendo devagar lá no sofá, parecia desanimado e vivia passando a mãozinha no nariz.

Hum, parece triste.

Deixei ele brincando e comecei a trabalhar, por incrível que pareça eu já estava mesmo bastante inspirado como Misaki disse, será que é por causa do Hyoga mesmo?

Digitei várias páginas, algumas ideias avulsas sem parar, procurei ignorar minha obvia motivação pra escrever tudo aquilo.

Quando dei por mim já tinha escrito umas vinte folhas. Olhei a hora e vi que já era um pouco tarde, e o Miguel ainda estava quietinho sentado no sofá assistindo uns desenhos.

Tratei de preparar a comida dele e a minha, ainda bem que agora temos suprimentos.

Meia hora depois.

─Quer comer Miguel? – eu disse me aproximando dele que tinha deitado no sofá todo encolhido.

Ele me ignorou e afundou a cabeça na almofada passando a mãozinha no nariz. Aquilo me preocupou, ele não tinha ficado tão quieto assim nenhuma vez até então.

─O que você tem? – eu disse pegando o bracinho dele.

Assim que o toquei vi que ele estava quente.

─Você está com febre Miguel. – eu disse puxando ele de vez pro meu colo, tava todo mole e com as bochechas e o narizinho vermelhos.

Ele só se encolheu mais ainda em mim. O que eu faço? Qual a causa dessa febre? Imediatamente peguei meu celular e selecionei o numero do Hyoga, mas se eu dissesse a ele como o Miguel estava logo ele ficaria preocupado e viria correndo, e eu nem sei se é muito grave, talvez seja algo que eu posso cuidar sozinho, não quero alardear o Hyoga a toa.

Fiquei um tempo ali com ele sem saber o que fazer. Minha preocupação só aumentava.

Já sei, vou ligar pra Shunrei, já mencionei que ela é enfermeira? Com certeza ela deve saber o que fazer afinal ela é mãe também. Assim que chamei ela atendeu.

─Oi Shun.

─Shunrei, preciso de você! – eu disse de imediato.

─Calma! O que houve? – ela disse preocupada.

─É o Miguel. – eu disse exaltado.

Miguel estava de olhos fechados no meu colo fungando, bem mais quieto ainda, fui pra cozinha e peguei agua pra ele, mas ele não quis beber.

─O Miguel? O filho do Hyoga?

─É, eu tô ajudando o Hyoga a cuidar dele essa semana.

─Ah tá.

─Mas o Miguel não tá bem, ele tá febril e eu não sei o que é. O Hyoga tá trabalhando agora, e eu não sei se ligo pra ele. Você é mãe, tem alguma ideia do que seja? Tem alguma coisa que eu possa fazer? Eu chamo o Hyoga? É que eu não quero preocupa-lo a toa sabe. Será que eu levo o Miguel ao hospital? Será que é grave? Será que é preciso internar? Oh meu deus, será que vai ser preciso operar? Céus, ele vai precisar de transplante. Vou ligar pro Hyoga. – eu disse apressado.

─Calma Shun, deve ser só uma indisposição, já deu agua pra ele?

─Ele não quer beber, tá tão quieto que eu já tô com medo.

─Ele comeu alguma coisa que não devia?

Imediatamente eu me lembrei da torta.

─Não sei, acho que foi uma torta que eu dei pra ele.

─Ele é alérgico a alguma coisa?

─Ele é alérgico a uma penca de coisas.

─Hm. Os lábios dele estão avermelhados ou inchados? A respiração dele está ofegante?

─Não, ele só tá quietinho, é isso que está estranho ele nunca é tão quieto assim. – eu disse olhando pra ele no meu colo.

─Então não é alergia... Deixou ele pegar sereno?

─Bom... – será que foi a hora que eu entrei e sai do carro com ele naquela garoa? ─Acho que sim. Mas é pra ficar assim mesmo?

─Toda criança é diferente Shun, algumas choram, fazem um escândalo, e outras simplesmente ficam muito quietas, crianças pegam resfriados o tempo todo.

─Mas o Miguel não pode ficar doente, não ele.

─Claro que pode, ele é uma criança completamente normal, quer ver? Liga aí pro Hyoga e ele vai te dizer a mesma coisa.

─Se ligar pro Hyoga fosse uma opção eu já teria feito isso né Shunrei.

─Aff, e o que é que tem?

─Ele vai me matar por ter deixado o Miguel ter pego um resfriado.

─Para de drama Shun, tá pior que o Shiryu, quando Akira ficou doente ele faltou levar o menino correndo pro hospital, e olha que o Akira só tinha tossido.

─Tá, tá, mas o que eu faço?

Com muita paciência ela me explicou os procedimentos pra cuidar do Miguel.

Por sorte não era grave, fiquei tão aliviado, não quero vê-lo doente nunca. Fui a farmácia com ele, afinal eu não podia deixa-lo sozinho no apartamento.

Ele tomou o remédio e o fiz comer um pouco, ele ficou a tarde inteira adormecido no meu colo, acho que por causa do remédio.

Aproveitei a tranquilidade e enviei logo minha sinopse pra Misa, mas sempre ao lado do Miguel, por alguma razão eu mudei o tema original e me inspirei em minhas novas experiências com ele. Eu realmente estava animado com os resultados.

Acho que era um dia pra me fazer pensar na vida, já que aquele dia estava seguindo com aquela chuva fraca que se arrastava por horas, e isso me incita a pensar mais.

Meus pensamentos vagam tanto que eu acabo pensando na possibilidade de como seria se o Miguel também fosse meu.

...

Chegou a penumbra e o Hyoga ainda não tinha chegado.

Por sorte Miguel acordou muito melhor e agora até estava brincando.

Fiquei até as seis esperando o Hyoga chegar, tinha alguma coisa errada, ele nunca se atrasa, comecei a ficar preocupado andando de um lado pro outro. Liguei pro Hyoga, mas ele não atendia.

Dei banho no Miguel, fiz o jantar dele, e ele ficou resmungando o tempo todo chamando e pedindo pelo Hyoga, choramingou, até chorou.

Quando deu sete e meia o Hyoga ligou pro meu celular.

─Oi Shun.

─Hyoga, graças a Zeus, já tava pensando besteira, onde você está?

─Estou bem, não se preocupe, ainda estou no hospital, desculpe não ter ligado antes e nem atendido quando você ligou, é que eu realmente estava ocupado em meio uma cirurgia.

─Ah tá.

─Liguei pra avisar também que vou chegar tarde, me desculpe faze-lo ficar aí até tão tarde.

─Tudo bem Hyoga.

─Como está o Miguel?

─Ele tá bem, já tomou banho e comeu, está brincando agora.

─É mesmo? — ouvi um sorriso dele. ─Deixa eu falar com ele.

─Tá... Oh Miguel. — eu o chamei, ele estava perto de mim no sofá. ─Seu pai Miguel. — eu disse e ele abriu um sorriso de orelha a orelha.

─Papaaa. — disse todo feliz pegando o fone com as duas mãozinhas, coloquei no alto-falante antes de passar pra ele.

─Oi meu bebê, como você está? — Hyoga disse.

─Bom papa, eu tava resfiado e o Shu cuidou de mi. – droga Miguel me entregou.

─O quê? – a voz do Hyoga mudou rapidamente, sua preocupação era quase palpavel.

─Eu já tô bom papa. O Shu fez mida pa mim. — Miguel falou.

─É mesmo? E você comeu tudo? – ele disse, mas ainda tinha o tom preocupado.

─Tutu, tutu.

─Que bom, que bom.

─Vem pa casa papa.

─Papai vai chegar um pouco tarde filho.

─Nooo papaaa. — ficou choroso de repente.

─Não chora... Quando eu chegar fico com você, tá bom.

─Tá. — disse com vozinha de choro.

─Te amo meu bebê.

─Amo papa tabem.

─Agora passa pro titio Shun tá.

─Tá. Beju — disse e passou o fone pra mim.

─Ele pegou um resfriado? – Hyoga disse bem antes de eu pegar o telefone.

─Ele já está melhor, fui na farmacia e comprei remedios pra ele.

─Que remedios são esses? Quem receitou? Devia ter me ligado Shun.

─Calma Hyoga, eu liguei pra Shunrei pra não te peocupar, e ela me ajudou muito.

Ouvi ele suspirando.

─Tá bom, Shunrei sabe o que faz... mais tarde conversamos.

─Tá. — digo já imaginando meu confronto com ele na tentativa de explicar que realmente fui descuidado.

─Você ia sair hoje a noite? — Hyoga disse.

─Er, não. Porque? Que horas você chega?

─Vou chegar tarde, por volta das dez.

─Dez?!

─É, foi mal, tenho muito trabalho.

─Tudo bem, eu ia passar a noite aqui com vocês mesmo.

─Obrigado mesmo Shun.

─Por nada Oga, amo ficar com o Miguel... E você já comeu alguma coisa hoje?

─Não, mas sem problemas.

─Como assim sem problemas? Vou preparar o jantar pra você.

─Não precisa Shun.

─Quieto. Vou preparar e te esperar.

─Não precisa, você deve estar cansado também. Descanse.

─Já falei. Nos vemos mais tarde então Oga.

─Ok. Até mais tarde Shun.

─Até.

Fiz o jantar e acabei comendo sozinho.

Fiquei com o Miguel, brincamos, assistimos TV.

Quando deram umas nove horas ele começou a ficar quieto e sonolento, então eu o peguei no colo e ele prontamente veio pra mim, comecei a aninha-lo, mas ele não dormiu.

Fui pro quarto dele e coloquei o pijama em sue corpinho, e ele ficou lá deitado olhando pra mim.

─Cadê meu papa?

─Ele vai demorar um pouco Miguel, mas mesmo assim você tem que dormir.

─Hum, hum. Só com papa.

─Mas você tem que dormir.

─Conta uma история pa mi, Shu?

─Uma historia?

Ele acenou que sim.

─Bom, er... como eu começo?

─Do começo. – menino esperto.

Não conheço nenhuma historia de criança, acho que vou ter que inventar.

─Bom... era uma vez, um principe que de chamava Hyo.

─Hyo, igual meu папа (papai)?

─É, mais ou menos... Ele vivia na terra de gelo.

─Onde fica Shu?

─No gelo.

─Mas onde?

─Já falei, no gelo.

─Lá na minha домой (casa) tem лед(gelo). É lá Shu?

─Muitos lugares tem gelo Miguel. – me surpreendi pela rapidez com que eu o estava entendendo.

─é? Lá em casa enton?

─Tá, pode ser lá... então, bom... ah, isso não tá dando certo. Você quer ouvir uma musica no lugar da historia?

Ele sorriu abertamente.

─Bom, qual eu canto? Também não conheço nenhuma canção de ninar. – olhei pro relogio e já eram nove e meia, acho que ele só dorme com o Hyoga por perto mesmo, vou ter que continuar a distrai-lo.

Peguei meu celular e comecei a procurar alguma musica pra cantar pra ele.

─Hum, que tal Yokan? – eu disse sorrindo pra ele que não entendia nada.

Coloquei pra tocar e comecei a estalar os dedos pra dar o clima, ele até levantou e ficou sentado me olhando ansiosamente.

Pigarreei e comecei a cantar junto com a melodia.

Honno sukoshi demo hakidashite hoshii

Kono te de uketomeruyo

Totemo tsuyogari na kimi no koto dakara

Mata nanika wo kakusou to shite nee

Tashika na yokan

(Mesmo que seja um pouco, eu queria que você me mostrasse o seu eu verdadeiro.

Eu irei aceitar com essas mãos.

Você está sempre se esforçando,

Por isso, você deve estar escondendo alguma coisa de novo.

Sim, deve ser isso.)

Parei de cantar e fiquei olhando pra ele todo sorridente e tentando repetir o que eu disse. Sorri pra aquela figura tão adorável. Isso me motivou a colocar mais entusiasmo ainda na musica.

A melodia continuou e eu voltei a acompanhar fazendo gestos como se tocasse uma guitarra com grande ímpeto, e ele ficou de pé e começou a me imitar.

Tsukanda sono te wo nigirishimete

Hashiri dashita yukuate mo naku

Tada boku no kokoro no naka ni ite

Itsumo soba de mimamoru kara

(Eu segurei a sua mão com força

e comecei a correr, sem nenhum lugar em mente

Por favor, permaneça no meu coração,

porque eu sempre irei cuidar de você, sempre)

Até repeti o refrão pra ele, que ficou batendo palminhas mais animado ainda. Imagina se o Hyoga me visse agora, eu iria enfiar minha casa na terra se fosse possível, de tanta vergonha, mas com o Miguel eu me sinto tão mais a vontade e posso me soltar e agir sem medo de qualquer represália.

Aquela musica não era a melhor opção pra uma canção de ninar, mas sempre gostei dela, era envolvente e queria dizer tanto.

Olhei pra ele animado daquele jeito, tão perfeito, sinto que pertenço a esse lugar, que sou extremamente necessário aqui, que sou útil pra essa criança perfeita, que me encho de uma grande motivação. Pois como dizia a musica: eu sempre irei cuidar de você, sempre. Porque você é importante pra mim Miguel. E essa importância tem crescido desde que me tornei mais do que um amigo de seu pai, me tornei algo bom só pra você.

Donna toki mo hanare wa shinai yo

Tachidomarazu kowagaranai de

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Kimi ga moshi mo furimuita toki wa

Bokura kitto warai aou

(Eu nunca vou lhe deixar, não importa quando

Por isso, não pare e não tenha medo

Quando você se virar e olhar para mim

Nós com certeza estaremos olhando um para o outro)

Parei de cantar e ele me aplaudiu de uma forma que transmitia tanto carinho. Encenei um agradecimento como se eu estivesse diante de um grande publico, e na verdade eu estava mesmo.

Aquilo tudo tinha um significado cada vez maior pra mim, meus sentimentos por esse garoto tem crescido tanto e em tão pouco tempo que já sinto que tenho o dever de nunca deixa-lo.

Vê-lo tão envolto em minha alegria assim como me envolvo na simples alegria dele, nesse sentimento infantil e puro que essa criança tem em seu coração repleto de amor e acho que posso pegar uma parte desse amor pra mim, não só porque sinto que mereço, mas que também estou dependente dele agora.

Em apenas dois dias... Como foi que ele garoto se tornou tão importante pra mim? Me preocupei tanto com ele hoje. Quando foi que passei a me importar tanto?

Escuto meu coração e me dou conta que aquilo deve ter significado mais pra mim do que pra ele. Definitivamente estou fazendo parte disso...

Acordo de meus pensamentos quando ouço aplausos atrás de mim e levo um susto quando me viro e vejo Hyoga encostado no batente da porta com um sorriso jovial.

─Está de parabéns. – ele diz com um grande sorriso. ─Eu não podia ter feito melhor.

Fico tão sem graça olhando de um lado pro outro e com um sorriso besta que nada quer dizer.

─Eu só estava... – realmente sinto vontade de enfiar minha cara na terra nesse momento.

─Animado. – ele completa passando por mim e dando um tapinha gentil em meu ombro.

─Papaaa. – Miguel se anima quando Hyoga se aproxima dele.

Hyoga o pega no colo dirigindo a ele um grande abraço amoroso que eu gostaria que ele também dividisse comigo, mas não me surpreendo que ele só dê atenção ao filho agora, é o momento deles, e digamos que Hyoga sempre foi mesmo um tanto avarento na distribuição de seu afeto. Então não espero nada dele.

─Ele está um pouco febril. – ele comenta. ─Como isso aconteceu?

─Bom, é que quando eu sai com ele começou uma garoa.

─Hum. ─me olhou brevemente. ─Que bom que cuidou bem dele, mas você deveria ter me ligado Shun.

─É, desculpe, não queria te preocupar, imaginei que estivesse muito ocupado.

Eu disse sem jeito e ele apenas sorriu, não consigo interpretar quase nada nesses sorrisos enigmáticos dele.

─Tudo bem. – ele disse. ─Desculpe pelo atraso. – apenas acenei sorrindo pra ele.

Fiquei confuso, embora a procupação dele seja evidente, mas ele não perguntou mais nada. Escolheu confiar em mim?

Ele ficou com o Miguel nos braços, o menino murmurava coisas, dizia seu dia, e o Hyoga concordava e fazia perguntas simples pra deixar o filho cada vez mais distraído e assim adormecendo aos poucos.

Sai do quarto. Depois de um tempo eu voltei sorrateiramente.

Vi que ele já tinha colocado Miguel no berço, estava de olhos fechados e murmurava alguma coisa com uma mão na testa do Miguel, fez um sinal de cruz no filho e tirou o rosário que tinha no pescoço e colocou apoiado em cima da cabeceira do berço do Miguel.

Depois disso ficou ali olhando ternamente pro filho.

Hyoga era cristão, mas eu sempre achava estranho quando ele demostrava isso.

Fui pra varanda e fiquei ali vendo a cidade e pensando no Hyoga, quando ouço o barulho da porta de vidro se abrindo.

─Noite agradável não acha? — ele disse vindo pro meu lado.

─É.

─Ainda bem que hoje tá mais ventilado, não suporto noites quentes. — ele disse tranquilo olhando pra frente.

Olhei pra ele, seu cabelo estava crescendo mais de novo, tinha a pele mais corada e não tão pálido como quando o vi pela primeira vez depois de tanto tempo. Parecia realmente estar se recuperando.

─Você sempre reza pelo Miguel? – perguntei sem nenhum objetivo aparente.

─Hã?

─Er... Vi você rezando pra ele.

─Ah... Sim, sempre rezo.

─Reza pra Lilia?

─Hm? Bom... Nós cristãos não acreditamos que o espirito pode ficar guardando as pessoas vivas Shun, quando a pessoa morre ou ela vai pro inferno ou ela vai pro paraíso, não se pode vagar pela terra... Não acreditamos em encarnação nem nada dessas coisas.

─Ah.

─Além do mais seria um tanto apavorante imaginar que a pessoa morta ficaria o tempo todo te observando em suas tarefas rotineiras não acha?

─É, tem razão.

─Eu rezo pra Deus olhar por todos nós, não só por Miguel, mas por mim e todos em minha volta, além do mais eu sei que o Miguel tem um anjo que o proteja.

─Hum. É meio estranho você acreditar nesse Deus e lutar por Atena ao mesmo tempo.

Ele me olhou estranho, pareceu pensar numa resposta.

─Talvez tenha razão, mas eu quero acreditar na existência desse Deus, ele é maior, o Deus que acredito é maior que tudo.

─Não acha meio utópico querer acreditar nisso?

─Não acho, todos tem suas crenças, o Shaka, por exemplo, ele é budista e mesmo assim luta por Atena também. Só que em todas as crenças as pessoas acreditam que tem algo maior e sublime que as aguarda se seguirem uma vida correta... Além do mais eu lutei por Atena por muito tempo acreditando estar lutando pela paz e justiça, mas foi sempre acreditando que era o certo pelo meu Deus também, embora eu tenha feito muitas coisas que eram pra lá de erradas segundo minha crença cristã, mas pedi perdão por todas elas.

─Tipo o que?

─Matamos pessoas Shun, a maioria das pessoas se perguntaria como conseguimos dormir sem estar com a consciência pesada.

─Mas fizemos isso pra proteção das próprias pessoas.

─Sim, mas é errado... Pensei que logo você que nunca quis machucar ninguém me entenderia.

─É... Tem razão.

─Não se preocupe Shun, não quero colocar minhocas na sua cabeça, além do mais eu sei que se não tivesse lutado tantas vezes não teríamos um mundo que temos agora, a terra já teria sido destruído diversas vezes se não tivéssemos feito nada.

─Tudo isso é meio controverso não acha?

─Pode até ser... Mas é nisso que acredito.

─Eu entendo, também tenho minhas crenças, não estou em posição e criticar ninguém. – até porque essa não era minha intenção, eu só queria entende-lo melhor.

─Não se desculpe. – ele disse me olhando, retribuo o olhar, por alguma razão nos fixamos naquele momento, o que era estranho em se tratando dele.

─ Cansado? – pergunto quebrando o momento.

─Muito.

─Com fome?

─Um pouco. Você fez o jantar? Falei que não precisava.

─Nada de mais Hyoga, vamos... Vai tomar um banho enquanto eu esquento um prato pra você.

─Obrigado.

Ele foi tomar seu banho e eu fui esquentar o jantar dele e ignorando qualquer relação intima que possa parecer esse simples gesto.

─Hyoga. — bati na porta dele quando terminei de esquentar a comida, mas ele não respondeu, então eu entrei. Só ouvi o barulho do chuveiro, sentei na cama esperando.

Fui me acomodando e acomodando e não deu outra eu acabei dormindo encolhido no canto da cama dele.

Acordei com ele me chamando.

─Shun. — disse afagando meus cabelos, era tão bom e relaxante ter ele me acariciando.

Abri os olhos e faltei engasgar com a figura a minha frente.

Ele estava inclinado sobre mim com os cabelos molhados e salpicando algumas gotas em meu rosto, com todo aquele dorso nu na minha frente e tão perto, com uma mão no meu cabelo e outra segurando a toalha na cintura.

─Ah, pensei que tinha dormido pesado de novo. — ele disse saindo de perto.

Rapidamente me levantei.

─Vo-vou esperar na cozinha.

Ele me olhou estranho e eu só sai do quarto.

Fui pra cozinha agitado, ele não podia fazer isso, não tinha o direito, era como se ele estivesse brincando comigo, será que estava?

Não demorou muito e ele apareceu já vestido. Fico o observando, como alguem pode ser tão perfeito?

─Você é um doce Shun. – ele comenta vendo o prato sobre a mesa.

─Isso não é nada demais. Acho que você vai gostar. – digo feliz com aquela frequente gratidão elogiosa.

─Com certeza. – ele afirma. ─Como foi o dia? – diz se sentando.

Relato tudo, e ele prestava bastante atenção, perguntava algumas coisas, eu respondia entusiasmado, boa parte sobre Miguel e meu trabalho, e logo me lembro que tenho um presente pra ele.

Quando retorno ele já tem terminado de comer, percebo que ele estava faminto, por conta do apetite que ele estava, deve ter ficado o dia todo só na base do café, devo me lembrar de reprende-lo mais tarde.

─Como prometido. – digo sorrindo com grande orgulho enquanto deposito minha coleção de livros de minha autoria na frente dele.

─Ah, e cumpriu. – ela diz sorrindo.

Enquanto desatava o nó da fita fiquei o observando. Espressões serenas e um olhar enigmatico que queriam dizer tanta coisa, e me sinto frustrado em não ter mais o dom de desvenda-lo.

─Espero sua opnião sincera viu. – digo me debruçando sobre a mesa e o vejo pegar o primeiro livro e começar a folhea-lo.

─Talvez eu demore um pouco, mas pode contar com minha sinceridade. – ele diz me olhando brevemente para depois se concentrar na sinopse da capa.

Quando ele terminou de ler me olhou surpreso.

─Não é yaio. – ele comenta surpreso.

─É, muitos ficam surpresos com isso. – digo satisfeito por comprovar a primeira coisa que achei que ele perceberia.

Ele inspeciona a capa.

─Boa arte de capa.

Apenas aceno, ele foleia um pouco como se inspecionasse uma prova de crime, chega na dedicatória e para aí.

É onde eu coloco: “Agradeço a todos meus familiares e amigos que me deram todo apoio que precisei pra seguir com essa obra, mas especialmente ao meu amigo Hyoga, a quem tenho uma grande gratidão por despertar a paixão de escrever e criar em mim”.

Ele me olha surpreso e confuso.

─Quando foi que eu despertei isso em você? — diz incredulo.

─Ora Hyoga, foi com sua influencia na leitura que me motivaram a continuar, não lembra? – digo com sinceridade.

Ele me olha surpreso e com o que parece deixar sua mente vagar na tentativa de lembrar.

─Não acho que mereço tanto apreço por isso... mas obrigado.

─Mas você lembra? – pergunto com certo receio dele não lembrar de algo que foi tão importante pra mim e achei que fosse pra ele também.

─Lembro-me de todos os momentos de nossa infancia Shun. – ele diz sorrindo como se tivesse me entendido só pelo olhar.

Fico estonteantemente satisfeito com essa revelação que pra mim significou muito mais que uma mera informação, é a prova que ele ainda lembra de mim, ainda lembra de nós.

─Prometo que vou ler tudo o quanto antes, e lhe dar minha opnião sincera como sempre fiz. – ele promete. ─Mas por enquanto vou apenas descansar um pouco e depois vou me deitar, desculpe não disponibilizar um tempo pra você Shun, sei que seu dia foi cheio, mas eu realmente estou cansado.

Só agora eu percebo que em todo momento que conversamos ele ficou debruçado sobre a mesa, se apoiando, ele nunca faz isso a não ser que esteja realmente cansado, na verdade percebi isso desde de manhã, parecia que ele nem tinha dormido.

─Tudo bem Hyoga, eu entendo. – digo compreensivo.

Ele sorri e se levanta.

─Obrigado pela refeição. – diz fazendo um cumprimento japones.

─Não foi nada. Ah, quase me esqueci de falar, resolvi o assunto do anuncio de vaga, vai ser publicado amanha.

─E o custo? – ele diz já bocejando.

─Isso é o de menos, depois eu explico, mas as entrevistas foram marcadas pra sábado, tudo bem?

─Perfeito. Obrigado Shun. — ele diz dando meu ombro num gesto amigavel.

─Agradeça a minha editora, ela gostou muito do Miguel.

─Que bom, agradeça a ela por mim... Bom... Amanhã nos falamos Shun. Boa noite. – ele diz logo se virando, acho que ele estava com pressa de ir se deitar.

─Boa noite Hyoga.

Fico vendo ele se distanciar cansado com a coleção em mãos, eu poderia até oferecer uma massagem pra fazê-lo relaxar, mas não parece ser uma boa ideia, até porque meus pensamentos estão longe de serem castos com relação a esse homem que mexe tanto comigo.

Acho que vou ter bons sonhos hoje.

Dirijo-me ao quarto do Miguel e dou um ultimo beijo de boa noite em meu afilhado.

Notas finais
Jonathan Topper tem me influenciado muito, é um excelente autor ;) o que acharam da possivel Lilia que coloquei no capitulo anterior? http://www.donagiraffa.com/wp-content/uploads/2013/03/Cabelo-loiro-05.jpg essa é a musica que o Shun cantou: http://letras.mus.br/kaichou-wa-maid-sama/1683705/traducao.html#selecoes/1683705/ é Yokan (TV Size) do anime Kaichou Wa Maid-sama, é um anime muitoooo legal :D Shun está se envolvendo cada vez mais, como será que ele vai se virar quando as coisas se complicarem? Aguardem ;)