Destino
13 Lembranças
Notas iniciais
Shiryu e Shunrei vieram nos visitar e trouxeram os gemeos, é claro, acho que tinham apenas uns quatro meses nessa epoca.
Lilia estava fascinada por eles, ela estava praticamente babando em um deles em seu colo. Acho que vou comprar uma boneca pra ela.
─Pega um também Hyoga. – Shiryu dizia segurando o outro filho nos braços.
─Er... melhor não, não sei segurar. – digo sem jeito.
─Aff, pega logo ele. – ele diz e passa o garoto pra mim.
Desajeitadamente seguro a criança, era tão fragil que eu tinha medo de quebrar algum ossinho com apenas um movimento descuidado.
─Umm, esse é o... Akira? – pergunto.
─É o Isao. – disse Shunrei sorrindo.
─São tão parecidos, vocês não se confundem? – pergunto.
─Eles têm sinais de nascença diferentes, assim fica facil, e se prestar bastante atenção eles nem se parecem tanto, a Shunrei sempre sabe quem é quem, mas eu ainda tenho um pouco de dificuldade. – diz Shiryu rindo.
Ele falava alegremente, imagino o quanto ele está feliz, eles planejavam há bastante tempo terem filhos, fico feliz por eles, mas não me acostumo com a ideia de ter uma responsabilidade dessas, Shiryu sempre foi mais maduro do que eu nesse sentido.
─Eles são lindos Shunrei. – Lilia disse sorridente.
─Obrigada Lilia... – as deixamos conversarem e eu e Shiryu fomos sentar no banco lá fora na varanda de nossa casa.
─Err... pega ele Shiryu. – digo querendo devolver seu filho.
─Fica mais um pouco aí com ele. – ele dizia rindo.
─Você é um babaca sabia? – digo irritado, ele sabe que eu não tenho o minimo jeito pra essas coisas.
─rsrsrsrs. E você é um fresco medroso. Fica calmo Hyoga, ele não vai quebrar assim tão facil.
─Hunf. – olho pra criança de novo, estava adormecido. Ele realmente é adoravel.
─Até que você se sai bem Hyoga. – ele diz me olhando tentar aninhar o garoto.
─Ah vá. – digo rindo. ─Acho que nunca peguei uma criança na minha vida.
─Então aproveita... e então, quando vocês pretendem ter filhos? – ele pergunta.
─O quê? Nem me fale nisso, tá cedo demais.
─Ora, quanto tempo vocês tem de casados?
─Quase dois anos.
─Então já tá em tempo não acha?
─Que nada, estou ocupado demais tendo todos os cuidados com a saude da Lilia, estou terminando a pós-graduação, e ainda tem o trabalho no hospital, não dá pra pensar em crianças agora.
─Eita bando de desculpas esfarrapadas. – ele diz balançando a cabeça.
─É sério Shiryu.
─Olha pra ele Hyoga, não quer ter a sensação de ser pai também?
─Nem pensar.
Ele suspira.
─E o que a Lilia acha? Já conversaram sobre isso?
─Graças a Deus não. Tomara que essa ideia não entre na cabeça dela tão cedo.
Filhos, filhos, filhos. Essa ideia não me entra na cabeça, não me imagino sendo pai, o que é que tem que dar pra essas criaturas comerem? Quando eles têm suas nescessidades fisiologicas? Quando devem dormir?... Nããão, quando penso em crianças só sei que elas só comem, choram, dormem, choram, fazem cocô e choram, e depois choram mais um pouco. Definitivamente não sei cuidar desses seres complexos. Não quero ter filhos, não preciso disso.
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─Hyoga. – Lilia me chama quando estou quase dormindo.
Já estava de madrugada, ela estava lendo na luz fraca do seu abajur, Lilia nunca consegue dormir cedo quando fica pensando demais.
─Hum? – digo me virando na cama com a barriga pra baixo.
─Queria conversar.
─Agora? Não pode esperar até amanhã? Eu tô cansado Lilia, cumpri dois plantões hoje.
─Mas é importante.
─O que é? Quer uma rapidinha agora?
─O quê? Não! Você é um depravado Hyoga. – ela diz batendo de leve nas minhas costas.
─Aprendi com você. – digo com a voz abafada no travesseiro.
─Bom, não vou discutir isso.
─Tá, então me deixa dormir agora. – digo abraçando o travesseiro.
─É sério Hyoga, vamos conversar. – diz me puxando pra que eu virasse pra ela.
─Ahh Lilia, me deixa quieto.
─Anda Hyoga, senta aí. – continua me puxando.
Suspiro vencido e sento na cama.
─Tá, o que é? – digo bocejando.
─Olha isso. – diz me mostrando uma revista aberta.
─Não acredito que você me acordou pra ler uma revista de moda Lilia. – digo aborrecido.
─Não é de moda cabeção.
─Hum. Tá, peraí. – volto-me pro meu lado da cama e pego meus oculos em cima do criado-mudo.
─Me deixa ver. – digo colocando os oculos e tentando focar minha vista na tal revista, fora que ainda estou com sono, só a Lilia mesmo pra me fazer levantar a essa hora pra ler.
─Hum. – é uma pesquisa sobre a vida no casamento.
─Está vendo aqui? – ela diz se inclinando e apontando pra um trecho. ─Diz que normalmente os casais têm filhos a partir do segundo ano de casamento.
─Hum. – droga! Já sei aonde ela quer chegar. ─E o que tem isso? – digo indiferente.
─Achei que já estava na hora, não acha?
─Não, não acho. – devolvo a revista pra ela e volto a me deitar.
─Por favor, Hyoga, me escuta.
─Não é hora pra isso Lilia. – digo me virando dela na cama.
─E quando vai ser então?
─Eu não sei Lilia, só sei que não é agora. – e se eu der sorte nunca vai ser.
─Mas...
─Eu não quero ter filhos Lilia. – digo e de imediato me arrependo pela expressão magoada dela.
─Você não tem o direito de decidir isso sozinho. – ela diz já com os olhos marejados, droga, ela sempre é tão sensivel.
Baixo a cabeça e fico em silencio.
─Por favor, Hyoga, não viu o quanto a Shunrei e o Shiryu estão felizes? Eu gostaria de me sentir assim também.
─Então você não está feliz?
─Estou, mas... mas, ah por favor Hyoga! Eu quero mais, sei que parece egoismo, mas não é o suficiente.
─E eu Lilia, você pensa no que isso significa pra mim? Ao menos você pensa um pouco em como eu me sinto? Principalmente quando você me diz essas coisas? Que eu não sou o suficiente, e não importa o quanto eu me esforce você nunca vai estar feliz completamente.
─Não é disso que se trata Hyoga, eu penso nos seus sentimentos também, mas você está praticamente dizendo que escolheu não ter filhos, e isso sozinho, Hyoga, você nunca me perguntou se eu não queria também.
─Acontece que você não está perguntando Lilia, você está impondo, como sempre faz, e você sabe que eu sempre vou ceder, mas dessa vez não Lilia, não basta só você querer, você sabe que eu sempre faço tudo por você, mas há limites Lilia, isso me afeta diretamente, não estou pronto pra isso ainda.
─O meu tempo é curto. – ela grita.
─Não dá pra ter certeza. – digo.
─E você vai esperar pra ver? Achei que me amasse. – lá vai ela apelar.
─Eu amo você, mas isso não significa que tenho que fazer tudo que você quer. Casamento é um consenso de ambas as partes Lilia, e você está decidindo isso sozinha.
─É você que tá fazendo isso.
─Tá, a culpa é minha de novo. – digo aborrecido e me levanto. ─Saco! – pego um lençol e saio do quarto.
Raramente discutiamos sério. Normalmente quando sou atacado me recolho a minha fortaleza estoica com espaço apenas para mim, às vezes não emitindo uma unica palavra durante horas, quanto mais ela gritava, mais calado eu ficava. Minhas respostas eram baixas e monosilabicas. Isso enlouquecia Lilia, ela queria que eu reagisse, queria uma diplomacia matrimonial que jamais aprendi, afinal sempre fui de certa forma emocionalmente inepto.
─Mas que droga Hyoga, você não vai fugir dessa conversa, fala alguma coisa. – ela diz me seguindo enquanto vou pra sala.
Deito no sofá e ela permanece me olhando extremamente irritada de braços cruzados e eu permanecia calado e emburrado.
Ela suspirava pesadamente, ainda irritada.
─Tá bom, pode continuar calado, e fique calado o quanto quiser aí nesse sofá, porque é aí que você vai dormir pelas proximas noites. — dizia implacavel como sempre e extremamente irritada.
─Ótimo. – digo irritado.
─É, ótimo. – diz gritando, indo pro quarto e batendo a porta com uma grande força desnecessaria pra desabar em lágrimas as quais eu não tinha o direito de ver já que fui eu que as causei.
De madrugada, ainda sem querer admitir meus erros, eu pensava mais nela do que na dircursão ou no motivo em si.
Os dias se passaram e ainda permaneciamos indiferentes um ao outro, qualquer espectador diria que estamos agindo feito crianças. Ela me ignorava, me evitava.
Às vezes ela me provocava descaradamente vestindo minis lingeries e passando por mim orgulhosa. Me mantive firme, é a vez dela ceder. Apesar das minhas costas estarem doendo muito de dormir nesse sofá desconfortavel, não fui pro quarto de hospedes porque ela já baixou o intimato que eu não podia dormir ali também, então ela o trancou e escondeu as chaves. Só não derrubo a porta porque senão eu que vou ter o trabalho pra consertar. Então o jeito é me contentar com esse sofá mesmo.
Acho que ficamos uma semana nessas birras. Cansei disso, levantei e fui pro quarto e a vi com o rosto virado no travesseiro adormecida de qualquer jeito encolhida e abatida, estava chorando, e a culpa é minha, droga.
Eu sentei na beirada da cama e acariciei seu rosto complacente, mas um tanto resignado. Odeio deixa-la assim.
Peguei as cobertas e a cobri até continuar as caricias enquanto afagava seus cabelos, ela sempre gostou que eu fizesse isso.
Mas isso a acordou e ela foi abrindo os olhos aos poucos.
Virou-se pra mim e ficamos um bom tempo nos olhando.
─Desculpe. – murmurei.
Ela tremia o labio inferior antes de desabar em lágrimas de novo num choro mudo. Isso a deixava adoravel, eu a amo tanto.
Beijei os cantos de seus olhos. Ela agarrava meu pescoço e me abraçava.
─Me desculpe também.
─Está tudo bem... — eu dizia beijando de leve seus lábios. ─Tudo bem. – não adianta tentar evitar, sou sempre eu que tenho que tomar atitude pra pedir desculpas.
Ela me puxava pra cama, eu me aconchegava e ela deitava a cabeça no meu peito e entrelaçava uma perna na minha.
Ficamos calados enquanto eu continuava afagando os cabelos dela e ela fazia circulos imaginarios em minha camiseta.
─Eu não estou pronto Lilia. — digo.
─Eu entendo, sei que estou tornando muitas coisas precoces pra você... Mas eu quero um bebê, meu tempo é curto.
─Olha Lilia... Eu só... Não quero fazer as coisas muito rápido e não saber lidar com elas depois.
─Sei como se sente, mas eu estou preparada, acho que serei uma otima mãe, e tenho certeza que você vai ser um otimo pai também. Enquanto estivermos juntos tudo vai ficar bem, sei que vai.
─É disso que estou falando Lilia. Você me diz o tempo todo pra eu estar preparado pra te perder, e você vem e fala que tudo vai ficar bem enquanto estamos juntos, mas e quando não estivermos mais? Eu não vou saber criar uma criança sozinho Lilia, nem sei como.
Ela ficou calada.
─Ainda não estou acostumado com a ideia de que posso te perder Lilia. — eu disse apertando ela em mim que me apertou também.
─E como acha que eu me sinto Hyoga. — disse com a voz falhando com mais um choro a caminho.
─Sei que é muito dificil pra você, o tempo todo. Mas um filho não vai resolver esse impasse, vamos continuar na mesma, daí você não iria deixar só a mim, mas deixaria uma criança também.
─Eu sei, mas é que eu preciso vivenciar todas as sensações possiveis enquanto ainda posso, quero ter a sensação de ter uma criança em meus braços, de cuidar dela, de ouvi-la me chamar de mãe. Quero sentir tudo isso Hyoga... Antes que eu parta... Sei que não vou poder vê-lo entrar na faculdade, nem de dar conselhos sobre namoradas ou namorados, nem ficarei até de madrugada o esperando chegar da noitada... Não verei meus netos. — disse já com lagrimas abundantes. ─Mas eu quero ao menos o começo Hyoga, ao menos o começo... não sei quanto tempo ainda tenho, mas foi você mesmo que me disse pra viver cada momento e é isso que estou buscando Hyoga, esses momentos.
Eu suspirei.
─Além do mais, vai ser minha marca no mundo, vou deixar um legado, um filho. É um presente pra você também, ainda ter alguem aqui pra se lembrar de mim.
─Não é bem assim que eu consigo encarar essa situação no momento. Desculpe.
─Olha... Vamos entrar num consenso, sei que está inseguro, eu também estou, na verdade estou assim o tempo todo com relação a minha vida. A unica coisa certa em minha existencia é você Hyoga, que eu tenho você, que tenho seu amor, mas não é o suficiente, sei que parece egoismo, mas eu quero mais Hyoga, quero mais do que seu amor por mim, quero que me dê algo que eu possa gerar em mim, quero produzir uma vida, quero ser mãe... Vamos esperar mais um tempo pra que você se acostume com essa ideia e enfim decida o que quer fazer. Mas eu quero que pense nisso com carinho Hyoga. Faz isso por mim. — disse com a voz chorosa, ela sabia que eu não resistia quando ela fazia isso, então consenti.
─Tudo bem. — eu disse depois de um tempo pensando.
─Obrigada meu amor. — disse sorrindo ternamente pra mim e depositando um beijo em meus lábios. Entreabri minha boca e permiti que ela intensificasse o beijo.
Trouxe-a pra cima de mim e passei a acariciar aquela cintura fina.
Seus seios estavam imprensados em meu peito, aquele roçar, o corpo quente sobre o meu, aquela boca despudorada tomando a minha e aquele cheiro inebriante dela que estava por toda parte, céus como posso pensar em perder tudo isso algum dia? É torturante, absolutamente angustiante.
...
Lilia teve outra recaida, está no hospital. Shunrei e o Shiryu estão aqui novamente. Shunrei está com Lilia no quarto e estou caminhando pelo jardim do hospital com o Shiryu enquanto isso.
Ele está com o Isao agora, sei lá, esses garotos me confundem, acho que estão com um ano agora. Ele e a Shunrei variam em ficarem com os filhos, cada um fica com um filho por um tempo eu acho.
─Nunca me acostumo de te ver assim Hyoga. – Shiryu comenta já que estamos calados há vários minutos.
─Hum?
─De jaleco. – ele diz sorrindo, quer me distrair, me animar.
─Ah.
─A Lilia parece estar melhorando. – ele comenta.
─Ela está em um de seus dias bons, mas isso é raro, o tratamento está falhando. – digo suspirando quando sentamos num dos bancos do jardim.
─Ela vai ficar bem Hyoga, não se precipite. – Shiryu diz preocupado.
─É, tomara. – digo colocando as mãos no rosto.
─Você parece bem cansado.
─Acho que tem uns três dias que não saio daqui.
─Sério? – ele diz surpreso. ─Tem três dias que você não toma banho? – ele diz rindo.
─Claro que não Shiryu, tem banheiro aqui também sabia?
─rsrsrsrs. Ah tá... Tá com fome?
─Não.
─Vamos lá, pago seu almoço. Quando foi a ultima vez que comeu?
─Sei lá, ontem eu acho.
Olho pra criança em seu colo que ficava curioso me olhando.
─Ele cresceu.
─É, tá lindo não é?
─É... Esse é o Isao?
─Acertou dessa vez. – ele diz sorrindo.
─rsrs. É.
─Tio Hyo. – o garoto diz sorridente. Fungava, e estava corado.
─O que houve com ele? – pergunto.
─Um resfriado, eu acho, sempre acontece quando viajamos pra cá.
─O clima é frio demais pra eles. – digo e pego o garoto dele.
─Abre a boquinha. – ele me obedece e o analiso.
─É só uma congestão. Depois eu te dou uma receita. – digo devolvendo o garoto pra ele.
─Tá. Fica mais um pouco com ele. – ele diz sorrindo.
Olho indiferente pra ele.
─Ah, vai me dizer que ainda tem medo de crianças Hyoga?
─Não é medo.
─Sei. – o ignoro e observo o Isao.
Ele é adoravel com essas bochechas grandes e redondas, e esses olhos pequenos e puxados.
─Tio Hyo é igual o sol, né papai. – ele diz sorrindo.
─Hum, sol? – digo confuso.
─Olha papai, amalelo, bilha igual o sol. – ele diz ficando em pé no meu colo e puxando meu cabelo.
─rsrsrsrs. É filho, igual o sol. – diz Shiryu.
Deixo ele me analisar. Isao pega meu rosto em suas maozinhas e fica cutucando meu rosto, acho que minha aparencia deve ser bastante anormal pra o que ele é acostumado, mas não concordo que japoneses são todos iguais, meus amigos, por exemplo, são bastantes diferentes uns dos outros.
Não parece tão ruim ter um filho. Embora eu não me habitue com a ideia de alguem me chamar de pai.
Acaricio seus cabelos pretos e macios.
─Viu como é boa a sensação Hyoga. — Shiryu comenta.
─Hum?
─Ter uma criança em sua vida.
─Ah. — digo sorrindo e levantando o garoto. ─Olha Isao, alto, alto.
─rsrsrsrs. Mais alto tio. — ele diz animado.
─Mais? — atendo o pedido.
─Mais, mais.
Brincar com ele era otimo, realmente é uma sensação boa ter uma criança. Acho que todo o trabalho e preocupação que elas dão valem a pena afinal.
Imagine se fosse meu. Deve ser melhor ainda.
Voltamos pro hospital e eu levei o Isao no meu ombro, ele estava animado. Falava e falava sem parar, era ao menos alguma coisa pra me fazer sorrir nesses dias dificeis.
─Também quero tio. — disse Akira quando nos viu entrando.
─Arrumou heim Hyoga. — disse a Shunrei rindo.
─Pois é. — confesso que estou gostando de crianças.
Eu já devia estar acostumado, afinal eu convivi com Jacó, mas ele já tinha oito anos, não é a mesma coisa.
─Vem cá garoto. — digo e pego o Akira também e sento na cadeira proxima com cada um em uma perna.
─Pode virar nossa babá se você quiser Hyoga. — Shunrei diz rindo.
─Até parece. — sorrio. ─Eles têm babá?
─Sim claro, o nome dela é Mai, demos um tempinho de folga pra ela enquanto viajamos. — disse Shiryu.
─Mas é provisório, daqui uns meses eu vou poder dar conta sozinha. — disse Shunrei. ─Vou deixar o hospital por um tempo.
─Mas Shunrei. — Lilia diz consternada.
─Tudo bem Lilia, preciso passar um tempo com meus meninos, essa fase passa tão rápido, então quero acompanhar.
─Mas você tinha acabado de conseguir o cargo de enfermeira chefe. -digo.
─Eu falei pra ela. -disse Shiryu.
─Não faz mal, prefiro perder isso do que o tempo com meus filhos. – diz Shunrei.
─Não dá pra conciliar seu tempo? – Lilia pergunta.
─Não, como enfermeira chefe eu teria mais trabalho e embora o cargo fosse bom ainda assim ia tomar muito do meu tempo.
─Imagina pra nós que somos médicos. — Lilia diz.
─rsrsrs, por isso que eu não quis ser médica.
─E você Hyoga? Já tem dois anos que você é o cirurgião chefe, é puxado? -Shiryu perguntou.
─Na verdade não, não é nada fora do comum, na maioria das vezes só dou consultoria pros médicos novos e resolvo algum problema. Mas como estou me dedicando a Lilia o Adam assumiu esse cargo por um tempo.
─Ah, entendo.
Eles ficaram mais uns dias em nossa casa e eu tive mais tempo com os garotos, vou sentir falta, gosto de bastante companhia quando Lilia está doente, ela sempre fica feliz com nossos amigos por perto, e de certa forma isso a faz se sentir melhor.
Olho pra ela adormecida na cama, com tubos saindo de suas veias, estava no respiradouro a alguns dias atrás, melhorou um pouco desde então.
Estava frágil e indefesa, tenho tanto medo de perdê-la, tanto medo. Coloco minha cadeira perto de seu leito e fecho os olhos quando faço uma oração pra ela com o rosario de minha mãe em minhas mãos.
Quando termino percebo ela me observando.
─Você precisa dormir Hyoga. – ela comenta sorrindo com ternura.
─Já dormi. – minto.
─Você nunca soube mentir Hyoga. – ela comenta rindo.
─Quer comer alguma coisa? – mudo logo de assunto.
─Só se você comer comigo. – ela diz.
─Tá, vou buscar alguma coisa pra você.
Pego algumas coisas que ela pode comer e volto, mas ela me fez voltar de novo pra buscar alguma coisa pra mim também, não discuto, não quero chatea-la de forma alguma.
─Sabe Lilia, andei pensando. – digo enquanto ela come uma sopa e eu como um sanduiche da cantina do hospital.
─Em quê? – diz comendo a sopa de mau gosto. Sei bem que ela odeia essas comidas de hospital, aquilo parecia mais é agua suja.
─Quando você melhorar, podiamos... se você quiser... –ela fica me olhando ansiosa. ─Tentar ter um filho. – digo por fim.
Ela faltou engasgar com a sopa.
─Você está bem? – pergunto preocupado.
─É sério? – diz sorrindo.
─Sim, mas só quando você ficar boa.
Ela coloca as mãos no rosto e começa a chorar compulsivamente.
Olho pro minitor cardiaco e seus batimentos ficam cada vez mais rápidos.
─Lilia? – rapidamente me aproximo dela.
Ela enlaça meu pescoço de repente e me beija.
─Eu te amo, amo, amo muito. – diz com um grande sorriso.
Passado alguns dias parece que ela melhorou espantadorosamente rápido.
Ele já estava saudavel e com um brilho que resplandecia e dava inveja a qualquer mulher, estava feliz, e eu também estava só por perceber isso.
Com o tempo percebi que passei a ansiar por um filho tanto quanto ela, quando Shiryu vinha com os filhos eu passava o máximo e tempo possivel com eles, uma das razoes de eles gostarem tanto de mim hoje em dia.
Eu me perdia em minhas fantasias de ser pai, nem lembrava mais porque fui tão contra no começo.
Imaginava um bebezinho, com bracinhos rosa e rechochudos, com grandes olhos azuis e cabelos cacheados e loiros, pra falar a verdade, do contrario da maioria dos homens, eu sempre quis uma menina, chama-la da minha princesinha, já imaginava ela com aqueles vestidinhos entornados de enfeites combinando com os sapatos de chochê, meias brancas, e com laços prendendo os cachos loiros. Se fosse um menino tudo bem, seria meu garoto, minhas fantasias já elevavam meu conciente a imaginar jogando bola com ele, brincar com ele, ensinar-lhe coisas como caçar vagalumes com um pote, fazer as pedras pularem na agua, mostrar como a combinação de geleia de morango com a de leite pode deixar a torrada mais gostosa. Enfim, eu estava abobalhado mesmo.
Mas foi dificil, Deus sabe o quão foi dificil ela engravidar.
Eram exames atrás de exames, meus e dela, mas nós somos médicos, sabemos qual o empecilho principal, eram os remedios que ela tomava.
─Eu poderia parar de toma-los por um tempo. – ela comenta.
─O quê? – digo exaltado. ─Nem pense nisso Lilia.
─Os antibioticos são muito fortes Hyoga, eles anulam o efeito dos fertilizantes. Se eu não parar nunca vou conseguir engravidar.
─Podemos dar um jeito.
─Hyoga...
─Tentar algum fertilizante mais forte. – tento argumentar.
─Hyoga...
─Nós podemos adotar, por favor, Lilia, não tente nada que arrisque sua saude.
─Eu quero que seja seu Hyoga, quero um filho seu. – ela enfatiza.
─Mas...
─Vai ficar tudo bem, eu juro. – diz sorrindo numa tentativa de me tranquilizar.
Acabei concordando, ela sabe ser persuasiva, até porque eu queria evitar outra discursão.
Quando, finalmente, Lilia se deparou com uma incontestavel linha azul no teste de farmacia, ensaiamos passinhos de dança na entrada do banheiro, ela balançando acima da cabeça o papelzinho como se fosse um isqueiro num show de rock.
Estavamos tão contentes que tratei de contar a Adam a novidade, só que tive outra surpresa quando ele me disse que acabara de saber Wendy também estava grávida.
A gravidez foi uma fase delicada pro humor da Lilia, era tinha ciumes de tudo e de todos... mais ainda.
Tive que reunir todas as minhas reservas de paciencia.
─Não acredito que você ficou olhando pra aquela garota Hyoga. – ela disse quando chegamos em casa de mais uma noite que arrisquei leva-la a um restaurante pra que pudesse relaxar um pouco.
─Ela era a garçonete Li, eu tinha que olhar pra ela.
─Tinha nada, você tava é paquerando ela.
─Por Deus Lilia, ela tinha idade pra ser a minha mãe, e ainda por cima tinha um olho confuso, nem sei se ela tava olhando pra nós ou pra mesa ao lado. — digo balançando a cabeça quando lembro daquilo.
─Você não me engana, devia se fingir de cego e não olhar pra ela. Quer saber da próxima vez você vai usar óculos escuros e se fingir de cego mesmo.
─Isso não é necessário Li, é um exagero.
─E porque? Por um acaso você quer me deixar Hyoga? Vai me deixar com um filho de cinco meses na barriga e se aventurar por aí com garçonetes que você encontrar pelo caminho dos fast foods? — ela disse mais irritada ainda.
─Bom, se a garçonete for a Cameron Dias. – digo rindo, péssima ideia.
─Hyoga!
─Tá bom, desculpa. Você sabe que eu nunca te deixaria Li.
─Você diz isso agora, mas é só nós vermos outra mulher que você me deixa rapidinho.
─Não seja tão dramática Lilia.
─Dramática? Acha que estou sendo dramática?
─Não Li, só acho que você está exagerando um pouco.
─Ah, agora eu sou exagerada também. Pense se vai ser muito exagero eu te colocar pra dormir no sofá hoje, que é lá que você vai dormir.
─O sofá de novo? Minhas costas nem se recuperaram ainda da semana passada.
─Pense nisso da próxima vez que decidir aprontar.
─Mas eu nem fiz nada.
─Não quero saber de desculpas. Sofá. Agora.
─Aff, me diz ao menos se eu posso dormir no quarto de hospedes dessa vez.
─Não, escondi a chave num lugar bem seguro, seu castigo é num sofá, de que adianta eu te punir se eu souber que você vai dormir tranquilamente em uma cama quentinha sem mim.
─Isso é decisão sua, é você que está me tirando do seu lado na cama.
─Como quer que eu durma sabendo que você vai estar ao meu lado pensando em outra mulher.
─O que? Outra mulher? Eu não penso em outra mulher.
─Pensa sim, às vezes você fica distante, é nessas horas que você pensa nela.
─Tá bom Lilia, eu durmo pensando em uma mulher sim. — digo logo.
─Não acredito que você admitiu. — ela diz já com lágrimas descendo.
─É, eu admito sim. Eu penso em uma mulher toda noite, e sonho com ela.
─Seu canalha. — ela diz já chorando.
─Sabe que eu sou até feliz?
─Feliz? – ela diz com a voz tremula.
─Quer saber por quê? Porque quando eu acordo a mulher dos meus sonhos está deitada ao meu lado... exceto nos dias que eu durmo no sofá.
─O quê?
─Isso mesmo Lilia, é com você que eu sonho, é só você que eu desejo. Só você.
Ela sorri enquanto seca as lagrimas.
─Desculpe. Eu sei que estou meio maluca ultimamente, a gravidez está mexendo comigo, e eu tenho medo de te perder.
─Você nunca vai me perder Li. Eu te amo tanto, nunca te deixarei.
─Você promete?
─Prometo. — digo enxugando as lágrimas dela e a abraço.
Ela sorri. Um sorriso cheio de amor, de remorso e de alegria.
─Pode me fazer um favor? – ela pergunta.
─Claro, o que quiser.
─Compra chocolates pra mim?
─Acabamos de jantar.
─Estou com desejo.
─Tá bom, tá bom. – digo rindo. ─Tomara que nosso filho não cresça e fique viciado em chocolates... tenho um amigo assim. – digo indo comprar o bendito doce à meia noite, mas quem disse que eu me importo? Eu faço tudo por ela.
E durante algum tempo foi como se uma nova vida houvesse sido soprada dentro de nós. Nosso casamento se tornara, involuntariamente, centrado naquela bolinha de vida que crescia em seu utero. Tudo estava em seu equibrio perfeito.
Eu estava feliz.
...
O voo nem estava tão cheio, então eu pude escolher o meu lugar, é claro que foi ao lado do Hyoga.
Ele estava inclinado quase de costas arrumando o Miguel, que ainda choramingava e reclamava, me acomodei ao lado dele.
Só cheguei coloquei minha mochila no bagageiro em cima e sentei ao lado dele e ele nem me notou, então eu pigarreei.
─Desculpe, só vou terminar de arrumar ele aqui e já me ajeito... – ele disse já se desculpando por estar incomodando a pessoa que chegou e se virou brevemente pra mim e imediatamente ficou surpreso.
─Shuuu. — Miguel disse alegremente quando me viu.
─Mas o quê? O que diabos você tá fazendo aqui Amamiya? – ele diz irritado.
─Silencio Hyoga, as pessoas querem sossego. Oi Mick. — digo tranquilamente e aceno pro Miguel.
─O que você tá fazendo aqui. — ele falou num tom mais baixo, mas não menos ameaçador.
─Vou com vocês. — digo simplesmente.
─Por quê?
─Porque eu quero ora.
Ele me olha irritado. Não adianta, não vou me afastar dele de novo.
─Desce agora. — ele mandou.
O idiota pensa que me intimida.
Ignorei e peguei os fones de ouvido do suporte do banco da frente e liguei a pequena televisão que tinha nele, passei a assistir sem dar a mínima pro Hyoga.
─É sério Shun. — ele diz.
Comecei a cantarolar baixo enquanto assisto a TV.
Ele se irritou e tirou um dos lados do fone e eu sorridente olhei pra ele.
─Quer alguma coisa? — digo sorrindo.
─Idiota. — ele diz irritado. ─Não vai fazer esse joguinho comigo, eu vou sozinho com o Miguel.
─Hum. – digo na maior tranquilidade. ─Sabe Hyoga, eu nunca fui à Rússia. — digo sorrindo. ─Estou ansioso pra ver a neve, fora que Moscou tem lindos pontos turísticos né. Ah, eu trouxe poucas roupas, e nada pro inverno, você sabe, decidi vir às pressas, por isso você vai ter que me emprestar algumas coisas. Fora que eu não trouxe nenhum rublo, e eu soube que cartão de credito é um dilema por lá né? Vai ter que me ajudar nesse termo também. — digo sorridente.
─Você...
─Ah, só quero esclarecer que eu entendo russo, mas não falo fluentemente viu, então você vai ser meu tradutor. — digo sorrindo batendo no ombro dele.
Ele continua me olhando ameaçadoramente, mas não dou a mínima. Uma aeromoça passa por nós.
─Vamos sair em poucos minutos senhores. — ela avisa gentilmente.
─Ah, com licença. — Hyoga a chama. ─Sabe me informar quantos anos eu pegaria se jogasse esse individuo pra fora do avião? — ele diz pra ela.
─Hum? — ele fica surpresa e confusa.
─Ele só tá brincando. — digo rindo pra ela.
─Ah tá. — ela sorri. ─Querem alguma coisa? – ela pergunta com um sorriso jovial.
─Sim, por acaso não tem alguma arma de fogo por aí ou uma faca? Veneno também serve. – Hyoga pergunta.
─O quê? – ela disse assustada.
─Ele só não tomou os calmantes dele ainda, só tá um pouco maluco. Por isso só ignore. – digo logo sorrindo pra ela.
─Ah, entendi. Se precisarem de alguma coisa é só chamar. – diz sorrindo e se retira pra continuar avisando os outros passageiros.
─Vão acabar te expulsando do avião por suspeita de terrorismo Hyoga. – o advirto.
─Quer dizer então que tudo que eu disse pra você não adiantou de nada? — ele diz me olhando ainda aborrecido.
Suspirei e olhei sério pra ele.
─Eu vou com você, porque eu sei que vai ser difícil passar por tudo que te espera, quero estar ao seu lado dessa vez. E não se preocupe Hyoga, vai ficar tudo bem. — digo o olhando nos olhos. ─Além do mais você não me convenceu nenhum pouco com nada do que disse, você gosta de mim que eu sei, e está tentando se enganar, mentindo pra si mesmo, não vou deixar você fazer isso. – digo confiante.
─Quanta presunção. — ele comenta irritado balançando a cabeça. ─Está perdendo seu tempo.
─Ora Hyoga, você precisa de mim, admite. — digo sorrindo.
─Eu nã...
─Além do mais eu nem te dei a chance de se apaixonar por mim direito.
─Hã?
─Não vai doer, já está acontecendo e você nem vai notar. — digo alegremente e cheio de confiança.
Pego seu rosto e dou um beijo simples na boca. Estou sendo muito atrevido?
Ele se afasta rapidamente e me olha muito surpreso, mas não me empurra nem nada disso. Era tão bom beija-lo, principalmente sabendo que ele não pode surtar por estarmos em publico.
Ele se vira encosta a cabeça no banco e suspira pesadamente e pra lá de irritado.
─Ichi, ni, san, yon, go... — começa a contar devagar pra tentar se acalmar, ele sempre faz isso, até no passado quando estávamos todos juntos, das muitas vezes que eu o fiz perder a calma, pensando bem, nós tivemos muitos momentos no passado, incluindo brigas que nunca deram em nada, ele sempre me desculpava, e eu a ele, embora ele tenha mais motivos do que eu, o que posso me queixar dele era sua frieza de sempre, mas afinal ninguém é perfeito.
Quando termina de contar, provavelmente até um milhão, ele suspira mais livremente.
─Acabou? — digo o observando.
─Não pense que vou ficar te dando atenção. — ele adverte.
─Anram, disso eu já sabia.
─Vou fingir que você nem tá aqui. — diz se fazendo de difícil.
─Ok.
─Não pense que vai acontecer alguma coisa entre nós nessa viajem.
─Se você diz.
─E não fique me tocando desse jeito em publico. — ele avisa.
─Então em particular pode? — digo rindo.
Ele me olhou irritado de novo. Levantou, pegou a cadeira do Miguel e o colocou onde ele estava, e foi sentar ao lado da janela com o Miguel entre nós.
Só dei de ombros e fiquei o olhando enquanto brincava com o Miguel.
Ele ficou emburrado de braços cruzados olhando pela janela. Agora que eu notei que o cabelo dele cresceu mais, já estava descendo um pouco pelo pescoço, era tão lindo aquele loiro brilhante, ele é lindo, mesmo quando estava irritado, dessa vez eu acertei mesmo.
─Depois de aterrissar vamos pra estação pegar um trem pra Moscou. — ele avisa emburrado quase num murmúrio sem me olhar.
─Tá bom. — digo sorridente.
Ele me aceitou.
...
O voo seguiu com algumas turbulências por causa do mau tempo, conforme nos aproximávamos da Rússia mais frio ficava, parece que as tempestades eram sérias mesmo, mas é claro que nada de ruim pode acontecer com um avião em que eu e o Hyoga estamos, mesmo a distancia podemos usar nosso cosmo pra controlar a variação do clima, pelo menos até onde nos interessa, felizmente não precisamos recorrer a isso.
Eram onze horas exaustivas e tediantes de voo, principalmente porque tinha um loiro idiota, mas que eu amo muito, que está me ignorando sem o mínimo de ressentimento. E esse mesmo idiota não dormiu nem comeu nada, ia comer uns amendoins, mas desistiu já que não podia chegar perto do Miguel com aquilo já que o garoto é alérgico, não cedeu nem mesmo as minhas insistências pra o fazer comer alguma coisa, afinal ele estava me ignorando. Mas ainda assim estou preocupado com ele, não parece nada bem.
Chegamos a São Petersburgo, eram duas horas da tarde por lá, fuso horário é uma confusão mesmo, mas posso jurar que a temperatura estava a vários graus abaixo de zero, o sol nem aparecia, e ainda por cima estava nevando, era só o gelo.
O Hyoga encapotou o Miguel dos pés a cabeça, mas nenhum deles estava incomodado com aquele frio, nem mesmo o Miguel, pelo menos não muito.
E mesmo por ainda estar zangado comigo o Hyoga ainda me emprestou um de seus casacos.
Fomos pra estação, pra mais quatro horas exaustivas de trem. Hyoga comprou os bilhetes e ficamos num dos bancos de lá esperando o trem. Miguel simplesmente brincava com seu boneco num banco da estação enquanto comia uns marshmallows que o Hyoga comprou em uma lanchonete ali perto.
Eu achei que tinha mais resistência, mas aquele frio tava me matando, quem diria que um garoto de três anos tem mais resistência ao frio do que eu.
Comecei a esfregar os braços, mesmo com o casaco do Hyoga.
─Que diabos de temperatura está fazendo agora? – digo inquieto pra manter o calor do corpo e indo de um lado pro outro enquanto o Hyoga estava em pé de braços cruzados olhando distraído e pensativo a linha do trem, e simplesmente sem o seu casaco que foi parar no banco ao lado do Miguel sem mais nem menos.
Hyoga passou a mão pelo ar, como quem espanta um mosquito.
─257K (-16°C). – ele comenta indiferente.
─Parece que é menos. – reclamo.
─Bem feito, ninguém te chamou pra vir.
Só olho irritado pra ele.
Ele percebeu que eu estava inquieto demais, pegou sua mala e tirou um cachecol e umas luvas de lá.
Aproximou-se, colocou o casaco dele nos meus ombros, enrolou o cachecol no meu pescoço se abaixou e pegou minhas mãos nas dele e as esfregou pra aquecer um pouco antes de colocar as luvas em mim.
─Isso que dá ser teimoso. — ele comenta distraído enquanto executava a tarefa. ─Pronto, vai melhorar. – ele diz esboçando um mínimo sorriso, mas logo o desfez quando viu que eu o observava.
Era a primeira coisa que ele disse desde que o avião decolou, bom, era a primeira coisa desprovida de sarcasmo, ironia ou acusação, até então ele estava evitando ao máximo qualquer contato comigo.
Amei aquele contato, as mãos dele eram frias ou quentes quando ele queria. E como que queria que aquele toque tivesse durado mais, seu toque era único.
Fiquei realmente constrangido com o gesto, Hyoga era tão carinhoso e atencioso, imagine como ele era com a Lilia, devia ser um sonho.
─Obrigado. — digo sorrindo e ele imediatamente ficou vermelho e voltou a se afastar, ele sempre colocava o Miguel entre nós pra nos manter afastados.
Embarcamos num trem expresso (Sapsan), é claro que tinha aquecedor, graças aos deuses. A viajem seguiu-se num silencio inquietante, só não tanto por causa das frequentes ligações do Hyoga pro amigo dele.
─Oi Adam, já estou no trem... Passando por Novgorod, eu acho. – ele diz olhando pela janela. ─Umas três horas e meia mais ou menos... Não, vou direto pra aí... Ah, que bom. Obrigado. E qual a situação agora?... Graças a Deus. – ele diz mais aliviado. ─E a Irina, como está?... É, não posso mais fugir disso... – ele diz um pouco receoso. ─Pensei que sua intenção era me animar. – ele sorri. ─Tá bom Adam, nos falamos mais tarde, tchau.
Ele olhou sorrindo pro Miguel, amo o sorriso dele, acho que estou prestando atenção demais ultimamente, quer dizer, mais ainda.
─Está com fome querido? – ele pergunta acariciando o rostinho do Miguel.
─No papa, quero bincar. – diz coçando o narizinho.
─Tá, espera aí. – ele levanta e pega sua mala e tira dela o boneco preferido do Miguel e entrega pra ele, foi aí que eu me lembrei de uma coisa.
─Ah é. Seu presente Miguel. – digo me levantando e pegando o presente na minha mochila.
─Feliz aniversario Miguel.
Entrego pra ele que ficou todo animado.
─Olha papa. – ele diz sorridente mostrando o embrulho pro Hyoga que sorriu.
─E como é que se diz? – ele diz pro filho.
─Bigadu Shu. – diz sorridente e começa a tentar desembrulhar.
Ele finalmente consegue abrir, é um pinguim bebê de pelúcia com uma gravata borboleta vermelha com bolinhas brancas e com um gorro azul.
Hyoga olha muito surpreso pro presente e baixou o olhar.
─Comprei em Paris. – digo sorrindo pra ele. ─Eu ia comprar um do gato Doraemon, mas é muito difícil achar omiyage (souvenir, lembranças) japonesas por lá. – comento e ele permanece calado olhando pra pelúcia, estranho.
─Gostou Miguel? – pergunto pra ele.
─Siii, muito, muito. Olha papa. – ele diz alegremente mostrando o presente pro Hyoga.
─É, muito bonito. – ele diz sério e suspira e volta a olhar pela janela, ele dá um quase imperceptível sorriso enquanto observa lá fora, o que há com ele?
Deve estar preocupado com o sogro dele, bom, vou parar de incomodar.
Sorrio vendo o Miguel brincando com o boneco dele e o pinguim.
...
Liguei pro Adam quando pegamos o trem.
─Oi Adam, já estou no trem.
─Que bom, onde estão exatamente?
─Passando por Novgorod, eu acho. – digo olhando pela janela.
─Ok, quanto ainda falta?
─Umas três horas e meia mais ou menos.
─Vai na sua casa primeiro?
─Não, vou direto pra aí.
─Entendo, quando estiverem à uma hora me ligue que vou mandar Wendy pra ir busca-los na estação, o transito já está funcionando um pouco, lento pra caramba, mas tá.
─Ah, que bom. Obrigado. E qual a situação agora?
─Andrey já acordou faz uma hora, mas ainda está sonolento, está respondendo bem a medicação, mais tarde vou pegar uns exames dele que estão no ambulatório pra ter mais certeza.
─Graças a Deus. E a Irina, como está?
─Mais aliviada é claro. Annia está com ela.
Suspiro, não estou a fim de conversar com Annia.
─É, não posso mais fugir disso.
─Tem toda razão meu caro, mas fique calmo que seu irmão aqui vai estar ao seu lado. – ele diz rindo.
─Pensei que sua intenção era me animar.
─Idiota. – ele diz aborrecido, só faço rir dele.
─Tá bom Adam, nos falamos mais tarde, tchau.
─Tchau.
Olhei pro Miguel e perguntei se ele estava com fome, ele queria brincar então peguei o boneco dele na mala.
Shun também pegou o presente que ele comprou e entregou pro Miguel, era um bichinho de pelúcia, o que ele está tentando provar? Recordo de algo quando olho pra aquilo.
~
─Olha só o que a mamãe comprou pra você filhinho. – Lilia dizia sorridente enquanto balançava um ursinho de pelúcia branco em frente do rosto.
Era aniversario do Miguel, de um ano, fizemos uma pequena festa de aniversario pra ele, na verdade a festa já tinha acabado, só estávamos nós em casa.
Estávamos na sala, estou com o Miguel no meu colo que está todo sorridente olhando pra Lilia.
─Olha Hyoga, ele gostou. – ela diz alegremente vendo o Miguel abraçar o ursinho.
─Que bom, duas horas em uma loja pra escolher valeram a pena. – digo rindo.
─Hunf. Tinha que ser o presente perfeito. – ela diz.
─E você sempre acerta. –digo sorrindo pra aquela linda mulher, minha esposa.
Ela me olha e sorri, mas parece ficar triste de repente olhando pro Miguel.
─Que foi? – pergunto.
─Eu queria que isso durasse pra sempre. – ela diz triste.
Suspiro, eu também queria.
─Sinto que o tempo passa tão mais rápido pra mim Hyoga. – ela comenta suspirando.
─Não importa o quanto vai durar, o infinito é agora. – digo acariciando seu rosto.
─Será que três minutos podem durar para sempre? – ela diz me olhando. ─Eu me pergunto, mas já sei a resposta. – ela diz triste. ─Provavelmente não.
─Mas talvez dure o tempo suficiente. – digo.
Ele sorri.
─Eu não teria durado tanto sem você meu amor. Sabe disso, não sabe? – ela diz segurando minha mão em seu rosto.
─E você também sabe que eu não teria seguido sem você. – digo a beijando.
O beijo de Lilia era sempre cheio de emoção, nunca vou me esquecer disso. Incontáveis vezes achei estar com os pés no ar quando a beijava. Ela é tudo, e sempre tive medo de perder tudo. Miguel se remexia no meu colo com o urso, olhamos juntos pra ele, nosso filho. É, agora ela é metade.
Lembranças machucam. As boas mais ainda, e as boas não me faltam. Pode parecer ingratidão, mas não é, estou feliz em tê-las.
Mas é o passado, Lilia se foi, mas me deixou tanto pra recordar, mesmo as coisas mais pequenas me fazem sorrir apenas por me fazerem lembrar do seu sorriso, dos seus beijos, do seu abraço. O problema é que as lembranças me fazem ansiar por tudo aquilo de novo, a saudade me corrói tanto que às vezes sinto que ela vai me fazer desaparecer.
Alguns momentos podem durar tão pouco e ficar na sua memória por muito tempo, algumas pessoas podem fazer muito pouca parte da sua vida e ser considerada pra sempre.
Eu realmente fui feliz, tive a oportunidade, mesmo que tenha sido só por um curto período, pra ter a chance de sentir o que eu nem sabia que desejava e acreditar que sonhos não são bobagens. Simplesmente nunca pensei que teria uma família como aquela, nunca pensei em ter filhos, mas eu tive tudo isso, algo que muitas pessoas não tiveram a oportunidade. Sou mesmo abençoado, tenho muito pra agradecer, mas também pra lamentar.
O tempo é uma coisa que não permite voltar para trás, não me arrependo de nada, e aproveitei cada segundinho, pra ficar guardado eternamente em minha memória.
Com o tempo aprendi a dar valor a cada segundo, pois em um segundo tudo pode mudar, e mudou. E isso é que dói mais, pois eu não gostei da mudança.
...
Hyoga ficou quieto o caminho inteiro. Miguel até adormeceu um tempinho. Quando já estávamos próximos de Moscou ele ligou pro amigo dele de novo.
Quando desembarcamos fomos pra frente da estação. Já eram seis horas por lá, eu dormi pouco, o fuso horário tá me afetando.
─E agora? – pergunto pra ele enquanto ele olhava em volta.
Imediatamente ele avistou alguém e acenou sorrindo, olhei pra frente e tinha uma moça perto de um carro acenando de volta, de cabelos castanhos escuros e curtos e lisos na altura dos ombros, quando nos aproximamos eles se abraçaram.
─Alexei. É tão bom te ver de novo. – ela diz alegremente.
─Oi Wendy, é muito bom te ver também. – ele diz a abraçando fortemente, quem é essa? Não gostei nenhum pouco desse abraço deles.
─Lamento pelo que aconteceu, e que tenhamos que nos encontrar nessas circunstancias. – ela diz triste.
─Tudo bem, tenho fé que Andrey vai melhorar.
─Ele vai sim. – ela diz sorrindo. ─Ah, olha só como ele cresceu. – ela se aproximando do Miguel no meu colo e o pegou.
─Tia Endy. – ele diz a abraçando também, me senti um intruso entre velhos conhecidos.
─Oi. – ela diz sorrindo pra mim, ela não tinha sotaque russo.
─Esse é o Shun, Wendy, um amigo. – Hyoga nos apresenta.
─Ah, Shun. – ela diz estranhando, parece que já ouviu falar de mim. ─Muito prazer. – diz oferecendo a mão.
Retribuo o gesto.
─Você é...? –digo querendo saber o que ela é pro Hyoga, mas já mencionei que não falo russo fluentemente, então acho que saiu meio enrolado pra eles.
─Ela é uma amiga, esposa do Adam. – Hyoga comenta, nem sei quem é Adam.
─Ah.
─Vamos logo Hyoga, Nina está no carro. – ela diz indo com o Miguel.
─Sério? – ele diz sorrindo.
Seguimos pro carro dela. Hyoga colocou nossas coisas no porta malas e eu fui na frente enquanto ele ia lá atrás com o Miguel e mais uma garotinha loirinha, de olhos verdes claros e com bochechas rosadas, parecia ter a idade do Miguel.
─Oi linda, você cresceu. – Hyoga diz pegando ela no colo junto com o Miguel.
─Tio Oga, Mimi. – ela disse sorridente, era tão lindinha, tanto quanto o Miguel, parecia uma princesinha.
Wendy deu a partida e os meninos ficaram brincando juntos com o Hyoga lá atrás, era tão bom vê-lo sorrindo de novo.
─Veio acompanhar o Hyoga? – ela diz me olhando brevemente enquanto dirigia.
─Sim, foi em cima da hora mesmo. – explico, mas parece que falar em russo trava a língua. ─Desculpe, não falo russo muito bem.
─Ah, sem problemas, eu moro aqui a tantos anos e não aprendi direito também. – ela diz rindo.
─Hum, você não é daqui?
─Não, sou americana. – ela comenta.
─Ah. Legal. Sempre quis conhecer a América. – comento.
─Acho que já te vi em algum lugar Shun. – ela diz tentando recordar.
─Foi em uma foto na minha casa. – Hyoga comenta, parece que a irritação dele passou, ou só está disfarçando mesmo.
─Ah, foi mesmo. Daquelas antigas né Hyoga? – diz olhando pra ele pelo retrovisor.
─Isso aí.
─Então vocês são amigos de infância. Em que parte exatamente? – ela diz curiosa.
─Estávamos no mesmo orfanato. – digo.
─Não sabia que você tinha ido pra um orfanato Hyoga. – ela diz surpresa.
─Morei dois anos em um. – ele explica. ─Depois fui adotado.
─Ohh, você também Shun? – ela pergunta me olhando.
─Sim, fomos adotados ao mesmo tempo. – digo, só não revelo que foi pela mesma pessoa.
─Humm.
─Você é médica também? – pergunto.
─Ah, não, Deus me livre, odeio ver sangue. Sou musica.
─Mesmo? O que você toca?
─Violino. Até ensinei pro Hyoga, mas até hoje ele não aprendeu. – ela diz rindo.
─Aprendi outra coisa. – ele comenta.
─Sério? Não sabia que você tocava algum instrumento. – digo olhando pra ele.
─Teclado. – Wendy completa. ─E você Shun, o que você faz?
─Sou escritor.
─Ehh, e tem sucesso?
─É, acho que sim.
─Qual seu sobrenome?
─Amamiya.
─Oww, já ouvi falar muito de você, ahh, eu te vi pela televisão, estava dando uma entrevista pra Tv francesa na quinta passada não é mesmo? – ela diz lembrando.
─É.
─Nossa, você é famoso. Estou com uma pessoa famosa no meu carro. Porque não me disse que tinha um amigo famoso heim Hyoga. – ela diz aborrecida, só faço rir da reação dela.
─Oh desculpe Wendy. Pede um autografo agora. – ele diz irônico.
─Desculpe, estou sendo ridícula né? – ela diz me olhando e rindo sem jeito.
─Imagine, não é nada demais. Você ao menos leu meus livros?
─Na verdade não. – ela diz vermelha, eu e ela rimos.
─Não tem nenhuma versão em russo? Inglês também serve. – ela diz.
─Tem sim, é só pedir pela editora Shueisha.
─Não adianta Wendy, vai ter que encomendar, não vendem exemplares por aqui – Hyoga comenta.
─Ah que pena, mas eu vou pedir pela internet Shun, e você vai ter que autografar pra mim. – ela exige.
─Tá bom. – digo rindo.
Conversei com ela em todo o caminho, ela era legal, o Hyoga porem permanecia sério e pensativo.
Fiquei olhando a paisagem. Tudo aqui é tão magnifico e gigantesco.
Quando chegamos num hospital Hyoga desceu rápido com o Miguel, desci também e a Wendy foi estacionar.
Hyoga entrou e eu o segui.
─Oi Talya. – diz falando com uma garota na recepção.
─Senhor Yukida? – diz surpresa e sorrindo.
─Onde está o Adam?
─Ah, o Dr. Adam está no ambulatório. Quer saber sobre seu sogro não é mesmo?
─Sim.
─Ele está no quarto 301. – ela diz depois de verificar num computador. ─Pode ir até lá.
─Ok, muito obrigado Talya.
─Não tem de quê. Seja bem vindo de volta senhor. – ela diz sorrindo. Hunf, bem vindo de volta nada, ele não vai ficar, não vou deixar.
─Obrigado. – ele diz rápido e vai à direção do tal quarto, só o sigo, ele parece nervoso e ansioso.
Pegamos um elevador, subimos alguns andares e andamos alguns corredores, ele conhece muito bem esse lugar.
─Hyoga. — uma voz o chama quando cruzamos um corredor.
Ambos olhamos na direção.
─Adam. — Hyoga diz sorrindo e se abraçam. Ah, então esse é o Adam.
Eram bastantes parecidos, mas notei que esse Adam era um pouco mais alto e com um corpo mais forte que o Hyoga, fora que tinha olhos verdes mais claros que os meus.
─É muito bom te ver de novo garoto. — ele diz pegando na cabeça do Hyoga, como um irmão mais velho.
─Miguel. — diz sorrindo e pegando o Miguel do Hyoga e o abraçando também.
─Tio Adam. – diz sorridente.
─Oi. — diz me olhando estranho.
─Oi. — digo sorrindo e oferecendo a mão.
─Esse é o Shun, Adam. — Hyoga diz aparentemente sem jeito, coçando a cabeça.
─Shun? — diz surpreso e me olhando dos pés a cabeça, não entendi nada.
Devolveu o Miguel pro Hyoga e apertou bem a minha mão, me olhando curioso.
─O famoso Shun. — ele diz sorrindo.
─Hã?
─Er... Adam. Vem aqui. — Hyoga passa o Miguel pra mim e de repente e puxa o amigo dele.
Foram um pouco pra longe, fiquei no mesmo lugar estranhando aqueles murmúrios deles.
...
─Você não me disse que ia trazer ele. –Adam diz exaltado.
─Eu não decidi isso, ele veio por conta própria e em cima da hora só de teimosia. E eu não te falei porque sabia que você ia fazer um escândalo. – me explico.
─É claro, você trás o namorado sem mais nem menos, eu queria estar preparado.
─Quê?! Namorado? Tá maluco Adam? Nós não temos nada seu idiota.
─Não? E essa agora. Não é oficial é isso? – ele diz confuso.
─Não Adam, nós não temos nada, literalmente.
─Pensei que você gostasse dele.
─Depois eu te explico tudo Adam, eu preciso ver o Andrey e a Irina agora.
─Ah é verdade.
─É o prontuário dele? – pergunto olhando pra uma prancheta nas mãos do Adam.
─Bom... –ele ficou enrolando, olhando por um tempo prolongado demais pra aquele prontuário.
─Como ele está? — pergunto logo.
─Hum. — é a resposta.
Jamais, em nenhuma circunstância, você quer ouvir "Hum” de um médico. "Hum" deve ser o jargão médico para "Puta que pariu".
Talvez eu não tenha aprendido todos ainda, e essa dúvida só servia pra me angustiar ainda mais.
─Ahh, passa isso pra cá. – digo impaciente pegando o prontuário das mãos dele, me surpreendo com os resultados que eram pra lá de preocupantes.
─Ele vai melhorar Hyoga. – Adam diz logo quando vê minha expressão de puro lamento.
...
Eles vão indo e o Hyoga faz um aceno pra que eu acompanhe.
Começaram a falar um monte de coisas que eu não entendia.
─Esses são os exames que ele fez quando acordou? — Hyoga pergunta folheando uns papeis de uma prancheta.
─Sim, dá uma olhada do nível de leucócitos. — Adam diz.
Hyoga analisou, comentou alguma coisa e o amigo dele outra. Cada vez mais ele parecia preocupado.
Chegamos ao quarto.
...
Droga, Andrey ainda está instável, o ataque cardíaco piorou muito o tratamento dele pra úlcera, os resultados dos exames não são nada animadores, alguns edemas foram encontrados, talvez seja preciso operar, e devido ao ataque cardíaco estou preocupado caso seja mesmo necessário uma cirurgia, ele pode acabar não resistindo.
Adam tenta me animar dizendo que ele melhorou bastante e já até saiu da UTI, mas ainda estou preocupado.
Chegamos ao quarto e já vejo Irina próxima a cama de Andrey, ela parecia muito cansada e abatida e o Andrey, bom, ele não parecia nada bem. Recordo dele de alguns meses atrás, um homem robusto e saudável, não parecia em nada com o homem frágil naquela cama. Me sinto angustiado só de vê-lo assim tão vulnerável.
─Irina. – a chamo quando me aproximo.
─Céus Alexei. – ela diz muito emocionada quando se vira e vem de encontro a mim com um de seus fortes abraços.
─Alexei. – Andrey diz com a voz fraca e sorrindo pra mim.
─Oi Andrey. – digo sorrindo com ternura e vou até ele. ─Como se sente? – digo sentando na cadeira onde Irina estava, perto dele na cama.
─Péssimo, estou de saco cheio de ficar aqui deitado. – ele resmunga, é o jeito dele mesmo. Sorrio, senti falta daquele jeito carrancudo. ─E você filho, como está? Falei pra Irina não te dizer nada e olha você aqui. – ele diz suspirando balançando a cabeça.
─Ele precisava saber Andrey. – Irina diz emburrada.
─Deixe de bobagens Andrey, nunca ficaria longe de vocês numa situação como essa. – digo pegando sua mão fraca. –E você precisa ficar de repouso, é pro seu bem. – o advirto.
─Você está começando uma nova vida filho, como posso te tirar do seu sossego logo agora? – ele diz.
─Sem discursões, vocês são minha família, meu lugar é aqui com vocês.
Ele sorri.
─E onde está meu neto?
─Bem aqui. Vem Miguel. – digo chamando o Shun pra perto com o Miguel e o pego.
─Vovô. – Miguel olha preocupado pro avô dele.
─Oi querido, você cresceu. – ele diz e o Miguel segura o dedo dele com sua mãozinha pequenina.
─Vovô tá dodói?
─Eu? Nãão, estou firme e forte, saudável como um touro. Só estou um pouco caidinho, mas quando eu melhorar vamos brincar juntos de novo tá bom. – Andrey diz sorrindo e apertando a mãozinha do Miguel.
─Tá, fica bom logo vovô. – ele diz triste.
─Vou ficar sim. – Andrey tenta anima-lo. ─Feliz aniversario garoto, gostou do seu presente?
O presente que tinha naquela caixa grande era um trem de brinquedo, Miguel adorou. É uma pena que não deu tempo de montar.
─Siii. Muito, Papa disse que eu e ele vamu motar junto. – Miguel diz animado.
─Que bom querido.
─Você vai ficar bem Andrey, seus sinais estão melhorando consideravelmente. – tento anima-lo
─Você é um péssimo mentiroso Alexei. – ele diz rindo.
─É verdade senhor Poznanski, acabei de pegar seus exames no ambulatório. – diz Adam.
Ele suspira, parece que não acreditou.
─Quero falar a sós com você Alexei. – Andrey diz sério me olhando.
─Hm? Ah, sim claro.
Todos assentiram e eu entreguei o Miguel pra minha sogra e se retiraram.
─Alexei. – ele diz dando uma longa pausa. ─Você sabe que é um filho pra mim não sabe?
Só balanço a cabeça confirmando, é angustiante vê-lo falando assim, Lilia fez muito isso comigo.
─Minha filha se foi, mas nos deixou você e o Miguel, foi um grande presente. – ele diz sorrindo.
Baixo o olhar.
─Sei que os resultados dos meus exames não são dos melhores, filho. – ele diz pesadamente. ─E está tudo bem, estou preparado pra isso. – diz com um misero sorriso.
─Não diga isso Andrey. – céus, isso está acontecendo de novo. ─Você vai melhorar. – digo contendo minhas lagrimas.
─Eu sei que perdas são muito dolorosas pra você Alexei, desculpe fazer você passar por isso de novo.
─Eu não vou passar, porque você vai melhorar, você vai ficar bom Andrey. – meu coração bate mais rápido, estou muito angustiado.
─Está tudo bem Alexei, eu posso lidar com isso, você também pode.
─Pare com isso Andrey, por favor. – digo apertando sua mão e a aproximando do meu rosto quando fecho os olhos pra conter minhas lagrimas.
─Por favor, Alexei, não faça isso de novo. – ele diz suspirando. ─Preciso que você seja integro e suporte tudo... Quero que cuide de Irina se algo acontecer comigo.
─Sabe que não precisa me pedir isso. – digo o olhando com as lagrimas caindo, a quanto tempo eu não derramo lagrima alguma?
─É, eu sei. Então eu peço que seja forte.
─Vou ser. – digo determinado. ─E tenho certeza que você vai ficar bom. – digo sério enxugando as lagrimas.
Ele sorri e assente.
─Agora convence a Irina a ir pra casa um pouco, estou preocupado com ela.
─Tá, vou falar. – digo sorrindo. ─Descanse, vou em casa e depois eu volto pra ficar aqui com você.
─Não precisa.
─Eu volto e ponto final. – digo me levantando. ─Descanse Andrey, e fique bom logo. Vamos assistir a final do campeonato juntos. – digo sorrindo.
─Vamos, vamos sim. – ele diz sorrindo também. ─Ah Alexei.
─Hum?
─Quem é aquele rapaz que estava com o Miguel?
─É um amigo, o nome dele é Shun.
─Hum.
─Por quê?
─Sabe, ele nos olhou de um jeito que... não sei, os olhos dele mostravam uma ternura que me fez lembrar a Lilia. – ele comenta pensativo.
─Da Lilia? – de onde ele tirou isso?
─É... Idiotice eu sei... Ele parece um bom rapaz.
─Ele é. – digo sorrindo.
─Foi dele que você falou daquela vez?
─É, é um bom amigo... um dos melhores. – comento e ele assente sorrindo.
Saio do quarto e vejo Adam e Irina conversando com o Shun, esqueci-me de apresenta-los.
...
Quando chegamos ao quarto percebi o quanto aquelas pessoas eram importantes pro Hyoga, eles pareciam os pais dele.
O sogro dele parecia frágil, odeio ver pessoas doentes, sinto uma angustia só de vê-lo assim, olho pra eles com ternura, eram realmente uma família, não sei bem como é isso, minha única família de sangue é o Ikki e os demais eram como irmãos, gostaria de saber como é a sensação de se ter uma família diversificada, como uma mãe e um pai.
Olhei pro Hyoga que parecia muito preocupado, ele está péssimo, só agora percebi a expressão cansada dele, não parecia nada bem também.
O sogro do Hyoga queria conversar a sós com ele, então todos nos retiramos. Quando saímos aquela senhora foi logo perguntando.
−Quem é você?
−Oh, desculpe minha falta de educação, sou Shun, amigo do Hyoga. – me apresento.
−É o Shu, meu tio, né Shu? – Miguel diz.
−Ah, o Hyoga falou de você, obrigado por estar ao lado dele num momento como esse, é nesses momentos que os amigos são essenciais. – ela comenta sorrindo.
−É verdade. Lamento pelo seu marido, espero que ele fique bom logo. – digo sorrindo sem jeito, se ela soubesse que não é como amigo que quero estar aqui iria surtar.
−Obrigada filho. – ela diz gentilmente com aquele ar maternal.
−Foi por isso que veio com o Hyoga em cima da hora? – aquele amigo do Hyoga pergunta me olhando estranho.
Ele está encostado na parede do corredor de braços cruzados me olhando atentamente desde que saímos do quarto, não, é desde que o Hyoga nos apresentou.
−Er... foi, mais ou menos, decidi no aeroporto mesmo. – digo sem jeito.
−Você e o Hyoga são muito amigos mesmo né? De infância. – ele pergunta. Caramba, se não fosse pelos olhos e o corpo um pouco diferente eu podia me confundir facilmente com o Hyoga, eram mesmo parecidos. Será que foram separados no parto?
−Sim, convivi muitos anos com o Hyoga na infância. — parece que estou sendo interrogado pela família da máfia.
−Um amigo disponibilizaria todo o tempo assim por outro? Largaria tudo e viria em cima da hora apenas pra dar apoio? – ele pergunta desconfiado.
−Bom, eu... errr...
Embora ele estivesse me intimidando agora, ele não parecia ser tão sério quanto o Hyoga, mas sim extrovertido, só que não era um extrovertido crianção como o Seiya, mas sim mais maduro como o Millo.
−Pare com isso Adam, o rapaz só veio dar seu apoio ao Alexei, você está deixando ele sem jeito. – a sogra do Hyoga diz logo.
−Desculpe. – ele diz sério. Céus, isso é sufocante, esse Adam é desconfiado, é mais fácil conversar com a mulher dele do que com ele. –Se for assim você é o amigo do ano. – ele diz num tom que poderia ter soado irônico e debochado, não tenho certeza.
Pela graça dos deuses o Hyoga saiu do quarto naquele exato momento e todos voltamos nossa atenção pra ele. Ele parecia mais abatido ainda.
...
Assim que saio ouço Adam falar com o Shun.
–... Se for assim você é o amigo do ano. – ele comenta, conheço bem o Adam, ele está sendo sarcástico, o que será que estavam conversando exatamente?
─Ele não tá com aquele papo de morte de novo não, está? – Irina pergunta aflita quando me vê saindo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!─Está. – digo.
─Ah, esse Andrey é uma coisa mesmo. – ela diz suspirando.
─Ele está preocupado com você Irina. Porque não vai pra casa pra descansar um pouco? – digo.
─Não vou deixa-lo.
─Ele vai ficar bem Irina. – Adam comenta. ─Pode ir tranquila.
─Mesmo assim. – ela diz, ela é muito teimosa.
─Olha, eu vou em casa e depois vou voltar pra ficar aqui com ele, daí você pode descansar um pouco. – digo.
─Bom, não sei, você acabou de chegar de viajem, deve estar cansado.
─Estou bem. – digo logo. ─Mas você precisa descansar.
Ela pensa um pouco e acaba aceitando, mas apenas pra ir em casa tomar um banho e logo em seguida voltar.
Adam me disponibilizou o carro dele por um tempo. Me acompanhou até a saída, sorte que não encontrei com Annia.
Shun estava com o Miguel o tempo todo, até que não foi tão ruim assim ele ter vindo.
Fomos pra recepção e Adam queria conversar comigo, então o Shun ficou um pouco distante nas cadeiras de espera com o Miguel enquanto eu falava com o Adam.
─Não se preocupe Hyoga, ele vai ficar bem. – Adam diz quando me vê pensativo demais.
─Ele parecia tão fraco. – comento.
─Ele só saiu da UTI hoje de manhã, mas está se recuperando bem.
─Mas os exames deram resultados preocupantes.
─Vamos começar o tratamento pra úlcera amanhã quando ele estiver mais estabilizado, mas tenho certeza que ele vai responder bem ao tratamento.
─Tomara. – digo.
Fico pensativo até o Adam abrir a boca.
─Então aquele lá é o Shun. – ele comenta olhando de soslaio pro corredor onde o Shun está sentado distraído em uma das cadeiras de espera com o Miguel.
─Hm? – olho pra ele.
─Agora eu entendo porque gostou dele, você tem bom gosto heim Hyoga, seja pra todos os gêneros. – ele disse rindo.
─De que besteira você tá falando agora Adam? – pergunto e olho pro corredor também. Shun está distraído olhando pro Miguel em pé que está olhando e apontando pra todo lado.
─Tô falando que esse Shun não é de se jogar fora. Olha só. – diz balançando a cabeça positivamente enquanto olha pro Shun.
─Tá delirando Adam? Desde quando você acha homens atraentes?
─Ora, por favor, Hyoga. Todo homem acha outro atraente, só não falamos pra não ficar esquisito, entendeu? Tipo pra saber a diferença entre nós e os outros, tem que conhecer a concorrência né.
─Hum. Você tem trabalhado demais Adam, descanse que quando acordar vai pensar diferente.
─Ah, fala sério Hyoga. Não tem nada demais nisso. Sempre achei você gostosinho também. – ele diz rindo enquanto me olha.
─Eu heim.
─rsrsrsrsrs. Olha só quem fala, o cara que tá interessado em um homem.
─Não foi bem isso que eu quis dizer daquele dia.
─Não é? Nunca imaginou o Shun sem roupa? – ele diz colocando uma mão no queixo enquanto olhava pro Shun, analisando com aquela cara insinuante.
─Adam! – lá vai ele começar a me zoar.
─Imagina a agua caindo por aquele corpo esbelto, os cabelos castanhos caindo pelas costas largas, a bunda durin...
─Adam! – digo dando um tapa na nuca desse pervertido. ─Para com isso. – digo, mas acabo rindo também.
─Ai! Que foi? Tá com ciúmes é? Eu tenho minha mulher ora. –ele diz rindo. ─Mas me diz uma coisa. – ele diz se aproximando pra falar perto do meu ouvido. ─Vocês já...
─Claro que não idiota. – digo logo, sei bem como aquela mente pervertida funciona.
─Sério? – ele diz suspirando. ─Nem um beijinho?
─Bom, isso...
─Não acredito, é sério? – ele diz surpreso. ─E como foi?
─Er... bom, foi meio estranho.
─Claro, é um homem, mas... você gostou?
─Bom, eu...
─Cara, você gostou! – ele diz surpreso e rindo.
─Porra Adam, sabe o que a palavra discrição significa? – digo aborrecido e olho pro Shun e nos olha brevemente desconfiado.
Ele ri mais ainda.
─Certo, certo. E porque trouxe ele com você?
─Ah, foi por que...
Explico tudo pra ele.
−Hum, por isso ele veio então. – ele diz pensativo.
−O que estavam conversando antes de eu sair do quarto? – digo desconfiado com ele, talvez ele estivesse intimidando o Shun.
−Só trocando uma palavrinha com ele. – diz dando de ombros.
−Hm, sei bem o que se passa por essa sua mente suja, deixa ele em paz, de uma forma ou outra ele está sendo útil. – digo o advertindo.
−Não pode me impedir de conhecer melhor o sujeito que está atrás do meu irmão. – ele diz aborrecido.
−Por favor, Adam, eu conheço o Shun a muito tempo, sei lidar com ele. – digo.
−Hum, aposto que você não esperava que ele viesse mesmo atrás de você.
−Bom, isso foi mesmo inesperado, mas tudo bem, estou me acostumando com essa ideia aos poucos.
─Ele te seguiu até aqui, e ainda disse que está apaixonado por você. Ter permitido que ele te acompanhasse é o mesmo que assumir um compromisso Hyoga. – ele diz me olhando sério.
─Ah, não tô com cabeça pra isso agora. – digo suspirando. ─Ele é teimoso, não se importou com os meus protestos pra afasta-lo e não estou a fim de pensar nisso agora.
Ele suspira.
─Olha Alexei, a tempos estou tentando te empurrar pra alguém, e agora, mesmo sendo um homem estou feliz por você, não quer ao menos tentar?
─Quê?! E o que houve com sua torcida a favor da Annia?
─Ah, ela nem consegue fazer seu brinquedo levantar, então porque continuar insistindo?
─Porra Adam! Você podia pensar primeiro antes de dizer essas coisas viu.
─Você me conhece, falo mesmo. Além do mais você olha de um jeito diferente pro Shun, ele mexe com você, eu tô vendo Hyoga, admite.
─Adam, eu não me imagino com ninguém, muito menos com o Shun, sempre que penso em algo assim minha mente sempre trás a Lilia de volta, pode me entender?
─Entendo, entendo, mas você tem que fazer um esforço, se continuar assim você nunca vai superar isso. Não conheço muito esse Shun, ainda estou meio desconfiado, mas olhando por outro lado tem que considerar que ele largou tudo pra vir atrás de você Hyoga, ele parece gostar mesmo de você.
─Eu sei, mas... não se trata dele, trata-se de mim, sou eu que não consigo sentir o mesmo. – suspiro. ─E já falei que não é hora pra isso.
─Não se faz de difícil, dá logo o que ele quer. Uma noite queeente. – ele diz rindo. Era incrível como ele falava tão serio em um momento e em outro já começava a fazer graça.
─Só você pra me fazer rir em uma situação dessas Adam. – digo sorrindo.
─Só tô tentando te animar um pouco. – ele diz rindo. ─Você está péssimo. – diz me olhando preocupado agora.
─É, não tenho passado bem ultimamente. – digo massageando o pescoço.
─Dá pra ver. – ele diz e pega no meu rosto. ─Você está febril. – ele comenta.
─É, desde ontem. – digo.
─Posso te receitar alguma coisa se você quiser.
─Só preciso descansar um pouco, tem sido muito corrido nos últimos dias.
─Descanse, não quero ver você doente. Por enquanto o Andrey está estabilizado, já falei pra Irina ir pra casa faz tempo, mas ela quer ficar.
─É compreensível. – digo, afinal eu mesmo não queria sair um minuto sequer do lado de Lilia quando ela esteve doente. –Mas eu volto logo, só vou deixar o Miguel e o Shun lá em casa e abastecer a geladeira por alguns dias.
─Tá, pode ir, qualquer alteração no estado do Andrey eu ligo pra você. – ele diz sério.
Olho pra ele e sorrio.
─Às vezes eu esqueço que você é tão bom amigo Adam.
─Tenho que ser, você é meu irmão caçula né. – ele diz batendo no meu ombro. ─Ah Hyoga, tenho muito que te ensinar ainda. – diz suspirando convencido.
─Ah vá. – digo rindo.
─Agora vai logo, você tá com cara de quem ficou a noite toda na gandaia. Mas é pra descansar viu, nada de sexo por hoje.
─Porra Adam!
─rsrsrsrsrs. Vai logo. – ele diz.
─Ah, quase esqueci... e a Annia? – pergunto meio relutante.
─Hum, agora você quer saber é? – ele pergunta desconfiado.
─Só pra saber mesmo.
─Sei... ela saiu um pouco, disse que é pra eu ligar pra ela quando você chegar. – ele diz.
─Mais tarde eu volto e esclareço logo tudo com ela. – digo.
─Vai dispensa-la?
─Pensei que não tivesse mais duvidas.
─Hum, agora eu sei por quê. – ele diz olhando pro Shun.
─Não é por causa disso. – digo logo.
─Sei.
─Hunf.
Balanço a cabeça, o jeito é ignorar esse depravado.
Ele me acompanha até o Shun.
−Foi ótimo conhecer você Shun. – ele diz sorrindo olhando pro Shun.
−Er... o prazer foi meu Adam. – o Shun diz sem jeito.
−Tchau Adam, nos vemos mais tarde. – digo e vamos indo até o Adam abrir a boca de novo.
─Ei Hyoga. – ele me chama.
−Hum?
−Só pode fazer a partir de amanhã viu. – ele diz mais alto e rindo quando estou mais distante.
Merda! Acho que não existe a palavra discrição no vocabulário do Adam.
...
Hyoga não disse uma palavra em todo o caminho.
Chegamos à casa do Hyoga em nada tinha a ver com aqueles prédios imensos, decrépitos e de primeira vista sombria, com manchas escuras e janelas com vidros quebrados que sempre vemos naqueles documentários sobre a Rússia.
Era muito diferente, era uma casa um pouco grande, pintada de um tom azulado bem claro, de dois andares, com uma cerca baixa e com o gramado coberto pela neve, tinha uma varanda com um banco grande de balanço na frente. Tudo parecia bastante aconchegante.
−Casaaa. — Miguel diz animado. −Chegamu.
Hyoga estacionou e pegou o Miguel no colo.
Pegou a mala dele e tirou a chave de lá, ele parecia tenso em estar aqui, fazia tudo devagar.
Fomos pra entrada e ele ainda ficou um tempo parado em frente a porta com a chave na mão.
−O que foi Hyoga? — digo preocupado.
−Nada. — diz e enfim abriu.
Tudo dentro estava impecável, acho que o Hyoga pediu pra alguém manter assim. Uma lareira pequena na sala. Achei curioso ter dois conjuntos de sofás, um combinando e outro não. Uma estante com um monte de livros e enfeites, quadros, cortinas combinando com o papel de parede. Era realmente aconchegante.
Hyoga colocou o Miguel no chão. Deu uma longa olhada em volta e principalmente pro corredor, suspirou e foi ligar as luzes e o aquecedor.
−Vem vê meu quatu Shu. — Miguel disse me puxando pra escada.
−Sua casa é linda Hyoga. — comento e ele permanece sério em executar a minuciosa tarefa de olhar fixamente pro aquecedor.
−Eu vou ao mercado, não temos nada aqui. — Hyoga disse.
−Mas já? Acabamos de chegar.
−No vai papa, vamu bincar. — Miguel diz o chamando.
−Não vou demorar muito, comporte-se Miguel. — disse pegando novamente o casaco e saiu rápido.
Parece que ele quer fugir daqui.
...
Minha casa, em pensar que houve um tempo que eu cogitei a possibilidade de nunca sair dela.
Não achei que seria tão doloroso retornar, tudo estava como eu deixei, cada canto desse lugar me lembra da Lilia. Sinto a presença dela tão fortemente que me sinto angustiado.
Parece até que a qualquer segundo vou vê-la vindo pelo corredor com um grande sorriso, como das muitas vezes que cheguei em casa e ela me recebia de braços abertos.
Olho em volta e as lembranças vem a tona, como se não tivesse passado um único dia. Suspiro, nada volta, Lilia não está aqui, e nunca mais estará.
O que me resta fazer? Encarar a situação, não posso mais pensar tanto nela, mas também não suporto ficar aqui, tenho que sair.
...
Hyoga saiu mesmo, me deixou sozinho nesse lugar estranho pra mim. Sinto-me um intruso, parece que em cada coisa que tropeço é um sacrilégio a memoria de Lilia.
O que me resta fazer? Encarar a situação, não pertenço a esse lugar, mas não tenho escolha.
Comecei a dar uma volta.
Tinha um corredor que levava pra cozinha, banheiro área de serviço, sala de jantar e um pequeno escritório com várias estantes com livros.
No andar de cima tinha os quartos, o Miguel me mostrou o quarto dele, não muito diferente do quarto dele no Japão. Com um berço, um armário azul, desenhos pendurados e alguns brinquedos no chão.
É uma casa bastante aconchegante, mas um tanto grande pra apenas três pessoas, tinha uns cinco quartos, acho que eles pretendiam ter mais filhos no futuro.
O quarto de casal era praticamente igual o do Hyoga no apartamento dele no Japão, os outros de hospedes eram iguais também, tinha mais um só que estava com a porta trancada, estranho, nenhum outro cômodo estava trancado.
O Hyoga voltou uma hora depois com suprimentos, já eram umas oito e meia da noite.
─Chegou. – digo sorrindo quando o vejo entrar e pendurar o casaco.
─Oi. – ele diz indiferente. ─Onde está o Miguel?
─No quarto brincando.
Ele vai pra cozinha e guarda as coisas.
─Vou tomar um banho e voltar pro hospital. – ele diz quando termina.
─Não vai nem descansar? – digo enquanto o sigo subindo as escadas.
─Não preciso. Você pode ficar com o Miguel pra mim?
─Nem precisava pedir.
Ele para na entrada do quarto dele, olhou em volta, parecia relutante a entrar.
─Que foi? – pergunto.
─Nada. –enfim entrou no quarto, acho que esse ‘nada’ tá virando hábito.
─Você precisa descansar sim, desde cedo que eu notei que você está abatido. – digo sentando na cama, acho que aquele era o único móvel novo da casa.
Ele ignora meu comentário e vai até o guarda-roupa e começa a vasculhar as coisas, ele tem bastantes roupas aqui.
Pegou algumas calças e camisetas e depois sentou-se ao meu lado na cama.
─Não conversamos muito quando viajamos não é? – ele diz sem me olhar.
─Porque será né. – digo sarcástico.
─Você quis vir mesmo contra meus protestos, então vai ter que ser do meu jeito. – ele adverte. ─Lamento tirar você do seu namorado por uns dias. – ele diz irônico.
─Namorado? Está falando do Ichiro?
─Quem mais seria?
─Já chega disso Hyoga, eu já disse que eu e o Ichiro não temos nada.
─Sei.
Idiota, porque ele é tão teimoso?
─Olha, não sei quanto tempo vou ficar, pra ser sincero acho que pode durar semanas. – ele suspira colocando as mãos no rosto.
─Como está seu sogro, exatamente? – pergunto me aproximando mais dele enquanto está distraído.
─Não tenho certeza, ele ainda tem que fazer uma série de exames... talvez seja preciso operar.
─Tenho certeza que ele vai ficar bem Hyoga. – digo tocando seu ombro.
─Deus queira que sim... – ele diz sério olhando pro chão.
─Eu sei que tudo isso deve estar sendo difícil pra você Hyoga, se tiver qualquer outra coisa que eu possa fazer...
─Já fez o bastante, obrigado. – ele diz sério.
Suspiro. Gostaria de me aproximar mais dele, abraça-lo, parece que ele precisou muito de contato o dia todo, mas tenho certo receio da reação dele, tá mais do que na cara que ele não me quer perto, principalmente intimamente.
─Essas roupas são pra você. – diz passando pra mim a pilha de roupas que estava no colo dele. ─Acho que servem.
─Obrigado Hyoga, não trouxe tantas coisas, só algumas roupas que estavam na minha mochila.
─Quanto tempo você vai ficar aqui conosco? – ele pergunta.
─Mas que pergunta idiota é essa, Hyoga? Vou ficar o quanto for preciso, vou ficar ao seu lado o tempo todo.
─Não precisa fazer isso, não sou nenhuma criança que precisa de supervisão. – ele diz aborrecido.
─Você é um idiota mesmo heim. Vou ficar porque estou preocupado com você e com o Miguel. – digo aborrecido também.
─Você que sabe. – ele diz indiferente se levantando e indo escolher uma roupa.
─Vai evitar ficar perto de mim agora?
─Olha, chega de discursões, eu preciso voltar pro hospital agora. – diz mudando de assunto.
─Não vai ao menos descansar? É sério Hyoga, estou preocupado com você.
─À toa. – ele diz indiferente e começa a desabotoar a camisa, fiquei surpreso. ─Pode me dar licença? – ele me pergunta.
─Hã? – digo distraído olhando pra ele.
─Preciso me trocar. – ele diz.
─Hunf. – saio a muito contragosto do quarto.
Não demorou nem quinze minutos e ele se despediu do Miguel e saiu.
...
Volto pro hospital, não quero ficar nessa casa, quanto mais longe eu estiver das minhas lembranças da Lilia melhor.
Fico um bom tempo adulando Irina pra que ela vá descansar, então só depois de muito esforço ela vai.
Andrey adormece e eu aproveito pra tentar descansar um pouco também. Sento na poltrona de lá e aos poucos vou adormecendo de qualquer jeito.
─Hyoga. – alguém me chama.
Sinto mãos acariciando meu rosto.
─Hum? – será possível que eu não tenho direito a nenhum descanso?
─Hyoga, acorda.
─Hm? – digo abrindo os olhos. ─Annia? – me assusto com a proximidade dela.
~~~~
Annia era a melhor amiga de Lilia, conheceram-se no hospital, Lilia cuidava da ala das crianças com câncer e Annia era enfermeira, vivia lá também. Não demorou muito pra que ficassem grandes amigas.
Annia é muito bonita, não nego. Não tão linda quanto minha esposa, é claro. Mas não sou completamente cego, reconheço a beleza dela.
Com longos cabelos pretos e lisos, e que na maioria das vezes eu vi preso. Seus olhos eram azuis claros, um contraste, mas que caia muito bem nela, principalmente pelo seu tom de pele tão claro quanto o meu, fora que tinha um belo corpo também.
Annia, apesar da aparência que lhe permitia demostrar uma elegância natural, era bastante simples, era tímida, mas bastante determinada, gentil e um doce de garota. Assim como a Lilia ela era mais velha que eu, tem trinta e um, eu acho, mas todos sabemos que não se deve perguntar a idade a uma dama, eu sei porque a Lilia me contou.
Com o tempo ela passou a frequentar muito nossa casa. Eu não tinha muitas conversas com ela, nossas conversas eram limitadas a simples cumprimentos, foi Lilia que praticamente me forçou a conversar mais com Annia. E todo mundo sabe que o marido tem sempre que conquistar as amigas das esposas se quiser manter em paz.
De inicio eu fiquei meio incomodado com a presença frequente dela, ela vivia com a Lilia, em compras principalmente, coisas de mulher. Só que eram coladas demais.
─Essa garota é lesbica Lilia? — perguntei a ela uma vez.
─Claro que não Hyoga. — ela disse indignada.
─Então porque ela vive colada em você? ─ perguntei incomodado, apesar de já ter imaginado cenas bastante eróticas com essa ideia. Que foi?! Sou homem, ora.
─Ela só tá um pouco deprimida, terminou com o namorado a poucos dias. É minha amiga, tenho que dar meu apoio a ela.
─Hum.
─Você tá com a mente poluída demais, Adam tá sendo má influencia. — só faço rir. ─Ah, e essa, fala de mim, mas você e o Adam vivem de conversinha, grudados.
Rio mais ainda.
─Adam é um irmão. — digo rindo.
─Então Annia também é minha irmã. — ela diz logo.
─Se você diz.
─E é pra conversar com ela, eu deixo vocês na sala e parecem dois mudos.
─E o que eu vou conversar com ela?
─Sei lá, sobre o tempo, a inflação... Sobre mim.
─Egocentrismo é errado Lilia. — digo rindo.
─Ah Hyoga, só tô falando pra serem mais amigáveis um com outro.
─Tá bom Lilia, vou pensar em alguma coisa pra conversar com sua amiga.
─Nossa amiga.
─Sua.
─Nossa.
─Tá, tá, nossa. — ela sempre ganha.
A partir daí tentei fazer amizade com Annia, foi difícil, mas aos poucos foi dando resultado. Definitivamente a única coisa em comum que tínhamos era a Lilia.
Ficamos muitas vezes os dois na sala sem dizer uma única palavra, apenas constrangidos olhando pras paredes, Lilia estava fazendo seja lá o que for, ela faz de proposito que eu sei. Annia ainda arriscou.
─Então... Como vão as coisas? — ela perguntou.
─Vão bem, obrigado. E pra você?
─Também... Er... Você... Tem assistido as noticias?
─Não muito, pouco tempo.
─Hum. Está tendo muitos pacientes?
─É... Acho que você supervisiona alguns deles também.
─É, acho que sim.
Ficamos um tempo em silencio.
─Ah, e... como vai seu irmão? — ela pergunta.
─Irmão?
─O Adam, tenho visto pouco ele.
─Adam não é meu irmão.
─Não? Vocês são tão parecidos.
─É, muitos dizem isso. Somos amigos.
─Ah.
Silencio mortal.
─Então... Pretendem fazer compras. — digo.
─É.
─Parece legal.
─É... Divertido.
─Hum. Pra alguma ocasião em especial?
─Lilia quer me dar um presente de aniversário, e achou melhor me levar pra escolher.
─Aniversário? Que dia?
─Vinte e três desse mês. — estávamos em janeiro.
─Hum, no mesmo dia no meu. — comento.
─É, a Lilia comentou sobre isso. — ela diz sorrindo. ─Coincidência né?
─É. — ela é de aquário, faz um pouco de sentido ela ser tão fechada quanto eu.
─Poderíamos comemorar todos juntos então. — ela sugere.
─Vamos jantar com o Adam e a esposa dele, você é muito bem vinda. — convido.
─Ah, obrigada.
Com o passar do tempo comecei a apreciar a presença frequente de Annia. Embora ela mal falasse comigo ainda assim trocávamos algumas palavras, apenas por educação, já que nenhum de nós é de falar muito.
Lilia vivia me contando as desventuras dos relacionamentos de Annia. E pelo que pude ver ela nunca ficou em nenhum relacionamento por muito tempo.
Quando Lilia morreu e eu entrei naquela depressão eu me tornei áspero a todos, mas houve uma pessoa que sempre passou por minhas barreiras, era Ania.
Como ela sempre foi a melhor amiga de Lilia, então acho que isso a fez pensar que tinha o dever de cuidar de mim, eu queria ficar sozinho, então de inicio eu a repeli sem piedade, mas ela não ligava pra isso e frequentemente vinha me visitar, levava sempre alguma coisa pra comer, como uma boa vizinha que dá boas vindas a alguém novo no bairro, na verdade Adam e ela variavam essa função.
Ela passava um tempo com o Miguel, tentava conversar comigo embora fosse inútil, e eu sempre a recebia, mas com grande consternação, e ao invés dela se tocar de sua presença indesejada ela achava era graça, acho que ela pensava que minha marra era pra diverti-la, e eu não tinha indelicadeza suficiente pra lhe dizer verbalmente que eu não queria ela por perto, não ainda.
As visitas se tornaram cada mais frequentes conforme passavam-se os meses, até eu me encher de vez dela e expressar isso de uma forma não tão convencional, foi na ocasião quando eu lhe dei um fora sensacional e descontei minhas frustrações nela naquela farmácia que eu já mencionei.
Achei que ela se afastaria definitivamente de mim, e até ficou uns tempos sumida, eu nem a vi mais no hospital desde então.
Não nego que fiquei aliviado em me livrar dela, eu sei que ela só queria me ajudar, que queria me fazer esquecer, mas acho que já mencionei também que eu não queria esquecer. Abrigar-me àquela dor era minha forma que me manter ligado a Lilia, e deixar Annia se aproximar pra tirar isso de mim parecia ser uma afronta. Ela não tinha o direito de se meter em minha vida e de minha mulher morta não é verdade?
Demorou apenas algumas semanas pra ela voltar a aparecer.
Eu já estava com uns seis meses de luto na ocasião.
Em mais um dia de trabalho pouco produtivo eu voltei pra casa mais cedo e dispensei a babá. Fiquei com o Miguel por um tempo e já as oito o coloquei pra dormir, ele sempre dormia cedo quando eu estava com ele, sei que Miguel fingia dormir, pois com as babás ele não tinha essa obediência toda nessa rotina, então ela ficava de olhos fechados fingindo dormir. Não me importo desde que ele fique quieto e me deixe encher a cara em paz então tudo bem.
Fui esvaziar meu estoque de vodca que comprei quando vinha pra casa, já que Millo tirou as garrafas de vinho de mim quando veio me visitar na semana anterior.
Sentei-me no sofá passando continuamente os canais da Tv sem nenhum objetivo de assistir nada especificamente e com a garrafa na mão bebendo direto do gargalo, eu sei, eu estava uma droga.
Eram umas oito e meia quando a campainha tocou, ignorei, não queria ser incomodado na minha tarefa minuciosa de ficar sentado a toa.
─Sei que está aí Alexei. Abre, por favor. – era ela, só de ouvir a voz eu já me irritei, não que ela sempre fosse tão irritante assim, mas ela ficou tão próxima que eu enjoei dela.
A muito contragosto foi atender, afinal eu tinha que me desculpar da minha ultima grosseria.
─Oi. – ela disse sorridente como se tivéssemos acabado de nos ver, estava com uma sacola que eu não tinha a mínima curiosidade de saber o que tinha dentro.
─Oi. – eu disse impassível.
─Não vai me convidar pra entrar?
─Não.
─Obrigada. – diz ainda sorrindo e passando por mim sem o mínimo de preocupação.
Fingi que ela não estava ali e voltei pro meu lugar no sofá.
Ela ficou me olhando e balançou a cabeça em desaprovação.
─Vai ficar assim por quanto tempo Alexei?
─O quanto eu quiser. – eu disse me voltando pra Tv de novo. ─Desculpe pelo outro dia. – digo sem olha-la.
─Tudo bem, todos tem seus dias ruins, embora eu ache que os seus tem sido assim sempre né?
Apenas a ignorei sem dar muita importância a sua condescendência, como se isso fosse um mero dia ruim, é muito mais que isso, é uma droga de tortura interminável que não acaba mesmo quando o dia alcança suas vinte e quatro horas.
─Como o Miguel está?
─Dormindo.
─Você já comeu hoje?
Não respondi, nem sei quanto tempo faz que eu boto algo na boca que não seja bebida.
─Trouxe bolo de carne. Gosta? — ela diz sorrindo.
Ignoro. Fico olhando pra TV, está passando algum programa de auditório.
Ela sentou-se ao meu lado e desembrulhou uma marmita junto com duas colheres.
Ofereceu-me uma colher, mas continuei ignorando, olhei de soslaio pra aquela gororoba, uma comida que ela mesma fez eu acho, estava com um aspecto grotesco, nem preciso falar quantas saudades eu tenho da comida da Lilia.
Ela suspirou cansada pensando na possibilidade de ficar horas me adulando pra comer. Porque ela não desiste e me deixa em paz?
Rapidamente ela pegou o controle remoto da minha mão e desligou a Tv.
─Vamos comer. — ela diz jogando o controle no outro lado da sala.
Permaneço quieto olhando torto pra ela.
─Pega. — diz oferecendo a colher.
Fico quieto.
─Quer que eu dê na boca? — ela diz sorrindo.
É claro que não, logo pego a colher dela.
Olhei pra comida, tinha uma aparência estranha que sugere que alguma coisa caiu ali dentro e morreu, e não foi um boi.
─Acho que a criança da casa já tá dormindo. Pare de roubar esse papel Yukida. – disse impaciente pela demora que eu inspecionava aquela prova de crime.
Em mais um rápido movimento ela pegou a colher da minha mão, colheu uma porção e forçou uma colher daquilo na minha boca.
Mesmo surpreso engoli de uma vez pra não sentir o gosto por muito tempo na boca.
─Ficou louca Ania? – eu disse irritado pegando minha garrafa de volta e tomei uma grande dose só pra tirar o gosto da boca.
─Quem manda ficar enrolando. – diz impaciente, natural, poucas pessoas teriam mesmo tanta paciência. Gostaria de saber até onde vai a dela pra ver o quanto eu tenho que atormenta-la pra ela ir embora. ─Agora come. – diz devolvendo a colher, é, não posso mais ignora-la, se não pode com o inimigo, junte-se a ele.
As visitas continuaram. Ela sempre insistia pra que eu me abrisse com ela, dissesse o que estava sentindo, mas eu não queria, são aquele tipo de sentimentos íntimos que não dividimos com absolutamente ninguém. Porque ela não entende?
Como não conseguia me fazer falar ela armou um complô com o Adam e me fizeram ir até aquele psicólogo.
Depois daquilo eu quis esgana-la, mas aquela consulta com aquele terapeuta me fez enxergar o quão eu estava sendo injusto com meus amigos que apenas queriam me ajudar, falharam, mas ao menos tentaram.
Quando eu já estava melhorando, ao menos tentando melhorar, daquela depressão, Annia voltou a aparecer, pedindo mil desculpas em nome dela e do Adam.
─Eu realmente sinto muito Hyoga. – diz arrependida.
─Está tudo bem, você só queriam ajudar, reconheço isso agora. Desculpe por ter sido tão cabeça dura.
─Estou tão feliz por você estar melhorando Hyoga, os últimos dias devem estar sendo muito difíceis. Como você está?
─Você sabe... melhor que ontem, pior que amanhã... Vou levando.
Ela me olhou ternamente, um olhar cheio e carinho, naquele momento eu percebi que aquele olhar dela não era de mera amizade.
Aproximou-se mais e de súbito ela tomou minha boca num beijo urgente, mas consegui me desvencilhar antes dela insinuar sua língua.
─O que diabos você está fazendo Annia?
─Desculpe, desculpe. – ela disse de repente. ─Mas é que você é tão, tão...
Jogou-se em mim de novo e tomou minha boca, não tive tanta facilidade pra me livrar dela dessa vez.
Ela tomou o controle e eu fiquei sem reação, ela aproveitou e deitou-se sobre meu corpo em meio aquele beijo forçado, minha boca estava dormente, eu não sentia nada.
Se fosse em outras circunstancias talvez eu até estivesse excitado, mas não é o caso.
Consegui tira-la de cima de mim e me afastei.
─Pelo amor de Deus Annia. Você era a melhor amiga da Lilia.
Ela começa a chorar, pelo abandono e supus que era também pela triste realidade.
─Eu sinto muito, e você tem razão, Lilia era minha melhor amiga... eu sei que parece um baita de um descaramento da minha parte, mas eu passei a gostar de você mais ainda quando ela se foi, eu não escolhi isso, mas simplesmente aconteceu. Sou uma pessoa horrível. – diz tentando conter as lagrimas que escorriam. ─Eu... eu me apaixonei por você Hyoga. – diz aos soluços.
Suspiro e sento ao lado dela.
─Você me odeia por eu sentir algo assim por você? – ela pergunta.
─Como eu poderia odiar a garota que foi maravilhosa comigo, que teve paciência, condescendência... que me disponibilizou carinho e atenção que eu precisava? – ela sorri. ─Annia, sou grato por tudo, tudo mesmo, até pelas broncas constantes... você não é uma pessoa ruim, mas... mas é muito cedo, eu amo a Lilia, e não vou deixar de amar tão cedo, isso tem sido tão difícil, não estou pronto pra deixar ninguém ocupar o lugar dela.
Ela baixa a cabeça e as lagrimas recomeçam.
─Você é uma pessoa incrível Annia. – digo sorrindo e pegando as mãos dela entre as minhas. ─É inteligente, meiga e linda.
─Jura? – diz com um sorriso triste.
─De todo coração. Sei que há alguém por aí que realmente te mereça. E eu sei que você vai encontrar, e vai ser feliz. Por isso não se preocupe comigo, não se sinta presa, siga em frente.
─Eu não tenho nenhuma chance? – pergunta esperançosa.
─Você sabe que agora não. – digo sério.
─’Agora ‘... então eu tenho uma chance, no futuro. – ela diz sorrindo.
─Annia, não foi isso que...
─Eu espero Hyoga, espero o quanto for preciso.
─Não precisa fazer isso, eu não mereço tanta consideração.
─Deixa que eu decido isso... No futuro. – disse sorrindo me dando um beijo de leve nos lábios e se retirou, não a vi mais desde o dia que ela foi se despedir de mim quando eu fui pro Japão.
~~~
Deixei meu sogro sozinho por uns minutos e Annia e eu fomos pro corredor pra conversar mais tranquilamente.
─Você está incrível. – comento enquanto a observo melhor.
─Obrigada. – Annia diz sem jeito. ─Você também, parece muito melhor.
─Obrigado.
─Quando você chegou? – ela pergunta.
─Por volta das 19:00 h.
─E o Miguel?
─Em casa com um amigo.
─Ah, eu cheguei agora a pouco e vim direto pra cá, pra ver como a Irina estava. – ela comenta, nenhum de nós toca no assunto que provavelmente a angustia e que eu me esquivo.
─Falei pra ela descansar um pouco, mas ela já está pra chegar.
─Ah, ela está bastante abatida. – ela diz triste.
─Percebi.
Ficamos uns dois minutos em um silencio constrangedor.
─Sabe Hyoga, sobre...
Felizmente Irina salvou o dia e chegou no exato momento.
─Oi filha, já voltou. – Irina comenta quando vê Annia.
─Oi dona Irina, só fui em casa descansar um pouco.
─Pois é, mas que bom que vocês se encontraram, Annia queria falar com você Hyoga...
Annia está de costas pra mim, então rapidamente faço um sinal pra Irina que quero fugir da Annia.
─Ah, eu preciso de sua ajuda Annia. – Irina diz logo quando entende.
─Agora? – Annia diz sem animo.
─É importante, depois vocês conversam. – diz puxando o braço da Annia e entrando no quarto. ─Você pode ir descansar um pouco Alexei, a viajem deve ter sido cansativa.
─Mas... – Annia tenta protestar.
─Tem razão Irina. Mais tarde conversamos Annia. – digo sorrindo. Ela me assente, mesmo triste.
Mando um sinal de agradecimento pra Irina, mas ela me manda outro de volta, acho que pra avisar que eu vou ter que explicar aquilo depois.
Dessa eu me livrei por enquanto, mas sei que não vai ser por muito tempo, por hora o melhor a fazer é me esquivar de Annia, até porque me sinto estranho com o Shun tão perto, absorto nesse meu universo paralelo que ele a pouco integrou e sem saber está bastante complicado.
Embora eu tenha dito que preciso descansar não saio do hospital, Irina precisa de mim aqui e quando Annia sair eu vou voltar a me aproximar. Adam foi pra casa, então vou ter que perambular pelo hospital até eu ver que é seguro voltar pro quarto do Andrey.
Sei que minha insistência em permanecer deveria ser pelo Andrey, mas minha mente brinca comigo e me tortura com lembranças angustiantes da Lilia toda vez que penso em voltar pra casa, então quero evitar os lamentos por um tempo, é inevitável, mas eu ao menos posso tentar.
...
Quando será que o Hyoga volta? Essa casa me sufoca, cada vez mais sinto que sou um intruso.
Sei que é doloroso pro Hyoga, mas eu bem que o queria aqui comigo.
Faço umas ligações pra relatar meu paradeiro a quem importa.
Apesar do frio cortante, frequentemente atendo a visitas de várias vizinhas do Hyoga, pra trazer alguma coisa de boas vindas pra ele, então sou obrigado a deixa-las entrar, seriam todas um doce se não tivessem interesses sombrios com a gentileza. Parecem urubus sobrevoando alguma coisa dando sopa.
Hyoga é muito desejado nessa vizinhança, mesmo entre as mulheres casadas, preciso ter uma conversa bem séria com ele.
Miguel dormiu depois de algumas horas, pedia pelo Hyoga o tempo todo. Mas é muito bom conviver com ele de novo.
Penso nas palavras do Adam. Ele parecia realmente incomodado comigo. Bom, não se pode conquistar a todos.
Preparo um café pra mim e dou mais uma volta pela casa, entro no quarto do Hyoga. Tudo tão a cara dele, só que com um toque diferente, não dele, e sim dela.
Pego um quadro no criado mudo ao lado da cama, que tem a mesma foto que eu vi no quarto do Hyoga no Japão. Os três reunidos, uma família. Será que eu mereço substitui-la? Sei que faria de tudo pelo Hyoga, mas no momento não parece ser o suficiente, porque ele ainda não me quer.
Olho bem pra ele na foto.
O que há comigo? Porque estou tão sem chão com relação a ele?
Afinal, aquele é só o Hyoga. O mesmo Hyoga de alguns anos atrás. O mesmo Hyoga que ria comigo de coisas que somente eu e ele compartilhávamos. O mesmo Hyoga que me acolhia nas horas que eu acordava assustado dos pesadelos quando meu irmão não estava por perto, e houve muitos momentos que eu optei por ficar acolhido nos braços do Hyoga mesmo quando meu irmão estava. É o mesmo Hyoga que ficou todo o tempo ao meu lado quando precisei fazer terapia. O mesmo Hyoga que passou muitas madrugadas contando estrelas comigo. O mesmo Hyoga que me inspirou a começar a escrever. É o mesmo.
Estou convencido que me apaixonei por ele, mas agora tudo parecia maior. Tudo parecia claro. Eu o amo, amo a muito tempo. Porque percebi isso somente agora? Quando foi que isso começou? A única coisa que tenho certeza é que eu o amo, e daria, novamente, minha vida por ele. Que faria tudo pra fazê-lo feliz.
Olhando pra ele agora eu percebo o quão importante ele é, o quão apaixonado estou por ele. O quanto o amo.
Queria tanto poder conforta-lo, mas ele não permite, não deixa eu me aproximar, posso ver o quanto ele está inseguro, com relação a seus sogros, com relação aos seus sentimentos angustiantes e principalmente com relação a mim.
Sinto-o estremecer toda vez que me aproximo. Ele evita qualquer contato físico comigo, como se apenas um toque pudesse instiga-lo a me querer, pois eu tenho certeza que isso aconteceria comigo. Eu o quero tanto, o desejo tanto que o simples fato de não toca-lo só me faz ansiar mais ainda por ele.
Porque ele está demorando tanto?
Ouço a campainha e estremeço, será que eu tenho tanta sorte assim? Dãã, claro que não, Hyoga não tocaria a campainha de sua própria casa.
Abro a porta e me deparo com uma figura bastante familiar.
─Adam?
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