Destino

14 Destino... Escolhas


Notas iniciais
Oi pessoal ^_^ esse ficou super longo, espero que gostem. Boa leitura.

Ele estava no seu quarto de novo, sempre que ia visitar o tumulo mãe ele ficava assim.

Entrei sorrateiramente, mas ele sabe que sou eu, sempre sou eu. O quarto está escuro. Olho pra cama, mas ele não está nela, o avisto sentado no chão lá fora na varanda, era uma noite que exibia muitas estrelas.

Vou até ele e sento ao seu lado. Ficamos vários minutos em silencio, apenas observando a noite lá fora.

─Foi visita-la de novo não é mesmo? — pergunto.

─Fui. – ele diz num tom indiferente, quem não o conhece pensaria que nada daquilo o afeta tão profundamente.

Suspiro e olho melhor pra ele, os cabelos um pouco cumpridos caindo pelos ombros, os olhos azuis cheios de tristeza brilhando com a luz que vinha das estrelas e a pele clara como se fosse de mármore.

Hyoga é tão bonito, porque será que ele não tem namorada ainda? Ah é, ele é tímido.

─Tem que parar com isso. — digo.

─Está dizendo pra que eu pare de visitar minha mãe? — ele pergunta incrédulo e finalmente me olhando.

─Não, estou falando pra você parar de sofrer tanto.

Ele me olha sério por um tempo e desvia o olhar de volta pra fora.

─Eu preciso fazer isso.

─Por quê?

─Porque sou a única pessoa que se lembra dela, o único que sofre, então tenho que continuar fazendo isso pra mostrar que ela foi importante, que ela tem um grande significado, ao menos pra mim.

─Não precisa sacrificar sua felicidade pra fazer isso.

─Não estou sacrificando nada. — ele diz num tom aborrecido.

Ficamos em silencio de novo. É tão difícil lidar com ele. Principalmente por ele não se abrir comigo, nem com ninguém, será que isso vai mudar algum dia? Será que alguma garota vai conseguir fazer ele falar?

─Cor? — digo de repente.

Ele fica quieto por um tempo.

─Shun eu não... – começa a falar com a voz cansada.

─Cor? – digo novamente dessa vez dando uma cotovelada de leve no braço dele.

─Azul. — ele diz suspirando, ainda sério olhando lá fora. ─Animal? — ele pergunta olhando pro chão.

─Cisne. – digo e ele me olha e sorri.

Vou explicar, quando ficávamos nesse impasse de não saber o que falar apelávamos pra essa brincadeira, falávamos alguma coisa e o outro tinha que responder a primeira coisa que viesse a mente. Só parávamos quando começávamos a falar besteira.

─Irritante? — digo.

─Ikki. — ele diz e não posse deixar de rir. ─Doce? — ele pergunta e percebo que ele dá ao menos um sorriso.

─Sorvete. — digo sorrindo. ─Duro? — digo.

─Pão dormido. — ele responde, novamente rio. ─Frio? — ele pergunta.

─Você. — digo e ele me olha, pensa um pouco e acaba concordando. ─Bonito? — digo.

─O espelho. — ele responde finalmente rindo.

─Convencido. — digo rindo também.

─Eu. — ele responde de novo.

─"Eu"? Porque isso?

─Você falou "convencido". -ele diz sorrindo.

─Mas essa não conta. — digo rindo batendo no ombro dele. ─De quem é a vez?

─Minha... Hum, futuro? — ele diz.

─Livros. — respondo. ─Futuro? — digo de novo, aquela foi interessante.

─Não vale repetir o que eu já disse. — ele fala.

─Agora vale.

─Quem disse?

─Eu. Não acabou de ouvir? — digo irônico. ─E responde logo.

─Deitar numa rede, ouvir rádio e ser feliz pra sempre. — ele responde.

─Isso não é futuro. — o repreendo.

─É sim, posso fazer isso amanhã, daí é o futuro.

─Não conta. Hum, pessoa mais importante? — digo.

─Minha mãe. E a sua?

─Ikki... Pessoa mais querida? — digo.

─Você. — dissemos juntos. Nos olhamos rindo.

Paramos de falar e voltamos a olhar pra noite, estávamos mais tranquilos, sorrindo.

Ele levantou a mão esquerda fechada num gesto de camaradagem, como que pra confirmar nossa amizade e mostrar de certa forma a importância que temos um para o outro.

Toquei o punho dele com o meu no mesmo gesto. Ele sorriu.

─Tenho sorte de ter você Shun. — ele declara, me surpreendo, é muito raro ele falar coisas assim.

─A minha sorte é maior ainda. — digo.

─Por quê? — ele diz confuso.

─Porque eu tenho você. — digo sorrindo empurrando o ombro dele com o meu. Ele sorri. Eu encosto minha cabeça em seu ombro e ficamos o restante da noite olhando pro céu e contando as estrelas de nossas constelações.

Por enquanto aquilo bastava, não tínhamos muito contato, mas nossas simples presença é o suficiente. Podíamos seguir com aquilo, afinal era tudo que precisávamos.

Porque ele está demorando tanto?

Ouço a campainha e estremeço, será que eu tenho tanta sorte assim? Dãã, claro que não, Hyoga não tocaria a campainha de sua própria casa.

Abro a porta e me deparo com uma figura bastante familiar.

─Adam?

─Oi. – ele diz sério.

─O Hyoga está no hospital. – digo logo.

─Eu sei, acabei de sair de lá. – ele diz passando por mim e entrando sem a menor vacilação. ─Eu vim pra falar com você. – ele diz tirando o grande casaco e o pendurando na entrada como se já fosse de casa, bom, acho que deve ser mesmo.

─Comigo? – digo incrédulo e já receoso.

─Tem alguma coisa quente pra beber aí? – ele diz sentando-se na poltrona.

─Ah sim, desculpe. Um café, pode ser?

─Pode.

Vou pra cozinha e pego uma xicara pra ele. Será que ele queria continuar com o confronto de hoje mais cedo? Esse cara é intimidante, não me sinto tão seguro das minhas palavras com ele por perto. Fora que eu já vi que ele é um grande amigo do Hyoga, ou até o melhor. Tenho que tomar cuidado com o que vou dizer.

─Pronto. – digo entregando o café fumegante pra ele.

─Obrigado. – diz soprando o liquido quente e tomando um grande gole.

Sento no sofá de frente pra ele, estou incomodo, a presença dele enche o ambiente e me deixa tenso.

Ele olha pra mesa que tem uma torta de maça que uma vizinha do Hyoga tinha trazido faz uma meia hora.

─As vizinhas do Hyoga já começaram a aparecer. – ele comenta sorrindo.

─Pois é, a geladeira já tem bastantes coisas que elas vem trazendo pra ele. – digo sorrindo. ─Acho que não vou precisar cozinhar por uns dias.

─Não se preocupe, é assim mesmo, o Hyoga tem esse efeito sobre as pessoas. – ele diz num tom casual, mas ainda permanecia sério.

─Você também. – digo sem pensar.

─Hã?

─Quero dizer... você e o Hyoga se parecem bastante.

─Ah... – ele olha pro café por um tempo. Será que ele notou que eu praticamente disse que ele é atraente?

Suspira e deposita a xicara em cima da mesa de centro e me fita pensativo.

─Hyoga é como um irmão pra mim. – ele comenta bem sério.

─É, percebi. – digo engolindo o seco.

─Quero que saiba logo que o Hyoga me conta tudo. – ele diz me advertindo.

─Tudo? – será que ele contou que somos cavaleiros? Bom, melhor não arriscar falar alguma coisa sobre isso, ele deve estar falando de outras coisas.

─Absolutamente... sei o que há entre vocês. – ele diz e fico muito sem jeito com o comentário, não achei que fossem tão ligados assim.

─E-eu, bom... em primeiro lugar quero que saiba que eu gost...

─Em primeiro lugar você está falando do meu irmão. – ele me interrompe. ─Eu estive ao lado do Hyoga em muitos momentos de sua vida, e em nenhuma parte dela você esteve presente. – ele diz num tom de acusação.

─Sim, mas...

─Não se aflija, ele me falou de você, sempre falou. – ele diz logo. ─Na verdade ele sempre falou de todos vocês, que viveram juntos em um orfanato no Japão, certa vez quando ouvi dele seu nome e não achei que fosse a mesma pessoa.

Só faço um gesto confirmando.

─Ele me explicou porque sempre os manteve afastados. Disse que era pra protegê-los da tristeza dele, ou algo assim. – diz tentando lembrar.

─Ele manteve pouco contato conosco. – comento.

─E o que te impedia de tomar a iniciativa de vir atrás dele? Afinal, se você é tão amigo do Hyoga sabe como ele é. Introvertido, quieto, e sempre acha que tem que carregar o peso de tudo sozinho.

─Tenho meus motivos. – digo na defensiva.

Ele suspira.

─Tudo bem, não foi pra isso que eu vim.

─Por que veio então? – digo mais audacioso. Quem ele pensa que é? Ou sou tão amigo e mais ligado ao Hyoga do que ele, coisa que ele não pode entender.

─Você está confundindo o Hyoga.

─Eu? Confundindo? – digo surpreso.

─O Hyoga amava a Lilia infinitamente, qualquer um podia ver o quão ele estava apaixonado por ela, o quanto ele a amava.

─Disso eu já sei. – digo sério.

─Sabe mesmo? Se já sabe deve entender que o Hyoga só poderia amar de novo alguém igual a Lilia, literalmente. O que você tem de especial pra atrair o Hyoga? Em quê você se parece com a Lilia? O que vocês têm em comum?

─Não sei. – digo irritado baixando o olhar. Esse cara já tá me dando nos nervos. ─Talvez nada, mas isso não importa, o Hyoga gosta de mim do jeito que eu sou.

─Não estou dizendo que você não gosta dele, deve até gostar de verdade mesmo, afinal quem não gostaria? Estou dizendo que só tem um ano que Lilia se foi, o Hyoga ainda não está recuperado, eu o conheço, eu sei... Daí você aparece sem mais nem menos e já acha que pode substituir a Lilia? Lilia era uma pessoa incrível, acha que pode com ela?

─Eu não quero competir com o que a Lilia foi. – digo irritado voltando a olha-lo.

─Que bom que já sabe disso. Eu me preocupo muito com o Hyoga, nunca permitiria que ninguém fizesse mal a ele. Eu o amo como um irmão, você deve entender, afinal o Hyoga me disse que você tem um irmão também, não é?

─É. – digo ríspido.

─Você o está deixando confuso com essa historia toda. Tem ideia de quanto tempo ele não fica com uma garota? Do quão isolado ele está? Já tem mais de um ano que ele não vai pra cama com ninguém. – diz enfatizando tudo, e mais uma vez ouço esse comentário, Hyoga deve estar necessitado mesmo. ─Tudo isso pelo que ele tem passado o retrai cada vez mais, ele deve achar que gosta de você, talvez tenha até te dado alguma esperança, mas ele não está em seu juízo perfeito, principalmente num momento que ele está passando por duras provas de novo. – ele continua me dizendo coisas obvias, já estou irritado, se ele não calar a boca logo vou acabar o esganando. ─Não pense que poderá fazer alguma diferença na vida dele...

─Já chega. – digo irritado e ele me olha surpreso. ─Eu conheço o Hyoga desde que eu tinha cinco anos, eu estive ao lado dele assim que ele perdeu a mãe e foi mandado pro Japão, eu o conheço melhor do que qualquer um, talvez até mais do que a própria Lilia. Hyoga é meu amigo desde a infância, e você pode não entender, mas fomos muito ligados no passado, nossa afeição não é de agora. Eu fiquei muito triste em todos os anos que o Hyoga esteve longe de mim, Zeus sabe o quanto foi difícil me despedir dele quando ele voltou pra cá, tem ideia do quanto eu quis vir com ele? Do quanto eu quis estar ao lado dele? – digo indignado por ele achar que é mais importante na vida do Hyoga do que eu, que o conhece melhor do que eu. Afinal eu mereço o Hyoga, eu o amo. ─Eu o amo. – digo mais alto. ─Amo do fundo do coração, e a muito mais tempo, bem antes de Lilia passar pela vida dele. E eu sei que ele amou muito a Lilia, posso sentir isso profundamente, mas eu sei que ele já gosta de mim há muito tempo também, nossa infância e adolescência foi toda baseada em nossa união, em nossa amizade, a diferença é que hoje meus sentimentos por ele são mais fortes, e ele tem alimentado os mesmos sentimentos por mim aos poucos, mas ele se nega a aceitar, e se você conhece tão bem o Hyoga o quanto diz conhecer, então já deve saber que ele é bem capaz de se fechar em uma cúpula só pra não admitir esses sentimentos, afinal, como você mesmo disse, eu não tenho nada em comum com a Lilia, e eu sequer a conheci, mas quer saber – digo aumentando o tom. ─Eu o mereço, porque eu amo tanto ele quanto o Miguel, amo tanto quanto Lilia amou, mas é a minha vez, é a minha chance, e não vou desperdiça-la por nada desse mundo, é o nosso destino. – digo por fim.

Ele me olha muito surpreso, permanece calado. Depois de alguns segundos me encarando ele baixa a cabeça e dá um sorriso.

─Vocês realmente se parecem. – ele comenta.

─Hum? – o que deu nesse maluco?

─Lilia era como você, determinada, pavio curto, e gritava aos quatro ventos que o Hyoga era dela. Ela o amava muito... e você também.

─Está dizendo que...

─Sabe Shun, há anos tenho ouvido muitas historias sobre você, o Hyoga sempre teve muito orgulho dos amigos queridos que ele deixou no Japão... especialmente você, toda hora era ‘Shun isso’, ‘Shun aquilo’, Shun o tempo todo. Sempre fiquei curioso pra te conhecer, e você é exatamente como ele disse. Você é incrível. – ele sorri se levantando e indo até a lareira.

─E-ele falava mesmo de mim?

─O tempo todo, às vezes eu tinha até ciúmes. – ele disse ficando vermelho. ─, afinal sempre me considerei o melhor amigo do Hyoga. – ele diz sem jeito. ─Lilia também queria te conhecer. Sabia que uma das fotos mais querida do Hyoga é essa aqui? – ele diz pegando um porta-retrato em cima da lareira e me entregando.

Olho a foto, é a mesma que eu tenho no meu quarto e que me é tão querida, é a foto de nós dois juntos na mansão, a foto que a Saori tirou.

Me emociono ao ver aquilo. Hyoga realmente sente alguma coisa por mim, e não é de agora, é de muito tempo atrás.

─Sabe... quando o Hyoga me falou e você, que você o estava ajudando lá no Japão com o Miguel eu já imaginava o que aconteceria mesmo antes de ele mesmo perceber. Fazia muito tempo que eu não o via tão animado, parecia outra pessoa, renovado, mais tranquilo, e realmente estava se recuperando... há algumas semanas atrás ele voltou a desanimar, foi um período que você se afastou, e com base em tudo que ele me contava pude perceber quanta falta você fazia na vida dele. – ele disse sério, fiquei surpreso, não imaginei que meu afastamento tivesse afetado tanto o Hyoga. ─Ele estava péssimo, tentei anima-lo, mas não podia fazer nada. – ele suspirou. ─Certa vez ele confessou que talvez pudesse estar gostando de você de outra forma, de inicio eu achei que ele estivesse brincando, mas o Hyoga não é de brincar muito, principalmente com algo tão sério. Ele me disse que você não saia da cabeça dele, ele passou a fazer comparações de você com a Lilia, do quanto ambos eram doces, ternos, carinhosos, enfim... naquele momento eu pude perceber... ele estava se apaixonando.

─Apaixonando? – digo surpreso.

─Você realmente tem um efeito muito forte sobre ele. Agora eu reconheço que você realmente retribui aos sentimentos dele, esse era meu maior medo... que você o repelisse, que não sentisse o mesmo, que fosse só algo passageiro, afinal você conhece o Hyoga, ele leva tudo muito a sério. Não me entenda errado, eu não vim aqui pra te convencer a se afastar do Hyoga, pelo contrário. Eu queria confirmar o que você sente por ele, e se realmente se acha digno de assumir o lugar da Lilia, afinal se você já está a par da situação deve saber que o terreno é bem tortuoso, conhece o Hyoga, embora tente não demostrar, ele é muito sentimental, e você tem razão, ele se fechou em uma cúpula que é praticamente impenetrável, Annia tenta ultrapassa-la há tempos – novamente essa tal de Annia, quem é ela? ─, mas a primeira mostra de recuperação real que ele deu foi com você, agora pode perceber o quanto você é importante pra ele? Você é o único Shun, o único que pode salvar o Hyoga.

─Eu... te-tem certeza de tudo que está me dizendo? – aquilo foi uma completa surpresa, não me imaginei tão importante assim na vida do Hyoga, essa é uma responsabilidade imensa.

─É claro, fico feliz pelo Hyoga, você é o que ele precisa. – ele sorri ternamente. ─Boa sorte... vai precisar. – diz se levantando e indo pra porta.

É muita coisa pra processar de uma única vez.

Primeiro: Hyoga já gosta de mim a muito tempo, talvez não da mesma forma, mas gosta. Segundo: Ele ainda está preso a memoria de Lilia, bom, isso já é obvio. E terceiro: Minhas chances são boas, mas o caminho é difícil, minha simples presença aqui não vai fazer diferença se eu não me empenhar no meu objetivo. É Hyoga, você é bem complicado, mas vale a pena.

─Adam...

─Hum?

─Obrigado.

Ele sorri.

─Estou torcendo por você. – diz piscando pra mim. ─Ah, não conte pra ele que eu vim aqui, e principalmente a parte que eu disse que ele não vai pra cama com ninguém faz tempo. – ele receoso. ─Provavelmente ele me mataria se souber.

Só aceno sorrindo.

─Bom, eu já vou. – ele diz e imediatamente o celular dele toca. ─É o Hyoga. – ele diz surpreso olhando pro celular e depois pra mim.

...

Estou na área de emergência, sentado em uma das cadeiras de espera, enquanto Annia não sai do quarto do Andrey. Fico aqui por que é mais movimentado, e eu não quero ficar sozinho.

Médicos e pacientes circulam por todo lado, com pressa, nervosos e ansiosos. Devo ser um anormal mesmo pra me sentir mais tranquilo ficando em um lugar assim.

Estou distraído mexendo no celular quando dois paramédicos e duas enfermeiras passam com um paciente muito ferido em uma maca, logo reconheço uma das enfermeiras. Helina, uma senhora de uns quarenta anos, segundo a Lilia essa senhora foi uma grande amiga e consultora pra todos os tipos de assunto. Bem imagino quais assuntos.

O auto falante começa a chamar pelo Adam: “Dr. Adam, compareça a área de emergência imediatamente”, e pude ver que quem o solicitava era a Helina com um rádio de um dos paramédicos. Provavelmente ela deve estar sem conhecimento dos escalamentos de médicos de plantão no momento.

Vou até ela.

─Adam não está de plantão no momento Helina. – digo enquanto ela se mantem apressada e concentrada na tarefa de manter o paciente agonizante quieto. Dou uma boa olhada no sujeito e nos ferimentos.

─Hã? Alexei? – ela diz muito surpresa quando me vê.

─Chame pelo Fredek, eu o vi por aqui ainda a pouco. – a instruo.

Ela rapidamente chama pelo outro médico e deixa que os paramédicos e a outra enfermeira levem o paciente pra sala de cirurgia.

─O que houve? – pergunto olhando o paciente ao longe sendo levado com paramédicos ao encalço.

─Ele tem um ferimento à bala no lado inferior esquerdo do abdômen, com marcas visíveis de entrada e saída de projetil. – Helina responde.

─E como estão os sinais vitais dele?

─Estão estáveis e não há indicio de hemorragia interna.

─Ok. Providencie um cateter intravenoso, irriguem o ferimento com 500 ml de solução salina e peçam uma tomografia de abdômen e pélvis para descartar danos internos graves. Instrua Fredek quanto a essas medidas. – digo.

─Entendido. – ela assente e comunica os paramédicos com o rádio que já entravam na sala com o paciente. ─Obrigada Alexei, quando voltou? Vai ficar no setor de emergência essa noite? – ela pergunta.

─De forma alguma, estou apenas prestando uma ajuda simples. Estou aqui pra acompanhar o tratamento do meu sogro.

─Ah entendo. É ótimo ver você aqui de novo. Sentimos sua falta. – ela diz sorrindo.

─É, também sinto falta daqui.

─Então fique a vontade, estarei aqui à noite toda. Preciso ir agora. – ela diz inquieta olhando pro corredor que levaram a paciente. ─Esse aqui é o numero do meu bip. – ela diz me entregando um cartão. ─Mande me localizar se precisar de alguma coisa está bem?

─Ok, obrigado Helina.

─Ah, o Adam está escalado pra seguir plantão sim, sabe pra onde ele foi?

─Está? Ele me disse que tinha a noite de folga. – digo confuso.

─Não sei de nada, mas posso garantir que ele vai levar uma bela bronca da direção. Bom, tenho que ir, até logo Alexei. – ela diz apressada e se retira.

Porque o Adam mentiu pra mim?

Ligo pra casa dele e logo a Wendy atente.

─Oi Wendy, o Adam já chegou?

─Er não, ele me disse que tinha um assunto pra resolver antes de vir. – ela comenta desconfiada.

─Hum, entendo. Obrigada Wendy. Até mais. – desligo e imediatamente ligo pro Adam.

Tenho alguns pressentimentos quanto a esses assuntos dele. Demora um pouco pra ele atender.

─Adam, passa aí pro Shun, preciso falar com ele. – digo rápido.

─Shun? Ficou maluco Hyoga? – ele diz nervoso, ah eu sabia, Adam é tão previsível, não sabe nem disfarçar.

─Wendy já me contou tudo Adam, vamos logo, passe pro Shun. – digo calmamente, Adam sempre cai em qualquer blefe.

─Droga Wendy. – ele reclama, deve estar falando consigo mesmo. Ele caiu direitinho. ─Tá vou passar. – ele diz.

─Ah, então você está mesmo com o Shun. – confirmo minhas suspeitas.

─O que? Você estava blefando, Hyoga seu imbecil. – ele reclama. ─Não acredito que caí na sua de novo. – ele diz indignado.

─Às vezes você é tão inocente, Adam. E eu falei pra deixar o Shun em paz seu idiota. – o censuro. ─Me deixa falar com o Shun.

─Hunf. – percebo que ele ficou emburrado.

─Oi Hyoga. – Shun atende na maior tranquilidade.

─O que o Adam falou pra você Shun?

─Nada demais, conversamos sobre o tempo. – ele diz, o idiota está zombando de mim. Bom, ao menos o Adam não estava intimidando ele, senão ele não o encobriria.

─Sei... o tempo. – digo irônico. ─Passa pro Adam.

─Você é um paranoico Hyoga. – Adam volta a falar aborrecido.

─É, sou mesmo, quando você voltar nós conversamos. – digo e desligo.

O que será que conversavam? Bom, só me resta aguardar.

Volto pro quarto do Andrey, só a Irina está com ele. Ambos dormindo, Irina deve estar exausta.

Pego uma cadeira e sento perto dela, meus membros estão doloridos, minha cabeça dá voltas, mal me aguento de pé, acho que agora sim estou chegando no meu limite, me aconchego e acabo cochilando também.

...

Adam saiu depois da ligação do Hyoga. Imagino a bronca que o Hyoga vai dar nele.

Vou descansar um pouco, ainda é cedo, mas a diferença de fuso horário está me afetando. Pego alguns lençóis e colchas no guarda roupa do Hyoga pra me acomodar no quarto de hospedes.

Enquanto procuro encontro um molho de chaves em uma gaveta. Deve ser as chaves extras da casa. Estou curioso com aquele quarto trancado. Pego e vou até a porta.

Tento praticamente todas até achar a chave certa. É um quarto comum, mas está repleto de coisas, caixas, suportes pra roupas, pilhas de livros, deve ser um quarto de deposito, mas normalmente as pessoas colocam essas coisas em porões, ainda bem que aqui não tem porão, tenho pavor de assombrações e nos filmes as coisas ruins sempre acontecem em porões. Ridículo eu sei.

São todas roupas femininas, claro que todas da Lilia. Sinto que aquele quarto tem uma tensão diferente, sinto a presença dela mais forte aqui.

Em uma cômoda tem vários globos de neve, de cidades, de vários lugares bem comuns, observei que em todos tinha alguma gravação, percebi que todas eram com a data do aniversário do Hyoga, provavelmente foi a Lilia que deu pra ele em seus aniversários.

Tem porta-retratos e quadros por toda parte. São todas as coisas dela, esse deve ser o ‘quarto de tortura’ do Hyoga, deve ser aqui que ele sempre vem pra sofrer, aposto. Mas eu entendo, se fosse eu também não teria coragem de me livrar de todas essas coisas.

Posso até imagina-lo aqui, sofrendo.

Melhor eu sair, estou violando um lugar sagrado pra ele.

...

Não consegui dormir nada, sempre que eu conseguia cochilar acabava acordando com algum pesadelo, pesadelos agora com o Andrey. Todas as vezes olho pro relógio e não se passaram nem vinte minutos. Estou cansado, mas não consigo descansar, saco! Me sinto como a dois meses atrás quando eu ainda morava aqui.

Adam chega uma hora depois, veio pro quarto e me chamou aos sussurros, já que Irina finalmente dormiu de verdade em um sofá que tinha lá. Então é melhor não incomoda-la.

─Até que enfim. – digo pro Adam quando saímos do quarto.

─Demorei porque eu tinha que falar com o Isidor. – Isidor era o diretor do hospital. ─Levei uma bronca e tanto. – ele diz aborrecido.

─Bem feito, ninguém mandou você ir falar com o Shun pelas minhas costas.

─Ah, tá, tá. Vem, vamos tomar um café, eu tenho uma longa noite pela frente. – ele diz e seguimos pro refeitório.

─O que conversaram? – digo quando já estamos tomando o café.

─Nada demais. – diz com a boca cheia de torta.

─Não me faça tirar isso de você à força, Adam. – o advirto.

─Já falei que não conversamos nada importante.

─É uma verdade básica da condição humana que todo mundo mente. A única variável é sobre o quê, e tenho certeza que o seu porque não é um mero ‘nada demais’. – digo o olhando sério.

Ele me olha desconfiado por um tempo e acaba admitindo.

─Tá bom, você venceu.

─Eu sabia.

─Você está muito tenso, Hyoga. Toma, come. – diz pegando outra colher e me oferecendo a torta.

─Não obrigado. – digo indiferente.

─Hum, hum. – resmunga irritado com a boca cheia de novo, ainda com a colher na mão.

Suspiro e acabo pegando, e começamos a comer juntos. Nem notei que estava com tanta fome.

─Queria confirmar o que ele sente por você. – ele diz sério enquanto toma um gole de café pra fazer a torta descer.

─Adam, isso não é assunto seu...

─Ele te ama mesmo.

─Hã? – digo surpreso.

─A você e o Miguel. – ele completa.

─Como tem tanta certeza? – digo desconfiado.

─Fácil, fui pressiona-lo e ele falou com todas as letras que te amava, e ficou indignado por eu duvidar.

─Ficou? – digo surpreso.

─Ele disse que sofreu muito quando você partiu, disse que gosta de você a muito tempo e que te conhece bem mais do que eu. – ele diz aborrecido.

─Bom, ele é meu amigo e infância, é natural que me conheça tão bem. –digo.

─Hunf, se você diz. – ele diz aborrecido.

Olho bem pra ele, e ele evita meu olhar, ainda parecia irritado.

─Você discutiram? – pergunto.

─Não... – diz emburrado mexendo distraído na torta. ─Vocês foram mesmo tão amigos na infância?

─Conheço o Shun desde que eu tinha seis anos, eu já te falei isso.

─Hum. – ele parecia triste, acho que já entendi.

─Adam, você tá com ciúmes da minha amizade com o Shun? – digo segurando um riso.

─Claro que não. – ele diz logo. ─Que diferença faz se vocês se conhecem a tanto tempo? Eu que estive com você nos momentos mais importantes da sua vida.

─É, de certo modo... – na verdade o Shun e meus outros amigos são tão mais ligados a mim do qualquer outra pessoa tenha sido, mas não vou dizer isso a ele.

─Diferente dele que sequer conheceu a Lilia. – ele continua. ─Nós somos amigos há muito mais tempo. – ele diz irritado, é ele tá com ciúmes sim, hora da vingança.

─Cara, você tá com ciúmes do Shun. – digo rindo.

─Tô não. – diz corado.

─Por isso você estava intimidando ele. – é bom rir de vez em quando.

─Já falei que eu não estava. – diz emburrado. ─Só queria conhece-lo melhor, pra ver se ele é bom pra você. Seu ingrato. – diz mais irritado ainda.

Continuo rindo.

─Fica quieto Hyoga. – diz batendo no meu ombro.

─Viu só como é? Você é mais irritante ainda. – digo parando de rir.

─Tá, entendi. – ele diz suspirando.

Ficamos em silencio por um tempo.

─Hyoga... – ele me olha seriamente. ─Shun gosta mesmo de você, está disposto a ficar, mesmo com toda a pressão da presença da Lilia na sua vida.

─Lilia tem que estar na minha vida, é o lugar dela. – digo teimosamente.

─Lilia, Lilia, sempre a Lilia. – ele diz aborrecido. ─Hyoga as pessoas dizem que o tempo muda tudo. Não é verdade. Fazer coisas é o que muda algo. Não fazer nada, deixa as coisas do jeito que eram. Continuar fixado na Lilia nunca vai ser algo bom pra você. Vê se entende uma coisa Hyoga: Lilia está morta, Lilia não vai voltar, Lilia te fez prometer que tentaria ser feliz de novo, você mesmo me disse, e o que você está fazendo? Nada. Absolutamente nada. Só sente angustia e sofre o tempo todo, eu sei, eu te conheço muito bem. Quando você vai parar com isso? – ele diz me olhando nos olhos.

Raramente Adam me dava alguma bronca, normalmente essa função cabia a mim, mas quando ele começava a soltar suas perolas de sabedoria eu sempre ficava sem resposta, porque eu sei que ele sempre está certo.

Fiquei em silencio, e desviei de seu olhar.

─Quer saber Hyoga, não se dê ao trabalho de me responder nada. – ele diz irritado jogando o guardanapo na mesa e se levantando.

─Adam, espera. – digo segurando seu braço antes que ele saia.

Ele me olha friamente, essa é outra coisa que raramente acontece.

─O que é? – ele pergunta sério. Não sabia responder, o que eu diria?Gostaria de ter uma resposta pra pergunta dele, quando eu vou esquecer a Lilia? Céus, eu não quero esquecer, será que ele não entende?

─Sabe Hyoga, por medo, as pessoas precisam esconder o que elas sentem, o que elas são, o quanto elas sofrem. – ele começa. ─A questão é: qual o seu medo? – me olha esperando uma resposta.

Baixo o olhar.

─Adam, eu sei o que é dor, você nem imagina o quanto. – começo a falar e ele volta a se sentar. ─Você acha que pode suportá-la, mas um dia percebe que não pode... e eu não posso. O meu medo é que no dia que eu não suportar mais, todas as lembranças dela desapareçam, e eu vou acordar e ver que tudo não passou de um sonho. Acontece que nada tão maravilhoso aconteceu na minha vida Adam, Lilia foi a melhor coisa que já me aconteceu. Eu sinto a falta dela tão imensamente que às vezes sinto que vou explodir... Você disse que fazer as coisas é o que muda algo, eu tentei, mas no momento que retornei percebi que as coisas mudaram sim, mas não significa que melhoraram. – digo voltando a olha-lo, seus olhos não eram mais inquisidores, mas sim ternos. ─Tudo que vivi com ela ainda está lá, todas as lembranças, alegrias, tristezas, ainda estão lá. Não é fácil, nunca foi. – afinal acho que é a primeira vez que me abro sinceramente com ele. ─Sinto que nunca vai adiantar me ligar a outra pessoa, pois a Lilia sempre vai estar lá, e não importa o quanto eu tente, ela sempre vai ser mais importante, tentar fazê-la sumir da minha vida vai ser inútil, e essa é a ultima coisa que quero fazer.

Ele ficou em silencio por um tempo.

─Você nunca demostrou o quanto isso era difícil pra você, quer dizer, eu vi, mas não achei que fosse tão angustiante assim. – ele comenta surpreso.

─Eu finjo estar bem, da mesma forma que as pessoas fingem se importar. – digo sério.

─Eu nunca fingi, eu sempre me importei com você. – ele diz indignado.

─Sejamos francos Adam, você assim como muitos que estão a minha volta estão sempre querendo ver uma melhora drástica em mim, por quê? Pra pararem de se preocupar, não se importando realmente com o sucesso da melhora, mas sim com a rapidez dela. Acontece que eu não quero que se preocupem, não quero que se sintam na obrigação de se importar comigo, um dos motivos de eu ter me mudado pro Japão foi pra me afastar dos olhares de lamento, não quero compaixão, não preciso disso.

─É isso que as pessoas fazem quando amam outra. – ele diz aborrecido. ─É isso que um amigo faz, que um irmão faz. Se preocupa, se importa. Não ligo se você não queria, eu me importo com você e nada vai mudar isso. – diz já irritado.

─E eu agradeço. – digo logo. ─Não estou desmerecendo você Adam, eu não poderia desejar nada melhor, porque você já é o melhor, sei que se importa, mas me jogar pra alguém não é uma ajuda, é uma carta de desespero, não cheguei a tanto.

─Achei que...

─Não ache. – digo logo. ─Sou adulto, Adam. Sei o que quero e quando quero, sou perfeitamente capaz de tomar minhas próprias decisões, e mesmo você sendo um irmão pra mim eu ficaria grato se não se envolvesse.

Ele fica calado e muito sério, sério demais pros padrões dele.

─Mas o Shun...

─O Shun é assunto meu, sou eu que decido o que vou fazer com meus assuntos pessoais.

Ele ia dizer algo, mas desistiu e evitou meu olhar. Emburrado, próprio dele.

─Eu entendo... só queria ajudar. – ele diz.

─E ajudou, muito. Obrigado irmão, tenho sorte de ter você. – digo sorrindo e tocando seu ombro. Ao menos ele entendeu, eu o considero muito, mas nunca gostei que se envolvessem em minha vida, principalmente pra coisas tão intimas.

Ele fez uma expressão surpresa e desviou o olhar, parecia muito constrangido.

─Eu que tenho sorte de ter você, Hyoga. – diz ainda sem me olhar.

─Que foi Adam? Não me diga que se comoveu? – digo rindo.

─Cla-claro que não idiota, é que, bom... é muito raro você falar essa coisas, eu só... só fiquei surpreso. – ele diz rápido.

Só faço rir mais ainda dele, Adam é uma figura quando está envergonhado e olha que a especialidade dele é deixar as pessoas assim.

─Idiota. – ele diz aborrecido, mas acaba rindo também.

Logo somos dois idiotas rindo alto e sem nenhum constrangimento, as pessoas por perto só nos olham desconfiadas pensando, provavelmente, que somos dois malucos.

─Shun disse mesmo que me ama? – pergunto quando paramos de rir.

─Com todas as letras. Disse: ‘amo do fundo do coração’. – ele diz fazendo aspas imaginárias.

─Não achei que chegava a tanto. – comento comigo mesmo.

─E o que vai fazer?

Só balanço a cabeça encolhendo os ombros, mostrando minha total falta de ação, não sei o que fazer.

─A primeira coisa que deve pensar é se ele te atrai. – ele comenta, de uma forma ou outra o Adam sempre vai fazer parte da minha vida pessoal, e bem pessoal. ─Você já gosta dele, disso eu sei, mas atração física é essencial. – ele continua.

Eu sinto atração pelo Shun? Nós nos beijamos, sim, mas aquilo poderia ter levado a algo mais? Não nego que senti algo novo, embora fosse o calor peculiar do Shun, tinha um toque diferente, suas mãos eram mais cálidas, sua pele mais macia, aquilo foi agradável, isso foi. Então só pelo fato de ter gostado me leva a querer mais? Eu... eu desejo o Shun?

Essa suposição foi um tanto reveladora, afinal porque eu sou tão burro? Porque sempre me nego a aceitar as situações? Será que devo seguir com isso? Será que devo tentar um romance com o Shun?

Lembro-me de algo.

─Você pode estar certo, mas ainda tem a questão daquele assistente dele. – digo aborrecido.

─Ah, você já me falou desse assistente. Deve ser coisa da sua cabeça, afinal o Shun foi bem seguro das palavras dele.

─Hum. Mesmo assim.

─Tá com ciúmes. – ele começa a zombar de mim.

─Cala boca Adam. – digo irritado.

─Certo, certo, mas me diz uma coisa Hyoga... Você daria uma chance ao Shun?

Fico quieto, Adam me olha em expectativa.

─Não. Claro que não. – digo, mas sei que minha voz saiu sem muita confiança, pois do contrario da minha voz, meu inconsciente diz ‘sim’ infinitamente. ─Bom, eu não sei. – digo baixo.

Adam só balança a cabeça desapontado.

...

Já se passaram dois dias que não vejo o Hyoga. Ligo pra ele, mas parece que a todo momento o estado do sogro dele piora. Queria saber como ele está, se está se alimentando, como está se sentindo.

Acho que ele tem vindo de madrugada, pois o Miguel sempre pergunta se eu vi o Hyoga também, acho que ele só vem pra ver o filho, isso me deixa muito triste.

Tenho saído pouco também, o frio não dá trégua, e eu não suporto sair, pensei que minha estadia aqui seria melhor. E ainda tem essa casa, sinto o tempo todo que sou um intruso, não me sinto a vontade em nenhum momento.

Já são dez horas, estou quase pegando no sono quando meu celular toca.

─Shun, onde você está? – é o Ichiro, ele me ligou o dia todo, mas não atendi.

─Ichiro? Tem ideia de que horas são? – digo impaciente.

─Estou preocupado com você, já tem dias que você não manda noticias. – ele diz e parece realmente preocupado.

─Estou na Rússia, vim pra cá com o Hyoga. – digo sem rodeios, sei que estou sendo duro com ele, mas ele precisa saber a verdade.

─O quê? Tá fazendo o quê aí com ele? – ele diz irritado.

─Cuidado Ichiro. – digo o advertindo, afinal ainda sou o chefe dele.

─Desculpe, mas... Por quê?

─Preciso arriscar Ichiro, eu o amo, preciso ao menos tentar. – digo triste.

─Ele... ele disse alguma coisa? – ele pergunta.

─Não, mas... deixa pra lá. – digo triste, Hyoga sequer aparece aqui pra me ver, não me quer aqui, e ao que parece não vai querer nunca.

Ele ficou em silencio por um tempo.

─Você gosta mesmo dele não é mesmo?

─Muito. – digo baixo.

─Porque esse imbecil não quer você? Isso é tão injusto. – ele diz frustrado.

─Ele tem passado por dias difíceis e...

─Isso não é desculpa, ele devia reparar em você, você esta se esforçando tanto. E tenho que dizer que você é um idiota também Shun. – ele diz irritado de repente.

─Hã?

─Eu estou aqui esperando por você, me declarei, e você ainda volta pra esse imbecil do Yukida. – continua irritado.

─Ichiro o que...

─Sou eu que estou apaixonado por você, você me deu esperanças.

─Sei que fui um imbecil com você por lhe dar esperanças Ichiro, realmente sinto muito, mas você não entende, não tem porque continuar insistindo nisso, quem eu amo é o Hyoga, só a ele.

─E mesmo assim ele não gosta de você, não percebe que também está cego Shun? Eu estou aqui, sempre vou estar. – ele diz com a voz tremula.

─Ichiro, eu... lamento.

─Eu também. – diz e depois de um tempo em silencio ele desliga.

Sinto tanto remorso, mas eu mesmo estou passando pela mesma situação, amo alguém que não dá a mínima pra mim, isso é tão frustrante.

Achei que ele ia ligar novamente, mas não ligou, tenho que dar um tempo com ele, com o tempo ele vai se conformar, nem sei se ele ainda vai querer trabalhar pra mim. É uma pena, gosto dele, infelizmente não do jeito que ele quer, tudo seria mais simples se o Hyoga não existisse. Droga! O que estou dizendo? Ainda tenho esperanças, não vim aqui a toa, sei que o Hyoga gosta de mim, sei que meus esforços vão dar resultado, sei que ele vai me amar.

...

Shun tem ligado frequentemente, isso já está cansativo. Depois de tudo que conversei com Adam, não sei como vou voltar a encarar o Shun, não sei como agir com ele, sinto que se eu voltar a vê-lo vou lembrar do beijo que trocamos, e meu inconsciente tem anunciado o tempo todo pra mim que não foi o suficiente e que meu corpo e principalmente minha mente anseiam por mais. O que há de errado comigo? Logo num momento como esse, não posso pensar nessas coisas.

Não quero pensar, principalmente em voltar pra aquela casa. Isso é outra coisa que me atormenta.

Será que ele não entende que eu não quero voltar pra lá? Todas as vezes que entro penso em Lilia, e já sinto remorso por ter deixado suas lembranças envelhecerem, por ter ido embora e agora voltar, não por ela, mas sim pelo Andrey.

E por falar em Andrey, céus, ele está definhando. Em dois dias o estado dele se agravou, cada vez mais a situação dele se modifica, as melhoras são mínimas em comparação com os agravantes.

E pelo que eu soube pela Irina a pouco tempo é que Andrey já sentia dores a muito tempo e tentava contê-las com a ajuda de antiácidos ao invés de me falar alguma coisa, ou procurar outro médico, e isso estendeu-se por vários anos, a morte da Lilia foi um marco inicial pro estado emocional do Andrey dar margem à ulcera, e só agora que ele resolveu fazer os exames certos e sob supervisão, só depois desse ataque cardíaco. No entanto o caso é tão agravante que a ulcera avançou pra um possível câncer de estômago, logo a cirurgia foi confirmada.

A remoção cirúrgica do estômago (gastrectomia) é o único tratamento curativo, e se Deus quiser vai ser um sucesso. E logo depois vem radioterapia e a quimioterapia. Temos um longo caminho pela frente.

Fiquei realmente revoltado é claro, por ele não ter confiado em mim pra diagnostica-lo antes de chegar a esse ponto, a desculpa é que ele não queria me preocupar ainda mais já que eu estava tão depressivo na época e mais uma noticia dessas poderia acabar me fazendo surtar de vez e ir parar em um hospício. Nunca ouvi maior estupidez na vida, mas é claro que eu não podia dizer isso pra um cara que está tão mal, e também não posso descontar na Irina por não ter me dito isso a mais tempo, pois o estado emocional dela também já está bastante abalado.

O que me resta é guardar minha raiva e angustia apenas pra mim. E quem sabe descontar no Adam quando ele me aprontar alguma.

Quanto a Annia, parei de evita-la e ela já se conformou com meu silencio, até porque seria pra lá de inconveniente que ela queira falar desses assuntos num momento tão tenso.

Mal tenho tempo pra ver meu filho. Vezes ou outras acabo dormindo nas cadeiras de espera do hospital ou numa cadeira no quarto do Andrey quando ele está lá. Só vou em casa pra dar uma olhada em como estão indo, tomar um banho e voltar.

Tenho que admitir que é uma benção ter o Shun por perto num momento como esse, não só por ele estar cuidado do Miguel, mas também por que eu sinto a presença confortante dele e uma nostalgia boa me vem. Quando penso que tudo pode piorar eu lembro que o Shun está por perto pra dar apoio. Será que isso quer dizer que... não, só gosto da presença dele, não é como se eu estivesse mesmo... apaixonado, isso é uma idiotice.

...

Mais uma noite que estou somente assistindo Tv, apenas trocando de canais. Miguel fica no meu pé resmungando pelo Hyoga o tempo todo, natural, o garoto não desgruda do pai por mais de algumas horas e de um dia pro outro não o vê mais, deve ser angustiante pra ele.

Ligo pro Hyoga de novo por volta das nove da noite, depois de algum tempo ele finalmente atende.

─Shun esse não é o melhor momento. – ele diz com a voz um pouco agitada.

─É importante. – digo logo.

─Aconteceu alguma coisa com o Miguel? – ele diz preocupado de repente.

─Não, mas quando foi a ultima vez que você veio pra casa? Eu e o Miguel sentimos sua falta. – o repreendo.

─Estou ocupado. – ele diz logo, como se não fosse nada demais esse sumiço de três dias.

─Não dá nem pra você passar aqui de vez em quando pra ver seu filho? – digo aborrecido.

─Eu tenho ido em casa todos os dias Shun. – ele diz já um pouco impaciente.

─A que horas que eu não te vejo? – digo irritado, de que adianta eu ter vindo se não tenho a chance de fazê-lo se apaixonar por mim.

─Olha, mais tarde você liga, não posso falar agora. – ele diz agitado.

─Aconteceu alguma coisa? – pergunto preocupado.

─Depois.

─Hyoga, eu só queria te ver. – digo, mas ele já desligou.

─Hyoga, seu imbecil! – digo irritado, gritando com o telefone, ele me largou aqui, me jogou as traças.

Idiota, ele que pense que vai continuar com isso, vai ter uma boa surpresa, amanhã vou até lá e obriga-lo a voltar pra casa.

...

Andrey teve outra parada cardíaca e foi levado novamente pra UTI.

Irina está aos prantos, ela estava no quarto quando aconteceu, tento acalma-la, mas ela está em estado de choque, Adam e Annia vêm me ajudar.

Shun me ligou em meio a todo esse alvoroço. Penso em desligar, mas pode ter acontecido alguma coisa com o Miguel então achei mais sensato atender de uma vez. Saio parcialmente do quarto e fico na porta vendo Annia tentando conversar com a Irina que só falava coisas incoerentes, enquanto o Adam preparava uma seringa com um sedativo.

─Shun esse não é o melhor momento. – digo logo.

─É importante. – ele diz, logo imagino o pior com o Miguel.

─Aconteceu alguma coisa com o Miguel? – pergunto preocupado.

─Não, mas quando foi a ultima vez que você veio pra casa? Eu e o Miguel sentimos sua falta. – suspiro aliviado, mas logo fico impaciente, esse não é mesmo o melhor momento pra ficar discutindo essas coisas.

─Estou ocupado. – digo aborrecido.

─Não dá nem pra você passar aqui de vez em quando pra ver seu filho? – ele me censura, como se eu fosse o pior pai da face da terra.

─Eu tenho ido em casa todos os dias Shun. – me defendo.

─Volta pra cá Hyoga. – Annia me chama impaciente já que não conseguia acalmar a Irina.

Só faço sinal que já vou.

─A que horas que eu não te vejo? – Shun continua.

─Olha, mais tarde você liga, não posso falar agora. – digo já voltando pra dentro do quarto.

─Aconteceu alguma coisa? – ele pergunta preocupado, acho que finalmente entendeu que não estou pra conversas.

─Depois. – digo e desligo já me aproximando da Irina e me abaixo de frente pra ela. ─Ele vai ficar bem Irina, foi só um susto. – tento convencê-la, ela me olha com o rosto molhado de lagrimas.

─Está pronto Hyoga. – Adam me avisa com a seringa na mão.

─Você precisa descansar Irina, vou aplicar um sedativo pra você dormir e quando acordar vai se sentir melhor. Tá bom? – digo sorrindo pra ela e pegando a seringa do Adam.

─Eu não quero dormir. – ela diz teimosamente.

─Fique calma, vai ser só por umas horas. – tento convencê-la.

─Mas eu preciso estar acordada quando Andrey voltar, ele volta, não volta? – ele pergunta chorosa.

─É claro, e quando ele voltar precisa ver que você está bem. – digo sorrindo e segurando suas mãos.

─Mas...

─Andrey vai ficar triste se ver você abatida Irina. Confie em mim, vai ser melhor você descansar. – ela me olha ainda muito preocupada e relutante, é horrível vê-la assim, imagino se fosse minha mãe, acho que a angustia por ela seria ainda pior. ─Por favor, Irina, confia em mim, não confia? – até que a entendo, eu não pregava os olhos quando Lilia esteve doente, como se o pesadelo de sua morte fosse se concretizar enquanto eu dormia e eu não estaria ao lado dela quando finalmente acontecesse, imagino como Irina está angustiada.

Ela pensa um pouco e suspira, balança a cabeça concordando.

─Vai ficar tudo bem. – digo e puxo delicadamente seu braço pra aplicar o sedativo. ─Descanse. – digo a olhando, ela dá um mínimo sorriso concordando.

A guiamos pra cama do Andrey e depois de alguns minutos ela adormeceu. Isso tem sido tão cansativo.

Vou até a UTI e vejo Andrey já estabilizado, está no respiradouro e os batimentos estão fracos. Ele parece menor, parece que as pessoas encolhem quando estão doentes ou idosas.

─E então? – pergunto pra Helina assim que ela sai da sala e do lado do Andrey pra verificar seu estado e vem aqui pra fora.

─Instável. – ela diz simplesmente, logicamente que eu já sei, mas minha mente sempre tem esperanças de receber alguma boa noticia, algo que eu deixei passar, qualquer coisa.

─Os exames hematológicos e gasométricos já foram solicitados novamente. Daqui à uma hora estarão prontos, por enquanto você pode descansar, o estado dele não vai mudar. – ela comenta olhando pro Andrey no leito.

Suspiro massageando os olhos.

─E a Irina? – ela pergunta.

─No quarto, sob o efeito do sedativo, vai ficar assim por umas oito horas. – digo.

─Você também precisa descansar, está aqui a mais de trinta e seis horas. – ela diz preocupada.

─É, daqui a pouco vou em casa ver meu filho, volto quando os exames estiverem prontos.

─Eu falei pra descansar. – ela insiste.

─E eu vou. – digo, mas acho que ela não se convenceu.

─Adam vai ligar pra você se algo acontecer? – ela pergunta.

─Sim. Ele está com a Irina agora.

─Tá bom, pode ir pra casa filho. – ela diz ternamente.

─Obrigado Helina, até daqui a pouco. – digo e me retiro.

Volto pro quarto e fico mais um tempo ali pra garantir que Irina está bem. Converso com Adam sobre a situação do Andrey e o que pode ser feito.

Só depois de quase duas horas eu vou pra casa.

Tá difícil dirigir com as ruas escorregadias, gostaria de usar meu cosmo pra chegar em casa mais rápido, infelizmente é proibido, então só me resta ter a paciência de aturar o transito lendo.

Quando chego encontro o Miguel dormindo aconchegado no Shun. Parecem duas crianças, sorrio com aquela cena, gostaria de tirar uma foto. Uma cena bela em meio à tantas outras caóticas que tenho visto ultimamente.

Sento ao lado da cama e acaricio o rostinho do meu filho, ele estremece quando eu o toco, minhas mãos estão frias, frias demais, sempre acontece quando passo por momentos de muita tensão, meu cosmo fica instável também, e acabo nem percebendo quando ele sai do meu controle.

Olho pro Shun adormecido, tranquilo, gostaria de estar num sono tranquilo também. Em pensar que há algumas horas ele tinha ligado só pra me repreender. Eu devia chama-lo agora só pra ele me ver e saber que eu nunca o deixaria jogado aqui às traças.

Melhor não, parecem tão tranquilos que prefiro mantê-los assim. Dou um beijo na testa do Miguel e me retiro.

Tomo um banho e troco de roupa, vou pra cozinha e quando abro a geladeira vejo várias coisas enfurnadas ali, as vizinhas, provavelmente. Incrível como elas aparecem aos montes, não sei por que são sempre tão simpáticas comigo.

Pego uma das muitas tortas e me sento a mesa com um copo d’água. Embora meu estomago esteja vazio ainda não sinto vontade de comer. Tento forçar duas colheres, mas já me sinto mal com uma ânsia de vomito. Não adianta.

Suspiro e deixo a comida de lado. Olho fixamente pra mesa.

~~

─Agora é só bater a clara até formar uma espuma Hyoga. – Lilia diz enquanto manuseava na mesa um rolo de massa num monte de trigo e ia jogando leite enquanto faz isso.

─Assim? – pergunto mexendo os ovos em uma tigela.

─Isso mesmo, meu bem. – ela diz sorrindo, aquele lindo sorriso.

Estava com um avental rosa, que ela mesma bordou, um bordado branco, dois cisnes formando um coração com os longos pescoços. Lilia tinha talento pra tudo, ela era perfeita.

Fiquei olhando fascinado pra ela e acabei me descuidando e deixando a clara voar pra fora da tigela e pra cima de mim.

─Outra vez Hyoga. – ela dizia me censurando.

─Foi sem querer. – digo sem graça e ela sorria balançando a cabeça.

─Já é a terceira vez. – diz rindo e passando os dedos sujos de trigo no meu rosto pra me provocar.

─Quem manda você me distrair. – digo rindo e tentando me limpar.

─Eu? – diz se fazendo de inocente.

─Você! – digo rindo enquanto quebrava mais dois ovos pra colocar na tigela.

─O que eu fiz?

Me aproximo dela e enterro minha mão naqueles cachos dourados.

─Você é linda demais. – digo sorrindo e estalando um beijo em seus lábios.

Ela sorri e me beija de novo, ambos rimos quando nos separamos.

─Mais tarde. – diz piscando quando voltava pra massa. ─Senão nós nunca vamos terminar esse pão.

Estávamos cozinhando algumas receitas que própria Irina ensinou pra Lilia, pra levarmos quando passássemos o final de semana na casa dos pais da dela.

Voltei pra aqueles ovos, mas não conseguia tirar os olhos Lilia. Ela era realmente perfeita.

~~

Acordei daquela lembrança e me vi sorrindo. Enxuguei as lagrimas sem muito sucesso.

Parece que essa casa tem esse efeito sobre mim. Sempre que retorno as lembranças vem à tona.

Boas lembranças.

Me arrumo e volto pro hospital.

Fiquei ao observando a Irina adormecida. Tomara que não esteja tendo pesadelos.

Meu celular tocou depois de um tempo, tenho a impressão que conheço aquele numero.

─Alô!

─Yukida seu imbecil! – uma voz grita do outro lado, conheço aquela voz é o assistente puxa saco.

─Oi Ichiro. – digo calmamente.

─Você fez o Shun te seguir até aí, e pra quê? Pra brincar com ele? – ele diz indignado.

─Eu não o chamei pra vir.

─Mas ele foi. – continua gritando. ─Escuta aqui seu imbecil, se você fizer o Shun sofrer você vai se ver comigo. – ele me ameaça.

─Mal posso me aguentar de medo. – digo com total indiferença.

─Eu estou falando sério. – ele se irrita mais ainda.

─E eu também. – suspiro. ─A ultima coisa que quero é fazer o Shun sofrer, Ichiro. – digo sinceramente.

Ele se cala por um tempo.

─Quer saber o que o Shun falou quando estava bêbado naquela boate?

Lembro-me que ele não quis me dizer na ocasião, lembro-me que ele parecia até relutante com o assunto.

─Ele gritou aos quatro ventos que te amava. – ele continuou, com tom de tristeza. ─Porque acha que o babaca do Hayato te conhecia? O Shun falou de você a noite toda.

Aquilo me trouxe uma sensação ruim, lembrar-me do Shun vulnerável, triste e sozinho como eu o vi naquela noite me angustiava, e de certa forma eu me sentia culpado.

─Sei que você sente algo muito forte por ele, sei que você deve me odiar de verdade... gostaria que as coisas fossem diferentes, mas...

─Mas não pode, as coisas são como são. – ele diz triste.

─Eu lamento... estou dizendo a verdade quando digo que não quero que o Shun sofra.

─Eu não te odeio de verdade. – ele diz mais calmo. ─Odeio o fato de saber que você é bom pro Shun, odeio o fato de não poder competir com você... e odeio o fato de saber que você retribui aos sentimentos dele. – ele diz fungando.

─O que?

─Eu vi o jeito que você olha pra ele, sei que você sente alguma coisa. Sei que sente. – ele diz quase num murmúrio.

Será que estou dando mostras demais de meus sentimentos? Mostras que eu nem sabia que existiam inclusive, acho que as pessoas veem através de mim.

─Eu torço pela felicidade do Shun, mesmo que não seja eu a fazê-lo feliz... Prometa que não vai fazer ele sofrer. – ele pede.

Gostaria que as pessoas não me fizessem prometer tantas coisas, gostaria de não ter tantas responsabilidades.

─Ichiro eu não posso...

─Prometa. – ele insiste.

─Prometo. – digo suspirando, ao menos vou tentar.

Ele fica em silencio por um tempo.

─Ichiro?

─Cuide dele. – diz e desliga.

Acho que a expressão “dia de cão” é um elogio em comparação ao que passo. O que será que eu fiz de tão terrível no passado pra ter que passar por tudo isso?

Depois de um tempo eu vou buscar os exames do Andrey no ambulatório, e após observar de perto uma reunião dos médicos responsáveis pelo Andrey fiquei mais preocupado ainda. A cirurgia precisa ser feita, mesmo no estado atual dele, pois os endemas se espalharam como pragas, as ultrassonografias não deixavam duvidas, se a cirurgia não fosse feita logo não haveria outra oportunidade.

A cirurgia foi marcada pra daqui a dois dias quando ele sair da UTI. Não quero nem pensar em qual vai ser a reação da Irina quando eu contar pra ela.

...

Cansei de esperar pelo Hyoga, no dia seguinte encapotei o Miguel e chamei um taxi pra nos levar pro hospital.

Já era de manhã, a madrugada foi muito fria, principalmente quando eu senti a presença do Hyoga, parecia o cosmo dele, de tão frio que estava, mas eu estava com tanto sono que sequer abri os olhos, devia ser apenas um sonho mesmo. Se não fosse pelo aquecedor eu ia achar que congelaria. Miguel dorme comigo a noite, ele não quer ficar sozinho, e eu entendo, sente falta do Hyoga, embora ele já consiga dormir mesmo sem o pai por perto, ainda pede por ele, mesmo em sonhos.

O taxi foi bem devagar, as ruas estavam escorregadias por causa do gelo acumulado.

Chegamos e eu logo perguntei à recepcionista se alguém o tinha visto. Uma garota magra feito uma vareta, com cabelos na altura dos ombros e de um loiro desbotado, o batom era de um vermelho muito chamativo pra dar algum contorno nos lábios quase inexistentes.

─Ah, o senhor Alexei. – ela dá um sorrisinho cheio de intenções, bem imagino quais.

─Sim, o Hyoga. – digo logo, o chamo assim pra ela bem saber quem é intimo dele.

Ela ficou séria com meu comentário, acho que ganhei a antipatia dela.

─Ele deve estar na UTI, o sogro dele teve que ser transferido pra lá ontem a noite. – ela comenta. ─E quem é o senhor? – ela pergunta me olhando com total indiferença.

─Sou Shun Amamiya, amigo dele.

─E você tem permissão pra ir até lá? Não estamos em horário de visitas.

─E porque o Hyoga pode ficar?

─Ele é parente do senhor Poznanski, tem direito. – diz cínica. ─E você não, pelo que sei. – ela diz arrogante, tem sorte de ser uma garota.

─Vim aqui pra ver o Hyoga, o filho dele também.

─O filho dele? – ela diz surpresa.

─É, o filho dele. – digo pegando o Miguel que está no chão agarrado nas minhas pernas e o coloco no balcão sentado na frente dela. ─Reconhece? – digo sarcástico.

Ela acena sem graça pro Miguel, de certa forma o Miguel é meu ingresso pra todos os lugares.

─Er, mesmo assim precisa de permissão. – ela ainda teima. Às vezes eu queria ser uma mulher pra dar uma lição em garotas arrogantes como essa, mas como sou homem espera-se que eu seja gentil com as mulheres.

Suspiro, e reúno toda minha boa vontade e tato pra falar com a garota.

─Muito bem... Kisa, certo? – digo olhando pro seu crachá. ─O Miguel sente falta do pai dele, sabe... belos brincos. – comento com meu melhor sorriso, tenho consciência da minha aparência, sei que se eu quisesse as garotas cairiam por mim.

─Ah, obrigada. – ela diz corada tocando as próprias orelhas.

─Pois então querida, eu agradeceria se me fizesse o favor de me dizer onde fica a UTI. – digo me debruçando no balcão e me aproximando mais dela.

Ela fica toda sem jeito e super corada curvando os vermelhos lábios inexistentes.

─É que isso é fora das normas do hospital e...

─Você tem belos olhos, sabia? – digo sorrindo.

─Er... obrigada senhor Shun.- ela diz e percebo os olhos dela descendo pras minhas mãos, toda garota faz isso, quer saber se eu sou casado antes de ter certeza se é seguro flertar. ─Bom eu poderia abrir uma exceção pro senhor. – ela volta a me olhar mordendo o lábio inferior.

─Eu agradeceria muito. – digo mostrando meu sorriso mais sedutor, ela fica mais vermelha ainda.

─Fica no quarto andar, é só seguir pelo corredor e virar à direita duas vezes, tem uma placa enorme indicando, não tem erro. – diz me olhando cheia de segundas intenções enquanto enrolava uma mecha do cabelo escorrido no dedo indicador.

─Obrigado querida. – digo piscando pra ela. Pego o Miguel e vou me retirando.

─Ah, vai precisar disso senhor Shun. – diz me oferecendo um crachá para a permissão.

─Mais uma vez obrigado, Kisa. – propositalmente ela enrosca os dedos nos meus quando pego o crachá. ─Até mais tarde. – digo já indo pro elevador.

─Até mais tarde Shun. – diz apoiando-se nos cotovelos e me olhando atentamente enquanto me distancio. Se eu der sorte ela não vai estar ali quando eu sair.

Vou subindo com o Miguel no meu colo falando e falando, e eu penso na recepcionista e até onde tenho que ir só pra poder ver o Hyoga, só balanço a cabeça tentando esquecer aquilo.

Sigo as instruções e chego na UTI. Uma grande sala com paredes de vidro onde os leitos são separados por cortinas verdes. Só havia médicos e enfermeiros lá dentro, fiquei confuso, não havia duvidas quanto ao local, mas onde estaria o Hyoga?

Um enfermeiro, eu acho, saiu e eu logo fui me informar com ele.

─Com licença, o senhor Ponaski está aqui?

─Poznanski. – ele corrige.

─É, isso.

─Sim, está no leito sete. – diz verificando uma prancheta. ─O senhor é parente?

─Não, é que estou procurando por Alexei Yukida, o genro dele.

─Ah, o Dr. Alexei não está aqui, não se permite que os parentes permaneçam aqui, as visitas só começam mais tarde. – ele observa.

─Sabe onde ele está então?

─Provavelmente com a senhora Irina, no quarto do sogro aguardando, fica mais em cima.

─Ah, eu sei onde é. Obrigado. – digo e me retiro, mas antes dou uma olhada pelo vidro e localizo o sogro do Hyoga num leito, com um tubo entrando pela boca e vários trecos colados no peito, acho que eram pra ver os batimentos, e ainda várias agulhas enfiadas no braço. Em pensar que há alguns dias ele parecia até com progressos na recuperação quando o vi na primeira vez. Fico triste, imagino como Irina e o Hyoga devem se sentir vendo-o assim.

Chego ao quarto e já vejo a sogra do Hyoga deitada na cama e dormindo profundamente e o Hyoga estava sentado no lado oposto do quarto, cochilando de qualquer jeito em uma cadeira acolchoada, mas ainda parecia muito desconfortável. Estava apoiando o rosto na mão com o cotovelo apoiado no braço da cadeira.

Fiz sinal pro Miguel ficar em silencio antes que ele nos anunciasse aos berros e acordasse os dois, mas mesmo assim ele estava muito agitado só de ver o Hyoga.

Sentei ao lado dele, a camiseta branca aparecendo por baixo da camisa cinza aberta e amarrotada. Respirava suavemente, os cabelos loiros caiam sobre os olhos e pude observar que a barba já começava a aparecer mais.

─Papa. – Miguel disse baixinho e olhou sorrindo pra mim.

Pegou a mão do Hyoga no colo dele, ficou em pé no meu colo e começou a passar suas mãozinhas pequeninas pelo rosto do Hyoga.

Não demorou muito pro Hyoga começar a despertar.

─Miguel? – levou um pequeno susto quando viu o filho. ─Shun?

Olhou pra sogra que ainda dormia.

─Papa. – Hyoga enfim sorriu e pegou o filho.

─O que fazem aqui? – ele pergunta enquanto abraçava o filho e lhe dando um beijo na bochecha.

─Sentíamos sua falta. – digo.

Ele sorriu pra mim dessa vez.

─Vamos lá pra fora. – ele diz já se levantando.

─Você não me parece bem. – digo quando saímos.

─Estou bem. – diz e começa a caminhar com o Miguel.

Posso observa-lo melhor agora, não é o mesmo Hyoga de quando chegamos aqui. Estava com a roupa pouco amarrotada, estava bem mais magro, pois o cinto fazia todo o trabalho de segurar a calça na cintura, o cabelo mais cumprido e mais cheio, voltando a aparecer as ondulações e cachos como antigamente. Parecia novamente o adolescente de anos atrás, embora preocupante ainda estava adorável, no entanto seu semblante não era tranquilo, muito pelo contrario. Parece que ele perdeu toda a capacidade de se camuflar em expressões imparciais e agora mais que nunca posso ver seu abatimento.

─Onde está o Adam? – pergunto.

─Por aí. Desculpe pelo outro dia quando ele...

─Tudo bem. – digo logo.

Ele me olhou desconfiado, mas não insistiu no assunto.

Chegamos ao refeitório e sentamos mais no fundo, o lugar estava quase vazio, apenas duas garçonetes conversando distraídas atrás do balcão.

O Hyoga observa sorrindo o Miguel comendo uma fatia de bolo, os dedinhos todos sujos de glacê. Optei por tomar uma xicara de chocolate quente e o Hyoga por um café.

─Fui até a UTI. – comento.

─Você o viu?

Balanço a cabeça confirmando.

─Ele teve outra parada cardíaca. – ele diz engolindo o seco. ─Não sabemos se é seguro fazer a cirurgia agora.

─Ele vai precisar de uma cirurgia? – digo surpreso.

─Vai, foram encontrados tumores no estomago dele, mas a cirurgia pra retira-los agora é de grande risco, pois o ataque cardíaco o deixou mais instável ainda. – ele diz ainda olhando pro Miguel.

─Vai dar certo. – digo pegando sua mão. Senti ele estremecer com o meu toque e retirou sua mão da minha repentinamente.

─Obrigado por trazer ele. – ele diz sorrindo.

─Há quanto tempo você não dorme direito?

─Daqui a pouco tenho que voltar, a Irina vai estranhar se acordar e não me encontrar. – ele comenta.

─Você não está se alimentando também. – volto a repreendê-lo.

─Estou preocupado com ela, quase não sai daqui. – ele volta a mudar de assunto.

─Você também está cansado, tem que ir pra casa, tem que descansar. – digo.

─Tomara que Andrey saia da UTI logo e volte pro quarto pra ela ficar mais tranquila.

─Hyoga, por favor. – digo sério.

Ele se cala e olha fixamente pra mesa. Os ombros retesados, tenso, com os olhos vazios.

─Desculpe. – ele diz baixo cobrindo o rosto com as mãos.

Aquilo estava sendo demais pra ele. Passei a acariciar suas costas, tentando dar um pouco de alivio.

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Após alguns instantes vi algumas gotas caindo na mesa abaixo dele e de suas mãos.

Aquilo foi o limite, fui abraça-lo, mas antes que eu o fizesse ele já tinha me puxado pra ele. Me abraçou com força, com necessidade.

─Obrigado por estar aqui Shun. – disse me apertando, aquilo foi estranho, imaginei que ele estivesse triste, não achei que fosse tanto.

─Papa. – Miguel resmungou ao nosso lado.

─O que foi filho? – ele disse me soltando e baixando a cabeça enquanto enxugava as lagrimas antes que eu as visse.

─Que foi papa? – Miguel perguntou preocupado.

─Estou resfriado. – ele diz acariciando o rostinho do filho.

─Venha pra casa conosco Hyoga, amanhã você volta. – tento persuadi-lo.

─Não posso deixar a Irina aqui sozinha.

─Mas você precisa, desde que chegamos, por favor, Hyoga. Ao menos a noite.

Ele pensou um pouco.

─Ok, à noite.

─Promete?

─Tá, eu prometo.

Volto a sorrir, ao menos vou ficar mais tranquilo a noite. Afasto sua franja, acaricio seu rosto e ele continua me observando parecia querer dizer alguma coisa, mas não dizia nada.

─Grande? – digo sorrindo.

Ele pensa um pouco. Fico em expectativa pra ver se ele ainda lembra o que isso significa.

─A língua do Seiya. – ele diz finalmente rindo. ─Leve?

─Uma pena. Fofo. – digo sorrindo.

─O Miguel. – ele diz enquanto bagunça os cabelos do filho. ─Rápido?

─O pensamento. Invisível?

─Vento. Dourado?

─Seu cabelo. Agradável?

─Você. – ele me olha sorrindo.

Ficamos em silencio.

─Ainda está zangado comigo? – pergunto.

─Deveria saber que não duraria muito. – ele diz esboçando um mínimo sorriso.

Sorrio de volta. Volto a acariciar seu rosto, até ousadamente contornar seus lábios com meus dedos. Ele me olhou muito surpreso, acho que aquele gesto foi novo pra ele. Será que o Adam tinha mesmo razão? O Hyoga se apaixonou por mim?

Não. Fiquei triste quando ele tirou minhas mãos do rosto dele, baixei o olhar suspirando, mais uma tentativa frustrada.

Mas do contrario do que imaginei, ele se virou na cadeira e ficou de frente pra mim, segurou meu queixo e me obrigou a encara-lo, o que estava fazendo?

Começou uma caricia no meu rosto, foi descendo os dedos até meu pescoço enquanto me encarava, analisava, como se me visse pela primeira vez, acho que ficou uns minutos naquela observação. Um carinho singelo que eu nunca tinha sentido dele, esse era o Hyoga da Lilia? O Hyoga apaixonado? O Hyoga que eu só tive a chance de ver uma única vez, e agora ele não fugia nem escondia de forma alguma. Era o Hyoga que eu queria.

Tive a impressão que se eu me aproximasse agora ele me aceitaria. Aquela era a hora, me aproximei dele e ele não se afastou, bem como imaginei, me olhou de um jeito diferente, como quando nos beijamos na casa dele. Já íamos nos aproximar quando alguém chegou. Imediatamente nos endireitamos.

─Hyoga. – uma garota alta de cabelos longos e pretos apareceu.

─Oi Annia. – Hyoga disse sem jeito. Essa é a Annia que o Adam e o Hyoga tanto falam? Droga. Ela era linda.

─Oi Miguel. – ela disse sorridente finalmente vendo o Miguel ali, não parecia surpresa nem nada, acho que sequer tinha percebido o clima.

─Tia Ana. – disse alegremente quando a garota o pegou no colo.

─Annia, este é Shun Amamiya, um velho amigo. – ele nos apresentou.

─Oi. – disse ainda séria apertando minha mão.

─Oi. – digo sério.

─Você é o Shun que o Adam e o Hyoga vivem falando. – ela comenta, até o Hyoga pareceu surpreso com o comentário dela.

Ela já foi puxando uma cadeira e se sentando, me olhava curiosa e com algo que poderia soar até hostil.

─É o que parece. – permaneço sério.

─Entendo. – disse realmente aborrecida agora. ─Pensei que estava com a Irina, Hyoga. – ela me ignora do nada. E ainda por cima o chama intimamente, não gostei nada daquilo.

─Saí agora a pouco. Ela ainda está dormindo. – ele explica.

─Bom, eu vou ver como ela está. – ela diz e se levanta colocando o Miguel de volta no lugar. ─Nos vemos lá Hyoga. – ela diz e se aproxima dando um beijo demorado na bochecha do Hyoga. Aquilo foi o cumulo, como ela se atreve?

─Tá bom, daqui a pouco eu volto. – Hyoga diz sem jeito. O que está acontecendo aqui? Porque ele permitiu? Tá certo que não podia virar o rosto, pois seria falta de educação, mas bem que ele podia disfarçar.

─Ela é uma amiga. – Hyoga explica assim que ela sai.

─Sei. – digo desconfiado.

─Não é nada mais que isso. – ele volta a confirmar. Porque ele está preocupado agora em se explicar pra mim?

─Eu já entendi Hyoga. – digo aborrecido, fiquei assim de repente, não foi nada agradável ver alguém tão intimo do Hyoga.

─O que há com você? – ele pergunta.

─Não é nada. – digo ríspido. Me levanto e pego o Miguel. ─Você vai vir mesmo pra casa?

─É claro. – diz estranhando minha atitude. ─Espera, você já vai?

─Não está vendo? – digo irritado.

─Shun o que...

─Já vou Hyoga, é bom que cumpra com sua palavra. – digo aborrecido e me retiro com o Miguel sem dar a mínima chance dele se despedir do filho.

...

O que deu no Shun? Parecia irritado de repente.

Mas fiquei mais surpreso foi comigo mesmo, o que eu estava pensando? Eu ia beija-lo, por quê? Naquele momento eu lembrei de tudo que conversei com Ichiro, não havia duvidas que o Shun me amava, pensei em arriscar, como fiz quando o beijei da primeira vez. Nunca me senti tão tentado a fazer alguma coisa.

No entanto a Annia apareceu no exato momento pra que eu colocasse juízo na minha cabeça. Ela pareceu zangada também, ela não estava assim há algumas horas. E não me lembro de ter comentado nada sobre o Shun com ela, como ela sabia?

Volto pro quarto, assim que viro no corredor encontro Annia, ela estava... chorando. Por quê?

─Então aquele é o Shun. – ela comenta quando me aproximo.

─Você está bem Annia? – pergunto, mas quando vou tocar seu ombro ela se afasta bruscamente.

─Eu ouvi você e o Adam conversando sobre ele. – ela diz irritada.

─Como você...

─É, eu sei que é falta de educação ouvir atrás das portas. – ela replica.

Fico calado, ela sabia.

─Antes eu achava que era alguma brincadeira de mau gosto do Adam, mas depois de ver aquilo... – ela diz balançando a cabeça. ─Diga que vocês não iam se beijar. – ela diz me olhando perplexa e com as lagrimas caindo sem piedade.

─Annia não é o que você...

─Diga Hyoga. – ela diz nervosa.

Baixo o olhar.

─Isso é humilhante. – ela diz irritada tentando enxugar as lagrimas. ─Quem diria que eu iria perder pra um homem, um homem. – ela repete as palavras sem querer acreditar nelas. ─Se você não percebeu Hyoga, pra ele faltam dois itens e sobra um pra se tornar algo parecido com a Lilia. – ela comenta esboçando um sorriso de desdém.

Não precisa ser um gênio pra saber que ela estava fora de si. Embora ela tenha me tocado só por citar o nome da Lilia.

─Annia, o Shun é mais do que isso, ele...

─Sabe Hyoga, eu ficava imaginando, me martirizando o tempo todo, tentando descobrir porque eu nunca consegui fazer você se apaixonar por mim, agora eu entendo, seu gosto é outro. – ela diz me olhando com total desprezo.

─Isso não aconteceu repentinamente. – digo já perdendo a calma também. ─Eu gosto de você Annia, mas eu nunca te vi mais do que uma simples amiga da Lilia, não foi por isso que eu me interessei pelo Shun.

─Tem ideia do quanto isso é errado? – ela sequer me ouvia. ─Sabe o que Lilia pensaria se estivesse aqui agora? – ela diz balançando a cabeça.

─Não coloca a Lilia nisso. – digo já me irritando.

─Ela sentiria nojo de você. – ela grita.

Tento manter a calma, mas está difícil.

─Lilia te amava, e é assim que você retribui? Se é que você a amou de verdade. – não tinha ideia do quanto Annia podia ser cruel quando queria.

─Nunca questione meu amor pela Lilia, você sabe muito bem que eu a amava. – me defendo.

─E agora aparece aquilo e você cai? – ela diz mostrando todo o desprezo. ─Fui eu que estive ao seu lado Hyoga, fui eu que tentei te animar, te ajudei, cuidei de você e do Miguel. Já imaginou como vai ser quando o Miguel crescer? Ele vai desprezar você. – ela realmente me irritou quando falou do Miguel.

─Annia, por favor, não me faça perder a calma com você. – digo tentando manter todo autocontrole possível.

Ela se cala, mas continua chorando.

─Você só está confuso Hyoga. – ela volta a falar. ─Ele confundiu você, só é uma fase ruim, tudo vai ficar bem, você ainda pode voltar, volte pra mim e tudo vai ser como antes. – diz aos soluços me olhando com desespero.

Olho sério pra ela, nunca antes senti tanta raiva de alguém.

─Eu nunca fui seu. – digo com a frieza que Camus me ensinou. ─ Não importa o que você diga, eu sei o que sinto, sei quem amo e quais as minhas prioridades, nunca estive tão lucido como agora. – ela me olha muito surpresa. ─Annia eu sou grato por tudo que fez por mim, mas eu nunca te dei esperanças, você se iludiu sozinha, sempre a vi como uma amiga, e nunca passou disso, não é da sua conta o que eu sinta pelo Shun, o que interessa é que e nunca te amei, e nunca vou amar. – ela me olhou furiosa, avançou sobre mim e me deu um tapa que eu sequer me dei ao trabalho de evitar, em seguida só senti a mão dela arder na pele do meu rosto.

─Nunca vou te perdoar por isso. – ela diz amargamente.

Suspiro e lhe viro as costas. Ela permanece no mesmo lugar e ainda aos prantos.

Viro o corredor e sigo ainda sentindo um peso enorme sobre os ombros.

─Oi Hyoga. A Irina já acordou? – Adam diz se aproximando, mas quando ele me olhou melhor se assustou, deve ter percebido a marca dos dedos da Annia no meu rosto. Minha pele é clara demais, provavelmente a marca está bastante visível. ─O que houve com você? – ele pergunta tocando meu rosto.

─Cuide da Annia, ela está muito nervosa. – digo, afinal ainda tenho um senso de gratidão por ela.

─Foi ela que...?

─Foi, ela sabe sobre o Shun. – digo e ele me olha com grande surpresa.

─Como?

─Depois conversamos. – digo cansado. ─Só não quero ter que olhar pra ela de novo ou vou acabar fazendo alguma loucura. – digo ainda com a raiva contida.

─Aonde você vai? – ele pergunta enquanto vou seguindo.

─Dar um tempo.

...

Volto pra casa angustiado, sinto que havia algo entre o Hyoga e aquela garota, ele a olhava de um jeito diferente, parecia algo forte, e ela ainda me olhou com um misto de raiva e desprezo que me fez sentir mal.

Perdi todo o animo, me sinto incapaz de fazer qualquer coisa. Começo a imaginar eles dois juntos, formando uma família, sendo felizes. E eu aqui sobrando.

Depois de um tempo meu celular toca, droga! Não estou com animo pra falar com ninguém.

─Alô!

─Shun, é o Adam.

─Adam? Algum problema? – ele parecia preocupado.

─O Hyoga chegou aí?

─Hyoga? Não, ele só ia vir à noite. – digo confuso.

─Tenta ligar pra ele, estou tentando faz tempo, mas ele não atende. – ele diz.

─Aconteceu alguma coisa com ele? – pergunto preocupado.

─Ele saiu daqui um pouco nervoso, ele teve uma discursão com a Annia e não parecia nada bem. – ele explica.

─Discutiram? Por quê?

─Bom, é que... – parecia relutante. ─Só me avisa se ele chegar.

─Fala Adam, o que houve?

Ele suspirou.

─Annia descobriu que o Hyoga gosta de você, ficou furiosa com ele... ela gosta dele também, a muito tempo.

─Eles discutiram por minha causa? – digo angustiado, mas não nego que fiquei satisfeito com aquilo.

─Mais ou menos. Ele está no limite, entende? Tem muita coisa acontecendo. – ele dá uma pausa. ─Me ligue quando ele aparecer. – ele disse e desligou em seguida.

Naquele momento fiquei preocupado. Pude ver o quanto ele estava mal, e agora depois dessa discursão fora de hora ele deve estar pior ainda.

Ligo pra ele, mas o celular está desligado.

Onde ele pode estar? Lembro- me de algo, ele só pode estar lá.

...

A neve não para de cair, olho pro céu cinzento e a sensação de vazio me enche o peito. O lugar está vazio, tenho evitado vir aqui desde que retornei.

Fixo-me à lapide na minha frente, o cimento frio gravado com as mesmas palavras que sempre me doem quando leio.

“Aqueles a quem amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós. Aqui jaz Lilia Poznanski Yukida, esposa dedicada e mãe amorosa. 1981-2012”.

‘Nunca morrem’, o que isso quer dizer exatamente? É algo que me dava esperança, mas ‘partem antes de nós’ não é algo muito animador.

Sim, ela era uma esposa dedicada e sem duvidas era uma mãe amorosa. Ela era perfeita.

A rosa na minha mão começa a murchar com o frio. Uso meu cosmo e com um único movimento faço toda a neve acumulada se afastar da lapide.

Se eu pudesse teria levado seu corpo pra Sibéria e o congelaria, assim manteria sua beleza em plenitude, e eu poderia encarar sua face como se ela estivesse simplesmente adormecida, e não ter que olhar pro cimento frio inerte. Se eu o fizesse não haveria decomposição, pois o gelo não descongelaria nem um milhão de anos, nem mesmo Camus é capaz de destruir algo que eu construo. Me tornei o cavaleiro do gelo mais poderoso, assim como meus outros amigos, mas de que serve esse titulo? De que adianta tanto poder se em momentos como esse eu posso ter a prova viva da minha total impotência? Não posso trazê-la de volta, sequer posso ter o direito de conserva-la.

Suspiro. Sento no chão de frente pra seu tumulo e coloco a rosa no topo.

─Oi amor. – digo com a voz tremula. ─Faz muito tempo. – digo triste baixando o olhar. ─Sentiu minha falta? – pergunto, mas não há resposta. ─Eu sinto a sua. – minha visão fica embaçada até eu perceber que eram as lagrimas que estão caindo. ─Lamento trazer noticias ruins... seu pai está doente. Eu lamento. – digo como se ela pudesse me ouvir e lamentar comigo. ─Já que você está por aí poderia falar pra ele desistir da ideia de partir? – disso em meio as lagrimas. ─Lembra como ele me intimidava sempre que eu te levava pra sair? – digo sorrindo. ─Parecia o Don Corleone na versão russa. – digo rindo e imagino-a sorrindo também. ─Não quero que ele parta. – digo triste.

Fico um tempo em silencio.

─Miguel já fala frases completas sabia? Ficaria orgulhosa dele. – sorrio. ─Aconteceu tanta coisa... Queria que você estivesse aqui comigo. Deve estar curiosa pra saber como foi minha viagem pro Japão, você sempre quis conhecer não é?

Continuo falando, e falando, contando-lhe tudo, como se conversasse pessoalmente com ela, devo estar ficando maluco. Nem sei quanto tempo fiquei ali, gostaria que ela me desse um sinal, qualquer coisa, mas nada acontecia.

O vento soprava cada vez mais frio, já estava escurecendo, minha respiração já se tornava visível no ar, mas aquele frio não significava nada pra mim.

Algumas árvores próximas deixavam cair o excesso de neve, aquele era o único som que se ouvia além da minha voz.

─Eu conheci uma pessoa. –digo. ─Na verdade eu já conhecia, mas acho que eu o conheci de novo, de um jeito diferente sabe. Acho que gosto dele. – digo nem mais me surpreendendo com aquelas palavras, não adianta continuar a negar.

Espero ansiosamente por uma resposta que não vem.

─Você deve pensar que eu enlouqueci não é mesmo? Afinal ele é um homem. Eu não escolhi sentir o que sinto. Seria tão mais fácil se pudéssemos mandar no coração. – digo e posso até imagina-la perfeitamente, me ouvindo. ─É o Shun, já falei dele milhares de vezes com você... Ele é terno, carinhoso, é adorável, você gostaria dele também... você também tem as mesmas qualidades, mas ao mesmo tempo são tão diferentes... ele tem umas manias estranhas, é distraído a maior parte do tempo, nem deve notar quando eu o observo. Ele sempre cozinha assobiando, mas quando está um pouco pra baixo ele cantarola bem baixinho, quase não dá pra ouvir. Ele adora chocolates, mas sempre come bem devagar pra durar mais tempo, o esquisito é que ele sempre morde em paralelo as duas partes da barra, faz como se fossem chanfros, depois ele come pelo meio formando um U, ele sempre faz isso. É uma mania tão boba, nem sei por que gosto de vê-lo fazendo isso. – digo sorrindo. ─Quando alguma mexa de seu cabelo cai sob os olhos ele sempre afasta o lado direito, nunca o esquerdo, daí ele fica meio torto pra poder enxergar o que quer que esteja fazendo, porque o cabelo do lado esquerdo ainda fica um pouco na frente, normalmente ele faz isso quando está lendo ou digitando, acho que ele tem algum problema de equilíbrio com o lado esquerdo. Ah, ele sempre digita só com os dedos médio e indicador, é estranho, mas não fica lento... Quando ele ouve musica é sempre com os olhos fechados, como se captasse melhor a audição desse jeito... Conheço todos os sorrisos dele, quando está alegre, quando acha alguém idiota, quando tem certeza que a pessoa é idiota, quando acha algo engraçado, quando está sendo sarcástico, quando sorri por educação, quando está envergonhado... quando me olha. – digo sorrindo. ─Os olhos dele têm tons diferentes de verde, às vezes é como esmeralda, outras como jade e outras como menta... Ele morre de medo de assombrações, quando éramos crianças ele sempre vinha correndo pro meu quarto quando tinha alguma tempestade, às vezes o irmão dele tinha que ir buscar ele no meu quarto no meio da noite... Uma coisa em que vocês se parecem é na bagunça, ele também não é lá muito organizado. Ele sempre coça atrás da orelha quando está nervoso ou quando está ansioso. Quando ele era pequeno eu sempre massageava atrás da nuca dele pra fazê-lo dormir. Quando ele está com o Miguel parece que se transforma em uma criança também, faz coisas engraçadas, canta, dança e faz até imitações, presenciei isso vários vezes, mas eu nunca disse isso a ele, provavelmente ficaria envergonhado. A maior parte do tempo ele é calmo, mas há momentos que ele é muito cabeça quente e briguento, se parece um pouco com você nesse quesito... São tantas coisas. Eu não tenho duvidas que gosto dele, Lilia, na verdade eu nunca tive, o que não tenho certeza é se eu o desejo. Não me sinto perdidamente atraído por ele. Não sei, acho que depende muito do momento, das circunstancias, mas confesso que o beijo que trocamos foi... intenso.

Fico e silencio por um tempo.

─É cedo demais pra dar dizer o que realmente sinto por ele, a única coisa certa é que ele é importante, e eu acabei me tornando dependente da presença dele, não posso dizer que é paixão, afinal eu nem tenho certeza ainda se o desejo, e também está longe de dizer que é amor. Afinal eu nem consigo esquecer você, como poderia amar outra pessoa?

─Não sei se você aprovaria... provavelmente não. – digo triste. ─Annia falou que seria uma afronta, que você sentiria nojo de mim, é tão ruim assim? Você sente nojo dessa minha escolha Lilia?

Olho fixamente pra lápide, nada acontece. Olho novamente pro céu.

─Está nevando, do jeito que você gosta. – digo e volto a olhar pra lápide. ─Lembra quando passamos férias em Sochi? Estava nevando assim aquele dia, não estava? – digo levantando o rosto e deixando os flocos de neve tocar minha pele. ─Tentei te ensinar a patinar, mas sua coordenação motora não era das melhores. – digo rindo quando lembro, provavelmente ela ficaria emburrada depois desse comentário. ─Eu ainda te amo tanto. – digo com as lagrimas quentes caindo. ─Atena falhou comigo quando não me devolveu você. – digo amargurado. ─Não posso voltar ao passado, e mesmo que pudesse, nada do que eu fizesse traria você de volta, nada mudaria, por que no final eu sempre perco você. Isso é realmente o destino? Porque o destino é sempre tão cruel comigo?

Fecho os olhos sentindo novamente a neve no meu rosto. Os flocos aderem a minha pele e congelam, sinto uma leve sensação de dormência, mas o frio perde a força com o calor da minha pele e enfim o gelo desaparece. Não sou capaz de congelar a mim mesmo, mesmo que eu queira.

─Você se foi no verão pra que eu não odiasse o inverno, Lilia?

...

Depois de algumas horas insistindo em ligar pro Hyoga, e sem obter sucesso eu resolvi ligar pro Adam e perguntar onde Lilia foi enterrada, Hyoga só pode estar lá.

Cheguei ao cemitério e procurei pelo tumulo. Ele não estava lá, mas havia uma rosa em cima da lapide, ele esteve aqui, não há duvidas. Pra onde pode ter ido agora?

...

Não atendo nenhuma ligação, meu celular tocava sem parar, então eu o desliguei, sei que não vou ter nenhuma noticia do sobre Andrey já que ele ainda está na UTI e só vai sair amanhã.

Sai daquele cemitério pior do que quando cheguei, sem respostas. Confuso e atordoado. Não me sinto assim desde que superei aquela depressão.

Estou jogando tudo pro alto hoje, se é pra me sentir mal, então que seja logo por completo. Paro no primeiro bar que encontro e já peço a primeira garrafa de vodca, só pra começar.

...

Já é noite, ligo incansavelmente pro Hyoga, mas o idiota não atende. Estou muito preocupado. Ando de um lado pro outro na sala imaginando onde ele pode estar.

Mais cedo eu ainda me arrisquei em procura-lo em alguns lugares, mas não conheço nada por aqui e quase acabo me perdendo, desisti antes que acabasse em algum beco perigoso com o Miguel, que alias não para de choramingar e pedir pelo pai.

Coloquei-o pra assistir televisão pra distrai-lo um pouco, mas só surte efeito por pouco tempo e ele logo volta a chorar. Quando finalmente se cansa eu o coloco pra dormir, agora ele só dorme comigo por perto. Acho que substitui temporariamente o papel do Hyoga.

Já são onze horas, ligo pro Adam de novo, mas ainda não há noticias do Hyoga.

─Não se aflija tanto Shun, ele volta, ele sempre volta. – Adam tenta me acalmar.

─Estou preocupado.

─Provavelmente pela manhã ele aparece. Ele deve estar...

─O que?

─Pode estar bebendo. – ele diz suspirando.

─E isso é tão ruim assim?

─Muito.

Droga! Eu vim aqui pra dar meu apoio ao Hyoga, mas vejam só meu belo trabalho, eu tive a proeza de perde-lo, e provavelmente ele deve estar tentando se afundar em uma nova depressão.

...

Tive que pegar um taxi pra chegar em casa, já que o pessoal do bar não quis me deixar dirigir nem com a excelente gorjeta que eu pretendia deixar.

Abri a porta com dificuldade. Nem imagino qual é a hora, mas ouvi de longe o taxista falar que duas horas não é hora pra um pai de família chegar em casa, e ainda por cima bêbado. Mandei ele se danar depois que paguei a corrida, o sujeito foi embora me xingando, é claro, mas quem disse que ele era o primeiro? Que se dane! Ele e o irmão gêmeo dele que estava quase colado nele.

Fui direto pra cozinha e peguei um copo e uma garrafa de vinho que Millo me deu a muito tempo atrás. Vinho francês, não me lembro porque não o tomei a mais tempo.

Subi as escadas com dificuldade, gostaria de saber quem foi o insolente que duplicou a quantidade de degraus da minha casa.

Cheguei no meu quarto, mas achei melhor dar uma olhada no Shun e no Miguel antes, estavam dormindo, melhor assim.

Ia finalmente pro meu quarto, mas ao passar pelo corredor eu percebi aquela porta aberta, logo aquele quarto, não me lembro de ter estado ali desde que cheguei.

Entro e acendo a luz.

─Como vai quarto de tortura? – cumprimento meu ‘amigo quarto’, já não o vejo a muito tempo.

Tudo está no mesmo lugar. Vou enchendo o copo continuamente e tomando boas doses do vinho enquanto caminho devagar entre as caixas, as pilhas de livros e as roupas penduradas em seus cabides nos suportes.

Pego um dos livros em cima da pilha.

─Marian Keyes. – é a autora. ─Melancia. – é o nome do livro.

Abro e procuro pela marca registrada da Lilia, um desenho de cristais de gelo e flores que ela fez na ultima pagina do livro, todos os seus livros tinham algum mínimo desenho feito cuidadosamente por ela, como que pra identificar os seus pertences.

─Se você pudesse teria deixado uma marca em mim também não é mesmo Lilia? – digo, apesar de saber que a marca que ela deixou em mim é bem mais profunda que qualquer desenho que exista.

Deixo o livro de lado e pego um dos vestidos pendurados. Um vermelho, esse chegava até os joelhos, quando ela cruzava as pernas, minha nossa, era um colírio para os olhos. Ela o usou na festa de ano novo que tivemos com o pessoal do hospital. Como sempre estava linda.

Passo as mãos aleatoriamente pelos conjuntos variados de vestidos e cada um me traz uma lembrança diferente.

Vou até a cômoda e pego um dos globos de neve, esse era de Londres, o grande relógio, o Big Bem, estivemos lá em nossa lua de mel.

Em outro globo tinha o Cristo Rei, da Polônia, até hoje me pergunto quem em sã consciência imaginou o Cristo Rei em um globo de neve.

Acho que conheço praticamente todo o oriente, só pelas viagens rápidas de turismo que fizemos em nossa lua de mel.

Lilia esperneou pra irmos à Polônia só pra ver aquela estatua, queria fazer uma oração ali. Mais tarde insistiu fortemente pra que fossemos pro Ocidente pra que ela pudesse ver o tal do Cristo Redentor, num país emergente da América do Sul, numa cidade do Brasil, o Rio de Janeiro, acho que é isso.

Ela era uma grande fiel e com o tempo eu voltei a ser também. Ela queria fazer uma prece lá, dizia que era pra trazer boas coisas pra nossa família. Mas eu não queria ir pra lá de jeito nenhum, primeiro porque é um país tropical, logo era quente demais e eu não sou lá muito fã de temperaturas acima de 17 graus, embora eu ainda quisesse ver as cataratas que também era lá. E segundo que a viagem era longa e cansativa. E terceiro que o idioma de lá é um dos poucos que não sei falar, português, uma das línguas mais difíceis que já me deparei. Então o que diabos eu iria querer por lá?

Não fomos, acho que foi uma das poucas vitorias que tive nessa relação.

E assim seguiam-se vários lugares por onde passamos, em todos ela colocava a data do meu aniversário, disse que todos eram presentes pra mim dos anos que ela não estivesse mais ao meu lado. Tenho que admitir que aquela lembrança era um tanto sombria, que pessoa que se diz normal faz algo do tipo? Apesar de tudo as intenções eram boas.

Peguei um outro globo, embaixo dele tinha o nosso álbum de fotos.

─Oi fonte de lagrimas. – cumprimento meu outro velho amigo.

Pego e me sento no chão de costas pra parede. A garrafa de vinho me acompanha fielmente.

Começo a folhear e me martirizar com lembranças perdidas. Afinal se é pra mergulhar em uma nova depressão então tenho que fazer direito.

...

Acordei no meio da noite com um frio cortante. A casa estava fria, congelante, talvez o aquecedor tivesse quebrado. Cobri mais o Miguel e desci rápido pra verificar, mas estava funcionando normalmente. Estranhei, mas não era hora pra consertar coisas, até porque eu não entendo nada de máquinas.

Olhei pro relógio, já eram duas e meia e nada do Hyoga aparecer. Ligo novamente pra ele, mas o celular continua desligado.

Retorno pro quarto, mas quando passo pelo corredor sinto a corrente de ar frio mais forte vindo do quarto onde o Hyoga guarda as coisas da Lilia, e que inclusive tinha as luzes acesas.

É claro que eu fiquei apavorado, será que era alguma assombração? Já assisti muitos filmes de terror pra saber que nunca se deve entrar no covil da anomalia, mas meu dever aqui é proteger o Miguel, não posso ignorar a ameaça, então mesmo com medo vou ter que verificar a procedência daquele frio.

Desço novamente e pego a vassoura, afinal nunca se sabe à quê os fantasmas são vulneráveis. Entro cautelosamente no quarto com a minha arma engenhosa em punho.

Olho em volta, mas não vejo nada. De súbito ouço um barulho de vidro e me arrepio por inteiro, rapidamente começo a dar golpes no ar com a vassoura. Mas não é nada, é claro que só vou perceber isso depois de cansar o braço.

Quando presto mais atenção percebo as pernas de alguém num canto do quarto, a identidade do individuo permanecia oculta por causa de uma pilha de livros na frente dele.

Será que é algum bandido? Bom, aí já simplifica as coisas. Com uma coisa dessas eu posso lidar.

Me aproximo mais cautelosamente, mas quando estou prestes a aumentar meu cosmo pra atacar vejo a face do intruso, é o Hyoga. Suspiro aliviado.

O frio vinha dele.

─Oi Shun. – ele diz tranquilamente.

─Por Zeus, Hyoga! Tem ideia do susto que me deu? – digo aborrecido.

─Medroso. – ele diz balançando a cabeça.

─Quando você chegou? – digo deixando a vassoura de lado. Percebo o estado dele, está bêbado.

─Sei lá, algumas horas, ou alguns minutos... uma das duas. O importante é que eu cumpri com a promessa, não é? Estou aqui. – ele diz zonzo, está com um álbum de fotografias no colo e um copo cheio na mão com a garrafa de vinho no encalço, não precisa ser um gênio pra perceber que ele não estava nada bem.

─Por onde você andou? – digo, mas já sei a resposta.

─Passeando por bosques verdejantes. – diz sarcástico. Ignoro o comentário.

─E ainda por cima continua bebendo. – o repreendo e pego a garrafa da mão dele.

─Se queria um gole era só pedir. – ele diz indiferente e tomando o que restou no copo.

─Já deu uma olhada no seu estado? – continuo o repreendendo.

Ele suspirou e levantou. Pegou um dos livros que tinha naquela pilha.

─Sabe Shun, Lilia gostava muito de ler, normalmente romance, provavelmente ela iria gostar dos seus livros, esses bem melosos... já ouviu falar de Marian Keyes? Ela adorava os livros dela, tinham uns títulos curiosos, eu achava meio depressivo, mas ela gostava. – ele começa a falar melancólico.

─Hum, já ouvi falar sim. – ele passa por mim e num movimento rápido pega a garrafa da minha mão e volta a encher o copo. Quem diria que mesmo bêbado ele tem bons reflexos.

─Lembro-me que você sempre leu bastante mesmo, ler é bom, você vai pra uma realidade diferente, daí você pode vislumbrar angustias que não são suas. – disse tomando a bebida. Ele estava no ápice da depressão.

─Mas há livros que nos dão alegria também Hyoga, sempre á um lado bom. – busco uma tentativa de anima-lo.

Ele me direcionou um olhar descrente.

─Que bom que pense assim, acho que é esse pensamento positivo que faz a diferença entre você me olhando com essa expressão de lamentação e desprezo e eu aqui enchendo a cara sem dar a mínima pras sua opinião. – ele rebate.

─Não diga isso Hyoga, tudo vai melhorar pra você. – tento me aproximar, mas sempre que ele percebe minha aproximação ele se afasta.

─Jura? Como você sabe? Ahh, lembrei, é porque você prevê o futuro né... ah não, desculpe, é porque você tem pensamentos positivos. Sim, sim, isso sempre ajuda, porque não pensei nisso antes? Deixa eu tentar. – disse colocando as mãos na cabeça como se tentasse pensar. ─Ihh, acho que não tá funcionando. Acho que eu não estou fazendo direito, ou é isso ou não estou emitindo energia positiva suficiente. – sempre que ele fica zangado usa todo seu arsenal de sarcasmo e ironia.

─Para com isso Hyoga. – digo triste.

─Ah, já sei, talvez eu devesse espalhar lírios e girassóis pelo caminho pra alegrar o ambiente pra ficar mais fácil. Lembra mais um campo de flores né... é uma pena que não temos flores aqui. – diz colocando a mão no queixo como se pensasse numa solução pra uma equação difícil.

─Não precisa de nada disso Hyoga.

─Tem certeza? Acho que ajudaria. – diz me olhando.

─Já chega Hyoga.

─Mas já? Eu nem comecei ainda.

─Não precisa ser assim tão negativo. Todos têm seus momentos difíceis Hyoga, você tem que aceitar isso.

─Ah, é mesmo? Engraçado você dizer isso, porque ultimamente eu tô passando por esses momentos de novo, e de novo, e de novo, tem sido assim nos últimos anos, fico vendo todo mundo feliz e satisfeito com suas vidas depois de tantas lutas, eu não deveria estar feliz também?

Fiquei calado.

─Sabe de uma coisa Shun, saudades não mata, ela maltrata, é o pior carrasco que existe, porque a saudade não finaliza nada, ela permanece... permanece sugando tudo que você ainda tem de bom dentro de si, suga suas forças, sua felicidade, sua vontade de seguir em frente e nunca acaba, nunca esvai... eu sinto tanta saudade de Lilia que as vezes finjo que ela ainda está viva, que só está viajando, é a pior das loucuras... uma vez eu fingi que Lilia estava viajando mesmo, uma viagem longa, que voltaria em breve e que eu deveria esperar... – ele parou e engoliu o seco. ─Daí eu fingia que de uma hora pra outra ela retornaria e eu preparava uma boa recepção pra ela, eu tentava preparar um jantar gostoso, embora seja quase impossível já que eu não sei preparar nada. – ele diz dando de ombros. ─, eu me arrumava e fazia uma espécie de decoração pra uma noite romântica e ficava sentado na mesa com cara de idiota esperando alguém que nunca vai chegar... eu sei, você deve me achar um louco, mas eu já fiz isso sim... – tomou outro gole de sua bebida. ─Muitas vezes eu adormecia assim sabe... eu acordava sem entender o que aconteceu na noite anterior, talvez porque minha mente tenha desligado e acreditado fielmente na armadilha que eu mesmo armei pra mim... e lá estava eu, sozinho feito um babaca e ainda com a mesa pronta a espera dela.

─Eu sinto muito Hyoga. – digo triste.

─Há momentos em que as lembranças boas são as piores.

Eu sorri, mas um sorriso triste, ao menos lembranças boas ele tem de sobra e isso não é tão ruim assim.

─É bom você se lembrar desses momentos felizes, mas não pense neles de uma forma que eles possam te machucar Hyoga.

─É fácil falar Amamiya... Dizem por aí que as lágrimas são tentativas desesperadas de mandar a tristeza embora, mas é uma baita de uma mentira, sabe quantas lagrimas eu já derramei pela Lilia? E sabe o quanto de tristeza já foi embora? Não foi embora droga nenhuma, ainda está aqui, estagnada, e não parece que quer ir embora. – disse batendo no peito.

─Mas você tem que deixar ela ir embora Hyoga.

─E você acha que eu não tenho tentado? Acha que eu quero continuar sofrendo?

─Tente mais, seja feliz.

─Bom, eu era feliz, eu tinha uma esposa, um filho e uma casa feliz... sabe aqueles comerciais de planos de saúde? Com aqueles típicos slogans “Cuide de quem você ama”, eu cuidei sabe, cuidei mesmo, mas não funcionou, o que será que eu fiz de errado?

─Foi um caso a parte Hyoga, tinha que acontecer...

─Tinha que acontecer? Como assim tinha que acontecer? Está falando que meus esforços foram em vão? Que minha mulher tinha que morrer pro universo seguir seu curso? Minha mãe teve que morrer, minha esposa também, mas que merda, todo mundo que eu amo tem que morrer? É isso que você está dizendo Shun?

─Eu... Bom...

─Eu a perdi e estou tentando até hoje fazer com que a dor passe... mas essa merda não passa, ela não vai embora. Você disse que tinha que acontecer? Pro inferno com essa droga de pensamento, acredita mesmo que tudo isso tinha que ser assim? O meu destino é ser infeliz? É isso que você está dizendo? Às vezes eu só queria que alguma coisa desse certo nessa minha droga de vida... INFERNO!! – disse furioso atirando o copo contra a parede oposta que se espatifou em mil pedacinhos.

Pairou o silencio mórbido, fiquei pensando se o Miguel teria acordado com o barulho, mas como não ouvimos nada então provavelmente ele ainda estava dormindo.

Vi o Hyoga se virando e colocando a mão no rosto.

Eu me assustei com aquele excesso de fúria, isso nunca tinha acontecido, nunca o tinha visto daquela forma.

Fiquei com um nó na garganta sem saber o que fazer, ele estava ali na minha frente de costas pra mim, e eu estava impotente, acho que nada do que eu dissesse iria amenizar a dor dele. Eu comecei a chorar, já que ele ainda segurava as lagrimas.

Depois de um tempo ele voltou a se sentar no chão, apoiou os braços nos joelhos e permaneceu com a cabeça baixa. Permanecia preso em sua própria tristeza, frustração e raiva.

Quando ele finalmente ouviu pranto, olhou pra mim.

─Porque está chorando?

─Eu sinto muito Hyoga, sinto tanto. – digo aos prantos.

Coloquei as mãos no rosto, tentando inutilmente conter as lagrimas.

Ele me olha por um tempo pra enfim esboçar um mínimo sorriso.

─Continua o mesmo bobo infantil. – ele diz sorrindo.

Me aproximo dele no chão. Repentinamente ele me estende a mão, ainda confuso acabo aceitando, ele ainda estava frio, me puxou pra sentar no chão com ele, e era isso que eu ia fazer, mas do contrario do que imaginei ele baixou os joelhos e me puxou, o que queria que eu fizesse? Ele queria que eu... Ele viu a confusão nos meus olhos e sorriu, acenou positivamente e em um segundo eu estava sentado no colo dele, com uma perna de cada lado da sua cintura. Naquela posição eu ficava um pouco mais alto. Pude ver de cima aquele azul claro com tantas angustias e tristezas acumuladas.

Ele não disse nada, apenas tocou meu rosto e começou a enxugar minhas lagrimas. Aquele gesto só me fez cair em prantos de novo.

─O mesmo bobo infantil. – ele repete sorrindo.

─Eu sinto muito. – repito baixando o olhar, ele está tão perto.

Ele toca meu rosto e me obriga a encara-lo.

─Muitas vezes quando ainda éramos crianças eu acreditei que você era um anjo. – ele comenta.

─Hã?

─E ainda tenho duvidas. – diz começando uma caricia no meu rosto.

─Hyoga o que...

─Sabia que eu já suspeitava da sua opção sexual a muito mais tempo? Por isso não me surpreendi quando você me contou. – ele comenta, mas não espera que eu responda. ─Muitas vezes você correu com medo do escuro e foi a minha procura e eu te acolhi, numa noite você disse em meio ao sonho que me amava. – ele diz ainda sorrindo. Fiquei surpreso com aquilo. ─Eu nunca te contei isso porque achava uma bobagem, só uma frase nova que o pequeno garotinho aprendera, nem eu mesmo entendia nada sobre isso. E afinal você só tinha cinco anos, o que poderia saber sobre o amor? – ele diz balançando a cabeça.

─O tempo foi passando e nos tornamos mais amigos, até que de súbito fomos separados e enviados mundo afora. Achei que tínhamos rompido laços definitivamente, afinal sempre tive duvidas se retornaríamos com as mesmas personalidades após duros anos de treinamento... mas você não mudou, continuou doce, gentil e amável. – ele disse ainda acariciando meu rosto. ─Um amigo é aquele que mesmo não entendendo nada do que você diz, entende tudo que você sente, e você sempre me entendeu Shun, porque afinal de contas eu mal falava... eu sei que você vinha me ver dormir a noite, sentia sua presença, de inicio fiquei desconfiado, mas depois comecei a apreciar suas visitas constantes. Eu ainda não entendia nada, achei que era só mais um gesto maluco. – ele diz rindo. ─O que você não sabe é que muitas vezes você acabava dormindo no meu quarto em meio essas vigílias, e em todas as vezes eu te levava de volta pro seu e você sequer notava.

Uma a uma aquelas informações iam montando um quebra-cabeças. Era difícil de acreditar que fosse o próprio Hyoga que estivesse me dizendo tudo aquilo.

─Inconscientemente você sabia que era eu, sempre dizia meu nome em meio aos sonhos... Mas... eu era tão tolo na época, me forcei a acreditar que todas aquelas provas irrefutáveis eram apenas coisas da minha cabeça, pois ao acordar você nunca tocava no assunto e agia como se nada tivesse acontecido, então eu achei que... se não tinha importância pra você então porque seria pra mim? Mas eu sabia, no fundo eu sabia dos seus sentimentos, mesmo quando você não os admitia pra si mesmo.

─Hyoga, porque você nunca...

─Eu não queria retribuir aos seus sentimentos, é isso... Adoro você Shun, mas nunca antes meus sentimentos por você foram mais que uma mera amizade.

─Até que... – digo esperançoso.

─Até que você voltou a aparecer e bagunçou minha cabeça. – ele diz sério e eu abri um largo sorriso. ─Não faz essa cara. – ele diz aborrecido. ─Como se já não bastasse lidar com um luto interminável eu ainda tenho que ocupar minha mente com você. Isso é culpa sua. – diz irritado.

Meu sorriso só fez crescer.

─Eu ainda a amo. – ele diz baixando o olhar.

Fico sério novamente.

─E sempre vai amar... mas a vida continua, e o seu luto não pode durar pra sempre, as pessoas sempre voltam a amar Hyoga. – digo segurando a mão dele no meu rosto.

Ele volta a me olhar, sempre sério.

─Eu tenho tantas duvidas. – ele diz.

─Então as esqueça. – digo o olhando nos olhos e baixando pros seus lábios.

─É errado. – ele diz com os olhos cheios de angustia.

─Não, não é. – digo me aproximando mais dele oferecendo os lábios e esperando.

Após alguns segundos quieto ele segurou minha nuca e me puxou pra ele enterrando os lábios nos meus.

Enlacei seu pescoço com meus braços e do nada eu já estava praticamente em cima dele e ele abraçava minha cintura. Senti-o flexionar o joelho e me empurrar mais ainda contra ele.

O beijo durou tudo que deveria durar, foi intenso, cheio de carinho e desejo. Era isso que eu queria, depois desse afastamento de dias finalmente consegui.

Ele tinha o gosto do vinho misturado com o seu próprio, e isso só me fez ansiar mais daquela sensação. Suguei seus lábios com necessidade da mesma forma que ele fazia comigo.

Nos separamos e ele sequer estava ofegante, do contrario de mim que respirava com dificuldade.

Me olhou por um tempo e repentinamente me puxou pra um abraço apertado. Afundando o rosto no meu pescoço, inspirando profundamente.

─Seu cheiro é tão bom. – ele comenta com a voz abafada.

Ele suspirou, um suspiro sofrido contra meu pescoço, parecia tão triste de novo, empenhava a mesma necessidade pra me querer e a mesma pra reprimir o que sentia. Sua confusão era mais que obvia.

Ele querer mais de mim, queria que eu o confortasse, queria que eu abrandasse sua dor.

Comecei a afagar os cabelos dele enquanto ele me abraçava, ele me apertou mais ainda, mas não chorava, não derramava lagrima alguma. Por Zeus Hyoga, odeio te ver assim.

─Eu não quero te ver triste assim Hyoga... E muito menos te ver chorar, mas por favor, não se comprima, libere isso... Quero que você saiba que sempre poderá contar comigo, meu colo não será tão reconfortante como o de Lilia, nem meus abraços terão aquele efeito calmante, mas quem sabe eu não sou capaz de te ajudar e fazer essa pressão no seu peito aliviar?

Ele não disse nada, apenas continuou abraçado a mim, parecia tentar reprimir tudo aquilo, cada vez que eu falava mais ele me apertava.

Acho que as lágrimas de piedade só consolam quando é um amigo que as derrama. Então eu as derramei por ele, fiquei triste por ele. Minhas lagrimas recomeçaram a cair e iam de encontro aos cabelos loiros dele abaixo de mim.

─Hyoga, você já me viu rir e já me viu chorar tantas vezes... já meu ofereceu seu ombro e tentou me acalmar desde... desde sempre. Você se importa com aquilo que parece insignificante e sabe que eu também acho isso importante... Eu me sinto mal quando te vejo assim, ainda mais lembrando que você já me consolou tantas vezes... Mesmo que eu possa não conseguir te consolar o suficiente eu vou estar sempre aqui pra tentar te consolar, quero te ver sorrir, e não essa expressão que você faz o tempo todo, tentando convencer as pessoas em volta de que não dói tanto, tem que mostrar o que sente, mostre ao menos pra mim Hyoga.

Ele continuava calado. Suspirei.

─Olha... Se você quiser eu fico até às 6 da manhã te fazendo companhia, pode ser até o dia todo, o tempo necessário, eu seria capaz de fazer tudo pra te ver feliz de novo Hyoga, mas eu preciso da sua ajuda pra isso... fala alguma coisa, por favor.

Ele continuava quieto me abraçando. Desisti, ele não ia falar, não está pronto ainda.

─Desculpe. – ele murmurou depois de um tempo.

─Hã? – fiquei surpreso, ele falou.

─Não quero falar... se eu falar eu... Desculpe. – ele disse com a voz embargada e me apertando mais ainda.

─Tudo bem. – eu disse voltando a acariciar os cabelos dele.

Ele continuou abraçado a mim, acho que ficamos vários minutos ali. Quietos. Se ele não queria liberar aquilo eu não iria força-lo.

Depois de um longo tempo ele separou-se lentamente de mim. Seus olhos não tinham lagrimas, mas demostravam uma imensa tristeza.

Ele acariciou minha cintura, voltou a me olhar.

Minha respiração ficou acelerada de novo, eu estava muito nervoso, enquanto ele ainda parecia um mar de tranquilidade, será que ele não percebia tudo aquilo que estava causando em mim?

Ele me olhou, não com tristeza, mas com uma expressão de tamanha ternura.

Ele levou uma mão no meu rosto e afastou meus cabelos dos olhos. Ele tinha um jeito tão carinhoso, tão protetor, embora fosse ele que precisava de proteção naquele momento.

Depois de um tempo naquela caricia ele segurou minha nuca e novamente me puxou delicadamente pra ele.

Eu estava ofegante, nervoso, mais do que da primeira vez, fui abaixando lentamente e senti a respiração calma dele contra meu rosto, ele me olhava nos olhos, estávamos tão próximos... eu fechei os olhos, esperando. Ele me puxou de vez e novammente nos beijamos, dessa vez mais vagarosamente, ele não tinha pressa alguma.

Do contrario dele, eu sim tinha pressa, queria muito ele, e aquela vagareza toda estava sendo torturante.

Eu forcei meus lábios contra os dele pra mostrar que eu queria mais intensidade. E ele enfim correspondeu e encaixamos melhor nossos lábios, intensificamos o contato até ele insinuar sua língua que eu prontamente aceitei, a boca dele era tão gostosa, céus que gosto bom, tão macia embora ele fosse tão lento, aquele beijo era tudo de bom, era doce, carinhoso, intenso. Quando precisei respirar nos separamos, mas ainda próximos sentindo a respiração um do outro.

Ele olhou em meus olhos de novo e apertou a mão que segurava minha cintura e me puxou pra um novo beijo, mais possessivo, fiquei surpreso pela forma que ele tomava minha boca, ele ficou quente, dominador, começou a agir, e é claro que eu gostei disso.

Ele se mexeu bruscamente ainda em meio ao beijo, levantou-se rapidamente ainda comigo em seu colo e eu rapidamente envolvi sua cintura com minhas pernas. Nem sei como aconteceu, só percebi que ele tinha me levado pro seu quarto quando senti ele me inclinar contra o colchão, ainda em meio ao beijo ele me deitou na cama e ficou sobre mim.

Aquilo estava maravilhoso, sentir o corpo dele sobre o meu parecia surreal, ele passou a beijar meu pescoço a distribuir caricias, sequer estava frio como há alguns minutos, seu corpo agora era quente.

Passou a acariciar minha cintura e levantando minha camisa aos poucos.

Subiu e voltou a me beijar com volúpia, só quando ele encerrou o beijo foi que eu notei que ele começava a ofegar. Olhei em seus olhos e vi o que tanto ansiei ver, eles estavam repletos de desejo.

Nem vi quando ele tirou minha camiseta, só percebi quando ele partiu os beijos pro meu pescoço enquanto suas mãos tateavam meu peito. Sentir as mãos dele na minha pele sem nada pra impedir foi uma nova sensação, estranhamente ele passou as mãos pelo meu peito várias vezes à procura de algo, encerrou um beijo e olhou pro meu peito levantando e subindo rápido, o que há?

─Desculpe. — ele me olhou e sorriu sem jeito. Demorei um segundo pra entender do que ele estava atrás.

Sorri de volta e ele voltou a me beijar. Suas caricias voltaram a ser precisas, ele bem sabia o que estava fazendo. Provavelmente era ele quem sempre fazia todo o trabalho com a Lilia, gostava de dominar, digamos que aquilo foi satisfatório, eu bem gosto quando é assim, principalmente o prazer em ver alguém tão certinho como o Hyoga perder toda a compostura na cama.

Tentei retribuir a todo aquele prazer que ele me proporcionava, mas quando tentei tirar ao menos a camisa que ele tinha por cima ele me impediu e prendeu meus pulsos acima da minha cabeça.

Resmunguei, mas de nada adiantou, será que ele não entende que eu tenho a necessidade de toca-lo também? Ele mesmo decidiu tirar a camisa que estava por cima, com dificuldade já que ele não queria me largar nenhum minuto.

Me beijou diversas vezes, em todas as vezes eu sentia toda a paixão com que ele fazia. Cada gesto, cada toque, tudo era intenso. Sentia minha pele queimar a cada toque ousado que ele dava. Céus, em pensar que eu esperei tanto por isso.

Ficamos nesses amassos por um tempo até ele cessar um beijo de repente pra regularizar a respiração, finalmente, estava quase achando que o folego dele era infinito.

Seus rosto estava corado, os lábios mais vermelhos ainda. Estava tão sexy, mas adorável ao mesmo tempo.

Ele estava ali, eu o tinha em meus braços , só pra mim, era quase impossível de acreditar. Mal podia me aguentar de felicidade.

Eu o olhei e levei minha mão no rosto dele e contornei a boca dele com meus dedos, era tão linda, não acredito que a poucos instantes eu estava com aqueles lindos lábios sob os meus.

Ele ficou sério de repente me olhando estranho, não era mais o olhar terno de antes.

─Seus olhos são verdes. – ele disse parecendo estar estranhando.

─Sim e os seus são azuis. – eu disse puxando ele de novo pra um beijo que não durou muito.

Ele me olhou de novo.

Voltou a beijar meu pescoço, mas senti que ele tinha esfriado, não parecia mais tão ansioso. O que houve? O que eu fiz de errado?

Tentei reatar nossa ligação que estava intensa, mas não parecia adiantar.

Ele parou com os beijos suspirando e rolou pro lado e se sentou na cama frustrado.

─Desculpe. – ele disse sem me olhar.

─Tudo bem. – eu disse triste me sentando e olhando pra ele de costas.

Ficamos em silencio.

─É porque sou um homem? – eu tive que perguntar.

─Não... sou eu, o problema é comigo.

─É por causa dela não é mesmo?

─É.

Fiquei quieto em silencio, mas que droga, porque ele tinha que pensar nela justamente naquela hora?

Por mais que eu quisesse continuar ali eu sei que ele queria ficar sozinho. Eu tinha que ir embora.

Sai da cama e fui procurar minha camisa.

─Aonde você vai? – ele perguntou confuso.

─Deixar você sozinho, não é isso que você quer? – tentei soar menos hostil, mas não consegui, o que ele queria? Que eu continuasse na cama com ele enquanto ele pensava em outra pessoa?

─Não quero que você vá. – ele diz com os olhos que pareciam até suplicantes.

─Não, não sou eu que você quer... não era eu que você via quando me beijava, era ela, por isso que você não me quis mais naquela hora não é? Você tinha percebido que eu não era ela.

Ele ficou quieto.

─É, eu sabia. – eu disse saindo, meu peito doía, as lagrimas já ameaçavam descer.

─Não estou tentando brincar com você Shun, não sou nenhum canalha. – ele disse segurando meu pulso antes que eu saísse.

Eu o olhei descrente.

─Eu quero você Shun... não foi ela que eu vi quando te beijei, eu vi seus olhos... verdes, diferente, algo novo, eram eles que eu queria, era sua boca que eu queria, era você... mas, eu... eu lembrei dela por causa de uma coisa que você fez, não era pra acontecer, eu não tinha que lembrar, você não tinha que fazer aquilo, mas... bom... Aconteceu. Daí todas as lembranças dela vieram em minha mente e eu não consegui continuar. – ele disse desviando do meu olhar.

Fiquei surpreso, o que eu tinha feito pra fazê-lo perder o ânimo?

─O que eu fiz?

─Er... você. – ele ficou vermelho. ─Fez assim. – disse chegando mais perto de mim de novo.

Ele contornou meus lábios com os dedos e depois me olhou nos olhos, percebi que ele estava vermelho.

─Ela... ela fazia isso, sempre fez. – ele disse triste.

─Ah, er... desculpa. – eu disse sem graça.

─Eu queria... Juro que queria, mas... – disse desviando o olhar do meu de novo.

─Entendo.

Ficamos ambos sem graça, ele ainda segurava minha mão.

─Você... você ainda me quer? – eu perguntei sem jeito.

Ele me olhou rapidamente, mas não conseguiu manter por muito tempo, olhou pra baixo, pras nossas mãos juntas, suspirou e soltou a minha.

─Não.

As lagrimas começaram a brotar em meus olhos rapidamente.

─Nunca mais? – eu perguntei ainda fazendo uma força descomunal pra não deixar as lagrimas caírem.

─Eu... – ele ficou relutante em continuar, mas eu entendi... nunca mais.

Eu balancei a cabeça positivamente tentando aceitar aquilo.

─Sabe Hyoga, você tinha razão com tudo que me disse. Anos atrás, quando eu era mais jovem, eu meio que gostava de você Hyoga, agora eu vejo isso, você era meu, só meu. De certa forma isso era tudo pra mim, mas eu não sabia, e não me importava mais com nada porque eu achava que aquilo iria durar pra sempre. Era você que sempre estava ali, sempre foi você, era como brincar de namorados. Mesmo em cada dia que começamos uma briga, cada noite que eu me apaixonei por você ninguém mais poderia me fazer mais triste, mas ninguém podia me levantar tão alto, porque cada momento inesquecível em minha vida, cada sorriso, cada lagrima foi com você ao meu lado. Isso foi naquela época, mas é verdade. Eu não sei o que eu estava fazendo, foi quando, subitamente, nós acabamos... Você se foi. Depois disso nada mais tinha o mesmo gosto, nada tinha cor, sabor e vida, porque você não estava mais comigo, quer saber como eu percebi isso? Foi porque quando eu te reencontrei tudo se renovou e eu voltei a viver. Hoje em dia, eu não posso encontrá-lo e mesmo que eu encontre, nós não teremos um novo começo, porque você não só se afastou de mim como também construiu tudo em sua vida, sem mim, e eu fiquei só, nosso reencontro só me comprovou isso, porque eu vi que você foi feliz, inteiramente, e eu não fui o responsável por isso, e tenho clara certeza que mesmo que eu tivesse percebido esse sentimento antes de você partir e tivesse investido nele, lutado por ele, nada seria diferente, porque afinal você nunca esteve inteiramente feliz ao meu lado. Então, hoje eu vejo tudo claramente, estou apaixonado, sempre estive, o problema é que estou apaixonado por um conto de fadas, mesmo que isso machuque, porque eu não me importo mais se eu perder a cabeça, eu já estou amaldiçoado. Mas isso nunca vai ser real, você nunca foi meu, e nunca será. Mesmo que eu te queira tanto não posso tê-lo porque você não me quer, e isso dói tanto... – digo afastando as lagrimas com as costas das mãos. ─Mas tem uma coisa que eu quero que saiba: eu te amo, de todo meu coração, de toda minha alma, e tenha certeza que eu faria tudo por você, e não preciso provar porque já fiz isso. Nem eu sabia que isso significava tanto, mas quando eu te salvei em libra não era por amizade, era por amor, amor que eu sempre alimentei sem perceber... Te quero tanto, te amo tanto. E agora eu vou provar mais uma vez meu amor por você... Vou deixa-lo ir. Porque é inútil continuar insistindo em algo sem futuro. Adeus Hyoga. – digo olhando atentamente pra em seguida lhe virar as costas pra sempre. ─Eu te amo Hyoga. – digo por fim.

Vou até a porta, e relutantemente pego a maçaneta, não quero ir. Mas que escolha eu tenho, já fiz o que eu podia e de nada adiantou.

─Shun. – ele me chamou de repente, meu coração foi a mil.

Me virei e ele estava próximo de mim, sorrindo.

─Lembra quando eu falei que quando eu fui procurar a antiga casa, onde eu e minha mãe vivíamos, tinha outra família vivendo lá? – ele sorri tranquilamente, apenas aceno concordando, lembro que na ocasião ele não quis falar muito.

─Era a família da Lilia que vivia lá. – ele disse e eu fiquei surpreso. ─Seria coincidência? – ele disse pensativo. ─Sabe Shun, nunca passou pela minha cabeça que passaria por uma tragédia tão mundana como perder uma pessoa querida por causa de uma doença. Eu sabia que era possível, mas eu sempre me imaginei perdendo alguém importante em meio a tragédias, batalhas como as muitas que travamos, mas nunca pensei em doença como opção.

─O que está fazendo? – digo confuso.

─Ué, você não queria que eu falasse dela? Estou falando.

─Sim, mas...

─Você nunca me deixou terminar de falar né... – ele diz balançando a cabeça. ─É claro que eu quero você, eu só ia dizer que não podíamos fazer sexo agora, afinal perdi o animo quando você me fez lembrar da Lilia. – ele diz dando de ombros.

─O-o quê que...

─Não precisa ficar nervoso, estou seguro das minhas palavras agora. O que você estava pensando? Que ia entrar na minha vida do nada, bagunçaria tudo e sairia sem mais nem menos? É claro que eu te desejo seu idiota, acha que eu chegaria tão longe se não desejasse? Você é a primeira pessoa a tempos que eu levo pra cama, você significa mais do que pode imaginar. – ele diz tão calmo agora.

─Eu...

Ele sorriu e balançou a cabeça. Aproximou-se e me puxou delicadamente pela mão. Mesmo sem reação eu o segui enquanto ele me guiava de volta pra cama. Me fez deitar e deitou-se ao meu lado me puxando pro peito dele e começou a acariciar meus cabelos.

Continuou falando.

─Eu conheci a Lilia no segundo dia que cheguei à Rússia, assim que pus os olhos nela soube que era diferente, céus ela era linda, mas acha que foi amor a primeira vista? Por Deus, não chegava nem perto disso, nós nos detestamos a primeira vista. – ele diz rindo.

Ele estava falando, ele finalmente estava falando dela. Olhei pra ele e ele estava de olhos fechados, com as lagrimas caindo sem parar, mas ele não parecia triste, a cada palavra que dizia parecia que a tensão ia diminuindo e esvaindo junto com as lagrimas.

─Você me perguntou uma vez o porque de eu ter escolhido medicina. Ficaria surpreso se eu disser que foi mais uma provocação do que uma escolha minuciosa, mas afinal de contas eu não gostava nem um pouco das outras opções... Lilia gostava da neve, acho que foi porque eu a pedi em casamento num dia assim. – ele diz suspirando. ─Quando ela me contou sobre sua doença eu não quis acreditar que era mesmo verdade, eu quis imaginar que milagrosamente, por um passe de mágica a doença dela desapareceria e eu não teria mais que me preocupar, minha intenção era envelhecer feliz com ela. É como dizem: até que aconteça com você, você verá o fato como algo longínquo e pensando que nunca algo parecido poderia acontecer a alguém próximo ou a você mesmo. Mas todas as recaídas de Lilia estavam ali acontecendo diante de meus olhos pra pouco a pouco me convencer daquela realidade, o trem estava nos trilhos em alta velocidade e eu não poderia para-lo por mais que eu quisesse, por mais que eu rezasse e pedisse pra parar, era inevitável. Muitas vezes Lilia dizia que você não consegue escolher como você vai morrer, ou quando. Você consegue apenas decidir como você vai viver. Agora...

Ele continuou falando incansavelmente, eu apenas ouvia, não me atrevia a interrompê-lo, teve uma hora que ele ficou quieto, olhei pra ele e vi que finalmente tinha adormecido. De alguma forma pressenti que no dia seguinte tudo ia ser diferente.

Notas finais
Troleiiii geral kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Acharam que ia ter lemon XD brincadeira, brincadeira. Esclareci muitas coisas nesse capitulo, mas ainda tem algumas coisas que precisam acontecer, afinal o Hyoga finalmente aceitou o Shun, mas ainda não é capaz de dizer a ele que o ama, e essa história só vai terminar quando ele disser ;) Espero que tenham gostado, estou há dias escrevendo esse capitulo, me deu o maior trabalho ¬¬° Até o próximo, e talvez ultimo capitulo. Bjs. obs: pesquisando qualquer coisa e olha só o que eu achei: lindo lindo lindo. ele tem que ser o Shun. :3 http://www.fanpop.com/clubs/kim-hyun-joong/images/27611786/title/kim-hyun-joong-photo