Destino
5 Memorias
Notas iniciais
Meu nome é Alexei Hyoga Yukida, tenho 28 anos, sou médico e tenho um filho de dois anos.
Desculpem pela minha objetividade, nunca gostei muito de falar, mas dada a ocasião eu vou abrir uma exceção.
Bom, eu sou... Eu fui um cavaleiro de Atena, quer dizer, ainda sou mesmo, ainda cumpro com algumas obrigações como cavaleiro, porém isso em nada me atrapalha em minha vida normal.
Posso me descrever sem sombras de duvidas ou nem mesmo pra medir palavras que sou uma pessoa fria, arrogante, insensível, e por aí vai... Sou de aquário, fazer o que né, ou seja, não sou lá uma pessoa muito agradável e de fácil convivência.
Sempre fui muito fechado, alguns me julgavam até tímido e reservado demais, e não digo que estão errados, porque é verdade.
Mas não é só por isso que sou assim, ou que estou assim agora... Na verdade eu deixei de ser assim faz algum tempo, fiquei mais suscetível a afeto e amor e isso me transformou, mas depois de um acontecimento eu voltei a ser essa pessoa fria.
Como eu disse eu sou médico, ainda não mencionei isso, mas eu sou viúvo, faz um ano que minha esposa se foi, ela era médica também, e foi ela que me transformou em uma pessoa melhor, porém a falta dela é tanta que eu não consegui me manter do jeito que ela deixou, quando ela se foi eu voltei a ser o que eu era, ela levou ‘meu eu novo’ que ela construiu para o tumulo junto com ela.
O nome dela era Lilia, antes de ir ela me deixou uma grande dádiva, um filho, e é pra ele que eu vivo agora, ele é tudo que eu tenho e o que irei proteger contra o que quer que seja.
Há algum tempo estou tentando apagar a dor da perda dela, mas é difícil, eu a amava... Eu a amo, amo com todas as minhas forças. Mas ela não está mais aqui, estou me convencendo disso e aos poucos tentando seguir em frente, mas como eu disse... é difícil.
Pra explicar melhor pelo que eu estou passando eu terei de começar desde o principio de quando tudo começou a mudar, de quando eu comecei a mudar, e a Lilia tem papel fundamental nisso.
Bom, pra começar, eu sou órfão, vivia com meus amigos no Japão, isso porque nos reuníamos pra proteger Atena, nos envolvemos em muitas batalhas, mas quando finalmente acabaram nós tivemos a oportunidade de seguir com uma vida relativamente normal.
Nessa época eu ainda estava muito preso a memoria da minha mãe, doze anos tinham se passados desde que a perdi naquela época.
Voltar a vê-la eu não podia, ela estava num navio afundado no mar da Sibéria, eu poderia ir lá vê-la, tenho forças pra isso, mas fiz uma promessa pra meu mestre que iria esquecer essa obsessão por ela, mas não foi o que fiz, na verdade eu deixei de visita-la no navio, afinal foi isso que prometi, mas nunca disse que não iria procurar outras formas de me lembrar dela né.
Assim que terminaram as batalhas nós voltamos a estudar, nos anos de colegial onde nossa idade se encaixava é claro.
Não precisei ficar muitos anos no colegial, me adiantei, ser treinado por Camus de aquário tem suas vantagens, pra começar ele me educou como um perfeito cavalheiro me deu os melhores ensinamentos, sentia como se ele fosse meu pai, embora a idade dele possibilitasse que ele fosse apenas meu irmão mais velho, e embora ele tivesse feito tanto por mim, ainda assim ele nunca foi afetuoso comigo, nunca deu uma demonstração de carinho, ele era rígido, sistemático, severo, frio, indiferente, e com o passar do tempo pouco a pouco eu me parecia mais com ele.
Não o culpo por eu ser assim, era o jeito dele mesmo, mas afinal eu não tinha muitos exemplos a seguir, o máximo que ele poderia me deixar de herança além de seu conhecimento eram suas lições de moral.
Como quando na batalha das doze casas quando ele praticamente me forçou a esquecer de minhas lembranças: ‘Jamais em minha vida culpei as pessoas que não conseguem se esquecer do passado e que às vezes caem em prantos por causa disso. As pessoas comuns são assim, mas você não. Você é um cavaleiro, deveria me agradecer por tirar essa fraqueza de sua mente. ’ Nunca me esqueci disso que ele disse, e me senti a escoria naquele momento, um fraco, e a partir daquele momento aprendi há controlar um pouco mais minhas emoções acha que foi a partir dali também que passei a me tornar mais como ele.
Mas embora Camus se esforçasse tanto pra que eu me tornasse uma geleira eu simplesmente não conseguia me livrar do amor latente que eu tinha pela minha mãe, pra mim era uma afronta a memoria dela simplesmente esquece-la, pelo amor de Deus ela me salvou e eu a vi morrer na minha frente, conforme aquele navio ia afundando eu via tudo que eu tinha no mundo ir por agua a baixo, literalmente, então como eu poderia esquecê-la?
Eu não queria pra falar a verdade eu sequer tentei.
Quando eu finalmente alcancei a idade de comprar bebidas e de viajar, tomei rumo pra Rússia, não que eu não pudesse ir antes, afinal eu já conheci muito desse mundo em meio às batalhas, e viajar pra outro país era o de menos pra mim, digo que alcancei essa maior idade por que é assim que as pessoas ‘normais’ mencionam um sujeito que está legalmente capaz de cuidar de seu próprio nariz, ou seja, antes eu era ilegal, afinal não é todo dia que se vê um garoto de quinze anos viajando sozinho pelo mar congelado da Sibéria, ou pelas ruinas da Grécia, ou em Asgard, ou que destrói geleiras imensas com as próprias mãos.
As pessoas normais, mesmo as mais velhas, simplesmente não viram metade do que eu e meus amigos vimos, coisas que em uma vida inteira os humanos têm plena convivência, mas nunca iram ver em suas vidas simplórias e entediantes e assim vivem suas vidas indiferentes a tudo de anormal que acontece ao redor delas, mesmo das pessoas que as salvaram a morte tantas vezes no passado, esse tipo de vida é a que estou vivendo agora... Mas não quero falar disso, não agora.
Senti-me mal em deixar meus amigos, mas era minha terra natal, tenho minhas raízes lá... Estou poupando palavras pra não dizer que fui atrás de lembranças da minha mãe... por fim decidi construir uma vida lá, afinal foi lá que minha mãe Natassia viveu.
Despedi-me de meus amigos com abraços calorosos e lágrimas abundantemente desnecessárias, na promessa que nos veríamos de novo, o que era plena verdade, só não disse quando aconteceria.
Cheguei tranquilamente na Rússia... já lhes disseram que avião é o transporte mais seguro que existe? Pois é, é verdade, por isso não se arrisquem em um navio, principalmente quando ele estiver no limite de lotação, ele pode acabar afundando, não preciso nem completar dizendo que é por experiência própria né.
Moscou é uma cidade linda, com pontos turísticos magníficos com todo o esplendor típico da arquitetura bizantina, fora que tinha aquele clima ártico me fazia muito bem, e embora eu fosse de lá eu me sentia um mero turista admirado com tudo em minha volta, em nenhuma vez em nossas viagens quando estávamos em batalhas eu tive a oportunidade de apreciar as belezas dos lugares por onde passamos, e ver tudo aquilo parecia tão surreal, como que pra confirmar que eu realmente estava vivendo uma vida totalmente nova, pacifica e comum, assim como todas as pessoas normais, não posso negar que era uma sensação de alivio.
Eu não tinha muitas pistas do paradeiro de minha antiga casa, onde eu e minha mãe morávamos antes daquela tragédia iminente, eu tinha apenas algumas cartas, documentos, que foram incrivelmente resgatados por mim daquele navio naufragado e que o tempo e a natureza foram muito generosos em não destruir.
Provavelmente nossa casa já devia estar ocupada por outras pessoas, passaram-se muitos anos que não tinha ninguém ali, então provavelmente perdemos a casa pro governo. Mas mesmo assim eu queria vê-la, quem sabe assim eu pudesse resgatar algumas memorias a muito perdidas em minha mente.
Confesso que foi extremamente difícil encontrar o endereço, Moscou é uma cidade grande, e olha que eu sempre tive um bom senso de direção, e acreditem quando dizem que homem não gosta de pedir informação, é verdade. Ainda mais porque minhas pistas já tinham mais de uma década, então a busca ficava mais difícil ainda.
Um dia de incansável procura terminou sem sucesso, parti pra um apartamento que comprei antes da minha vinda, é claro que eu planejei minha viagem com cuidado.
A principio eu não tinha outra intenção além de simplesmente achar minha antiga casa e comprar um apartamento pra viver naquela cidade onde eu podia me afogar em minhas lagrimas recém-adquiridas com meu reencontro com o passado quando finalmente achasse minha antiga casa, eu queria paz, mas ao mesmo tempo não queria, e tanto faz uma ou outra, nas duas eu queria ficar sozinho, sem que tivesse ninguém que viesse com aquele olhar de piedade perguntando se estou bem... não entendam errado, eu gosto da companhia de meus amigos, mas eu já estava ficando cheio daquilo, vivíamos juntos, éramos quase irmãos, mas eu queria ter meu espaço, aquelas angustias depois de tantas batalhas e aquele sentimento de não saber o que fazer depois que tantos acontecimentos me deixavam confuso, eu não sabia o que fazer e pra mim não ajudava em nada partilhar esse sentimento com pessoas que estavam no mesmo barco.
Eu poderia ter me refugiado e procurado conforto em Camus, que felizmente Atena reviveu, eu estava feliz em tê-lo de volta, sofri muito em ter que lutar contra meu próprio mestre, mas ele já tinha me perdoado, embora eu não tivesse feito o mesmo, meus atos não eram justificáveis pra mim, mas não quis alimentar ódio por mim próprio, minhas lamentações já bastavam, e uma dose a mais de culpa não ajudariam em nada.
Mas não achei prudente recorrer a Camus, principalmente porque ele não tinha cara de que queria ter um pirralho no pé dele, então tratei de procurar meu rumo sozinho.
Acho que em meus dezoito anos eu estava tendo uma lastimável crise existencial. E embora eu não soubesse lidar muito bem com ela acho que me sai muito bem.
No dia seguinte reiniciei minha busca, e finalmente no final de uma tarde cansativa eu finalmente a encontrei, minha antiga casa.
Não preciso nem dizer que estava tudo mudado, do contrario do que imaginei eu não tive relapsos de minhas lembranças perdidas, fiquei ali parado nem sei quanto tempo, apenas olhando pra aquela construção moderna, tinha virado uma residência razoavelmente luxuosa, diferente de antes, já que minha mãe e eu vivíamos tão humildemente.
Uma daquelas casas de porte médio, cores discretas, cerca baixa e gramado semi- coberto pela neve, uma típica residência familiar, parecia ter sido tirada daquelas revistas e decoração.
Vi que outra família vivia ali, nem sei quanto tempo fiquei olhando fixamente aquela casa.
Foi quando eu a vi saindo. Uma garota loira de cabelos encaracolados e longos, vestindo uma saia branca um pouco acima dos joelhos e aquele suéter rosa, mas que deixava a mostra seu pescoço alvo, fiquei vislumbrado com aquela pele acetinada dela, fora que tinha belos quadris também.
Era uma típica russa de classe média/alta com aquele ar de superioridade que toda garota daquela idade tinha a ilusão de ter e parecia ter minha idade também.
Ela me viu com minha cara de idiota olhando pra ela.
─Oi. – ela disse estranhando minha presença ali, ficou um bom tempo me analisando, era estranho, eu era acostumado a fazer aquilo, mas não que fizessem comigo.
─Er... Oi. — eu disse sem jeito, sou muito tímido e nunca soube direito como falar com uma garota. ─Você mora aqui?
─Sim, por quê? — disse parecendo meio incomodada, acho que ela estava com pressa.
─Bom é que eu...
─Fale logo, estou com pressa.
─Desculpe... Seu pai esta em casa?
─Não, o que você quer? — ela era muito bonita, mas parecia uma riquinha mimada e arrogante e aquilo já estava me irritando.
─Gostaria de falar com o dono da casa. — eu disse mais firme, se ela ia continuar me tratando daquele jeito então não era eu que ia ficar por baixo.
─Minha mãe não está agora... Só estou eu aqui, e já estou de saída... O que você quer com o dono da casa? — ela disse colocando a bolsa na frente do corpo como quem tenta se proteger de um bandido.
─Eu morei aqui no passado, gostaria de saber se seus pais conhecem algo mais sobre os antigos moradores. — eu disse mais sério.
Ela ficou desconfiada me olhando atentamente.
─Como eu disse minha mãe não está agora.
─Então poderia avisar que eu vim aqui e que vou voltar quando ela estiver presente?... Meu nome é Alexei Hyoga Yukida.
─Vou falar, agora com licença. — disse arrogante e passou por mim.
Vi ela se distanciar de nariz empinado e aquele jeito metido dela. Fiz foi rir, porque as garotas tão bonitas são sempre tão arrogantes? De qualquer forma não tem a mínima chance de eu gostar de uma garota assim... era o que eu imaginava.
Mais tarde de volta ao meu apartamento, que era enterrado naquela cidade movimentada onde eu jazia naquela noite deprimente, foi onde eu finalmente degustei da minha primeira dose de álcool pensando no que faria dali pra frente, afinal eu não tinha vindo pra cá pra beber todas as noites e ficar em frente da TV coçando o saco, eu tinha que fazer alguma coisa da vida, embora não fosse uma necessidade financeira já que apesar daquele Mitsumasa Kido ter sido uma péssima pessoa que maltratava crianças, ele deixou de herança uma bela bonificação para nós adotados, então cada um de nós tinha uma bela quantia em nossa conta bancaria só esperando que nos acomodássemos na vida escolhêssemos.
Mas eu não ia fazer isso, primeiro porque seria um péssimo exemplo e segundo que mestre Camus ficaria decepcionado comigo, então fiquei enchendo a cara sozinho na esperança de encontrar uma solução pra minha falta do que fazer e foi aí que finalmente tive uma luz em meus pensamentos e a clareza do que eu deveria fazer iluminou minha mente. Eu tinha que entrar numa faculdade, isso parece bem obvio pra qualquer um, mas quem disse que eu estava na plenitude de minhas faculdades mentais naquela ocasião?
Então tratei de pesquisar as melhores universidades da Rússia, ou uma que ficasse perto de onde eu estava morando mesmo.
Pesquisei as opções... Direito não era uma boa opção, odeio ler leis, eu não leria nem a primeira pagina de um código constitucional que acabaria dormindo.
Administração, contabilidade ou economia também não, eu gosto de calculo, mas não me imagino em um escritório todos os dias, eu acabaria me entediando rapidamente.
Engenharias também não, eu teria que ficar no sol quente indo pra lá e pra cá vendo plantas, detalhes, equipes e eu não acho que me sairia muito bem, apesar de eu saber que podia fazer outras funções também, mas é melhor não arriscar.
Medicina veterinária também não, posso gostar de animais, mas não ao ponto de dedicar minha vida pra cuidar deles.
Medicina poderia ser, gosto da ideia de cuidar das pessoas, mas ainda estou em duvida. Bom, é a única plausível, fora que percebi que sou fraco pra bebida e o álcool já não estava me fazendo muito bem e eu já estava sonolento, então decidi que iria ao menos pesquisar essa opção de fazer medicina no dia seguinte.
Academia Médica de Moscou I. M. Sechenov era uma das melhores universidades de medicina do país, então decidi começar por lá.
Fui até lá pela manhã, achei bom fazer a inscrição pra concorrer a bolsas de estudos, não pela necessidade já que eu não iria precisar, mas sim pra testar meus conhecimentos mesmo, afinal eu não queria parecer um daqueles filhinhos de papai e que ainda por cima são burros.
Me inscrevi pro quadro de vagas apenas pra testar meus conhecimentos não tinha nenhuma decisão tomada ainda, depois disso fui dar uma volta por lá, parei em um mural e fiquei tão distraído lendo o que tinha ali que nem vi alguém se aproximando.
Uma garota, ela pigarreou e chamou minha atenção, fiquei surpreso em vê-la ali.
─Está me seguindo por acaso? — ela disse me olhando irritada, alias percebi que eu não sabia o nome dela.
─Hm? Seguindo você?
─Sim, o que está fazendo aqui idiota?
Ah agora ela passou dos limites, me chamar de idiota e ainda me acusar de estar a seguindo.
─Eu não estou te seguindo garota. — eu disse irritado e cruzando os braços, eu sou um poço de calmaria, mas não suporto pessoas como essa garota e que ainda por cima estava me ofendendo.
─Então o que está fazendo aqui? Já falei que eu não posso resolver seu problema com a casa, e não adianta ficar me seguindo.
─Já falei que não estou te seguindo garota.
─Então o que é? — disse aborrecida cruzando os braços.
Ela ficou com os olhos presos em mim, que mania chata, isso me deixava sem graça, acho que estou provando do meu próprio remédio, isso é pra eu parar de fazer isso com os outros.
Resolvi fazer o que eu faço de melhor quando alguém quer me irritar, eu ignoro. Voltei minha atenção de volta pro mural embora ela ainda continuasse ali me observando.
─Ei, estou falando com você. – ela disse depois de um tempo ainda insistindo que eu lhe respondesse, mas eu preferi não falar. ─Hunf, idiota... Não me siga mais entendeu.
Voltei minha atenção de novo pra ela, acho que ela uma garota paranoica com mania de perseguição.
─Já falei que eu não... Deixa pra lá. – achei melhor não insistir numa conversa civilizada com aquela garota arrogante, parecia algo impossível.
Ela bufou e se retirou jogando o cabelo pra trás, não tenho certeza, mas acho que ela não gostou de mim, é só um palpite mesmo.
Mas eu já tinha decidido, vou fazer medicina, essa garota merece uma lição. Além do mais é uma excelente opção se pensar bem, acho que minha mãe e mestre Camus aprovariam.
Fiquei dando uma volta por ali pra passar o tempo e torcendo pra não topar com aquela garota de novo.
Várias horas mais tarde eu fui pra minha antiga casa, torci que a mãe daquela garota já tivesse chegado, ou ao menos o pai dela.
Bati e uma mulher apareceu, acho que era a mãe dela, ela disse seu nome, era Irina Poznanski, eram parecidas, uma senhora de uns 40 anos, e era a mãe dela mesmo, e a garota irritante não estava lá.
Diferente da filha a mãe dela era muito simpática.
Expliquei que tinha ido lá no dia anterior, quem eu era e perguntei se ela sabia alguma coisa sobre os antigos moradores.
Ela me convidou pra entrar, me ofereceu um café e foi muito hospitaleira, conversar com ela era muito bom, mass ela não sabia muito.
Me conformei, não esperava mesmo ter sucesso nessa historia, meu objetivo mesmo era só voltar a ver aquela casa.
Pedi que pudesse dar uma volta na casa pra lembrar e a senhora Poznanski não teve nenhuma objeção.
Aquela casa estava muito mudada, mas eu me lembrava de vagas lembranças de minha infância em poucos lugares específicos, era estranho estar ali, aquelas lembranças pareciam de uma vida tão distante, como se não se fosse eu que estive ali, mas como se eu fosse um mero espectador, lembrei-me de mim e minha mãe ali, dela me preparando o café da manhã, me dando banho ou me vestindo, sempre falando, não me lembro de meu pai, mas acho que eu era a única companhia que ela tinha, por isso vivia falando comigo, acho que ela se sentia solitária, eu era apenas uma criança e não a entendia. Ocorreu-me aquela sensação de perda de novo, ela não pareceu feliz, agora que estou lembrando acho que minha mãe era muito triste, solitária, e ainda tendo que cuidar de mim o tempo todo, não era justo, uma mulher tão boa não merecia aquele tipo de vida.
A senhora Poznanski ficou me observando e pareceu captar minha tristeza em reviver aquela lembrança.
─Não se sinta tão mau filho... É seu lugar de nascimento, onde viveu com sua mãe, pareceu ser muito trágico o que houve com ela, mas esse lugar devia lhe render lembranças boas e não ruins. — ela disse tentando mostrar sensibilidade pra um estranho como eu.
Sorri pra ela, era uma boa mulher também, e ela gostou de mim, eu sentia falta daquele tratamento materno, e aquela senhora estava sendo muito hospitaleira.
─Estou bem senhora Poznanski... É só que... Deixa pra lá.
─Quantos anos você tem Alexei?
─18.
─Quase a mesma idade da minha filha... — ela disse sorrindo ternamente. ─Você é jovem demais pra ficar sofrendo, esqueça o que houve querido, você é um rapaz bonito, está estudando?
─Vou estar em breve, vou me matricular pra medicina na Academia Médica de Moscou I. M. Sechenov.
─Minha filha estuda lá no mesmo curso. — ela disse surpresa.
─É, eu a vi lá, ela achava que eu a estava seguindo.
─Hum, me desculpe por isso, às vezes ela é paranoica mesmo. Mas é que ela... bom, você não precisa saber disso. – ela pareceu relutante e mostrou uma expressão preocupada com a filha.
─Qual o nome dela? – eu estava curioso, nem sei porque, mas algo naquela garota me atraia de um jeito que eu não sabia explicar.
─Lilia. — disse sorrindo.
─Hum, a senhora disse que ela tem quase a minha idade?
─Sim, ela tem vinte e um.
─Hum.
Parecia que aquela garota percebe quando estão falando dela, pois ela chegou bem naquela hora.
─Cheguei mamãe. — gritou da porta.
─Oi meu bem, como foi a aula? — disse a senhora Poznanski indo pra sala.
─Foi terrível... o senhor Dave vai me matar de tantos exercícios e... — ela me viu quando eu segui a mãe dela.
─O que ele faz aqui? — disse me olhando irritada.
─Oi. — eu disse sorrindo pra ela só pra provocar.
─Ah, ele morava aqui querida.
─Morava... Pretérito. Não mora mais. — disse cruzando os braços.
─Não seja chata Lilia, ele só queria rever seu antigo lar.
─É Lilia, não seja chata. — eu disse ainda provocando.
─Mamãe. — disse olhando irritada de mim pra mãe dela.
─Ele só tá brincando filha.
─Acho que já vou indo senhora Poznanski. – eu disse, ficar no mesmo lugar que aquela garota não era boa ideia.
─Mas já Alexei? Porque não fica mais um pouco?
─Amanhã é a prova para a aquisição de bolsas senhora Poznanski.
─Entendo, você tem que estudar, espero que consiga querido. E sinta-se a vontade pra voltar sempre que quiser viu, você é sempre bem vindo.
─Obrigado senhora Poznanski, fico muito grato pela sua consideração.
─Não se preocupe afinal essa é sua casa não é mesmo.
─É sua casa agora senhora Poznanski.
─É mãe, é nossa casa. — Lilia disse aborrecida.
─Lilia, não seja indelicada.
─Hunf.
─Bom, vou indo, até outro dia senhora Poznanski, e você também Lilia. — eu disse sorrindo sarcástico pra ela.
─Hunf... Idiota. — ela pensa que eu não ouvi o que ela disse.
Fui pro meu apartamento e fiquei pensando no porque daquela garota ser tão enfezada com a vida.
A prova pra aquisição de bolsas foi patética, muito fácil, pelo menos foi o que eu achei, apesar de eu ter visto várias pessoas se descabelando na hora da prova. Mas eu não peguei a vaga, preferi pagar, afinal a bolsa era destinada apenas a pessoas de baixa renda, então não era justo que eu a pegasse.
Quando iniciei as aulas vi que Lilia era o destaque da turma anterior, e na ocasião era monitora de laboratórios, ou seja, eu seria praticamente obrigado a vê-la. De inicio procurei ignora-la ao máximo e ela fazia o mesmo comigo, não chegávamos nem perto de amigos, e olha que eu nem sabia o porquê dela ter me detestado tanto.
Mas parece que era perseguição mesmo, sempre acabávamos nos encontrando, ora nos corredores, ora em sala de aula, ora no refeitório, era natural em se tratando de estarmos na mesma universidade, mas o problema era que ela estava um ano na minha frente, então parecia meio suspeito termos que nos encontrar tanto. Quando ela me via virava o rosto, me ignorava e soltava algum comentário sarcástico.
A mãe dela passou a me convidar pra passar de vez em quando na casa dela, acho que ela sentia-se mal por mim estar sozinho naquela cidade, e principalmente pelo peso na consciência de estar vivendo em minha antiga casa. Fora que ela simpatizou muito comigo, me tratava como um filho.
Conheci também o marido atual da senhora Poznanski, o senhor Andrey, um bom homem, a senhora Irina disse que o pai de Lilia faleceu quando ela tinha seis anos, e que o senhor Andrey entrou na vida das duas quando Lilia já tinha oito anos, ele a criou desde então, logo Lilia o considerava como um pai. E ele também me recebeu muito bem, embora fosse um pouco mais reservado do que a senhora Poznanski.
E eu sempre aceitei toda aquela simpatia de bom grado, e claro que era ótima oportunidade pra provocar a Lilia, gostando ou não ela tinha que me tolerar.
Eu sempre tive facilidade em conseguir amigos, embora eu sempre fosse muito tímido e reservado, mas as pessoas simplesmente se aproximavam de mim e por fim acabavam apreciando minha companhia, apesar de que eu mais ouvia do que falava, acho que as pessoas precisam apenas falar, desabafar, eu não precisava dizer muito, mas elas entendiam.
Mestre Camus ficou muito feliz com minha decisão de fazer medicina, naquela época eu ainda mantinha contato frequente com Saori, Shiryu, Seiya e Shun, embora que com Shun tenha sido diferente, pois soube que ele tinha começado o curso de literatura e já estava escrevendo um livro, então ele não tinha muito tempo pra mim, logo achei melhor não incomoda-lo mais.
Em pouco tempo eu alcancei Lilia na universidade, me adiantei bastante nas matérias, sempre me esforcei nos estudos. Ela ainda era assistente de laboratórios eu frequentemente a via, aos poucos fui descobrindo que aquela marra toda que ela tinha era apenas fachada, por mais que ela me tratasse mal ou me ignorasse eu via que ela era uma boa pessoa, meiga, sensível, atenciosa e prestativa, e acima de tudo muito inteligente, não era pra menos que era a mais inteligente da turma dela, mas como eu me adiantei bastante então eu acabei a alcançando de forma que estávamos praticamente no mesmo nível.
Foi aí que começou a competição, ela sempre se esforçava pra continuar sendo a melhor, e não suportava o fato de eu tê-la alcançado com tanta facilidade, e é claro que eu não ia ficar pra trás então aceitei o desafio.
Não demorou muito e eu consegui uma vaga no laboratório junto com ela, nossos amigos ficavam maravilhados por eu ter a oportunidade de ter a presença da Lilia, ao que parece ela era muito popular.
Estando sempre perto eu comecei a prestar mais atenção no quanto ela era bonita, as pessoas tinham razão, além de bonita era inteligente.
Mesmo estando com ela o tempo todo ela ainda me ignorava, ainda não sei por que ela me detestou tanto, era estanho o fato dela sempre evitar falar comigo sobre assuntos que eram ligados diretamente a mim, por alguma razão ela passou de irritada a desconfortável com minha presença, percebi que ela me olhava disfarçadamente, e meus amigos me disseram que ela eventualmente perguntava alguma coisa sobre mim, principalmente se eu tinha namorada, embora ela já soubesse que eu não tinha, mas acho que ela tinha certas duvidas por causa das garotas que viviam atrás de mim no laboratório ou nas aulas.
Nunca tive vontade de arranjar uma namorada, pra mim aquilo era uma perda de tempo, principalmente porque meus amigos e lá ainda tinham uma mente muito infantil e irresponsável e as garotas estavam na mesma situação, eu era tolerável apenas por que era compatível com minha idade. A única que parecia estar no meu nível de maturidade era Lilia, embora eu nunca tivesse tido nenhuma conversa longa com ela.
Fora que eu nunca soube direito como falar com uma garota, sempre tive medo de falar alguma bobagem e assusta-las, sou um completo idiota em se tratando desses assuntos. Então eu preferia não arriscar.
Certo sábado a tarde a senhora Poznanski me convidou pra comer uns bolinhos na casa dela, intrigante aquela mulher, sempre tão gentil comigo, então não me fiz de rogado e aceitei o convite, eu não tinha nada pra fazer mesmo.
Eu estava sentado no balcão da cozinha conversando com a senhora Poznanski e comendo aqueles deliciosos bolinhos, não disse ainda, mas eu sou viciado nessas coisas doces, e aquela mulher tinha uma boa mão pra cozinhar.
Lilia estava lá, passou por mim e pra ir até a geladeira.
─Você aqui de novo? Acho que devíamos preparar um quarto pra você.
─Não seja grosseira Lilia. — disse a mãe dela.
─Oi Lilia, como vai o bom humor? — eu disse.
─Hunf. — ela saiu pisando duro.
─Desculpe Alexei.
─Tudo bem, já conheço a peça. — eu disse um pouco distante.
─O que você tem querido? Parece triste.
─Não é nada... É que semana que vem vai fazer quinze anos que minha mãe faleceu.
─Ah, vai visitar o tumulo dela? Ou mandar rezar uma missa?
Eu sabia que não tinha tumulo algum, minha mãe estava no fundo do mar da Sibéria, não tinha como haver um túmulo.
─Túmulo?
─Sim... Devem ter feito um funeral coletivo, afinal morreram muitas pessoas naquele navio não é mesmo?
Pensei melhor, ela tinha razão, isso sequer tinha passado pela minha cabeça algum dia.
─Tem razão, vou procurar o tumulo dela.
─Seja forte querido.
No dia seguinte fui pesquisar melhor aquilo, e a senhora Poznanski tinha mesmo razão, havia um tumulo, fui averiguar isso e o encontrei num cemitério no centro de Moscou.
Eu sabia que era um caixão vazio, mas eu tinha que prestar minha homenagem a minha mãe, levei um ramalhete de rosas, assim como eu fazia na Sibéria, eram as preferidas dela.
Minha querida mãe. Ela não teve uma vida cheia de alegria e encantamento, mesmo assim ela jamais odiou alguém. Acreditava em Deus e me ensinou a importância do amor. Ela me ensinou a respeitar a amizade, o amor e todas as coisas que existem no mundo.
Novamente fiquei triste, não tinha animo pra nada, faltei a semana inteira na universidade, nos laboratórios, eu não me importava, mas que droga, basta uma lembrança de minha mãe pra me deixar assim, sou muito sentimental mesmo.
Fiquei no meu apartamento todos esses dias lamentando da vida.
Quando chegou na sexta, dia exato no naufrágio 15 anos atrás, me arrumei e fui a igreja, clichê eu sei, mas minha mãe era uma grande fiel, e ela sempre me levava a missa, mas eu tenho me afastado tanto nos últimos tempo de Deus que achei que já era hora de retornar, pedi que rezassem um missa em homenagem a ela.
Não questiono quantos morreram naquele dia, foi uma tragédia acontecendo diante de meus olhos, nunca vou me esquecer aquilo, mas minhas orações já superaram isso, só estou triste por não ter podido fazer nada, por não ter tido forças pra salvar quem eu mais amava, eu só tinha seis anos, era apenas uma criança, o que eu podia fazer?
Foram anunciados os nomes a quem a missa era destinada, e foi dito o nome de minha mãe. Começou o coro, é relaxante, gosto de ouvir, mas era triste. Olhei pro crucifixo em minhas mãos, ela tinha me dado ele naquele dia no naufrágio, nunca pensei que aquele seria a ultima vez que a veria com vida, se eu soubesse teria tentado fazer com que o dia fosse especial, teria dado um ultimo abraço, teria feito tudo diferente... só depois de um tempo que eu notei que minhas lagrimas caíam, porque dói tanto? Depois de tantos anos e ainda dói tanto. Sinto tanta falta dela.
Quando acabou fui pra uma praça que tinha perto do meu apartamento, era domingo, tinham muitas pessoas, fui pra um lugar mais reservado e sentei-me num banco que ficava de frente pra um lago congelado, fiquei lá quieto, sozinho e triste.
Espero que meus amigos no Japão estejam melhores do que eu.
A neve começou a cair de novo então muitas pessoas foram embora, restava apenas eu ali, aquele frio não significava absolutamente nada pra mim, mesmo que eu estivesse vestido com um simples terno de ir a igreja.
Mal espero e alguém sentou-se ao meu lado, mas que inferno, eu queria ficar sozinho, quando eu já ia levantar olhei pro lado e fiquei surpreso em vê-la ali.
─Oi. – Lilia murmurou.
─Oi. – murmurei também, o que ela fazia ali?
Ficamos ali em silencio sem nos olhar.
─Não está com frio? – ela perguntou depois de um tempo, percebi que ela estava com um grande casaco.
─Não.
─É sério? Estou congelando. – ela comentou, sequer a olhei, eu estava um tanto incomodado com a presença dela, o que ela queria afinal de contas? E porque resolveu começar a falar comigo agora?
─Morei na Sibéria por muitos anos, me acostumei ao frio... se está congelando porque não vai embora. – será que eu soei muito grosso?
Ela não respondeu, permaneceu ali quieta.
─Não te vi mais. – disse ela num fio de voz.
─É.
─Por onde andou? – fiquei surpreso, do que ela estava falando? Já tinha quase três anos que convivíamos e ela nunca falou mais do que uma frase completa comigo e agora queria saber do meu paradeiro?
─Por aí. – eu disse simplesmente.
Ela ficou quieta.
─Você está triste por causa da sua mãe?
Olhei pra ela.
─O que quer aqui Lilia? Achei que não me suportasse.
Ela baixou a cabeça e ficou olhando pros próprios pés.
─Você... quer tomar um café? – ela disse do nada, aquela era a mesma Lilia que eu conhecia?
─Hm?
─Tem um café aqui perto, podemos ir lá, o que acha?
Olhei pra ela e percebi que ela estava corada. Será que ela queria uma trégua?
─Café seria ótimo. — decidi ser mais gentil, pra Lilia perder a pose então deveria valer a pena.
Ela sorriu e me olhou brevemente.
Seguimos caminho em silencio, mas era um silencio bom, agradável.
Tinham muitas pessoas circulando, em dias muito frios as pessoas procuravam locais públicos como aquele ao café. Escolhemos uma mesa no fundo, de frente pra vitrine de vidro, ficamos olhando o movimento por um tempo, sem pronunciar uma única palavra.
─Er... Você quer comer alguma coisa Lilia? — eu disse sem jeito.
─Um café já seria ótimo, mas eu também gosto de bolinhos.
─Vou buscar então.
Segui pro balcão e senti os olhos dela presos em mim, o que houve com ela pra ficar tão amigável?
Pegueis dois cappuccinos e vários bolinhos, não sabia de qual ela gostava então peguei um de cada.
Voltei e fui recebido com mais outro sorriso dela.
─Eu não sabia do que você gostava então trouxe um de cada.
─Tudo bem, adoro doces, mas acho q não vou conseguir comer tudo isso. — ela disse sorrindo.
─Acho que juntos damos conta.
Sorri de volta, pelo menos temos uma coisa em comum. Começamos a comer.
─Vi você na missa. – ela disse ainda olhando o movimento lá fora enquanto comia.
─Hã? — parei de comer e olhei pra ela.
─Er... Eu estava lá... Natassia Smirnov Yukida é o nome da sua mãe certo?
─É.
─Foi muito legal você ter mandado rezar uma missa pra ela.
─Hm.
Ficamos num silencio de novo.
─Não sabia que você frequentava a igreja. — eu disse.
─Frequento desde criança... nos últimos tempos tenho pedido muito uma coisa. — ela disse triste.
─O quê?
─Saúde.
─Por quê?
─Er... Isso aqui tá muito gostoso não acha? Os da padaria lá perto de casa são meio duros, mas esses são macios. — ela disse mudando de assunto rapidamente.
─Hum. — resolvi não insistir. ─Aquela padaria é antiga, lembro vagamente dela desde quando eu era pequeno.
─Você de muita coisa não é mesmo?
─Não exatamente, apenas alguns pontos específicos me lembram algumas coisas... Por exemplo, lá onde fica o fogão da sua mãe era um armário bem grande, lembro que já tentei pegar uns biscoitos de rosquinhas lá do alto dele. — eu disse sorrindo.
─Escondido, aposto. — ela disse rindo.
─É, levei uma das minhas piores quedas nessa arrumação.
─rsrsrs. Eu também aprontei muito.
─Não imagino você aprontando.
─Eu não sou tão comportada assim.
─A meu ver você é.
Olhamo-nos mais tranquilos e ficava mais fácil sorrir pra ela agora.
─Onde você morou todo esse tempo Alexei?
─Me chame de Hyoga. – eu disse meio incomodado, ainda não tinha me acostumado com as pessoas me chamando pelo primeiro nome.
─Porque Hyoga?
─É meu nome do meio, meus amigos me chamam assim.
─Tá bom... Hyoga. – ela disse sorrindo. ─E então? Onde você morava?
─No Japão.
─Sério? E o que ficou fazendo lá todo esse tempo?
Não soube o que responder, não queria mentir pra ela, mas não podia dizer a verdade também.
─Bom... eu morei num orfanato lá, e... estudei lá... e agora resolvi voltar, só isso.
Ela me olhou estranho, acho que tava na cara que eu escondia alguma coisa.
─Ah, você não foi adotado?
─Fui, quer dizer, mais ou menos. – não era completamente mentira que o Mitsumasa Kido tinha me adotado, só emiti o fato que ele adotou mais cem garotos, iria soar estranho de qualquer forma.
─Deve ter sido muito difícil perder a mãe e ser mandado pra um lugar completamente diferente não é mesmo?
Ela tinha razão, mas pensando bem tudo parecia ter acontecido pra resultar naquilo, eu tinha que ir pro Japão de um jeito ou de outro, tinha que ter treinado, todas as consequências tinham um proposito, afinal a armadura de cisne já era destinada a mim, Saori precisava de mim, meus amigos precisavam de mim... seria aquilo, o destino?
─Hyoga?
─Hã?
─Você ficou distante.
─Ah... desculpe, do que falávamos?
─Eu perguntei se foi muito difícil ter sido mandado pra um lugar estranho.
─Foi, levei um tempo pra aprender japonês, pra me enturmar, sou muito diferente de um japonês, por isso as coisas eram mais difíceis.
─Ah...
─Eu perdi muita coisa essa semana que faltei?
─Não muito, as aulas que você faltou ainda dá pra acompanhar e... Ah, lembra daquele microscópio novo que pedimos pro departamento faz algum tempo? – ela disse animada.
─Lembro.
─Chegou na quarta. – ela disse sorridente.
─Até que enfim, aquele antigo tá com as lentes arranhadas.
─Verdade, o departamento deveria ficar mais atento quanto a essas coisas, é a maior frescura pra pedir as coisas ali. – ela disse suspirando, era bom ver Lilia se mostrar mais informal agora, normalmente ou ela me ignorava ou respondia por monossílabos.
─Ah, o seu querido laboratório de Técnicas Cirúrgicas finalmente está pronto também. – ela comentou.
─Puxa que ótimo... Mas como sabe que eu esperava tanto por ele?
─Ah, er... o Adam me contou. – ela disse um pouco vermelha e eu ainda era tolo o suficiente pra não entender ainda o que estava acontecendo ali.
─Hm... parece que eu perdi muita coisa em uma única semana. – eu disse meio avoado. ─O senhor Gavrie deve estar uma fera comigo por ter deixado você sozinha essa semana inteira nos laboratórios sem nenhuma explicação.
─Não exatamente, eu disse pra ele que você estava doente.
─Porque me encobriu?
─Por nada, eu só... deixa pra lá.
─Fala.
─É que... mamãe me contou sobre o que conversaram naquele sábado, então achei que estivesse resolvendo algumas coisas quanto a isso... mamãe sente sua falta.
─Hum, também sinto falta da senhora Poznanski, você tem uma boa mãe.
─Obrigada... er, eu... eu também senti sua falta.
─Sentiu? Você vive reclamando que eu não saia da sua casa, nem na faculdade. Achei que ficaria aliviada em se livrar de mim por um tempo.
─Me acostumei com você, afinal você não é tão irritante assim... acho que você não percebe, mas você é distante, quase o tempo todo, na verdade você me ignora mais do que eu tento te ignorar. – ela disse com um sorriso tímido.
─Sou? Nunca percebi.
─Ah... pensei que você fazia de proposito, pra me irritar.
─Mas eu faço muitas coisas pra te irritar mesmo. – eu disse e ela sorriu.
─É verdade... mas a pior delas é me ignorar.
─Desculpe.
─Tudo bem, eu puno você o tempo todo por isso. – ela disse rindo.
─É impressão minha ou essa conversa não faz muito sentido?
─Tem razão. – ela disse sorrindo.
─Como me achou naquela praça Lilia?
─Bom, eu... te segui.
─Por quê? – fiquei surpreso.
─Sei lá, e só queria te ver. – ela disse baixando a cabeça.
Fiquei quieto também, sem saber o que dizer.
─Também senti sua falta Lilia.
Eu disse e ela abriu um largo sorriso. Terminamos de comer e fomos dar uma volta, quando estava perto do meio dia Lilia me convidou pra almoçar na casa dela, e foi bom rever a senhora Poznanski.
Conversamos muito naquele dia, Lilia era uma garota adorável, sensível e interessante, além de muito inteligente, era ótimo conversar com alguém do mesmo nível de maturidade que o meu de vez em quando. Fora que eu notei que ela ficava cada vez mais linda. Percebi também que todo o tempo que eu passei com Lilia eu não fiquei triste pela minha mãe, a presença daquela garota me confortava e depois de tantos anos eu finalmente me senti leve e sem preocupações.
Os dias seguintes passaram-se normalmente, considerando que agora eu e Lilia éramos amigos e convivíamos cada vez mais. Eu presenciei muitas expressões dela, quando estava irritada ou zangada eu já conhecia, quando ela estava alegre, chateada, triste, entusiasmada, ansiosa, e eu adorava cada uma dessas mudanças.
Eu já tinha notado, mas confirmei que ela não era muito fã de organização, às vezes ela era muito chata, fazia algumas coisas de proposito acho que era só pra me irritar e não perdermos nossas identidades de quando nos conhecemos. Provocações nunca faltaram, eu adorava deixa-la irritada, quando ela ficava assim sua face ficava vermelha e ela fazia um biquinho adorável, ela era pavio curto, indomável, mas ao mesmo tempo era doce e sensível, mas eu não me importava, na verdade eu adorava aquele gênio forte dela.
Não posso negar que eu estava gostando dela, muito. Decidi tomar uma iniciativa. Certo dia quando saiamos da faculdade, uma das muitas vezes que eu passei a sempre leva-la em casa, eu a convidei pra sair.
─Lilia.
─Hã? – ela andava distraidamente.
─Você gostaria de... sei lá, qualquer dia desses, de ir ao cinema?
─Esta me convidando pra sair Hyoga?
─Não, quer dizer, sim... bom, eu não tenho nada pra fazer, então eu achei que, se você tiver tempo... então... – eu estava nervoso, e tudo era efeito da presença da Lilia.
Ele me olhou e curvou aqueles lindos lábios avermelhados.
─Você não faz muito isso não é mesmo?
─Não... então não torne as coisas mais difíceis por favor. – eu disse e ela riu.
─Eu adoraria. – ela disse sorrindo.
Marcamos de ir ao cinema no final de semana.
Eu nunca tive um encontro antes, eu estava extremamente nervoso.
Fui pega-la cedo, acho que até cedo demais. Quando cheguei o senhor Poznanski estava lá, eu não falava muito com ele, mas ele sempre esteve ali, sempre sério e quieto, tomando um café, ou lendo o jornal ou um livro. Ele era quieto, mas sempre me recebeu bem, nunca trocamos muitas palavras.
Torcia mentalmente pra Lilia se apressar.
O senhor Poznanski estava sentado numa poltrona e me observava encolhido no sofá da frente, sorvia seu café tranquilamente enquanto me olhava, parecia querer me intimidar, nunca me imaginei numa situações daquelas, mas lá estava eu nervoso, quieto como se qualquer movimento fosse alardear o senhor Poznanski.
Aquele olhar dele parecia dizer: vai levar minha filha embora, pra longe de mim, vai-se lá saber quais são suas intenções, talvez pretenda leva-la pra um beco escuro e desvirginar minha pobre filha ingênua.
Ele me fazia sentir um rebelde delinquente, o mais irônico é que eu sempre convivi com eles e o senhor Poznanski me conhecia perfeitamente de cabo a rabo, mas agora eu parecia um completo intruso que chegou do nada pra tomar sua filha e todos os defeitos que eu pudesse ter estavam bem mais visíveis agora.
Era sufocante, vezes ou outras eu o olhava e direcionava um sorriso sem graça, numa tentativa de amenizar a fera, mas acho que só fazia o efeito contrario, pois ele parecia cada vez mais desconfiado.
Preciso tentar outra abordagem.
─Er... Tempo bom não é senhor Poznanski. — inferno, eu tinha mesmo que falar sobre o tempo, às vezes acho que meu cérebro dá uma pausa pra ir tomar um cafezinho.
─Não acho, acho que vai cair uma tempestade terrível, raios e trovões daqui a pouco... Acho melhor vocês ficarem por aqui.
─Er... Acha mesmo? O tempo parece ótimo. — eu disse direcionando o olhar pra janela aberta.
─Aonde vocês pretendem ir? — ele mudou de assunto rapidamente.
─Ao cinema.
─Hum. Vão assistir qual filme?
─Bom, a Lilia achou melhor escolhermos lá na hora. — eu estava completamente acuado, era inacreditável que aquele sujeito parecia mais assustador do que todos os inimigos que enfrentei até hoje.
─Vai deixar que Lilia decida qual filme vão assistir? Vai deixar que ela escolha quanta manteiga vai colocar na pipoca e quanto de refrigerante você pode tomar também?
─Nós decidimos tudo juntos senhor.
─Interessante, então agora já existe o "nós"... Então ela já está mandando em você.
─Bom, não... – ele tava me colocando contra a parede, céus porque a Lilia tá demorando tanto?
─Porque não?
─Er, porque... Bom...
─Já assistiu ao filme ‘O poderoso chefão’ Alexei?
─Er... já.
─Um filme interessante aquele não acha?
─Bom, é interessante sim, mas o que isso tem a ver?
─Gosto dele, ele me dá umas ideias.
─Que tipo de ideias?
─Gosta de futebol Alexei? – mudou de assunto de novo.
─Hã?
─Perguntei se gosta de futebol, esportes, essas coisas.
─As vezes eu assisto sim e...
─Qual o seu time?
─Eu não tenho nenhum definido ainda.
─Como pode gostar de futebol se não torce pra nada?
─Os estudos tomam grande parte do meu tempo senhor.
─Estudioso é... sei.
─Sim, o senhor sabe, já me conhece bem senhor Poznanski, eu praticamente convivo aqui.
─É interessante você dizer isso, agora eu percebo que sua intenção era chegar sorrateiramente não é?
─Hã? Como assim?
─Pretendia levar Lilia pra longe de nós aos poucos.
─Mas o que... Nós só vamos ao cinema senhor Poznanski.
─Ah sim, cinema... Aquele lugar escuro onde os rapazes levam as garotas pra se aproveitarem enquanto ninguém está olhando.
─Eu nunca faria isso senhor Poznanski.
─Hum... Eu já fui jovem Alexei, sei como é, eu mesmo já fiz isso.
─Mas eu não vou fazer nada disso.
─Sei... — disse desconfiado. ─Então pra que vai leva-la pra sair se não pretende nada?
─Eu disse que não farei nada desrespeitoso senhor, prometo.
─Hum... Você sabe que eu sou apenas o padrasto dela não é Alexei, mas que a considero como se fosse minha filha.
─Sim, eu sei.
─Sabe que eu faria tudo para protegê-la.
─Sim.
─Então sabe muito bem que não deve tentar nenhuma gracinha.
─Mas eu já falei que...
─Não acredito que está intimidando o Alexei papai. — disse Lilia finalmente aparecendo junto da mãe dela, suspirei dando graças a Deus.
─Eu não faria isso querida, só estou trocando uma ideia com o rapaz, não é mesmo Alexei. – disse com um olhar sugestivo pra mim, como se dissesse: se abrir a boca eu te mato lenta e dolorosamente.
─Er... Sim senhor.
Olhei pra Lilia e não podia acreditar no quanto ela ficava linda cada dia mais.
Céus, eu estava caidinho mesmo por aquela garota, mesmo ela vindo com o pacote de pai paranoico.
─Sei... Então vamos Alexei?- ela disse abrindo aquele lindo sorriso pra mim.
─Sim. — eu disse todo abobalhado.
O senhor Poznanski ainda me lançou um olhar de aviso antes de sairmos.
Escolhemos o filme e fomos assistir, não tentei nada é claro, a imagem do senhor Poznanski era assustadora só de lembrar, vai-se saber se ele não estava em uma das poltronas de trás de nós nos observando, pensamento idiota eu sei, mas era melhor não arriscar, tenho certas duvidas se ele não era um espectro de Hades, sei, sei, outro pensamento idiota.
Lilia estava animada, era um filme de comedia eu acho, não estava prestando atenção, a garota ao meu lado era mais interessante, ela era tão linda, seus cabelos cacheados e aqueles grandes e expressivos olhos azuis eram fascinantes, eu podia ficar a noite inteira olhando pra ela sem cansar.
E ela ainda achou de vestir aquela saia preta e aquela blusa rosa que a deixava mais atraente ainda.
Pode parecer careta, mas eu pensei em pegar a mão dela, porem a imagem do senhor Poznanski não saia da minha cabeça, logo tudo que eu pensasse em fazer parecia ser safadeza, então resolvi ficar quieto e pensar que eu estava num campo verde observando nuvens com formatos engraçados pra esquecer aqueles pensamentos profanos, era isso ou eu prestava atenção no filme que a essa altura eu já não entendia mais nada.
Para minha surpresa senti a mão de Lilia deslizar pelo meu braço e segurar minha mão. Olhei pra ela que se virou pra mim e sorriu, eu sorri de volta, ele me surpreendia mais a cada dia, e eu posso dizer que eu realmente estava me apaixonando por ela, pelo menos eu acho que sim, nunca senti nada parecido antes, quando eu estava com ela eu ficava nervoso e calmo ao mesmo tempo, sorria mais, coisa que eu não fazia com frequência, pensava nela o tempo todo, morria de saudades quando ela estava longe de mim, meu estomago parecia ter milhares de borboletas voando quando ela estava junto, minhas mãos suavam, enfim, eu estava totalmente a mercê dela.
Quando terminou o filme nós saímos pra lanchar, depois passeamos pelo de um lago que tinha perto da casa dela, sempre de mãos dadas e conversando amenidades.
Ela era muito tímida também, mas não tanto quanto eu, então era ela quem sempre tomava a iniciativa de quase tudo.
Nos sentamos num dos bancos perto do lago, aquele passou a ser um habito, nossas melhores conversas eram em lugares assim, com ela sempre sentada ao meu lado.
─Gosto muito de estar com você Hyoga.
─Eu também. – eu disse acariciando a mão dela com meu polegar.
Nos olhamos por um bom tempo até ela se inclinar em minha direção, fiz o mesmo, e enfim nos beijamos, o beijo ela era tão doce e carinhoso que eu queria que aquele momento durasse pra sempre.
Depois disso passamos a namorar, passei a corteja-la e a fazer todas aquelas coisas que toda garota romântica gosta, eu não tinha muito jeito pra isso, mas fiz o melhor que pude.
Todas as coisas tolas do dia a dia agora eram maravilhosas só pelo fato de eu estar com ela. O céu era mais azul, a comida tinha mais sabor, e minhas tarefas rotineiras e entediantes agora eram mais apreciáveis. Ter a certeza que eu veria o sorriso dela todos os dias os tornava magníficos e eu já tinha plena certeza que eu a amava.
Todos se surpreenderam quando começamos a namorar, nem preciso dizer que virei um alvo para o senhor Poznanski.
Nossos amigos na faculdade estranharam já que nós dois vivíamos brigando, mas com o passar do tempo se acostumaram.
Não digo que tudo era sempre um mar de rosas, ainda discutíamos, as vezes por besteira, mas uma sessão de beijos bastava pra amansar a fera.
Lilia me fez superar milagrosamente a morte de minha mãe, a dor se tornou tolerável e eu estava mais tranquilo e conformado, mas nunca vou me esquecer da memoria dela.
Adiantei-me muito na faculdade, faltava apenas um ano, de forma que eu terminaria praticamente junto com a Lilia, e digamos que isso feria um pouco o ego dela, afinal o que ela menos queria era ser superada.
Lilia queria se especializar em cancerologia, eu ainda não entendia o motivo, e ela também não queria me explicar, já eu queria ser cirurgião geral, Lilia achava ser uma decisão curiosa, mas eu achei que seria uma área de atuação bastante extensa e a meu ver ajudava muitas pessoas, então ela passou a apoiar plenamente, ainda mais por causa da brincadeira que eu fiz de pensar em ginecologia como opção, nem preciso dizer que ela surtou depois disso.
O tempo ia passando e nos tornávamos cada vez mais unidos, não pensem besteira, nos não fizemos nada de mais ainda, afinal o pai da Lilia ficava em vigília o tempo todo, mesmo depois de tantos anos de namoro, é claro que vez ou outra eu me atrevia mais, e ela também, embora eu tivesse mais controle do que ela.
Ela dizia que eu tinha medo do pai dela, o que era plena verdade, mas ela não precisava de confirmação, até porque eu negaria até fim do mundo.
Eu achava que tudo ia bem, mas certa vez quando eu a deixava em casa ela teve uma vertigem e eu tive que segura-la, fiquei muito preocupado levei ela pra casa e a senhora Poznanski foi logo ao nosso encontro.
Expliquei o que aconteceu, mas a mãe dela e nem ela queriam me explicar o que houve. Fiquei sem entender nada, ela desapareceu por uns dias, não queria me ver e nem atendia minhas ligações, e muito menos queria me receber, pensei seriamente no que eu poderia ter feito pra receber um tratamento daqueles, mas nenhuma luz vinha em minha mente, o que eu poderia ter feito de errado, e o mais importante, o que ela tinha?
Fui todos os dias pra aquele banco perto do lago na esperança de vê-la, mas ela não apareceu, passou umas duas semanas que ela faltava a faculdade.
Estávamos no inverno de novo, eu passei a usar um casaco como todo mundo pra não me acharem tão estranho, mas aquilo me dava calor. Voltei pra aquela praça, eu tinha quase certeza que não veria Lilia, mas eu ainda insistia, eu estava sozinho ali, uma pessoa sentou-se ao meu lado, era ela, estava pálida, não parecia nada bem.
─Lilia. – fiquei surpreso em vê-la daquele jeito.
─Oi Hyoga. – ela disse com um misero sorriso.
─O que houve com você? – tentei me aproximar, mas ela se afastou.
─Preciso te contar uma coisa. – ela disse com uma expressão triste.
─Fale.
─Bom... primeiro me desculpe por ter sumido esses dias, eu... eu não estava bem. – ela disse sem me olhar.
─Por que não me queria por perto? Sou seu namorado, queria estar com você.
─Eu... eu tenho câncer Hyoga. – ela disse e suas lagrimas começaram a descer.
Fiquei muito surpreso, triste e com raiva por ela ter omitido uma informação tão importante.
─Câncer? Eu... eu sinto muito Lilia, desde quando?
─Faz tempo, é leucemia crônica... não tem cura. – ela disse com a voz embargada.
Eu a trouxe pra perto e a abracei, ela estava fraca, e fria não só por causa do ambiente.
Ela parecia tão frágil, tão vulnerável, logo ela que sempre pareceu tão forte e determinada agora mostrava esse lado pra mim.
─Eu achei que se dissesse você não iria mais me querer... o meu ultimo namorado praticamente fugiu de mim depois que soube, como se fosse contagioso, me senti repugnante... naquele dia eu tive uma recaída, faz muito tempo que eu não tinha uma pois eu tenho seguido o tratamento a risca, eu não queria que você se afastasse, por isso me afastei pra que você não me visse nesse estado deplorável, não queria te perder... eu te amo Hyoga. – ela disse se acabando de chorar contra meu peito.
O que eu podia dizer? Ela me amava e eu também a amava, nunca me afastaria dela, mas eu também tinha meus segredos, seria essa a hora de contar tudo a ela? Acho que sim.
─Eu nunca me afastaria de você por causa disso, nunca te acharia repugnante, eu te quero mais que tudo Lilia... eu te amo. – eu disse baixo, ela parou de repente de chorar e me olhou parecendo não acreditar no que eu disse.
─O quê?
─Eu também te amo Lilia.
Ela me abraçou de novo, senti que tinha o dever de cuidar dela, ajuda-la a superar aquilo, embora fosse praticamente impossível, leucemia crônica realmente não tem cura, fiquei muito triste, eu iria perdê-la, algum dia eu iria perdê-la. Cada momento que passássemos agora poderia ser o ultimo, era como uma contagem regressiva e eu sequer sabia a contagem em que estávamos, poderia ser a qualquer momento.
Eu não podia suportar aquilo, as lagrimas começaram a cair de meus olhos também, agora eu tinha certeza, eu a amava, amava de todo coração, a tomei num beijo desesperado, ela se surpreendeu de inicio, mas acabou correspondendo da mesma forma.
─Eu também tenho que te contar uma coisa Lilia. – eu disse depois que nos separamos.
─Hum?
─Bem, é que... eu não sou uma pessoa muito normal... – contei a ela toda minha vida, ela ficou calada em todo o relato, surpresa.
Contei desde a morte de minha mãe até minha situação atual. De inicio ela ficou furiosa, pensou que eu estava brincando ou zombando dela, então eu tive que mostrar.
Verifiquei se havia mais alguém ali e aumentei meu cosmo quando confirmei que estávamos sozinhos, joguei-o contra o lago uma rajada de ar congelante e formou um grande bloco de gelo no centro, ela se sobressaltou e levantou indo pra longe de mim, parecia mais do que surpresa, estava apavorada. Me olhou não acreditando no que eu fiz.
─Meu Deus, isso tudo é verdade mesmo. – ela comentou pasma.
─Desculpe ter escondido isso por tanto tempo, mas você tem que entender que tudo deve ser mantido em segredo, as pessoas não entenderiam.
Ela se mantinha longe, como se eu fosse perigoso e pudesse machuca-la.
Ergui a mão pra ela, pra que se voltasse a se aproximar, ela hesitou por um tempo, mas aceitou a mão que eu lhe oferecia. Tocou nela ainda sentindo o frio do meu cosmo.
─É inacreditável.
─Mas é real.
─Por isso você nunca sente frio.
─É.
─Mas você é quente ao mesmo tempo.
─Meu corpo é perfeitamente normal para um humano, apenas minha energia espiritual é mais desenvolvida, por isso sou capaz de fazer essas coisas.
─Porque está aqui então? Não deveria estar com seus amigos no santuario?
─Eu já lutei muito Lilia, passei por muitas coisas que você nem imagina... Atena nos deu o direito de viver nossas vidas normalmente agora, todos nós merecemos.
─A Saori certo?
─Sim... queria que a conhecesse, todos eles.
─Eu gostaria... mas porque me disse tudo isso Hyoga? Não tem medo que eu conte a alguém?
─Confio em você, plenamente... e quero mesmo que você os conheça.
─Minha vida é curta. – ela disse baixando a cabeça.
─Então viva cada momento... e quero que os viva comigo.
─Hã?
─Quer se casar comigo Lilia?
─E-eu... Hyoga, tem ideia do que está me pedindo?
─Tenho, eu te amo e você me ama... porque esperar?
─Eu não ficarei pra sempre, você sabe.
─Não quero pensar nisso agora... só quero passar o máximo e tempo possível com você.
─Eu também... – ela disse novamente com as lagrimas caindo.
─Porque chora? – eu disse enxugando as lagrimas dela.
─Porque estou feliz... eu aceito me casar com você Hyoga.
Novamente nos beijamos, e só de pensar que poderia ser o ultimo me deixava angustiado, agora eu tinha pressa, como se a vida passasse mais depressa e o tempo não estivesse mais a meu favor. Meu maior medo agora era perder Lilia.
Contamos a noticia aos pais dela, o senhor Poznanski não parecia ter gostado nenhum pouco, mas tolerou, e a senhora Poznanski ficou gostou muito da noticia. Então passamos por todos aqueles estágios de noivado.
Marcamos a data do casamento para depois de nos formarmos, agora Lilia era minha noiva. Era estranho me habituar a essa nova condição, usar uma aliança de compromisso não era o problema, o problema era que a aliança parecia atrair garotas, e Lilia surtava com elas, ficava furiosa, normal em se tratando do temperamento forte dela.
A essa altura ela já tinha melhorado de novo, e novamente era minha Lilia saudável de antes, eu sabia que tempos ruins chegariam e eu deveria estar preparado pra eles, mas não pensaria nisso agora.
Eu ainda mantinha contato frequente com meus amigos no Japão, Camus e Millo me contavam tudo que se passava por lá, fiquei sabendo que Shiryu iria casar com a Shunrei, mas minha condição na faculdade não me permitiam ir pra lá no momento, então mandei meu presente de casamento aos dois e tratei de comunicar que eu logo me casaria também, eu queria ir, mas eu sentia um aperto no coração só na possibilidade de deixar a Lilia, como se eu me afastasse dela fosse fazer ela ter outra recaída, muita presunção eu sei, mas era assim que eu me sentia.
Soube que Saori e Seiya também se casariam em breve, todos pareciam se arranjar então eu preferi não comunicar sobre a saúde de Lilia, não queria que eles ficassem tristes por mim.
Quando finalmente chegou a formatura senti um certo alivio, não que eu não gostasse da faculdade, mas aquele período parecia estagnar a continuação de minha vida com a Lilia, eu estava ansioso, mas ao mesmo tempo me sentia inseguro, tinha medo de não saber cuidar dela.
Ela estava linda naquele dia, como sempre. Nem preciso dizer que pra sermos os primeiros da classe nós tínhamos empregos garantidos nos maiores hospitais da Rússia, então decidimos trabalhar juntos, cada um do seu lado é claro.
Poucos meses depois nos casamos, foi uma cerimonia simples e a contragosto da mãe de Lilia que queria um daqueles casamentos pomposos pra filha, mas foi decisão da própria Lilia fazer uma cerimonia simples.
Millo e Camus estavam presentes, foram os únicos, os outros tinham seus motivos, ainda mais porque o casamento foi planejado as pressas e os convites foram distribuídos em cima da hora, afinal a Lilia queria se encarregar de tudo, e eu acho que já mencionei que ela não é lá muito organizada, até tentei ajudar, mas ela não deixou. Nossos convidados estavam em maioria de parentes dela e nossos colegas de faculdade.
Foi ótimo rever meu mestre, ter ele presente naquele momento era como receber a benção dele, sempre considerei Camus como um irmão mais velho, ou até mesmo um pai, e naquele dia ele me disse que também tinha um carinho muito especial por mim, e que me considerava um filho e que estava muito orgulhoso de mim. Nem preciso dizer que fiquei emocionado em ouvir aquilo dele. Millo também foi essencial, o jeito alegre dele era cativante e tornava tudo mais animado.
Mas não posso negar que senti muita falta de Seiya, Shiryu, Shun e até mesmo de Ikki ali, queria que meus amigos me vissem naquele momento, queria compartilhar meu momento e alegria com eles, e queria também estar presente nos momentos de alegria deles também, eu perdi o casamento do Seiya e do Shiryu, soube até que a Shunrei estava gravida e que ainda por cima de gêmeos, gostaria de ver a expressão do Shiryu quando ele soube, Millo me disse que ele chorou feito um bebê de tanta emoção.
Eu nunca disse a Lilia sobre essas coisas que eu estava perdendo, talvez ela pudesse sentir que estava me prendendo e eu não queria isso, eu queria que ela sorrisse o tempo todo, sem preocupações além das que ela já tinha. Imagine a sensação de poder morrer a qualquer momento, isso já devia ser duro o bastante de se ter em mente e preocupações a mais não eram aceitáveis.
Nunca vou me esquecer do quanto ela estava deslumbrante naquele vestido de noiva, e não podia acreditar que eu estava casando com aquela linda garota, não me sentia digno.
Eu a amava tanto que senti que poderia dar minha vida por ela sem hesitar.
Trocar alianças e fazer nossos votos foi a parte mais marcante, a festa foi meio estanha, pra quem não gosta de chamar atenção como eu aquela era uma situação um tanto angustiante, obviamente éramos o centro das atenções, mas eu tinha Lilia ali comigo então tudo ficava bem, ela era meu ponto de conforto.
Quando o casamento acabou fomos pra nossa nova casa, ainda estávamos decorando, Lilia queria deixar tudo com seu toque, visitamos muitas casas antes de achar aquela, Lilia a adorou, mas não tínhamos decidido nada ainda, então eu a comprei quando ainda estávamos fazendo os preparativos do casamento.
É claro que nosso primeiro móvel foi a cama, seguido logo depois da geladeira, televisão e sofá, mas no momento nossa cama era prioridade, afinal sabemos muito bem o que íamos fazer ali depois de casar. Principalmente depois de toda aquela longa espera, quando digo longa quero dizer longa mesmo, nem sei como aguentei tanto tempo.
Não vou comentar os detalhes sórdidos, mas tenho que dizer que o sexo com ela era incrível, aqueles lábios carnudos, doces e sedutores combinando com aqueles grandes olhos azuis escuros e cintilantes de desejo, os seios fartos, aquela pele macia, corada e cheirosa, as coxas e pernas bem torneadas e firmes e aquele abdômen lisinho me enlouqueciam, fora aquele cabelo dourado e sedoso que emolduravam aquela face afogueada, tudo nela era perfeito, e tudo harmonizado e nas medidas certas.
Não havia um único lugar pra colocar defeito, minha mulher era simplesmente perfeita, isso mesmo, minha mulher, minha esposa, minha amante, minha companheira, ela era tudo pra mim, e eu não tinha olhos pra qualquer outra, era um tolo apaixonado mesmo depois de tantos anos que ficamos naquela enrolação, ela me fascinava de tal forma que me fazia perder o chão eu me sentia um adolescente apreciando sua primeira paixão, embora Lilia tivesse sido primeira em tudo pra mim.
Nem sei descrever o quanto eu a amava, e ela a mim, não existia sentimento maior do que amar e ser amado na mesma intensidade, tudo que vivemos foi inteiramente verdadeiro e intenso e eu queria que aquela fase de felicidade durasse pra sempre.
Nossa lua de mel foi em uma viagem pela Europa, foi meu presente de aniversario de casamento pra ela. Eu queria visitar o Japão, mas só deu tempo de ir até a Grécia, visitamos o santuario, Saori e Seiya a conheceram, e boa parte dos cavaleiros de ouro também, todos a adoraram, e ela ficou fascinada com tudo que viu ali, estava conhecendo um mundo totalmente novo e estranho pra ela.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Mas nós tínhamos um trabalho na Rússia e mesmo que quiséssemos não podíamos permanecer viajando, sermos médicos nos privava de certas regalias que a maioria das pessoas tinha direito, não tínhamos muito tempo disponível.
Quando retornamos e pouco a pouco nossa vida ia se acomodando, eu acordava todas as manhãs com ela abraçada a mim, nada melhor do que despertar com um corpo quente e aconchegante ao seu lado.
Muitas vezes eu ficava admirando ela lá adormecida, fascinado com tamanha beleza e agradecendo por tamanha sorte que tive em tê-la ali ao meu lado, imaginando o que ela teria visto em mim pra se apaixonar.
Ela acordava, sorria e murmurava um doce bom dia, e eu me encantava ainda mais só com esses simples gestos, eu a tomava em meus braços e tomava posse daqueles lábios que a muito já me pertenciam, nunca me cansava de beija-la, e ela correspondia na mesma intensidade.
Nos amávamos, eu ia me arrumar pro trabalho e ela também depois de uma longa protelação pra sair da cama, ela também se arrastava e acabávamos juntos no chuveiro nos amando e provando novamente o gosto um do outro.
O dia seguia-se normalmente, trabalhávamos no mesmo hospital, mas eventualmente nos encontrávamos, melhor assim, a demora apimentava o reencontro e a ansiedade de novamente estar junto dela fazia o tempo voar. Porem às vezes o dia era exaustivo, mas eu tinha a clara certeza que sempre a encontraria de volta em casa me aguardando de braços abertos com um sorriso no rosto, nenhum de nós precisava falar muito pra entender o que acontecia um com outro, nossos olhares já diziam tudo, como se Lilia e eu tivéssemos nossa própria linguagem, ora eu a confortava, outrora era ela a me acalentar, e ficávamos nesses momentos onde palavras não eram necessárias, bastava a presença um do outro.
Demorou um tempo pra eu me acostumar ao jeito desorganizado dela, conviver com uma pessoa e morar com ela muda todo o modo como você a vê, mas quem disse que eu me importava, a cada dia eu estava mais apaixonado por ela, criar uma rotina era a melhor coisa que tinha.
Eu cuidava dela com o maior zelo possível, ela era forte, mas sei que ela sempre se sentia insegura e tinha medo de ter outra recaída, era uma doença incurável, mas tinha tratamento, e por hora mantínhamos o tratamento ao pé da letra, então por hora estávamos tranquilos.
Passou-se um ano que estávamos casados. O senhor Poznanski passou a me tolerar mais, conversávamos mais apesar de nem eu e nem ele sermos muito de conversa, até arranjei um time pra torcer pra deixar ele mais a vontade, eu fazia de tudo pra manter a paz, sei que ele não me detestava de verdade, é que ele era muito super-protetor com a Lilia mesmo, houve até uma vez que ele finalmente confessou que estava feliz em me ter como genro, que eu era uma boa pessoa, mas como genro e sogro são inimigos naturais então decidimos não parecer tão amigos, só pra manter a tradição, coisa de homem, vocês não entenderiam.
Shiryu e Shunrei chegaram a nos visitar em seu período de férias e nós conhecemos os gêmeos deles, eram lindos.
Porem isso colocou uma ideia na mente da Lilia, ela queria um filho. Fui terminantemente contra, eu não estava pronto ainda pra ser pai, minha teimosia gerou nossa primeira discursão séria e ela me evitou por um bom tempo.
E sabem como são as mulheres, quando você nega uma coisa pra elas, elas negam outra coisa pra você também. Mas com o tempo ela se conformou, quando chegasse a hora certa teríamos filhos. Fora esse detalhe tudo ia bem.
Eu tinha Lilia em meus braços, eu tinha uma vida feliz e realizada, e ninguém poderia tirar isso de mim, era um sonho, um sonho do qual eu nunca queria acordar... Era o que eu queria, mas infelizmente descobri que aquele era um desejo fadado ao fracasso, eu já sabia, mas não queria acreditar.
Passou-se mais um ano tranquilo, foi quando ela teve outra recaída, ela ficou fraca, emagreceu muito, passou a ter tonturas e desmaios o tempo todo, frequentes dores de cabeça e palpitações, e até mesmo irritabilidade, fui paciente o tempo todo, fiz tudo que tinha que ser feito, cuidei arduamente dela, controlava seus remédios e a deixava o máximo possível confortável.
Eu tinha plena certeza que aquilo tudo daria resultado, que eu teria minha Lilia saudável, corada e feliz de volta, mas não foi bem assim, apesar de todos os meus esforços ela piorava mais a cada dia, e eu gradativamente desanimava e desesperava.
Eu simplesmente não queria acreditar que podia perdê-la, fiz tudo que pude, até larguei meu trabalho por um tempo pra estar sempre disponível pra ela, quando isso acontecia eu me desligava totalmente de tudo, Lilia era prioridade.
O mais irônico é que eu e ela éramos médicos e pra ser mais irônico ainda ela era especialista em sua própria doença, mas quem disse que isso significava alguma coisa, na verdade não ajudava em nada nossa situação.
Foi a recaída mais longa que ela teve, durou em torno de uns quatro meses, mas ela finalmente deu uma reviravolta na doença e foi melhorando de novo.
Deu graças a Deus por isso, eu não me imaginava mais sem ela. Eu sei que devia estar preparado pro pior, mas eu não estava, e acho que nunca estaria.
Aquele foi o susto que eu precisava, ela tinha razão, o tempo era curto. E eu tinha que fazer que todos os momentos fossem únicos e felizes pra ela.
Pensei e tomei uma decisão, quando ela já estava melhor decidi fazer o que ela queria, se ela queria ter um filho então teríamos um filho.
Ela ficou maravilhada, acho que era o que faltava pra ela se recuperar de vez.
A partir daí passamos a tentar fazer com que ela engravidasse, mas sabíamos que era muito difícil, os remédios que ela tomava pra controlar a doença eram muito fortes, então quando ela estava com a saúde estabilizada ela parou de toma-los por um tempo, perigoso eu sei, mas foi decisão dela. Mesmo assim foi difícil, até achei que o problema era comigo, achei que era estéril, fiz exames, mas eu não tinha nada, descobrimos que ainda eram efeitos dos remédios.
Ela desanimou, queria muito ter um filho e eu estava disposto a dar isso a ela, mas ao que parece só querer não adiantava.
Depois de muitas tentativas, que devo dizer era a melhor parte, ela finalmente engravidou, feliz era pouco pra descrever como ela estava.
Durante a gravidez discutimos algumas opções de nomes pro bebê.
Ela estava sentada em sua poltrona acariciando a barriga de sete meses enquanto eu estava tomando um café e lendo um dos livros dela.
─Que tal Arkady se for menino? – ela comentou.
─Isso parece nome de aplicativo de celular. – eu disse, sei que deveria ser mais gentil, mas esse aí é meu eu verdadeiro.
─Hunf. E Borya? – ela disse.
─Isso é o nome de um peixe?
─Aff Hyoga... e Galina se for menina? – ela disse em expectativa.
─Não vou chamar minha filha de galinha.
─Eu disse Galina e não galinha Hyoga seu tapado, significa paz.
─Você só tem ideias ruins.
─Então pensa em algum nome então cabeção.
─Tá, tá... que tal Feliks?
─Isso é o nome daquele gato de desenho animado.
─E Laryssa? É um nome bonito.
─Ah, esse é bonito sim, mas eu pensei em algo melhor. – ela disse sorrindo.
─O que?
─Natassia. – ela disse sorrindo ternamente pra mim, eu não tinha palavras pra dizer o quanto eu fiquei feliz e grato.
Me aproximei dela e acariciei seu rosto, e a beijei carinhosamente.
─Obrigado Lilia, isso significa muito pra mim.
─Sei disso... eu te amo. – nos beijamos novamente.
─Eu também te amo... Certo e se for menino? – eu disse sentando no braço do sofá dela.
─Poderia ser... hum, que tal Mischa? Significa semelhante a Deus.
─Mischa? Michael... o arcanjo? – eu disse assimilando o nome.
─Sim, Miguel.
─Gostei. – eu disse satisfeito com a decisão.
─Vai ser esse então.
Foi uma gravidez tranquila, e apesar do corpo dela ser frágil ela resistiu muito bem ao parto, e tivemos nosso filho, era um menino, nasceu forte e saudável.
Todo aquele pequeno ser rosa e frágil era meu e de Lilia, a vida é incrível, segura-lo pela primeira vez foi uma das maiores experiências que já tive, quem diria que uma pessoa como eu, que lutei tanto e que sofri tanto teria uma mulher e um filho maravilhoso. Novamente eu confirmava que estava vivendo um sonho.
Só que tinha um problema, aquele garoto me detestou. Lilia não concordou é claro, dizia que era coisa de criança e que eu estava paranoico. Mas isso não explicava o fato de ele sempre chorar quando eu o pegava no colo.
Ter uma criança em nossas vidas era algo totalmente novo, eu demorei a assimilar que agora eu era pai, que tinha mais responsabilidades, mas eu tinha Lilia comigo, e enquanto ela estivesse ao meu lado tudo estava bem.
Com o tempo o Miguel passou a me tolerar, nem sei por que ele não gostou de mim, ainda chorava, mas era com menos frequência.
Quando ele fez um ano fizemos uma festa de aniversário pra ele, ele não entendia nada ainda, mas as fotos o fariam lembrar.
Eu pensei que tudo ia bem, e pensei em finalmente visitar o Japão e rever meus amigos, mas foi quando ocorreu a terceira recaída de Lilia.
Mas dessa vez foi diferente, a doença não teve mais clemencia e veio com violência, os sintomas estavam mais fortes, e isso estava acabando com ela, os remédios que eu criteriosamente dava a ela não pareciam mais fazer efeito.
O tratamento estava falhando miseravelmente, e a poliquimioterapia era agressiva, ela perdeu os cabelos, ficou magra ao extremo, eu não conseguia faze-la comer, as dores eram frequentes e eu não podia fazer nada pra amenizar. Houve complicações infecciosas e hemorrágicas, então tive que interna-la novamente.
Miguel era muito apegado a ela, mas naquele momento ela não podia cumprir o papel de mãe, então eu tinha que fazer essa parte também, a partir daquele momento eu e ele ficamos mais unidos, aos poucos ele passava a ser mais carinhoso. Eu tinha que revezar em cuidar dela e dele, eu tinha ajuda é claro, mas ainda não era o suficiente.
Eu estava desesperado, nunca ela tinha piorado tanto, estava definhando, fiquei com muito medo, seria aquele o fim?
Eu ficava vinte e quatro horas cuidando dela e do Miguel, eu praticamente não dormia mais, não comia direito, e vivia angustiado.
Passaram-se dois meses desde a internação, meus amigos já tinham dado o veredito que ela não resistiria mais, mas eu ainda tinha esperanças, Lilia era forte e iria resistir e vencer a doença novamente.
Irina me ajudou muito nesse período angustiante, ela estava com o Miguel quando aquele dia finalmente chegou.
Eu estava ao lado da cama de Lilia como sempre velando o sono dela e tentando descansar também, segurava suas mãos quando ela apertou de leve a minha mão. Eu estava exausto, olhei pra ela e ela sorriu, um sorriso murcho, conformado, com aquele tubo de oxigênio entrando por suas narinas.
─Oi meu amor. – ela disse com um fio de voz.
─Não fale Lilia, você esta muito fraca.
─Eu preciso.
─Não me venha com esse papo de novo. – tinha até perdido a conta e quantas vezes ela tinha se despedido de mim, e eu odiava quando ela fazia aquilo.
─Onde está o Miguel?
─Com sua mãe.
─Acho que está chegando a hora meu amor. – ela disse ainda sorrindo.
─Você sabe que eu odeio quando você faz isso.
─Já conversamos sobre isso, você tem que estar preparado... Essa é a ultima vez.
─Pare Lilia, por favor. – eu disse já desesperado, as lagrimas já caiam dos meus olhos, eu estava cansado, tanto físico quanto emocionalmente.
─Não posso, sinto que não tenho mais forças.
─A Lilia que eu conheço jamais diria isso. Minha mulher é forte. Você é forte Lilia. – eu disse beijando sua fraca e pálida mão.
─Desculpe por não ser mais e fazer você passar por tudo isso, sei que te prendi a mim por muitos anos.
─Não diga bobagens, os momentos mais felizes da minha vida foram com você.
─Os meus também... mas ultimamente eu só tenho feito você sofrer.
─Não diga isso Lilia.
─É a verdade, mas isso já está acabando... Eu te amo tanto Hyoga. – ela disse chorando.
─Eu também te amo Lilia, amo muito.
─Cuide do nosso filho, encontre outra pessoa... seja feliz.
─Eu sou feliz, feliz com você.
─Você foi... entenda Hyoga, você está infeliz a muito tempo e não percebe.
─Eu não vou suportar te perder Lilia, sei que prometi, mas eu não vou conseguir.
─Sei que vai... quem é mesmo o cavaleiro de cisne? É você meu amor, quero que saiba que eu tenho muito orgulho de você, e sei que vai se sair bem sem mim... algum dia essa dor vai passar, e você vai encontrar alguém que te ame tanto quanto eu te amei.
─Eu não posso amar outra pessoa.
─Você vai Hyoga, prometa que vai, senão eu nunca terei paz.
Eu a olhei consternado, não tinha condições de fazer uma promessa daquelas num momento como aquele, mas pensei no que ela disse.
─Tudo bem... eu prometo.
Ela sorriu, parecia mais aliviada.
─Eu te amo, a você e o Miguel.
─Também te amo Lilia.
Ela continuou sorrindo e relaxou, fechou os olhos e permaneceu assim, complacente e adormeceu. Aos poucos eu adormeci também ao lado dela.
Acordei com o monitor cardíaco apitando continuamente.
Ela se foi.
Eu tinha uma esposa, seu nome era Lilia. Agora ela se foi, e eu também.
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